Aborto: Histórico na Web Usado para Incriminar Mulheres

Com a recente rejeição da decisão ‘Roe v. Wade’ pela Suprema Corte dos EUA, o tema da privacidade reprodutiva ganha dimensão cada vez maior no debate público.

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Espero que meu esforço em tratar do assunto com objetividade e sensibilidade neste post tenha resultado em algo aceitável e útil.

Pesquisadores de Segurança & Privacidade têm alertado há tempos que o histórico de atividade na internet pode ser usado para processar mulheres que um dia chegaram a procurar aborto. A julgar pelos fatos, os pesquisadores foram conservadores em sua previsão, pois, na verdade, isso já teria acontecido, segundo uma reportagem do Washington Post de 2015.

De acordo com o artigo, uma mulher de Indiana recebeu uma sentença de 20 anos de prisão (link em inglês) com base, em parte, nas mensagens de texto que ela enviou (embora essa condenação depois tenha sido anulada).

O caso provocou reações em vários países ao redor do mundo. Uma organização que encaminha mulheres para o procedimento de aborto em países com leis menos restritivas diz na reportagem do Post que eles agora passaram a usar aplicativos de mensagens criptografadas, como o Signal, além de redes virtuais privadas (VPN), para minimizar as pegadas de suas pesquisas na web.

O site MSN reporta que em alguns casos ao longo dos anos, “promotores americanos usaram mensagens de texto e pesquisas online como provas contra mulheres enfrentando acusações criminais (link em inglês) relacionadas com o fim de suas gravidezes”. Diz o MSN:

Apesar da crescente preocupação de que a intrincada rede de dados coletados por aplicativos de fertilidade, empresas de tecnologia e corretores de dados possam ser usados para provar uma violação das restrições ao aborto, na prática a polícia e os promotores já se serviram de dados mais facilmente acessíveis – coletados de mensagens de texto e pesquisas do histórico de navegação em telefones e computadores. Esses registros digitais das vidas das pessoas comuns às vezes são entregues voluntariamente, ou então obtidos com um mandado judicial, e têm fornecido um tesouro de informação para as agências de aplicação da lei. “A realidade é que usamos nossos telefones para tudo hoje em dia”, disse Emma Roth, advogada do National Advocates for Pregnant Women. “Existem muitas, muitas maneiras pelas quais a repressão policial pode analisar a jornada de alguém em busca de um aborto através dos numerosos sistemas de vigilância digital…”

As mulheres são punidas por interromper a gravidez há anos. Entre 2000 e 2021, mais de 60 casos nos Estados Unidos envolveram alguém sendo investigado, preso ou acusado por supostamente interromper sua própria gravidez ou ajudar outra pessoa, de acordo com uma análise da If/When/How, uma ONG de justiça reprodutiva. A IWH estima que o número de casos pode ser muito maior, porque é difícil acessar coordenadamente os registros de todos os municípios do país.

Vários desses casos se basearam em mensagens de texto, histórico de pesquisa e outras formas de evidências digitais.

Esta é uma razão pela qual a privacidade dos dados, assunto recorrente neste blog, é de importância vital. Nos deixamos iludir pela aparente estabilidade do presente, sem atentar para o fato de que as leis podem mudar repentinamente, em um átimo, por um ato unilateral de um governo autoritário, e os registros das atividades dos cidadãos – muitas delas não são mais legalizadas – podem passar a ser usados para persegui-los.

Rios de sangue foram interrompidos nos lugares onde o aborto foi legalizado, ou passou a ser tolerado. Estatísticas confiáveis mostram que o número de mulheres que morrem de abortos clandestinos, ou no parto, ou assassinadas pelos homens que as engravidaram – mas que não querem que elas tenham seus filhos – cai drasticamente quando o acesso ao aborto é garantido.

A abordagem científica considera o aborto um problema de saúde pública, logo, a maneira inteligente de prevenir o aborto – de acordo com 10 em cada 10 cientistas – é investir na prevenção de gravidezes indesejadas.

