Pesquisador Deseja Morte Dolorosa ao Bitcoin

O site Slashdot me alerta sobre Nicholas Weaver, pesquisador sênior do International Computer Science Institute dos EUA. Ele argumenta que as criptomoedas são inúteis e destrutivas, e deveriam “morrer em um incêndio”.

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Ele também é professor do departamento de ciência da computação da UC Berkeley e conhecido crítico das criptomoedas. Em uma entrevista recente na revista Current Affairs, ele promulga o que chama de Lei de Ferro de Weaver [sobre a Blockchain] : “quando alguém diz que você pode resolver um problema X com blockchain, essa pessoa [mostra que] não entende o problema X e você pode, portanto, ignorá-la.”

Assim, para aqueles que defendem a criptomoeda como uma solução para “bancar os não-bancáveis”, Weaver aponta para o contra-exemplo do M-Pesa – um sistema de pagamento parecido com o brasileiro Pix – que a Vodafone iniciou no Quênia em 2007, – “na mesma época que o Bitcoin…

Ele tem engolido o Terceiro Mundo. É um fenômeno enorme. Porque basicamente anexa um saldo à sua conta de telefone. De forma que você só precisa enviar uma mensagem de texto para outra pessoa para transferir dinheiro… Então, mesmo com o dispositvo móvel mais básico, você tem acesso a dinheiro eletrônico fácil de usar. Isso tomou conta de vários países e se tornou um enorme sistema primário de pagamento, [enquanto que] a criptomoeda não funciona.

Weaver também afirma que quando as empresas dizem que aceitam pagamentos em Bitcoin, “elas estão mentindo” (usam um serviço que as paga em “dinheiro real” após realizar as conversões na criptomoeda preferida do cliente). Ele acredita que a criptomoeda só tem sido usada seriamente para pagamentos de resgates de sequestro de dados [ransomware] e tráfico de drogas – coisas que as moedas fiduciárias são legalmente obrigadas a bloquear.

A razão pela qual fiquei tão azedo no espaço das criptomoedas é o ransomware. Isso está causando danos de dezenas a centenas de bilhões de dólares à economia global. É um problema que só existe porque as pessoas podem pagar em Bitcoin.

Weaver também acredita que a criptomoeda permite que os capitalistas de risco “tranformem fraudes de valores mobiliários em modelo de negócios”, quando vendem tokens de suas startups para investidores de varejo. Esses seriam produtos financeiros descaradamente não licenciados.

Isso é uma flagrante fraude de títulos, mas não é cometida por pessoas. São apenas as empresas nas quais os investidores participam que cometem a fraude, e a SEC [Securities and Exchange Comission – Comissão de Valores Mobiliários, EUA] não tem monitorado a situação de forma proativa. Eles só aplicam correções às Ofertas Iniciais de Moedas [Initial Coin Offer – ICO] retroativamente, depois que as operações falham… e quando as coisas falham, os únicos a serem processadas são as empresas. Assim, as pessoas que cometem as fraudes conseguem se descolar dos títulos – ficando legalmente inimputáveis, de forma que você não poderá jogá-las na cadeia….

A SEC tem autoridade para impedi-los de forma proativa e não [apenas] reativa. Mas ela opta por não fazer nada. Basicamente, há um medo entre os reguladores – que eu penso que começou nos anos 1980 – de serem acusados de “sufocar a inovação”. [Neste caso, porém] não há inovação para sufocar. Portanto, regule.

Weaver também é cético em relação a outras supostas vantagens da criptomoeda. Ele argumenta que a criptomoeda incentiva o ‘poder verde’ “da mesma forma que tiroteios aleatórios incentivam a venda de coletes à prova de balas“. E mesmo como um veículo de investimento, Weaver vê as criptomoedas como “esquemas de pirâmide auto-criados”.

É preciso continuar a receber novos otários. Assim que o número de otários seca, a moeda entra em colapso. E porque não é soma zero, mas uma soma profundamente negativa, existem muitos mecanismos que podem causar o repentino desmoronamento do valor para zero. Vimos isso outro dia com a stablecoin Terra e o token lateral Luna.

Quando perguntado sobre o futuro da criptomoeda, Weaver prevê que ela “Irá implodir espetacularmente”.

A única questão é quando. Eu achei que já teria implodido um ano atrás. Mas basicamente, o que vimos com Terra e Luna – que entraram em colapso repentinamente devido a esses ciclos de feedbacks positivos descendentes – acontecerá em todo espaço de criptomoedas.

