A Crise das Redes: Como Administrar o Comportamento Coletivo Global

Abrimos esta semana apresentando em português o necessário estudo “Administração do Comportamento Coletivo Global”, sobre o que eu pessoalmente que caracterizo como a Crise das Rede Sociais. A sociedade humana nunca teve que lidar com entidades tão potentes, com tão grande potencial desagregador, tão desconhecidas e tão incompreendidas. Estamos em um momento-chave da civilização, e o que fizermos nesta década definirá o caminho da espécie humana por séculos.

A ‘Economia da Atenção’ tem facilitado comportamentos extremos e provocado rupturas políticas e culturais. Sua influência na opinião pública exibe uma escala sem precedentes na evolução da civilização. Imagem: iStock

O comportamento coletivo fornece uma estrutura para a compreensão de como as ações e propriedades dos grupos emergem da maneira como os indivíduos geram e compartilham informações. Em humanos, os fluxos de informação foram inicialmente moldados pela seleção natural, mas são cada vez mais estruturados por tecnologias de comunicação emergentes. Nossas redes sociais maiores e mais complexas agora movimentam informações de alta fidelidade através de grandes distâncias a baixo custo. A era digital e a ascensão das mídias sociais aceleraram as mudanças em nossos sistemas sociais, com consequências funcionais mal compreendidas. Essa lacuna em nosso conhecimento representa o principal desafio para o progresso científico, para a democracia e para as ações para enfrentar as crises globais. Argumentamos que o estudo do comportamento coletivo deve ser elevado a uma “disciplina de crise”, assim como a medicina, a conservação e a ciência do clima, e ter foco em fornecer uma visão prática para a administração dos sistemas sociais destinada aos formuladores de políticas públicas bem como os reguladores.

O comportamento coletivo historicamente se refere às instâncias em que grupos de humanos ou animais exibem ação coordenada na ausência de um líder óbvio: de bilhões de gafanhotos, estendendo-se por centenas de quilômetros, devorando a vegetação à medida que avançam; de cardumes de peixes convulsionando como um fluido animado quando sob ataque de predadores às nossas próprias sociedades, caracterizadas por cidades, com edifícios e ruas cheias de cor e som, vivas de atividade. A característica comum de todos esses sistemas é que as interações sociais entre os organismos individuais dão origem a padrões e estruturas em níveis mais elevados de organização, desde a formação de vastos grupos nômades até o surgimento de sociedades baseadas na divisão de trabalho, normas sociais, opiniões, e dinâmica de preços.

Nas últimas décadas, o “comportamento coletivo” evoluiu de uma descrição de fenômenos gerais para uma estrutura conduciva à compreensão dos mecanismos pelos quais a ação coletiva emerge (3⇓⇓⇓-7). Ele revela como as propriedades de “ordem superior” das estruturas coletivas em grande escala, se retroalimentam para influenciar o comportamento individual, que por sua vez pode influenciar o comportamento do coletivo, e assim por diante. O comportamento coletivo, portanto, se concentra no estudo de indivíduos no contexto de como eles influenciam e são influenciados pelos outros, levando em consideração as causas e consequências das diferenças interindividuais em fisiologia, motivação, experiência, objetivos e outras propriedades.

Imagem: iStock

As interações multiescala e o feedback que fundamentam o comportamento coletivo são marcas definidoras de “sistemas complexos” – que incluem nosso cérebro, redes de energia, mercados financeiros e o mundo natural. Quando perturbados, os sistemas complexos tendem a exibir uma resiliência finita seguida por mudanças catastróficas, repentinas e muitas vezes irreversíveis na sua funcionalidade. Em uma ampla gama de sistemas complexos, a pesquisa destacou como a perturbação antropogênica – tecnologia, extração de recursos e crescimento populacional – é uma fonte crescente, se não dominante, de risco sistêmico. No entanto, a pesquisa científica sobre como os sistemas complexos são afetados pela tecnologia humana e pelo crescimento populacional tem se concentrado mais intensamente nas ameaças que eles representam para o mundo natural.

