Sobre os Problemas com o Facebook & Cia

Um usuário [ramenporn], dizendo ser da equipe de recuperação de desastre do Facebook, postou esta nota no Reddit, hoje mais cedo:

Imagem: iStock

Como muitos de vocês sabem, o DNS para serviços FB foi afetado e isso é provavelmente um sintoma do problema real, que é o peering de BGP com roteadores do Facebook caiu, muito provavelmente devido a uma mudança de configuração que entrou em vigor pouco antes de as interrupções acontecerem (começaram por volta das 15h40 UTC). Há pessoas agora tentando obter acesso aos roteadores de peering para implementar correções, mas as pessoas com acesso físico estão sem contato com as pessoas que têm conhecimento de como realmente autenticar nos sistemas e das pessoas que sabem o que realmente fazer. Então agora há um desafio logístico para unificar todo esse conhecimento. Parte disso também se deve ao menor número de funcionários nos centros de dados devido às medidas contra a pandemia.

Portanto, o problema básico parece ser “BGP peering“, que é o pareamento entre os DNS dos serviços do Facebook, em explicação simples (ver Aspectos Técnicos, abaixo, para uma explicação mais técnica), além da distribuição física das equipes por muitos locais separados.

O post foi em seguida apagado, assim como diversas contas desse usuário em outros sites e canais.

Eu imagino que ele não foi autorizado a postar essas informações. Espero que ele não perca o emprego.

Do que o FB tem medo? Penso que desde que essas pessoas não estejam compartilhando informações internas/proprietárias da empresa, esse assunto não é particularmente sensível. Além disso, ter alguma transparência sobre o problema é bom para todos.

Quem gostaria de trabalhar para uma empresa que pode tomar medidas disciplinares drásticas porque um engenheiro postou um comentário no Reddit basicamente para dizer “BGP’s down lol” – Se eu estivesse no comando, daria a ele um modesto bônus, por ajudar a alcançar de forma direta o usuário e a comunidade em geral.

Por outro lado…

Compartilhar o status de um evento em andamento pode complicar a recuperação. Tais relatórios públicos em tempo real podem atrapalhar o fluxo de informação entre as equipes.

Conclusão

Tenho certeza de que acionistas e outros líderes de negócios da empresa ficarão muito mais confortáveis em relatar isso como uma série de falhas técnicas infelizes (que alegarão fazer parte do negócio), em vez de uma falha organizacional de toda a empresa. O fato de não poderem identificar fisicamente as pessoas que conhecem a configuração do roteador mostra uma organização que ainda não pensou em todos os seus modos de falha. Muita gente não vai gostar disso. Não é incomum ter técnicos de datacenter com acesso ao sistema e o pessoal de software real sendo barrado. Contudo, sendo esse o motivo pelo qual um dos serviços mais populares do mundo está desativado por quase 5 horas agora, levantará muitos questionamentos..

Pessoalmente eu também espero que isso não prejudique as perspectivas de aumento no trabalho remoto. Se eles tiverem problemas em colocar na sala de comando alguém que conheça a configuração, porque todos moram a uma viagem de avião dos datacenters, eu posso ver no futuro próximo gerentes de muitos ramos de atividade relutando em ter uma equipe completamente remota.

Fica a lição para os empreendedores, que ficaram reféns de um serviço sobre o qual eles não têm controle. Eu nunca perco a oportunidade de salientar o quanto é importante controlar seus próprios dados e os dados de sua empresa. Faça um site dedicado ao seu negócio em seu próprio domínio. Fale com seus clientes e parceiros através de blogs como este. Consulte uma empresa de sistemas [como a Vox Leone] para ver onde seu negócio pode melhorar. O custo-benefício é altamente compensador. Nunca se esqueça que a tal “nuvem” é apenas o computador de outra pessoa. Use as redes sociais apenas para o que elas foram criadas: falar com papai, mamãe e titia.

