Splinternet: a Crescente Ameaça de Fragmentação da Rede

Você tenta usar seu cartão de crédito, mas ele não funciona. Na verdade, o cartão de crédito de ninguém funciona. Você tenta ir a alguns sites de notícias para descobrir o que está acontecendo, mas também não consegue acessar nenhum deles. Nem mais ninguém consegue. Logo as pessoas estão em pânico fazendo compras de itens essenciais e esvaziando caixas eletrônicos.

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Esse tipo de colapso catastrófico da pan-Internet é mais provável do que a maioria das pessoas imagina. O Projeto Atlas da Internet[1], da Universidade da Califórnia, Berkeley, tem como objetivo produzir indicadores dos pontos fracos, gargalos e vulnerabilidades que ameaçam a estabilidade da Internet, tornando mais claros os riscos de longo prazo.

Por exemplo, onde estão os pontos de fragilidade na conectividade global de cabos? Cabos físicos submarinos fornecem 95% do tráfego de voz e dados da Internet. Mas devido a problemas de infraestrutura, alguns países, como Tonga, se conectam a apenas um outro país, o que os torna vulneráveis ​​a ataques de grampeamento de cabos.

Outro exemplo são as redes de distribuição de conteúdo, que os sites usam para disponibilizar prontamente seu conteúdo a um grande número de usuários. Para ilustrar o problema, uma interrupção na rede de distribuição de conteúdo [Content Delivery Network – CDN] Fastly em 8 de junho de 2021, interrompeu brevemente o acesso aos sites da Amazon, CNN, PayPal, Reddit, Spotify, The New York Times e do governo do Reino Unido.

Atualmente, a Internet enfrenta perigos duplos. Por um lado, existe a ameaça de consolidação total. O poder sobre a Internet tem se concentrado cada vez mais, notadamente nas mãos de algumas organizações sediadas nos Estados Unidos. Por outro lado, nota-se uma crescente fragmentação. As tentativas de desafiar o status quo, especialmente por parte da Rússia e da China, ameaçam desestabilizar a Internet globalmente.

Para quem a Internet está se tornando mais confiável e para quem ela está se tornando mais instável? Estas são as questões críticas. Cerca de 3,4 bilhões de pessoas agora estão se conectando à Internet em países como Fiji, Tonga e Vanuatu. Que tipo de Internet eles herdarão? Uma Internet controlada pelos EUA.

Desde pelo menos 2015, os principais serviços que alimentam a internet estão cada vez mais centralizados nas mãos de empresas americanas. Estima-se que as corporações, organizações sem fins lucrativos e agências governamentais dos EUA poderiam bloquear um total de 96% do conteúdo da Internet global de alguma forma.

O Departamento de Justiça dos EUA costumeiramente usa ordens judiciais destinadas aos fornecedores de tecnologia [Google, Facebook, etc] para bloquear o acesso global a conteúdos ilegais nos EUA, como violações de direitos autorais. Ultimamente, porém, o governo federal dos EUA tem estendido sua jurisdição de forma mais agressiva. Em junho, o DOJ usou uma ordem judicial para suspender brevemente um site de notícias iraniano que o departamento alegou estar espalhando desinformação.

Devido às interdependências da web – como das redes de distribuição de conteúdo – um passo em falso na aplicação desses procedimentos pode derrubar uma peça-chave qualquer da infraestrutura da Internet, tornando mais provável um apagão generalizado.

Nesse meio-tempo, não apenas o governo, mas empresas de tecnologia com sede nos EUA também correm o risco de causar estragos pelo mundo. Considere a recente briga da Austrália com o Facebook sobre o pagamento às agências de notícias por seu conteúdo. A certa altura, o Facebook bloqueou todas as notícias em sua plataforma na Austrália.

Uma consequência foi que muitas pessoas em Fiji, Nauru, Papua Nova Guiné, Samoa, Tonga e Vanuatu perderam temporariamente uma fonte importante de notícias, porque dependem de planos de celular pré-pagos que oferecem acesso com desconto ao Facebook [mas não a sites de informação]. À medida que essas escaramuças aumentam de frequência, os países em todo o mundo estarão cada vez mais sujeitos a interrupções em seu acesso à Internet.

Uma ‘Splinternet’

Naturalmente, nem todo mundo está feliz com essa Internet liderada pelos EUA. A Rússia estrangula o tráfego do Twitter. A China bloqueia o acesso ao Google.

Essas manobras domésticas ameaçam colapsos localizados [a Índia agora se acostumou a fechar a Internet regionalmente durante distúrbios civis]. Tomados em conjunto, esses movimentos representam uma ameaça global: a fragmentação da Internet. Uma Internet fragmentada ameaça a expressão individual, o comércio e a cooperação global na ciência.

Esse estado de coisas também aumenta o risco de ataques ao coração da Internet. Em uma Internet aberta global, os ataques à infraestrutura prejudicam a todos. As internets nacionais isoladas, entretanto, seriam mais resistentes. Por exemplo, a Rússia possui a capacidade de se desconectar do resto da Internet mundial, mantendo o serviço internamente. Dispondo dessa capacidade, ela poderia ser tentada a atacar a infraestrutura central da Internet global com menos risco de perturbar sua população doméstica. Um ataque sofisticado contra uma empresa-chave dos Estados Unidos [qualquer uma] pode causar uma interrupção de grande escala na Internet.

O Futuro da Internet

Durante grande parte de sua história, a Internet foi imperfeitamente, mas amplamente aberta. O conteúdo pode ser acessado em qualquer lugar, além das fronteiras nacionais. Talvez essa abertura seja por causa, e não apesar, do domínio de uma grande democracia liberal como os EUA sobre a internet.

Quer essa teoria seja válida ou não, é improvável que o domínio dos EUA sobre a Internet persista indefinidamente. O status quo enfrenta desafios colocados pelos adversários dos EUA, seus aliados históricos e suas próprias empresas nacionais de tecnologia. Se não houver uma ação coordenada, o mundo ficará com uma mistura de poder norte-americano sem controle e um distópico mundo de escaramuças descentralizadas ad-hoc.

Nesse ambiente, construir uma internet estável e transnacional para as gerações futuras é um desafio. Requer delicadeza e precisão. É aí que um trabalho de análise como o do Projeto Atlas faz a diferença. Para tornar a Internet mais estável globalmente, as pessoas e instituições precisam de medições precisas para entender seus pontos de estrangulamento e suas vulnerabilidades. Assim como os bancos centrais observam as métricas de inflação e emprego quando decidem como estabelecer taxas, a governança da Internet também deve se basear em indicadores – por mais imperfeitos que sejam.

* * *

[1] O Internet Atlas mede os riscos estruturais de longo prazo para a Internet global. Ele produz indicadores reproduzíveis e disponibilizados de forma aberta para identificar pontos fortes e fracos em vários níveis da “pilha” da Internet.

O Zoom e o Voyeurismo Corporativo

Fatos assim não são mais novidade, mas o Zoom vai pagar US$ 85 milhões – aos advogados de uma ação coletiva e aos usuários representados – por mentir sobre criptografia de ponta a ponta e por fornecer dados do usuário ao Facebook e ao Google sem consentimento. O acordo proposto daria aos usuários reclamantes US$ 15 a US$ 25 cada e foi apresentado no último sábado (31/07) no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia.

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Isso aconteceu nove meses depois que o Zoom concordou com um ajustamento de conduta que incluía melhorias de segurança e uma “proibição de declarações falsas sobre privacidade”, em um acordo com a Federal Trade Commission – embora o acordo não inclua compensação para os usuários.

Está correto quem disser que isso é estupro. Sinto-me tão vulnerável em meio aos meus dispositivos como me sentiria se saísse para caminhar depois da meia-noite, pelado, por uma rua escura de qualquer periferia. Eu posso dizer também que o que fazem conosco não é diferente de “stalkear”.

Estar sujeito ao voyeurismo das corporações me faz sentir miserável. Se fosse [apenas] meu governo nacional – legítimo – fazendo isso na suposta intenção de resguardar minha segurança, seria possível começar a entender. Mas saber que essa coleta de dados está sendo realizada por milhares de empresas e indivíduos pelo mudo afora, com o objetivo de nos mercantilizar e desumanizar é inaceitável, e nos torna todos vítimas.

O objetivo final de toda coleta de dados é sempre a exclusão de pessoas [do trabalho, do transporte aéreo, das oportunidades, do crédito, etc]. Os dados do Zoom são valiosos para o Facebook e o Google, não apenas por seu IP. Não apenas pelas conversas íntimas e segredos empresariais. Como consta do processo legal, o material também contém consultas médicas remotas e muitos outros detalhes das vidas privadas dos usuários.

Isso é um tipo de voyeurismo contínuo. Seria um pesadelo na vida real. Quando você é perseguido fisicamente na vida real, você ainda é capaz de esboçar alguma reação e tomar alguma providência legal. Mas, com o estupro de dados não há como impedir, ou mesmo saber quem está te estuprando – ou até que ponto sua vida está sendo destruída.

O teatro das multas

O voyeurismo é geralmente definido como um distúrbio psico-sexual [criminalizado]. Mas quantas pessoas se matam ou experimentam a ruína financeira por causa do voyeurismo corporativo facilitado pelo estupro de dados? Nos Estados Unidos, as corporações têm personalidade. É isso que lhes dá o direito de financiar eleições [ver Citizens United]. Portanto, se as empresas são pessoas, por que não são acusadas também de comportamento criminoso?