O Capitalismo de Vigilância

Este debate traz de novo para o primeiro plano as ameaças colocadas pela vigilância governamental institucionalizada e pelo Capitalismo de Vigilância, no qual nossas informações online são vendidas repetidamente, a todo momento, por grandes corporações. O que acontece, nesse ambiente inquisitório em que vivemos hoje, quando alguém quiser apenas se educar sobre o aborto? Onde é ele empregado? Como ele é feito? Em uma sociedade como a dos EUA, adepta à litigação e com baixa tolerância criminal, tudo isso agora pode ser considerado informação passível de acusação.

Uma hipótese para estudo

Meus cálculos em um guardanapo [teoria dos grafos] parecem indicar que bastam apenas três pontos de dados para dar início à suspeição de que um aborto aconteceu.

Cenário Aa:

Alice é uma mulher do seu tempo, que tem relacionamentos, usa redes sociais e consome na Internet usando meios modernos de pagamento.

Eva é uma analista de dados que trabalha para um grupo antiaborto que se reporta à polícia, e seu trabalho é vigiar a Internet à procura de desviantes reais e imaginários. Os dados que Eva extraiu da Internet indicam que:

  • Alice comprou um teste de gravidez – informações de cartão de crédito
  • Alice cortou a ingestão de álcool – informação derivada do levantamento do consumo de Alice
  • Alice começou aulas de yoga – informação encontrada nos perfis sociais

Eva faz suas deduções e espera que Alice faça o anúncio da gravidez no Instagram a qualquer momento, como ela costuma fazer com tudo

Alice posta o anúncio da gravidez.

Ação: Eva agenda para dali a nove meses uma nova checagem do histórico de Alice para verificar o resultado da gravidez. Se o bebê não for detectado no tempo devido: Investigar/Processar possível aborto.

Cenário Ab: Alerta – ação imediata requerida:

  • Alice não postou resultados do teste de gravidez no Instagram – como ela faz com tudo
  • Alice fez uma pausa nas mídias sociais
  • Alice começa a visitar sites de medicina alternativa
  • Alice reserva uma passagem para o México [Eva sabe – pelas redes sociais – que Alice não gosta do México]

Ação: Procurar/Investigar/Processar AGORA.

Nos dias de hoje esse tipo de vigilância certamente está ao alcance, não só dos agentes da Lei, como também de qualquer instituição formada por “cidadãos preocupados” [como os grupos radicais antiaborto que abundam na América do Norte]. Qualquer pessoa motivada e capaz pode ter acesso a poderosas ferramentas de Extração e Análise de Dados.

Para concluir

As mulheres estão no foco das atenções neste momento, mas à medida que novas leis entrarem em vigor, homens também poderão ser processados por atos como “auxiliar” um aborto. O que pode incluir qualquer coisa, desde pesquisar, dizer a alguém onde o aborto está disponível, dizer a alguém que o aborto está disponível, informar quais drogas podem causar um aborto espontâneo, etc. Na verdade, em alguns estados americanos, é possível ser processado por sugerir a uma mulher que ela saia do estado para fazer um aborto.

As consequências do acirramento da repressão ao aborto são bastante simples de prever. Abortos vão continuar a acontecer, apenas em circunstâncias diferentes. Os “fazedores de anjos” vão continuar a existir. (*) Nos países de fala alemã, nos tempos em que o aborto ainda era ilegal, os que prestavam ajuda no aborto recebiam o apelido eufemístico “Engelmacher” (traduzido literalmente como “fazedor de anjo”). E as coisas eram como na canção sombria e cínica “A Velha Fazedora de Anjos (Engelmacherin)”, de Gerd Bronner: “com seu instrumento sem antisséptico, ela não fez um anjo, ela fez dois”.

Nada vai mudar. Exceto dinheiro. Esse vai mudar de mãos.

— o —

Post Scriptum

Os “não nascidos” são um grupo conveniente de pessoas para defender. Eles nunca fazem exigências; são moralmente descomplicados, ao contrário dos encarcerados, viciados ou dos cronicamente pobres; eles não se ressentem de sua condescendência nem reclamam que você não é politicamente correto; ao contrário das viúvas, eles não pedem que você questione o patriarcado; ao contrário dos órfãos, eles não precisam de dinheiro, educação ou creche; ao contrário dos imigrantes, eles não trazem toda aquela bagagem racial, cultural e religiosa que você despreza; eles permitem que você se sinta bem consigo mesmo sem nenhum esforço para criar ou manter relacionamentos; e quando eles nascem, você pode então esquecê-los, porque eles deixam de ser não nascidos.

