Sexta de Leão: Guarde Suas Taras para Você

Alguns usuários ficaram surpresos [alguns negativamente] com a série Sexta de Leão, um espaço livre que tem enfocado em suas últimas edições temas comportamentais em geral e o sexo em particular. Não deveria ser surpresa uma vez que os comentaristas são quase unânimes em apontar que as tecnologias de informação, a Internet em geral, e as mídias sociais em particular [que são o assunto primário deste site], desempenham um papel fundamental na ampliação das tendências econômicas, políticas e culturais em todo o mundo.

Apresento hoje a visão instigante e original de Mary Harrington, na revista online inglesa UnHerd, sobre as mudanças nos mores sexuais e seus impactos nas relações humanas.

Quero ter a liberdade de enfocar os temas que me interessam e explorar todas as possibilidades de comunicação com meus leitores. Não vamos focar em sexualidade eternamente, como também não vamos nos restringir a áridas arengas sobre o último lançamento em hardware. Outros temas já estão rascunhados para desenvolvimento. Quero fazer um blog universalista, que embora tenha um pé firme na tecnologia, nunca perca contato com nossa dimensão humana. Saudações a todos(as). B.M.


Imagem: UnHerd [Getty Images]

Por trás da pressão social para adicionar tempero à vida sexual, esconde-se uma palavra [composta] especialmente feia: “ciseteronormatividade“. Grosso modo, ela pretende significar que a expressão sexual humana é restringida por normas patriarcais opressivas, incluindo a heterossexualidade (e ser “baunilha”). Devemos então descartar essa opressão, prossegue o argumento, e aceitar que o alcance da expressão sexual e de gênero humanos é infinito, e que as sexualidades ‘queer’ sempre existiram.

Os contos da antiguidade clássica sustentam a ideia de que os gostos não convencionais têm uma longa história. De acordo com Suetônio, o imperador romano Nero (37-68AD) gostava de vestir-se com peles de animais e dilacerar os genitais de escravos amarrados. E o imperador Heliogábalo (204-222AD), conforme a Historia Augusta, tentou (entre muitas outras coisas) a auto-castração, gostava de se apresentar em shows de sexo ao vivo durante banquetes e escandalizou a sociedade romana ao estuprar uma Virgem Vestal.

Em vez de nos auto-reprimir, os teóricos argumentam que devemos celebrar o arco-íris completo da expressão erótica. Com esse espírito, uma recente pesquisa queer elevou Heliogábalo, de sua descrição clássica como um maníaco depravado – que nomeava ministros com base no tamanho do pênis – a um ícone transgênero.

Mas o debate não se refere apenas ao modo como lemos a história antiga. Ele também convida a questionamentos sobre os limites que hoje estabelecemos para a sexualidade. É necessário mesmo haver tabus? Na semana passada, Lauren Rowello argumentou que esses limites não são nem de longe liberais o suficiente. Não apenas os fetiches sexuais deveriam ser exibidos abertamente nas paradas do Orgulho, ela afirma, como também é importante que seus filhos os presenciem – porque as crianças devem ser ensinadas que “que todas as experiências alternativas de sexualidade e expressão são válidas”.

Normalizar a exibição pública de tendências pervertidas, argumentou ela, incentiva as crianças a perseguir seu próprio desejo e prazer: “Não falamos com nossos filhos o suficiente sobre buscar o sexo para satisfazer as necessidades carnais que nos encantam e cativam”.

A alternativa sombria para isso seria a antiquada “política da respeitabilidade” que costumava ser usada para oprimir homossesexuais. Essa visão é talvez melhor resumida pela atriz eduardiana Lady Patrick Campbell: “Realmente não importa o que essa gente faz – contanto que não façam isso nas ruas e assustem os cavalos!” Mas Rowello argumenta que o fato de os gays agora exigirem do resto das pessoas essa mesma “respeitabilidade” às ​​pessoas pervertidas significa que eles se aliaram [ao seu modo] às forças opressivas e burguesas da velha e enfadonha heteronormatividade.

Tendo Heliogábalo conseguido ultrapassar ou não os limites da opressão burguesa, a visão de Rowello das “necessidades carnais” como um fim em si mesmas data do início do Iluminismo. Notavelmente, devemos essas ideias ao Marquês de Sade (1740-1814), um igualitário [movimento precursor do anarquismo/comunismo], anticristão e defensor da liberdade absoluta, que serviu sob o regime revolucionário como “Cidadão Sade”. Sua prolífica obra literária entrelaça ataques ao Cristianismo e à moralidade convencional com reflexões filosóficas sobre a natureza da liberdade e descrições gráficas de sexo excêntrico.

