Facebook Recua na TikTokização

No último post [27/07] nós discutimos – com a contribuição de estimados leitores – a transformação ora empreendida pelo Facebook(*) no sentido de imitar o TikTok, o que vem a significar o fim das redes sociais como as conhecemos.

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Aconteceu, porém, um evento inesperado ontem [28/07], em que a holding Meta anunciou algumas pedaladas para trás em suas metas [trocadilho infame pero inevitable]. Reproduzo abaixo, destacando em cor diferente, a abordagem do site The Verge:

O Instagram vai recuar em algumas mudanças recentes no produto após uma semana de críticas intensas, disse a empresa hoje [28/07] . A versão de teste do aplicativo – que abre em tela cheia para fotos e vídeos – será desativada nas próximas duas semanas. O Instagram também reduzirá o número de postagens recomendadas, à medida que trabalha para melhorar seus algoritmos.

“Estou feliz por termos arriscado – se não falharmos de vez em quando, não estamos pensando grande o suficiente ou sendo ousados o suficiente”, disse o chefe do Instagram, Adam Mosseri, em entrevista. “Mas nós definitivamente precisamos dar um grande passo para trás e nos reagrupar. Quando aprendermos melhor, então voltaremos com alguma nova ideia ou iteração. Vamos trabalhar nisso.”

As mudanças ocorrem em meio à crescente frustração do usuário com uma série de mudanças projetadas no Instagram para ajudá-lo a competir melhor com o TikTok e navegar na mudança mais ampla verificada no comportamento do usuário, para mais longe da fotografia, voltando a sua atenção aos vídeos. Esse tipo de redesenho geralmente provoca a ira de usuários resistentes à mudança. Todavia, neste caso, a insatisfação notável foi confirmada pelos próprios dados internos do Instagram, disse Mosseri. A tendência de os usuários assistirem a mais vídeos é real e veio antes do TikTok, disse ele.

Mas é claro que as pessoas realmente não gostaram das mudanças de design do Instagram. “As pessoas estão frustradas com as recentes modificações no design e o feedback trazido pelos dados não é bom”, disse ele. “Então, acho que precisamos dar um grande passo para trás, reagrupar e descobrir como vamos querer seguir em frente”.

A empresa também planeja mostrar aos usuários menos recomendações de algoritmo. Na quarta-feira [27/07], o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, disse que postagens e contas recomendadas atualmente representam cerca de 15% do que você vê quando navega no Facebook, com uma porcentagem maior no Instagram.

Até o final de 2023, esse número será de cerca de 30%, disse Zuckerberg. Mas o Instagram reduzirá temporariamente a quantidade de postagens recomendadas, enquanto trabalha para melhorar suas ferramentas de personalização. Mosseri deixou claro que o recuo anunciado hoje não é permanente.

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(*) No post de quarta-feira eu não mencionei especificamente o Instagram, assim como não o fiz no título de hoje, em parte porque eu estou acostumado a me referir ao grupo Meta genericamente como “Facebook”. De fato é o Instagram que está a atrair uma maior barragem de fogo no momento, principalmente nos mercados avançados.

As redes da Meta compartilham a árvore decisória e a orientação tecnológica, o que significa que os nomes das duas redes são um tanto quanto intercambiáveis quando o assunto é o uso algoritmos para recomendação de conteúdo.

Uma rápida análise final

Parece haver uma obsessão envolvida em todo esse negócio de o Facebook tentar perseguir o mesmo mercado que o TikTok – os jovens.

Dado que nos países mais ricos – e no Brasil também – a demografia mostra claramente que há uma forte tendência ao envelhecimento da população, a estratégia do Facebook faz pouco sentido. Você acaba alienando os dois campos, tentando ser o que você não é. De um ponto de vista racional, ele deveria ter continuado com foco na realidade do mercado que tem.

