COP27: 3 coisas que um cientista do clima quer que os líderes mundiais saibam

Por Andrew KingThe Conversation

Icebergs no oceano próximo a um vale. A elevação do nível do mar devido ao derretimento da calota de gelo da Groenlândia é agora considerada inevitável. Foto AP/Mstyslav Chernov, Arquivo

Líderes mundiais e especialistas em clima estão se reunindo para conversas cruciais sobre mudanças climáticas patrocinadas pelas Nações Unidas no Egito. Conhecida como COP27, a conferência vai ter como objetivo colocar a Terra no caminho para alcançar emissões líquidas zero e manter o aquecimento global bem abaixo de 2℃ neste século.

O mundo precisa se descarbonizar rapidamente para evitar os efeitos mais danosos das mudanças climáticas. Os líderes mundiais sabem disso. Mas esse conhecimento tem que se transformar urgentemente em compromissos e planos concretos.

Se a humanidade continuar em seu caminho atual, deixaremos um mundo mais quente e mortal para as crianças de hoje e todas as gerações futuras.

A Terra precisa desesperadamente da COP27 para ter sucesso. Sou cientista do clima e acredito que os líderes mundiais deveriam ter três coisas em mente antes da conferência.

1. Nosso planeta está inegavelmente em crise

Até agora, a Terra aqueceu pouco mais de 1℃ em relação aos níveis pré-industriais, o que significa que já danificamos o sistema climático. Nossas emissões de gases de efeito estufa já fizeram com que o nível do mar subisse, o gelo do mar encolhesse e o oceano se tornasse mais ácido.

Eventos extremos nos últimos anos – particularmente ondas de calor – têm as impressões digitais das mudanças climáticas em todos eles. O calor recorde no oeste da América do Norte em 2021 viu grandes incêndios florestais e sobrecarga da infraestrutura. E no início deste ano, as temperaturas no Reino Unido atingiram 40℃ mortais pela primeira vez no registro histórico.

O oceano também sofreu uma sucessão de ondas de calor marinhas que branquearam os recifes de coral e reduziram a diversidade de espécies que eles hospedam. As ondas de calor vão piorar enquanto continuarmos a aquecer o planeta.

Assustadoramente, corremos o risco de levar o clima a um novo e perigoso regime, trazendo consequências ainda piores. Pesquisas publicadas em setembro reportam que estamos à beira de passar por cinco grandes “pontos de inflexão” climáticos, como o colapso da camada de gelo da Groenlândia. Passar por esses pontos irá travar o planeta em ciclos contínuos de danos ao clima, mesmo que todas as emissões de gases de efeito estufa cessem.

A saúde humana também está em jogo. Pesquisas realizadas no mês passado revelaram que a crise climática está prejudicando a saúde pública por meio, por exemplo, da maior disseminação de doenças infecciosas, poluição do ar e escassez de alimentos.

Entre suas descobertas preocupantes, as mortes relacionadas ao calor em bebês com menos de um ano e adultos com mais de 65 anos aumentaram 68% em 2017-2021, em comparação com 2000-2004.

As gerações futuras não podem se dar ao luxo de hesitar em ações para reduzir as emissões.

2. A redução das emissões está muito lenta

Alguns países, particularmente na Europa, estão conseguindo reduzir as emissões de gases de efeito estufa por meio da transição para energia renovável.

Mas globalmente isso não está acontecendo rápido o suficiente. Um relatório da ONU esta semana descobriu que mesmo se as nações cumprirem suas metas de ação climática para 2030, a Terra ainda continuará a aquecer cerca de 2,5 ℃ neste século – superando a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global bem abaixo de 2 ℃.

Esse aquecimento seria desastroso, especialmente nas partes mais pobres do mundo que pouco contribuíram para as emissões globais.

Por décadas, o mundo tem falado em reduzir as emissões de dióxido de carbono. Mas as emissões globais anuais aumentaram mais de 50% durante minha vida, e desde a primeira COP em 1992. A ONU adverte que ainda não há “caminho confiável” para limitar o aquecimento a 1,5 ℃.

Até chegarmos perto de emissões líquidas zero, a quantidade de CO₂ em nossa atmosfera vai aumentar e o planeta ficará mais quente. No ritmo atual, estamos aquecendo o planeta em cerca de 0,2 ℃ a cada década.

As emissões globais de dióxido de carbono permanecem próximas de recordes e quase quadruplicaram desde 1960. Global Carbon Project

3. O imobilismo precisa acabar

Com tantos desafios que o mundo enfrenta, incluindo a invasão russa da Ucrânia e a crise do custo de vida, pode ser tentador ver as mudanças climáticas como um problema que pode esperar. Esta seria uma ideia terrível.