Em outras palavras, ele era, de fato, um tipo muito moderno de liberal. Não é nenhuma surpresa encontrá-lo entre os primeiros defensores da liberação sexual. Como afirma um de seus personagens em Juliette (1797) “O sexo é tão importante quanto comer ou beber e devemos permitir que um apetite seja satisfeito com tão pouca restrição ou falsa modéstia quanto o outro”. Essa visão não fica muito distante da proposta de Rowello de “buscar o sexo para satisfazer as necessidades carnais que nos encantam e cativam”.

Mas de Sade também achava que as regras usuais de igualdade política, que ele abraçou com tanto entusiasmo como Cidadão Sade, não se aplicavam à sexualidade. Em Filosofia na Alcova (1795), ele escreveu que “todo homem quer ser um tirano quando fornica”. Ou seja, enterrado profundamente em cada cidadão livre e liberal está o desejo de dominar e ser obedecido, e essas pulsões são mais livremente expressas em um contexto sexual.

De Sade achava que a melhor maneira de conciliar liberdade e igualdade com esses instintos sexuais naturalmente violentos e dominadores era ter uma classe de mulheres cujo trabalho seria atuar como ‘aliviadoras’. Como observa o historiador Peter Marshall, ele defendia o estabelecimento de bordéis públicos gratuitos onde os homens pudessem saciar seus desejos sexuais e anseios de dominar – porque, em sua opinião, não satisfazer esses desejos resultaria em atos criminosos.

Hoje, é claro, não fazemos nada tão rude quanto obrigar as mulheres a agirem como unidades descartáveis para os desejos mais básicos dos homens. Ou, pelo menos, insistimos no ‘consentimento’. Ou seja, garantindo que a violência, o estupro e a humilhação ficcionais só aconteçam no mundo real com mulheres que gostam. A expressão para os praticantes do ‘BDSM’ é ‘seguro, sadio e consensual’.

Ouso dizer que há pessoas para as quais essa teoria faz sentido. Mas evidências estão se acumulando de que isso se sujeita às mesmas armadilhas que os muitos outros esforços que visam substituir as regras normativas pela escolha individual. Ou seja, a ideia pode funcionar se você for um adulto com alto nível de educação, bem ajustado e com muito capital social. Mas deixa aqueles que são impulsivos, emocionalmente carentes ou vulneráveis ​​em risco de abuso.

Uma pesquisa realizada no ano passado pela BBC Escócia relatou que dois terços dos homens com menos de 40 anos admitem que já bateram, cuspiram, amordaçaram ou sufocaram uma parceira durante o sexo. Talvez algumas mulheres tenham gostado, mas será que todas elas? Eu duvido. Talvez sem surpresa, um coro crescente (principalmente de mulheres jovens) têm reclamando que, para elas, “kink” acabou sendo menos uma troca mutuamente prazerosa do que um vetor de abuso.

A questão do “consentimento” é ainda mais complicada pelo fato de que normalizar “experiências alternativas de sexualidade e expressão” cria uma pressão social perversa para não ser “baunilha”. Até a revista Women’s Health sugeriu que suas leitoras experimentem a prática do enforcamento, no caso de as vendas nos olhos e as conversas picantes “se transformarem em baunilha”.

E aqui chegamos à dificuldade central em tentar libertar a expressão sexual humana das normas sociais: isso não funciona. O fato de que agora é constrangedor ter gostos “baunilha” sugere que normalizar o “kink” acabou não criando um espaço aberto para a auto-expressão livre e tolerante, mas uma inversão surreal da “política da respeitabilidade”, em que você fica envergonhado por não ser depravado o suficiente.

Pior ainda, essa respeitabilidade de ponta-cabeça não é nem mesmo o prometido nirvana do prazer. De Sade resumiu o problema em 120 Dias de Sodoma (1785): “Se é o elemento sujo que dá prazer ao ato de luxúria, então quanto mais sujo ele é, mais prazeroso deve ser.” Então, o que acontece quando as tendências “sujas” são tão normalizadas que as pessoas ficam ok com seus filhos vendo-as no ato sexual?