A juventude e a moda sempre foram inconstantes e a marcas Facebook e Instagram hoje em dia são efetivamente um veneno para os jovens, desprezadas, ridicularizadas. Isso não vai mudar tentando torná-lo um outro TikTok. É simplesmente tarde demais.

Tentando esconder o elefante-na-sala

Zuckerberg diz que apenas 15% do conteúdo do Facebook/Instagram é originário de recomendação de algoritmos, e que o objetivo é chegar a 30% no fim do ano que vem. Isso é claramente uma falsidade, uma vez que obviamente não inclui a contribuição de terceiras partes para as recomendações de conteúdo – e nem o que é medido por observadores independentes. Lembro que para ser igual ao TikTok – e pode apostar que Zuckerberg quer ser – é necessário 100% de conteúdo recomendado e 0% de conteúdo social.

Final

A Meta não vai simplesmente desistir das mudanças anunciadas para Facebook/Instagram. A Corporação vai agora retomar a implementação das mudanças em um tom menos estridente, com um pouco mais de vagar, a conta-gotas – como sempre fez.

Já passamos do ponto onde a Meta poderia escolher sua estratégia. Agora o único caminho a seguir é ir em frente com as mudanças. Parar agora significa colapso total do negócio.

Eu ando particularmente contente com a possibilidade da restauração dos princípios originais das redes sociais [don’t be evil!], com a saída/eliminação do grande monopolista e a chance de participação de novas empresas, ideias e visões.

O que foi dito no post de quarta-feira, continua válido, e deverá ser implantado em um perfil temporal mais longo. Não terei que esperar muito — não estou ficando mais jovem. Com base na experiência anterior posso dizer que, se tiver recursos, no final de 2023 a Meta estará fazendo exatamente o que planejou fazer.

TikTokização do Facebook Marca o Fim da Era das Redes Sociais

A quinta-feira passada [21/07] poderá entrar para os anais da história como o início do fim da era das redes sociais, que deram o tom para o crescimento da internet desde o início do século. A estreia do ‘redesign’ do Facebook para ficar mais parecido com o TikTok deixa para trás a ênfase da rede no aspecto social.

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A explosão do modelo das redes sociais foi uma decorrência do aparecimento e adoção quase universal do smartphone. No início, manter contato com amigos e compartilhar experiências era o centro de tudo o que as pessoas queriam fazer online.

No novo cenário que se desenha, a experiência online tiktokizada vai passar a girar em torno do que milhões de estranhos ao redor do mundo desejam e aprovam – completamente mediada por algoritmos. Com esse movimento a maior rede social sinaliza que quer se transformar em uma uma empresa de mídia digital de massa, em que a seleção do conteúdo é baseada nas reações de multidões de “usuários” anônimos processadas por aprendizado de máquina/redes neurais [t.c.c. “inteligência artificial”].

O Facebook chama esse processo de “Discovery Engine” [Máquina de Descobertas], porque o algoritmo expele recomendações muito confiáveis sobre qualquer coisa que possa prender a atenção do espectador. O que teremos nesta nova tendência é algo parecido com uma TV que muda de forma o tempo todo, com um número enorme de canais sem contexto, que aparecem e desaparecem refletindo o humor geral da rede em um determinado momento.

Doravante passa a ser muito improvável que você veja alguma coisa do conteúdo de seus amigos.

Tudo indica que é esse o modelo que os usuários mais jovens preferem, e é daí que vai sair a receita que o Facebook vai precisar, agora que as novas regras de privacidade da Apple e as ameaças regulatórias em todo o mundo enchem de incertezas o seu modelo de negócio.

Expressão máxima da Web 2.0

Durante bons quinze anos, as redes sociais – lideradas pelo Facebook, com outras redes a desempenhar um importante papel secundário – dominaram a cultura e a economia da internet. Mas a ilusão de que elas pudessem desencadear ondas de empoderamento democrático e liberar a autoexpressão em todo o mundo logo se desvaneceu quando o Facebook começou a transformar o “gráfico social” de relacionamentos humanos em uma máquina de fazer dinheiro.