A mudança climática só vai piorar. Cada ano de atraso torna muito mais difícil impedir que as projeções climáticas mais perigosas se tornem realidade.

Somente esforços conjuntos de todas as nações evitarão a destruição de nossos ecossistemas mais sensíveis, como os recifes de coral. Devemos fazer tudo o que pudermos para impedir isso, abandonando os combustíveis fósseis. Qualquer novo desenvolvimento de combustível fóssil vai apenas piorar o problema e custará muito mais à humanidade e ao meio ambiente no futuro.

E, no entanto, a Agência Internacional de Energia projetou na semana passada que a receita líquida dos produtores de petróleo e gás dobrará em 2022 “para US$ 4 trilhões sem precedentes”, um ganho inesperado de US$ 2 trilhões.

Não podemos, como disse a ativista climática Greta Thunberg, apenas ter mais “blá, blá, blá” dos líderes mundiais na COP27 – precisamos de ações concretas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

E agora?

A COP27 precisa levar a uma rápida transição para longe dos combustíveis fósseis, incluindo banir novos desenvolvimentos na área de combustíveis fósseis, e mais apoio aos países que lidam com os maiores impactos das mudanças climáticas. Temos que estar em um caminho confiável para alcançar emissões líquidas globais zero nas próximas poucas décadas.

A falta de progresso nas negociações climáticas globais anteriores significa que não estou otimista que a COP27 alcançará o que é necessário. Mas espero que os líderes mundiais provem que estou errado e não decepcionem suas nações.


*VL: Nossa modestíssima contribuição para o exito dessa importante iniciativa. Texto reproduzido sob licença Creative Commons CC BY-SA

Stable Diffusion: Variações Sobre um Leão

Uma postagem visual para suavizar o mais vital de todos os fins de semana da história brasileira. Minha exploração da arte digital baseada em Difusão Latente continua.

Meu pequeno logotipo é uma linda obra de arte, que chegou às minhas mãos na adolescência e que tenho até hoje. É uma charge de jornal – estrangeiro – do início do século 19, cujo o autor eu ainda não identifiquei, mas sigo procurando.

A arte, sobre a qual ainda falarei mais, mostra um leão exibindo seu perfil direito, em atitude heráldica “couchant”, habilidosamente inscrito no contorno da América do Sul. Um autêntico achado geométrico. É uma imagem evocativa de um Brasil grande e forte, estendendo seu olhar sobre o Atlântico sul.

É uma imagem que resume as aspirações da nação quando eu era jovem. É também uma imagem austera, que se pretende heráldica ao invés de fruto de design; vai contra o pós modernismo vigente, mas aqui no blog essa é exatamente a ideia.

Este blog existe por causa desta imagem; foi olhando para ela em pensamento profundo que me inspirei. “A voz do leão”, para tentar falar de tecnologia e ciência para a lusofonia, com um ‘modicum’ de profundidade – sem dar muita bola para o estilo superficial preferido nas redes sociais — como as pessoas fazem nos centros avançados do mundo. O Brasil é o Leão.

Eu quis fazer variações para poder usar a imagem em outros contextos que exijam um ‘look’ mais contemporâneo — com resultados medianamente animadores. Lancei mão da Stable Diffusion e, abusando da engenharia de prompt, passei algumas horas agradáveis tentando fazer arte. Aproveitei para usar o gadget ‘galeria de slides’ do WordPress pela primeira vez.


Não sei se verei esse Brasil grande, que faz tecnologia, que lança foguetes e satélites e junta à elite material do mundo. Se depender da classe política que aí está eu duvido muito que cheguemos lá. Foi sob a batuta do Ministro da Tecnologia, um aviador e astronauta formado por um instituto de tecnologia, que eu testemunhei o maior [talvez o único] desmonte deliberado de políticas tecnológicas do estado brasileiro em toda história [a começar do programa espacial, que se encontra desativado desde 2003].

Que o Brasil possa se reencontrar a partir das eleições de amanhã. Boa sorte a todos.

Stable Confusion: Algo Sobre o Photoshop

Quando você cria algo no Photoshop é provável que você nunca tenha pensado muito sobre a origem das cores digitais que você usa. Igualmente, talvez você nunca tenha se perguntado se alguém pode “possuir” uma determinada cor.

pantone
Imagem: Pexels.com

Mas muitos usuários logo vão começar a dar atenção a essas coisas, pois suas coleções de arquivos PSD está prestes a ficar cheias de tons de cinza esquisitos, devido a mudanças de licenciamento entre a Adobe e a Pantone.

