As ‘Notícias’ Não São Boas

Cresci acreditando que acompanhar as “notícias” faz de você um cidadão melhor. Oito anos depois de ter desistido da esgotosfera, essa ideia agora me parece ridícula.

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Estou a falar aqui principalmente sobre acompanhar os noticiários nas TVs comerciais e nas infames redes sociais. Ressalvo que este post não é uma acusação ao jornalismo como um todo. Reconheço que há um grande valor em investir tempo lendo um artigo analítico de 5.000 palavras em uma publicação de alto nível, como por exemplo as excelentes publicações inglesas Unherd, ByLineTimes e suas equivalentes em outros países e línguas, o que eu faço diariamente.

O que descobri nesses anos de exílio das redes sociais é que, se você parar de acompanhar as mídias de baixo nível [Facebook, WhatsApp, CNN, Globo, etc, etc.], mesmo que por apenas um mês, o hábito de consumir notícias vindas desses meios começa a parecer bastante feio e desnecessário, não muito diferente de como um fumante só percebe o cheiro ruim do tabaco quando ele para de fumar.

Nesta postagem uma faço uma pequena lista de algumas coisas que você vai notar se você fizer uma pausa no consumo de lixo informático digital.

A) Alívio na ansiedade

Uma coisa comum que você sente ao desistir da esgotosfera é uma melhora no humor. Seus amigos viciados em smartphones dirão que você é anti social, ou que você enfiou a cabeça na areia. Eles não percebem que o que você pode obter sobre o mundo a partir das “notícias” não chega nem perto de ser uma amostra representativa do que está realmente acontecendo no mundo. Os produtores comerciais de notícias não estão interessados em criar um retrato fiel do mundo. Eles apenas selecionam o que é a) incomum, b) horrível e c) popular. Portanto, a ideia de que você pode ter uma noção significativa do “estado do mundo” assistindo às “notícias” é absurda.

Os editores de jornais populares [isto é, TODOS] exploram nosso viés de negatividade. Evoluímos para prestar atenção ao que é assustador e irritante, mas isso não significa que o medo ou a raiva sejam úteis. Uma vez que você para de assistir, fica óbvio que o objetivo principal das reportagens é agitar e consternar o espectador.

O que aparece no noticiário não é “o portfólio de preocupações da pessoa conscienciosa”. O que aparece é o que vende, e o que vende é o medo e o desprezo por outros grupos de pessoas.

Faça seu próprio portfólio de notícias. Você vai obter melhores informações sobre o mundo de fontes mais profundas – que redigem as noticias, ao invés de “agregá-las”. Noto aqui que, pelos meus padrões, nenhuma publicação brasileira se encaixa nessa matriz [isso inclui o outrora venerável Estadão].

B) Você nunca realiza algo útil assistindo ao noticiário

Se você perguntar a alguém o que eles verdadeiramente realizam assistindo ao noticiário, ou a que conclusões eles chegam, ouvirá noções vagas como: “É nosso dever cívico nos manter informados!” ou “Preciso saber o que está acontecendo no mundo” ou “Não podemos ignorar esses problemas” – nada disso responde ao que foi perguntado.

“Estar informado” soa como uma realização, mas também implica que qualquer informação serve. Para certas pessoas é possível se informar lendo uma tabela de horário de ônibus.

Um mês depois de deixar as “notícias”, você vai perceber que é difícil citar algo útil que foi perdido. Torna-se claro que aqueles anos de acompanhamento das “notícias” não representaram praticamente nada em termos de melhoria na sua qualidade de vida, ou de conhecimentos duradouros, ou sua capacidade de ajudar os outros. E isso sem falar no custo de oportunidade. Imagine se você gastasse o mesmo tempo aprendendo um idioma ou lendo livros e ensaios sobre os mesmos assuntos que eles mencionam nos noticiários.

Você descobrirá que sua abstinência das “notícias” não resultou em eventos políticos piores do que os que já estavam acontecendo, e que coisas como esforços de socorro em desastres ou o combate à fome continuaram sem o seu envolvimento, como sempre. A conclusão é que seu tempo perdido em monitorar o “estado do mundo” na verdade não afetou o mundo e nem mudou nada. Herdamos de algum lugar – talvez da época em que havia apenas uma hora de notícias por dia – a crença de que ter uma consciência superficial das questões mais populares do dia é de alguma forma útil para aqueles mais afetados por elas.

C) Conversas relacionadas a eventos do noticiário = pessoas falando besteiras

Quando você para de fazer o jogo dos produtores comerciais de “notícias” diárias e observa atentamente as pessoas falando sobre os “acontecimentos”, você vai perceber que quase ninguém sabe realmente do que está falando.

Há um abismo extraordinário entre ter uma compreensão funcional de um problema e o olhar superficial que você recebe das mídias populares. Se você se deparar com uma conversa no bebedouro do escritório sobre um assunto que você por acaso conhece muito, você verá as pessoas estão dispostas a falar com ousadia sobre questões sobre as quais nada entendem. Sabemos que é irresistível fazer comentários agressivos e tomar posições duras, mesmo quando estamos errados, e as “notícias” das TVs e do Facebook nos dão a forragem perfeita para isso. Quanto menos você souber sobre um assunto, mais fácil será fazer declarações ousadas sobre ele.

D) Existem maneiras melhores de “ser informado”

Todos nós queremos viver em uma sociedade bem informada. As notícias informam as pessoas, mas quase nunca as informam particularmente bem. Existem muitas fontes de “informação”. A parte de trás do seu frasco de xampu contém “informações”. Em 2022 há muito mais informação por aí do que podemos absorver, então é preciso escolher bem o que merece nosso tempo. As “notícias” fornecem informações em volume quase infinito, mas com profundidade muito limitada, e claramente pretendem nos agitar mais do que nos educar.

Cada minuto gasto consumindo notícias é um minuto em que você fica indisponível para aprender coisas úteis sobre o mundo de outras maneiras. Os brasileiros provavelmente acompanham no Whatsapp e Facebook milhões de horas de cobertura de notícias todos os dias. Isso é uma enorme quantidade de livros não lidos.

Leia três livros sobre um assunto e você saberá mais sobre esse assunto do que 99% do mundo. Se nos preocupamos apenas com a amplitude da informação, e não com a profundidade, não há muita diferença entre “manter-se informado” e “permanecer mal informado”.

E) “Estar preocupado” nos faz sentir como se estivéssemos fazendo algo

As “notícias” são sempre sobre injustiças e catástrofes, e naturalmente nos sentimos desconfortáveis ao ignorar histórias nas quais as pessoas estão sofrendo. Por mais superficiais que os noticiários de TV possam ser, as questões relatadas neles são (geralmente) reais. Muito mais reais do que podem parecer através de uma televisão ou de um smartphone. As pessoas estão sofrendo e morrendo, o tempo todo, e ignorar uma representação desse sofrimento, mesmo uma representação cínica e manipuladora, nos faz sentir culpados.

