Reflexões sobre ‘AI Art’ no Início de um Ano

O aparecimento de ferramentas muito sofisticadas de redes neurais no fim do ano passado, inaugurou uma crise existencial nas artes e na tecnologia. Proponho começar o ano do blog com esse assunto.

Quadros em uma parede
Imagem: Pexels

Estivemos atentos ao notável desfile de novas ferramentas de Inteligência Artificial apresentadas durante o ano passado.

As novas tecnologias de fato apresentam desafios aos artistas, o que sempre aconteceu. Mas não tenho certeza se o desafio da arte feita com inteligência artificial é tão diferente do desafio da arte feita por primatas ou elefantes. Ambos os casos revelam o problema subjacente de definir a arte em nosso tempo.

Historicamente e transculturalmente, a arte sempre teve muitas definições e serviu a muitas funções. Me parece necessário oferecer um contexto mais amplo para esta discussão, que até agora tem sido um tanto estreita e árida – mas isso é verdade para quase todas as discussões sobre arte em nosso tempo, não apenas para as deste assunto.

A noção atual de arte surgiu após o advento de duas novas tecnologias:

  • (a) fotografia,

que levantou questões sobre continuar a usar métodos mais antigos de imitar a natureza, e

  • b) fotografia reproduzida em massa (incluindo cinematografia),

que levantou questões sobre a singularidade – entendida como convergência de tecnologias – e da inovação como características definidora da arte. Mas é preciso observar que a arte é uma característica universal do gênero humano. Nem toda pessoa produz arte ou se interessa por ela, mas toda sociedade humana se preocupa com ela. Nem todas as sociedades, no entanto, definiram a arte da mesma forma ou atribuíram-lhe as mesmas funções.

O propósito da arte às vezes tem sido codificar simbolicamente e, assim, preservar o conhecimento prático, como quais plantas são comestíveis e quais não são. Ou para sinalizar o status e o poder de potentados. Ou para celebrar os ancestrais (como os totens da América do Norte). Ou, como objetos sacramentais, para mediar o sagrado. Ou para ajudar na meditação. Ou para promover a apreciação da beleza.

A arte segundo diversos povos

Ao contrário dos gregos, os egípcios não valorizavam nem a singularidade nem a inovação em si. Pelo contrário, valorizavam a fidelidade à tradição. Seus estilos artísticos mudaram, lentamente, mas não porque eles sentiram qualquer necessidade de experimentar ou melhorar paradigmas antigos.

Os chineses seguiram esse padrão. Eles também não valorizavam a inovação. Os artistas podiam pintar o mesmo ramo de bambu repetidamente, durante anos, antes de encontrar sua essência. Eles queriam que os artistas descobrissem o eterno Tao na natureza e o transmitissem em termos visuais.

Da mesma forma, os japoneses não restauravam seus templos. Em vez disso, eles continuavam a reconstruir essas estruturas – isto é, a reproduzir os protótipos exatamente da mesma maneira, de novo e de novo.

No Ocidente, os artistas medievais raramente assinavam suas próprias obras. Tampouco estabeleceram a iconografia – tarefa que a Igreja realizou por eles. Até hoje, os cristãos ortodoxos orientais recriam ícones antigos. Eles valorizam artistas que demonstram piedade pessoal acima da ambição pessoal.

No momento, como eu já disse, a arte é definida quase exclusivamente em conexão com a singularidade e a inovação. Os artistas não passam mais fome nos proverbiais sótãos na margem esquerda do Sena, mas tentam conquistar uma imagem pública de figuras de vanguarda na luta contra os “valores burgueses”.

Muitos artistas descrevem seu trabalho em conexão com a reforma ou revolução social e política. Outros artistas, seguindo a tendência contemporânea ao individualismo, usam seu trabalho para se expressar psicologicamente.

Outros tantos artistas usam linguagem científica para descrever seu trabalho, como se estivessem fazendo experimentos para aprender sobre a física da luz ou dos fenômenos ópticos. Nesse contexto, faz sentido questionar se uma obra de arte é original (com valor artístico e financeiro) ou cópia (com pouco ou nenhum valor).

Concluo

Um crescente número de pessoas ligadas à arte parece rejeitar qualquer linha dura de separação entre arte e mero artifício – me ocorre que alguns dos mais hábeis pintores de cavernas também poderiam considerar uma tela de tecido trapaça.