Benjamin Lawsky é o papa das leis de segurança cibernética de Nova York, com brilhante passagem pela Superintendência de Serviços Financeiros do governo estadual. Mesmo sendo um regulador experiente, ele nunca acreditou em multas. Segundo sua lógica, multar empresas parece ser um exercício em futilidade. Ele afirma que “as corporações são apenas uma abstração jurídica. É preciso impedir a real má conduta individual dentro das empresas. As pessoas de carne e osso têm que ser responsabilizadas. ”

O comportamento negligente intencional precisa ser criminalizado [quando um hospital ou empresa de energia é hackeado, pessoas podem morrer], se quisermos de fato combater os problemas de cyber-segurança. Para o direito romano, esse é um problema teórico não trivial, uma vez que, no nosso ordenamento jurídico, a negligência é um elemento da culpa e não do dolo [um amigo jurista me alerta sobre a figura do “dolo eventual” no direito brasileiro – obrigado, Dr. Celso]. Já na Common Law [nos EUA] existe a figura da “gross negligence”, que poderia talvez ser aplicada nesses casos. De qualquer forma, é um abacaxi conceitual para um jurista descascar.

Performance sofrível

Outro dia, o governo dos Estados Unidos divulgou um boletim de avaliação de segurança cibernética feito por uma agência governamental [o Departamento de Segurança Interna – Department of Homeland Security].
A maior parte do governo americano foi graduada com nota D [Neste ponto, realmente não quero sequer pensar a respeito do estado de coisas no Brasil].

O próprio DHS, que é o regulador de segurança cibernética dos EUA, também obteve uma classificação ruim. E eis aqui outra dificuldade com multas e investigações regulatórias no campo da informação: as empresas devem seguir o exemplo do governo, mas se o governo tem uma postura de segurança pior do que o setor privado, de onde vem a moral para julgar o setor privado?

O governo precisa seguir suas próprias leis e dar o exemplo. Se o governo continuar a falhar na cibernética, o setor privado não vai cooperar para resolver o problema, pois verá essa cooperação como uma ameaça potencial à sua própria segurança. Por que você deixaria um governo inepto, com limitado conhecimento tecnológico, espiar por trás de sua cortina? Isso cria todo um espectro de vulnerabilidades estruturais.

Portanto, esses passos em falso dos gigantes da Internet têm que ser tipificados como atos criminosos e não apenas passíveis de multa – porque as agências reguladoras simplesmente não têm como impedi-los. Isso está destruindo o tecido da sociedade, criando divisões e disparidades econômicas. Como fazer para enfrentar o problema será um questionamento muito válido no contexto das próximas eleições presidenciais.

Fugindo da Internet Comum

Devo primeiro definir meus termos. Usarei a expressão “Internet comum” para distinguir a nossa velha conhecida “rede mundial de computadores” das redes alternativas, que tecnicamente são chamadas de redes de sobreposição de Internet [‘overlay networks’] – algumas das quais são comumente rotuladas como “dark nets“. A maioria das pessoas hoje em dia se refere à Internet comum como “a web”, embora o significado desse termo tenha mudado ao longo dos anos.

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Originalmente, a web consistia apenas dos sites da Internet cujos URLs começavam com “www”. Agora, para a maioria das pessoas, a web significa toda a Internet. Costumo usar a expressão “mainstream Internet” para me referir aos sites mais conhecidos e movimentadas na Internet comum, especialmente os sites dos gigantes da mídia social como Facebook, Twitter e Reddit.

Há um indicador recente detectado nos países avançados: muitas pessoas estão decidindo dar uma pausa na Internet comum ou, pelo menos, diminuir o tempo dedicado às interações online. Muitas dessas pessoas estão procurando [e muitas vezes encontrando] alternativas para as principais mídias sociais e sites corporativos em geral. Uma dessas alternativas é a rede descentralizada Diaspora – também chamada “rede federada” [link para um servidor Diáspora em português]. Alguns estão indo ainda mais longe, distanciando-se até mesmo do protocolo de hipertexto [HTTP] e gravitando em direção a protocolos de rede mais amigáveis ​​e de ritmo mais lento, como Gopher e Gemini.

Quanto aos motivos, alguns reclamam que os usuários da Internet têm se mostrado cada vez mais intolerantes e mesquinhos desde a década de 1990. Outros desejam dar uma pausa nas redes sociais mais propensas a criar dependência. Alguns consideram que a Internet como um todo aumenta o volume de distração que os leva à procrastinação. Muitos estão incomodados com o comercialismo galopante que suplantou algo que foi concebido para facilitar a transferência de informações úteis e promover o crescimento do conhecimento.

Grande parte está simplesmente cansada ​​de ser rastreada e espionada. Milhões desses usuários querem recuperar a capacidade de falar livremente, algo que foi tirado deles por políticas corporativas e governamentais que limitam os tipos de conteúdo que podem ser postados nas redes sociais.

Não acho, porém, que o desencanto dos usuários com grande parte da Internet seja uma nova tendência, nem vejo uma migração em massa ocorrendo tão cedo. Mas, dados os aspectos cada vez mais desagradáveis ​​da mídia social convencional, acredito que o desencanto é agora particularmente pronunciado.

À medida que a Internet comum se torna mais centralizada, a emergência de redes alternativas atraindo consistentemente mais usuários tem o efeito oposto. Dessa forma, a Internet está se tornando mais centralizada em uma dimensão e mais distribuída em outra – ao mesmo tempo. Isso oferece oportunidades para aqueles que estão cientes desse fenômeno e desejam aproveitá-lo. Ao mesmo tempo, aqueles que estão alheios ficam cada vez mais encurralados nos jardins murados franqueados pelo Facebook, Google e outras corporações gigantes.

Talvez isso seja a evolução inevitável de uma tecnologia como a Internet, que oferece uma interface ilimitada, possibilitada por um número astronômico de protocolos de comunicação e endereços de rede. Talvez a Internet tenha se tornado a ‘fronteira final’ que há 60 anos pensávamos que o espaço seria.

Um tipo diferente de site

Na década de 1970, os varejistas americanos descobriram que adolescentes indisciplinados podiam ser expulsos de suas lojas sem alienar os clientes adultos. O método que eles usaram foi tocar música clássica e ‘muzak‘. Adolescentes rebeldes naturalmente achavam que a música clássica era “música de gente velha” e mostravam sua desaprovação abandonando os estabelecimentos que a tocavam – para a alegria dos proprietários. Outra prática era colocar iluminação rosa suave, especialmente em banheiros. Supostamente, isso tornava a acne dos adolescentes mais pronunciada, fazendo com que eles se sentissem desconfortáveis ​​e com vontade de ir embora.

Gigantes da mídia social como Facebook, YouTube, TikTok e Pinterest sabem que – como mariposas pela chama – a grande maioria dos usuários da Internet é atraída por sites chamativos, repletos de imagens, animações e vídeos de qualidade variada [e, o melhor de tudo, grátis]. Exatamente por esse motivo, alguns geeks descontentes criaram blogs e sites não comerciais que não possuem nenhuma dessas miçangas e espelhos. Eles querem que seus sites sejam menos atraentes para os usuários mais extrovertidos, menos intelectuais, como também para os assediadores de qualquer um que exiba o menor vestígio de individualidade ou pensamento original [trolls]. Muitos dos que criaram sites em redes alternativas também querem evitar a invasão de empreendimentos comerciais que acabem por atrair esses usuários ‘indesejáveis’. Outros criadores querem apenas sites simples e eficientes. Esses não estão tão preocupados com quem os frequenta.

Usuários avançados e mais tecnologicamente capazes estão preferindo redes descentralizadas e distribuídas (diagramas ao centro e à direita) para sua presença na Internet. Essas redes propiciam maior controle e privacidade, uma vez que a comunicação entre os nós (membros) não precisa passar por um centro. As redes sociais como Facebook e Instagram adotam uma topologia rigidamente centralizada, onde todas as interações passam pelo servidor central (à esquerda).

Aqueles que optam por filtrar os indesejáveis ​​geralmente seguem uma ou mais das abordagens citadas acima. Alguns criam sites baseados apenas em texto, para afugentar aqueles usuários que são facilmente atraídos pelo brilho fútil. Alguns desses administradores de site consideram um certo nível de dificuldade na interface gráfica como algo desejável. Eles querem que os “normies” com déficit de atenção nem sequer tentem aprender a usar seus sites. A atitude extrema que esses criadores adotam é isolar-se da multidão convencional, mudando para redes alternativas que só podem ser acessadas por meio de software esotérico, como o TOR.

Pessoalmente, dada a dificuldade de atrair usuários para qualquer novo site ou rede, não vejo necessidade de desencorajar ativamente os recém-chegados. Aqui ninguém é considerado menos desejável a priori. Acredito que fornecer uma plataforma que incentive a liberdade de expressão é mais importante do que se proteger de alguém que possa discordar ou ser rude.

Por outro lado, não posso criticar um desenvolvedor por querer criar uma plataforma para pessoas afins. De fato, eu acho que esse problema geralmente se resolve sozinho. Posso entender o ponto de vista daqueles que temem que o site que eles construiram com carinho – e aprenderam a amar – acabe se tornando mais um paraíso para defensores do voto impresso e negacionistas da pandemia.