A partir de agora, aplicativos populares da Adobe, como Photoshop, Illustrator e InDesign, não vão mais suportar gratuitamente as cores da Pantone, e aqueles usuários que precisam que essas cores apareçam em seus arquivos já salvos precisarão pagar por uma licença separada. Bem vindo ao mundo do software proprietário.

A remoção das cores da Pantone do software da Adobe deveria ter acontecido em 31 de março deste ano, mas essa data chegou, passou e nada aconteceu. A data foi mudada para 16 de agosto, e depois 31 de agosto. No entanto, apenas agora as pessoas estão percebendo os efeitos da decisão, relatando problemas com criações que usam as cores exatas da Pantone. A solução oferecidoa é um plug-in da Adobe para “minimizar a interrupção do fluxo de trabalho e fornecer as bibliotecas atualizadas aos usuários da Adobe Creative Cloud”. O que, é claro, custa US$ 15 por mês. É como a Netflix, só que para colorir!

No entanto, a Pantone ainda afirma – em seu FAQ desatualizado – que “Esta atualização terá um impacto mínimo no fluxo de trabalho do designer. Arquivos e documentos da Creative Cloud contendo referências de cores Pantone manterão as identidades e informações de cores”. Muitos usuários relatam que seu Photoshop agora informa: “Este arquivo tem cores Pantone que foram removidas e substituídas por preto devido a alterações no licenciamento da Pantone com a Adobe”. Outros relataram que o problema não está sendo resolvido mesmo anexando uma licença Pantone no Photoshop.”

Uma dica sugerida pela Print Week é fazer backup de suas bibliotecas Pantone e reimportá-las quando o software Adobe atualizar para removê-las. “Há uma boa chance de que isso funcione, já que as cores do Pantone são armazenadas como arquivos .ACB, assim como todas as cores do Photoshop.”

“Ou, sabe como é, você pode simplesmente copiar os valores de metadados do intervalo Pantone.”

A Síndrome de Leonardo

Na blogosfera esta semana encontro um interessante post de onde tirei o título deste artigo. O tema de fundo é a procrastinação, algo com que a grande maioria das pessoas pode se identificar.

Vitruvian Man - arte
Imagem: Pexels

O post ao qual me refiro faz comentário sobre o livro de Peter Burke, The polymath: a cultural history from Leonardo da Vinci to Susan Sontag. Em uma passagem da obra o autor sustenta a tese, já defendida por outros, de que as aventuras criativas de Leonardo Da Vinci foram na verdade fracassos.

Exemplos de seus fracassos incluiriam não ter sucesso na quadratura do círculo [o que é geometricamente impossível], e em vários projetos de engenharia que não funcionaram – como uma besta gigante e uma máquina voadora; ter mal-entendido vários aspectos do coração; ter feito desenhos com tintas experimentais que resultaram em lenta degradação de algumas de suas pinturas.

Mesmo sua primeira encomenda registrada como pintor independente – um retábulo para a Capela de São Bernardo em 1478 – ele não conseguiu concluir, apesar de receber um adiantamento em dinheiro de 25 florins para isso. Muitos de seus contemporâneos registraram que ele não cumpria os prazos ou nem mesmo terminava projetos — como nunca ter terminou uma estátua equestre encomendada por Francesco Sforza.

O ensaio continua a explicar como o pensamento e o trabalho de Leonardo estavam fora das disciplinas da época (e sua abordagem ainda está fora de muitas que são ensinadas hoje), embora isso fosse uma desvantagem para sua carreira na época. Leonardo não era o “profissional sério”. Ele pegava algumas ideias e brincava com elas.

Um sentimento familiar

A esta altura começo a suspeitar que a Síndrome de Leonardo é a responsável pelas minhas longas noites. Com a Internet sendo tão vasta, há inúmeras coisas para experimentar e hackear [no sentido de ‘desmontar para conhecer o funcionamento’], e tenho inúmeros projetos inacabados guardados em meus discos rígidos [na verdade uso SSD’s]. Não sou um acumulador no sentido típico de guardar jornais velhos para a posteridade – e de fato sou um minimalista. Mas quando se trata da minha vida digital, é difícil resistir à facilidade de poder guardar montanhas de ‘jornais’ em forma de bits.

Leonardo ficaria paralisado pela web moderna. De certa forma sou como um renascentista, reunindo em meus escaninhos pequenos trechos de código que um dia podem ser úteis. Meus “favoritos” estão transbordando de URLs interessantes que pretendo revisitar algum dia. Eu sou um acumulador digital que procrastina muito em certos períodos. Não sei se preciso tomar providências para mudar, ou se isso é uma resposta natural à vastidão da web e a única maneira sensata de abordá-la.

Terminar o serviço é uma verdadeira dor

Em algum momento do projeto, chegamos à parte em que as coisas divertidas já foram feitas. Já aprendemos praticamente tudo o que foi possível com o exercício, e o trabalho está “90%” acabado.