Temos uma compreensão muito mais pobre das consequências funcionais das recentes mudanças em grande escala no comportamento humano coletivo e na tomada de decisões. Nossas adaptações sociais evoluíram no contexto de pequenos grupos de caçadores-coletores resolvendo problemas locais por meio de vocalizações e gestos. Em contraste, agora enfrentamos desafios globais complexos, de pandemias a mudanças climáticas – e nos comunicamos em redes dispersas conectadas por tecnologias digitais, como smartphones e mídias sociais.

Com ligações cada vez mais fortes entre os processos ecológicos e sociológicos, evitar a catástrofe a médio prazo (por exemplo, coronavírus) e a longo prazo (por exemplo, mudança climática, segurança alimentar) exigirá respostas comportamentais coletivas rápidas e eficazes – ainda não se sabe se a dinâmica social humana permitirá tais respostas.

Além das ameaças ecológicas e climáticas existenciais, a dinâmica social humana apresenta outros desafios ao bem-estar individual e coletivo, como recusa de vacinas, adulteração de eleições, doenças, extremismo violento, fome, racismo e guerra.

Nenhuma das mudanças evolutivas ou tecnológicas em nossos sistemas sociais ocorreu com o propósito expresso de promover a sustentabilidade global ou a qualidade de vida. Tecnologias recentes e emergentes, como mídia social online, não são exceção – tanto a estrutura de nossas redes sociais quanto os padrões de fluxo de informações por meio delas são direcionados por decisões de engenharia feitas para maximizar a lucratividade. Essas mudanças são drásticas, opacas, efetivamente não regulamentadas e de grande escala.

Disciplina de Crise

As consequências funcionais emergentes são desconhecidas. Não temos a estrutura científica necessária para responder até mesmo às questões mais básicas que as empresas de tecnologia e seus reguladores enfrentam. Por exemplo, será que um determinado algoritmo para recomendar amigos – ou um para selecionar itens de notícias a serem exibidos – promove ou impede a disseminação de desinformação online? Não temos um corpo de literatura embasado teoricamente e verificado empiricamente para informar uma resposta a tal pergunta. Na falta de uma estrutura desenvolvida, as empresas de tecnologia se atrapalharam com a pandemia de coronavírus em curso, incapazes de conter a “infodemia” de desinformação que impede a aceitação pública de medidas de controle, como máscaras e testes generalizados.

Em resposta, os reguladores e o público têm insistido nos pedidos de reforma do nosso ecossistema de mídia social, com demandas que vão desde maior transparência e controles de usuário até responsabilidade legal e propriedade pública. O debate básico é antigo: os processos comportamentais em grande escala são autossustentáveis ​​e autocorretivos, ou requerem gerenciamento e orientação ativos para promover o bem-estar sustentável e equitativo? Historicamente, essas questões sempre foram tratadas em termos filosóficos ou normativos. Aqui, construímos nossa compreensão dos sistemas complexos perturbados para argumentar que não se pode esperar que a dinâmica social humana produza soluções para questões globais ou promova o bem-estar humano sem uma política baseada em evidências e administração ética.

A situação é paralela aos desafios enfrentados na biologia da conservação e na ciência do clima, onde indústrias insuficientemente regulamentadas otimizam os seus lucros enquanto minam a estabilidade dos sistemas ecológicos. Tal comportamento criou a necessidade de uma política urgente baseada em evidências, na falta de uma compreensão completa da dinâmica subjacente dos sistemas (por exemplo, ecologia e geociências). Essas características levaram Michael Soulé a descrever a biologia da conservação como o contraponto da “disciplina de crise” à ecologia. As disciplinas de crise são distintas de outras áreas de pesquisa urgente baseada em evidências em sua necessidade de considerar a degradação de todo um sistema complexo – sem uma descrição completa da dinâmica do sistema. Sentimos que o estudo do comportamento humano coletivo deve se tornar a resposta da disciplina de crise às mudanças em nossa dinâmica social.