A linha que adotei com o Vox Leone foi apenas criar um site simples e eficiente. Todos são convidados a ler e comentar como quiserem (sempre mantendo a civilidade, please). O nosso fórum está aberto a todos. Os únicos comentários ou postagens que já removi foram aqueles que eram completamente fora do tópico ou ininteligíveis. Geralmente, escrever tão diplomaticamente quanto sou capaz (embora muitas vezes eu falhe) parece funcionar para que tenhamos aqui um ambiente civil e criativo, frequentado por pessoas inteligentes e cordatas – apesar de muitos terem opiniões divergentes das minhas. Eu não me importo com discordâncias. Comentários contrários de pessoas bem informadas geralmente são esclarecedores.

Uber Drivers

Hoje não é Sexta de Leão. O post das sextas procura trazer informações interessantes e novidadeiras [e até profundas], com uma pegada casual e um olhar original, mas sempre com um fundo leve de chiste. Meu estado de espírito nesta semana não me permite chistes. Além da solidão do distanciamento social [que já não mais suporto] e do cansaço geral da pandemia, estou tentando entender o que as estatísticas do site estão a me dizer. Embora eu seja honrado pela atenção dos novos amigos e colegas que fiz na grande rede WordPress, vejo que as pessoas do meu entorno e os [sedizentes] amigos não visitam meu site. Como posso conquistar o mundo se não consigo conquistar minha roda de bar ou a grande família?

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Eu costumo apoiar entusiasticamente os projetos dos amigos, mas não estou sendo reciprocado. Será que meu conteúdo, produzido com muito esforço, não está a contento? Será que não acreditam em mim e na minha capacidade? Por que não me dão feedback? Será que pensam que este é um projeto de vaidade? Será que não sabem que este site é um componente importante da estrutura de meu ganha-pão? Será que os ofendi de alguma forma? Ou, pior: será que também tiveram o cérebro sequestrado pelas infames redes sociais e se tornaram completamente incapazes de um pouco de concentração para entender textos como os que escrevo?

Confesso que talvez eu não seja bom para interagir em redes [minhas contas no FB e Twitter estão inativas há anos], apesar de administrar dezenas delas [construídas por mim]. Se isso é verdade, temo pelo meu futuro, na crescente e inexorável economia de rede. A reação [ou falta de] dos amigos ao meu trabalho pode ser um sinal precoce da minha obsolescência. Luto para me manter à tona e não ser varrido do mapa pelos ventos da mudança. Tangido pela exasperação, é sobre isso que decidi falar hoje.

Se você está dirigindo para o Uber ou trabalhando no iFood, seu pensamento, alguns anos atrás, seria: viva a gig economy, viva a liberdade, viva a flexibilidade! Isso tudo é muito bom. Acredito que deva existir muita coisa boa nessas novas empresas. Mas por outro lado, o lado humano, nesse ambiente você só tem chance de progredir aritmeticamente, como um operário de fábrica na Inglaterra da década de 1850. Você tem tempo flexível, mas sem propriedade, sem benefícios, sem aprendizagem, sem comunidade, sem potencial de crescimento geométrico e sempre sujeito às mudanças que eles fazem no centro da rede, aos ajustes que fazem no algoritmo e nas regras do jogo .

Se você ficar temporariamente incapacitado, em tratamento médico, ou atendendo sua família em algum percalço, a rede não precisa de você – o elemento na periferia do sistema. Você será imediatamente substituído por outro par de mãos. Você trabalha avulso, pela remuneração mínima, não construindo nada além de sua classificação no sistema deles, sem acumular vantagens, não importa o quanto você trabalhe. Seu milésimo dia no trabalho será igual ao primeiro.

Há um conjunto de empregos que tradicionalmente sempre foram província da classe média, como arquitetura ou medicina, mas esses empregos serão cada vez mais desviados para a rede, e o licitante mais barato e mais rápido obterá o contrato – por uma remuneração bem menor do que as pessoas costumavam ganhar pelo mesmo serviço na velha economia. Isso é a hiperglobalização. É a multiplicação por dez do que vimos na década de 1980, quando os EUA perderam a liderança na competição global em várias indústrias importantes da época, como aço e automóveis, e o ‘rust belt’ se formou.

As empresas centrais da economia em rede têm um impacto ainda maior sobre os consumidores [talvez nem mesmo este termo se aplique mais] do que tinham os gigantes de escala do passado, como a Standard Oil e a GM. Isso porque, nos tempos da economia de escala, você podia optar por um produto alternativo, caso não gostasse do produto oferecido.

Mas agora, não temos muita opção fora da rede. Estamos cativos. Não éramos cativos da GM, mas estou cativo, por exemplo, do Google e do Whatsapp [minha fonte particular de desgosto], porque é onde estão todas as pessoas importantes na minha área, meus clientes e potenciais clientes. Eu não posso escapar dessa situação. Estamos presos ao LinkedIn porque é assim que somos vistos pelos empregadores e parceiros com os quais interagimos. E não podemos simplesmente cancelá-los como faríamos tranquilamente com a GM.

Também ao contrário dos funcionários da GM, os motoristas do Uber precisam interagir com a rede do Uber em tempo real. Com a Ford, usei seus produtos por mais de 20 anos. Eles não tinham como me vigiar. Detroit não tinha acesso fácil ao meu nome e perfil financeiro. Mas as novas redes digitais otimizam nosso perfil de custo / benefício minuto a minuto. Eles são partes constantes de nossas vidas, extraindo o que podem de cada nó da rede. Eles sabem quem somos e conhecem nosso contexto familiar e econômico. É por isso que, aqui na extremidade da rede, estamos em desvantagem. A maioria dos nós da rede [si, nosotros!] são periféricos, e dançamos conforme a música dos algoritmos emanados do centro.

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Economia de rede

Eis uma mudança importante no mundo: na economia de rede, temos um novo conceito de ‘self’. Uma mudança semelhante ocorreu na revolução industrial, quando passamos do cultivo autossuficiente de nosso próprio solo para estar na linha de produção e ser parte do sistema, trabalhando 16 horas por dia em um tear. A revolução industrial causou uma mudança de consciência. Estamos agora passando por uma nova mudança radical na consciência e na percepção de qual é o nosso lugar no universo.

A economia da rede precisa de um novo contrato social

Um “contrato social” é um acordo geralmente não escrito entre uma sociedade e suas partes componentes, para cooperar em benefício mútuo. É um acordo implícito que a maioria de nós aceita para que possamos “ser livres e procurar a felicidade” dentro de uma comunidade. É a narrativa que anima a nacionalidade; que une uma nação ou um mundo. É o que delimita o que podemos esperar um do outro. São as regras do jogo.

Por exemplo, o contrato social entre o governo e seus cidadãos nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial era [para os cidadãos]: formar-se no ensino médio, comprar uma casa, trabalhar 40 anos para uma empresa de grande porte [ou para o governo], se aposentar aos 64 e depois viver tranquilamente na Florida. A responsabilidade do governo era se esforçar para promulgar leis para tornar tudo isso realidade. Esse foi o contrato social original, e todas as outras histórias foram construídas em torno dessa história.

Durante o mesmo período, o contrato social entre empresas de grande porte e seus funcionários era que os funcionários devotassem 40 anos de serviço leal, em troca de estabilidade e uma aposentadoria tranquila.

É claro que essa versão antiga do contrato social já expirou há pelo menos 20 anos. Todos concordam com isso. Mas nem todos concordam sobre como devem ser os novos contratos sociais.

Aqui estão algumas ideias de coisas que serão diferentes agora que vivemos em uma economia em rede. Não é a melhor das utopias, e, talvez, de fato se transforme em uma distopia. Mas estamos aqui a registrar os fatos e não para expressar desejos.

O Novo Contrato da Sociedade com seus Cidadãos

  1. Você renunciará à sua privacidade.

O cidadão abrirá mão da privacidade para que o sistema o reconheça e possa otimizar seus resultados pessoais. É uma barganha [ao meu ver faustiana].

Aqueles que se chocam com a perspectiva de qualquer redução de privacidade [como eu], precisam aceitar que isso já aconteceu e que, quando lhe é dada a oportunidade de compartilhar seus dados para obter benefícios [ainda que mínimos], a grande massa das pessoas alegremente se rende às miçangas e espelhos.

Em troca, a sociedade [talvez] concordará que:

  1. Você terá um emprego (se tiver disposição e capacidade).

No passado, a tragédia era que mesmo os muito dispostos e capazes frequentemente não conseguiam um emprego. Com o advento da internet, se você quiser e puder, agora pode oferecer seu trabalho com custos mínimos: Dirigir Ubers, construir sites, entregar comida, se exibir sexualmente diante de uma câmera, etc. Se você quer mesmo um emprego, pode conseguir seu “emprego” [aspas duplas] na internet.

Infelizmente, a parte difícil desse cenário são as pessoas emocionalmente “divergentes” e introvertidas, mesmo sendo dispostas. Algumas dessas pessoas [de novo, eu] não são emocionalmente ou intelectualmente capazes de lidar com redes. Elas são ansiosas ou deprimidas demais para atuar em um nível alto o suficiente para serem membros valiosos da rede. Alguns são fisicamente incapazes devido a doenças genéticas ou acidentes.

