Propostas Para um Mundo um Pouco Melhor

Ninguém gosta de mencionar que a raça humana se tornou simplesmente grande demais para ser sustentada pelo planeta.

Imagem: Pexels.com

É nisso que tem resultado o “progresso tecnológico” na Economia da Vigilância e do rentismo: apenas mais e mais humanos. Para certas elites. a expressão “Crise do Clima” é uma abreviação que elas usam quando querem dizer “humanos em excesso”. E eu diria que, a esse respeito, o Clube de Roma, com sua peroração pelo controle populacional está, a meu ver, provavelmente correto.

Por outro lado, os Clubes em Roma, Londres e Nova York estão cheios de oligarcas que simplesmente detestam a perda de poder e competição que a democracia representa. Eles também sabem que a economia ocidental/americana/dólar está à beira da exaustão e do colapso.

“Sim, podemos” voltar a uma economia do século 18, ou 16, ou 14, mas para fazer isso devemos reduzir a população a um equivalente do século 18. Isso parece agora inevitável e as mentes preocupadas se perguntam se há uma maneira educada de fazer isso. Como desacelerar sem causar caos e destruição em larga escala?

As Elites do mundo parecem desejar ativamente que isso aconteça, e podemos muito bem estar à beira disso. Imagine uma economia e população de estilo medieval, exceto que vigiada e controlada por computadores, em um verdadeiro cenário de pesadelo. E é para onde estamos indo diretamente. Os membros da elite mundial obscenamente rica planejam enfrentar a tempestade na superfície escondendo-se nos luxuosos bunkers subterrâneos que estão a construir febrilmente.

Sair do imobilismo

Os trabalhadores impulsionaram o progresso material até o fim do século 20. Agora são as classes gerenciais que impulsionam o progresso tecnológico e elas são muito bem remuneradas para isso, além de contar com uma ajudazinha do trabalho anônimo dos operadores e técnicos de produção que ganham, quando muito, 50.000 dólares por ano. Poderíamos continuar a manter o mesmo progresso material que tivemos no meio do século 20, se tivéssemos um plano. Mas ninguém o faz.

Aqui está o meu plano. Ele é muito simples, e tem que começar pelos mais jovens porque essa é a única esperança:

  • ensinar as crianças a construir coisas reais: engenharia, arquitetura, carros, motores, estradas, sem prejuízo da Grande Arte e do Ambiente; ensine-as a cozinhar e cultivar alimentos; ensine-lhes economia financeira. Isso leva a:
  • estabelecer um serviço nacional [sei lá como], destinado aos jovens, especialmente alunos de baixo desempenho escolar e social. Este serviço seria o pilar de uma estrutura de estímulo a uma cultura de cooperação, coragem e ousadia, em suma, uma instituição para inflamar os espíritos.
  • reformular os estudos religiosos, bem como os cursos de “educação moral e cívica”, nas escolas estaduais, mudando-os para algo como FPC, filosofia, política e cristianismo – enfim, um bom curso sobre o que realmente importa para nossa civilização.
  • criar envolvimento político obrigatório nas escolas via o que eu [super antigo eu] chamaria de “parlamentos juvenis” [não mais “centros acadêmicos” – por razões que posso explicar nos comentários] e outros campos de aprendizagem para os interessados em política.
  • aperfeiçoar o acrônimo STEM e chamá-lo de STEAM – Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática – afinal entre os séculos 18 e 19, quando STEM nasceu, a máquina a vapor, Beethoven e Goethe ocupavam o mesmo plano na ordem das coisas, correto?
  • tornar os smartphones ilegais para menores de 16 anos.
  • qualquer outra coisa que o senso comum já teria feito há 20 ou 30 anos.

Tenho sido relapso com o Blog, mas isso é passageiro. Tem havido na fila muita coisa para ser processada. Mantenho o mesmo entusiasmo do início e a partir de janeiro vamos ter coisas muito legais para postar. Com nossa entrada – no início tímida, tateando – nos serviços de agricultura de precisão [tradução: DRONES!], teremos muito material de qualidade para valorizar a “experiência” dos amigos leitores. Mal posso esperar.

Desejo a todos um belo Natal. Que em 2023 possamos ter muitos momentos de paz, alegria e amor, e triunfar nos empreendimentos. Boa sorte e saúde!

Volto na segunda semana de Janeiro – ou antes!