O resultado mais provável [da saturação erótica] é que, no geral, as pessoas em um certo momento vão parar de se sentir “safadinhas” [e se autonormalizar]. Isso ajuda a explicar a aura de descolamento da realidade que envolve o tipo de pessoa que gosta de ser “aberta” sobre seu “estilo de vida BDSM”. Mas também aponta para um problema estrutural com a ideia de normalizar o “kink”: é (como alguém disse uma vez do Brexit) menos um evento do que um processo.

Os oponentes da ciseteronormatividade argumentam que o objetivo final do Orgulho é ampliar o que é aceitável no mainstream, o que por sua vez significa rejeitar a “política da respeitabilidade”. Como Vox [magazine] coloca: “Queerness, em sua essência, é uma rejeição dessa respeitabilidade.”

Mas se você rejeita a política da respeitabilidade, você está rejeitando toda a estrutura de estigma social que confere frisson às práticas proibidas. Qual é, então, o sentido de tais práticas, quando a campanha para desestigmatizá-las tornou cenários antes sombrios e emocionantes tão exóticos e proibidos quanto uma ida ao Wal-Mart?

Podemos ter abraçado a ideia de que “vale tudo”, desde que seja seguro, sadio e consensual. Mas se a excitação do sexo está precisamente em sua proibição, então, mais cedo ou mais tarde, alguém virá atacar o tabu do consentimento em si – e especialmente violar o consentimento daqueles que não são considerados capazes de consentir em primeiro lugar: as crianças e animais.

Um constante toc-toc-toc nessa porta pode ser ouvido. Quando Tom Chivers recentemente refletiu aqui nestas páginas sobre por que temos nojo de pessoas que fazem sexo com animais, a confusão que se seguiu ilustra até que ponto esse assunto continua, felizmente, uma área proibida; embora no início deste ano Joanna Bourke tenha escrito um livro inteiro buscando questionar os tabus em torno da bestialidade.

Pelo mundo afora, a internet está cheia de gente esquisita que procura “complicar” os limites do consentimento sexual de menores. Isso também se estende à academia: Allyn Walker publicou recentemente um estudo simpático aos pedófilos não agressores.

Em outras palavras, a “ladeira escorregadia” dos costumes [a tendência da anormalidade gerar mais anormalidade] não é um bicho-papão criado pelos conservadores: é uma inevitabilidade estrutural. Fetiches sem “política de respeitabilidade” não têm um ponto final; ou melhor, seu ponto final está muito além da tolerância até mesmo de quem pratica chicotes e correntes como hobby.

A história sugere que não é realista imaginar que a depravação sexual possa algum dia ser eliminada. Os humanos são simplesmente perversos demais. Mas se não quisermos perseguir o ápice da transgressão sexual adentrando ainda mais no terreno do abuso sexual [e talvez desencadear uma reação puritana tão monumental que varrerá até ganhos moderados na tolerância sexual, como a aceitação de casais normais de gays e lésbicas], precisamos recuperar a ‘política da respeitabilidade’. Todos os lados ganham com isso. Afinal, é do interesse de quem gosta da transgressão restaurar a emoção do proibido. Isso significa, com efeito, uma defesa [com segundas intenções] da hipocrisia burguesa.

Aqueles que são inevitavelmente atraídos para o lado negro, de qualquer forma encontrarão o seu caminho até lá, no devido tempo. E aqueles que de outra forma não seriam sujeitos a tentações estão bem longe disso. Quem não é capaz de ser discreto não está mentalmente equipado para desfrutar da depravação – afinal, para gozar com o proibido significa que algo precisa ser proibido em primeiro lugar.

Escrito por Mary Harrington [texto publicado originalmente na revista online UnHerd, sob o título ‘Keep your kinks to yourself’]

Tradução e adaptação: Vox Leone

Sexta de Leão: Da Origem e Evolução do Maravilhoso Ânus

No início não havia nada. As extremidades traseiras de nossos ancestrais animais que nadavam nos mares centenas de milhões de anos atrás estavam em branco, lisas, relegando a entrada e saída de todos os alimentos a um único buraco multiuso. Ecos evolutivos dessas formas de vida ainda existem em corais, anêmonas-do-mar, águas-vivas e uma legião de vermes marinhos cujo trato digestivo assume a forma de um saco.