Paralelamente, a transparência e a velocidade da tecnologia de rede tornarão mais difícil a competição no mercado de trabalho. As exigências aumentarão para o quão emocionalmente estável e inteligente você precisa ser para competir. Todos estarão ao sabor da lei de potência [lei de potência: os melhores se dão cada vez melhor e os piores cada vez pior].

As novas tecnologias vão deixar para trás as pessoas sem preparo emocional, automotivação ou inteligência. As mudanças vão privilegiar as pessoas mais extrovertidas e energéticas.

Isso parece assustador; um motivo para um levante social. Então, o que podemos fazer?

O melhor caminho a seguir parece ser “usar soluções da rede para resolver os problemas da rede” – construir sistemas para melhorar as pessoas e mantê-las relevantes para a rede. Mais treinamento, mais apoio, mais empregos de nicho, mais conexão através da rede.

  1. Você terá acesso a treinamento.

Muitos já o fazem. Você pode se auto educar como nunca antes, graças a uma quase infinidade de conteúdo na internet. E há os cursos online. Além disso, IAs de treinamento e conteúdo estarão em toda parte. Muitas interfaces de trabalho já estão se tornando “gameficadas”, capazes de fornecer feedback constante à medida que você aprende um novo trabalho.

  1. Você terá liberdade para escolher seu trabalho e como usará seu tempo.

Já estamos vendo milhões de pessoas escolherem a liberdade do horário flexível em vez de outros benefícios tradicionais, como férias [gasp!].

  1. O governo não impedirá o crescimento da rede.

Os governos são estruturas de pensamento hierárquico. Eles são os dinossauros em extinção e as redes correspondem aos primeiros mamíferos. As redes vão reduzir o poder do estado-nação. Por outro lado, as afiliações e conexões internacionais vão aumentar.

O novo contrato social deve evitar prender as pessoas com muita força. Os cidadãos vão abraçar a economia de rede e tenderão a não se apegar à economia de escala do mundo industrial. Já que as pessoas vão agir assim, os governos vão se adaptar de forma correspondente. A economia de escala não vai desaparecer, mas vai se tornar uma parte menor da vida e da economia, como aconteceu com a agricultura na era industrial.

  1. Você terá a mobilidade como norma de vida.

Morar em uma casa com um gramado aparado e cercas branquíssimas já não é o único sonho americano possível.

Se a história nos diz alguma coisa, os próximos SnapChat, Airbnb e Uber serão criados nos próximos vinte e quatro meses. Embora a próxima startup de um bilhão de dólares [a brasileira Aucky 😉] ainda não tenha adquirido um formato reconhecível, é certo que todas elas funcionarão baseadas no efeito de rede. Se no fim das contas isso vai ser positivo para você ou para mim, deixo como exercício mental [como dizia Einstein, um gedänkenexperiment] para o fim de semana.

Fonte: https://www.nfx.com/post/network-economy/

* * *

Deixo também uma saudação aos amigos que nunca a lerão. E meu agradecimento pelo apoio nunca recebido.

(*)Tentei seguir teu conselho e escrever humanamente, @Tati. Acho que exagerei.

Sexta de Leão: Guarde Suas Taras para Você

Alguns usuários ficaram surpresos [alguns negativamente] com a série Sexta de Leão, um espaço livre que tem enfocado em suas últimas edições temas comportamentais em geral e o sexo em particular. Não deveria ser surpresa uma vez que os comentaristas são quase unânimes em apontar que as tecnologias de informação, a Internet em geral, e as mídias sociais em particular [que são o assunto primário deste site], desempenham um papel fundamental na ampliação das tendências econômicas, políticas e culturais em todo o mundo.

Apresento hoje a visão instigante e original de Mary Harrington, na revista online inglesa UnHerd, sobre as mudanças nos mores sexuais e seus impactos nas relações humanas.

Quero ter a liberdade de enfocar os temas que me interessam e explorar todas as possibilidades de comunicação com meus leitores. Não vamos focar em sexualidade eternamente, como também não vamos nos restringir a áridas arengas sobre o último lançamento em hardware. Outros temas já estão rascunhados para desenvolvimento. Quero fazer um blog universalista, que embora tenha um pé firme na tecnologia, nunca perca contato com nossa dimensão humana. Saudações a todos(as). B.M.


Imagem: UnHerd [Getty Images]

Por trás da pressão social para adicionar tempero à vida sexual, esconde-se uma palavra [composta] especialmente feia: “ciseteronormatividade“. Grosso modo, ela pretende significar que a expressão sexual humana é restringida por normas patriarcais opressivas, incluindo a heterossexualidade (e ser “baunilha”). Devemos então descartar essa opressão, prossegue o argumento, e aceitar que o alcance da expressão sexual e de gênero humanos é infinito, e que as sexualidades ‘queer’ sempre existiram.

Os contos da antiguidade clássica sustentam a ideia de que os gostos não convencionais têm uma longa história. De acordo com Suetônio, o imperador romano Nero (37-68AD) gostava de vestir-se com peles de animais e dilacerar os genitais de escravos amarrados. E o imperador Heliogábalo (204-222AD), conforme a Historia Augusta, tentou (entre muitas outras coisas) a auto-castração, gostava de se apresentar em shows de sexo ao vivo durante banquetes e escandalizou a sociedade romana ao estuprar uma Virgem Vestal.

Em vez de nos auto-reprimir, os teóricos argumentam que devemos celebrar o arco-íris completo da expressão erótica. Com esse espírito, uma recente pesquisa queer elevou Heliogábalo, de sua descrição clássica como um maníaco depravado – que nomeava ministros com base no tamanho do pênis – a um ícone transgênero.

Mas o debate não se refere apenas ao modo como lemos a história antiga. Ele também convida a questionamentos sobre os limites que hoje estabelecemos para a sexualidade. É necessário mesmo haver tabus? Na semana passada, Lauren Rowello argumentou que esses limites não são nem de longe liberais o suficiente. Não apenas os fetiches sexuais deveriam ser exibidos abertamente nas paradas do Orgulho, ela afirma, como também é importante que seus filhos os presenciem – porque as crianças devem ser ensinadas que “que todas as experiências alternativas de sexualidade e expressão são válidas”.

Normalizar a exibição pública de tendências pervertidas, argumentou ela, incentiva as crianças a perseguir seu próprio desejo e prazer: “Não falamos com nossos filhos o suficiente sobre buscar o sexo para satisfazer as necessidades carnais que nos encantam e cativam”.

A alternativa sombria para isso seria a antiquada “política da respeitabilidade” que costumava ser usada para oprimir homossesexuais. Essa visão é talvez melhor resumida pela atriz eduardiana Lady Patrick Campbell: “Realmente não importa o que essa gente faz – contanto que não façam isso nas ruas e assustem os cavalos!” Mas Rowello argumenta que o fato de os gays agora exigirem do resto das pessoas essa mesma “respeitabilidade” às ​​pessoas pervertidas significa que eles se aliaram [ao seu modo] às forças opressivas e burguesas da velha e enfadonha heteronormatividade.

Tendo Heliogábalo conseguido ultrapassar ou não os limites da opressão burguesa, a visão de Rowello das “necessidades carnais” como um fim em si mesmas data do início do Iluminismo. Notavelmente, devemos essas ideias ao Marquês de Sade (1740-1814), um igualitário [movimento precursor do anarquismo/comunismo], anticristão e defensor da liberdade absoluta, que serviu sob o regime revolucionário como “Cidadão Sade”. Sua prolífica obra literária entrelaça ataques ao Cristianismo e à moralidade convencional com reflexões filosóficas sobre a natureza da liberdade e descrições gráficas de sexo excêntrico.

Em outras palavras, ele era, de fato, um tipo muito moderno de liberal. Não é nenhuma surpresa encontrá-lo entre os primeiros defensores da liberação sexual. Como afirma um de seus personagens em Juliette (1797) “O sexo é tão importante quanto comer ou beber e devemos permitir que um apetite seja satisfeito com tão pouca restrição ou falsa modéstia quanto o outro”. Essa visão não fica muito distante da proposta de Rowello de “buscar o sexo para satisfazer as necessidades carnais que nos encantam e cativam”.

Mas de Sade também achava que as regras usuais de igualdade política, que ele abraçou com tanto entusiasmo como Cidadão Sade, não se aplicavam à sexualidade. Em Filosofia na Alcova (1795), ele escreveu que “todo homem quer ser um tirano quando fornica”. Ou seja, enterrado profundamente em cada cidadão livre e liberal está o desejo de dominar e ser obedecido, e essas pulsões são mais livremente expressas em um contexto sexual.

De Sade achava que a melhor maneira de conciliar liberdade e igualdade com esses instintos sexuais naturalmente violentos e dominadores era ter uma classe de mulheres cujo trabalho seria atuar como ‘aliviadoras’. Como observa o historiador Peter Marshall, ele defendia o estabelecimento de bordéis públicos gratuitos onde os homens pudessem saciar seus desejos sexuais e anseios de dominar – porque, em sua opinião, não satisfazer esses desejos resultaria em atos criminosos.

Hoje, é claro, não fazemos nada tão rude quanto obrigar as mulheres a agirem como unidades descartáveis para os desejos mais básicos dos homens. Ou, pelo menos, insistimos no ‘consentimento’. Ou seja, garantindo que a violência, o estupro e a humilhação ficcionais só aconteçam no mundo real com mulheres que gostam. A expressão para os praticantes do ‘BDSM’ é ‘seguro, sadio e consensual’.

