As ‘Notícias’ Não São Boas

Cresci acreditando que acompanhar as “notícias” faz de você um cidadão melhor. Oito anos depois de ter desistido da esgotosfera, essa ideia agora me parece ridícula.

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Estou a falar aqui principalmente sobre acompanhar os noticiários nas TVs comerciais e nas infames redes sociais. Ressalvo que este post não é uma acusação ao jornalismo como um todo. Reconheço que há um grande valor em investir tempo lendo um artigo analítico de 5.000 palavras em uma publicação de alto nível, como por exemplo as excelentes publicações inglesas Unherd, ByLineTimes e suas equivalentes em outros países e línguas, o que eu faço diariamente.

O que descobri nesses anos de exílio das redes sociais é que, se você parar de acompanhar as mídias de baixo nível [Facebook, WhatsApp, CNN, Globo, etc, etc.], mesmo que por apenas um mês, o hábito de consumir notícias vindas desses meios começa a parecer bastante feio e desnecessário, não muito diferente de como um fumante só percebe o cheiro ruim do tabaco quando ele para de fumar.

Nesta postagem uma faço uma pequena lista de algumas coisas que você vai notar se você fizer uma pausa no consumo de lixo informático digital.

A) Alívio na ansiedade

Uma coisa comum que você sente ao desistir da esgotosfera é uma melhora no humor. Seus amigos viciados em smartphones dirão que você é anti social, ou que você enfiou a cabeça na areia. Eles não percebem que o que você pode obter sobre o mundo a partir das “notícias” não chega nem perto de ser uma amostra representativa do que está realmente acontecendo no mundo. Os produtores comerciais de notícias não estão interessados em criar um retrato fiel do mundo. Eles apenas selecionam o que é a) incomum, b) horrível e c) popular. Portanto, a ideia de que você pode ter uma noção significativa do “estado do mundo” assistindo às “notícias” é absurda.

Os editores de jornais populares [isto é, TODOS] exploram nosso viés de negatividade. Evoluímos para prestar atenção ao que é assustador e irritante, mas isso não significa que o medo ou a raiva sejam úteis. Uma vez que você para de assistir, fica óbvio que o objetivo principal das reportagens é agitar e consternar o espectador.

O que aparece no noticiário não é “o portfólio de preocupações da pessoa conscienciosa”. O que aparece é o que vende, e o que vende é o medo e o desprezo por outros grupos de pessoas.

Faça seu próprio portfólio de notícias. Você vai obter melhores informações sobre o mundo de fontes mais profundas – que redigem as noticias, ao invés de “agregá-las”. Noto aqui que, pelos meus padrões, nenhuma publicação brasileira se encaixa nessa matriz [isso inclui o outrora venerável Estadão].

B) Você nunca realiza algo útil assistindo ao noticiário

Se você perguntar a alguém o que eles verdadeiramente realizam assistindo ao noticiário, ou a que conclusões eles chegam, ouvirá noções vagas como: “É nosso dever cívico nos manter informados!” ou “Preciso saber o que está acontecendo no mundo” ou “Não podemos ignorar esses problemas” – nada disso responde ao que foi perguntado.

“Estar informado” soa como uma realização, mas também implica que qualquer informação serve. Para certas pessoas é possível se informar lendo uma tabela de horário de ônibus.

Um mês depois de deixar as “notícias”, você vai perceber que é difícil citar algo útil que foi perdido. Torna-se claro que aqueles anos de acompanhamento das “notícias” não representaram praticamente nada em termos de melhoria na sua qualidade de vida, ou de conhecimentos duradouros, ou sua capacidade de ajudar os outros. E isso sem falar no custo de oportunidade. Imagine se você gastasse o mesmo tempo aprendendo um idioma ou lendo livros e ensaios sobre os mesmos assuntos que eles mencionam nos noticiários.

Você descobrirá que sua abstinência das “notícias” não resultou em eventos políticos piores do que os que já estavam acontecendo, e que coisas como esforços de socorro em desastres ou o combate à fome continuaram sem o seu envolvimento, como sempre. A conclusão é que seu tempo perdido em monitorar o “estado do mundo” na verdade não afetou o mundo e nem mudou nada. Herdamos de algum lugar – talvez da época em que havia apenas uma hora de notícias por dia – a crença de que ter uma consciência superficial das questões mais populares do dia é de alguma forma útil para aqueles mais afetados por elas.