Então pensamos: “o mínimo que podemos fazer é não ignorar isso”. Então lá estamos nós a assistir à cobertura da tragédia na TV, com os olhos lacrimejantes e com um nó na garganta. Mas o fato é que ficar nesse nível de “preocupação” não vai ajudar ninguém – vai apenas, talvez, aliviar um pouco nossa própria culpa.

E eu me pergunto se há uma espécie de “efeito de substituição” em ação aqui. A sensação, e a falsa crença, de que “pelo menos eu me importo” pode, na verdade, nos impedir de fazer algo concreto para ajudar ou influir nos acontecimentos, porque, ao observar com simpatia, não precisamos confrontar a realidade de que não estamos fazendo absolutamente nada a respeito do que estamos vendo.

Observar os desenvolvimentos de um desastre, mesmo quando não fazemos nada, pelo menos parece um pouco mais compassivo do que desligar. A verdade é que a grande maioria de nós não dará absolutamente nenhuma ajuda às vítimas das atrocidades que acontecem neste mundo, sejam elas televisionadas ou não. E isso é difícil de aceitar em um nível básico de consciência. Mas se pudermos pelo menos mostrar preocupação, neste mundo regido pelas aparências, podemos permanecer não envolvidos sem nos sentirmos não envolvidos.

Esta talvez seja a maior razão pela qual tememos nos desligar das notícias. E também pode ser a melhor razão para fazê-lo.

Notas Sobre o Twitter e a Liberdade de Expressão

Eu não estava interessado no Twitter antes e não estou agora, mas o comentário gerado pela recente mudança na administração do site é muito interessante, e estarei a acompanhar os desenvolvimentos bem de perto.

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Em primeiro lugar, porque é realmente muito engraçado assistir de fora. Cenário: o Twitter, de longe a mais tóxica de todas as plataformas, está sendo vendido para um empreendedor rebelde e imprevisível e os usuários estão surtando porque têm medo de o “Twitter se tornar tóxico”. Não é uma maravilhosa ironia?

Escusado será dizer que as plataformas sociais não podem ser absolutamente livres para todos: a liberdade de expressão sempre esteve sujeita a limites e Elon Musk não parece questionar isso de forma alguma.

Ele apenas entende que as vozes daqueles que foram considerados “deploráveis”, ou “tóxicos”, ou “inaceitáveis” pela elite atual – ainda que o que eles digam esteja dentro dos limites da lei – também têm o direito de serem ouvidas.

Liberdade de expressão

Em minha filosofia pessoal, o direito de falar/escrever/expressar uma opinião, desde que esteja dentro dos limites da lei, supera o direito de qualquer progressista a um ”espaço virtual seguro”. A liberdade de expressão é muito mais importante do que Harry e Meghan se sentirem ameaçados em sua fachada pública. É deveras preocupante que isso tenha se tornado um assunto controverso.

Uma democracia saudável precisa de um debate indisciplinado e o tipo de restrição à expressão pessoal [não se trata de censura pelo fato de não envolver o estado ou o espaço público real] que parece estar acontecendo no Twitter [expulsar Donald enquanto o Talibã pode manter sua conta] está nos afastando disso. O equilíbrio precisa ser restabelecido de alguma forma.

O problema é que a grande massa historicamente excluída agora dispõe de meios poderosos de auto expressão e comunicação. Todos têm agora algo análogo a uma bomba atômica em uma maleta. Para ser totalmente franco, eu mesmo cheguei a flertar com fantasias Butlerianas. Até recentemente eu acreditava que a democratização da computação e seu poder de amplificação da experiência humana tinha sido um erro, que acabou por gerar uma ameaça existencial para a espécie. A solução, portanto, seria o confisco dessa capacidade e a limitação do poder de computação acessível ao usuário comum.

É fácil ver que a “solução” acarretaria problemas ainda maiores, o que faz as palavras de meu estimado correspondente Clive Robinson se destacarem como um verdadeiro axioma: “problemas sociais não podem ser resolvidos pela tecnologia”. Será preciso firmeza institucional e muita educação pública para que seja possível superar este momento delicado da trajetória humana.

Nota lateral: minha própria orientação política mudou nos últimos anos, de centro-esquerda para centro-direita. Vários são os fatores que causaram isso, mas comentários como os de Hillary Clinton sobre os “deploráveis” [sou hétero] não ajudaram a aumentar minha simpatia. Aquilo cristalizou a hipocrisia absoluta do lado em que eu pensava estar – alegando ser tolerante mas ainda abusando e desrespeitando pessoas que pensam diferente. O Twitter de hoje é simplesmente uma manifestação online da atitude mental a partir da qual comentários como aquele floresceram.

Aspectos pouco discutidos

Uma parte desta aquisição industrial que parece ser ignorada em favor das implicações da guerra cultural são os aspectos financeiros. O Twitter é um negócio viável? Será capaz de gerar um lucro substancial para Musk? Não faço ideia.

A outra parte da história que não foi considerada [pelo menos não que eu tenha visto] é a reação dos funcionários progressistas do Twitter. Li em algum lugar que alguns deles chegaram a chorar quando a notícia da aquisição foi divulgada (sim, eu ri). Mas como eles vão se comportar quando Musk estiver totalmente no controle? Eles vão se demitir em massa? Ou eles vão permanecer na empresa e assim minar sua própria agenda? Elon vai reequipar toda a organização com pessoas de outra matriz ideológica?

Me parece que quando Elon Musk insiste na questão da ‘liberdade de expressão’ o que ele quer dizer realmente é que “o Twitter favoreceu demais a Elite progressista, e eu não vou mais fazer isso”. É possível argumentar que a chamada Elite progressista é servida por verdadeiras ‘guildas’ para impor sua posição de dominância – as guildas, neste caso, sendo instituições como a CNN, a Rede Globo, e as Mídias Sociais, além dos sumos sacerdotes da intelligensia. A compra do Twitter por alguém aparentemente “fora da Elite” tem, portanto, uma desconfortável sensação de deslocamento.

De fato, a atmosfera pública exala, em pleno 2022, uma alarmante fragrância de fin-de-siècle oitocentista.

Da Wikipedia sobre o fin-de-siècle: O principal tema político da época era a revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia liberal. A geração do fin-de-siècle apoiou o emocionalismo, o irracionalismo, o subjetivismo e o vitalismo, enquanto a mentalidade da época via a civilização como estando em uma crise que exigia uma solução massiva e total.