Ouso dizer que há pessoas para as quais essa teoria faz sentido. Mas evidências estão se acumulando de que isso se sujeita às mesmas armadilhas que os muitos outros esforços que visam substituir as regras normativas pela escolha individual. Ou seja, a ideia pode funcionar se você for um adulto com alto nível de educação, bem ajustado e com muito capital social. Mas deixa aqueles que são impulsivos, emocionalmente carentes ou vulneráveis ​​em risco de abuso.

Uma pesquisa realizada no ano passado pela BBC Escócia relatou que dois terços dos homens com menos de 40 anos admitem que já bateram, cuspiram, amordaçaram ou sufocaram uma parceira durante o sexo. Talvez algumas mulheres tenham gostado, mas será que todas elas? Eu duvido. Talvez sem surpresa, um coro crescente (principalmente de mulheres jovens) têm reclamando que, para elas, “kink” acabou sendo menos uma troca mutuamente prazerosa do que um vetor de abuso.

A questão do “consentimento” é ainda mais complicada pelo fato de que normalizar “experiências alternativas de sexualidade e expressão” cria uma pressão social perversa para não ser “baunilha”. Até a revista Women’s Health sugeriu que suas leitoras experimentem a prática do enforcamento, no caso de as vendas nos olhos e as conversas picantes “se transformarem em baunilha”.

E aqui chegamos à dificuldade central em tentar libertar a expressão sexual humana das normas sociais: isso não funciona. O fato de que agora é constrangedor ter gostos “baunilha” sugere que normalizar o “kink” acabou não criando um espaço aberto para a auto-expressão livre e tolerante, mas uma inversão surreal da “política da respeitabilidade”, em que você fica envergonhado por não ser depravado o suficiente.

Pior ainda, essa respeitabilidade de ponta-cabeça não é nem mesmo o prometido nirvana do prazer. De Sade resumiu o problema em 120 Dias de Sodoma (1785): “Se é o elemento sujo que dá prazer ao ato de luxúria, então quanto mais sujo ele é, mais prazeroso deve ser.” Então, o que acontece quando as tendências “sujas” são tão normalizadas que as pessoas ficam ok com seus filhos vendo-as no ato sexual?

O resultado mais provável [da saturação erótica] é que, no geral, as pessoas em um certo momento vão parar de se sentir “safadinhas” [e se autonormalizar]. Isso ajuda a explicar a aura de descolamento da realidade que envolve o tipo de pessoa que gosta de ser “aberta” sobre seu “estilo de vida BDSM”. Mas também aponta para um problema estrutural com a ideia de normalizar o “kink”: é (como alguém disse uma vez do Brexit) menos um evento do que um processo.

Os oponentes da ciseteronormatividade argumentam que o objetivo final do Orgulho é ampliar o que é aceitável no mainstream, o que por sua vez significa rejeitar a “política da respeitabilidade”. Como Vox [magazine] coloca: “Queerness, em sua essência, é uma rejeição dessa respeitabilidade.”

Mas se você rejeita a política da respeitabilidade, você está rejeitando toda a estrutura de estigma social que confere frisson às práticas proibidas. Qual é, então, o sentido de tais práticas, quando a campanha para desestigmatizá-las tornou cenários antes sombrios e emocionantes tão exóticos e proibidos quanto uma ida ao Wal-Mart?

Podemos ter abraçado a ideia de que “vale tudo”, desde que seja seguro, sadio e consensual. Mas se a excitação do sexo está precisamente em sua proibição, então, mais cedo ou mais tarde, alguém virá atacar o tabu do consentimento em si – e especialmente violar o consentimento daqueles que não são considerados capazes de consentir em primeiro lugar: as crianças e animais.

Um constante toc-toc-toc nessa porta pode ser ouvido. Quando Tom Chivers recentemente refletiu aqui nestas páginas sobre por que temos nojo de pessoas que fazem sexo com animais, a confusão que se seguiu ilustra até que ponto esse assunto continua, felizmente, uma área proibida; embora no início deste ano Joanna Bourke tenha escrito um livro inteiro buscando questionar os tabus em torno da bestialidade.

Pelo mundo afora, a internet está cheia de gente esquisita que procura “complicar” os limites do consentimento sexual de menores. Isso também se estende à academia: Allyn Walker publicou recentemente um estudo simpático aos pedófilos não agressores.

Em outras palavras, a “ladeira escorregadia” dos costumes [a tendência da anormalidade gerar mais anormalidade] não é um bicho-papão criado pelos conservadores: é uma inevitabilidade estrutural. Fetiches sem “política de respeitabilidade” não têm um ponto final; ou melhor, seu ponto final está muito além da tolerância até mesmo de quem pratica chicotes e correntes como hobby.

A história sugere que não é realista imaginar que a depravação sexual possa algum dia ser eliminada. Os humanos são simplesmente perversos demais. Mas se não quisermos perseguir o ápice da transgressão sexual adentrando ainda mais no terreno do abuso sexual [e talvez desencadear uma reação puritana tão monumental que varrerá até ganhos moderados na tolerância sexual, como a aceitação de casais normais de gays e lésbicas], precisamos recuperar a ‘política da respeitabilidade’. Todos os lados ganham com isso. Afinal, é do interesse de quem gosta da transgressão restaurar a emoção do proibido. Isso significa, com efeito, uma defesa [com segundas intenções] da hipocrisia burguesa.

Aqueles que são inevitavelmente atraídos para o lado negro, de qualquer forma encontrarão o seu caminho até lá, no devido tempo. E aqueles que de outra forma não seriam sujeitos a tentações estão bem longe disso. Quem não é capaz de ser discreto não está mentalmente equipado para desfrutar da depravação – afinal, para gozar com o proibido significa que algo precisa ser proibido em primeiro lugar.

Escrito por Mary Harrington [texto publicado originalmente na revista online UnHerd, sob o título ‘Keep your kinks to yourself’]

Tradução e adaptação: Vox Leone

A Crise das Redes: Como Administrar o Comportamento Coletivo Global

Abrimos esta semana apresentando em português o necessário estudo “Administração do Comportamento Coletivo Global”, sobre o que eu pessoalmente que caracterizo como a Crise das Rede Sociais. A sociedade humana nunca teve que lidar com entidades tão potentes, com tão grande potencial desagregador, tão desconhecidas e tão incompreendidas. Estamos em um momento-chave da civilização, e o que fizermos nesta década definirá o caminho da espécie humana por séculos.

A ‘Economia da Atenção’ tem facilitado comportamentos extremos e provocado rupturas políticas e culturais. Sua influência na opinião pública exibe uma escala sem precedentes na evolução da civilização. Imagem: iStock

O comportamento coletivo fornece uma estrutura para a compreensão de como as ações e propriedades dos grupos emergem da maneira como os indivíduos geram e compartilham informações. Em humanos, os fluxos de informação foram inicialmente moldados pela seleção natural, mas são cada vez mais estruturados por tecnologias de comunicação emergentes. Nossas redes sociais maiores e mais complexas agora movimentam informações de alta fidelidade através de grandes distâncias a baixo custo. A era digital e a ascensão das mídias sociais aceleraram as mudanças em nossos sistemas sociais, com consequências funcionais mal compreendidas. Essa lacuna em nosso conhecimento representa o principal desafio para o progresso científico, para a democracia e para as ações para enfrentar as crises globais. Argumentamos que o estudo do comportamento coletivo deve ser elevado a uma “disciplina de crise”, assim como a medicina, a conservação e a ciência do clima, e ter foco em fornecer uma visão prática para a administração dos sistemas sociais destinada aos formuladores de políticas públicas bem como os reguladores.

O comportamento coletivo historicamente se refere às instâncias em que grupos de humanos ou animais exibem ação coordenada na ausência de um líder óbvio: de bilhões de gafanhotos, estendendo-se por centenas de quilômetros, devorando a vegetação à medida que avançam; de cardumes de peixes convulsionando como um fluido animado quando sob ataque de predadores às nossas próprias sociedades, caracterizadas por cidades, com edifícios e ruas cheias de cor e som, vivas de atividade. A característica comum de todos esses sistemas é que as interações sociais entre os organismos individuais dão origem a padrões e estruturas em níveis mais elevados de organização, desde a formação de vastos grupos nômades até o surgimento de sociedades baseadas na divisão de trabalho, normas sociais, opiniões, e dinâmica de preços.

Nas últimas décadas, o “comportamento coletivo” evoluiu de uma descrição de fenômenos gerais para uma estrutura conduciva à compreensão dos mecanismos pelos quais a ação coletiva emerge (3⇓⇓⇓-7). Ele revela como as propriedades de “ordem superior” das estruturas coletivas em grande escala, se retroalimentam para influenciar o comportamento individual, que por sua vez pode influenciar o comportamento do coletivo, e assim por diante. O comportamento coletivo, portanto, se concentra no estudo de indivíduos no contexto de como eles influenciam e são influenciados pelos outros, levando em consideração as causas e consequências das diferenças interindividuais em fisiologia, motivação, experiência, objetivos e outras propriedades.