C) Conversas relacionadas a eventos do noticiário = pessoas falando besteiras

Quando você para de fazer o jogo dos produtores comerciais de “notícias” diárias e observa atentamente as pessoas falando sobre os “acontecimentos”, você vai perceber que quase ninguém sabe realmente do que está falando.

Há um abismo extraordinário entre ter uma compreensão funcional de um problema e o olhar superficial que você recebe das mídias populares. Se você se deparar com uma conversa no bebedouro do escritório sobre um assunto que você por acaso conhece muito, você verá as pessoas estão dispostas a falar com ousadia sobre questões sobre as quais nada entendem. Sabemos que é irresistível fazer comentários agressivos e tomar posições duras, mesmo quando estamos errados, e as “notícias” das TVs e do Facebook nos dão a forragem perfeita para isso. Quanto menos você souber sobre um assunto, mais fácil será fazer declarações ousadas sobre ele.

D) Existem maneiras melhores de “ser informado”

Todos nós queremos viver em uma sociedade bem informada. As notícias informam as pessoas, mas quase nunca as informam particularmente bem. Existem muitas fontes de “informação”. A parte de trás do seu frasco de xampu contém “informações”. Em 2022 há muito mais informação por aí do que podemos absorver, então é preciso escolher bem o que merece nosso tempo. As “notícias” fornecem informações em volume quase infinito, mas com profundidade muito limitada, e claramente pretendem nos agitar mais do que nos educar.

Cada minuto gasto consumindo notícias é um minuto em que você fica indisponível para aprender coisas úteis sobre o mundo de outras maneiras. Os brasileiros provavelmente acompanham no Whatsapp e Facebook milhões de horas de cobertura de notícias todos os dias. Isso é uma enorme quantidade de livros não lidos.

Leia três livros sobre um assunto e você saberá mais sobre esse assunto do que 99% do mundo. Se nos preocupamos apenas com a amplitude da informação, e não com a profundidade, não há muita diferença entre “manter-se informado” e “permanecer mal informado”.

E) “Estar preocupado” nos faz sentir como se estivéssemos fazendo algo

As “notícias” são sempre sobre injustiças e catástrofes, e naturalmente nos sentimos desconfortáveis ao ignorar histórias nas quais as pessoas estão sofrendo. Por mais superficiais que os noticiários de TV possam ser, as questões relatadas neles são (geralmente) reais. Muito mais reais do que podem parecer através de uma televisão ou de um smartphone. As pessoas estão sofrendo e morrendo, o tempo todo, e ignorar uma representação desse sofrimento, mesmo uma representação cínica e manipuladora, nos faz sentir culpados.

Então pensamos: “o mínimo que podemos fazer é não ignorar isso”. Então lá estamos nós a assistir à cobertura da tragédia na TV, com os olhos lacrimejantes e com um nó na garganta. Mas o fato é que ficar nesse nível de “preocupação” não vai ajudar ninguém – vai apenas, talvez, aliviar um pouco nossa própria culpa.

E eu me pergunto se há uma espécie de “efeito de substituição” em ação aqui. A sensação, e a falsa crença, de que “pelo menos eu me importo” pode, na verdade, nos impedir de fazer algo concreto para ajudar ou influir nos acontecimentos, porque, ao observar com simpatia, não precisamos confrontar a realidade de que não estamos fazendo absolutamente nada a respeito do que estamos vendo.

Observar os desenvolvimentos de um desastre, mesmo quando não fazemos nada, pelo menos parece um pouco mais compassivo do que desligar. A verdade é que a grande maioria de nós não dará absolutamente nenhuma ajuda às vítimas das atrocidades que acontecem neste mundo, sejam elas televisionadas ou não. E isso é difícil de aceitar em um nível básico de consciência. Mas se pudermos pelo menos mostrar preocupação, neste mundo regido pelas aparências, podemos permanecer não envolvidos sem nos sentirmos não envolvidos.

Esta talvez seja a maior razão pela qual tememos nos desligar das notícias. E também pode ser a melhor razão para fazê-lo.