Os rivais tombaram à esquerda e à direita [quem não se lembra do Orkut?]. A quantificação das amizades e os botões “curtir” transformaram as relações humanas em uma competição despersonalizada de “métricas”. A intervenção dos algoritmos, quebrando a ordem cronológica das postagens, obrigou as pessoas e, principalmente, organizações políticas, a aumentar o volume de seu discurso, na tentativa de enganar o sistema de avaliação. Com o tempo essa dinâmica se tornou um fator de extremismo, desinformação, discurso de ódio e assédio.

O estilo TikTok não melhora muito os problemas das mídias sociais. As postagens são ainda menos enredadas em uma teia de relacionamento social. Messe ambiente, quanto maior a multidão, mais alto o limiar de atenção para que o discurso seja notado

Portanto a era em que as redes sociais serviam como a experiência primária dos usuários da internet está ficando para trás. Isso também vale para o Twitter, que nunca realmente encontrou um modelo de negócios confiável. Seu futuro não parece muito brilhante.

A governança da Meta agora vê toda a estrutura de rede social do Facebook como uma operação legada, rumo ao ‘descomissionamento’

O grupo vai agora investir em seus aplicativos de mensagens e no chamado ‘metaverso’. O caminho fica livre para quem quiser atender a demanda por redes sociais clássicas, organizadas em ordem cronológica.

Uma visão otimista

Quem lê este blog deve ter percebido minha costumeira postura crítica às redes sociais e a repetição dos mantras de segurança e privacidade. Concordo que frequentemente soo como um proverbial tiozão da segurança/privacidade [existe isso??]. Embora eu encare a discussão desses problemas complexos como uma missão, ela via de regra leva à alienação do leitor ou ouvinte, e está se mostrando cada vez mais contraproducente [além de me trazer muitos problemas na esfera social].

É muito fácil ser cínico e simplesmente assumir que as coisas vão ficar pior do que estão agora. Neste post eu me restrinjo e ofereço uma visão mais humana e otimista sobre a questão. Talvez se torne o início de um novo pacto com meus caros leitores.

Concordo que tem havido uma profunda mudança na cultura “ocidental” nos últimos dez anos, e cerca de um terço de todo o mundo agora está no espaço virtual das mídias sociais (incríveis três bilhões de pessoas!). Mas eu começo a suspeitar que é um erro crer:

  • que esse seja um estado de coisas irreversível, ou, alternativamente,
  • uma espiral descendente em direção à débâcle tecnológica.

Não podemos esperar o pior das pessoas todo o tempo. Porque de qualquer forma elas podem mudar, se recuperar. Só quando você olha para a cultura com o olhar de um antropólogo é que você sai do paroquialismo do seu vilarejo mental e vê as verdades maiores.

Na verdade, dá muito mais trabalho imaginar uma sociedade melhor, porque isso requer ideias reais sobre o que pode ser diferente e como podemos chegar lá. Dizer “as coisas vão ficar do mesmo jeito, mas piores” é muito mais fácil do que dizer “as coisas poderiam ser diferentes e melhores, e aqui está como fazer”.

Portanto

Apesar de seu potencial para se tornar (como já se suspeita que seja) de fato uma ferramenta de propaganda do governo chinês, com base na minha experiência muito limitada vejo que o TikTok parece mais saudável e bem mais estúpido (no sentido de entretenimento insípido e inócuo) do que o Facebook e o Twitter – o que me parece muito bom (o usuário médio do TikTok não parece ter fixações revolucionárias ou violentas).

Nunca me indignei seriamente com algo que eu tenha encontrado nas poucas visitas ao TikTok — ao contrário do Facebook. O Discord parece ainda mais saudável do que qualquer uma daquelas plataformas. Portanto, pode ser que já estejamos a ver surgir um ecossistema mais íntegro.