Imagem: iStock

As interações multiescala e o feedback que fundamentam o comportamento coletivo são marcas definidoras de “sistemas complexos” – que incluem nosso cérebro, redes de energia, mercados financeiros e o mundo natural. Quando perturbados, os sistemas complexos tendem a exibir uma resiliência finita seguida por mudanças catastróficas, repentinas e muitas vezes irreversíveis na sua funcionalidade. Em uma ampla gama de sistemas complexos, a pesquisa destacou como a perturbação antropogênica – tecnologia, extração de recursos e crescimento populacional – é uma fonte crescente, se não dominante, de risco sistêmico. No entanto, a pesquisa científica sobre como os sistemas complexos são afetados pela tecnologia humana e pelo crescimento populacional tem se concentrado mais intensamente nas ameaças que eles representam para o mundo natural.

Temos uma compreensão muito mais pobre das consequências funcionais das recentes mudanças em grande escala no comportamento humano coletivo e na tomada de decisões. Nossas adaptações sociais evoluíram no contexto de pequenos grupos de caçadores-coletores resolvendo problemas locais por meio de vocalizações e gestos. Em contraste, agora enfrentamos desafios globais complexos, de pandemias a mudanças climáticas – e nos comunicamos em redes dispersas conectadas por tecnologias digitais, como smartphones e mídias sociais.

Com ligações cada vez mais fortes entre os processos ecológicos e sociológicos, evitar a catástrofe a médio prazo (por exemplo, coronavírus) e a longo prazo (por exemplo, mudança climática, segurança alimentar) exigirá respostas comportamentais coletivas rápidas e eficazes – ainda não se sabe se a dinâmica social humana permitirá tais respostas.

Além das ameaças ecológicas e climáticas existenciais, a dinâmica social humana apresenta outros desafios ao bem-estar individual e coletivo, como recusa de vacinas, adulteração de eleições, doenças, extremismo violento, fome, racismo e guerra.

Nenhuma das mudanças evolutivas ou tecnológicas em nossos sistemas sociais ocorreu com o propósito expresso de promover a sustentabilidade global ou a qualidade de vida. Tecnologias recentes e emergentes, como mídia social online, não são exceção – tanto a estrutura de nossas redes sociais quanto os padrões de fluxo de informações por meio delas são direcionados por decisões de engenharia feitas para maximizar a lucratividade. Essas mudanças são drásticas, opacas, efetivamente não regulamentadas e de grande escala.

Disciplina de Crise

As consequências funcionais emergentes são desconhecidas. Não temos a estrutura científica necessária para responder até mesmo às questões mais básicas que as empresas de tecnologia e seus reguladores enfrentam. Por exemplo, será que um determinado algoritmo para recomendar amigos – ou um para selecionar itens de notícias a serem exibidos – promove ou impede a disseminação de desinformação online? Não temos um corpo de literatura embasado teoricamente e verificado empiricamente para informar uma resposta a tal pergunta. Na falta de uma estrutura desenvolvida, as empresas de tecnologia se atrapalharam com a pandemia de coronavírus em curso, incapazes de conter a “infodemia” de desinformação que impede a aceitação pública de medidas de controle, como máscaras e testes generalizados.

Em resposta, os reguladores e o público têm insistido nos pedidos de reforma do nosso ecossistema de mídia social, com demandas que vão desde maior transparência e controles de usuário até responsabilidade legal e propriedade pública. O debate básico é antigo: os processos comportamentais em grande escala são autossustentáveis ​​e autocorretivos, ou requerem gerenciamento e orientação ativos para promover o bem-estar sustentável e equitativo? Historicamente, essas questões sempre foram tratadas em termos filosóficos ou normativos. Aqui, construímos nossa compreensão dos sistemas complexos perturbados para argumentar que não se pode esperar que a dinâmica social humana produza soluções para questões globais ou promova o bem-estar humano sem uma política baseada em evidências e administração ética.

A situação é paralela aos desafios enfrentados na biologia da conservação e na ciência do clima, onde indústrias insuficientemente regulamentadas otimizam os seus lucros enquanto minam a estabilidade dos sistemas ecológicos. Tal comportamento criou a necessidade de uma política urgente baseada em evidências, na falta de uma compreensão completa da dinâmica subjacente dos sistemas (por exemplo, ecologia e geociências). Essas características levaram Michael Soulé a descrever a biologia da conservação como o contraponto da “disciplina de crise” à ecologia. As disciplinas de crise são distintas de outras áreas de pesquisa urgente baseada em evidências em sua necessidade de considerar a degradação de todo um sistema complexo – sem uma descrição completa da dinâmica do sistema. Sentimos que o estudo do comportamento humano coletivo deve se tornar a resposta da disciplina de crise às mudanças em nossa dinâmica social.

Como o comportamento humano coletivo é o resultado de processos que abrangem escalas temporais, geográficas e organizacionais, abordar o impacto da tecnologia emergente no comportamento global exigirá uma abordagem transdisciplinar e um colaboração sem precedentes entre cientistas em uma ampla gama de disciplinas acadêmicas. À medida que nossas sociedades são cada vez mais instanciadas na forma digital, abstrações de processos sociais – as redes são um exemplo proeminente – tornam-se partes muito reais da vida diária. Essas mudanças apresentam novos desafios, bem como oportunidades, para avaliação e intervenção. Disciplinas dentro e fora das ciências sociais têm acesso a técnicas e formas de pensar que expandem nossa capacidade de entender e responder aos efeitos da tecnologia de comunicação. Acreditamos que tal colaboração é urgentemente necessária.

Ler artigo original na íntegra:

Stewardship of Global Collective Behavior

Joseph B. Bak-Coleman, Mark Alfano, Wolfram Barfuss, Carl T. Bergstrom, Miguel A.
Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America

Sexta de Leão: as Relações Íntimas Entre Porn & Tech

Ao longo da história das mídias, da linguagem vernacular à tipografia, à fotografia, aos livros de bolso, ao videoteipe, à TV a cabo e streaming, às linhas telefônicas “900”, ao Minitel francês, aos laser-discs e CD-ROMs, até a Internet, a pornografia sempre mostrou o caminho para a tecnologia de consumo. Não é a pornografia, diz um argumento, é a distribuição!

Imagem: iStock

O vídeo ultra-conservador Perversion for Profit de 1965 [sem link para não ferir o ranking do blog] afirma: “A pornografia e o desvio sexual sempre fizeram parte da condição humana, isso é verdade. Mas agora tudo ganhou uma nova dimensão… Impressoras de alta velocidade, transporte rápido, distribuição em massa… tudo se combinou para colocar as obscenidades mais loucas ao alcance de cada homem e mulher”.

Longe vão esses tempos ingênuos diante do inesgotável buffet de imagens e sensações de que o usuário médio de Internet dispõe em 2021. O pornô até o ano 2000 era basicamente Playboy e Penthouse – por mais sexistas que fossem. Hoje a pornografia está mudada completamente, e mudou por causa da internet . A internet tornou a pornografia acessível – e (pseudo) anônima.

Todo mundo conhece a extensão da pornografia, mas poucos percebem seu verdadeiro poder. Ao ler (cursivamente) “The Sex Effect” – que examina as relações ocultas entre sexo e cultura – fiquei surpreendentemente consciente da quantidade de tecnologias de consumo que acabaram sendo adotadas pelas massas por causa da pornografia. Videocassetes, comércio eletrônico, serviços de streaming, marketing de rede – e, em última análise, a própria internet – têm uma dívida de gratidão para com os vendedores de obscenidades que ajudaram a popularizá-los. Porque, embora os militares tenham criado a internet, eles não teriam sido capazes de encontrar uma base de consumidores tão sólida sem a pornografia. Pense nos militares como o inventores/criadores de um serviço e a pornografia como o veículo que leva o serviço às massas.

“De inúmeras formas, grandes ou aparentemente insignificantes, a indústria pornográfica abriu um caminho comercial que outras indústrias estão assimilando e se apressando em seguir”, disse Frederick Lane, autor de “Lucros obscenos: Os empreendedores da pornografia na era cibernética”.

Embora as novas tecnologias de modo geral tenham permitido a expansão da indústria pornográfica, a internet tem sido uma faca de dois gumes para a indústria. A Internet aumentou a prevalência e a popularidade da pornografia, mas também facilitou a pornografia gratuita e de fácil acesso, assim como o conteúdo sexual criado pelo usuário. Muito resiliente, o setor tem sido criativo em superar essas circunstâncias.

Essa indústria nunca parou de inovar, – apesar da falência de muitas empresas pornográficas na última década. Brinquedos sexuais controlados por computador, realidade virtual e avatares sexuais são apenas alguns dos produtos com os quais os executivos do mundo pornô estão fazendo experiências.

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Os modelos de negócio do pornô também evoluíram

Para combater o onipresente conteúdo gratuito, as empresas pornográficas estão criando iniciativas voltadas à experiências premium – tanto ao vivo quanto online. Isso é feito por meio da venda de produtos e serviços derivados, como sessões de fotos (com o vibrador que foi usado durante uma cena de sexo específica); seminários ‘educacionais’ (para ensinar aos casais coisas como dinâmicas da submissão e dominação); tours em estúdios (ao vivo e virtuais); franquias de clubes de strip, swing, bares, lojas, restaurantes, hotéis; webcams ao vivo com as novas divas – as estrelas pornôs; podcasts e rádio; eventos; financiamento coletivo de conteúdo e criação de pacotes personalizados nos quais os consumidores pagam para atuar como diretores e atores… A lista é infindável.

Mesmo que a pornografia tenha tido esse impacto descomunal nas tecnologias de consumo e serviços que as pessoas usam no dia a dia, raramente ela recebe o devido crédito, já que a discussão sobre pornografia na sociedade é sempre – e naturalmente – guiada pela ideologia.