Aspectos Técnicos: Sobre o BGP

Como reportou ramenporn, no centro deste apagão está a tecnologia Border Gateway Protocol (BGP), que é o serviço postal da Internet. Quando alguém coloca uma carta no correio, o serviço postal processa a correspondência e escolhe um caminho rápido e eficiente para entregar a carta ao destinatário. Da mesma forma, quando alguém envia dados pela Internet, o BGP é responsável por examinar todos os caminhos disponíveis que os dados podem percorrer e escolher a melhor rota, o que geralmente significa pular entre sistemas autônomos.

BGP é o protocolo que faz a Internet funcionar. Ele faz isso habilitando o roteamento de dados. Quando um usuário em Cingapura acessa um site hospedado na Argentina, o BGP é o protocolo que permite que a comunicação aconteça de forma rápida e eficiente.


Abaixo um traceroute do meio da tarde, mostrando os serviços Facebook em downtime

> traceroute a.ns.facebook.com
      traceroute to a.ns.facebook.com (129.134.30.12), 30 hops max, 60 byte packets
      1  service.local.net (192.168.1.254)  0.484 ms  0.474 ms  0.422 ms
      2  107-131-124-1.lightspeed.sntcca.sbcglobal.net (107.131.124.1)  1.592 ms  1.657 ms  1.607 ms 
      3  71.148.149.196 (71.148.149.196)  1.676 ms  1.697 ms  1.705 ms
      4  12.242.105.110 (12.242.105.110)  11.446 ms  11.482 ms  11.328 ms
      5  12.122.163.34 (12.122.163.34)  7.641 ms  7.668 ms  11.438 ms
      6  cr83.sj2ca.ip.att.net (12.122.158.9)  4.025 ms  3.368 ms  3.394 ms
      7  * * *
      ...

OnlyFans: ex-Empregados Mantinham Acesso às Informações de Usuários

Alguns ex-funcionários da equipe de suporte do OnlyFans ainda continuavam com acesso aos dados dos usuários – incluindo informações pessoais e financeiras confidenciais, mesmo depois de serem demitidos da empresa – usada por profissionais do sexo para vender nus e vídeos pornôs.

Photo by Valeria Boltneva from Pexels

De acordo com um ex-funcionário do OnlyFans – que pediu para permanecer anônimo por temer retaliação, alguns ex-funcionários ainda tinham acesso ao Zendesk, um software de atendimento ao cliente usado por muitas empresas, incluindo o OnlyFans, para rastrear e responder a tíquetes de suporte ao cliente, muito tempo depois de sair da empresa. OnlyFans usa o Zendesk para se relacionar tanto com os usuários que postam conteúdo quanto com os usuários pagantes, consumidores de conteúdo. A revista Motherboard conseguiu confirmar essas informações com mais de um ex-funcionário.

De acordo com a fonte e os usuários do OnlyFans que falaram com a Motherboard, dependendo do assunto para o qual o usuário abre o chamado de suporte, os tíquetes podem conter informações de cartão de crédito, carteiras de motorista, passaportes, nomes completos, endereços, extratos bancários, quanto eles ganharam ou gastaram no OnlyFans, selfies do serviço Know Your Customer (KYC), em que o performer fotografa uma carteira de identificação ao lado do rosto para verificação, além de formulários de licenciamento do material produzido.

Nossa fonte demonstrou à Motherboard como eles faziam para acessar as informações muito depois de terem parado de trabalhar para o OnlyFans.

Em profundidade em motherboard.vice.com

Thoughts.page: um Micro Blog para Ideias Rápidas

Em minhas interações diárias com a Internet geralmente frequento grupos de desenvolvedores de software, de veneráveis pesquisadores de segurança e de fundadores de startups. Não é surpresa que eu, portanto, às vezes tenha a sorte de conhecer coisas em primeira mão. Foi o que aconteceu na semana passada ao conhecer o thoughts.page, um site para ‘microblogging’ muito ágil e inovador.

Ilustração: Vox Leone

À primeira vista ele parece um blog com um tema gráfico muito simples, como os blogs de forma longa, comuns em serviços como Medium e Substack – assim como muitos no WordPress. Desfeita a primeira impressão visual, emerge então um site muito parecido com o Twitter.

