A Promessa de Descentralização e Empoderamento da ‘Web 3.0’

Web 3.0 é o que Sir Tim Berners-Lee e o W3C, apoiados por empresas como o Google, querem que o futuro seja.

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Alguma definição

Segundo a Forbes

…é um desafio definir precisamente a Web 3.0. Para desenvolvedores e entusiastas de criptomoedas, a Web 3.0 incorpora as tecnologias e conceitos que estão no centro das criptomoedas: descentralização, economia baseada em tokens e blockchain.

A descentralização significa que os usuários podem realizar transações ponto a ponto, eliminando intermediários e removendo o poder das entidades controladoras. Há um maior foco na privacidade, transparência e poder do usuário.

Aqui é onde a tecnologia blockchain e a criptomoeda entram na equação. As criptomoedas e a economia de tokens facilitam esse modelo de descentralização, permitindo que as informações sejam armazenadas em um livro-razão distribuído fora do âmbito de qualquer entidade controladora.

Um cheiro de peixe no ar

O fato de o Google – o maior centralizador do mundo, que sempre esteve a dirigir as coisas nas versões anteriores da Web – participar dos grupos de trabalho da Web 3.0, já levanta suspeitas desconfortáveis quanto à sua influência nesse processo.

A expressão Web 3.0 foi supostamente cunhada há quase uma década por um dos gurus da blockchain, e está cheia de exageros e mistificações, como tudo nestes tempos correntes. Todos nós já deveríamos saber que blockchain é um desastre e criptomoedas/cripto-tokens estão rapidamente se tornando “más notícias” até no mercado de camisetas de segunda mão.

Infelizmente, assim como nos primeiros dias de Blockchain e Bitcoin, os jornalistas – que geralmente sabem pouco ou nada de computação ou criptografia – estão viajando na ‘vibe‘ de gente de fala mansa e sorrisos sedutores, a malhar na Internet uma utopia futura que levará todas as pessoas ao nirvana.

Nos encontros que tenho na vida diária, eu percebo que meus comentários sobre certos vigaristas e embusteiros da Web 3.0 não são muito populares em certos círculos. Em minha defesa digo que meus pontos de vista não são únicos e são compartilhados uma legião de gurus igualmente sorridentes a dizer isso a um grande público nos tubes da vida.

Nem todos serão permitidos entrar na utopia

A razão é que somos todos basicamente preguiçosos e não queremos assumir responsabilidades.

Como em todo empreendimento ocidental moderno, não importa o que seja, se houver o mais leve odor de status, dinheiro ou poder no ar ao redor, toda uma uma hierarquia de controle espontaneamente se desenvolve, com poder, dinheiro e status sendo acumulados no topo, sugados daqueles na base.

Quando você olha para a Web 1.0 no século passado, os sites eram estáticos e descentralizados, mas impossíveis de encontrar, exceto por acaso. Surgiu então a ideia da indexação e duas coisas aconteceram:

  • as coisas tenderam a se centralizar.
  • os primeiros a comercializar dominaram o mercado.

No início dos anos 2000 a Web 2.0 trouxe outro enfoque. Os usuários se tornaram consumidores insaciáveis, embora ainda criassem algum conteúdo. Os novos comportamentos tiveram o efeito colateral de propiciar uma cultura de roubo maciço de informações pessoais e propaganda enganosa cada vez mais agressiva. As estruturas de poder e controle social ganharam uma dimensão e uma centralização cada vez maiores, à medida que as “mídias sociais” apareciam. O preço que pagamos no final foi a fratura da sociedade e o alastramento da ignorância e superstição.

R.I.P.

A Web 2.0 agora está morrendo, pois a propaganda enganosa não está mais a gerar lucro suficiente no ambiente de extrema ganância; ela não está trazendo as recompensas prometidas e os investidores, depois de mais de uma década, ainda não estão vendo nenhum dinheiro real retornando. Sua riqueza foi tomada e embolsada por muitos.

Assim, algum tipo de Web 3.0 aparecerá. Queremos que ela seja utópica e igualitária, mas os donos do poder conhecem nossa índole. Eles sabem que não estamos preparados para assumir a responsabilidade para que o sistema seja mesmo igualitário.

Portanto, espere muitos golpistas criando novas bolhas para os investidores despejarem dinheiro como em um ralo no oceano. Ao mesmo tempo, espere um novo tipo de agregação de dados e controle social mais profundo e pirâmides ainda maiores de status, poder e dinheiro.