“Se não fosse pelo estigma, a pornografia seria louvada publicamente como uma indústria que soube desenvolver, adotar e difundir novas tecnologias com sucesso e rapidez”, escreveu o historiador Jonathan Coopersmith. “Mas, devido à própria natureza do assunto, o silêncio e o constrangimento sempre foram as reações padrão.”

Embora a maioria das pessoas já tenha usado pornografia casualmente, aquelas que aparecem nas notícias sobre ela normalmente pertencem a dois extremos: lobistas pró-pornografia e fanáticos anti-pornografia tentando convencer os eleitores da justiça de sua causa. Mas até que a sociedade olhe além de seu conteúdo diáfano e de seu complexo significado, o impacto real do erotismo permanecerá em grande parte desconhecido.

Para concluir esta sexta-feira [na verdade, para começar, :wink], deixo um trecho do trabalho de Peter Johnson (1996) “Pornography Drives Technology: Why Not to Censor the Internet” Federal Communications Law Journal: Vol. 49 : Iss. 1 , Article 8], disponível [em inglês] no site do FCLJ

“‘A grande arte é sempre flanqueada por suas irmãs sombrias: a blasfêmia e a pornografia.’ O mesmo é verdade para as artes mundanas que chamamos de mídia. Onde há a Bíblia de Gutenberg, também há Rabelais; onde há correio, também há cartões postais eróticos; onde há um romance de capa dura em três volumes, há a literatura barata em papel reciclado.

A Pornografia, longe de ser um mal que a Primeira Emenda deve tolerar, é um bem positivo que incentiva a experimentação com novas mídias. A Primeira Emenda, portanto, não lida apenas com valor intelectual, moral, político e artístico, mas também com o valor prático e econômico. Insta os adultos, sob consentimento mútuo, desinibidos pela falta de censura, a procurar novos estilos de vida e comunicação, bem como novas maneiras de ganhar dinheiro com os novos costumes. Portanto, embora possa ser politicamente arriscado e socialmente imprudente incentivar a pornografia por computador, os legisladores deveriam se afastar e deixar a midia seguir por onde a pornografia levar.”

* * *

Obs.: Sendo este um blog, o post pretende estimular a discussão agnóstica e desapaixonada. Este texto não representa todas as sutilezas de minha posição pessoal sobre a questão.

Algo Prático: Um Provador Virtual para o Varejo de Confecções

Hoje vou me despir [trocadilho intencional] da pretensão intelectual- acadêmica para enfocar um assunto prático sobre desenvolvimento de sistemas.

Eu tenho grande interesse no mercado de confecções e moda, em geral. Talvez pelo fato de ter uma clientela no setor, além de amigos e familiares envolvidos no negócio. Nosso estúdio de software já teve a oportunidade de criar inovações importantes para nossos clientes do setor de confecções, sempre com foco na interação e responsividade. Por essa razão, achei que seria interessante falar neste post sobre o sistema Revery AI. Queremos nos colocar como fornecedores dessa classe de tecnologia para o mercado brasileiro, empregando nossa expertise em manipulação de imagens, sistemas de aprendizado de máquina (AI) e soluções 3D.

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O aumento repentino das compras online por conta da pandemia de Covid-19 impôs desafios significativos aos varejistas de confecções. A incapacidade física de experimentar e visualizar as roupas tornou as compras menos interativas, contribuindo para baixas taxas de conversão e altas taxas de devolução, em comparação com as compras tradicionais. Os provadores virtuais como o que discutimos aqui tornam-se alternativas viáveis, nestes tempos infecciosos, para recriar, em certa medida, a experiência perdida de provar roupas pessoalmente. Existem muitas empresas desenvolvendo um provador virtual [inclusive a nossa]. O grande problema para sua implementação é a escalabilidade.

Os sites de comércio eletrônico de confecções têm milhares, senão milhões de items em estoque – que chamaremos de Unidade(s) de Manutenção de Estoque (UME). Atualmente, o fluxo de trabalho para edição de conteúdo dos sites que vendem para esse segmento geralmente requer trabalho gráfico personalizado em software como o Photoshop e/ou software modelador em 3D, que são caros e requerem mão-de-obra especializada. Em contraste, o Revery AI aproveita a pesquisa de aprendizado de máquina [Machine Learning] para automatizar todo esse processo, resultando no primeiro provador virtual escalável que pode ser facilmente integrado a qualquer grande plataforma de e-commerce com milhões de UMEs.

Aprendizado de Máquina

Em vez de uma produção gráfica elaborada, em 3D, o sistema trabalha com imagens básicas. O objetivo é produzir visualizações precisas e realistas de roupas vestindo pessoas. Uma solução comum [e ingênua] para atualizar o conteúdo do site com novos items seria simplesmente copiar e colar a peça no modelo. Mas isso apresenta dois problemas.

1) Se as poses e maneirismos do modelo-roupa forem incompatíveis, o copiar-colar não funcionará.

2) Mesmo com poses ideais, copiar e colar não leva em consideração as interações peça-peça, peça-peça-modelo e também ignora a iluminação, as sombras, etc.

Este sistema usa o aprendizado de máquina profundo [deep learning] para superar esses problemas. Para o problema 1), o Revery AI usa uma série de distorções, para deformar a imagem da roupa em uma forma aproximada à do corpo fazendo a pose apropriada. Isso difere das abordagens comuns de baixa tecnologia, que normalmente usam apenas uma única e limitada deformação/transformação de imagem.

Para o problema 2), o sistema se baseia em um gerador de imagem que recebe as entradas relevantes (a imagem do modelo, imagem da roupa, pose, etc.) e retorna uma imagem realista de uma figura humana vestindo a roupa. O sistema produz melhorias significativas no tamanho, ajuste e caimento, em comparação com as técnicas costumeiras de baixa tecnologia, permitindo criar imagens realistas de qualquer modelo usando qualquer combinação de roupas. Para os interessados em detalhes técnicos adicionais, este link leva ao artigo original da pesquisa no site de pré-impressões Arxiv >> https://arxiv.org/abs/2003.10817

Tela do Revery AI. O usuário seleciona a peça à direita e o software a renderiza no modelo virtual à esquerda. Note que o software faz os ajustes e transformações na peça para se adaptar realisticamente ao modelo. A peça foi fotografada normalmente em superfície plana.

A abordagem de exibição de produtos e venda online adotada pelo Revery AI torna a integração com os varejistas muito mais fácil, porque requer apenas uma única imagem da peça de roupa em um fundo de cor uniforme. Todo o resto é integrado e resolvido pelo software. A equipe do Revery processa em torno de um milhão de imagens por semana. Em seguida, trabalha com o varejista para criar um ‘widget’ que possa ser facilmente integrado ao site da loja. A simplicidade desta solução significa que os clientes podem ter um provador virtual montado em poucos dias.

O sistema já se integra com sucesso a vários varejistas de alto perfil no e-commerce de moda. Pesquisas com os clientes mostram que o provador virtual melhorou o engajamento médio dos usuários em 500% e, mais importante, proporcionou um aumento na taxa de conversão da venda também de 500%. Além disso, os resultados mostram aumentos no valor médio dos pedidos e diminuições nas taxas de devolução. Essa solução também atende vários casos de uso que vão além do provador virtual. Como a geração e manipulação de imagens está no centro do negócio, os clientes também têm interesse em usar o sistema para gerar imagens de sessões de fotos “in store”, para economizar nas despesas com os vários tipos de serviços fotográficos que utilizam.

Embora a experimentação virtual baseada em imagens seja um campo de pesquisa ativo na academia, a transição da pesquisa para o produto não é trivial. Gerar imagens realistas e precisas de pessoas e roupas em alta fidelidade é mais difícil do que parece. Quaisquer imprecisões são simplesmente inaceitáveis ​​para os clientes. A start-up demorou um ano para obter resultados satisfatórios.

Neste ponto, percebemos que esse exercício aparentemente acadêmico pode realmente ser uma ferramenta que usuários reais desejam usar. É uma grande inovação, capaz de trazer movimento para esse mercado tão significativo para a economia brasileira, especialmente neste momento de crescimento das compras online.

Nosso estúdio [Vox Leone] se mantém sempre atualizado sobre essa linha de pesquisa, que acompanhamos de perto há quase duas décadas. Se você quiser saber mais sobre o sistema, ou experimentar a tecnologia em seu site ou plataforma, entre em contato. Esta é uma das nossas linhas de trabalho favoritas.

Uma demonstração ao vivo pode ser vista e experimentada [em inglês] neste link: https://revery.ai/demo.html

Morte à Economia de Vigilância!

Neste exato momento, enquanto você lê este post, algoritmos estão tomando decisões sobre sua vida, com base em seus dados, sem o seu conhecimento e sem o seu consentimento. Algoritmos que muitas vezes não foram testados completamente, muito menos auditados periodicamente. Talvez você seja um dos milhões de negros americanos visados ​​pela Cambridge Analytica na tentativa de impedi-los de votar nas eleições de 2016. Talvez tenham negado a você um empréstimo, um emprego ou um apartamento recentemente.