Mas sem limites estritos de caracteres. Também sem títulos de postagens. Sem comentários, sem respostas nem @menções. Sem foto de perfil ou avatar. Sem notificações. Com interface apenas em inglês. Fácil de descobrir na plataforma. Fácil de se inscrever. Rápido para ler. Pensamentos controversos permitidos, mas protegidos pela própria arquitetura do sistema, tanto contra ataques dos haters quanto contra o abuso de bots e propaganda. Monetização não suportada. Sem algoritmo, sem cancelamentos.

Para coroar o inusitado, a rigor não é uma plataforma grátis. O preço proposto é de US$ 5 mensais para quem ganha mais de US$ 40,000 por ano [não sei como eles vão verificar – presumo que para os brasileiros será eternamente grátis]. Essa é a grande novidade do Thoughts, que se contrapõe à regra quase universal dos serviços “grátis”, que são oferecidos ao usuário em troca de seus dados comportamentais na rede – o que se tornou a fonte de todos os males na web.

Como há apenas a versão Web, para acessá-lo é necessário usar o “protocolo do dedo”, como nos primeiros dias da web: “aqui está o endereço dos meus status/pensamentos/sentimentos – digite em seu navegador e adicione aos seus favoritos”. Para divulgar o site é preciso propagar o link entre os seus contatos. Ou esperar que ele entre no índice do Google e outros.

No que diz respeito à segurança e privacidade, observo que, pelas suas características, ele é menos propenso a ‘stalking’ ou ‘bullying’ do que Twitter, Instagram, FB, etc. É uma forma de comunicação um-para-muitos sem as interações tóxicas.

Ilustração: Vox Leone

O fato de a plataforma não ter um feed RSS aumenta o nível de esforço necessário para seguir alguém. Mas tem suas compensações. Eu não uso o Twitter, mas há um punhado de pessoas que ocasionalmente checo usando o velho Firefox para ver sua página [que favoritei]. Isso tem a vantagem de manter o número de pessoas que eu sigo a um mínimo absoluto e limitar a frequência com que leio seus tweets, independentemente da frequência com que me lembro de verificar se elas disseram algo novo.

Difícil de descobrir

Com o Thoughts é mais difícil seguir um número muito grande de pessoas [mas esse parece ser o ponto!]. Depois de criado seu blog se torna um subdomínio da plataforma, como por exemplo, leone.thoughts.page. Na prática, não é diferente de visitar um site por meio de um item favorito do navegador [eu com certeza visitaria uma página de pensamentos de uma banda local, de um comediante ou qualquer outra pessoa que tivesse ideias interessantes]. O Twitter começou recentemente a desencorajar esse tipo de visualização passiva [sem login]. Apenas navegar para o perfil do Twitter de alguém [Ex: https://twitter.com/mr-nice-guy] agora resulta em um pop-up me pedindo para fazer o login, e tentar seguir qualquer link resulta em um pop-up semelhante que não pode ser fechado.

Isso pode representar uma oportunidade para esta nova plataforma. Os ventos da web estão para mudar, com a Web 2.0 mostrando sinais de fadiga. A princípio parece que sua configuração que não permite que as pessoas enviem mensagens ou sigam umas às outras (e na qual você não precisa usar seu nome verdadeiro) não pode ser usada para interações sociais. Mas em um segundo pensamento lembro que o mundo está repleto de comunicações unidirecionais [ou bi ou multi-unidirecionais] e portanto sempre haverá casos de uso computacionais para elas. Dois efeitos colaterais positivos dessas comunicações são que, no mínimo, esse esquema neutraliza as interações nocivas e o efeito “bolha de opinião”.

Ilustração: Vox Leone

Eu me pergunto se a falta de ferramentas de interação entre os pares fará com que os eventuais usuários do Thoughts tentem criar soluções alternativas para interagir de outras maneiras. Por exemplo, no início do Twitter as pessoas usavam RT e outras técnicas para divulgar e/ou responder a tweets, embora a própria plataforma não tivesse essas funções. Eu pessoalmente adoraria ver um concorrente para o Twitter [o que é a própria motivação deste post]. Será interessante observar.