Na minha opinião, as tecnologias emergentes devem ser rotuladas como tal, para que possamos ver o que ela realmente tem ou não, e chegar mais perto de uma avaliação honesta assim que nossa indignação diminuir. Duvido que alguma inteligência artificial possa produzir algo que rivalize com as grandes e eternas obras de arte. Mas se chegar a tanto, que se mantenha-o rotulado como “Produzido por IA” [por favor].

A máquina mais sofisticada em existência não se pode comparar nem remotamente, no sentido verdadeiro, ao ser humano. Há uma diferença categórica. Uma inteligência projetada não cria verdadeiramente seu output, pelo menos não ainda. E se consideramos elementos como “musas”, “inspiração” e coisas do gênero, talvez os grandes artistas também não criem todas as suas obras espontaneamente.

Mas uma pessoa não se safaria levando o crédito pela beleza de uma paisagem selvagem. E um zircônio não pode reivindicar legalmente ser um diamante (mesmo que tenha personalidade). A distinção entre beleza natural, humana e a simulada por máquina permanece significativa – pelo menos por enquanto.

Parece improvável que isso mude completamente, mas se estamos indo em direção a uma completa indistinção entre homem e máquina, eu “exijo” que mantenhamos o controle e coloquemos carimbos de identificação em nossos Senhores Robôs.

Propostas Para um Mundo um Pouco Melhor

Ninguém gosta de mencionar que a raça humana se tornou simplesmente grande demais para ser sustentada pelo planeta.

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É nisso que tem resultado o “progresso tecnológico” na Economia da Vigilância e do rentismo: apenas mais e mais humanos. Para certas elites. a expressão “Crise do Clima” é uma abreviação que elas usam quando querem dizer “humanos em excesso”. E eu diria que, a esse respeito, o Clube de Roma, com sua peroração pelo controle populacional está, a meu ver, provavelmente correto.

Por outro lado, os Clubes em Roma, Londres e Nova York estão cheios de oligarcas que simplesmente detestam a perda de poder e competição que a democracia representa. Eles também sabem que a economia ocidental/americana/dólar está à beira da exaustão e do colapso.

“Sim, podemos” voltar a uma economia do século 18, ou 16, ou 14, mas para fazer isso devemos reduzir a população a um equivalente do século 18. Isso parece agora inevitável e as mentes preocupadas se perguntam se há uma maneira educada de fazer isso. Como desacelerar sem causar caos e destruição em larga escala?

As Elites do mundo parecem desejar ativamente que isso aconteça, e podemos muito bem estar à beira disso. Imagine uma economia e população de estilo medieval, exceto que vigiada e controlada por computadores, em um verdadeiro cenário de pesadelo. E é para onde estamos indo diretamente. Os membros da elite mundial obscenamente rica planejam enfrentar a tempestade na superfície escondendo-se nos luxuosos bunkers subterrâneos que estão a construir febrilmente.

Sair do imobilismo

Os trabalhadores impulsionaram o progresso material até o fim do século 20. Agora são as classes gerenciais que impulsionam o progresso tecnológico e elas são muito bem remuneradas para isso, além de contar com uma ajudazinha do trabalho anônimo dos operadores e técnicos de produção que ganham, quando muito, 50.000 dólares por ano. Poderíamos continuar a manter o mesmo progresso material que tivemos no meio do século 20, se tivéssemos um plano. Mas ninguém o faz.

Aqui está o meu plano. Ele é muito simples, e tem que começar pelos mais jovens porque essa é a única esperança:

  • ensinar as crianças a construir coisas reais: engenharia, arquitetura, carros, motores, estradas, sem prejuízo da Grande Arte e do Ambiente; ensine-as a cozinhar e cultivar alimentos; ensine-lhes economia financeira. Isso leva a:
  • estabelecer um serviço nacional [sei lá como], destinado aos jovens, especialmente alunos de baixo desempenho escolar e social. Este serviço seria o pilar de uma estrutura de estímulo a uma cultura de cooperação, coragem e ousadia, em suma, uma instituição para inflamar os espíritos.
  • reformular os estudos religiosos, bem como os cursos de “educação moral e cívica”, nas escolas estaduais, mudando-os para algo como FPC, filosofia, política e cristianismo – enfim, um bom curso sobre o que realmente importa para nossa civilização.
  • criar envolvimento político obrigatório nas escolas via o que eu [super antigo eu] chamaria de “parlamentos juvenis” [não mais “centros acadêmicos” – por razões que posso explicar nos comentários] e outros campos de aprendizagem para os interessados em política.
  • aperfeiçoar o acrônimo STEM e chamá-lo de STEAM – Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática – afinal entre os séculos 18 e 19, quando STEM nasceu, a máquina a vapor, Beethoven e Goethe ocupavam o mesmo plano na ordem das coisas, correto?
  • tornar os smartphones ilegais para menores de 16 anos.
  • qualquer outra coisa que o senso comum já teria feito há 20 ou 30 anos.