Adendo – “Xxxxx é o ópio do Povo.”

Em seu tempo, esse dito [de Karl Marx, sorry] era verdadeiro até certo ponto, mas ele adquiriu muitos outros sentidos desde então. Um deles – mais ou menos uma década atrás – é “Reality TV é o ópio do Povo”. Mais recentemente, e com mais verdade, “Rede Social é o ópio do Povo”.

Observar as redes sociais hoje nos dá uma pista de como será a Web 3.0 se aqueles no topo da hierarquia tiverem carta branca para fazer o que querem. Ela será projetada nas melhores tradições orwellianas para nos transformar não em escravos espancados, mas algo pior: servos estúpidos completamente controlados.

Aqueles que constroem essas hierarquias – oligarquias tecnológicas como Google, Apple, Amazon – não querem que você tenha bens; tudo será para alugar [você já deve ter percebido que não tem controle total sobre certas coisas que você imagina ser de sua propriedade, ex. Smartphone]. Será então a era da economia rentista. Tudo o que você vai fazer é pagar, pagar e pagar de novo à medida que vive; um inquilino em todos os sentidos. Como você não terá ativos, a realidade da inflação será usada contra você.

O aluguel que você paga irá para o topo da pirâmide, onde será convertido em ativos que somente eles poderão possuir. Você descobrirá que, à medida que seu salário aumenta, a inflação garantirá que esse aumento não tenha nenhum efeito material em sua vida. Não importa quanto você ganhe, o aluguel sempre vai te separar do seu dinheiro. Você será deliberadamente mantido pobre e dependente, e portanto controlado. Se você tiver bens, eles serão retirados de você “por meios legais” e, se você resistir, será levado à ruína por custas judiciais ou despesas médicas.

O mundo ficará estagnado à medida que o progresso se tornar quase impossível. Esse é o sonho utópico deles, que eles tentarão de todas as formas forçar sobre nós como um pesadelo vivo, a menos que

acordemos, assumamos a responsabilidade e paremos de ir como sonâmbulos em direção à armadilha

Tem que ser você e eu, e não eles, quem deve assumir a responsabilidade pela Web 3.0.

Não Tenha Pena da Wikipédia

A onipresente Wikipedia, nossa enciclopédia on-line sem fins lucrativos, está mais uma vez com a caneca na mão, a pedir aos seus leitores que doem qualquer quantia. Você provavelmente já viu um de seus banners no topo alguma página.

Imagem: Vox Leone

Sabemos que a independência financeira da WMF [Wikimedia Foundation – uma organização sem fins lucrativos com sede em São Francisco] claramente não está em risco. Então, o que está acontecendo? Uma resposta possível é que a WMF acha que ter dinheiro sobrando nunca é demais – claro, para a eventualidade de um dia chuvoso.

Equidade de Conhecimento

A WMF no entanto alega que tem altos planos globais para “tornar-se a infraestrutura essencial do ecossistema do conhecimento livre” até 2030. Ela diz que quer criar “equidade de conhecimento” – um mundo onde as pessoas em todos os lugares terão tanto acesso à informação em sua própria língua quanto os cidadãos do primeiro mundo – e que isso exigirá aumentos orçamentários contínuos. A certeza é que nesse tipo de empreitada ela sabe que pode contar com uma torneira de dinheiro sempre à disposição na Wikipedia – construída pelo trabalho de voluntários – que pode abrir quando quiser.

E, assim, as pessoas em países pobres como a Índia, ou em países atingidos pela pandemia, como Argentina e Uruguai, muitas das quais hoje temem pela estabilidade de suas vidas, pela vida de seus entes queridos e por seus meios de subsistência, são informadas, através de enormes banners vermelhos, de que a WMF precisa muito de uma doação deles hoje, para proteger a independência da Wikipedia

Banner (este exibido para os leitores da Índia) – Imagem: Wikimedia Commons

No banner acima lê-se:

Olá leitor da Índia. Parece que você usa muito a Wikipedia, e isso é ótimo! Este é o segundo apelo que nós exibimos para você. É embaraçoso, mas neste domingo nós precisamos de sua ajuda. Nós não temos pessoal de vendas. Dependemos de doações de leitores excepcionais, mas menos de 2% doa. Se você doar apenas 150 rúpias, ou qualquer coisa que puder neste domingo, a Wikipedia pode continuar a prosperar. Obrigado.