Para um leitor, Thoughts desarticula a ideia de ir a um único site específico [como o Twitter], escolher um tópico e ver imediatamente nele um fluxo de pensamentos de muitas pessoas diferentes. Para um escritor, porém, acredito que um micro blog como esse pode ser combinado a um full blog WordPress para complementar e estender pensamentos iniciados nos grandes blogposts e criar uma retroalimentação positiva para ambos os sites.

Como tudo na vida, é preciso conhecer sua audiência. Quem é o público para seus pensamentos? Presumivelmente, não o seu círculo de amigos – que têm suas próprias vidas e não vão atualizar sua página várias vezes ao dia para te ver. As únicas possibilidades que vejo para quem pretende usar a plataforma como um fim em si mesmo são a) que nenhuma outra alma jamais chegue a ler seus escritos lá – caso em que você pode muito bem escrever suas ideias em um arquivo de texto em seu disco rígido, ou b) que atraia a atenção de um tipo que você prefere não receber: um seguidor obsessivo com assustadoramente muito tempo livre em suas mãos ou então enxames de robôs russos visando os vulneráveis e os propensos a compartilhar demais suas emoções.

Mas se você tem uma visão estratégica do que pretende atingir, como blogger ou no relacionamento com clientes, Thoughts parece ser uma grande ferramenta para complementar seu Blog ou para fazer backlinks para aumentar o pagerank de seu(s) site(s). Os seguidores do seu blog principal provavelmente sempre darão uma olhada em seu micro blog.

Ilustração: Vox Leone

E se você é do tipo social ou ‘early adopter’ também sabe que é sempre bom reservar seu nome ou marca em uma nova plataforma que surge [ok, não precisa me agradecer]. A propósito, criei uma conta, e meus pensamentos estão [ou estarão] em leone.thoughts.page [ainda testando]. Salve entre seus favoritos, please. 🙂

* * *

Termo de Isenção de Responsabilidade:

  • Não tenho nenhum tipo de relação com esse site/domínio. Conheci a ferramenta durante a exposição que seu fundador fez no site Hacker News.
  • É bem possível que em breve eu me arrependa de ter postado isto, se o serviço não decolar.
  • E como evangelista da Segurança digital, aproveito para avisar do risco sempre existente de ataques do tipo Cross-Site Scripting neste tipo de site [como é corriqueiro no FB, Twitter et al]. Sempre navegue com consciência.

Abuso Psicológico nas Redes: da AOL ao Facebook

Era uma vez, há cerca de trinta anos, uma rede de computadores chamada America Online. Já existia uma Internet, mas a maioria das pessoas não sabia de sua existência ou sobre como usá-la. A AOL e alguns concorrentes, Compuserve e Prodigy, ofereciam às pessoas atividades simples que elas podiam fazer online, como conversar com outras pessoas. Os serviços tinham apenas uma desvantagem: eram limitados.

Imagem: iStock

As pessoas não podiam fazer o que queriam, só podiam escolher o que havia em um pequeno menu de funções que os serviços disponibilizavam.

À medida que crescia e crescia, a World Wide Web se tornava um lugar incrível, em contraste com a AOL. As pessoas estavam tão empolgadas com a World Wide Web que nunca mais quiseram voltar para a AOL, Compuserve ou Prodigy. Os três serviços definharam.

Entra na história o Facebook

As pessoas ficaram entusiasmadas com o Facebook porque era um lugar onde podiam encontrar pessoas reais que elas conheciam, assim como o MySpace, mas também porque tinha alguns recursos também comuns a AOL, como o jogo Farmville. As empresas ficavam cada vez mais entusiasmadas porque o Facebook começou a gerar muita receita de publicidade.