Você pode amar e defender o não nascido sem ter que arriscar substancialmente seu próprio dinheiro, poder ou privilégio, sem ter que reimaginar as estruturas sociais, sem pedir desculpas ou fazer reparações a ninguém. Os não nascidos são, em suma, as pessoas perfeitas para amar se você quiser afirmar que ama Jesus, mas na verdade, no fundo, não gosta das pessoas que respiram.

Prisioneiros? Imigrantes? Os doentes? Os pobres? Viúvas? Órfãos? Todos os grupos que são especificamente mencionados por Jesus? Todos eles são sacrificados em favor dos não nascidos.

Pastor Metodista David Barnhart – Birmingham, Alabama

Cyberfront: Sabotagem Começa a Atingir o Software Open Source

O site Ars Technica reporta que um desenvolvedor foi pego adicionando código malicioso a um popular pacote de código aberto que apagou arquivos em computadores localizados na Rússia e na Bielorrússia como parte de um protesto que enfureceu muitos usuários e levantou preocupações sobre a segurança do software livre e de código aberto.

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O aplicativo, node-ipc, adiciona a um sistema recursos de comunicação e redes neurais a outras bibliotecas de código aberto. Por ser uma dependência de outro programa, o node-ipc é baixado automaticamente e incorporado a outras bibliotecas, incluindo algumas como Vue.js CLI, que possui mais de 1 milhão de downloads semanais.

A atualização espúria do node-ipc é apenas um exemplo do que alguns pesquisadores estão chamando de protestware. Especialistas começaram a rastrear outros projetos de código aberto que também estão lançando atualizações chamando a atenção para a brutalidade da guerra da Rússia. Esta planilha lista 21 pacotes diferentes que são afetados.

Um desses pacotes é o es5-ext, que fornece código para a especificação da linguagem de script ECMAScript 6. Uma nova dependência chamada postinstall.js, que o desenvolvedor adicionou em 7 de março, verifica se o computador do usuário tem um endereço IP russo. Em caso positivo o código transmite uma “mensagem de paz”.

“Mensagem de paz”, que o sabotador codificou no aplicativo comprometido – Imagem da Internet

As pessoas que não trabalham no ramo talvez se surpreendam com a grande quantidade de software crítico que depende dos caprichos de programadores anônimos que mantêm bibliotecas de software de forma inconsistente, como hobby ou projeto secundário. Repetidas ocorrências estão transformando isso em uma vulnerabilidade séria. A Casa Branca anunciou no ano passado uma iniciativa para começar a resolver esse problema, declarando que vai passar a exigir uma “lista de materiais de software” para todo software encomendado pelo governo:

…o termo “Lista de Materiais de Software” ou “LMDS” significa um registro formal contendo os detalhes e relacionamentos da cadeia de suprimentos de vários componentes usados na construção de software. Desenvolvedores e fornecedores de software geralmente criam produtos montando e mesclando componentes de software comercial e de código aberto dos repositórios existentes. A LMDS enumera esses componentes em um determinado produto. É análogo a uma lista de ingredientes em embalagens de alimentos. Uma LMDS é útil para quem desenvolve ou fabrica software, para quem seleciona ou compra software e para quem opera software. Os desenvolvedores geralmente usam componentes de software de código aberto e de terceiros disponíveis para criar um produto; uma LMDS permite que o desenvolvedor certifique-se de que os componentes de terceiros usados em seus projetos estejam atualizados e responda rapidamente a novas vulnerabilidades. Por exemplo, os compradores podem usar uma LMDS para realizar análise de vulnerabilidade ou licença. Aqueles que operam software podem usar LMDSs para determinar facilmente se estão em risco potencial de uma vulnerabilidade recém-descoberta. Um formato LMDS universal, legível por máquina, que seja amplamente utilizado, permite maiores benefícios por meio da automação e integração de ferramentas. Os LMDSs ganham maior valor quando armazenados coletivamente em um repositório que pode ser facilmente consultado por outros aplicativos e sistemas. Compreender a cadeia de suprimentos de software, obter um LMDS e usá-lo para analisar vulnerabilidades conhecidas são cruciais no gerenciamento de riscos.