Como o comportamento humano coletivo é o resultado de processos que abrangem escalas temporais, geográficas e organizacionais, abordar o impacto da tecnologia emergente no comportamento global exigirá uma abordagem transdisciplinar e um colaboração sem precedentes entre cientistas em uma ampla gama de disciplinas acadêmicas. À medida que nossas sociedades são cada vez mais instanciadas na forma digital, abstrações de processos sociais – as redes são um exemplo proeminente – tornam-se partes muito reais da vida diária. Essas mudanças apresentam novos desafios, bem como oportunidades, para avaliação e intervenção. Disciplinas dentro e fora das ciências sociais têm acesso a técnicas e formas de pensar que expandem nossa capacidade de entender e responder aos efeitos da tecnologia de comunicação. Acreditamos que tal colaboração é urgentemente necessária.

Ler artigo original na íntegra:

Stewardship of Global Collective Behavior

Joseph B. Bak-Coleman, Mark Alfano, Wolfram Barfuss, Carl T. Bergstrom, Miguel A.
Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America

Verdades, Mentiras e Automação

Sob licença, apresentamos a seguir, traduzido e adaptado, um muito temporâneo estudo publicado no último dia 21 pelos autores Ben Buchanan, Andrew Lohn, Micah Musser e Katerina Sedova, do Centro para Segurança e Tecnologia Emergente (CSET – Center for Security and Emerging Technology), analisando o terrivel problema da desinformação turbinada por tecnologias de “Inteligência Artificial” (mais propriamente referida como Aprendizado de Máquina). O texto é narrado na primeira pessoa do plural

Por milênios, campanhas de desinformação têm sido empreendimentos fundamentalmente humanos. Seus perpetradores misturam verdades e mentiras em potentes combinações, que visam semear a discórdia, criar dúvidas e provocar ações destrutivas. A campanha de desinformação mais famosa do século XXI – o esforço russo para interferir na eleição presidencial dos EUA de 2016- contou com centenas de pessoas trabalhando juntas para ampliar as fissuras preexistentes na sociedade americana.

Desde o início, escrever sempre foi um esforço fundamentalmente humano. Mas as coisas não são mais assim. Em 2020, a empresa OpenAI revelou o GPT-3, (Generative Pre-trained Transformer) um poderoso sistema de “inteligência artificial” que gera texto baseado em um estímulo provocado por operadores humanos. O sistema, que combina uma vasta rede neural, um poderoso algoritmo de aprendizado de máquina e mais de um trilhão de palavras de escrita humana para orientação, é notável. Entre outras realizações, ele já redigiu um artigo de opinião encomendado pelo The Guardian, escreveu histórias originais que a maioria dos leitores pensava ter sido escrita por humanos e criou novos memes para a Internet.

Diante dessa descoberta, consideramos uma questão simples, mas importante: pode a automação gerar conteúdo para campanhas de desinformação? Se o GPT-3 pode escrever notícias aparentemente confiáveis, é possível também que possa escrever notícias falsas convincentes; se pode redigir artigos de opinião, talvez possa redigir tweets enganosos.

Para resolver esta questão, primeiro apresentamos o conceito de parceria ou equipe homem-máquina, mostrando como o poder do GPT-3 deriva, em parte, do estímulo criado pelo homem, ao qual ele responde. Ganhamos acesso gratuito ao GPT-3 – um sistema que não está disponível para uso público – para estudar a capacidade do GPT-3 de produzir desinformação como parte de uma equipe homem-máquina.

Mostramos que, embora o GPT-3 seja bastante capaz por seus próprios méritos, ele atinge novos patamares de capacidade quando combinado com um operador/editor humano experiente. Como resultado, concluímos que, embora o GPT-3 não substitua totalmente os humanos nas operações de desinformação, ele é uma ferramenta que pode ajudar a criar mensagens de qualidade moderada a alta, em uma escala muito maior do que anteriormente possível.