Anêmona do Mar – Imagem: iStock

Esses animais são muito estritos com suas refeições, alimentando-se de uma bola de cada vez e, em seguida, expulsando os restos pelo mesmo orifício. As entranhas dessas criaturas funcionam como estacionamentos, sujeitas a rígidas cotas de vagas que restringem o fluxo do tráfego.

O surgimento de uma porta dos fundos transformou esses estacionamentos em rodovias – as “entranhas” lineares que dominam o desenho dos corpos dos animais hoje. De repente, os animais podiam se dar ao luxo de engolir várias refeições sem a necessidade de se preocupar com o descarte entre elas; surgiram tratos digestivos alongados e regionalizados, dividindo-se em câmaras que podiam extrair diferentes nutrientes e hospedar suas próprias comunidades de micróbios.

A compartimentação tornou mais fácil para os animais aproveitarem melhor suas refeições. Com o alongamento e abertura do final do intestino, muitas criaturas cresceram em formas corporais cada vez maiores e começaram a se mover de novas maneiras (Seriam necessários vários outros éons para que as nádegas verdadeiras – os acessórios carnudos e gordurosos que flanqueiam o ânus de alguns animais – como os humanos, evoluíssem).

Como a porta dos fundos foi aberta

Não é muito claro como a porta dos fundos foi escavada. Tecidos macios, sem ossos, não são exatamente amigáveis ao registro fóssil, tornando difícil provar qualquer teoria. Uma das hipóteses mais antigas sustenta que o ânus e a boca se originaram da mesma abertura solitária, que se alongou, cedeu no centro e se partiu em duas. O ânus recém-formado então se moveu lentamente para a parte posterior do animal. Claus Nielsen, biólogo evolutivo do Museu de História Natural da Dinamarca, é um fã dessa teoria; ela é razoavelmente parcimoniosa e evolutivamente equitativa: neste cenário, tecnicamente nem a boca nem o ânus surgiram primeiro; eles surgiram como gêmeos univitelíneos.

Outros, como Andreas Hejnol, defendem uma ideia diferente, em que a boca formalmente precede o ânus, que surge espontaneamente na outra extremidade do corpo. “É um avanço secundário”, disse Hejnol. “Primeiro o intestino se forma, e então faz uma conexão com o mundo exterior.” Abrir um buraco extra no corpo não é tão difícil: alguns vermes conseguiram esse feito evolutivo dezenas de vezes.

Hejnol e seus colegas ainda estão reunindo apoio para sua hipótese, mas afirmam que já há alguns argumentos contra a ideia de divisão de buracos: os animais não expressam os mesmos genes em torno da boca e do ânus, o que vai contra a noção de que as duas aberturas são cortadas do mesmo tecido evolutivo.

Se essa hipótese se provar correta, porém, não encerrará necessariamente o caso da origem evolutiva do ânus. Muitos estudiosos acham que o ânus foi uma inovação tão útil que os animais o desenvolveram independentemente pelo menos meia dúzia de vezes, talvez muitas mais, não necessariamente da mesma maneira. Essa linha de tempo tem ainda outras ramificações: algumas criaturas perderam sua abertura anal – e algumas podem ter adquirido as delas ainda mais para trás na história.

Ctenóforos e a Cloaca

Uma das maiores pregas na narrativa do ânus liso assume a forma da comb-jelly [gênero Ctenófora] – um animal gelatinoso que vagamente se assemelha a um capacete de Darth Vader translúcido. Acredita-se que a espécie tenha pelo menos 700 milhões de anos de idade. Já em 1800, os cientistas se intrigavam com a parte de trás das ctenophoras e se perguntavam se elas estavam excretando fezes a partir do que viam como um conjunto de poros de aparência estranha. Mais de um século se passou antes que seus atos de defecação fossem finalmente capturados pelas câmeras, pelo biólogo William Browne, da Universidade de Miami, e seus colegas, que filmaram uma dessas criaturas amorfas fazendo um grande monte em um laboratório. Se ctnóforas estavam fazendo cocô, aquele cocô devia estar saindo de algum tipo de buraco traseiro. Talvez, alguns disseram, a história do ânus fosse muito mais profunda no tempo do que muitos pensavam.