Tenho sido relapso com o Blog, mas isso é passageiro. Tem havido na fila muita coisa para ser processada. Mantenho o mesmo entusiasmo do início e a partir de janeiro vamos ter coisas muito legais para postar. Com nossa entrada – no início tímida, tateando – nos serviços de agricultura de precisão [tradução: DRONES!], teremos muito material de qualidade para valorizar a “experiência” dos amigos leitores. Mal posso esperar.

Desejo a todos um belo Natal. Que em 2023 possamos ter muitos momentos de paz, alegria e amor, e triunfar nos empreendimentos. Boa sorte e saúde!

Volto na segunda semana de Janeiro – ou antes!

ChatGPT, o Grande Ceifador de Carreiras

Eu ainda não experimentei o aterrorizante ChatGPT, que dominou a pauta da mídia tecnológica nos últimos dias – e por um bom motivo.

Imagem: pexels.com

Tenho comentado sobre outros desenvolvimentos igualmente notáveis no campo da pesquisa de redes neurais, tentando acompanhar a sucessão de anúncios de implementações cada vez mais sofisticadas. Contudo, o ChaGPT supera qualquer tecnologia de inteligência artificial discutida aqui por uma ampla margem, com seu enorme potencial para desagregar a sociedade como a conhecemos.

Experimentos

Talvez do interesse de alguns leitores do blog. Um amigo que trabalha em um grupo de desenvolvedores de software excepcionalmente brilhantes e talentosos (chamarei de “Grupo”), me contou que passou algum tempo fazendo experimentos com o ChatGPT (chamarei de “Bot”).

Caso A

Eles pré-selecionaram um determinado grupo de candidatos a emprego em sua empresa com uma série de desafios de programação. Isso é procedimento padrão em empresas de tecnologia nos EUA, onde os experimentos aconteceram.

Bot passou nos testes com honras. Concluíram que a menos que haja um temporizador de digitação no sistema, não é possível distinguir os candidatos humanos dos bots.

Claro, alguém já deve ter um simulador de digitação humana para camuflar o copiar-colar do Bot.

Caso B

O empregador do Grupo tem uma equipe de desenvolvedores dedicada à manutenção de software legado, ou mesmo “morto”. O Grupo alimentou o Bot com módulos reais de algumas aplicações da empresa, configurando os prompts para certas ações literais (“modificar para…”) a serem executadas nos códigos de baixo desempenho.

O Bot executou atualizações do software e fez correções nas falhas.

Caso C

Alguém do Grupo solicitou ao Bot o código de uma função para realizar uma determinada computação. Embora a função necessária não seja muito complexa, ela requer um conhecimento altamente específico do domínio.

Depois de várias tentativas, o Grupo conseguiu que o Bot escrevesse a função correta, usando prompts apenas para orientação, sem revelar à máquina o necessário saber para escrever a função.


A opinião do meu amigo é que, para muitas tarefas básicas na codificação de software, pedir ao Bot para escrever uma função para um humano depois corrigi-la ou ampliá-la conforme necessário vai, em breve, fazer parte de qualquer processo eficiente de desenvolvimento de software — e será inevitavelmente incorporada ao fluxo de trabalho de praticamente todas as atividades do setor de serviços.

Separadamente, meu amigo gosta de escrever ficção. Ele deu ao Bot uma passagem, pedindo-lhe que a reescrevesse “no estilo de” vários autores publicados.

Depois de completada a tarefa, ele olhou para as versões e julgou que algumas das mudanças melhoraram o fluxo ou a expressividade do texto de uma forma que ele mesmo não havia considerado.

Ele descreve o Bot como “uma tecnologia altamente disruptiva”. “Se pensarmos que isso não vai mudar – ou até extinguir – nossas carreiras, podemos nos surpreender.”