O Washington Nationals [time de basebal da MLB americana] outro dia começou a tuitar freneticamente a propósito de seu relacionamento comercial com a [comunidade de Bitcoin] Terra. Isso foi um negócio de US$ 38 milhões por cinco anos, pagos antecipadamente em dinheiro. Assim, pelos próximos cinco anos, os Washington Nationals estão obrigados a divulgar uma criptomoeda que já falhou espetacularmente.

Minha humilde opinião

Toda a premissa por trás do Bitcoin (e assemelhados) era que ele não poderia ser controlado, regulado ou manipulado por nenhum governo. Foi apresentado como uma espécie de moeda utópica libertária.

Só que isso agora começa a parecer uma miragem. O nome verdadeiro da “liberdade da tirania do governo” é simplesmente evasão fiscal. E não é segredo para ninguém que a anonimidade das criptomoedas é um mito – se o governo realmente quiser, ele tem total capacidade de saber exatamente quem transferiu quanto para quem na Blockchain. Assim, de início a promessa básica das criptomoedas não pode ser cumprida.

Minha razão pessoal para ter sempre acreditado que era insustentável é muito simples: é um sistema que adiciona grandes quantidades de registros a um livro em constante expansão. A capacidade de computação e memória disponíveis são quantidades finitas. A adoção das criptomoedas pelo público geral traria desafios enormes à capacidade de operação dos sistemas computacionais, algo não muito considerado quando o ridículo consumo de energia elétrica do sistema absorve toda a atenção sobre o assunto.

Ressalvo neste ponto que é preciso diferenciar as criptomoedas dos smart contracts. Eu ainda acredito muito que os contratos inteligentes têm um papel a representar na economia do futuro – se é que vamos ultrapassar este momento crítico na história. Por outro lado, mesmo minha avaliação superficial mais básica do funcionamento das criptomoedas sempre me sugeriu que a ideia é basicamente insustentável. Conheço-as desde o primeiro dia.

(*)Atenção jogadores: O Bitcoin ainda tem alguma chance maior que zero de substituir o dólar como moeda de reserva mundial. Se isso acontecer, o valor do bitcoin será todo-o-dinheiro-do-mundo / 21 milhões [o total de Bitcoin que pode existir, dos quais 90% já foram ‘extraídos’]. Uma grana maravilhosa. Portanto, façam suas apostas.

As ‘Notícias’ Não São Boas

Cresci acreditando que acompanhar as “notícias” faz de você um cidadão melhor. Oito anos depois de ter desistido da esgotosfera, essa ideia agora me parece ridícula.

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Estou a falar aqui principalmente sobre acompanhar os noticiários nas TVs comerciais e nas infames redes sociais. Ressalvo que este post não é uma acusação ao jornalismo como um todo. Reconheço que há um grande valor em investir tempo lendo um artigo analítico de 5.000 palavras em uma publicação de alto nível, como por exemplo as excelentes publicações inglesas Unherd, ByLineTimes e suas equivalentes em outros países e línguas, o que eu faço diariamente.

O que descobri nesses anos de exílio das redes sociais é que, se você parar de acompanhar as mídias de baixo nível [Facebook, WhatsApp, CNN, Globo, etc, etc.], mesmo que por apenas um mês, o hábito de consumir notícias vindas desses meios começa a parecer bastante feio e desnecessário, não muito diferente de como um fumante só percebe o cheiro ruim do tabaco quando ele para de fumar.

Nesta postagem uma faço uma pequena lista de algumas coisas que você vai notar se você fizer uma pausa no consumo de lixo informático digital.

A) Alívio na ansiedade

Uma coisa comum que você sente ao desistir da esgotosfera é uma melhora no humor. Seus amigos viciados em smartphones dirão que você é anti social, ou que você enfiou a cabeça na areia. Eles não percebem que o que você pode obter sobre o mundo a partir das “notícias” não chega nem perto de ser uma amostra representativa do que está realmente acontecendo no mundo. Os produtores comerciais de notícias não estão interessados em criar um retrato fiel do mundo. Eles apenas selecionam o que é a) incomum, b) horrível e c) popular. Portanto, a ideia de que você pode ter uma noção significativa do “estado do mundo” assistindo às “notícias” é absurda.

Os editores de jornais populares [isto é, TODOS] exploram nosso viés de negatividade. Evoluímos para prestar atenção ao que é assustador e irritante, mas isso não significa que o medo ou a raiva sejam úteis. Uma vez que você para de assistir, fica óbvio que o objetivo principal das reportagens é agitar e consternar o espectador.