Para chegar a esta conclusão, avaliamos o desempenho do GPT-3 em atividades que são comuns em muitas campanhas de desinformação modernas. A Tabela 1 descreve essas tarefas e o desempenho do GPT-3 em cada uma.

Tabela 1

Entre essas e outras avaliações, o GPT-3 provou ser tão poderoso como limitado. Quando estimulada de maneira adequada, a máquina funciona como um gravador versátil e eficaz que, no entanto, é limitado pelos dados nos quais foi treinada. Sua redação é imperfeita, mas essas suas desvantagens – como falta de foco na narrativa e tendência a adotar pontos de vista extremos – têm pouca importância na criação de conteúdo para campanhas de desinformação.

Caso os adversários optem por empregar esse tipo de automação em suas campanhas de desinformação, acreditamos que a implantação de um algoritmo como o GPT-3 esteja dentro da capacidade de governos estrangeiros, especialmente os que entendem de tecnologia, como China e Rússia. Será difícil, mas quase certamente possível para esses governos construir a capacidade computacional necessária para treinar e operar tal sistema, caso desejem fazer isso.

Mitigar os perigos da automação na desinformação é um desafio. Uma vez que o texto produzido pela GPT-3 combina tão bem com a escrita humana, a melhor maneira de impedir o uso de sistemas como o GPT-3 em campanhas de desinformação é se concentrar na infraestrutura usada para propagar as mensagens da campanha, como contas falsas nas redes sociais, em vez de tentar determinar a quem atribuir o texto.

Vale a pena considerar as mitigações porque nosso estudo mostra que há uma possibilidade real de se usar ferramentas automatizadas para gerar conteúdos para campanhas de desinformação. Em particular, nossos resultados devem ser encarados como uma estimativa pessimista do que sistemas como o GPT-3 podem oferecer. Adversários não limitados por preocupações éticas e estimulados por grandes recursos e capacidade técnica, provavelmente serão capazes de usar sistemas como o GPT-3 de maneira mais abrangente do que nós nesta pesquisa, embora seja difícil saber se eles realmente vão optar por essa linha de ação.

Em particular, com a infraestrutura certa, eles provavelmente serão capazes de aproveitar a escalabilidade que tais sistemas automatizados oferecem, gerando um grande número de mensagens e inundando o cenário de informações com as criações mais mirabolantes.

Nosso estudo mostra a plausibilidade – mas não a inevitabilidade – desse futuro, no qual mensagens automatizadas de divisão política e informações enganosas se propagam pela Internet. Enquanto mais desenvolvimentos ainda certamente estejam por vir, um fato já é aparente: as máquinas construídas por humanos agora podem ajudar a temperar a verdade e a mentira a serviço da desinformação.

Publicado sob a licença Creative Commons nc 4.0

Link para o trabalho original, na íntegra:

Facebook Pede Que Usuários do iOS Permitam Rastreamento (para permanecer grátis)

Em uma tentativa de combater o novo recurso de privacidade App Tracking Transparency da Apple, o Facebook está insistindo para que os usuários continuem a permitir que o gigante da tecnologia rastreie o uso do aplicativo, alertando que essa é a única maneira de manter os serviços “gratuitos”.

O site MacRumors dá conta de que o Facebook e o Instagram começaram a enviar mensagens notificando usuários do iOS 14.5 de que eles devem obrigatoriamente ativar o rastreamento no dispositivo, se quiserem ajudar a manter o Facebook e o Instagram “gratuitos”.

A Apple lançou recentemente seu novo recurso de privacidade, a ATT – App Tracking Transparency [Transparência no Rastreamento de Applicativo], como parte da atualização mais recente do iOS 14.5 para iPhones e iPads. A atualização agora exigirá que os aplicativos mostrem aos usuários um prompt solicitando seu consentimento para rastreá-los em outros aplicativos e sites.