Notas Sobre o Twitter e a Liberdade de Expressão

Eu não estava interessado no Twitter antes e não estou agora, mas o comentário gerado pela recente mudança na administração do site é muito interessante, e estarei a acompanhar os desenvolvimentos bem de perto.

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Em primeiro lugar, porque é realmente muito engraçado assistir de fora. Cenário: o Twitter, de longe a mais tóxica de todas as plataformas, está sendo vendido para um empreendedor rebelde e imprevisível e os usuários estão surtando porque têm medo de o “Twitter se tornar tóxico”. Não é uma maravilhosa ironia?

Escusado será dizer que as plataformas sociais não podem ser absolutamente livres para todos: a liberdade de expressão sempre esteve sujeita a limites e Elon Musk não parece questionar isso de forma alguma.

Ele apenas entende que as vozes daqueles que foram considerados “deploráveis”, ou “tóxicos”, ou “inaceitáveis” pela elite atual – ainda que o que eles digam esteja dentro dos limites da lei – também têm o direito de serem ouvidas.

Liberdade de expressão

Em minha filosofia pessoal, o direito de falar/escrever/expressar uma opinião, desde que esteja dentro dos limites da lei, supera o direito de qualquer progressista a um ”espaço virtual seguro”. A liberdade de expressão é muito mais importante do que Harry e Meghan se sentirem ameaçados em sua fachada pública. É deveras preocupante que isso tenha se tornado um assunto controverso.

Uma democracia saudável precisa de um debate indisciplinado e o tipo de restrição à expressão pessoal [não se trata de censura pelo fato de não envolver o estado ou o espaço público real] que parece estar acontecendo no Twitter [expulsar Donald enquanto o Talibã pode manter sua conta] está nos afastando disso. O equilíbrio precisa ser restabelecido de alguma forma.

O problema é que a grande massa historicamente excluída agora dispõe de meios poderosos de auto expressão e comunicação. Todos têm agora algo análogo a uma bomba atômica em uma maleta. Para ser totalmente franco, eu mesmo cheguei a flertar com fantasias Butlerianas. Até recentemente eu acreditava que a democratização da computação e seu poder de amplificação da experiência humana tinha sido um erro, que acabou por gerar uma ameaça existencial para a espécie. A solução, portanto, seria o confisco dessa capacidade e a limitação do poder de computação acessível ao usuário comum.

É fácil ver que a “solução” acarretaria problemas ainda maiores, o que faz as palavras de meu estimado correspondente Clive Robinson se destacarem como um verdadeiro axioma: “problemas sociais não podem ser resolvidos pela tecnologia”. Será preciso firmeza institucional e muita educação pública para que seja possível superar este momento delicado da trajetória humana.

Nota lateral: minha própria orientação política mudou nos últimos anos, de centro-esquerda para centro-direita. Vários são os fatores que causaram isso, mas comentários como os de Hillary Clinton sobre os “deploráveis” [sou hétero] não ajudaram a aumentar minha simpatia. Aquilo cristalizou a hipocrisia absoluta do lado em que eu pensava estar – alegando ser tolerante mas ainda abusando e desrespeitando pessoas que pensam diferente. O Twitter de hoje é simplesmente uma manifestação online da atitude mental a partir da qual comentários como aquele floresceram.

Aspectos pouco discutidos

Uma parte desta aquisição industrial que parece ser ignorada em favor das implicações da guerra cultural são os aspectos financeiros. O Twitter é um negócio viável? Será capaz de gerar um lucro substancial para Musk? Não faço ideia.

A outra parte da história que não foi considerada [pelo menos não que eu tenha visto] é a reação dos funcionários progressistas do Twitter. Li em algum lugar que alguns deles chegaram a chorar quando a notícia da aquisição foi divulgada (sim, eu ri). Mas como eles vão se comportar quando Musk estiver totalmente no controle? Eles vão se demitir em massa? Ou eles vão permanecer na empresa e assim minar sua própria agenda? Elon vai reequipar toda a organização com pessoas de outra matriz ideológica?

Me parece que quando Elon Musk insiste na questão da ‘liberdade de expressão’ o que ele quer dizer realmente é que “o Twitter favoreceu demais a Elite progressista, e eu não vou mais fazer isso”. É possível argumentar que a chamada Elite progressista é servida por verdadeiras ‘guildas’ para impor sua posição de dominância – as guildas, neste caso, sendo instituições como a CNN, a Rede Globo, e as Mídias Sociais, além dos sumos sacerdotes da intelligensia. A compra do Twitter por alguém aparentemente “fora da Elite” tem, portanto, uma desconfortável sensação de deslocamento.