Liberalismo versus coletivismo

Além disso, a própria ideia contemporânea [notadamente nos EUA] de que os marxistas são “liberais” – uma filosofia fantástica que tem sido construída pelas melhores mentes acadêmicas do Ocidente por décadas – é uma falácia. No século passado os marxistas foram perseguidos, cancelados, odiados por causa das coisas horríveis que os marxistas de todo o mundo faziam.

Tanto para revidar quanto para formular um rótulo aceitável para se adaptar ao sistema político [ou mesmo para se esconder], eles inventaram uma “nova filosofia”, na verdade apenas uma regurgitação do marxismo, e a chamaram de “liberalismo progressista” como se fosse simplesmente um novo ramo do estimado liberalismo clássico.

É claro que não era nada disso – e qualquer um que se desse ao trabalho de examinar perceberia rapidamente que era a total antítese do liberalismo. Era coletivismo versus individualismo; governo grande versus governo pequeno; resultados iguais versus oportunidades iguais. E o mais importante de tudo, propagou-se um certo “imperativo moral” de violar os direitos de certas pessoas em nome de um objetivo indefinível de “justiça social” [já ouvimos isso antes?].

Infelizmente, o estratagema funcionou. A rede de professores marxistas em universidades de todos os países começou a alardear o “liberalismo progressista” como o novo eufemismo para o marxismo. Para os de fora, soava como liberalismo. Mas, as coisas sempre desandam quando, por ideologia, a palavra ‘justiça’ aparece na frente da palavra ‘social’. O resultado é sempre a negação do que se pretende: “NÃO Liberalismo” [iliberalismo] e “injustiça”.

Todos os totalitários precisam, para atingir seus objetivos, mentir perpetuamente. Do contrário seria obviamente impossível concordar com os objetivos que eles realmente querem atingir. Até cerca de 2010, havia um equilíbrio entre as pessoas que amavam a liberdade versus aqueles que queriam um governo draconiano em seu alcance social, com as diferenças geralmente sendo nuanças. Hoje, a divisão é quase perfeita – com amantes da liberdade e os progressistas cripto-totalitários em lados claramente opostos.

Vale a pena notar que Milton Friedman e F. A. Hayek, ambos odiados pelos “liberais progressistas” de hoje, que os consideram cães raivosos da direita, se recusaram a desistir do termo “liberal” em favor do termo “conservador”, referindo-se a si mesmos como “liberais clássicos”. F. A. Hayek chegou a escrever um artigo chamado “Por Que Não Sou Conservador” em um esforço para reabilitar o termo, apontando que a raiz etimológica da palavra liberal é liberdade.

Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.

O Merecido Inferno Astral do Facebook

A empresa-mãe do Facebook, Meta, vive uma sequência sem precedentes de dias ruins. Em uma teleconferência de resultados no início do mês, os executivos relataram que, pela primeira vez em sua história, o Facebook havia perdido usuários ativos diários no trimestre anterior – cerca de um milhão deles, para ser exato.

O Facebook transforma empreendedores em mendigosImagem: Pexels

A Meta também gastou bilhões em seus projetos de realidade virtual, que o CEO Mark Zuckerberg apresentou como o futuro da empresa. Na esteira da divulgação sombria, a Meta caiu mais de US$ 237 bilhões em valor no dia 3/2, a maior perda de um dia no mercado de ações dos EUA (isso é mais do que o valor de mercado da Netflix ou do Twitter.) O patrimônio líquido de Zuckerberg também caiu US$ 31 bilhões. Foi uma notícia chocante para uma empresa que declarou números sólidos a fantásticos no passado, mesmo durante períodos de escândalo e ira pública.

Reformar a Big Tech (especificamente o Facebook) parece ser a única coisa com a qual ambos os lados do espectro político concordam em todo o mundo. Os políticos mais sensatos querem proteger os cidadãos dos danos que essas plataformas causam, enquanto políticos controversos de direita, como Ted Cruz [e muitos outros no Brasil], querem se intrometer no Facebook porque acham que a plataforma censura injustamente os pontos de vista conservadores.

A falta de consenso sempre foi o obstáculo para uma reforma significativa. Felizmente, há alguns sinais de encorajamento do lado direito da cena política (nos Estados Unidos), como o senador republicano Dan Sullivan, dizendo que o mundo um dia olhará para este para esse período e perguntará: “O que diabos estávamos pensando?”

Não estávamos pensando

Comparações entre Big Tech e Big Tabacco vêm borbulhando há anos. Mas agora, graças aos Facebook Files do Wall Street Journal, há evidências que mostram claramente os danos causados ​​pelo Facebook e Instagram. Pior ainda, os executivos do Facebook parecem saber exatamente o quão ruim é o problema, porque muitas das evidências são de primeira mão e eles ainda não tomaram nenhuma atitude à altura do problema.

É particularmente preocupante como a chefe de gerenciamento de políticas globais do Facebook, Monika Bickert, tentou distorcer as descobertas, afirmando que “a maioria dos jovens no Instagram está tendo uma boa experiência”.

Bickert estava dobrando a aposta em uma linha de argumento do Facebook, que quer forçar a todo custo a versão de que os resultados de uma pesquisa realizada no mês passado – mostrando que oito em cada 10 usuários adolescentes do Instagram nos EUA disseram que a plataforma os fez se sentir melhor – provou seus méritos.

O que acontece a seguir permanece um mistério. Mas esta semana, eu acho, marca um momento significativo no debate sobre o que fazer com o Facebook.

Pela integridade das pessoas e independência do mercado

Minha relação pessoal com o Facebook não pode ser pior. Para começar, fui um dos primeiros a aderir a plataforma, quando o Orkut era o lugar onde todos estavam. Foi difícil convencer meus amigos a experimentar o Facebook – para que eu tivesse com quem conversar no novo boulevard – que eu considerava menos cafona do que o Orkut com sua interface dantesca. Só muito depois a plataforma finalmente emplacou no Brasil. Eu ainda não sabia, mas naqueles dias minha vida de entrepreneur da web 2.0 iria se chocar contra um zuker-berg.

O Facebook é uma abominação que consumiu toda a Web no Brasil e em outros países do 3º mundo. Para muitos, não ter acesso ao Facebook significa perder a conexão com tudo, incluindo serviços essenciais para a vida offline. Mas nem sempre foi assim

Primeiro, tínhamos aplicativos de desktop (que sempre podiam comunicar dados para servidores de rede). Em seguida, envolvemos os aplicativos no navegador (que é essencialmente um sistema operacional em um sistema operacional), mas tínhamos nossas páginas e sites em servidores independentes, assim como temos nossos blogs em nossos servidores. Trabalhadores da área [eu!] tinham uma vida relativamente boa, construindo sites para empresas de todos os tamanhos, que assim eram donas de seus narizes na web. Eram completamente independentes, retendo com elas todos o valor de seus negócios.