Um Infográfico para Entender o Velho Dinheiro Inglês – Definitivamente

Estive a trabalhar em uma pequena aplicação para conversão entre moedas que me levou ao desenvolvimento de algo aparentemente inédito – que compartilho hoje com meus leitores.

Imagem: Vox Leone

Ao iniciar uma pesquisa para o que deveria ser um simples código de conversão aritmética para a libra inglesa pré-decimal, eu senti que precisava de um guia visual para tornar mais confortável a composição no computador; algo que eu pudesse olhar enquanto digitava. Comecei a rascunhar um diagrama para poder manter o objeto do assunto em perspectiva. Vasculhei a Internet em busca de uma figura que fosse parecida e não encontrei.

Me dei conta então que eu tinha em mãos um material novo e diferente para desenvolver. Depois de alguns dias de trabalho no LibreOffice Draw eu tinha pronto o infográfico que compartilho nesta postagem – que pode ser visto aqui, para aqueles que não pretendem ler um texto tão longo (fique à vontade para compartilhar em seu grupo da OpenEnglish, please). Achei que poderia ser interessante e útil para anglófilos, estudantes, viajantes, cidadãos do mundo e curiosos em geral.

Foi possível condensar a informação, de forma que o resultado final pode se sustentar por si próprio (como um poster) e ser compartilhado em aplicativos de mensagem e outros meios orientados à imagem. Eu gostaria de tê-lo postado aqui sozinho em sua própria glória. Mas este blog foi concebido para ter um formato longo, e disso não abro mão. Portanto era imperativo ter um texto para acompanhar, o que fiz após uma laboriosa pesquisa. Aqui está, então, esse curioso texto que foi penosamente escrito com o único objetivo de servir de escada para uma bela imagem. Esta é a Web. Voilà!

Roma e os Francos

Escrever este post acabou sendo um mergulho no mundo do dinheiro da Idade Média. Durante os meses em que trabalhei nele pude me deter na fascinante Libra Esterlina e seu convoluto sistema duodecimal, que sempre refletiu a intrincada relação entre os vários pesos e medidas que vigoravam nas centenas de feudos e reinos medievais. Pude ter uma visão clara de como a Libra inglesa, herdeira de Roma, assimilou em si valores tradicionais, não necessariamente moedas, que desde tempos ancestrais expressavam equivalência entre pesos de metais diversos.

Como sabemos, depois do colapso do império romano, durante o feudalismo, a Europa era um mundo caótico de minúsculos reinos, costumes, pesos, medidas, leis e moedas. Principalmente moedas. Havia o Albus, no norte da Alemanha, o Denário na França, o Dinar árabe na Ibéria islâmica, o Doblo na Ibéria cristã, e uma profusão de outras na Europa central e península Itálica (o Ducado, o Florim, o Genovino, o Grosso, etc., etc.)

O pai de Carlos Magno, Pepino III, o breve, rei dos Francos – que haviam herdado de Roma seus grandes domínios territoriais – iniciou a revisão desses sistemas fechando as casas de moeda dos grandes magnatas e prelados do Império e estabelecendo os direitos de cunhagem como um privilégio exclusivamente real. No entanto, mesmo com as reformas, o sistema permaneceu confuso. Havia ainda muitas diferenças de valor mesmo entre moedas de mesma denominação – 22 xelins para a libra imperial, xelins extras da casa da moeda, xelins do Tesouro Imperial…

Esse primeiro esforço regulatório de Pepino III deu ímpeto a Carlos Magno para introduzir posteriormente uma reforma mais abrangente e duradoura, que trazia uma padronização muito mais ampla destinada a tornar o Império mais governável.

Ele definiu então o que conhecemos como libra carolíngia, inicialmente como uma nova unidade de peso, significativamente maior que a antiga libra romana de 328,9 g. Também introduziu uma nova moeda de prata chamada denário, dos quais 240 compunham 1 libra de prata pura. Um denário (também denar ou denier) continha 1,7 g de prata. Para facilitar os cálculos monetários, também foi introduzida uma unidade de conta, o solidus, de modo que 1 solidus = 12 denários. Assim começou o sistema monetário tripartido característico: L 1 = 20s = 240d.

Com o Império de Carlos Magno esse sistema estabeleceu supremacia por toda a Europa ocidental. Após a conquista normanda em 1066, o sistema foi introduzido também na Inglaterra, reproduzindo exatamente o padrão carolíngio do continente: Uma Libra dividida em 20 Xelins (Solidus) e 240 centavos/pennies (Denários).