Imagem: iStock

Se isso aconteceu, é quase certo que seus dados tenham algo a ver com isso. Esses dados pessoais na maioria das vezes são imprecisos, mas você não pode corrigi-los porque não tem acesso a eles. Você pode perder seu emprego devido a um algoritmo com defeito. E como disse o Cardeal Richelieu, “dê-me seis linhas escritas pelo mais honesto dos homens e eu encontarei nelas um motivo para mandá-lo para a forca”.

À medida que as empresas de tecnologia moldam nossas percepções, o preconceito e a discriminação – tão miseravelmente humanos – são incorporados naturalmente a seus produtos e serviços em vários níveis e de várias formas.

A economia de vigilância afronta a igualdade e a justiça. Você e seu vizinho não são mais tratados como cidadãos iguais. Você não tem oportunidades iguais a ele porque é tratado de maneira diferente com base em seus dados. Os anúncios e o conteúdo a que você tem acesso, os preços que paga pelos mesmos serviços e até o tempo que você espera no telefone para falar com o serviço de atendimento ao cliente dependem dos seus dados e de seu “score”.

Somos muito mais competentes para coletar dados pessoais do que para mantê-los seguros. Os dados pessoais são uma ameaça séria e não deveríamos coletá-los se não somos capazes de mantê-los seguros. Usando dados de localização de smartphones adquiridos de um “corretor de dados”, é possível rastrear oficiais militares com acesso a dados sigilosos, advogados poderosos e seus clientes, e até mesmo o presidente de um país (através do telefone de alguém que se considera e é pago para ser um agente do serviço secreto).

Nossa atual economia de dados é baseada na coleta de tantos dados pessoais quanto possível, armazenando-os indefinidamente e vendendo-os a quem pagar mais. Ter tantos dados confidenciais circulando livremente é, no mínimo, imprudente. Ao projetar nossa economia em torno da vigilância, estamos construindo uma perigosa estrutura de controle social, estrutura essa que está em conflito aberto com a liberdade. Na sociedade de vigilância que estamos construindo, não existe nada invisível ao radar. Não deveria ser nossa responsabilidade, como querem as grandes companhias, optar pela não coleta de dados nos navegadores. A não-coleta deveria vir como padrão em todo e qualquer software dedicado à comunicação na Internet.

É hora de acabar com a economia de vigilância. Não permitimos a compra e venda de votos (porque isso prejudica a democracia). Por que então devemos permitir a comercialização de dados pessoais? Não devemos permitir anúncios personalizados. Se os anúncios fossem transparentes sobre o que sabem sobre nós, talvez não fôssemos tão indiferentes ao modo como somos direcionados. As vantagens dos anúncios personalizados para os usuários são mínimas, na melhor das hipóteses, e podem ser alcançadas por meio de publicidade contextualizada. Por exemplo, exibir anúncios de equipamentos esportivos apenas quando o usuário procura equipamentos esportivos.

Precisamos ter certeza de que os algoritmos que afetam nossas vidas são confiáveis. Precisamos saber como os algoritmos estão nos julgando e com base em quais dados. Devemos implementar deveres de depositário fiel de dados: qualquer pessoa que deseje coletar ou gerenciar seus dados pessoais deve se comprometer legalmente a usá-los apenas em seu benefício e nunca contra você. Quem gerencia dados pessoais de terceiros é responsável ​​por eles. Temos que melhorar muito nossos padrões de segurança cibernética, através de lei. E é necessário também excluir periodicamente os dados de que não precisamos mais.

Enquanto a solução definitiva não aparece, escolha produtos compatíveis com a privacidade. Por exemplo, ao invés de usar a pesquisa do Google, use DuckDuckGo; em vez de usar o WhatsApp, use o Telegram; no lugar do Gmail, use ProtonMail. Essas escolhas simples podem ter um impacto muito significativo em nossas vidas. Ao escolher produtos éticos sinalizamos às empresas de Internet que nos preocupamos com a nossa privacidade.

Acabar com a economia de dados pode parecer uma proposta radical. Contudo, é ainda mais extremo ter um modelo de negócios cuja existência depende da violação de nosso direito à privacidade em grande escala.

Na verdade, isso é inaceitável.

A Era da Domótica – Também Chamada ‘Automação Doméstica’

A cada vez mais popular tecnologia que permite a ‘computadorização’ das casas – por enquanto da parcela mais afluente da população – tem um nome raramente evocado, seja em fala ou escrita: Domótica. Segundo a corrente principal, o termo ‘domótica’ é uma composição entre a palavra latina “domus” (casa, lar) e as palavras “robótica” ou “eletrônica”. Outros dizem que é simplesmente uma contração da expressão “robótica doméstica” [‘domotics’, em inglês]. De qualquer forma, os proponentes da automação doméstica querem encher seu espaço de vida com tecnologias ‘espertas’.

Imagem: iStock

Em uma casa esperta, todos os sistemas e utensílios são auxiliados por computador e controlados remotamente. Isso permite, por exemplo, programar as luzes e o aquecimento para que se ativem ou desliguem sozinhos. É possivel fazer com que as luzes diminuam ao se aproximar a hora de dormir, ou programar utensílios para trabalhar em horários específicos. A imaginação é o limite.

A domótica também inclui dispositivos como campainhas ‘inteligentes’, fechamento/travamento automático de portas e gerenciamento de sistemas de alarme.

As razões do crescimento

Os casos de uso da automação residencial se enquadram em três categorias principais: conforto, eficiência e segurança. O público geral parece ter a percepção de que a domótica adiciona muito valor a esses aspectos-chave do ambiente doméstico. A seguir, alguns exemplos:

  • Conforto (e conveniência)

A automação residencial alivia sobremaneira o peso das tarefas domésticas. É possível configurar o aspirador para trabalhar por você. Não é preciso se lembrar de desligar a máquina de lavar quando a secadora estiver pela metade com a última carga – ela pode fazer isso sozinha.

A domótica também significa ter o controle remoto da tecnologia que roda em sua casa. Você pode desligar ou ligar as luzes sem ir até o interruptor [ou sem estar em casa]. Você pode configurar sua máquina de café para começar o preparo enquanto você fica na cama por mais uns minutos. As possibilidades são inúmeras.

  • Eficiência

Além do conforto, a domótica também propõe aumentar a eficiência da sua casa.

Uma casa ‘inteligente’ é uma grande aliada no controle do uso de itens como eletricidade, aquecimento e água. Quando sua casa pode desligar automaticamente as luzes e o aquecimento, você reduz substancialmente o desperdício de energia. Isso se traduz em economia de dinheiro e um ambiente mais sustentável.

  • Segurança

A automação residencial inclui tecnologias de segurança, como sistemas de alarme e campainhas inteligentes. É possível, por exemplo, definir o alarme remotamente. Se ele disparar por algum motivo, você tem um alerta automático imediato.

Como outro exemplo, sua casa pode gerenciar a iluminação de forma a parecer que você está em casa durante um feriado. Em vez de se preocupar por ter deixado o ferro de passar ligado, você pode relaxar sabendo que sua casa inteligente o desligou.

Há também os recursos que ajudam a proteger o patrimônio. Por exemplo, sensores de vazamento de água e detectores de fumaça/monóxido de carbono. É possível ser alertado sobre os problemas antes que eles causem danos irreversíveis.

As vulnerabilidades da domótica

Como acontece com qualquer tecnologia, também existem desvantagens a serem consideradas.

A primeira preocupação é a vulnerabilidade potencial a hackers e falhas técnicas. O que acontece se a porta da frente apresentar mau funcionamento e você ficar preso; ou se um ator mal-intencionado desativar seus alarmes? Essa preocupação é (parcialmente) mitigada através de uma maior educação/conscientização sobre segurança cibernética em geral – complementada por boas práticas. A instalação de atualizações regulares do ‘firmware’ é também de suma importância, assim como o uso de senhas fortes, com mais de 20 caracteres – este post de março se relaciona ao assunto.

A segunda preocupação gira em torno da privacidade e da proteção de dados. O uso da domótica gera dados e metadados de todos os tipos – dados sobre quando você está em casa, o que faz em casa e como usa seus eletrodomésticos [que, por serem ‘inteligentes’, são totalmente integrados ao sistema]. Esses dados são valiosos para todos os tipos de atores: anunciantes, cibercriminosos, corporações e o estado-nação [sim, todos nós temos algo a esconder]. Ao convidar a ‘Internet das Coisas’ (‘Internet of Things’ – IoT) para sua casa, você também convida novas camadas de vigilância e garimpagem de dados – inofensivas ou não.

Em terceiro lugar vêm as questões de integração e custos. Diferentes ferramentas de tecnologia doméstica nem sempre funcionam bem umas com as outras. Isso pode resultar em um gerenciamento complicado de muitos recursos. Ou em um compromisso involuntário de longo prazo com apenas uma ou duas marcas que funcionam integradas.

Imagine um mundo onde o trabalho doméstico não-criativo não mais existe. Sua casa se administra sozinha e você tem o controle, não importa onde esteja. Suas tarefas são executadas pela automação e seu tempo vai para os seus projetos, lazer e estar com a família/amigos. Em última análise, a domótica propõe economizar dinheiro, tempo e energia, ao mesmo tempo em que melhora a qualidade de vida.

Como toda tecnologia, ela traz vantagens e oportunidades, mas também novos problemas e desafios. Para que adicione real valor e não se transforme em uma grande superfície a ser explorada para ataques ao bem-estar e ao patrimônio, ela demanda consciência nas ações e completa alfabetização digital. Voltaremos sempre a este assunto.