Uma grande parte do modelo de negócios do Facebook é baseada na venda de anúncios em seus aplicativos e serviços. Os clientes pagantes podem usar as ferramentas de publicidade fornecidas pelo Facebook para alcançar pessoas ou obter dados demográficos específicos. No entanto, com o lançamento do iOS 14.5, os usuários podem optar por cancelar o rastreamento de suas atividades. Consequentemente, o Facebook terá acesso a menos dados para usar na segmentação de seus anúncios personalizados.

A atualização do iOS foi lançada ao público na semana passada e, desde então, mais aplicativos estão começando a exibir o prompt da ATT aos usuários. Um usuário do Twitter, Ashkan Soltani, foi o primeiro a observar que o Facebook atualizou seu prompt para incluir um aviso dizendo “Ajude a manter o Facebook gratuito”. Isso muda radicalmente a posição clássica do Facebook (“sempre será gratuito”). Muitos observadores na Internet vêem o movimento como uma “tática do medo” por parte da rede social. Ao mesmo tempo, fornece uma indicação indireta de que a política de privacidade da Apple é de fato a mais robusta do mercado, já que incomoda tanto o conglomerado de Zuckerberg.

Em uma postagem de blog atualizada recentemente, o Facebook chama o prompt de “tela educacional” que “ajudará as pessoas a tomar uma decisão informada sobre como suas informações são usadas”. O Instagram, que é propriedade do Facebook, também mostrará um aviso semelhante aos usuários.

A postagem do blog do Facebook diz:

Como a Apple afirmou que é permitido fornecer contexto adicional [aos usuários], mostraremos uma tela educacional antes de apresentar a solicitação da Apple, para ajudar as pessoas a tomar uma decisão informada sobre como suas informações serão usadas. Essa tela fornece detalhes adicionais sobre como usamos os dados para anúncios personalizados, bem como as maneiras como limitamos o uso de atividades que outros aplicativos e sites nos enviam se as pessoas não ativarem esta configuração do dispositivo. Nossa tela também permite que as pessoas saibam que estão vendo o prompt da Apple devido aos requisitos da Apple para iOS 14.5.

O Facebook planeja lançar o prompt com a notificação para mais usuários nos próximos dias e semanas.

Futebol Inglês Faz Boicote às Mídias Sociais Neste Fim de Semana

Equipes e organizações de futebol inglesas estão desativando suas contas do Facebook, Twitter e Instagram para este fim de semana como parte de um apagão massivo de mídias sociais para defender melhores políticas em relação à discriminação e abuso que jogadores e membros de clubes recebem nessas plataformas.

O futebol inglês se unirá para um boicote às redes sociais das 15h00 de sexta-feira, 30 de abril às 23h59, de segunda-feira, 3 de maio, em resposta ao abuso discriminatório incessante recebido online por jogadores e outras pessoas ligadas ao esporte.

https://t.co/GYTAuWAEgN pic.twitter.com/dNLuv62nw5 – Porta-voz FA (@FAspokesperson) 24 de abril de 2021

Os grupos que participarão do apagão incluem a Premier League, a English Football League, a Professional Footballers ’Association, a Football Association, a League Managers Association, a Football Supporters’ Association e mais. Os clubes que fazem parte da Premier League, EFL, Barclays FA Women’s Super League e Women’s Championship vão fechar seus canais sociais no fim de semana como parte do protesto.

O apagão ocorre depois que várias organizações de futebol inglesas se uniram em fevereiro para solicitar mudanças ao CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, e ao CEO do Twitter, Jack Dorsey, em uma carta aberta solicitando que as empresas tomassem medidas mais firmes contra comentários discriminatórios e racistas.