Esse sistema foi abandonado em 1971 com a decimalização da Libra. Com a decimalização a libra é hoje parecida com quase todos os outros sistemas monetários do ocidente. Genericamente: 1 Unidade Monetária dividida por 100 subunidades agrupadas em certas quantidades de conveniência.

No infográfico abaixo um instantâneo do sistema carolíngio no Reino Unido pouco antes da decimalização, em 15 de Fevereiro de 1971 (decimal day):

Clique aqui para uma versão maior. Aqui a versão em inglês. – Arte: Vox Leone

A seguir uma descrição de cada denominação e alguns fatos a respeito de cada uma delas. Todas as imagens são cortesia de Wikimedia Commons.

Farthing

Farthing, 1913

A menor denominação do sistema da Libra esterlina. Esse vocábulo tem origem no Inglês antigo feorðing, “quarto de um centavo”. No inglês antigo tardio também referenciava uma unidade de divisão de terra; os condados eram costumeiramente subdivididos em quatro farthings (“quadras” ou “quartos”). A palavra cognata tanto do norueguês quanto do dinamarquês antigos significa “uma quarta parte de qualquer coisa.”

O primeiro farthing redondo (de prata) foi emitido em 1279 sob Edward I. Antes dessa data, para troco em espécie nas negociações um penny era dividido fisicamente em duas metades – ou ainda em quatro quartos. Isso era conhecido como halving ou fouring. O têrmo Farthing foi provavelmente derivado de fouring.

No linguajar popular é também sinônimo de algo de pouco valor. A palavra latina correspondente em traduções bíblicas é “quadrans” – quarto de denário.


Meio penny – Ha’penny [half penny]

Meio penny, 1967

O meio “centavo” moderno sobreviveu de 1672 a 1967, mas essa denominação pode ser encontrada na história inglesa já por volta do ano 890. O half penny era coloquialmente escrito como ha’penny e pronunciado HAY-pə-nee. Muitas expressões idiomáticas ainda fazem referência ao half penny, como “two ha’pennies for a penny” – ‘trocar seis por mea duzia’. Na gíria das ruas era uma referência à vulva.

O ‘half penny carolíngio’ foi retirado em 1971 na decimalização, e substituído pelo meio centavo novo decimal, com 1/2p valendo 1,2d.


Penny

Penny, 1963

O penny inglês, de origem carolíngia, é uma fração de 1/240 libra. Acho um tanto desconfortável me referir a ele como ‘centavo’ [centésima parte], segundo o costume da língua portuguesa. Neste texto eu procuro manter o vocábulo original inglês, por falta de um melhor.

O plural de “penny” é “pence” quando se refere a uma quantidade de dinheiro, e “pennies” quando se refere a várias moedas.

Os reinos da Inglaterra e da Escócia foram fundidos pelo Ato de União de 1707 para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha. Assim, em 1707 a moeda escocesa deixou de ter curso legal, com a libra passando a ser usada em toda a Grã-Bretanha. O penny veio a substituir o xelim escocês.

O design e as especificações da moeda esterlina de um penny ficaram inalterados pela unificação, de modo que ela continuou a ser cunhada em prata depois de 1707.

Em tempos antigos o penny podia ser combinado em dois para formar o two pence (2d), e em quatro constituindo o groat (4d).


Três pence – Three pence

Três pence, 1942

A moeda de três pence (3d), entrou em circulação pela primeira vez em meados do século XVI, durante a era do rei Eduardo VI. Valia 1/80 de uma libra, ou ¼ de um xelim. A moeda permaneceu em circulação, em várias versões, até a entrada em vigor da libra decimal.

O três pence sofreu muitas mudanças ao longo dos séculos. Enquanto algumas épocas os tiveram emitidos para circulação geral, outros períodos usaram o três pence como dinheiro cerimonial [ver maundy money]. Como moeda, a denominação chegou a ser cunhada em níquel-latão, pesando 6,8 g e medindo 21 mm, e em prata, como uma moeda de 1,5 g, com um diâmetro de 16,2 mm.