Esses banners se tornaram muito lucrativos para a Wikimedia Foundation. Todos os anos, a ONG adiciona dezenas de milhões de dólares ao seu “baú de guerra”. Após uma década de angariação de fundos em escala profissional, a fundação já havia acumulado US$ 400 milhões até março de 2022. A Wikimedia criou ainda um outro fundo, administrado pela Tides Foundation, que agora tem em caixa bem mais de US$ 100 milhões. No início a Fundação queria atingir esse número em um prazo de dez anos, mas veio a descobrir que havia superado a meta em apenas cinco. Em 2021, foram arrecadados US$ 162 milhões em recursos, um aumento de 50% em relação ao ano anterior. No entanto, os custos de funcionamento da Wikipédia propriamente representam uma pequena fração do valor total arrecadado pela Fundação Wikimedia a cada ano.


Eu já doei à Wikipedia movido em parte pelo coração mole mas também por puro idealismo, até começar a questionar mais profundamente. Será que a flagrante patrulha mental da Wikipedia contra acadêmicos e políticos dissidentes — “que pensam errado”, bem como os tantos episódios de falsificação deliberada da história, merecem algum apoio? Eu vejo claramente como a Wikipedia pode ser um alvo fácil para extremistas abrigados como “editores”.

É uma pena que tantas contribuições feitas por especialistas genuínos sejam perdidas pela recusa da Wikipedia em disciplinar seus editores rebeldes [ou talvez isso seja proposital e não uma falha do sistema]. Dito isso, eu entendo a necessidade de filtrar algumas coisas – mesmo a academia, cientistas e historiadores agora confessam que estão adaptando sua produção para não ferir susceptibilidades.

O que eu acho

Minha opinião pessoal é que as pessoas que valorizam a liberdade de expressão e a imparcialidade têm que manter um olhar crítico sobre a Wikipédia. Jimmy Wales no início pareceu ter ideais nobres para o site. Ele evitou a comercialização do site e assim abriu mão de uma receita potencial de dezenas de bilhões de dólares. A reserva de US$ 400 milhões é pouco em comparação com o que a Wikipedia poderia valer no mercado aberto. Mas Wales permitiu que o site fosse comprometido em sua imparcialidade; não por dinheiro, mas por ideologia política.

Wales fica facilmente irritado com com as críticas ao patente viés esquerdista da Wikipedia. Mas quando o site permite que veículos reconhecidamente partidários, como o New York Times, MSNBC, CNN, NPR, sejam usados como fontes autorizadas para confirmar fatos, mas não a Fox News ou o New York Post, o viés é óbvio [noto aqui que não faço juízo de valor nem tenho preferência por nenhum dos meios citados]. Veículos como Wikipedia e BBC, que estão livres de pressões comerciais, estão em uma posição única, e poderiam ser uma verdadeira força para o bem se moderassem as posições extremistas tanto da esquerda quanto da direita, fornecendo uma apresentação equilibrada dos fatos.

Convocar os usuários para “defender a independência da Wikipédia” está muito longe da voz monolítica e onisciente da razão que os leitores de longa data da Wiki esperam ouvir. Ter um cafofo para um dia de chuva é uma coisa. O desnecessário desvio de finalidade é outra.

Se a “equidade do conhecimento” é realmente o que eles almejam, a monetização convencional da plataforma provavelmente não é a maneira de fazê-lo. Nada é mais cruel do que um paywall onde, antes, havia uma riqueza inesgotável de informação, disponível para acessar livremente.

A Síndrome de Leonardo

Na blogosfera esta semana encontro um interessante post de onde tirei o título deste artigo. O tema de fundo é a procrastinação, algo com que a grande maioria das pessoas pode se identificar.

Vitruvian Man - arte
Imagem: Pexels

O post ao qual me refiro faz comentário sobre o livro de Peter Burke, The polymath: a cultural history from Leonardo da Vinci to Susan Sontag. Em uma passagem da obra o autor sustenta a tese, já defendida por outros, de que as aventuras criativas de Leonardo Da Vinci foram na verdade fracassos.

Exemplos de seus fracassos incluiriam não ter sucesso na quadratura do círculo [o que é geometricamente impossível], e em vários projetos de engenharia que não funcionaram – como uma besta gigante e uma máquina voadora; ter mal-entendido vários aspectos do coração; ter feito desenhos com tintas experimentais que resultaram em lenta degradação de algumas de suas pinturas.