Então inventamos as “redes sociais” e estamos colocando tudo lá.

Poderíamos apenas ter melhorado a tecnologia de aplicativos de desktop (incluindo descoberta, entrega, interoperabilidade, portabilidade e flexibilidade de design de interface do usuário), mas escolhemos os navegadores. Poderíamos parar por aqui, usar a Web padrão e melhorar a experiência de uso de RSS/Atom/RDF/XMPP/etc.

Mas não. Seguimos uma toada enfadonha e insana em direção ao imobilismo e à falta de agência. Rendemos nossas páginas, contatos, assinaturas para o Facebook. Praticamente todas as empresas do mundo agora dependem desse elemento tóxico em suas relações com os consumidores.

No campo da inteligência de negócios as empresas estão prostradas, compartilhando passivamente com os Mestres do Universo o valor principal de seu negócio [que são os bens imateriais proporcionados pelas interações]. O Facebook efetivamente transforma os empreendedores em mendigos a implorar migalhas da economia da atenção.

Os pequenos e médios estúdios e desenvolvedores independentes de software para infraestrutura web, que eram milhões em 2003, estavam aniquilados em 2015. Mesmo em um país da UE muito desenvolvido, as pessoas enfrentam o problema frequente de que algum item está disponível apenas via Facebook. Isso é surreal. Porque as empresas não mais se preocupam em ter seus próprios sites/e-mails/telefones. Isso representa um problema sério – e perturbadoramente óbvio – para a cadeia de suprimentos no médio e longo prazos [para não falar de empregos para a mão de obra qualificada].

Redes sociais precisam de regulamentação anti monopólio

É incrível que tenhamos chegado a um momento na história em que instituições empresariais e pessoas importantes – aparentemente bem sucedidas e inteligentes, voluntariamente contribuem para a hipercentralização da informação [portanto dos negócios] nas mãos de apenas uma corporação, que pode facilmente falhar – intencionalmente ou não. O Facebook está se tornando uma espécie de sistema chinês, em que há apenas uma rede. Os usuários usam aplicativos dentro dessa rede, e para eles, essa é a Internet. Isso é um sonho de controle social para um governo.

Olhando de forma mais ampla, as redes sociais são uma camada desnecessária dentro da arquitetura da web – embora a tendência maliciosa seja envolver as estruturas de comunicação dentro de mais e mais camadas. Este blog é uma prova viva disso [neste momento você não está em uma rede social].

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Por mais liberal que eu possa ser, sou um homem sensato. Eu reconheço o primado do contrato social, que está danificado quase além de possibilidade de reparo, em grande parte por causa apenas dessa empresa de tecnologia. Isso precisa de severa reflexão. Eu esperaria que os governos reconhecessem a gravidade do problema [do monopólio] das redes sociais para a sustentabilidade econômica, para as relações internacionais, para a saúde mental de seus usuários e para a democracia.

Alguns governos já começam a levar as mudanças climáticas cada vez mais a sério. Este problema das redes sociais é o mais recente que enfrentamos e potencialmente pior: são as redes sociais que fomentarão a discórdia e o abandono da razão, que potencialmente nos levarão ao colapso da civilização.

Espero que ao testemunhar os recentes percalços muitas pessoas poderosas tenham se convencido de que o Facebook está, de fato, fora de controle.

Hey, Zuck, conserte o Facebook antes de fugir para o Metaverso (please?)

Os tediosos conflitos do Facebook. Não importa o assunto. Quaisquer que sejam eles, são de uma monotonia atroz. Com emojis – essa simbologia infantil de representação de um rosto genérico – e “compartilhamentos”, o Facebook [e seus semelhantes] nos reduziu ao que somos na essência – ou nos expôs em nossa nudez e nosso vazio, como sempre fomos.

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A erosão de nosso senso de nós mesmos como uma espécie evoluída e dotada de valores mais elevados tem sido constante. Falando apenas por mim – talvez eu esteja sozinho, mas duvido – o que os algoritmos conseguiram acima de tudo foi me tornar menos interessado nas pessoas. Minha opinião sobre considerar as pessoas como entidades dignas de interesse despencou.

Essa desilusão é um sentimento novo para mim: sempre fui o tipo de idiota que acha nossa espécie fascinante. Eu gosto de conversar com as pessoas e ouvir o que elas pensam – e, francamente, analisá-las. Gosto de tentar descobrir como elas raciocinam. Gosto de como suas histórias pessoais informam sua abordagem a um problema ou a alguma questão. Antes, eu tinha a ideia – talvez ingênua – de que se eu conversasse com alguém por tempo suficiente, poderia descobrir de onde elas vêm, o que as moldou e por que suas vidas as levaram para onde elas estão agora – e se seu esforço valeu a pena.

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Hoje em dia, tenho a impressão de que eu não preciso falar com alguém por mais que 20 minutos para saber tudo o que ele ou ela assiste ou consome e qual o alcance de sua vida cultural. Eu também seria capaz dar um palpite bastante decente sobre que outras coisas que ele ou ela provavelmente acredita. Tamanha simplificação da vida ocorrida nos últimos 15 anos parece indicar que o problema humano está resolvido e tem muito menos a ver com a história ou com a diversidade entre os indivíduos do que se suspeitava.

Essa afirmações podem parecer um exagero, eu reconheço, mas o sucesso que o Facebook teve até hoje demonstra que conhecer o intimo de uma pessoas não é muito difícil como parecia em um passado um pouco mais distante. Desvendar as pessoas é basicamente o que algoritmos fazem. Eles provaram que o panopticon é totalmente possível.

Mas nem o Facebook ou o YouTube se contentam em apenas conhecer as pessoas “para sua melhor conveniência”; eles ativamente segregam as pessoas em perfis, padrões e grupos. O resultado final, como sabemos agora, é catastrófico. Parece seguro dizer agora que os grupos constroem sua própria dinâmica e tornam as pessoas mais bajuladoras ao líder autoritário, ou chatas, ou furiosas. A expressão “Câmara de eco” nem chega perto de descrever o empobrecimento da experiência humana no ambiente do Facebook.

O Facebook diz valorizar a conexão entre as pessoas. Mas acontece que não há nada intrinsecamente bom na conexão online entre as pessoas. Na internet, a exposição a pessoas diferentes muitas vezes nos faz odiá-las, e esse ódio estrutura cada vez mais nossa política. A corrosão social causada pelo Facebook e outras plataformas não é um efeito colateral de más decisões de gerenciamento e design. É algo que está embutido na própria natureza da mídia social.