De fato, a atmosfera pública exala, em pleno 2022, uma alarmante fragrância de fin-de-siècle oitocentista.

Da Wikipedia sobre o fin-de-siècle: O principal tema político da época era a revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia liberal. A geração do fin-de-siècle apoiou o emocionalismo, o irracionalismo, o subjetivismo e o vitalismo, enquanto a mentalidade da época via a civilização como estando em uma crise que exigia uma solução massiva e total.

Liberalismo versus coletivismo

Além disso, a própria ideia contemporânea [notadamente nos EUA] de que os marxistas são “liberais” – uma filosofia fantástica que tem sido construída pelas melhores mentes acadêmicas do Ocidente por décadas – é uma falácia. No século passado os marxistas foram perseguidos, cancelados, odiados por causa das coisas horríveis que os marxistas de todo o mundo faziam.

Tanto para revidar quanto para formular um rótulo aceitável para se adaptar ao sistema político [ou mesmo para se esconder], eles inventaram uma “nova filosofia”, na verdade apenas uma regurgitação do marxismo, e a chamaram de “liberalismo progressista” como se fosse simplesmente um novo ramo do estimado liberalismo clássico.

É claro que não era nada disso – e qualquer um que se desse ao trabalho de examinar perceberia rapidamente que era a total antítese do liberalismo. Era coletivismo versus individualismo; governo grande versus governo pequeno; resultados iguais versus oportunidades iguais. E o mais importante de tudo, propagou-se um certo “imperativo moral” de violar os direitos de certas pessoas em nome de um objetivo indefinível de “justiça social” [já ouvimos isso antes?].

Infelizmente, o estratagema funcionou. A rede de professores marxistas em universidades de todos os países começou a alardear o “liberalismo progressista” como o novo eufemismo para o marxismo. Para os de fora, soava como liberalismo. Mas, as coisas sempre desandam quando, por ideologia, a palavra ‘justiça’ aparece na frente da palavra ‘social’. O resultado é sempre a negação do que se pretende: “NÃO Liberalismo” [iliberalismo] e “injustiça”.

Todos os totalitários precisam, para atingir seus objetivos, mentir perpetuamente. Do contrário seria obviamente impossível concordar com os objetivos que eles realmente querem atingir. Até cerca de 2010, havia um equilíbrio entre as pessoas que amavam a liberdade versus aqueles que queriam um governo draconiano em seu alcance social, com as diferenças geralmente sendo nuanças. Hoje, a divisão é quase perfeita – com amantes da liberdade e os progressistas cripto-totalitários em lados claramente opostos.

Vale a pena notar que Milton Friedman e F. A. Hayek, ambos odiados pelos “liberais progressistas” de hoje, que os consideram cães raivosos da direita, se recusaram a desistir do termo “liberal” em favor do termo “conservador”, referindo-se a si mesmos como “liberais clássicos”. F. A. Hayek chegou a escrever um artigo chamado “Por Que Não Sou Conservador” em um esforço para reabilitar o termo, apontando que a raiz etimológica da palavra liberal é liberdade.

Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.

A Miséria da Internet em 2022

Há muito tempo deixei de gostar dessa coisa absurda que internet se tornou. Posso talvez não ser o único, embora eu não encontre meus iguais nestas terras torturadas.

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Mas, para além da desilusão, ainda gosto muito do meu trabalho em computação [agora em tempos de recomeço!]. Gosto de projetar e me deixar absorver pelos detalhes dos sistemas, hora a hora, minuto a minuto, e deixar as preocupações da vida de lado; gosto de pesquisar defeitos e descobrir o que está acontecendo de errado; gosto de aprender coisas novas; eu gosto muito dos insights sobre dados proporcionados por tecnologias como Python. Gosto até mesmo de web design, algumas vezes.

Mas aqui está a minha verdade: em algum lugar ao longo do caminho, eu perdi totalmente o interesse por essa web que as outras pessoas consomem, e principalmente pelas abjetas redes sociais.