Fornecedores governamentais

Vários empreiteiros de defesa em todo o mundo usam recursos de código aberto em todos os tipos de aplicativos implantados em sistemas militares, desde comunicações, navegação, controle de voo, controle de fogo e aplicativos de missão crítica.

Grande parte do código que é modificado ou adicionado nos repositórios de código aberto está dentro do contexto de aplicativos seguros. A questão, porém, é qual o nível de exposição dos sistemas de missão crítica e outros sistemas vulneráveis a esse problema? Qual o componente de risco/recompensa mais aparente nessa escalada interminável de guerra de códigos? Talvez estejamos diante da necessidade de um acordo de não proliferação de armas cibernéticas entre estados-nações.

Bom começo

Uma LMDS é apenas uma boa prática. Os projetos de desenvolvimento bem executados sempre devem ter uma lista de requerimentos de sistema para gerenciar dependências e atualizações. Algumas licenças, a GPL e a LGPL em particular, exigem implicitamente uma licença parcial na medida em que exigem a identificação dos componentes GPL para o destinatário. Estabelecer uma lista de requerimentos que possa ser compartilhada não é um um problema complicado e é um bom começo.

...mas não suficiente

A dimensão do problema está muito além de uma Lista de Materiais. Um grande número de desenvolvedores executa muitos pacotes de software que são atualizados em massa, ou muitas vezes atualizados automaticamente a partir de uma ampla variedade de “fornecedores” em vários países.

No mundo do código aberto, instalamos chaves para os gerenciadores de repositórios (como o Ubuntu) que, em teoria, assinam os pacotes destinados ao download pelos usuários após verificá-los, mas na verdade não os verificam. Portanto, quando o desenvolvedor oficial autorizado de um pacote deseja inserir malware em seu pacote, pouco ou nada pode detê-lo. É uma violação de confiança que pode resultar em punição – uma punição que virá após o fato.

O desenvolvedor do qual falamos aqui atacou indiscriminadamente tanto civis como alvos legítimos em sua sanha de justiça – talvez tenha até cometido um crime de guerra. O que aconteceria se ele tivesse codificado seu programa para atingir alvos militares sensíveis no contexto geral das relações Leste-Oeste? E se fosse o próprio computador de Putin?

Nenhuma regra vai parar isso. Se o seu país estiver em uma guerra (uma que ele começou ou para a qual foi arrastado), você deve considerar que qualquer atualização de software em seu sistema vem de um adversário – ou de uma fonte que pode ser comprometida pelo seu adversário. Essa é a realidade da guerra.

A Guerra Cibernética que não Houve

Mesmo aqueles de que sempre foram céticos quanto à caracterização errônea dos riscos cibernéticos como armas catastróficas de destruição, em vez de ameaças certamente graves – mas bastante diferentes – de interrupção e desestabilização crônicas, ficaram surpresos com o quão pouco as operações cibernéticas apareceram até agora no conflito na Ucrânia.

Guerra Cibernética
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Praticamente todos os pesquisadores de segurança do planeta alertaram sobre o risco de os Russos executarem ataques cibernéticos maciços durante e após a desditosa invasão. Nós também refletimos essas preocupações aqui no blog. Entretanto, as previsões iniciais ainda não se concretizaram, e os observadores agora se desdobram na tentativa de explicação da estratégia russa.

O site lawfare.blog comenta que

O punhado de ataques cibernéticos sérios do Kremlin à Ucrânia antes e por volta do início da invasão parecem representar apenas a continuidade de sua longa campanha de assédio cibernético ao país na última década, ao invés de uma séria escalada das hostilidades. Parece ter havido pouco esforço, por exemplo, para atingir o núcleo da infraestrutura de internet da Ucrânia. Em vez disso, os mísseis chovem e os soldados e tanques chegam. Da mesma forma, as ações de atores pró-ucranianos em desfigurar e derrubar sites russos podem envergonhar o Kremlin, mas dificilmente merecem o termo muito mal utilizado de “ciberguerra”. (Relatórios ainda não verificados de um vazamento maciço de dados pessoais de soldados russos seriam muito mais impactantes se verdadeiros).