Mesmo sua primeira encomenda registrada como pintor independente – um retábulo para a Capela de São Bernardo em 1478 – ele não conseguiu concluir, apesar de receber um adiantamento em dinheiro de 25 florins para isso. Muitos de seus contemporâneos registraram que ele não cumpria os prazos ou nem mesmo terminava projetos — como nunca ter terminou uma estátua equestre encomendada por Francesco Sforza.

O ensaio continua a explicar como o pensamento e o trabalho de Leonardo estavam fora das disciplinas da época (e sua abordagem ainda está fora de muitas que são ensinadas hoje), embora isso fosse uma desvantagem para sua carreira na época. Leonardo não era o “profissional sério”. Ele pegava algumas ideias e brincava com elas.

Um sentimento familiar

A esta altura começo a suspeitar que a Síndrome de Leonardo é a responsável pelas minhas longas noites. Com a Internet sendo tão vasta, há inúmeras coisas para experimentar e hackear [no sentido de ‘desmontar para conhecer o funcionamento’], e tenho inúmeros projetos inacabados guardados em meus discos rígidos [na verdade uso SSD’s]. Não sou um acumulador no sentido típico de guardar jornais velhos para a posteridade – e de fato sou um minimalista. Mas quando se trata da minha vida digital, é difícil resistir à facilidade de poder guardar montanhas de ‘jornais’ em forma de bits.

Leonardo ficaria paralisado pela web moderna. De certa forma sou como um renascentista, reunindo em meus escaninhos pequenos trechos de código que um dia podem ser úteis. Meus “favoritos” estão transbordando de URLs interessantes que pretendo revisitar algum dia. Eu sou um acumulador digital que procrastina muito em certos períodos. Não sei se preciso tomar providências para mudar, ou se isso é uma resposta natural à vastidão da web e a única maneira sensata de abordá-la.

Terminar o serviço é uma verdadeira dor

Em algum momento do projeto, chegamos à parte em que as coisas divertidas já foram feitas. Já aprendemos praticamente tudo o que foi possível com o exercício, e o trabalho está “90%” acabado.

Esses últimos 10%, no entanto, são uma ladeira íngreme, e muitas, muitas pessoas simplesmente acabam por abandonar o projeto nessa fase. Em muitos casos não há problema, se o objetivo principal era aprender e realmente não há “tração de mercado” suficiente para justificar a conclusão do projeto.

Se houver um requisito formal para concluí-lo (como, digamos, um contrato, com sua assinatura), é claro que os 10% precisam ser concluídos, não importa quão chato isso seja.

Há até uma piada no meio: “90% do projeto é concluído em 10% do tempo. 10% do projeto é concluído em 90% do tempo.” Já notou como, quando um novo prédio está sendo construído na vizinhança ele parece ficar “completo” em um tempo surpreendentemente curto? Contudo, quase sempre esse momento está apenas na metade do tempo da construção, e 100% do tempo tomado pelo projeto até aqui deverá se repetir antes que as portas se abram.

Isso porque fazer o exterior e a estrutura é simples e pode ser feito por praticamente qualquer pessoa. Alvenaria, janelas, portas, telhados, etc., são habilidades importantes, mas não extremamente especializadas.

O interior, porém, requer muita habilidade. Você não pode simplesmente trazer um martelador meia-colher. Você precisa de carpinteiros e marceneiros experientes e pintores bem remunerados. Essas pessoas são mais difíceis de agendar e não costumam apressar o trabalho. O resultado do trabalho deles é o que as pessoas verão de perto, todos os dias, então precisa de muito polimento e tem que ser robusto.

O mesmo com qualquer produto

No momento(*) estou escrevendo uma interface para padronizar a entrada de ‘prompts’ e parâmetros em plataformas como ‘Stable Diffusion’. Provavelmente o trabalho já estava 90% completo na semana passada, mas acontece que estabeleci um roteiro de teste bastante robusto para ele, e não consigo parar de testar. Estou encontrando bugs em minha implementação (sempre encontro), e estou corrigindo-os à medida que avanço. Também, como sói acontecer, estou sempre a encontrar “pequenas coisas” que esqueci de implementar.

Assim que eu tiver tudo funcionando para minha satisfação – e se achar que é de interesse geral, detalharei neste espaço.

(*)Muitas coisas chatas, mas isso significa que não preciso me preocupar com comunicação e marketing, muito críticos (e arriscados), que deixo aos parceiros mais habilitados.