Os anunciantes gostavam do Facebook porque ele não apenas sabia quem estava falando com quem, mas também sabia bastante sobre os hobbies e interesses das pessoas. Os anunciantes gostaram disso porque podiam agora usar as informações para “direcionar” seus anúncios como nunca antes. Acadêmicos e pundits diziam que o Facebook tinha o que é conhecido como “efeito de rede”. Ele se tornava mais poderoso quanto mais pessoas se juntavam a ele.

Acontece que havia alguns problemas com o Facebook. O Facebook era muito parecido com a AOL. Limitava as pessoas, dizendo-lhes com quem podiam se comunicar. Depois de um tempo, as pessoas não tinham mais controle. Elas haviam fornecido tantas informações íntimas para o Facebook e seus concorrentes que era como se essas empresas fossem donas das pessoas quando elas estavam no ciberespaço. Esses serviços também não pareciam fazer um bom trabalho com as informações que acumulavam sobre os usuários.

Por causa de seu notório sigilo, é difícil saber o quão consciente o Facebook está a respeito dos danos que ele causa a seus “usuários”. Por exemplo, em setembro de 2019, a Insider Magazine publicou um artigo que analisava dados do CDC [Centro de Controle de Doenças dos EUA] a respeito do suicídio de adolescentes nos Estados Unidos.

Eu me pergunto quantos desses adolescentes foram empurrados para o abismo graças a comentários descuidados no Facebook? Quantas outras Michelles Carters [link em inglês] existem por aí?

O problema mais amplo que enfrentamos como sociedade é que simplesmente não sabemos o quão nocivas as redes sociais podem ser. Esse problema das redes sociais é muito parecido com a luta que enfrentamos com as empresas de tabaco – que sempre souberam o quão prejudicial o tabaco era, mas se esforçavam para esconder a pesquisa que eles mesmos realizavam comprovando os fatos. As empresas petroquímicas também se encaixam nesse perfil, com seus próprios cientistas alertando sobre a ligação entre combustíveis fósseis e o aquecimento global.

Há um crescente corpo de evidências a nos indicar que o que o Facebook faz não é apenas algo “inofensivo” como “publicidade direcionada”. Seria muito mais preciso descrever seu modus operandi como “manipulação psicológica”. Essas evidências sugerem que, no contexto amplo da sociedade, a dinâmica entre o Facebook e seus usuários é uma forma de abuso psicológico.

Combater o problema

Talvez seja hora de reunirmos algum tipo de Comissão Parlamentar de Inquérito [sob os auspícios da OMS] e fazer com que se exija, para o bem da saúde pública, que todas as grandes redes sociais sejam obrigadas a entregar detalhes de todas as “análises internas” que possuem sobre os efeitos de sua plataforma em sua base de usuários. Essa CPI idealmente deve ter autoridade para forçar o testemunho de todos profissionais de psicologia empregados por essas empresas.

Na verdade, talvez seja hora de determinar que todas essas empresas [acima de um determinado tamanho de base de usuários] devem, por lei, ter psicólogos clínicos na equipe e exigir que esse pessoal esteja envolvido na supervisão das decisões estratégicas em relação ao design e implementação dos recursos da plataforma.

Há uma expressão comumente usada em sistemas legais do Ocidente: “Ignorância da lei não é defesa”. No Brasil, o artigo 3 da Introdução ao Código Civil dispõe: “Ninguém se escusa de cumprir a lei alegando que não a conhece” Por uma linha de pensamento semelhante, ocultar atos de dano criminoso ou negligência parece, à primeira vista, tornar uma corporação cúmplice, se o ato original atingir o nível de comportamento criminoso.

Infelizmente, as coisas começam a ficar muito obscuras quando você explora o desafio de definir “dano mental” em termos de um ato criminoso. Pelo que li antes de postar este comentário, o problema fica quase intratável quando combinamos o desafio de estabelecer o grau de dano que um indivíduo pode sofrer, com o desafio de demonstrar que o dano veio como resultado direto das ações das corporações. Perguntas complexas surgem: o usuário/paciente era predisposto? Era vulnerável, emocional ou mentalmente?