O próprio fato de o Facebook deixar de ser uma rede social [no sentido estrito da expressão] deixa a arena livre para que outros atores possam agir com mais confiança para oferecer serviços que resgatem aquela sensação de intimidade e pertencimento que as redes sociais ofereciam no início de tudo – e para a qual a demanda certamente continua alta.

Mas para além da questão das plataformas, certos comentaristas [como Ezra Klein] consideram a atual era disruptiva “transitória”, na medida em que o surgimento de outros meios de comunicação sempre foi disruptivo e transitório. No fim de tudo as pessoas se ajustam. Talvez estejamos a caminho de nos tornarmos imunes ao sequestro da nossa atenção, indignação política e do Medo de Ficar Por Fora.

Quanto a mim, certamente me tornei muito bom em resistir à atração desses fenômenos sociais em todos esses anos. Mas poderei ceder ao apelo das redes, se eu puder contar com um ecossistema aberto, seguro e confiável.

~o~

(*) E eu queria realmente acreditar no que escrevi nos últimos cinco parágrafos…

Os Outros Já Tiveram Todas as Ideias

Nos fóruns de desenvolvedores e empreendedores que frequento, tem ficado muito comum ouvir coisas com mais ou menos o seguinte teor:

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Estou começando a desconfiar de quem diz que ainda existem inúmeros problemas para resolver neste mundo. Eu faço uma pesquisa rápida no Google para qualquer ideia que eu tenha e adivinhem? O nicho já está cheio de concorrentes no campo. Como iniciar uma startup hoje em dia? Sim, eu sei, é preciso se diferenciar. Sim, eu sei, é a execução que importa. Mas é desencorajador colocar as esperanças em um mercado que já está cheio de outros que começaram seu progresso quando eu era ainda um iniciante.

Como abordar essa exasperação?

Esse parece ser um familiar poço de desespero. Escritores são propensos a ansiedades semelhantes. “Tudo o que vale a pena dizer já foi dito. Mas, como ninguém estava ouvindo, é preciso dizer de novo” – assim escreveu André Gide. Curiosamente, Goethe já havia defendido o mesmo ponto um século antes. Jean de La Bruyère havia dito a mesma coisa no século XVII. Agostinho havia escrito mais ou menos a mesma coisa no final da Antiguidade. E o Eclesiastes havia vencido a todos séculos antes disso: “Não há nada de novo sob o sol”.

Eu também estou na corrida. Não tenho autoridade alguma para falar sobre o que leva uma startup ao sucesso – noto aqui que eu não sou muito fã do termo “startup”, que remete às panelinhas universitárias da elite econômica. Contudo, também tenho ideias originais, portanto sei em primeira pessoa que há ainda muito espaço para a inovação. Eu vejo que as tensões desencorajadoras não estão no espaço da criação, e nem na capacidade de realização. Estão em outros fatores, como capacidade de crédito, rede de relacionamentos, ambiente de negócios, etc. Meras externalidades.

Estou convencido também de que grande parte do problema se resume à uma questão de perspectiva: o que você procura é um segmento/categoria de mercado novo ou maduro? Segmentos de mercado recém inaugurados trazem muitas oportunidades, e há muitos deles ao redor. Nós desenvolvedores precisamos saber usar um novo mercado ao nosso favor.

Se eu realmente me atrevesse a dar um conselho, eu descreveria exatamente o que estou fazendo agora, e diria mova-se rapidamente começando nas áreas que seus concorrentes já validaram e aprenda a evitar os erros que eles cometeram no passado. Faça o possível para se diferenciar com base no feedback do seu mercado.

A concorrência é inevitável, mas pode ser aproveitada para aumentar seu aprendizado sobre o mercado e as necessidades do seu cliente, se souber como analisar sua estatística. Ela é positiva na medida em que é muito mais fácil ter várias empresas validando e/ou invalidando um novo espaço do que você fazer isso sozinho.

O ciclo de vendas para mercados novos e não comprovados geralmente é muito lento, pois eles exigem educação [exposição ao produto] e mudança de comportamento do consumidor. Então por que não deixar que os primeiros a adotar seu produto se encarreguem naturalmente disso antes de você conquistar uma participação significativa no mercado?