O que aparece no noticiário não é “o portfólio de preocupações da pessoa conscienciosa”. O que aparece é o que vende, e o que vende é o medo e o desprezo por outros grupos de pessoas.

Faça seu próprio portfólio de notícias. Você vai obter melhores informações sobre o mundo de fontes mais profundas – que redigem as noticias, ao invés de “agregá-las”. Noto aqui que, pelos meus padrões, nenhuma publicação brasileira se encaixa nessa matriz [isso inclui o outrora venerável Estadão].

B) Você nunca realiza algo útil assistindo ao noticiário

Se você perguntar a alguém o que eles verdadeiramente realizam assistindo ao noticiário, ou a que conclusões eles chegam, ouvirá noções vagas como: “É nosso dever cívico nos manter informados!” ou “Preciso saber o que está acontecendo no mundo” ou “Não podemos ignorar esses problemas” – nada disso responde ao que foi perguntado.

“Estar informado” soa como uma realização, mas também implica que qualquer informação serve. Para certas pessoas é possível se informar lendo uma tabela de horário de ônibus.

Um mês depois de deixar as “notícias”, você vai perceber que é difícil citar algo útil que foi perdido. Torna-se claro que aqueles anos de acompanhamento das “notícias” não representaram praticamente nada em termos de melhoria na sua qualidade de vida, ou de conhecimentos duradouros, ou sua capacidade de ajudar os outros. E isso sem falar no custo de oportunidade. Imagine se você gastasse o mesmo tempo aprendendo um idioma ou lendo livros e ensaios sobre os mesmos assuntos que eles mencionam nos noticiários.

Você descobrirá que sua abstinência das “notícias” não resultou em eventos políticos piores do que os que já estavam acontecendo, e que coisas como esforços de socorro em desastres ou o combate à fome continuaram sem o seu envolvimento, como sempre. A conclusão é que seu tempo perdido em monitorar o “estado do mundo” na verdade não afetou o mundo e nem mudou nada. Herdamos de algum lugar – talvez da época em que havia apenas uma hora de notícias por dia – a crença de que ter uma consciência superficial das questões mais populares do dia é de alguma forma útil para aqueles mais afetados por elas.

C) Conversas relacionadas a eventos do noticiário = pessoas falando besteiras

Quando você para de fazer o jogo dos produtores comerciais de “notícias” diárias e observa atentamente as pessoas falando sobre os “acontecimentos”, você vai perceber que quase ninguém sabe realmente do que está falando.

Há um abismo extraordinário entre ter uma compreensão funcional de um problema e o olhar superficial que você recebe das mídias populares. Se você se deparar com uma conversa no bebedouro do escritório sobre um assunto que você por acaso conhece muito, você verá as pessoas estão dispostas a falar com ousadia sobre questões sobre as quais nada entendem. Sabemos que é irresistível fazer comentários agressivos e tomar posições duras, mesmo quando estamos errados, e as “notícias” das TVs e do Facebook nos dão a forragem perfeita para isso. Quanto menos você souber sobre um assunto, mais fácil será fazer declarações ousadas sobre ele.

D) Existem maneiras melhores de “ser informado”

Todos nós queremos viver em uma sociedade bem informada. As notícias informam as pessoas, mas quase nunca as informam particularmente bem. Existem muitas fontes de “informação”. A parte de trás do seu frasco de xampu contém “informações”. Em 2022 há muito mais informação por aí do que podemos absorver, então é preciso escolher bem o que merece nosso tempo. As “notícias” fornecem informações em volume quase infinito, mas com profundidade muito limitada, e claramente pretendem nos agitar mais do que nos educar.

Cada minuto gasto consumindo notícias é um minuto em que você fica indisponível para aprender coisas úteis sobre o mundo de outras maneiras. Os brasileiros provavelmente acompanham no Whatsapp e Facebook milhões de horas de cobertura de notícias todos os dias. Isso é uma enorme quantidade de livros não lidos.

Leia três livros sobre um assunto e você saberá mais sobre esse assunto do que 99% do mundo. Se nos preocupamos apenas com a amplitude da informação, e não com a profundidade, não há muita diferença entre “manter-se informado” e “permanecer mal informado”.