Em outras palavras, parece ser bastante possível que uma empresa estabeleça um modelo de negócios nocivo ao bem-estar emocional e/ou mental de usuários e ainda assim opere impunemente, escondendo-se atrás da dificuldade de se provar que a empresa foi a causadora do dano.

É o que provavelmente pode estar acontecendo agora: estamos bloqueados nas nossas ações – cientes de que há um dano sendo causado pelas redes sociais, mas incapazes de fazer qualquer coisa a respeito.

Fugindo da Internet Comum

Devo primeiro definir meus termos. Usarei a expressão “Internet comum” para distinguir a nossa velha conhecida “rede mundial de computadores” das redes alternativas, que tecnicamente são chamadas de redes de sobreposição de Internet [‘overlay networks’] – algumas das quais são comumente rotuladas como “dark nets“. A maioria das pessoas hoje em dia se refere à Internet comum como “a web”, embora o significado desse termo tenha mudado ao longo dos anos.

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Originalmente, a web consistia apenas dos sites da Internet cujos URLs começavam com “www”. Agora, para a maioria das pessoas, a web significa toda a Internet. Costumo usar a expressão “mainstream Internet” para me referir aos sites mais conhecidos e movimentadas na Internet comum, especialmente os sites dos gigantes da mídia social como Facebook, Twitter e Reddit.

Há um indicador recente detectado nos países avançados: muitas pessoas estão decidindo dar uma pausa na Internet comum ou, pelo menos, diminuir o tempo dedicado às interações online. Muitas dessas pessoas estão procurando [e muitas vezes encontrando] alternativas para as principais mídias sociais e sites corporativos em geral. Uma dessas alternativas é a rede descentralizada Diaspora – também chamada “rede federada” [link para um servidor Diáspora em português]. Alguns estão indo ainda mais longe, distanciando-se até mesmo do protocolo de hipertexto [HTTP] e gravitando em direção a protocolos de rede mais amigáveis ​​e de ritmo mais lento, como Gopher e Gemini.

Quanto aos motivos, alguns reclamam que os usuários da Internet têm se mostrado cada vez mais intolerantes e mesquinhos desde a década de 1990. Outros desejam dar uma pausa nas redes sociais mais propensas a criar dependência. Alguns consideram que a Internet como um todo aumenta o volume de distração que os leva à procrastinação. Muitos estão incomodados com o comercialismo galopante que suplantou algo que foi concebido para facilitar a transferência de informações úteis e promover o crescimento do conhecimento.

Grande parte está simplesmente cansada ​​de ser rastreada e espionada. Milhões desses usuários querem recuperar a capacidade de falar livremente, algo que foi tirado deles por políticas corporativas e governamentais que limitam os tipos de conteúdo que podem ser postados nas redes sociais.

Não acho, porém, que o desencanto dos usuários com grande parte da Internet seja uma nova tendência, nem vejo uma migração em massa ocorrendo tão cedo. Mas, dados os aspectos cada vez mais desagradáveis ​​da mídia social convencional, acredito que o desencanto é agora particularmente pronunciado.

À medida que a Internet comum se torna mais centralizada, a emergência de redes alternativas atraindo consistentemente mais usuários tem o efeito oposto. Dessa forma, a Internet está se tornando mais centralizada em uma dimensão e mais distribuída em outra – ao mesmo tempo. Isso oferece oportunidades para aqueles que estão cientes desse fenômeno e desejam aproveitá-lo. Ao mesmo tempo, aqueles que estão alheios ficam cada vez mais encurralados nos jardins murados franqueados pelo Facebook, Google e outras corporações gigantes.

Talvez isso seja a evolução inevitável de uma tecnologia como a Internet, que oferece uma interface ilimitada, possibilitada por um número astronômico de protocolos de comunicação e endereços de rede. Talvez a Internet tenha se tornado a ‘fronteira final’ que há 60 anos pensávamos que o espaço seria.