De volta a Leonardo

Eu entendo o ponto do autor do citado blog, bem como o do formulador original da crítica, Peter Burke, talvez porque, como eles, eu também não acredite no mito do Superdotado Sobrenatural. A inteligência no fundo é um artefato cultural e precisa ser associada a outros atributos para levar ao sucesso. Ninguém, mesmo os gênios, tem uma visão privilegiada do Todo. Toda ciência e técnica é fruto de trabalho árduo.

Mesmo assim, os argumentos dos detratores são bastante injustos. Em favor de Leonardo, eu devo dizer ele tirava ideias de qualquer lugar – mas não apenas ideias que estavam no “cânone” de uma disciplina, e isso por si só é um portento admirável. Sobre fazer experimentos com tintas também não considero uma falha de caráter, pelo contrário. É, na verdade, um experimento que eu chamaria de audacioso – e de longo prazo. Sobre entender mal vários aspectos do coração, ele descobriu/teorizou como a válvula aórtica e seus folhetos funcionavam de uma forma que se mostrou correta – embora ele estivesse errado sobre a circulação sanguínea em geral.

Mona Lisa – obra inacabada

Não sei. Ele trabalhou nela por quatro anos, levando-a para todos os lugares onde ia para não ter que parar, e se ela estiver realmente inacabada pode ser simplesmente porque a mão direita do mestre estava começando a paralisar. Há mais a ser dito sobre o perfeccionismo na Mona Lisa do que a síndrome de Leonardo.

Leonardo definitivamente começou muito mais do que ele podia terminar (decepcionando muitos clientes, por certo), e tinha um certo auto engrandecimento em relação ao que ele dizia que podia fazer, mas os registros dos fatos não são muito precisos.

No fim de tudo, ele é lembrado porque, na verdade, tinha um conjunto muito grande de ideias detalhadas, desenhos, planos e realizações. A maioria de nós adoraria ter criado uma obra de arte tão inacabada quanto a Mona Lisa.


Leitura adicional recomendada

Burke, P. (2021) The polymath: a cultural history from Leonardo da Vinci to Susan Sontag. First published in paperback. New Haven London: Yale University Press.

Elon Musk versus ASG e suas contradições

Meses atrás o S&P 500 chutou a fabricante de veículos elétricos Tesla para fora de seu índice ASG como parte de uma atualização anual da lista. Enquanto isso, Apple, Microsoft, Amazon e até mesmo a multinacional de petróleo Exxon Mobil permanecem.

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Como reportado pela CNBC em maio passado, o índice S&P 500 ESG usa dados ambientais, sociais e de governança para classificar e efetivamente recomendar empresas aos investidores. Seus critérios incluem centenas de pontos de dados, agregados por empresa, relacionados à forma como os negócios afetam o planeta e atendem às partes interessadas além dos acionistas – incluindo clientes, funcionários, fornecedores, parceiros e vizinhos. As alterações no índice entraram em vigor em 2 de maio, e uma das responsáveis pelas mudanças índice, Margareth Dorn, explicou em seu blog o problema com a empresa de Musk.

Ela disse que a “falta de uma estratégia de baixo carbono” e “códigos de conduta empresarial” da Tesla, juntamente com episódios de racismo e as más condições de trabalho relatadas na fábrica da Tesla em Fremont, Califórnia, afetaram a pontuação. “Embora a Tesla possa estar desempenhando seu papel ao tirar os carros movidos a combustível das ruas, ela ficou para trás de seus pares quando examinada por uma lente ASG mais ampla”, escreveu a porta-voz da S&P.

A Tesla notoriamente sempre teve uma avaliação baixa, não apenas no aspecto ambiental. Sua cultura empresarial sempre angariou antipatias. No Twitter, o CEO da Tesla, Elon Musk, disse que a S&P Global Ratings “perdeu sua integridade” e “foi aparelhada com falsos guerreiros da justiça social”.

Algo inesperado

Quer dizer então que a Tesla, empresa que mostrou como fazer carros elétricos que as pessoas realmente desejam — carros que podem ser carregados por energia solar (lembre-se que a Tesla também administra a Solar City), e uma das poucas empresas líderes em mostrar que os Estados Unidos ainda podem fabricar coisas não está apta, enquanto Exxon, um dos maiores poluidores do mundo, aparece como um missionário ambiental?