Seis pence – Sixpence

Seis pence, 1962

Os primeiros seis pence foram cunhados em 1551, também sob Eduardo VI. Eles surgiram como resultado da degradação da moeda de prata na década de 1540, em particular o testoon de prata, que caiu em valor de 12d para 6d. O testoon mesmo degradado ainda era útil em transações cotidianas, e assim foi decidido que ele devia ser transformado em uma nova moeda com a denominação de “seis pence”.

O testoon se desvalorizou porque na época, ao contrário de hoje, o valor das moedas era determinado pelo valor de mercado do metal que continham. Durante o reinado de Henrique VIII, a pureza da prata na cunhagem havia caído significativamente.

Os seis pence foram emitidos durante o reinado de todos os monarcas britânicos após Eduardo VI, bem como durante a Commonwealth, com um grande número de variações e alterações ao longo dos anos.

(*) Em 2016, a Casa da Moeda Real começou a cunhar moedas decimais de seis pence em prata, destinadas a serem compradas como presentes de Natal. Essas moedas são mais pesadas que os seis pence anteriores a 1970 (3,35 gramas em vez de 2,83 gramas) e têm a denominação de seis pence novos (6p) em vez de seis pence antigos (6d).


Xelim – Shilling

Xelim, 1963

Uma moeda fiduciária por direito próprio. Foi usado como dinheiro soberano por muitos reinos europeus [ver wiki]. O xelim inglês teve origem, como o seis pence, no já mencionado ‘testoon’, que foi emitido em 1504 sob o reinado de Henrique VII. Um testoon valia 12 pence e era feito de prata. O testoon continuou durante o reinado de Henrique VIII. O testoon de 12 pence foi finamente renomeado como xelim durante o reinado de Eduardo VI.

Depois disso, o xelim circulou sob todos os monarcas reinantes, exceto Eduardo VIII. É interessante notar que o primeiro xelim da era do Reino Unido foi cunhado em 1816, mais de um século após o Ato da União.

O xelim era uma moeda de prata popular. No entanto, foi regularmente degradado pelo vandalismo e perdeu valor ao longo dos anos. O valor do xelim voltou a aumentar quando Elizabeth I retirou de circulação todas as moedas degradadas e as substituiu com moedas recém-cunhadas.

Os xelins circularam amplamente por muitos séculos. Para estimar o poder de compra do xelim, é preciso especificar o período de tempo em que a moeda foi usada.

  • década de 1940

Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, um xelim poderia comprar itens domésticos comuns, como um pão ou uma barra de sabão. À medida que a economia sofria com a guerra, o custo dos bens básicos aumentava. Isso significava que, entre 1939 e o fim da guerra, o preço do leite havia subido de 3 centavos, indo para 9 centavos (quase um xelim) por litro.

  • década de 1960

Na década de 1960, ainda se podia comprar um pão com um xelim; ou um corte de cabelo; ou abastecer seu carro com pouco menos de 1 litro de gasolina – que na verdade era vendida em galões na época.

  • década de 1970

Na década de 70, um xelim podia pagar um telefonema de 3 minutos, um litro de leite entregue em sua casa pelo leiteiro – este com preço congelado pelo então socialismo inglês junto com outros itens essenciais, como pão ou jornais.


Florim – Florin

Florim, 1967

O ‘fiorino d’oro’ da República de Florença foi a primeira moeda de ouro europeia desde o século VII a ser cunhada em quantidade suficiente para desempenhar um papel comercial significativo.

O termo florim foi usado como empréstimo em outros lugares da Europa. Assim, houve um florim inglês emitido pela primeira vez em 1344 por Eduardo III. Era cunhado a partir de 108 grãos (6,99829 gramas) de ouro puro (‘fino’) e tinha o valor de seis xelins (equivalente a 30 pence pré-decimais). Conhecido como o “double leopard” (leopardo duplo), foi uma tentativa de Eduardo III de produzir moedas de ouro que pudessem ser usadas tanto na Europa continental quanto na Inglaterra.

Contemporaneamente, o florim britânico de dois xelins (2s) foi um experimento precoce no sentido da decimalização da moeda, com seu valor de 1/10 de uma libra, ou 24 pence. Foi emitido de 1849 a 1967, com uma emissão final para colecionadores em 1970. Foi a última moeda a ser desmonetizada antes da decimalização.