Um tipo diferente de site

Na década de 1970, os varejistas americanos descobriram que adolescentes indisciplinados podiam ser expulsos de suas lojas sem alienar os clientes adultos. O método que eles usaram foi tocar música clássica e ‘muzak‘. Adolescentes rebeldes naturalmente achavam que a música clássica era “música de gente velha” e mostravam sua desaprovação abandonando os estabelecimentos que a tocavam – para a alegria dos proprietários. Outra prática era colocar iluminação rosa suave, especialmente em banheiros. Supostamente, isso tornava a acne dos adolescentes mais pronunciada, fazendo com que eles se sentissem desconfortáveis ​​e com vontade de ir embora.

Gigantes da mídia social como Facebook, YouTube, TikTok e Pinterest sabem que – como mariposas pela chama – a grande maioria dos usuários da Internet é atraída por sites chamativos, repletos de imagens, animações e vídeos de qualidade variada [e, o melhor de tudo, grátis]. Exatamente por esse motivo, alguns geeks descontentes criaram blogs e sites não comerciais que não possuem nenhuma dessas miçangas e espelhos. Eles querem que seus sites sejam menos atraentes para os usuários mais extrovertidos, menos intelectuais, como também para os assediadores de qualquer um que exiba o menor vestígio de individualidade ou pensamento original [trolls]. Muitos dos que criaram sites em redes alternativas também querem evitar a invasão de empreendimentos comerciais que acabem por atrair esses usuários ‘indesejáveis’. Outros criadores querem apenas sites simples e eficientes. Esses não estão tão preocupados com quem os frequenta.

Usuários avançados e mais tecnologicamente capazes estão preferindo redes descentralizadas e distribuídas (diagramas ao centro e à direita) para sua presença na Internet. Essas redes propiciam maior controle e privacidade, uma vez que a comunicação entre os nós (membros) não precisa passar por um centro. As redes sociais como Facebook e Instagram adotam uma topologia rigidamente centralizada, onde todas as interações passam pelo servidor central (à esquerda).

Aqueles que optam por filtrar os indesejáveis ​​geralmente seguem uma ou mais das abordagens citadas acima. Alguns criam sites baseados apenas em texto, para afugentar aqueles usuários que são facilmente atraídos pelo brilho fútil. Alguns desses administradores de site consideram um certo nível de dificuldade na interface gráfica como algo desejável. Eles querem que os “normies” com déficit de atenção nem sequer tentem aprender a usar seus sites. A atitude extrema que esses criadores adotam é isolar-se da multidão convencional, mudando para redes alternativas que só podem ser acessadas por meio de software esotérico, como o TOR.

Pessoalmente, dada a dificuldade de atrair usuários para qualquer novo site ou rede, não vejo necessidade de desencorajar ativamente os recém-chegados. Aqui ninguém é considerado menos desejável a priori. Acredito que fornecer uma plataforma que incentive a liberdade de expressão é mais importante do que se proteger de alguém que possa discordar ou ser rude.

Por outro lado, não posso criticar um desenvolvedor por querer criar uma plataforma para pessoas afins. De fato, eu acho que esse problema geralmente se resolve sozinho. Posso entender o ponto de vista daqueles que temem que o site que eles construiram com carinho – e aprenderam a amar – acabe se tornando mais um paraíso para defensores do voto impresso e negacionistas da pandemia.

A linha que adotei com o Vox Leone foi apenas criar um site simples e eficiente. Todos são convidados a ler e comentar como quiserem (sempre mantendo a civilidade, please). O nosso fórum está aberto a todos. Os únicos comentários ou postagens que já removi foram aqueles que eram completamente fora do tópico ou ininteligíveis. Geralmente, escrever tão diplomaticamente quanto sou capaz (embora muitas vezes eu falhe) parece funcionar para que tenhamos aqui um ambiente civil e criativo, frequentado por pessoas inteligentes e cordatas – apesar de muitos terem opiniões divergentes das minhas. Eu não me importo com discordâncias. Comentários contrários de pessoas bem informadas geralmente são esclarecedores.