E) “Estar preocupado” nos faz sentir como se estivéssemos fazendo algo

As “notícias” são sempre sobre injustiças e catástrofes, e naturalmente nos sentimos desconfortáveis ao ignorar histórias nas quais as pessoas estão sofrendo. Por mais superficiais que os noticiários de TV possam ser, as questões relatadas neles são (geralmente) reais. Muito mais reais do que podem parecer através de uma televisão ou de um smartphone. As pessoas estão sofrendo e morrendo, o tempo todo, e ignorar uma representação desse sofrimento, mesmo uma representação cínica e manipuladora, nos faz sentir culpados.

Então pensamos: “o mínimo que podemos fazer é não ignorar isso”. Então lá estamos nós a assistir à cobertura da tragédia na TV, com os olhos lacrimejantes e com um nó na garganta. Mas o fato é que ficar nesse nível de “preocupação” não vai ajudar ninguém – vai apenas, talvez, aliviar um pouco nossa própria culpa.

E eu me pergunto se há uma espécie de “efeito de substituição” em ação aqui. A sensação, e a falsa crença, de que “pelo menos eu me importo” pode, na verdade, nos impedir de fazer algo concreto para ajudar ou influir nos acontecimentos, porque, ao observar com simpatia, não precisamos confrontar a realidade de que não estamos fazendo absolutamente nada a respeito do que estamos vendo.

Observar os desenvolvimentos de um desastre, mesmo quando não fazemos nada, pelo menos parece um pouco mais compassivo do que desligar. A verdade é que a grande maioria de nós não dará absolutamente nenhuma ajuda às vítimas das atrocidades que acontecem neste mundo, sejam elas televisionadas ou não. E isso é difícil de aceitar em um nível básico de consciência. Mas se pudermos pelo menos mostrar preocupação, neste mundo regido pelas aparências, podemos permanecer não envolvidos sem nos sentirmos não envolvidos.

Esta talvez seja a maior razão pela qual tememos nos desligar das notícias. E também pode ser a melhor razão para fazê-lo.

Uma Preocupação Minha

Embora muitos governos, incluindo os países ricos, tenham reduzido ou parado de coletar e relatar dados sobre o surto global de SARS-CoV-2, o vírus segue feliz em sua história evolutiva.

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As últimas edições são as variantes BA.2, BA.2.12.1, BA4, BA5, e mais uma montanha de X-alguma-coisa (onde X significa ‘recombinante’), todas com taxas de transmissão muito altas, algumas ao redor de 1:25.

Um estudo pré impresso publicado no site Biorxiv, com o título “Anticorpos de Escape BA.2.12.1, BA.4 e BA.5 Induzidos Pela Infecção por Ômicron” [link, em inglês], contém muitos pontos de dados interessantes e preocupantes. É um artigo científico comprido, com 46 páginas e muitos detalhes.

Eu me dei ao trabalho de ler, para que você não precise. O sumário executivo é este:

As novas mutações escapam facilmente aos anticorpos produzidos em infecções anteriores, como também escapam aos anticorpos produzidos pelas vacinas. Isso significa: os anticorpos que você adquire ao se recuperar de um surto de COVID-19 ou de uma injeção de reforço da vacina agora não funcionarão tão bem.

Esta é uma das várias razões pelas quais a China está lutando muito para conter seus surtos de BA2. Entre os problemas, estão a) a baixa taxa de vacinação do segmento mais velho da população [levando a um aumento do excesso de mortes nessa faixa etária] e b) os próprios mecanismos de escape imunológico dessas mutações rápidas do vírus, que causam doenças em massa e com alta taxa de transmissão (1:25). Esses fatores movem-se rapidamente por grandes setores da população.

Além disso, a fase de recuperação da doença não está produzindo uma proteção confiável de anticorpos nas pessoas como se esperava. Esse pressuposto é uma das bases da políticas de “imunidade de rebanho” e das estratégias de convivência com o vírus.

A China já deve estar ciente de alguns desses problemas, pois eles têm encomendado enormes hospitais do tipo “ala Nightingale” [link em inglês, infelizmente] com mais de 400 leitos cada, cuja construção, sob demanda, não leva mais de quatro dias.

Era già tutto previsto

Eu e algumas pessoas de meu círculo – gente que faz estatística profissionalmente – previmos que isso poderia muito bem acontecer. Também previmos que a Big Phama cruzaria os braços, a menos que recebesse mais alguns bilhões de financiamentos de emergência para novas vacinas. Idem com relação à incompetência e/ou má fé de governos, etc.