Meia coroa – Half crown

Meia coroa, 1967

A meia coroa foi emitida pela primeira vez em 1549 durante o reinado de Eduardo VI. Eduardo VI foi rapidamente sucedido pela rainha Maria, mas nenhuma meia coroa foi produzida durante o reinado de Maria, entre 1553 e 1558. Elizabeth I assumiu o trono entre 1558 e 1603. Durante seu reinado e todos os reinados posteriores até 1970 – excluindo apenas Edward VIII – as meias coroas foram emitidas. Apenas em 1970 a meia coroa foi finalmente desmonetizada, um ano antes da decimalização.


Nota de Dez Xelins – Ten Bob Note

Nota de dez shillings

A cédula de emergência.

Em agosto de 1914, a economia britânica estava em crise devido à instabilidade causada pela “neblina da guerra” no continente. Banqueiros e políticos procuravam desesperadamente maneiras de proteger as finanças da Grã-Bretanha e impedir que os bancos entrassem em colapso.

O Governo decidiu que deveria ser disponibilizada uma grande oferta de notas no valor de 10 xelins, facilitando ao público a realização de pequenas transações.

No entanto, o Banco da Inglaterra não foi capaz de preparar e imprimir o número necessário de notas com rapidez suficiente. O governo então tomou a medida sem precedentes de emitir as notas por conta própria.

Essas notas ficaram conhecidas como Notas do Tesouro e eram diferentes de tudo que o público britânico já tinha visto. Até este ponto, a nota de menor denominação era a de £ 5 – que naqueles dias era uma quantia tão grande que muitas pessoas nunca teriam visto ou usado a nota.

Ao emitir uma nota de 10 xelins, o Tesouro criou as primeiras notas de grande circulação na Inglaterra. A nota de 10 xelins – que equivalia a meia Libra – foi a menor denominação de nota já usada no Reino Unido e acabou sendo substituída modernamente pela moeda de 50 pence, que foi introduzida já em 1969, dois anos antes do decimal day.


Libra – Pound

Libra, ca. 1960

Discorrer sobre a Libra neste ponto não faria sentido. Nada posso dizer que já não tenha sido dito, e obviamente não tenho nada original para dizer. Para aqueles que pretendem se aventurar no assunto eu digo que a pequena pesquisa que empreendi para este trabalho me mostrou que há muitas nuances, interpretações e fontes – muito poucas na língua portuguesa. Deixo um humilde link como sugestão de por onde começar.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Libra_esterlina

Posso dizer, no entanto, que a libra é [ou era] conhecida na gíria como Quid. Acredita-se que o termo tenha origem na expressão latina “quid pro quod”, que designa uma troca [“isto por aquilo”] — o que é perfeitamente adequado em se tratando de uma moeda. Foi chamada também de Soberano. Algumas denominações fracionárias da libra citadas neste trabalho já não existiam em 1971.


Guinéu – Guinea

Um guinéu de 1797, anverso e reverso

O Guinéu foi introduzido pelo rei Carlos II em 1663, logo após a Restauração. Foi cunhado em ouro de 22 quilates importado pela primeira vez da Guiné na África Ocidental, daí o nome. Originalmente, a moeda da Guiné foi definida como valendo exatamente uma libra, ou 20 xelins. No entanto, o preço de mercado do ouro aumentou e, na década de 1680, as pessoas exigiam 22 xelins por guiné em vez dos 20 oficiais. Em 1700, o preço havia subido ainda mais, para 30 xelins, de modo que um guinéu valia efetivamente uma libra e meia – este é o problema de basear o valor de uma moeda em uma mercadoria negociável como o ouro: seu valor flutua com a oferta e a demanda.

Durante o início do século 18, o preço do ouro voltou a cair para os níveis de 1680. Em 1717, o rei George I fixou a taxa de câmbio entre moedas de ouro e prata por decreto, com valor de mercado de 21 xelins por guinéu.

Em outras palavras, depois de 1717 existiu uma moeda que valia uma libra mais um xelim (21 xelins, ou 252 pennies), mas nenhuma moeda valia exatamente uma libra. O soberano não estava em circulação no século XVIII: foi introduzido em 1817.

Como um guinéu valia 5% a mais do que uma libra, tornou-se um símbolo de status precificar itens de luxo, como roupas e joias, em guinéus, em vez de libras. Um oficial naval de classe média comprava seu uniforme por cinco libras; o alfaiate ao lado atendendo a um oficial mais aristocrático poderia vender o mesmo uniforme por cinco guinéus, porque seus clientes eram ricos o suficiente para ignorar a margem de 5% e gostavam de ostentar isso. Da mesma forma, um carpinteiro poderia cotar seus preços em libras, mas um advogado cotaria seus honorários em guinéus.