Aumentam mas não inventam

O comentarista Steven J. Vaughn Nichols, do The Register [link], argumenta que previu que o grupo russo de hackers GRU Sandworm lançaria um ataque cibernético que arruinaria a rede elétrica da União Européia ou destruiria os principais sites da Internet dos EUA, como Google, Facebook e Microsoft – ou interromperia os serviços de celular.

“Eu estava errado. Pelo menos até agora, de qualquer maneira. Claro que, para surpresa de ninguém, a Rússia e seus fantoches lançaram ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) contra sites ucranianos.

Mas, onde estão os ataques maciços? Por que o sistema elétrico da Ucrânia ainda está funcionando? Por que, em vez de fechar as redes de TV da Ucrânia com ataques cibernéticos, eles tiveram que explodir uma torre de TV de Kiev? Será que acabamos por deixar a paranoia anular nosso bom senso?

Quem dera fosse isso.

Não é paranoia quando se vê que o presidente russo Vladimir Putin realmente está a fim da Ucrânia – e, pela maneira como ele fala, talvez de todos nós. Basta perguntar à Bulgária, República Tcheca, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia e Eslováquia. Esses países acreditam que sua ‘integridade territorial, independência política ou segurança’ está ameaçada.

Eles têm boas razões para se sentir assim. E talvez essas razões sejam a chave para o motivo de ainda não termos visto um ataque cibernético russo em massa.

Domínio da Informação

O sofisticado hacker group GRUGQ avalia que “a salva cibernética de abertura da Rússia esteva claramente ligada ao seu planejamento de guerra. Eles parecem ter usado programas ‘limpadores’ [wipers] para derrubar sistemas governamentais, militares e de comunicações, a fim de degradar a capacidade de defesa da Ucrânia. E o ataque ao KA-SAT também está relacionado à capacidade militar ucraniana.

Esses tipos de ataques estão muito alinhados com o modelo tradicional de guerra cibernética. Foram ataques táticos exploratórios e direcionados. A resposta cibernética da Ucrânia tem sido de espectro completo [full spectrum]. A mais hábil foi a convocação de um exército global de hackers civis.

A resposta cibernética mais interessante da Ucrânia tem sido o domínio do espaço da informação. Certas pessoas continuam denegrindo esses esforços como fáceis “porque o Ocidente é simpático”, mas essa é uma análise de desdém muito superficial. A Ucrânia é muito experiente em suas operações de informação.

A Ucrânia cria narrativas complexas que ressoam com seu público-alvo. Internamente, suas mensagens são muito, muito diferentes do que eles compartilham com o público ocidental. Eles conseguiram acertar no apelo: os justos que podem perder se o apoio vacilar.

A Rússia falhou no domínio da informação. Eles não estavam preparados para uma guerra de longo prazo. Agora, seus recursos disponíveis para operações de informação estão bastante reduzidos e sob estresse.”

Finalmente

Se me é permitido, eu acrescentaria que o Kremlin criou um estressor além da capacidade de resistência de sua campanha de desinformação e manipulação.

Até agora, as mentiras domésticas e internacionais do Kremlin – na medida em que o conteúdo dizia respeito às relações externas da Rússia, e especialmente da Ucrânia – quase sempre concordavam. Isso era necessário, porque os canais de comunicação ainda estavam abertos, e um número suficiente de russos influentes tinha acesso às Mentiras para o Consumo Estrangeiro; uma grande divergência nas informações teria sido problemática.

A necessidade de “manter as histórias sincronizadas” pode ter sido um fator na tática bizarra (e talvez autodestrutiva) de insistir que a Rússia não tinha planos de invadir enquanto, de forma abrangente (e com grandes despesas), fazia todos os preparativos para invadir: para satisfazer o público doméstico, Putin teve que se passar por um bufão no cenário mundial.

Agora, os russos estão amplamente isolados de fontes de informação estrangeiras; a internet russa está progressivamente fechada, e o que está disponível está quase submerso pelo tsunami de desinformação do Kremlin.

Com a “operação de desinformação estrangeira” [mídias sociais do ocidente] efetivamente cortada, esmagada por crimes tão ofensivos que até os mais repugnantes babacas dificilmente poderiam defendê-los, justificativas grotescamente absurdas, como “desnazificação”, podem seguir seu curso.