E assim aconteceu. Temos uma série de cepas muito virulentas que se espalham pelas populações mais rápido que o sarampo, mas até agora não eram tão patogênicas para as pessoas já infectadas ou vacinadas anteriormente.

As probabilidades são de que o próximo inverno no hemisfério norte seja o início de outra pandemia que poderia ser facilmente evitada, e as chances são de maior patogenicidade. Teremos sorte se, de fato, ela não começar aumentar aqui no hemisfério sul em algum momento dos próximos dois meses, em função do inverno.

As marcas da Covid na história serão:

  • Medidas pequenas e tardias
  • Falência de pequenas nações.
  • Mortes aos milhões
  • Incapacitação a longo prazo.
  • Novas doenças
  • Encurtamento da expectativa de vida

Mas também,

  • Abdicação às responsabilidades
  • Populações entregues à exploração rentista
  • Governos cortando pensões e outros benefícios.
  • Nenhuma alteração nas políticas que possibilitaram a pandemia.

Tudo isso levará, quase tão certamente quanto a noite segue o dia, a outra nova pandemia neste século. Espero estar errado.

* * *

Nova postagem no meio da próxima semana. Não poderei ler as postagens dos membros do blog e dos colegas da blogosfera até o dia 17. Saudações a todos e a todas.

Notas Sobre o Twitter e a Liberdade de Expressão

Eu não estava interessado no Twitter antes e não estou agora, mas o comentário gerado pela recente mudança na administração do site é muito interessante, e estarei a acompanhar os desenvolvimentos bem de perto.

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Em primeiro lugar, porque é realmente muito engraçado assistir de fora. Cenário: o Twitter, de longe a mais tóxica de todas as plataformas, está sendo vendido para um empreendedor rebelde e imprevisível e os usuários estão surtando porque têm medo de o “Twitter se tornar tóxico”. Não é uma maravilhosa ironia?

Escusado será dizer que as plataformas sociais não podem ser absolutamente livres para todos: a liberdade de expressão sempre esteve sujeita a limites e Elon Musk não parece questionar isso de forma alguma.

Ele apenas entende que as vozes daqueles que foram considerados “deploráveis”, ou “tóxicos”, ou “inaceitáveis” pela elite atual – ainda que o que eles digam esteja dentro dos limites da lei – também têm o direito de serem ouvidas.

Liberdade de expressão

Em minha filosofia pessoal, o direito de falar/escrever/expressar uma opinião, desde que esteja dentro dos limites da lei, supera o direito de qualquer progressista a um ”espaço virtual seguro”. A liberdade de expressão é muito mais importante do que Harry e Meghan se sentirem ameaçados em sua fachada pública. É deveras preocupante que isso tenha se tornado um assunto controverso.

Uma democracia saudável precisa de um debate indisciplinado e o tipo de restrição à expressão pessoal [não se trata de censura pelo fato de não envolver o estado ou o espaço público real] que parece estar acontecendo no Twitter [expulsar Donald enquanto o Talibã pode manter sua conta] está nos afastando disso. O equilíbrio precisa ser restabelecido de alguma forma.

O problema é que a grande massa historicamente excluída agora dispõe de meios poderosos de auto expressão e comunicação. Todos têm agora algo análogo a uma bomba atômica em uma maleta. Para ser totalmente franco, eu mesmo cheguei a flertar com fantasias Butlerianas. Até recentemente eu acreditava que a democratização da computação e seu poder de amplificação da experiência humana tinha sido um erro, que acabou por gerar uma ameaça existencial para a espécie. A solução, portanto, seria o confisco dessa capacidade e a limitação do poder de computação acessível ao usuário comum.

É fácil ver que a “solução” acarretaria problemas ainda maiores, o que faz as palavras de meu estimado correspondente Clive Robinson se destacarem como um verdadeiro axioma: “problemas sociais não podem ser resolvidos pela tecnologia”. Será preciso firmeza institucional e muita educação pública para que seja possível superar este momento delicado da trajetória humana.

Nota lateral: minha própria orientação política mudou nos últimos anos, de centro-esquerda para centro-direita. Vários são os fatores que causaram isso, mas comentários como os de Hillary Clinton sobre os “deploráveis” [sou hétero] não ajudaram a aumentar minha simpatia. Aquilo cristalizou a hipocrisia absoluta do lado em que eu pensava estar – alegando ser tolerante mas ainda abusando e desrespeitando pessoas que pensam diferente. O Twitter de hoje é simplesmente uma manifestação online da atitude mental a partir da qual comentários como aquele floresceram.