Há muitos motivos pelos quais o Facebook e as empresas de mídia social que vieram depois dele estão implicados no colapso democrático, na violência comunitária em todo o mundo e na guerra civil [ainda fria, mas que fica cada vez mais quente] em lugares como os Estados Unidos e mesmo o Brasil. Esses sistemas em redes centralizadas, com interação entre os membros mediadas fora da ordem cronológica, são motores de foguete para espalhar desinformação e combustível de jato para teorias da conspiração. Eles recompensam as pessoas por expressarem raiva e desprezo pelo “outro”, sequestrando e usando os mesmos circuitos mentais que injetam dopamina na circulação quando você ganha jogando caça-níqueis.

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Metaverso

Mesmo recentemente, até alguns anos atrás, havia ainda espaço para resistir a esse aspecto horrível da maleabilidade humana. Os experimentos de aprisionamento de Stanford haviam sido desmistificados e parecia que nossas piores noções a respeito da humanidade haviam desaparecido. “Todo mundo é um idiota online, mas as pessoas não são suas performances digitais”, alguém disse. Ou talvez as pessoas sejam mais complicadas do que parece.

Vou ser cuidadoso aqui e dizer que, claro, não é apenas o Facebook que trilha a senda da infâmia. Mas como sou um falível humano [embora fazer parte da humanidade tenha um quê de rebaixamento existencial no momento], vou recorrer à minha própria subjetividade [basicamente não algorítmica]: O Facebook é obviamente o pior ofensor entre todos – pelo menos quando se trata de manipular a lamentável previsibilidade dos afetos humanos.

Nas próximas semanas [e meses] espero ser capaz de absorver as implicações da mudança [do nome da holding co. da rede para Meta] para minha esfera pessoal, como também os efeitos de larga escala, desde a política até a democracia, passando pela saúde pública, à medida que mais fatos forem sendo conhecidos [ainda estou digerindo os Facebook Papers].

Eu adoraria prognosticar que a reformulação da marca visando ocupar o Metaverso será um fracasso e que os humanos enxergarão a verdade através da enorme cortina de relações públicas e propaganda. É deprimente que uma empresa que provou infligir tantos danos à sociedade tenha decidido não fazer uma mínima auto crítica sobre seu passado, não consertar nada e, de fato, expandir suas operações para usurpar ainda mais a vida das pessoas.

Eu gostaria de acreditar que o Metaverso não vai funcionar, e que o convite ridículo de Mark Zuckerberg para que as pessoas “se conectem nos espaços ilimitados da realidade virtual” – onde peixes nadam entre as árvores, e Lucy voa no céu com diamantes – não atrairá ninguém. Mas vamos encarar a verdade: antes de todos nós começarmos a usá-los, eu também achava que os rostinhos de emoji eram a suprema idiotia. Veja onde estamos agora… 🙂

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Nota: Se este post for compartilhado no Facebook, o que é muito bem vindo [engajar com o adversário em seu próprio campo], claro que eu vou apreciar por demais a ironia. ká ká ká.

Facebook Muda de Nome Rumo ao Metaverso

O Facebook costumava ser visto de forma positiva pelos usuários, pois conectava o mundo e aproximava as pessoas. Isso não é mais o caso. Tem havido escândalos após escândalos e os usuários agora associam o Facebook a todas as coisas negativas que o Facebook dizia combater.

Imagem: Pexels

Neste ponto da história, o Facebook não pode mais vencer a guerra para ganhar os corações e mentes das pessoas a respeito uma série de questões. Então, em vez disso, ele precisa construir “uma nova narrativa”. A empresa está, assim, abandonando o nome e a marca Facebook e se concentrando em uma nova visão em torno do chamado Metaverso.

Não importa se essa visão é possível ou não, ou se a realidade virtual (RV) vai ou não se tornar o próximo paradigma de interação social. O importante é que trata-se de um segmento novo e interessante para construir uma nova marca e Mark Zuckerberg não quer perder a oportunidade.

O metaverso em minha opinião, sempre foi um grande embaraço. O Second Life existe há 20 anos e ainda é uma novidade divertida. O que o Facebook quer é adicionar publicidade e conteúdos de marca e fazer um second-life mais caro devido aos requisitos de hardware de última geração [além de torná-lo mais lento, com uma interface mais difícil – porque é RV].

Ninguém descobriu ainda uma maneira de proporcionar uma boa experiência de usuário em sistemas de realidade virtual, e também nenhum “caso de uso matador”. Não acho que o Facebook seja particularmente capaz de lançar algo que possa competir com qualquer coisa que a Microsoft ou a Apple possam lançar. Todos os CEOs que compram essa ideia de metaverso só falam sobre o universo de possibilidades, mas sinto que a única possibilidade que estão eles perseguindo é construir um Wal-Mart na Times Square.

A maioria desses CEOs aponta com aprovação o execrável [filme] “Jogador 1” como exemplo de uma visão a ser realizada. Eu sinto muito, mas penso que um garoto excitado de 15 anos raspando os pêlos do corpo para ser mais aerodinâmico na RV, enquanto se envolve em extensos monólogos de autocongratulação sobre como ele é um cara legal por não sentir repulsa por sua namorada “rubenesca”, enquanto recita versos de Ghostbusters em uma série de vinhetas incoerentes do tipo “lembra disso?”, não é uma visão para o futuro.

É uma pena porque acho que há obviamente usos legítimos para a telepresença via RV. Ela pode ser a próxima fronteira da videochamada, o que parece estar de acordo com a missão declarada do Facebook de conectar o mundo. Mas, suspeito que na realidade tudo o que nós teremos será um videogame extremamente ruim em vez disso – será que eles também terão NFTs?.

Posso ver como pode ser frustrante administrar uma empresa cheia de esforços diferentes, alguns dos quais pretendem ser novidadeiros ou pelo menos representar uma mudança de direção. Mas, debalde todos os esforços, ainda assim não deixam de ser percebidos e lembrados como mais uma coisa azul.

Espero que essa jogada permita que Zuckerberg permaneça tecnologicamente relevante, ocupando o lugar ao qual seus dons pessoais o levaram, em vez de ficar atolado em questões sobre os padrões éticos [ou falta de] em suas plataformas usadas por adolescentes e crianças.

Idealmente, uma plataforma ética também poderia ser cultivada por meio de algum tipo de transferência de parte do poder tecnológico acumulado pelas Big Techs à comunidade, de alguma forma. Um dos maiores desafios para o futuro é, em minha opinião, permitir que tais sistemas éticos se desenvolvam de forma padronizada, mas de maneira diversa. Em um mundo ideal, cada nova comunidade ou grupo deve ter sua própria dinâmica psicológica e merece a oportunidade de existir sem ser arrastada para a mesmice da(s) plataforma(s) por um conjunto agressivo, irritado ou tóxico de usuários.