Não é bem assim

A Tesla certamente deu vida ao mercado de carros elétricos, e não há absolutamente nenhuma dúvida quanto a isso. Mas não basta apenas tê-los introduzido para as massas – a maioria dos carros elétricos não são Teslas.

O problema é que outros fabricantes têm a “vantagem do segundo empreendedor”, e a Tesla simplesmente não tem inovado o suficiente para se manter à frente e reter os benefícios de ser o primeiro. Por exemplo, os concorrentes agora alcançaram um ótimo nível de rendimento do conjunto motor/baterias enquanto a Tesla, no momento, não tem nenhum avanço que lhe permita ficar à frente deles.

Se, portanto, a Tesla não tem condições de de mostrar que é mais verde que a concorrência e liderar o mercado, é razoável, por mais crédito que mereça por impulsionar o mercado no passado, dizer que atualmente ela não possui credenciais particularmente fortes em termos de tecnologia verde.

Você não pode simplesmente fazer algo grande em um ponto fixo no tempo e esperar ser bem avaliado por isso para sempre se os outros pegarem o que você fez e fizerem ainda melhor. Obviamente não é assim que os índices funcionam.

Eu arriscaria dizer que o maior problema é que Musk se esticou demais. Por um tempo ele esteve realmente a conduzir a Tesla em várias questões-chave, como a autonomia das baterias. Agora ele parece estar desinteressado e tem se distraído com coisas como mídia social – com sua vacilante oferta ao Twitter. Aparentemente ele precisa voltar seu foco para empreendimentos como Tesla e SpaceX para que possa começar a levá-los de volta à frente da concorrência novamente e para recuperar o valor da Tesla. Caso contrário, acabará como “apenas mais um fabricante de veículos elétricos”.

A pergunta de um milhão de dólares

Por que, afinal, o mercado deveria se preocupar com coisas relacionadas à justiça social? A propósito, as grandes corporações já demonstraram que nunca são “responsáveis”. A aparência de ser responsável geralmente é a única coisa que importa para elas. Por acaso elas já deram aos grupos de Diversidade, Equidade e Inclusão alguma “Equity”? Deram elas algum assento no conselho de diretores aos países pobres da África?

O engraçado é que as preocupações ambientais e as preocupações com a justiça social geralmente estão em conflito direto. As preocupações de justiça ambiental e social muitas vezes estão em desacordo consigo mesmas. Pense na fazenda solar que invade espaços selvagens, ou na desativação de uma usina de carvão em uma comunidade muito pobre, mas cuja substituição custa empregos e aumenta os preços da energia (o que afeta desproporcionalmente os pobres). Claro que existem algumas proposições ASG que parecem sábias quando vistas ao telescópio, mas a maioria delas simplesmente não é. Como categoria o ASG traz profundas contradições em si.

Isso não quer dizer que os dados solicitados e coligidos pelo índice sejam inúteis ou não importantes. É fundamental conhecer a demografia dos funcionários, estatísticas ambientais, bem como ter um corpo de boas regras corporativas. Mas a ideia de estabelecer algum tipo de pontuação empresarial por altos valores morais em ASG é simplesmente estúpida, e nisso tenho que concordar com Musk.

Pessoalmente eu penso que quem realmente quer colocar seu dinheiro onde está sua moral, deve investir em empresas dentro de categorias que se alinhem com seus valores. Você fará mais bem apoiando uma empresa de gás natural que está a projetar usinas de hidrogênio (e deixando claro que é por isso que você fez esse investimento) do que investindo no Google porque ele comprou alguns créditos de carbono.

Mais um artefato da guerra cultural

Ao contrário dos solenes órgãos do “establishment” do jornalismo corporativo, a mídia independente – oi! – costuma ser muito direta sobre as deficiências do ASG. O podcast Breaking Points recentemente trouxe muitos detalhes sobre as recentes operações do governo americano junto ao Deutsche Bank e Goldman Sachs por suposta “greenwashing” [lavagem verde]. Além dos grandes bancos, os políticos também estão jogando rápido e solto com o novo rótulo. Em maio um comissário da União Européia chegou a chamar o gás natural de “fonte de energia verde”(!).

Sem surpresa, o rótulo ASG agora se tornou outra arma da guerra cultural travada para desacreditar adversários políticos. Usada pela direita como uma crítica ao movimento “woke”, e pela esquerda como forma de denunciar o “greenwashing” em empresas de setores que considera “malandros” (como petróleo e gás), a sigla se tornou precocemente datada.