Se você pode ler isto, você é a Resistência

De agora em diante, temos que tratar tudo o que vemos na Internet como potencial lixo de IA. A galeria de fotos de um artista? A resposta que parece perfeita no StackOverflow? Aquele artigo inspirador no jornal? Aquele videozinho viral? O livro na Amazon? Eles são todos lixo de IA em potencial. Lixo fascinante, mas lixo mesmo assim.

A invasão dos robôs começou há 15 anos, na maior parte despercebida. Estávamos esperando robôs assassinos, mas não percebemos que lentamente afogávamos em lixo midiático gerado por IA. Nunca lutaremos contra Exterminadores usando laser. Em vez disso, nos sujeitamos diariamente a algoritmos que nos tornam estúpidos o suficiente para lutar uns contra os outros.

Talvez seja a hora de entrar para a resistência; de ser e agir como seres humanos decentes. Desconectar. Ir para fora. Iniciar discussões humanas. Recusar a tomar como certo “o que foi postado na Internet”. Encontrar pessoas. Toque. Cheiro. Construir negócios locais. Fugir dos monopólios. Recusar-se a compartilhar por impulso. Parar de chamar perfis de desconhecidos “comunidade”. Juntar-se a web rings e à blogosfera humana – enquanto ainda se pode distinguir. Acho.

Como reconhecer verdadeiras comunidades humanas livres de interferências algorítmicas?

Não sei. Eu nem sei se sobrou alguma. Isso é assustador. Mas, enquanto pudermos desligar o plugue, podemos resistir. Desconectar!

A Promessa de Descentralização e Empoderamento da ‘Web 3.0’

Web 3.0 é o que Sir Tim Berners-Lee e o W3C, apoiados por empresas como o Google, querem que o futuro seja.

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Alguma definição

Segundo a Forbes

…é um desafio definir precisamente a Web 3.0. Para desenvolvedores e entusiastas de criptomoedas, a Web 3.0 incorpora as tecnologias e conceitos que estão no centro das criptomoedas: descentralização, economia baseada em tokens e blockchain.

A descentralização significa que os usuários podem realizar transações ponto a ponto, eliminando intermediários e removendo o poder das entidades controladoras. Há um maior foco na privacidade, transparência e poder do usuário.

Aqui é onde a tecnologia blockchain e a criptomoeda entram na equação. As criptomoedas e a economia de tokens facilitam esse modelo de descentralização, permitindo que as informações sejam armazenadas em um livro-razão distribuído fora do âmbito de qualquer entidade controladora.

Um cheiro de peixe no ar

O fato de o Google – o maior centralizador do mundo, que sempre esteve a dirigir as coisas nas versões anteriores da Web – participar dos grupos de trabalho da Web 3.0, já levanta suspeitas desconfortáveis quanto à sua influência nesse processo.

A expressão Web 3.0 foi supostamente cunhada há quase uma década por um dos gurus da blockchain, e está cheia de exageros e mistificações, como tudo nestes tempos correntes. Todos nós já deveríamos saber que blockchain é um desastre e criptomoedas/cripto-tokens estão rapidamente se tornando “más notícias” até no mercado de camisetas de segunda mão.

Infelizmente, assim como nos primeiros dias de Blockchain e Bitcoin, os jornalistas – que geralmente sabem pouco ou nada de computação ou criptografia – estão viajando na ‘vibe‘ de gente de fala mansa e sorrisos sedutores, a malhar na Internet uma utopia futura que levará todas as pessoas ao nirvana.

Nos encontros que tenho na vida diária, eu percebo que meus comentários sobre certos vigaristas e embusteiros da Web 3.0 não são muito populares em certos círculos. Em minha defesa digo que meus pontos de vista não são únicos e são compartilhados uma legião de gurus igualmente sorridentes a dizer isso a um grande público nos tubes da vida.

Nem todos serão permitidos entrar na utopia

A razão é que somos todos basicamente preguiçosos e não queremos assumir responsabilidades.

Como em todo empreendimento ocidental moderno, não importa o que seja, se houver o mais leve odor de status, dinheiro ou poder no ar ao redor, toda uma uma hierarquia de controle espontaneamente se desenvolve, com poder, dinheiro e status sendo acumulados no topo, sugados daqueles na base.

Quando você olha para a Web 1.0 no século passado, os sites eram estáticos e descentralizados, mas impossíveis de encontrar, exceto por acaso. Surgiu então a ideia da indexação e duas coisas aconteceram:

  • as coisas tenderam a se centralizar.
  • os primeiros a comercializar dominaram o mercado.