Unicórnios

Se você está tentando montar uma startup unicórnio este post não é para você [e apenas minha sôfrega imaginação te vê frequentando este blog].

Mas se você – como eu – quer ter um negócio real, ou alguma coisa própria, na internet, e acha que tem uma solução competitiva para algum problema – o sucesso obviamente será decorrente, então você e eu só precisamos fazer algo melhor do que o que já existe [e tratar de espalhar bem a novidade]. Onde as Big Techs são catedrais nós seremos bazares. Pense em uma feira onde servem os mesmos tipos de comida e como os chefs conseguem dar seu toque pessoal aos sabores, diferença que reflete na qualidade, clientela, e na atmosfera geral.

Há muitas maneiras de fazer algo melhor. Quase sempre é possível tornar um produto ou serviço de tecnologia melhor, com maior velocidade, com interface do usuário mais intuitiva, mais especializado para uma tarefa específica, e assim por diante.

Deve-se também ter em mente que o primeiro no mercado nem sempre é o mais bem-sucedido; muitas vezes é o segundo no mercado, ou mesmo o décimo, desde que o projeto deles tenha a melhor execução. O Facebook não era muito melhor do que o Myspace, e, embora as pessoas esqueçam, havia dezenas de outros sites que competiam pelo mesmo espaço naquela época. Tudo o que o Facebook fez melhor foi apresentar uma interface de usuário melhorada e segmentar um público específico (universitários, na época). A expansão para outros públicos veio depois.

Enfim, o resumo é que, mesmo que uma ideia tenha sido feita, será que ela foi feita de modo definitivo, do jeito que você quer, ou do jeito que o público quer? Quero acreditar que sempre há escolhas – especialmente quando não tentamos ser unicórnios.

Um produto Mínimo Viável não é mais suficiente

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No palavreado das startups, um produto mínimo viável (PMV), é um produto com recursos suficientes para atrair clientes pioneiros e validar uma ideia de produto ainda no início do ciclo de desenvolvimento.

O conceito de PMV desempenha um papel central no chamado desenvolvimento ágil. Em setores como software, o PMV é uma ferramenta valiosa para ajudar a equipe de desenvolvimento a receber feedback do usuário o mais rápido possível para iterar na melhora do produto.

O que é PMI?

Este é um conceito originário da metodologia Lean Development [desenvolvimento enxuto]. A abreviação vem do inglês Minimum Awesome Product, [Produto Mínimo Incrível – PMI]. “Incrível” aqui significa exatamente isso – um produto que os consumidores chamarão de incrível. Eles não esperam nada menos em 2022.

O PMI é uma evolução do PMV e uma forma de evitar que o produto mínimo viável seja muito “mínimo”. Hoje em dia, os usuários já são muito acostumados a uma “experiência” gráfica e não estão dispostos a explorar um site com Times New Roman preto sobre um fundo branco e um botão “Inscrever-se” – Embora haja quem vá ao outro extremo e carregue seu PMV com excesso de animações, imagens, vídeos e outros efeitos especiais extravagantes.

A principal distinção de um PMI quando comparado a um PMV é que o PMI tem um conjunto de recursos um pouco mais amplo, além de também levar em contar o design da interface e da experiência do usuário [UX]. O PMI usa os elementos que os usuários estão acostumados a encontrar em aplicativos do mesmo tipo. Um design de interface bem estruturado tende fazer o usuário acreditar que o aplicativo é mais eficaz do que um outro com um design mais despojado. Além disso, é preciso ter sempre em vista a maneira como seus concorrentes projetam seus produtos. O seu não deve parecer mais tosco em comparação.