Em 2022 eu: não assisto a vídeos em computadores; não ouço podcasts; não tenho o sócio-linfoma [o câncer mental induzido pelas redes anti-sociais]; não tenho Netflix nem Spotify; não uso Uber; não tenho nem quero uma Alexa [e tenho raiva de quem tem]; não quero meus interruptores de luz conectados à internet; nem minha geladeira; nem meu fogão; nem realmente qualquer coisa, exceto meu(s) computador(es).

As tecnologias que fazem a alegria dos corintianos e flamenguistas; que os fazem se sentir importantes e “acolhidos”; que dão aos idiotas fama e um desproporcional poder de fogo; que sequestram a capacidade crítica dos Josés e das Marias… essas coisas para mim não têm nenhuma graça. De fato as considero nefastas, considerando que não são, como outrora, tecnologias libertadoras.

A tecnologia de rede se tornou absolutamente desumana quando, por volta de 2003, passou a servir cada vez mais os interesses das oligarquias e dos governos ao se degradar em vigilância e controle mental das massas. Não é mais divertido. Não é bonito [a fealdade das pessoas e das coisas parece ser outra marca definitiva do século 21]. Não vou colaborar com esse sistema.

Computadores – incluindo celulares, tablets, o que for – não são meu “hobby”. Não paro de trabalhar e vou jogar na internet “para me distrair”. Eu geralmente paro de trabalhar e quero fazer algo que não envolva a internet. Eu gosto de ler. Eu gosto de ouvir Miles Davis. Gosto de comer fora, em restaurantes, à moda antiga. Eu gosto de dirigir meu carro e ir a lugares.

Um dos meus principais critérios para comprar coisas é se elas funcionam sem uma conexão de rede. Fora do trabalho eu uso computadores para… bem, ler coisas. Ou seja, realmente ler. Texto. Fotos também, se for preciso. Eu os uso para mergulhar em temas profundos e tentar ver além do que a visão me mostra.

Não é mais 1998. Não é o ano do “Linux no desktop” – nunca haverá o ano do Linux no desktop. Sequer será o ano do desktop. Hoje em dia computar é simplesmente o que eu faço. Porque é o que eu faço.

Minha história

Aprendi a programar Basic em um CP-300 (48k de RAM!) – um lixo gestado durante a infame reserva de mercado para computadores nacionais, da desditosa ditadura militar [que a malta inculta quer reviver, agora sob a liderança idiocrática do palhaço Javoltar Barrigonaro]. Passei por alguns sistemas menos limitados de 8 bits e aprendi FORTRAN alguns anos depois.

Depois trabalhei em uma companhia multinacional, onde lidar com computadores não era minha atividade-fim. Em 1999 eu finalmente consegui penetrar nos mistérios do Linux [SUSE, se me lembro]. De repente eu não precisava mais programar sozinho. Qualquer coisa era de código aberto. Eu apenas dava uma espiada no código- fonte, mudava alguma coisa e recompilava em algo novo. Aquilo era a vida!

Fiquei encantado com alguns desenvolvimentos realmente engenhosos. Adorei como a computação pareceu mais completa depois disso – pode ter sido minha imaginação, mas foi o que senti. Eu ainda era principalmente um usuário, mas senti que estava no controle e entendi muito bem o que estava por baixo do capô. E se não entendesse, eu sempre soube onde procurar a iluminação – e sempre havia um blog com a iluminação.

Muitos anos depois, já na primeira década do século, já empresário do ramo, eu realmente continuava a me aprofundar. Chegava a Web 2.0 e eu não percebi na época que eu era um dos últimos dinossauros. A excelência do código aberto começava a perder terreno para as plataformas “na nuvem”, baseadas em código proprietário e uso intensivo de dados capturados dos usuários – que mais tarde dariam origem ao atual sistema vicioso e predatório do capitalismo de vigilância.

Hoje quase nenhum usuário sabe como a tecnologia funciona. Quinze anos atrás ainda sabíamos apreciar a arte de uma applet Java, de uma library ou mesmo de um framework. Mas hoje quase ninguém mais. Tudo o que consumimos são produtos ruins com um pequeno ciclo de atualização antes que a obsolescência planejada entre em ação e você tenha que comprar a versão mais recente – e o melhor hardware – novamente. O software é na maioria das vezes escrito por algum chimpanzé que encara a programação apenas como um trabalho e acha que quanto mais linhas de código escrever melhor ele vai ficar com seu supervisor [que via de regra não é muito melhor que ele]. Existem exceções, mas esse é o balanço das coisas.