Estamos desativando nossos canais de mídia social a partir das 15h de sexta-feira, 30 de abril, até as 23h59 de segunda-feira, 3 de maio, em resposta ao abuso on-line incessante. #Enough | #StopOnlineAbuse pic.twitter.com/toiIg3FfWW

Raheem Sterling (@sterling7) 30 de abril de 2021

Especificamente, os grupos de futebol defendem quatro melhorias: que as postagens sejam bloqueadas ou filtradas se contiverem material racista ou discriminatório; que as postagens abusivas sejam removidas por meio de “medidas robustas, transparentes e rápidas”; que haja processos de verificação aprimorados para permitir que a polícia identifique usuários e impeça que postadores abusivos façam novas contas; e que as plataformas trabalhem em estreita colaboração com as polícias para identificar pessoas que postam conteúdo discriminatório nos casos que infringem a lei.

As ligas esperam que o boicote deste fim de semana fortaleça esse movimento, observando que, embora tenha havido progresso, jogadores, times e outros membros do mundo do futebol inglês ainda sentem que há muito mais que o Facebook e o Twitter poderiam fazer para ajudar a impedir o abuso na Internet.

Moderadores do Facebook: ‘Somos as Amídalas da Internet’

Na manhã do último dia 14 de abril, um repórter Senior de notícias de tecnologia do Buzzfeed compartilhou o que parecia ser um relato angustiante do que é trabalhar como um moderador de conteúdo no Facebook.

A nota interna anônima sinalizando a renúncia do empregado foi lançada no Twitter por Ryan Mac em uma série de nove prints. O suposto funcionário em questão é baseado em Austin, TX e trabalha para a Accenture, uma empresa que fornece funcionários para moderação de conteúdo no Facebook.

Um moderador de conteúdo do Facebook contratado pela Accenture em Austin se demitiu esta manhã com uma ácida nota interna. Eu digitei na íntegra para que as pessoas possam ler por si mesmas.

A mensagem descreve a moderação de conteúdo como um trabalho desgastante tanto do ponto de vista mental como físico, que levou alguns de seus colegas de trabalho a entrar em medicação psiquiátrica pela primeira vez ou se auto-medicar com álcool e drogas.

As experiências traumatizantes dos moderadores de conteúdo são bem documentadas ao longo dos anos em publicações como Wired Magazine.

O funcionário em questão alegou que o Facebook fez melhorias em seu programa de bem-estar, mas sustenta que elas ainda são inadequadas, afirmando que “os gerentes vêem os cérebros dos funcionários como máquinas”, em vez de levar em conta as conseqüências do estresse no ambiente de trabalho.

“A questão real, no entanto, não é o impacto persistente de imagens individuais; é o acúmulo de milhares delas ao longo do tempo”, escreve o moderador anônimo. “Os analistas de conteúdo são pagos para olhar o pior da humanidade por oito horas por dia. Somos as amígdalas da Internet, uma primeira linha de defesa – constantemente bombardeada – contra potenciais traumas para a base de usuários.”

O empregado logo descobre que o contrato de confidencialidade, assinado por todos os funcionários quando entram na empresa, torna difícil manter a saúde mental, bem como se candidatar a outros empregos, uma vez que eles não podem discutir os detalhes de sua atividade como moderadores de conteúdo. Soluções propostas incluem treinamento em saúde mental para gerentes, mais tempo em atividades de bem-estar e capacidade de acesso a terapia, entre várias outras sugestões.

O repórter do Buzzfeed propôs que, se executivos como Mark Zuckerberg passassem um tempo experimentando pessoalmente o trabalho de moderação de conteúdo, eles talvez pudessem ficar mais dispostos a fazer melhorias. No entanto, quando questionado em 2019 pela congressista americana Katie Porter, Zuckerberg disse que esse não seria o melhor uso de seu tempo.