Sinceramente, me deprime que esse revival do termo metaverso esteja sendo levado a sério e que provavelmente irá grudar no vocabulário como o desprezível termo “nuvem” e, pior, que o desenvolvimento dessas tecnologias esteja sendo conduzido por uma empresa como o Facebook.

Pessoalmente não estou interessado na visão particular de Mark Zuckerberg sobre o metaverso. Em vez disso, tenho medo de quantos mais caminhos errados podemos tomar no modo como desenvolvemos nossa tecnologia da informação e a aplicamos na sociedade. A visão FOSS [Free Open-Source Software – software livre] da computação, em que o progresso do software é compartilhado e atua como um equalizador, e onde as pessoas controlam o comportamento do seu software é o que precisamos, e não um lixo novo e melhor de vigilância-vigilância-propaganda-usuário-hostil [Agora em 3D!]

Voltaremos ao tema, certamente.

Sobre os Problemas com o Facebook & Cia

Um usuário [ramenporn], dizendo ser da equipe de recuperação de desastre do Facebook, postou esta nota no Reddit, hoje mais cedo:

Imagem: iStock

Como muitos de vocês sabem, o DNS para serviços FB foi afetado e isso é provavelmente um sintoma do problema real, que é o peering de BGP com roteadores do Facebook caiu, muito provavelmente devido a uma mudança de configuração que entrou em vigor pouco antes de as interrupções acontecerem (começaram por volta das 15h40 UTC). Há pessoas agora tentando obter acesso aos roteadores de peering para implementar correções, mas as pessoas com acesso físico estão sem contato com as pessoas que têm conhecimento de como realmente autenticar nos sistemas e das pessoas que sabem o que realmente fazer. Então agora há um desafio logístico para unificar todo esse conhecimento. Parte disso também se deve ao menor número de funcionários nos centros de dados devido às medidas contra a pandemia.

Portanto, o problema básico parece ser “BGP peering“, que é o pareamento entre os DNS dos serviços do Facebook, em explicação simples (ver Aspectos Técnicos, abaixo, para uma explicação mais técnica), além da distribuição física das equipes por muitos locais separados.

O post foi em seguida apagado, assim como diversas contas desse usuário em outros sites e canais.

Eu imagino que ele não foi autorizado a postar essas informações. Espero que ele não perca o emprego.

Do que o FB tem medo? Penso que desde que essas pessoas não estejam compartilhando informações internas/proprietárias da empresa, esse assunto não é particularmente sensível. Além disso, ter alguma transparência sobre o problema é bom para todos.

Quem gostaria de trabalhar para uma empresa que pode tomar medidas disciplinares drásticas porque um engenheiro postou um comentário no Reddit basicamente para dizer “BGP’s down lol” – Se eu estivesse no comando, daria a ele um modesto bônus, por ajudar a alcançar de forma direta o usuário e a comunidade em geral.

Por outro lado…

Compartilhar o status de um evento em andamento pode complicar a recuperação. Tais relatórios públicos em tempo real podem atrapalhar o fluxo de informação entre as equipes.

Conclusão

Tenho certeza de que acionistas e outros líderes de negócios da empresa ficarão muito mais confortáveis em relatar isso como uma série de falhas técnicas infelizes (que alegarão fazer parte do negócio), em vez de uma falha organizacional de toda a empresa. O fato de não poderem identificar fisicamente as pessoas que conhecem a configuração do roteador mostra uma organização que ainda não pensou em todos os seus modos de falha. Muita gente não vai gostar disso. Não é incomum ter técnicos de datacenter com acesso ao sistema e o pessoal de software real sendo barrado. Contudo, sendo esse o motivo pelo qual um dos serviços mais populares do mundo está desativado por quase 5 horas agora, levantará muitos questionamentos..

Pessoalmente eu também espero que isso não prejudique as perspectivas de aumento no trabalho remoto. Se eles tiverem problemas em colocar na sala de comando alguém que conheça a configuração, porque todos moram a uma viagem de avião dos datacenters, eu posso ver no futuro próximo gerentes de muitos ramos de atividade relutando em ter uma equipe completamente remota.

Fica a lição para os empreendedores, que ficaram reféns de um serviço sobre o qual eles não têm controle. Eu nunca perco a oportunidade de salientar o quanto é importante controlar seus próprios dados e os dados de sua empresa. Faça um site dedicado ao seu negócio em seu próprio domínio. Fale com seus clientes e parceiros através de blogs como este. Consulte uma empresa de sistemas [como a Vox Leone] para ver onde seu negócio pode melhorar. O custo-benefício é altamente compensador. Nunca se esqueça que a tal “nuvem” é apenas o computador de outra pessoa. Use as redes sociais apenas para o que elas foram criadas: falar com papai, mamãe e titia.

Aspectos Técnicos: Sobre o BGP

Como reportou ramenporn, no centro deste apagão está a tecnologia Border Gateway Protocol (BGP), que é o serviço postal da Internet. Quando alguém coloca uma carta no correio, o serviço postal processa a correspondência e escolhe um caminho rápido e eficiente para entregar a carta ao destinatário. Da mesma forma, quando alguém envia dados pela Internet, o BGP é responsável por examinar todos os caminhos disponíveis que os dados podem percorrer e escolher a melhor rota, o que geralmente significa pular entre sistemas autônomos.

BGP é o protocolo que faz a Internet funcionar. Ele faz isso habilitando o roteamento de dados. Quando um usuário em Cingapura acessa um site hospedado na Argentina, o BGP é o protocolo que permite que a comunicação aconteça de forma rápida e eficiente.


Abaixo um traceroute do meio da tarde, mostrando os serviços Facebook em downtime

> traceroute a.ns.facebook.com
      traceroute to a.ns.facebook.com (129.134.30.12), 30 hops max, 60 byte packets
      1  service.local.net (192.168.1.254)  0.484 ms  0.474 ms  0.422 ms
      2  107-131-124-1.lightspeed.sntcca.sbcglobal.net (107.131.124.1)  1.592 ms  1.657 ms  1.607 ms 
      3  71.148.149.196 (71.148.149.196)  1.676 ms  1.697 ms  1.705 ms
      4  12.242.105.110 (12.242.105.110)  11.446 ms  11.482 ms  11.328 ms
      5  12.122.163.34 (12.122.163.34)  7.641 ms  7.668 ms  11.438 ms
      6  cr83.sj2ca.ip.att.net (12.122.158.9)  4.025 ms  3.368 ms  3.394 ms
      7  * * *
      ...

OnlyFans: ex-Empregados Mantinham Acesso às Informações de Usuários

Alguns ex-funcionários da equipe de suporte do OnlyFans ainda continuavam com acesso aos dados dos usuários – incluindo informações pessoais e financeiras confidenciais, mesmo depois de serem demitidos da empresa – usada por profissionais do sexo para vender nus e vídeos pornôs.