Marketing em lugar da Engenharia

Os departamentos de marketing [sociopatas de fala mansa, como Steve Jobs] substituíram a engenharia [pesquise “the curse of Boeing”] no controle do que chega ao mercado, e tudo indica que não vão abrir mão desse controle. Os técnicos cederam à pressão do time-to-market. Isso vale para qualquer smartphone, qualquer receptor, qualquer roteador. Muitos até rodam Linux, mas mesmo assim a maioria ainda é muito ruim. Mesmo o acesso básico à Internet hoje vem com termos de serviço com os quais realmente ninguém com uma mente sã poderia concordar.

Acho que o que desempenha um papel importante na falta de entusiasmo tecnológico atual [além do analfabetismo funcional de toda a sociedade, incluindo a sedizente “elite”] é que, em 1998, a perspectiva de uma rede livre rodando software livre em computadores cada vez mais poderosos nos os quais podíamos mexer, alterar, estender, etc, prometia um futuro lindo pela frente. Eu adorava estar a viver [uma saudação aos irmãos de Angola e da lusofonia!] nos míticos anos 2000.

Vinte anos se passaram, e que o que temos em vez da utopia tecnológica que produziria cientistas-filósofos é a desgraça deprimente das redes sociais, que transformou grande parte da humanidade em zumbis consumidores, depravados, alienados, incivilizados e animalescos. Os Mestres do Universo – banqueiros, nababos da mídia, ONG’s com relações incestuosas com o poder, capitalistas da vigilância e outros parasitas – se divertem ao ver a massa cada vez mais dócil, fotografando e compartilhando seu caminho rumo à obliteração. A vida feliz das ovelhas a caminho do abatedouro.

Eu queria não ter tomado a pílula vermelha.


(*) Tentei buscar referências sobre a reserva de mercado para computadores no Brasil da década de setenta e não encontrei. Isso comprova meu ponto sobre a futilidade, o atraso e o inaceitável baixo nível intelectual da Internet em português. Culpa do referido sócio-linfoma.

Hey, Zuck, conserte o Facebook antes de fugir para o Metaverso (please?)

Os tediosos conflitos do Facebook. Não importa o assunto. Quaisquer que sejam eles, são de uma monotonia atroz. Com emojis – essa simbologia infantil de representação de um rosto genérico – e “compartilhamentos”, o Facebook [e seus semelhantes] nos reduziu ao que somos na essência – ou nos expôs em nossa nudez e nosso vazio, como sempre fomos.

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A erosão de nosso senso de nós mesmos como uma espécie evoluída e dotada de valores mais elevados tem sido constante. Falando apenas por mim – talvez eu esteja sozinho, mas duvido – o que os algoritmos conseguiram acima de tudo foi me tornar menos interessado nas pessoas. Minha opinião sobre considerar as pessoas como entidades dignas de interesse despencou.

Essa desilusão é um sentimento novo para mim: sempre fui o tipo de idiota que acha nossa espécie fascinante. Eu gosto de conversar com as pessoas e ouvir o que elas pensam – e, francamente, analisá-las. Gosto de tentar descobrir como elas raciocinam. Gosto de como suas histórias pessoais informam sua abordagem a um problema ou a alguma questão. Antes, eu tinha a ideia – talvez ingênua – de que se eu conversasse com alguém por tempo suficiente, poderia descobrir de onde elas vêm, o que as moldou e por que suas vidas as levaram para onde elas estão agora – e se seu esforço valeu a pena.

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Hoje em dia, tenho a impressão de que eu não preciso falar com alguém por mais que 20 minutos para saber tudo o que ele ou ela assiste ou consome e qual o alcance de sua vida cultural. Eu também seria capaz dar um palpite bastante decente sobre que outras coisas que ele ou ela provavelmente acredita. Tamanha simplificação da vida ocorrida nos últimos 15 anos parece indicar que o problema humano está resolvido e tem muito menos a ver com a história ou com a diversidade entre os indivíduos do que se suspeitava.