De qualquer forma, é claro que um produto mínimo viável sempre deve aspirar ser um um produto mínimo incrível. O pressuposto de um PMV foi sempre a qualidade do conjunto de recursos e não qualidade final. Ele deve ter o conjunto mínimo de recursos necessários, mas construídos e projetados com o melhor padrão. Resumindo: se o seu negócio é vender pizza, o seu produto mínimo viável deve ser uma pizza que seja incrível.

Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.

O Merecido Inferno Astral do Facebook

A empresa-mãe do Facebook, Meta, vive uma sequência sem precedentes de dias ruins. Em uma teleconferência de resultados no início do mês, os executivos relataram que, pela primeira vez em sua história, o Facebook havia perdido usuários ativos diários no trimestre anterior – cerca de um milhão deles, para ser exato.

O Facebook transforma empreendedores em mendigosImagem: Pexels

A Meta também gastou bilhões em seus projetos de realidade virtual, que o CEO Mark Zuckerberg apresentou como o futuro da empresa. Na esteira da divulgação sombria, a Meta caiu mais de US$ 237 bilhões em valor no dia 3/2, a maior perda de um dia no mercado de ações dos EUA (isso é mais do que o valor de mercado da Netflix ou do Twitter.) O patrimônio líquido de Zuckerberg também caiu US$ 31 bilhões. Foi uma notícia chocante para uma empresa que declarou números sólidos a fantásticos no passado, mesmo durante períodos de escândalo e ira pública.

Reformar a Big Tech (especificamente o Facebook) parece ser a única coisa com a qual ambos os lados do espectro político concordam em todo o mundo. Os políticos mais sensatos querem proteger os cidadãos dos danos que essas plataformas causam, enquanto políticos controversos de direita, como Ted Cruz [e muitos outros no Brasil], querem se intrometer no Facebook porque acham que a plataforma censura injustamente os pontos de vista conservadores.

A falta de consenso sempre foi o obstáculo para uma reforma significativa. Felizmente, há alguns sinais de encorajamento do lado direito da cena política (nos Estados Unidos), como o senador republicano Dan Sullivan, dizendo que o mundo um dia olhará para este para esse período e perguntará: “O que diabos estávamos pensando?”

Não estávamos pensando

Comparações entre Big Tech e Big Tabacco vêm borbulhando há anos. Mas agora, graças aos Facebook Files do Wall Street Journal, há evidências que mostram claramente os danos causados ​​pelo Facebook e Instagram. Pior ainda, os executivos do Facebook parecem saber exatamente o quão ruim é o problema, porque muitas das evidências são de primeira mão e eles ainda não tomaram nenhuma atitude à altura do problema.

É particularmente preocupante como a chefe de gerenciamento de políticas globais do Facebook, Monika Bickert, tentou distorcer as descobertas, afirmando que “a maioria dos jovens no Instagram está tendo uma boa experiência”.

Bickert estava dobrando a aposta em uma linha de argumento do Facebook, que quer forçar a todo custo a versão de que os resultados de uma pesquisa realizada no mês passado – mostrando que oito em cada 10 usuários adolescentes do Instagram nos EUA disseram que a plataforma os fez se sentir melhor – provou seus méritos.

O que acontece a seguir permanece um mistério. Mas esta semana, eu acho, marca um momento significativo no debate sobre o que fazer com o Facebook.

Pela integridade das pessoas e independência do mercado

Minha relação pessoal com o Facebook não pode ser pior. Para começar, fui um dos primeiros a aderir a plataforma, quando o Orkut era o lugar onde todos estavam. Foi difícil convencer meus amigos a experimentar o Facebook – para que eu tivesse com quem conversar no novo boulevard – que eu considerava menos cafona do que o Orkut com sua interface dantesca. Só muito depois a plataforma finalmente emplacou no Brasil. Eu ainda não sabia, mas naqueles dias minha vida de entrepreneur da web 2.0 iria se chocar contra um zuker-berg.