Aspectos pouco discutidos

Uma parte desta aquisição industrial que parece ser ignorada em favor das implicações da guerra cultural são os aspectos financeiros. O Twitter é um negócio viável? Será capaz de gerar um lucro substancial para Musk? Não faço ideia.

A outra parte da história que não foi considerada [pelo menos não que eu tenha visto] é a reação dos funcionários progressistas do Twitter. Li em algum lugar que alguns deles chegaram a chorar quando a notícia da aquisição foi divulgada (sim, eu ri). Mas como eles vão se comportar quando Musk estiver totalmente no controle? Eles vão se demitir em massa? Ou eles vão permanecer na empresa e assim minar sua própria agenda? Elon vai reequipar toda a organização com pessoas de outra matriz ideológica?

Me parece que quando Elon Musk insiste na questão da ‘liberdade de expressão’ o que ele quer dizer realmente é que “o Twitter favoreceu demais a Elite progressista, e eu não vou mais fazer isso”. É possível argumentar que a chamada Elite progressista é servida por verdadeiras ‘guildas’ para impor sua posição de dominância – as guildas, neste caso, sendo instituições como a CNN, a Rede Globo, e as Mídias Sociais, além dos sumos sacerdotes da intelligensia. A compra do Twitter por alguém aparentemente “fora da Elite” tem, portanto, uma desconfortável sensação de deslocamento.

De fato, a atmosfera pública exala, em pleno 2022, uma alarmante fragrância de fin-de-siècle oitocentista.

Da Wikipedia sobre o fin-de-siècle: O principal tema político da época era a revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia liberal. A geração do fin-de-siècle apoiou o emocionalismo, o irracionalismo, o subjetivismo e o vitalismo, enquanto a mentalidade da época via a civilização como estando em uma crise que exigia uma solução massiva e total.

Liberalismo versus coletivismo

Além disso, a própria ideia contemporânea [notadamente nos EUA] de que os marxistas são “liberais” – uma filosofia fantástica que tem sido construída pelas melhores mentes acadêmicas do Ocidente por décadas – é uma falácia. No século passado os marxistas foram perseguidos, cancelados, odiados por causa das coisas horríveis que os marxistas de todo o mundo faziam.

Tanto para revidar quanto para formular um rótulo aceitável para se adaptar ao sistema político [ou mesmo para se esconder], eles inventaram uma “nova filosofia”, na verdade apenas uma regurgitação do marxismo, e a chamaram de “liberalismo progressista” como se fosse simplesmente um novo ramo do estimado liberalismo clássico.

É claro que não era nada disso – e qualquer um que se desse ao trabalho de examinar perceberia rapidamente que era a total antítese do liberalismo. Era coletivismo versus individualismo; governo grande versus governo pequeno; resultados iguais versus oportunidades iguais. E o mais importante de tudo, propagou-se um certo “imperativo moral” de violar os direitos de certas pessoas em nome de um objetivo indefinível de “justiça social” [já ouvimos isso antes?].

Infelizmente, o estratagema funcionou. A rede de professores marxistas em universidades de todos os países começou a alardear o “liberalismo progressista” como o novo eufemismo para o marxismo. Para os de fora, soava como liberalismo. Mas, as coisas sempre desandam quando, por ideologia, a palavra ‘justiça’ aparece na frente da palavra ‘social’. O resultado é sempre a negação do que se pretende: “NÃO Liberalismo” [iliberalismo] e “injustiça”.

Todos os totalitários precisam, para atingir seus objetivos, mentir perpetuamente. Do contrário seria obviamente impossível concordar com os objetivos que eles realmente querem atingir. Até cerca de 2010, havia um equilíbrio entre as pessoas que amavam a liberdade versus aqueles que queriam um governo draconiano em seu alcance social, com as diferenças geralmente sendo nuanças. Hoje, a divisão é quase perfeita – com amantes da liberdade e os progressistas cripto-totalitários em lados claramente opostos.

Vale a pena notar que Milton Friedman e F. A. Hayek, ambos odiados pelos “liberais progressistas” de hoje, que os consideram cães raivosos da direita, se recusaram a desistir do termo “liberal” em favor do termo “conservador”, referindo-se a si mesmos como “liberais clássicos”. F. A. Hayek chegou a escrever um artigo chamado “Por Que Não Sou Conservador” em um esforço para reabilitar o termo, apontando que a raiz etimológica da palavra liberal é liberdade.

Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.