No início dos anos 2000 a Web 2.0 trouxe outro enfoque. Os usuários se tornaram consumidores insaciáveis, embora ainda criassem algum conteúdo. Os novos comportamentos tiveram o efeito colateral de propiciar uma cultura de roubo maciço de informações pessoais e propaganda enganosa cada vez mais agressiva. As estruturas de poder e controle social ganharam uma dimensão e uma centralização cada vez maiores, à medida que as “mídias sociais” apareciam. O preço que pagamos no final foi a fratura da sociedade e o alastramento da ignorância e superstição.

R.I.P.

A Web 2.0 agora está morrendo, pois a propaganda enganosa não está mais a gerar lucro suficiente no ambiente de extrema ganância; ela não está trazendo as recompensas prometidas e os investidores, depois de mais de uma década, ainda não estão vendo nenhum dinheiro real retornando. Sua riqueza foi tomada e embolsada por muitos.

Assim, algum tipo de Web 3.0 aparecerá. Queremos que ela seja utópica e igualitária, mas os donos do poder conhecem nossa índole. Eles sabem que não estamos preparados para assumir a responsabilidade para que o sistema seja mesmo igualitário.

Portanto, espere muitos golpistas criando novas bolhas para os investidores despejarem dinheiro como em um ralo no oceano. Ao mesmo tempo, espere um novo tipo de agregação de dados e controle social mais profundo e pirâmides ainda maiores de status, poder e dinheiro.


Adendo – “Xxxxx é o ópio do Povo.”

Em seu tempo, esse dito [de Karl Marx, sorry] era verdadeiro até certo ponto, mas ele adquiriu muitos outros sentidos desde então. Um deles – mais ou menos uma década atrás – é “Reality TV é o ópio do Povo”. Mais recentemente, e com mais verdade, “Rede Social é o ópio do Povo”.

Observar as redes sociais hoje nos dá uma pista de como será a Web 3.0 se aqueles no topo da hierarquia tiverem carta branca para fazer o que querem. Ela será projetada nas melhores tradições orwellianas para nos transformar não em escravos espancados, mas algo pior: servos estúpidos completamente controlados.

Aqueles que constroem essas hierarquias – oligarquias tecnológicas como Google, Apple, Amazon – não querem que você tenha bens; tudo será para alugar [você já deve ter percebido que não tem controle total sobre certas coisas que você imagina ser de sua propriedade, ex. Smartphone]. Será então a era da economia rentista. Tudo o que você vai fazer é pagar, pagar e pagar de novo à medida que vive; um inquilino em todos os sentidos. Como você não terá ativos, a realidade da inflação será usada contra você.

O aluguel que você paga irá para o topo da pirâmide, onde será convertido em ativos que somente eles poderão possuir. Você descobrirá que, à medida que seu salário aumenta, a inflação garantirá que esse aumento não tenha nenhum efeito material em sua vida. Não importa quanto você ganhe, o aluguel sempre vai te separar do seu dinheiro. Você será deliberadamente mantido pobre e dependente, e portanto controlado. Se você tiver bens, eles serão retirados de você “por meios legais” e, se você resistir, será levado à ruína por custas judiciais ou despesas médicas.

O mundo ficará estagnado à medida que o progresso se tornar quase impossível. Esse é o sonho utópico deles, que eles tentarão de todas as formas forçar sobre nós como um pesadelo vivo, a menos que

acordemos, assumamos a responsabilidade e paremos de ir como sonâmbulos em direção à armadilha

Tem que ser você e eu, e não eles, quem deve assumir a responsabilidade pela Web 3.0.

Segurança: Uma Linha Fina Entre a Vida e o Caos

Um episódio da história da aeronáutica – e da guerra – ilustra de uma maneira muito gráfica a curtíssima distância entre o yin e o yang.

Boeng B-17 – Imagem: Wikimedia Commons

Na Segunda Guerra Mundial, o Boeing B-17 Flying Fortress foi o bombardeiro padrão dos EUA. Como seria de esperar, muitos deles foram perdidos durante o combate, mas muitos também foram perdidos depois de completada a missão, ao pousar de volta à base. Culpa dos pilotos, clamavam uns. Culpa da formação, clamavam outros. Culpa da manutenção, diziam outros mais. Até a qualidade das pistas recebeu seu quinhão de culpa. Mas nenhuma hipótese era suportada por qualquer tipo de evidência.