Referências

Les réformes monétaires carolingiennes

https://www.persee.fr/doc/ahess_0395-2649_1952_num_7_1_2021

https://www.etymonline.com/

https://coinsite.com/

https://wblog.wiki/

https://thecoinexpert.co.uk/

https://blog.westminstercollection.com/

A Miséria da Internet em 2022

Há muito tempo deixei de gostar dessa coisa absurda que internet se tornou. Posso talvez não ser o único, embora eu não encontre meus iguais nestas terras torturadas.

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Mas, para além da desilusão, ainda gosto muito do meu trabalho em computação [agora em tempos de recomeço!]. Gosto de projetar e me deixar absorver pelos detalhes dos sistemas, hora a hora, minuto a minuto, e deixar as preocupações da vida de lado; gosto de pesquisar defeitos e descobrir o que está acontecendo de errado; gosto de aprender coisas novas; eu gosto muito dos insights sobre dados proporcionados por tecnologias como Python. Gosto até mesmo de web design, algumas vezes.

Mas aqui está a minha verdade: em algum lugar ao longo do caminho, eu perdi totalmente o interesse por essa web que as outras pessoas consomem, e principalmente pelas abjetas redes sociais.

Em 2022 eu: não assisto a vídeos em computadores; não ouço podcasts; não tenho o sócio-linfoma [o câncer mental induzido pelas redes anti-sociais]; não tenho Netflix nem Spotify; não uso Uber; não tenho nem quero uma Alexa [e tenho raiva de quem tem]; não quero meus interruptores de luz conectados à internet; nem minha geladeira; nem meu fogão; nem realmente qualquer coisa, exceto meu(s) computador(es).

As tecnologias que fazem a alegria dos corintianos e flamenguistas; que os fazem se sentir importantes e “acolhidos”; que dão aos idiotas fama e um desproporcional poder de fogo; que sequestram a capacidade crítica dos Josés e das Marias… essas coisas para mim não têm nenhuma graça. De fato as considero nefastas, considerando que não são, como outrora, tecnologias libertadoras.

A tecnologia de rede se tornou absolutamente desumana quando, por volta de 2003, passou a servir cada vez mais os interesses das oligarquias e dos governos ao se degradar em vigilância e controle mental das massas. Não é mais divertido. Não é bonito [a fealdade das pessoas e das coisas parece ser outra marca definitiva do século 21]. Não vou colaborar com esse sistema.

Computadores – incluindo celulares, tablets, o que for – não são meu “hobby”. Não paro de trabalhar e vou jogar na internet “para me distrair”. Eu geralmente paro de trabalhar e quero fazer algo que não envolva a internet. Eu gosto de ler. Eu gosto de ouvir Miles Davis. Gosto de comer fora, em restaurantes, à moda antiga. Eu gosto de dirigir meu carro e ir a lugares.

Um dos meus principais critérios para comprar coisas é se elas funcionam sem uma conexão de rede. Fora do trabalho eu uso computadores para… bem, ler coisas. Ou seja, realmente ler. Texto. Fotos também, se for preciso. Eu os uso para mergulhar em temas profundos e tentar ver além do que a visão me mostra.

Não é mais 1998. Não é o ano do “Linux no desktop” – nunca haverá o ano do Linux no desktop. Sequer será o ano do desktop. Hoje em dia computar é simplesmente o que eu faço. Porque é o que eu faço.

Minha história

Aprendi a programar Basic em um CP-300 (48k de RAM!) – um lixo gestado durante a infame reserva de mercado para computadores nacionais, da desditosa ditadura militar [que a malta inculta quer reviver, agora sob a liderança idiocrática do palhaço Javoltar Barrigonaro]. Passei por alguns sistemas menos limitados de 8 bits e aprendi FORTRAN alguns anos depois.

Depois trabalhei em uma companhia multinacional, onde lidar com computadores não era minha atividade-fim. Em 1999 eu finalmente consegui penetrar nos mistérios do Linux [SUSE, se me lembro]. De repente eu não precisava mais programar sozinho. Qualquer coisa era de código aberto. Eu apenas dava uma espiada no código- fonte, mudava alguma coisa e recompilava em algo novo. Aquilo era a vida!