Photo by Valeria Boltneva from Pexels

De acordo com um ex-funcionário do OnlyFans – que pediu para permanecer anônimo por temer retaliação, alguns ex-funcionários ainda tinham acesso ao Zendesk, um software de atendimento ao cliente usado por muitas empresas, incluindo o OnlyFans, para rastrear e responder a tíquetes de suporte ao cliente, muito tempo depois de sair da empresa. OnlyFans usa o Zendesk para se relacionar tanto com os usuários que postam conteúdo quanto com os usuários pagantes, consumidores de conteúdo. A revista Motherboard conseguiu confirmar essas informações com mais de um ex-funcionário.

De acordo com a fonte e os usuários do OnlyFans que falaram com a Motherboard, dependendo do assunto para o qual o usuário abre o chamado de suporte, os tíquetes podem conter informações de cartão de crédito, carteiras de motorista, passaportes, nomes completos, endereços, extratos bancários, quanto eles ganharam ou gastaram no OnlyFans, selfies do serviço Know Your Customer (KYC), em que o performer fotografa uma carteira de identificação ao lado do rosto para verificação, além de formulários de licenciamento do material produzido.

Nossa fonte demonstrou à Motherboard como eles faziam para acessar as informações muito depois de terem parado de trabalhar para o OnlyFans.

Em profundidade em motherboard.vice.com

Facebookland: uma Nação Hostil

Em 1947, Albert Einstein, escrevendo na The Atlantic, propôs a criação de um governo mundial único para proteger a humanidade da ameaça da bomba atômica. Sua ideia utópica não se realizou, obviamente, mas hoje, um outro visionário tenta construir um simulacro de cosmocracia.

Imagem: Pexels

Mark Zuckerberg, ao contrário de Einstein, não inventou o Facebook por um senso de dever moral ou zelo pela paz mundial. Neste verão setentrional, a população do regime supranacional de Zuckerberg atingiu 2.9 bilhões de usuários ativos mensais, mais seres humanos do que nas duas nações mais populosas do mundo – China e Índia – juntas.

Para Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, eles são cidadãos da Facebookland. Já há muito tempo, ele começou a chamá-los de “pessoas” em vez de “usuários”, embora eles não deixem de ser “cogs” em uma imensa “matrix” social, pedaços carnosos de dados para satisfazer o apetite dos anunciantes, que despejaram US$ 54 bilhões no Facebook apenas no primeiro semestre de 2021 – uma soma que supera o produto interno bruto da maioria das nações da Terra.

O PIB é uma comparação reveladora, não apenas porque aponta para o poder extraordinário do Facebook, mas porque nos ajuda a ver o Facebook como ele realmente é. O Facebook não é apenas um site, ou uma plataforma, ou um editor, ou uma rede social, ou um diretório online, ou uma empresa, ou um utilitário. Ele é todas essas coisas. O Facebook também é, efetivamente, uma potência estrangeira hostil.

Isso é fácil de ver por seu foco estreito em sua própria expansão; sua imunidade a qualquer senso de obrigação cívica; seu histórico de facilitar o enfraquecimento de eleições; sua antipatia pela imprensa livre; a insensibilidade e arrogância de seus executivos; e sua indiferença à resistência da democracia.

Alguns dos maiores críticos do Facebook pressionam por regulamentação antitruste e pela auditoria de suas aquisições – qualquer coisa que possa desacelerar seu poder crescente. Mas se você pensar no Facebook como um estado-nação – uma entidade engajada em uma guerra fria com os Estados Unidos e outras democracias – você verá que ele requer uma postura de defesa civil além da regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários.

Hillary Clinton disse no ano passado que sempre sentiu um cheiro de autoritarismo em Zuckerberg. “Sinto que às vezes você está negociando com uma potência estrangeira”, disse ela. “Ele é imensamente poderoso.” Um de seus primeiros mantras no Facebook, de acordo com Sheera Frenkel e Cecilia Kang em seu livro, An Ugly Truth: Inside Facebook’s Battle for Domination, era “a empresa acima do país”. Quando essa empresa tem todo o poder de um país, a frase ganha um significado mais sombrio.

Os componentes básicos da nacionalidade são mais ou menos assim: você precisa de terra, moeda, uma filosofia de governança e pessoas. Quando você é um imperialista no metaverso, não precisa se preocupar tanto com a dimensão física – embora Zuckerberg possua 1.300 acres em Kauai, uma das ilhas menos povoadas do Havaí. Quanto ao restante dos componentes da lista, o Facebook tem todos.

O Facebook está desenvolvendo seu próprio dinheiro, um sistema de pagamento baseado em blockchain conhecido como Diem (antigo Libra) que os reguladores financeiros e os bancos temem que possa vir a derrubar a economia global e dizimar o dólar.

Os reguladores estão de olho no Facebook por um bom motivo, mas a ameaça que a empresa representa é muito mais do que seu monopólio de tecnologia emergente. A ascensão do Facebook é parte de um movimento autocrático maior, que está corroendo a democracia em todo o mundo, à medida que líderes autoritários definem um novo tom para a governança global.

Considere como o Facebook refere-se a si mesmo como um contrapeso a uma superpotência como a China. Os executivos da empresa alertaram que as tentativas de interferir no crescimento desenfreado do Facebook – por meio da regulamentação da moeda que ele está desenvolvendo, por exemplo – seriam um presente para a China, que quer que sua própria criptomoeda seja dominante. Em outras palavras, o Facebook está competindo com a China da mesma forma que uma nação faria.

Seria possível reunir um número suficiente de pessoas para derrubar esse império? Provavelmente não. Mesmo que o Facebook perdesse 1 bilhão de usuários, sobrariam mais 2 bilhões. Mas precisamos reconhecer o perigo que corremos. Precisamos nos livrar da noção de que o Facebook é uma empresa normal ou de que sua hegemonia é inevitável.

Talvez um dia o mundo se una como um só, em paz – como sonhou Einstein, indivisível pelas forças que lançaram guerras e desmoronaram civilizações desde a antiguidade. Mas se isso acontecer, se conseguirmos nos salvar, certamente não será graças ao Facebook. Será apesar dele.

Em profundidade na The Atlantic

Thoughts.page: um Micro Blog para Ideias Rápidas

Em minhas interações diárias com a Internet geralmente frequento grupos de desenvolvedores de software, de veneráveis pesquisadores de segurança e de fundadores de startups. Não é surpresa que eu, portanto, às vezes tenha a sorte de conhecer coisas em primeira mão. Foi o que aconteceu na semana passada ao conhecer o thoughts.page, um site para ‘microblogging’ muito ágil e inovador.