Na Rússia, não há guerra; apenas uma missão humanitária em Donbas.

F-Droid – Repositório Android de Código Aberto e Livre

Os smartphones continuam produzindo vítimas, à esquerda e à direita. O caso ilustre mais recente, e bizarro, foi o do deputado da Assembleia paulista, pego em uma molecagem épica.

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É até divertido. Enquanto as pessoas continuarem a ignorar a tecnologia subjacente e usar smartphones na ilusão de estarem em privacidade os incidentes – e as revelações – vão continuar sua marcha, para nosso deleite*.

A fachada social, a reputação e o patrimônio das pessoas correm um risco constante na cultura da atenção e da vigilância, impulsionada pela conectividade tóxica. A vida em 2022 é mergulhada em um ambiente tecnológico sem freios éticos. As tecnologias de conectividade imploram por uma revisão geral.

O ambiente Android é notório, entre tecnologistas e engenheiros de software éticos, por sua brutal falta de princípios morais. O usuário médio não faz a menor ideia do monstro que coloca em movimento a cada interação, cada like e a cada share [e, pela minha experiência, faz um about-face toda vez que alguém tenta lhe explicar, como agora – as pessoas odeiam falar de privacidade e eu adoro provocar sua reação].

Existe alternativa a esse estado de coisas assustador? Não, não existe nenhuma solução perfeita nesta situação social de massivo analfabetismo científico-tecnológico. Contudo, podemos falar em mitigação das ameaças. Nesse momento, entra em cena o F-Droid, sistema aberto e livre [as in speech], alternativo ao mefistofélico Android.

A ética tem sido central para a comunidade F-Droid desde o início, com foco em software livre, privacidade e no controle do usuário sobre a plataforma. Uma parte fundamental do design do F-Droid é a ausência de contas de usuário.

No F=Droid, contas de usuário nunca são usadas no processo de entrega de aplicativos. Isso é por design. O F-Droid nunca teve um método para identificar ou rastrear usuários no Android. Obter informações no site f-droid.org também nunca exigiu nenhum tipo de identificação pessoal.

Ter contas de usuário torna alguns problemas muito mais fáceis de resolver: torna mais fácil incluir classificações, revisões e personalizar a documentação. No entanto, ter contas de usuário torna outros problemas muito mais difíceis de resolver, a ponto de o custo-benefício ser negativo.

As contas de usuário inevitavelmente significam que informações de identificação pessoal (IPI) serão coletadas. Contas de usuário também exigem senhas e, adicionalmente, números de telefone ou endereços de e-mail. Todos esses dados precisam ser defendidos contra acesso indevido, o que é problemático na plataforma Android. Um dos principais objetivos do F-Droid é eliminar a possibilidade de rastrear os usuários.

Quando se trata de smartphones, a verdade que nunca é dita é que contas de usuário não são um requisito técnico para a criação de um serviço – embora inúmeros aplicativos façam parecer que sim. As contas de usuário são a maneira perfeita para coletar dados e vinculá-los na criação de perfis estatísticos muito detalhados. Essa arquitetura é fundamental para rastrear usuários, a fim de mercantilizá-los e oferecê-los no pregão da economia da atenção.

As contas de usuário também são usadas para controlar o acesso a informações e dados. Elas são usadas ​​para “bloquear região” de vídeos e bloquear seletivamente o acesso a aplicativos. É claro que existem casos de uso legítimos para restringir o acesso, como garantir que crianças possam acessar apenas conteúdo apropriado para a idade. Por outro lado existem outras maneiras de fazer isso, como a curadoria de repositórios para que o material adulto seja entregue por meio de repositórios separados e opt-in.

As contas de usuário são fundamentais para rastrear pessoas

Contas e IDs de usuários são uma parte essencial do rastreamento de usuários e da criação de perfis estatísticos duradouros. Já se tornou um truismo da Intenet, que se um serviço qualquer exige uma conta para acessá-lo, esse serviço certamente está rastreando seus usuários. Quando um usuário faz login, ele está dizendo claramente ao serviço quem ele é. E esse serviço pode facilmente atribuir ações específicas a essa conta no ato da criação do perfil.