Fiquei encantado com alguns desenvolvimentos realmente engenhosos. Adorei como a computação pareceu mais completa depois disso – pode ter sido minha imaginação, mas foi o que senti. Eu ainda era principalmente um usuário, mas senti que estava no controle e entendi muito bem o que estava por baixo do capô. E se não entendesse, eu sempre soube onde procurar a iluminação – e sempre havia um blog com a iluminação.

Muitos anos depois, já na primeira década do século, já empresário do ramo, eu realmente continuava a me aprofundar. Chegava a Web 2.0 e eu não percebi na época que eu era um dos últimos dinossauros. A excelência do código aberto começava a perder terreno para as plataformas “na nuvem”, baseadas em código proprietário e uso intensivo de dados capturados dos usuários – que mais tarde dariam origem ao atual sistema vicioso e predatório do capitalismo de vigilância.

Hoje quase nenhum usuário sabe como a tecnologia funciona. Quinze anos atrás ainda sabíamos apreciar a arte de uma applet Java, de uma library ou mesmo de um framework. Mas hoje quase ninguém mais. Tudo o que consumimos são produtos ruins com um pequeno ciclo de atualização antes que a obsolescência planejada entre em ação e você tenha que comprar a versão mais recente – e o melhor hardware – novamente. O software é na maioria das vezes escrito por algum chimpanzé que encara a programação apenas como um trabalho e acha que quanto mais linhas de código escrever melhor ele vai ficar com seu supervisor [que via de regra não é muito melhor que ele]. Existem exceções, mas esse é o balanço das coisas.

Marketing em lugar da Engenharia

Os departamentos de marketing [sociopatas de fala mansa, como Steve Jobs] substituíram a engenharia [pesquise “the curse of Boeing”] no controle do que chega ao mercado, e tudo indica que não vão abrir mão desse controle. Os técnicos cederam à pressão do time-to-market. Isso vale para qualquer smartphone, qualquer receptor, qualquer roteador. Muitos até rodam Linux, mas mesmo assim a maioria ainda é muito ruim. Mesmo o acesso básico à Internet hoje vem com termos de serviço com os quais realmente ninguém com uma mente sã poderia concordar.

Acho que o que desempenha um papel importante na falta de entusiasmo tecnológico atual [além do analfabetismo funcional de toda a sociedade, incluindo a sedizente “elite”] é que, em 1998, a perspectiva de uma rede livre rodando software livre em computadores cada vez mais poderosos nos os quais podíamos mexer, alterar, estender, etc, prometia um futuro lindo pela frente. Eu adorava estar a viver [uma saudação aos irmãos de Angola e da lusofonia!] nos míticos anos 2000.

Vinte anos se passaram, e que o que temos em vez da utopia tecnológica que produziria cientistas-filósofos é a desgraça deprimente das redes sociais, que transformou grande parte da humanidade em zumbis consumidores, depravados, alienados, incivilizados e animalescos. Os Mestres do Universo – banqueiros, nababos da mídia, ONG’s com relações incestuosas com o poder, capitalistas da vigilância e outros parasitas – se divertem ao ver a massa cada vez mais dócil, fotografando e compartilhando seu caminho rumo à obliteração. A vida feliz das ovelhas a caminho do abatedouro.

Eu queria não ter tomado a pílula vermelha.


(*) Tentei buscar referências sobre a reserva de mercado para computadores no Brasil da década de setenta e não encontrei. Isso comprova meu ponto sobre a futilidade, o atraso e o inaceitável baixo nível intelectual da Internet em português. Culpa do referido sócio-linfoma.

Poema Concreto para a Semana da Pátria

Vamos dar mais uma pausa a partir de hoje, desta vez para descansar mesmo – embora ainda hoje eu ainda tenha alguns pepinos para resolver. Vamos aproveitar a semana da pátria, não sem um certo desconforto pelos desenvolvimentos na política. Só me resta torcer para que o bom senso prevaleça, e o nosso blog volte no dia 13 ainda podendo usufruir da liberdade do Estado de Direito. Como é fim de semana, posso me permitir um post amalucado, uma de minhas incursões no campo da poesia concreta. Espero que gostem. Até a volta!