O “engajamento” nas redes sociais

Há algo sobre as mídias sociais que os seres humanos não são psicologicamente preparados para lidar. Elas são uma abstração perversa e não natural da comunidade social humana a que nosso cérebro não reage bem. Como um fac-simile da genuína humanidade, ela nos mergulha em algo parecido com uma sala de espelhos, o “uncanny valley” para interações sociais. Pode ser, por tudo o que sabemos, que a principal razão pela qual alguém posta na mídia social seja a raiva. Se um estudo adequado fosse feito, é possivel que ele revelasse exatamente isso.

Quarentenas e lockdowns forçam as pessoas a ficar dentro de casa mergulhadas nas mídias sociais. De repente, todo mundo está no hábito diário de um solipsismo insalubre e irracional. Contudo, sabemos que os seres humanos, em algum nível fundamental como criaturas sociais, precisam interagir na comunidade cara-a-cara,

Quando o Facebook diz que quer “tornar o mundo mais aberto e conectado”, ele quer, na verdade, se tornar O MEIO para toda a interação interpessoal. Ao olhar para trás a esta era, o ser humano futuro talvez dirá: “Como eles podiam ficar na frente de uma tela o dia todo? Eles não sabiam o que isso estava fazendo com eles?”

Como um desenvolvedor de interface do usuário por profissão, eu posso identificar precisamente as obscuras tríades das escolhas de design de interface do usuário que viciou as pessoas à mídia social.

A rolagem infinita, o arquétipo dos esquemas de “engajamento” usado por quase todas as redes sociais, é problemática porque faz os usuários ficarem conectados por mais tempo. O resultado é que os usuários se mantêm ligado em seu feed, sem pensar, por um período de tempo muito mais longo do que ficavam anos atrás , o que aumenta o lucro para a empresa que executa o aplicativo. O usuário não tem ideia de que esses conteúdos são projetados para gerar padrões de uso viciantes para melhorar os lucros da Big Tech,

Entres as coisas mais dramáticas estão os “pontos acumulados” nos mais diversos sites. No Reddit, isso é chamado de karma. No Twitter, são os likes e retweets. Essa pontuação numérica simples exibe a atitude geral da comunidade em relação a um determinado conteúdo. À primeira vista, isso parece ser um conceito radicalmente democrático; todo mundo pode votar! A realidade, porém, é muito diferente. Reddit, por exemplo, sempre obfuscou a verdadeira pontuação do karma (“para evitar a brigadização de votos”). Além disso, a posição de um pedaço de conteúdo dentro do seu feed pode ser intencionalmente decidida pelo Home Office, não pela Comunidade (algoritmo). Isso é incrivelmente sinistro, embora não pareça aos olhos não-treinados

A parte mais bizarra da mídia social é o vício químico. Quando você clica em um ícone para mostrar sua apreciação ou reação a um conteúdo, você recebe um “shot” de dopamina. Isso adiciona valor à interação, e faz com que o usuário se sinta bem. Isso traz, literalmente, um componente quimicamente viciante à mídia social.

O Reddit criou um algoritmo que tece a comunidade de tal modo que parece ser democrático em seu funcionamento geral, mas na verdade é realmente especificamente curado para um conjunto determinado de fins políticos e sociais. Ele promove um sentimento de exclusão a qualquer um que se atreva a discordar do que “todos” já acreditam.

O grande fantasma assombrando o século XXI não será um tipo de “-ismo”. Será a grande besta da Tecnocracia Global, e o Big Brother não será exatamente um governo. Pelo contrário, os ministérios da verdade, paz, amor e abundância serão entidades privadas (ou negociadas publicamente).

Desta forma, nenhuma constituição, ou Magna Carta, ou qualquer outro documento fundamental destinado a manter a tirania do governo à distância, será capaz de operar como pretendido. Não será “o governo privando-nos de nossos direitos”. Serão empresas privadas com seus próprios termos de serviço. Até agora, podemos viver sem Twitter ou Reddit ou Facebook se realmente quisermos. Em breve, provavelmente não seremos capazes de desativar a ditadura tecnocrática a que todos estamos sujeitos.