Mas a verdadeira tragédia é que os padrões ASG continuarão a alimentar o crescente ceticismo em relação às mudanças climáticas e aqueles que divulgam de boa fé seus perigos potenciais. Infelizmente, para os céticos todas as iniciativas contra as mudanças climáticas parecem enganosas, não importa como sejam apresentadas, o que leva a crer que eles provavelmente jamais serão persuadidos.

ASG tem todas as características de uma farsa. Faríamos bem em descartar o rótulo junto com todos os males associados a ele.

*Em tempo: até os fundos ASG estão investindo em ações da empresas de Big Oil: Link

Post Scriptum

A Tesla vem sobrevivendo porque as grandes empresas de automóveis ainda não querem fazer elétricos; eles querem fazer picapes de alta margem de lucro e loucamente poluentes. A Tesla foi beneficiária de um esquema que lhe transferiu enormes somas de dinheiro da Ford & GM em troca da venda de carros elétricos. Basicamente, um subsídio indireto do governo, já que o custo de reduzir a poluição efetivamente foi repassado para os compradores de picapes – essencialmente um imposto para quem precisa de uma picape.

Mas, bem, a Ford tem uma picape elétrica a caminho. A GM não vai ficar muito atrás. Não há mais créditos de carbono para a Tesla. Não há mais almoços grátis.

Eu diria que em 10 anos poderemos ver uma fusão/assimilação da Tesla com/por um dos grandes fabricantes automotivos. Principalmente para acesso destes a patentes e engenheiros.

Reféns pelo Smartphone

Há mais de 25 anos, o CEO da Sun Microsystems, Scott McNeally, anunciou: “A privacidade está morta. É melhor se conformar!”

Smartphone addicts
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Tudo o que ocorreu desde a vasta expansão dos poderes de vigilância, primeiro na mobilização mundial na Guerra contra o Terror, depois com a ascensão do capitalismo de vigilância, facilitado pelos avanços na tecnologia de telefonia móvel, transformou qualquer noção razoável de privacidade em um anacronismo pitoresco.

Somos cada vez mais obrigados a carregar um smartphone. Nem sabemos porque, mas precisamos que eles participem conosco de eventos esportivos, da exibição de filmes, de festas, destranquem portas, chamem o táxi, ou nos liberem a catraca do metrô. A ascensão da autenticação de dois fatores torna o smartphone ainda mais necessário.

Sem meu telefone eu nem consigo mais pedir comida no restaurante cheio de garçons onde estou sentado(!) – nem consigo acessar minhas contas de trabalho. Por que diabos eu tenho que carregar uma pequena lápide de plástico e vidro de seis mil reais só para pedir uma pizza? Por que tenho que carregar um rastreador apenas para fazer login na minha conta de trabalho?

Amazon, Google, Facebook, Apple — e o resto da matilha — há muito perceberam que estão sentados em um tesouro de informações sobre quais sites visitamos, em que gastamos dinheiro, com quem conversamos, onde vamos e quais são nossos interesses. Além disso, por meio de Alexa, Siri, Roomba e outras ferramentas semelhantes, eles mapeiam nosso ambiente há anos. Conhecem a fundo nossa intimidade.

Reféns

Valentões nas redes sociais da extrema direita vivem a proclamar suas visões de liberdade de expressão absoluta. Há uma ironia cósmica no fato de eles usarem smartphones para suas diatribes.

A degradação do ambiente de negócios, em que empresas fornecedoras de bens e serviços se transformam rapidamente em esquemas rentistas, somada à corrosão dos valores éticos tradicionais sob os quais o próprio capitalismo floresceu, tornam possível imaginar uma situação-limite em que, à medida que procuram continuamente novos fluxos de receita, as corporações acabarão por decidir nos cobrar para NÃO divulgar o conhecimento que acumularam sobre nós. Uma “taxa de proteção”, por assim dizer. Afinal, eles dirão, custa dinheiro manter em sigilo tudo o que eles sabem sobre nós – o que explica em parte por que eles já vendem nossas informações para empresas de marketing e grupos políticos.

Por que essas corporações deveriam se contentar com a venda de nossos dados a apenas algumas centenas ou alguns milhares de empresas clientes, quando centenas de milhões de indivíduos podem [e talvez queiram muito] pagar para manter certas informações fora do alcance dos outros e do domínio público?