Isso não quer dizer que não haja motivos válidos para rastrear usuários. Como mencionado anteriormente, os editores da Wikipédia são um exemplo de serviço essencial construído com base nas contas dos usuários. O que estamos dizendo é que se a privacidade é um bem importante, os requisitos de login dos infinitos sites e serviços da Internet pedem que paremos um instante para pensar.

O Google nos fornece um exemplo não muito edificante. Ele se esforça muito para fazer com que as pessoas façam login o máximo possível, e a maioria de seus serviços exige que os usuários façam login com uma conta. Até o seu navegador Chrome exige logins, que são obviamente vinculados a contas do Google. Eles geralmente justificam esse requisito dizendo que isso torna os serviços mais fáceis de usar e, portanto, “mais convenientes”. A estrada da conveniência ainda vai nos levar a todos para o purgatório.

Embora seja óbvio que o rastreamento de usuários possa fazer com que certas coisas sirvam melhor ao perfil de um usuário, o Google parece consistentemente aplicar esses casos a situações em que eles têm uma vantagem clara em obter mais dados de rastreamento.

O que funciona sem contas de usuário?

F-Droid não está sozinho na entrega de serviços úteis sem contas ou perfis de usuários. Existe toda uma linha de aplicativos, como navegadores, wikis, blocos de notas compartilhados, videoconferência, mensagens e análises estatísticas.

A primeira pergunta a ser respondida é: um serviço precisa saber quem são os usuários para funcionar? Essas informações podem permanecer apenas no dispositivo do usuário? Por exemplo, um serviço de e-mail ou de mensagens precisa saber o suficiente sobre seus usuários para poder direcionar dados de um usuário que envia uma mensagem para o destinatário pretendido. Isso significa principalmente que o servidor de mensagens depende de cada usuário ter uma conta.

Essa é uma maneira comum de implementar esse sistema, mas não é a única. Tor Onion Services [forneço o link para informação, mas não concordo com o nome do verbete da Wiki em português] segue uma abordagem diferente. Eles são projetados para rotear dados sem que nenhuma parte do sistema possa ver quem está enviando dados para quem e quem está fazendo a solicitação. O aplicativo de mensagens Briar, oferecido pelo F-Droid baseia-se nesse esquema para fazer as mensagens funcionarem sem que ninguém saiba quem está enviando para quem, fora os envolvidos na conversa. Com o Briar, as informações de contato do usuário ficam armazenadas apenas nos dispositivos dos usuários.

O aplicativo de videoconferência foi construído em torno de IDs de usuários, como contas e números de telefone. Serviços como Jitsi Meet [serviço oposto ao proprietário e fechado Zoom] foram pioneiros em uma nova forma de conexão: cada sala de conferência é representada por um nome em na URL, por exemplo, https://meet.jit.si/CanalDoTrabalho. Qualquer pessoa que tenha esse URL pode abri-lo em um navegador e entrar na sala.

O Jitsi Meet funciona lindamente e já demonstrou que as reuniões online realmente funcionam melhor sem contas de usuário – e são muito mais fáceis de configurar e gerenciar. Plataformas de reunião que não suportem ingresso com apenas uma URL [sem conta de usuário] estão fadadas à extinção.

A Wikipedia é um ótimo exemplo híbrido. É possível editar a maioria das páginas sem uma conta, apenas clicando em editar e fazendo as alterações. O conteúdo gerado pelo usuário inevitavelmente precisa de controles para sobreviver às guerras de edição e comportamento abusivo. Portanto, as contas de usuário ainda são uma parte fundamental de como a Wikipédia funciona. No entanto, neste caso o uso de contas decorre da necessidade dos editores da Wikimedia de fornecer serviços essenciais a seus usuários.

Como o ecossistema F-Droid funciona baseado em hashes de arquivos estáticos sem controles de acesso, ele pode liberar todo tipo de flexibilidade. Os repositórios-espelhos do f-droid.org/repo podem ser entregues em todo o mundo com segurança, por meio de web services, Raspberry Pis locais ou até mesmo um pen drive USB. Com o IPFS [Inter Planetary File SystemSistema de Arquivos Inter Planetário] qualquer conteúdo pode ser baixado por qualquer pessoa sem necessidade de permissões ou serviços centralizados.