O Facebook é uma abominação que consumiu toda a Web no Brasil e em outros países do 3º mundo. Para muitos, não ter acesso ao Facebook significa perder a conexão com tudo, incluindo serviços essenciais para a vida offline. Mas nem sempre foi assim

Primeiro, tínhamos aplicativos de desktop (que sempre podiam comunicar dados para servidores de rede). Em seguida, envolvemos os aplicativos no navegador (que é essencialmente um sistema operacional em um sistema operacional), mas tínhamos nossas páginas e sites em servidores independentes, assim como temos nossos blogs em nossos servidores. Trabalhadores da área [eu!] tinham uma vida relativamente boa, construindo sites para empresas de todos os tamanhos, que assim eram donas de seus narizes na web. Eram completamente independentes, retendo com elas todos o valor de seus negócios.

Então inventamos as “redes sociais” e estamos colocando tudo lá.

Poderíamos apenas ter melhorado a tecnologia de aplicativos de desktop (incluindo descoberta, entrega, interoperabilidade, portabilidade e flexibilidade de design de interface do usuário), mas escolhemos os navegadores. Poderíamos parar por aqui, usar a Web padrão e melhorar a experiência de uso de RSS/Atom/RDF/XMPP/etc.

Mas não. Seguimos uma toada enfadonha e insana em direção ao imobilismo e à falta de agência. Rendemos nossas páginas, contatos, assinaturas para o Facebook. Praticamente todas as empresas do mundo agora dependem desse elemento tóxico em suas relações com os consumidores.

No campo da inteligência de negócios as empresas estão prostradas, compartilhando passivamente com os Mestres do Universo o valor principal de seu negócio [que são os bens imateriais proporcionados pelas interações]. O Facebook efetivamente transforma os empreendedores em mendigos a implorar migalhas da economia da atenção.

Os pequenos e médios estúdios e desenvolvedores independentes de software para infraestrutura web, que eram milhões em 2003, estavam aniquilados em 2015. Mesmo em um país da UE muito desenvolvido, as pessoas enfrentam o problema frequente de que algum item está disponível apenas via Facebook. Isso é surreal. Porque as empresas não mais se preocupam em ter seus próprios sites/e-mails/telefones. Isso representa um problema sério – e perturbadoramente óbvio – para a cadeia de suprimentos no médio e longo prazos [para não falar de empregos para a mão de obra qualificada].

Redes sociais precisam de regulamentação anti monopólio

É incrível que tenhamos chegado a um momento na história em que instituições empresariais e pessoas importantes – aparentemente bem sucedidas e inteligentes, voluntariamente contribuem para a hipercentralização da informação [portanto dos negócios] nas mãos de apenas uma corporação, que pode facilmente falhar – intencionalmente ou não. O Facebook está se tornando uma espécie de sistema chinês, em que há apenas uma rede. Os usuários usam aplicativos dentro dessa rede, e para eles, essa é a Internet. Isso é um sonho de controle social para um governo.

Olhando de forma mais ampla, as redes sociais são uma camada desnecessária dentro da arquitetura da web – embora a tendência maliciosa seja envolver as estruturas de comunicação dentro de mais e mais camadas. Este blog é uma prova viva disso [neste momento você não está em uma rede social].

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Por mais liberal que eu possa ser, sou um homem sensato. Eu reconheço o primado do contrato social, que está danificado quase além de possibilidade de reparo, em grande parte por causa apenas dessa empresa de tecnologia. Isso precisa de severa reflexão. Eu esperaria que os governos reconhecessem a gravidade do problema [do monopólio] das redes sociais para a sustentabilidade econômica, para as relações internacionais, para a saúde mental de seus usuários e para a democracia.

Alguns governos já começam a levar as mudanças climáticas cada vez mais a sério. Este problema das redes sociais é o mais recente que enfrentamos e potencialmente pior: são as redes sociais que fomentarão a discórdia e o abandono da razão, que potencialmente nos levarão ao colapso da civilização.

Espero que ao testemunhar os recentes percalços muitas pessoas poderosas tenham se convencido de que o Facebook está, de fato, fora de controle.