O problema fundamental é que a eletrônica e o software hoje são projetados para servir aos interesses de seus desenvolvedores acima dos interesses de seus usuários. Não são apenas telefones. Corporações de todos os tipos nos rastreiam, nos medem, nos classificam. O mesmo acontece com nossas informações de cartão de crédito – todas as compras, registradas por hora e local.

A questão não deve ser se e quanto rastreamento ou coleta de dados pessoais por fabricantes de dispositivos é aceitável. O debate deve ser sobre o que é do melhor interesse do usuário e o que o usuário realmente deseja que os serviços digitais façam com seus dados.

É preciso criar consciência de consumo – assim como fizemos com o cigarro – e uma atitude crítica, de sistemática desconfiança com relação aos fornecedores de bens e serviços eletrônicos/digitais. É preciso criar salvaguardas legais e éticas para que software e dispositivos eletrônicos sejam obrigados a agir sempre como agentes do usuário [um exemplo clássico de como seriam tais salvaguardas – embora um pouco deslocado neste contexto – são as Três Leis da Robótica, de Isaac Asimov]

O que me assusta é a falta de preocupação com a privacidade por parte dos “millenials”. A atitude dos jovens ao meu redor, dos filhos dos meus amigos, etc., é a de que, se eles não estão fazendo nada de errado, por que então se preocupar? Tento explicar a eles o que pode acontecer se um dia de repente alguém decidir que o que eles sempre fizeram se tornou ilegal, ou imoral. E o que acontece se alguém plantar falsas evidências de crimes em seus ambientes virtuais, ou dispositivos eletrônicos? Eles simplesmente não parecem entender a gravidade. Isso realmente me assusta e me faz perguntar a razão pela qual a privacidade foi permitida a se deteriorar a esse nível.

Visão de uma Distopia

Na Índia, carregar um smartphone se tornou absolutamente obrigatório [o que, por si só, configura cerceamento à liberdade]. Você não pode realizar nenhuma transação online sem um smartphone, porque por padrão os códigos das transações (OTP) são enviados para ele. Seu número de telefone se tornou sua identidade, e é usado como credencial de login na maioria dos sites.

O pagamento por telefone tornou-se tão difundido que muitas empresas não mais aceitam dinheiro – elas não querem o incômodo de devolver troco, por exemplo. Os idosos e pessoas portadoras de deficiência lutam com as idiossincrasias de um smartphone: o wi-fi de repente desliga no meio da transação; golpistas pedindo para você repassar códigos OTP; robocalls te infernizando a cada cinco minutos; pop-ups aleatórios pedindo para você baixar coisas…. O horror, o horror.

Nós brasileiros estamos caminhando rapidamente para uma situação de pesadelo como a vivida na Índia, considerando a falta de conhecimento tecnológico de nossas legislaturas e tribunais, combinada com a fraqueza e inação de nossas agências de regulamentação. Aqui no Brasil até mesmo a venerável e muy tecnológica Receita Federal nos obriga ao uso de software JAVA, escrito em código semi proprietário, na entrega da declaração de renda (o quão louco é isso?). E nem vou me dignar a comentar essa coisa gosmenta que é o Pix.

Visão de outra Distopia

Nos EUA, grupos antiaborto já estão usando as informações coletadas nas plataformas digitais – publicadas voluntariamente pelos usuários via smartphones – para espionar as pessoas, desde os aplicativos de fertilidade que rastreiam os ciclos menstruais das mulheres até o uso de tecnologia móvel de geo-fencing [perímetro virtual estabelecido por GPS] para bombardear com mensagens anti aborto as pacientes em, ou a caminho de, clínicas de aborto. Essa prática também tem sido cada vez mais adotada pelos órgãos de aplicação da lei através dos chamados “mandados para geo-fencing reverso”.

Através do geo fence reverso em torno de clínicas de aborto a polícia pode, por exemplo, pedir ao Google informação sobre todos os que estiveram dentro de em certo raio a partir de um local específico, em um horário específico, com base nas informações em seus telefones. Então eles cruzam as informações para gerar possíveis pistas a partir disso.


Vivemos na era da tirania do capitalismo de vigilância, é certo. A menos que muitas coisas mudem drasticamente, o que não prevejo, a privacidade não voltará.

Por meu turno, só espero que um dia, depois que a neblina dessa época insana se dissipar, as pessoas – se ainda houver pessoas – tenham clareza mental para compreender – e lamentar – a dimensão do tesouro que foi perdido.