Essa afirmações podem parecer um exagero, eu reconheço, mas o sucesso que o Facebook teve até hoje demonstra que conhecer o intimo de uma pessoas não é muito difícil como parecia em um passado um pouco mais distante. Desvendar as pessoas é basicamente o que algoritmos fazem. Eles provaram que o panopticon é totalmente possível.

Mas nem o Facebook ou o YouTube se contentam em apenas conhecer as pessoas “para sua melhor conveniência”; eles ativamente segregam as pessoas em perfis, padrões e grupos. O resultado final, como sabemos agora, é catastrófico. Parece seguro dizer agora que os grupos constroem sua própria dinâmica e tornam as pessoas mais bajuladoras ao líder autoritário, ou chatas, ou furiosas. A expressão “Câmara de eco” nem chega perto de descrever o empobrecimento da experiência humana no ambiente do Facebook.

O Facebook diz valorizar a conexão entre as pessoas. Mas acontece que não há nada intrinsecamente bom na conexão online entre as pessoas. Na internet, a exposição a pessoas diferentes muitas vezes nos faz odiá-las, e esse ódio estrutura cada vez mais nossa política. A corrosão social causada pelo Facebook e outras plataformas não é um efeito colateral de más decisões de gerenciamento e design. É algo que está embutido na própria natureza da mídia social.

Há muitos motivos pelos quais o Facebook e as empresas de mídia social que vieram depois dele estão implicados no colapso democrático, na violência comunitária em todo o mundo e na guerra civil [ainda fria, mas que fica cada vez mais quente] em lugares como os Estados Unidos e mesmo o Brasil. Esses sistemas em redes centralizadas, com interação entre os membros mediadas fora da ordem cronológica, são motores de foguete para espalhar desinformação e combustível de jato para teorias da conspiração. Eles recompensam as pessoas por expressarem raiva e desprezo pelo “outro”, sequestrando e usando os mesmos circuitos mentais que injetam dopamina na circulação quando você ganha jogando caça-níqueis.

Foto por Eugene Capon em Pexels.com

Metaverso

Mesmo recentemente, até alguns anos atrás, havia ainda espaço para resistir a esse aspecto horrível da maleabilidade humana. Os experimentos de aprisionamento de Stanford haviam sido desmistificados e parecia que nossas piores noções a respeito da humanidade haviam desaparecido. “Todo mundo é um idiota online, mas as pessoas não são suas performances digitais”, alguém disse. Ou talvez as pessoas sejam mais complicadas do que parece.

Vou ser cuidadoso aqui e dizer que, claro, não é apenas o Facebook que trilha a senda da infâmia. Mas como sou um falível humano [embora fazer parte da humanidade tenha um quê de rebaixamento existencial no momento], vou recorrer à minha própria subjetividade [basicamente não algorítmica]: O Facebook é obviamente o pior ofensor entre todos – pelo menos quando se trata de manipular a lamentável previsibilidade dos afetos humanos.

Nas próximas semanas [e meses] espero ser capaz de absorver as implicações da mudança [do nome da holding co. da rede para Meta] para minha esfera pessoal, como também os efeitos de larga escala, desde a política até a democracia, passando pela saúde pública, à medida que mais fatos forem sendo conhecidos [ainda estou digerindo os Facebook Papers].

Eu adoraria prognosticar que a reformulação da marca visando ocupar o Metaverso será um fracasso e que os humanos enxergarão a verdade através da enorme cortina de relações públicas e propaganda. É deprimente que uma empresa que provou infligir tantos danos à sociedade tenha decidido não fazer uma mínima auto crítica sobre seu passado, não consertar nada e, de fato, expandir suas operações para usurpar ainda mais a vida das pessoas.

Eu gostaria de acreditar que o Metaverso não vai funcionar, e que o convite ridículo de Mark Zuckerberg para que as pessoas “se conectem nos espaços ilimitados da realidade virtual” – onde peixes nadam entre as árvores, e Lucy voa no céu com diamantes – não atrairá ninguém. Mas vamos encarar a verdade: antes de todos nós começarmos a usá-los, eu também achava que os rostinhos de emoji eram a suprema idiotia. Veja onde estamos agora… 🙂

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Nota: Se este post for compartilhado no Facebook, o que é muito bem vindo [engajar com o adversário em seu próprio campo], claro que eu vou apreciar por demais a ironia. ká ká ká.