Ilustração: Vox Leone

À primeira vista ele parece um blog com um tema gráfico muito simples, como os blogs de forma longa, comuns em serviços como Medium e Substack – assim como muitos no WordPress. Desfeita a primeira impressão visual, emerge então um site muito parecido com o Twitter.

Mas sem limites estritos de caracteres. Também sem títulos de postagens. Sem comentários, sem respostas nem @menções. Sem foto de perfil ou avatar. Sem notificações. Com interface apenas em inglês. Fácil de descobrir na plataforma. Fácil de se inscrever. Rápido para ler. Pensamentos controversos permitidos, mas protegidos pela própria arquitetura do sistema, tanto contra ataques dos haters quanto contra o abuso de bots e propaganda. Monetização não suportada. Sem algoritmo, sem cancelamentos.

Para coroar o inusitado, a rigor não é uma plataforma grátis. O preço proposto é de US$ 5 mensais para quem ganha mais de US$ 40,000 por ano [não sei como eles vão verificar – presumo que para os brasileiros será eternamente grátis]. Essa é a grande novidade do Thoughts, que se contrapõe à regra quase universal dos serviços “grátis”, que são oferecidos ao usuário em troca de seus dados comportamentais na rede – o que se tornou a fonte de todos os males na web.

Como há apenas a versão Web, para acessá-lo é necessário usar o “protocolo do dedo”, como nos primeiros dias da web: “aqui está o endereço dos meus status/pensamentos/sentimentos – digite em seu navegador e adicione aos seus favoritos”. Para divulgar o site é preciso propagar o link entre os seus contatos. Ou esperar que ele entre no índice do Google e outros.

No que diz respeito à segurança e privacidade, observo que, pelas suas características, ele é menos propenso a ‘stalking’ ou ‘bullying’ do que Twitter, Instagram, FB, etc. É uma forma de comunicação um-para-muitos sem as interações tóxicas.

Ilustração: Vox Leone

O fato de a plataforma não ter um feed RSS aumenta o nível de esforço necessário para seguir alguém. Mas tem suas compensações. Eu não uso o Twitter, mas há um punhado de pessoas que ocasionalmente checo usando o velho Firefox para ver sua página [que favoritei]. Isso tem a vantagem de manter o número de pessoas que eu sigo a um mínimo absoluto e limitar a frequência com que leio seus tweets, independentemente da frequência com que me lembro de verificar se elas disseram algo novo.

Difícil de descobrir

Com o Thoughts é mais difícil seguir um número muito grande de pessoas [mas esse parece ser o ponto!]. Depois de criado seu blog se torna um subdomínio da plataforma, como por exemplo, leone.thoughts.page. Na prática, não é diferente de visitar um site por meio de um item favorito do navegador [eu com certeza visitaria uma página de pensamentos de uma banda local, de um comediante ou qualquer outra pessoa que tivesse ideias interessantes]. O Twitter começou recentemente a desencorajar esse tipo de visualização passiva [sem login]. Apenas navegar para o perfil do Twitter de alguém [Ex: https://twitter.com/mr-nice-guy] agora resulta em um pop-up me pedindo para fazer o login, e tentar seguir qualquer link resulta em um pop-up semelhante que não pode ser fechado.

Isso pode representar uma oportunidade para esta nova plataforma. Os ventos da web estão para mudar, com a Web 2.0 mostrando sinais de fadiga. A princípio parece que sua configuração que não permite que as pessoas enviem mensagens ou sigam umas às outras (e na qual você não precisa usar seu nome verdadeiro) não pode ser usada para interações sociais. Mas em um segundo pensamento lembro que o mundo está repleto de comunicações unidirecionais [ou bi ou multi-unidirecionais] e portanto sempre haverá casos de uso computacionais para elas. Dois efeitos colaterais positivos dessas comunicações são que, no mínimo, esse esquema neutraliza as interações nocivas e o efeito “bolha de opinião”.

Ilustração: Vox Leone

Eu me pergunto se a falta de ferramentas de interação entre os pares fará com que os eventuais usuários do Thoughts tentem criar soluções alternativas para interagir de outras maneiras. Por exemplo, no início do Twitter as pessoas usavam RT e outras técnicas para divulgar e/ou responder a tweets, embora a própria plataforma não tivesse essas funções. Eu pessoalmente adoraria ver um concorrente para o Twitter [o que é a própria motivação deste post]. Será interessante observar.

Para um leitor, Thoughts desarticula a ideia de ir a um único site específico [como o Twitter], escolher um tópico e ver imediatamente nele um fluxo de pensamentos de muitas pessoas diferentes. Para um escritor, porém, acredito que um micro blog como esse pode ser combinado a um full blog WordPress para complementar e estender pensamentos iniciados nos grandes blogposts e criar uma retroalimentação positiva para ambos os sites.

Como tudo na vida, é preciso conhecer sua audiência. Quem é o público para seus pensamentos? Presumivelmente, não o seu círculo de amigos – que têm suas próprias vidas e não vão atualizar sua página várias vezes ao dia para te ver. As únicas possibilidades que vejo para quem pretende usar a plataforma como um fim em si mesmo são a) que nenhuma outra alma jamais chegue a ler seus escritos lá – caso em que você pode muito bem escrever suas ideias em um arquivo de texto em seu disco rígido, ou b) que atraia a atenção de um tipo que você prefere não receber: um seguidor obsessivo com assustadoramente muito tempo livre em suas mãos ou então enxames de robôs russos visando os vulneráveis e os propensos a compartilhar demais suas emoções.

Mas se você tem uma visão estratégica do que pretende atingir, como blogger ou no relacionamento com clientes, Thoughts parece ser uma grande ferramenta para complementar seu Blog ou para fazer backlinks para aumentar o pagerank de seu(s) site(s). Os seguidores do seu blog principal provavelmente sempre darão uma olhada em seu micro blog.

Ilustração: Vox Leone

E se você é do tipo social ou ‘early adopter’ também sabe que é sempre bom reservar seu nome ou marca em uma nova plataforma que surge [ok, não precisa me agradecer]. A propósito, criei uma conta, e meus pensamentos estão [ou estarão] em leone.thoughts.page [ainda testando]. Salve entre seus favoritos, please. 🙂

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Termo de Isenção de Responsabilidade:

  • Não tenho nenhum tipo de relação com esse site/domínio. Conheci a ferramenta durante a exposição que seu fundador fez no site Hacker News.
  • É bem possível que em breve eu me arrependa de ter postado isto, se o serviço não decolar.
  • E como evangelista da Segurança digital, aproveito para avisar do risco sempre existente de ataques do tipo Cross-Site Scripting neste tipo de site [como é corriqueiro no FB, Twitter et al]. Sempre navegue com consciência.