Depois da guerra, finalmente tiveram tempo de fazer uma nova investigação para tentar entender o que realmente tinha acontecido.

A linha fina

Imagine que você esteve a participar de um bombardeio estressante por doze horas. Você está cansado. Está escuro. Está chovendo e você está na aproximação final da sua base. Você estende a mão para acionar o interruptor que engata o trem de pouso e, de repente, com uma guinada brusca, sua aeronave estola e bate no chão, matando todos a bordo. Esta imagem do painel de instrumentos do cockpit do B-17 mostra o que o piloto estaria vendo nesse momento:

Painel de instrumentos do B-17

Não há quantidade de treinamento no mundo que possa compensar essa falha de design. Não há nada para impedir que o erro mais banal se transforme em uma catástrofe. O interruptor ‘pouso tranquilo’ (opera o trem de pouso) e o interruptor ‘morte horrível’ (opera os flaps) são muito próximos um do outro, e idênticos.

“Culpar os usuários por não serem capazes de operar com segurança um projeto terrivelmente mal desenhado.” Já ouvimos isso antes.

Essa investigação levou a algo chamado “codificação de forma” que persiste até hoje como uma linguagem de design. A maioria das aeronaves modernas acionam o trem de pouso através de uma alavanca com um pequeno ressalto em forma de roda na extremidade; quando você toca na alavanca, você sabe o que está segurando. O controle dos flaps é hoje um grande tarugo quadrado e – adivinhe – eles não estão próximos um do outro. O mundo aeronáutico aprende com seus erros.

Alavancas para trem de pouso e flaps, depois de revisadas.

Aplicar o exemplo na cultura digital

Na segurança cibernética, criamos soluções sofisticadas para problemas incrivelmente difíceis, gerenciamos riscos capazes de dar nó no estômago de um camelo e levamos os computadores a fazer coisas que ninguém pensava ser possível (ou mesmo desejável). Mas também continuamos a fazer exigências ridículas aos usuários: faça isso, não faça aquilo, não clique em links, repeite a política de senhas…

Fornecemos aos usuários alavancas mal projetadas. Esperamos que implementações de tecnologia arbitrariamente complexas sejam perfeitas e livres de vulnerabilidades a longo prazo. Ao mesmo assumimos uma postura crítica quando o software que recebemos sem custo da comunidade open-source falha ao sofrer um ataque organizado por um estado-nação como a Rússia.

Aqui há uma dissonância cognitiva interessante, mas não encontrei uma maneira de identificar quais são nossas falsas expectativas tecnológicas; quando estamos a exigir da tecnologia coisas idiotas. O mais próximo que eu chego disso é tentar determinar onde está o ônus da segurança e se é razoável pedir à parte interessada que o assuma.

É razoável pedir a uma empresa de dez pessoas que se defenda dos russos?

Não.

É razoável pedir a uma empresa de infraestrutura crítica que não conecte seus sistemas sensíveis à Internet com a senha ‘Senh@01-08-2002‘?

Com mil demồnios, claro que é!

É preciso trazer para a o design de UI (interfaces gráficas), uma área particularmente sensível ás questões de segurança, conceitos equivalentes à citada codificação de forma – como a usada nas outras engenharias – no desenvolvimento de sistemas digitais seguros. O caminho crítico para tornar a segurança cibernética escalável a longo prazo é colocar as várias responsabilidades de segurança nos lugares certos e incentivar adequadamente as pessoas que precisam gerenciar essas responsabilidades. Às vezes, a pessoa óbvia para gerenciar o ônus da segurança não será a pessoa ideal para o cargo. É preciso então mudar as coisas para que elas sejam melhor dimensionadas e se adaptem ao ambiente.

Sendo uma atividade humana, o campo da segurança cibernética também sofre muito com o pensamento de manada, apego ao passado e argumentos de autoridade. Então, deixo aqui uma ideia – ou apelo. A comunidade de segurança cibernética deve:

  • conversar com pessoas não-técnicas e realmente ouvi-las
  • construir coisas que funcionem para a maioria das pessoas, na maioria das vezes
  • se colocar no lugar dos usuários
  • perguntar se realmente estamos sendo sensatos em nossas expectativas quanto ao comportamento do usuário

Ainda não chegamos a isso.