Back to Work

O Taliban, não o Ocidente, Ganhou a Guerra Tecnológica do Afeganistão

Por Christopher Ankersen e Mike Martin

MIT Technological Review

Na verdade, ao contrário da narrativa típica, os avanços tecnológicos ocorridos durante os 20 anos de conflito favoreceram mais o Taliban do que o Ocidente. Na guerra da inovação, o Taliban venceu. O que isso significa? O Ocidente lutou na guerra de uma mesma maneira, do início ao fim. Os primeiros ataques aéreos em 2001 foram conduzidos por bombardeiros B-52, o mesmo modelo que entrou em serviço pela primeira vez em 1955; em agosto, os ataques que marcaram o fim da presença norte-americana vieram do mesmo venerável modelo de aeronave.

Imagem: Pinterest

O Taliban, entretanto, deu alguns saltos enormes. Eles começaram a guerra com AK-47s e outras armas convencionais simples, mas hoje eles tiram grande proveito da telefonia móvel e da internet – não apenas para melhorar suas armas e seus sistemas de comando e controle, mas, ainda mais crucialmente, para operar suas comunicações estratégicas e sua PsyOps/guerra psicológica, assim como suas táticas de influência nas redes sociais.

O que explica esses ganhos tecnológicos – embora modestos e desigualmente distribuídos? Para o Taliban, a guerra no Afeganistão foi existencial. Confrontados com centenas de milhares de tropas estrangeiras de países da OTAN e caçados no solo e no ar, tiveram de se adaptar para sobreviver.

Embora a maior parte de seu equipamento de combate tenha permanecido simples e fácil de manter (muitas vezes não mais do que uma Kalashnikov, alguma munição, um rádio e um lenço na cabeça), eles tiveram que buscar novas tecnologias em outros grupos insurgentes ou desenvolver sua própria. Um exemplo importante: bombas de beira de estrada ou Improvised Explosive Devices – IEDs. Essas armas simples causaram mais baixas aliadas do que qualquer outra. Ativados originalmente por placas de pressão, como as minas, eles evoluíram no meio da guerra para que o Taliban pudesse detoná-los com telefones celulares de qualquer lugar com sinal de celular.

Como a linha de base tecnológica do Taliban era mais baixa, as inovações que eles fizeram são ainda mais significativas. Mas o verdadeiro avanço tecnológico do Taliban ocorreu no nível estratégico. Cientes de suas deficiências anteriores, eles tentaram superar as fraquezas mostradas em sua passagem anterior no governo. Entre 1996 e 2001, eles optaram por ser reclusos, e havia apenas uma foto conhecida de seu líder, Mullah Omar.

Desde então, porém, o Taliban desenvolveu uma equipe sofisticada de relações públicas, aproveitando a mídia social no país e no exterior. Os ataques com IEDs geralmente eram gravados por telefone celular e carregados em um dos muitos feeds do Twitter do Taliban para ajudar no recrutamento, arrecadação de fundos e moral.

Outro exemplo é a técnica de varrer automaticamente as mídias sociais em busca de frases-chave como “apoio ao ISI” – referindo-se ao serviço de segurança do Paquistão, que tem uma relação com o Taliban – e, em seguida, liberar um exército de bots online para enviar mensagens que tentam remodelar a imagem do movimento.

Para a coalizão, as coisas eram bem diferentes. As forças ocidentais tinham acesso a uma ampla gama de tecnologia de classe mundial, desde vigilância baseada no espaço até sistemas operados remotamente, como robôs e drones. Mas para eles, a guerra no Afeganistão não era uma guerra de sobrevivência; era uma guerra de escolha. E, por causa disso, grande parte da tecnologia visava reduzir o risco de baixas, em vez de obter a vitória total.

As forças ocidentais investiram pesadamente em armas que pudessem tirar os soldados do perigo – força aérea, drones – ou tecnologias que pudessem acelerar a disponibilidade de tratamento médico imediato. Coisas que mantêm o inimigo à distância ou protegem os soldados de perigos, como armas, coletes à prova de balas e detecção de bombas na beira da estrada, têm sido o foco do Ocidente.

A prioridade militar abrangente do Ocidente está em outro lugar: na batalha entre potências maiores. Tecnologicamente, isso significa investir em mísseis hipersônicos para se igualar aos da China ou da Rússia, por exemplo, ou em inteligência artificial militar para tentar enganá-los.

Tradução: Bravo Marques

Conteúdo original na íntegra em MIT Technological Review [em inglês]