Para resumir tudo a duas linhas, o F-Droid é um grande aliado do usuário consciente que deseja limitar a presença do Google em suas vidas sempre que possível.

Aqui o link para download, Caso alguma leitora ou leitor queira realmente explorar a ideia e instalá-lo, pode me perguntar nos comentários, que terei prazer em explicar e dar links para todas as informações.


Este post marca o primeiro aniversário do blog. Nada a comemorar em termos de sucesso. Memoráveis as pessoas incríveis que conheci na rede WordPress.

Feliz aniversário para mim, Êêêêê…

Cyberfront: Ucrânia Propõe que ICANN Remova Domínios Russos

O site de Tecnologia TheRegister informa que, em resposta à invasão russa da Ucrânia na semana passada, Mykhailo Fedorov, vice-primeiro-ministro da Ucrânia, pediu na segunda-feira (28-3) à ICANN, todo-poderosa responsável pelo DNS [Domain Name System – Sistema de Nomes de Domínio], que desative os domínios de primeiro nível que tenham código de país associados à Rússia.

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Em um e-mail [PDF], Fedorov pediu a Goran Marby, CEO da ICANN, que imponha sanções à Rússia, argumentando que o regime de Putin usou a infraestrutura da Internet para propagar seu esforço de guerra. Especificamente, ele pediu a revogação dos domínios “.ru”, “.”, “.su” e outros usados ​​pela Federação Russa, desligando os servidores raiz DNS que atendem à Federação Russa e contribuindo para a revogação dos certificados de segurança [TLD/SSL] emitidos para esses domínios.

“Todas essas medidas ajudarão os usuários a buscar informações confiáveis ​​em zonas de domínio alternativas, evitando propaganda e desinformação”, diz o e-mail de Fedorov. “Líderes, governos e organizações de todo o mundo são a favor da introdução de sanções contra a Federação Russa, uma vez que visam pôr fim à agressão contra a Ucrânia e outros países. Ajude a salvar a vida das pessoas em nosso país.”

Fazer isso bloquearia cerca de cinco milhões de domínios da internet global e afetaria significativamente a capacidade da Rússia de se comunicar online.

Em resposta a Prykhodko, Erich Schweighofer, professor da Universidade de Viena e participante da comunidade da ICANN, escreveu: “Nós sabemos e estamos atentos à situação muito difícil e perigosa. [A] União Européia irá apoiá-lo. No entanto, remover a Rússia da Internet não ajuda a sociedade civil desse país em sua luta para uma mudança democrática. A ICANN é uma plataforma neutra, não tomando uma posição neste conflito, mas permitindo que os Estados ajam de acordo – por exemplo, bloqueando o tráfego a um determinado estado.”

Antony Van Couvering, CEO da Top Level Domain Holdings, expressou apoio à ideia: “A neutralidade como resposta ao assassinato não é neutra. De que adianta uma ‘organização da sociedade civil’, se ela se recusa a proteger a mesma sociedade civil, muito menos fazer algo a respeito? Até os políticos acordaram. Até o governo alemão acordou. Até o governo suíço acordou! Enquanto isso, algumas pessoas na ICANN se contentam em repetir frases vazias sobre não se envolver porque isso não ajuda a sociedade civil em seu país. Isso é que é o tal de ‘um mundo, uma internet'”.

A reportagem do Register acrescenta que o registrador de domínio Namecheap* “aconselhou os clientes na Rússia a levar seus negócios para outro lugar, citando crimes de guerra”. No entanto, o CEO da Namecheap, Richard Kirkendall, esclareceu mais tarde que os domínios não foram bloqueados. Em vez disso, eles estão apenas “pedindo às pessoas que voluntariamente se mudem”.

Com tantos se unindo ao lado da Ucrânia (mesmo aqueles que tradicionalmente permanecem neutros em assuntos internacionais), pedir à ICANN que tome medidas contra a Rússia parece ser uma proposta razoável dadas as circunstâncias. Como um bônus, a provável diminuição no spam seria um alívio bem-vindo.

(*) Vox Leone também é cliente do Namecheap, e ficamos contentes com a decisão de R. Kirkendall