Comb-Jelly, uma ctenofora – Imagem: iStock

Nos meses após a equipe de Browne publicar suas descobertas, os cientistas discutiram repetidamente sobre sua importância. Alguns saudaram a descoberta como revolucionária. Mas outros, Hejnol entre eles, argumentaram que o embaraçoso vídeo afinal não significava tanta mudança dogmática assim. Provavelmente as ctenóforas evoluíram seus ânus independentemente de outros animais e chegaram a um desenho semelhante por acaso; não há como dizer quando exatamente isso pode ter ocorrido. Tal cenário deixaria a cronologia de nosso próprio ânus intacta – por ter emergido de uma linha diferente de criaturas, em um ponto separado no tempo.

Alguns dos back-ends mais intrigantes são os análogos multitarefas do ânus chamados cloaca, que mescla as partes terminais dos tratos digestivo, urinário e reprodutivo em uma única abertura – essencialmente um foyer de evacuação para fezes, urina, ovos e espermatozóides. Pode ser até que eles representem a ponte evolutiva entre os tratos reprodutivo e digestivo que levou a alguns dos primeiros ânus.

Mesmo assim, as cloacas trazem riscos: todos os resíduos digestivos ficam praticamente em contato direto com a genitália; basicamente uma infecção maligna esperando para acontecer. Qualquer rebento vivo que passe pelo trato reprodutivo será ameaçado pela proximidade de patógenos transmitidos por cocô. Talvez seja por isso que os ânus humanos se rebelaram e se aventuraram por conta própria.

Seja qual for a razão por trás disso, a mutação que acabou com a cloaca tornou os ânus humanos “completamente entediantes”. No que toca os orifícios de saída dos animais, os nossos são totalmente padrão, capazes de pouco mais do que expulsar resíduos do intestino, sem maiores frescuras.

Gluteus Maximus

A única qualidade redentora do monótono orifício posterior dos humanos é a característica que desenvolvemos para amortecê-lo: nossas nádegas infames, as mais volumosas documentadas até agora, graças à nossa tendência bizarra de andar por aí em nossas duas pernas de primatas. Esse padrão de locomoção remodelou a pelve, que por sua vez reorientou nossos músculos. O glúteo máximo – o músculo robusto que impulsiona nossa habilidade de correr e escalar – inchou em sincronia e se cobriu com uma camada aconchegante de gordura que alguns cientistas acham que também sirva como reserva de energia. Ânus à parte, nossas nádegas são a verdadeira inovação.

A evolução explodiu o traseiro humano fora de proporção; nossas normas culturais rapidamente seguiram o exemplo. Nós contemplamos os traseiros uns dos outros com luxúria, às vezes nojo e/ou fascinação culpada. Nós os tatuamos, nós os esculpimos; nós os sexualizamos. Nós fazemos sambas, raps e funks sobre eles, com abandono. Os traseiros, em troca, tornam para nós muito mais fácil correr – mas muito mais difícil manter o ânus limpo.

Peixe-pérola – Imagem: iStock

Talvez isso seja parte da razão pela qual os humanos têm tanta vergonha de seus traseiros. Nós até optamos por “bunda” como um eufemismo para ânus em uma conversa casual. As nádegas não são o ânus, mas o cobrem, física e talvez figurativamente. Elas obscurecem a visão, e portanto a percepção de que, desde o início, nossa extremidade digestiva sempre foi uma maravilha. Ela abriu o caminho evolutivo de nossos ancestrais e tornou nossa própria existência possível.

Nosso ânus é uma ovelha vestida com uma roupa de lobo fabulosa, e simplesmente não conseguimos lidar com isso [I’m so sexy it hurts!]. Talvez seja a hora de sermos sensatos fazer como o peixe-pérola, que vive confortável ​​com o que tem entre as bochechas.


Post Scriptum:

Este texto é baseado em um trabalho original de Katherine J. Wu, publicado na revista americana The Atlantic, sob o título “The Body’s Most Embarrassing Organ Is an Evolutionary Marvel” [“O Órgão Mais Embaraçoso do Corpo É uma Maravilha Evolutiva”]. É um texto delicioso. Wu consegue abordar um tema científico [e filosoficamente espinhoso – A Teoria da Evolução!] apresentando-o de forma leve, cheia de trocadilhos e tiradas de duplo sentido. Aposto que você leu com um sorriso nos lábios. Se o fez, meu objetivo foi atingido. Eu não podia privar o povo brasileiro e lusófono deste meu achado literário. Tenho trabalhado nele desde que foi publicado, em maio. Francamente eu esperava que, no país do ‘bum-bum’, algum jornal da grande mídia o publicasse. Parece que me enganei. Unilateralmente eu o adaptei [em tamanho reduzido] para a cadência brasileira e lusófona e estou a publicá-lo como se Creative Commons fosse. Meus motivos são razoáveis:

  1. Os povos brasileiro, angolano, moçambicano, e em grande medida também o português, precisam [quase todos desesperadamente] de literatura científica, e neste período histórico o povo brasileiro precisa também de leveza. É muito bom quando a ciência encontra a leveza. Não há veículo melhor para comunicar ciência ao povo brasileiro do que a espirituosidade.
  2. Meu site não tem (ainda) fins lucrativos – embora os custos de operação não sejam desprezíveis. Ademais, meu próprio conteúdo é distribuído sob licença Creative Commons. Meu interesse primário genuíno é a divulgação da ciência e da tecnologia da informação [mas é claro que sei que isso também faz muito bem ao meu CV].

Acho que posso ser perdoado.

Semana Dura no Home Office

Semana correndo em um turbilhão de compromissos. Estou finalizando um projeto acadêmico e isso tem consumido todas as minhas horas nos últimos dias. Hoje mesmo tenho duas provas à tarde, mais duas amanhã e mais uma na segunda. Essa maratona acabou tendo impacto na atividade – e na interatividade – do site. Espero que pela primeira e última vez; este site é agora parte integral da minha rotina.

Eu havia prometido para hoje meu post de agradecimento pela indicação ao “Outstanding Blogger Award” [adorei isso :)] – uma verdadeira tradição na comunidade WordPress – mas terei que adiar, pois ainda não tive como terminar as avaliações das minhas indicações. Está sendo um post muito divertido de escrever. Será prazeroso compartilhar.

Por tudo isso, então, vou precisar interromper os posts até segunda-feira (31). Semana que vem, se tudo der certo, terei um horizonte livre pela frente, e a verdadeira diversão pode então começar.

Paralelamente, preciso saber se o volume de conteúdo está adequado. O post de ontem (27) foi muito ruim, e foi instigado pela ânsia de gerar estatísticas. Essa não deve ser a motivação primeira quando se faz um blog. Ele deve ser um fruto livre da razão. Deve ser um trabalho diário, quase monástico, feito com dedicação e paciência, com os olhos do espírito nas pessoas reais que estão do outro lado. Mea culpa. Preciso acertar o tom.

Talvez eu esteja forçando demais a barra postando com uma frequência muito alta. Isso não é bom para ninguém, pois muito conteúdo de qualidade, no qual se investe muito esforço, talvez esteja sendo desperdiçado sem necessidade. Eu daria um dólar de prata para saber. Se alguém tiver sugestões, sou todo ouvidos.

Deseje-me sorte em minhas tribulações. Recomendações a todos.

Não é Um Bom Dia para os Resistentes à Mudança

Tenho o prazer de anunciar que, devido ao nosso notável sucesso nos últimos dois meses (ok, sempre otimista), estamos mudando!

Começamos em março com o propósito firme de postar todos os dias [ou pelos menos a cada dois dias] assuntos de interesse para a ciência e tecnologia (e alguma arte) em geral. Estamos nos esforçando para conseguir.

A partir de hoje vamos mudar o nome e o domínio de nosso site, que agora passa a se chamar Vox Leone [refletindo o nome de nosso escritório de desenvolvimento/consultoria], no domínio voxleone.com. Bravo Marques, este que vos escreve, passa a ser o editor, principal colaborador, além de administrador e Senhor Supremo. Outros autores estão sendo convidados, e espero estar construindo um espaço digno deles. Estendo também o convite aos queridos bloguistas que me seguem [no que são retribuídos] no WordPress.

Com o blog já encaminhado, aos poucos iremos introduzir novos conteúdos e seções. No final do processo, espero ter toda minha estrutura de front-end, com meu público e meus clientes neste espaço.

Obrigado aos meus/minhas amigos/amigas e clientes, sempre no apoio, aos prezados WordPressers, que acolheram meus escritos na primeira hora, e a todos que me honram com sua atenção.

Envio meus melhores pensamentos a todos, e lhes desejo saúde e paz. Nossa jornada está apenas começando.

* * *

E como já sextou, beberei a isto hoje! Oh, Yeah. 🙂