Esses últimos 10%, no entanto, são uma ladeira íngreme, e muitas, muitas pessoas simplesmente acabam por abandonar o projeto nessa fase. Em muitos casos não há problema, se o objetivo principal era aprender e realmente não há “tração de mercado” suficiente para justificar a conclusão do projeto.

Se houver um requisito formal para concluí-lo (como, digamos, um contrato, com sua assinatura), é claro que os 10% precisam ser concluídos, não importa quão chato isso seja.

Há até uma piada no meio: “90% do projeto é concluído em 10% do tempo. 10% do projeto é concluído em 90% do tempo.” Já notou como, quando um novo prédio está sendo construído na vizinhança ele parece ficar “completo” em um tempo surpreendentemente curto? Contudo, quase sempre esse momento está apenas na metade do tempo da construção, e 100% do tempo tomado pelo projeto até aqui deverá se repetir antes que as portas se abram.

Isso porque fazer o exterior e a estrutura é simples e pode ser feito por praticamente qualquer pessoa. Alvenaria, janelas, portas, telhados, etc., são habilidades importantes, mas não extremamente especializadas.

O interior, porém, requer muita habilidade. Você não pode simplesmente trazer um martelador meia-colher. Você precisa de carpinteiros e marceneiros experientes e pintores bem remunerados. Essas pessoas são mais difíceis de agendar e não costumam apressar o trabalho. O resultado do trabalho deles é o que as pessoas verão de perto, todos os dias, então precisa de muito polimento e tem que ser robusto.

O mesmo com qualquer produto

No momento(*) estou escrevendo uma interface para padronizar a entrada de ‘prompts’ e parâmetros em plataformas como ‘Stable Diffusion’. Provavelmente o trabalho já estava 90% completo na semana passada, mas acontece que estabeleci um roteiro de teste bastante robusto para ele, e não consigo parar de testar. Estou encontrando bugs em minha implementação (sempre encontro), e estou corrigindo-os à medida que avanço. Também, como sói acontecer, estou sempre a encontrar “pequenas coisas” que esqueci de implementar.

Assim que eu tiver tudo funcionando para minha satisfação – e se achar que é de interesse geral, detalharei neste espaço.

(*)Muitas coisas chatas, mas isso significa que não preciso me preocupar com comunicação e marketing, muito críticos (e arriscados), que deixo aos parceiros mais habilitados.

De volta a Leonardo

Eu entendo o ponto do autor do citado blog, bem como o do formulador original da crítica, Peter Burke, talvez porque, como eles, eu também não acredite no mito do Superdotado Sobrenatural. A inteligência no fundo é um artefato cultural e precisa ser associada a outros atributos para levar ao sucesso. Ninguém, mesmo os gênios, tem uma visão privilegiada do Todo. Toda ciência e técnica é fruto de trabalho árduo.

Mesmo assim, os argumentos dos detratores são bastante injustos. Em favor de Leonardo, eu devo dizer ele tirava ideias de qualquer lugar – mas não apenas ideias que estavam no “cânone” de uma disciplina, e isso por si só é um portento admirável. Sobre fazer experimentos com tintas também não considero uma falha de caráter, pelo contrário. É, na verdade, um experimento que eu chamaria de audacioso – e de longo prazo. Sobre entender mal vários aspectos do coração, ele descobriu/teorizou como a válvula aórtica e seus folhetos funcionavam de uma forma que se mostrou correta – embora ele estivesse errado sobre a circulação sanguínea em geral.

Mona Lisa – obra inacabada

Não sei. Ele trabalhou nela por quatro anos, levando-a para todos os lugares onde ia para não ter que parar, e se ela estiver realmente inacabada pode ser simplesmente porque a mão direita do mestre estava começando a paralisar. Há mais a ser dito sobre o perfeccionismo na Mona Lisa do que a síndrome de Leonardo.

Leonardo definitivamente começou muito mais do que ele podia terminar (decepcionando muitos clientes, por certo), e tinha um certo auto engrandecimento em relação ao que ele dizia que podia fazer, mas os registros dos fatos não são muito precisos.

No fim de tudo, ele é lembrado porque, na verdade, tinha um conjunto muito grande de ideias detalhadas, desenhos, planos e realizações. A maioria de nós adoraria ter criado uma obra de arte tão inacabada quanto a Mona Lisa.


Leitura adicional recomendada

Burke, P. (2021) The polymath: a cultural history from Leonardo da Vinci to Susan Sontag. First published in paperback. New Haven London: Yale University Press.

A Colisão do Crescimento*

Será a modernidade compatível com os limites do planeta?

Em termos simples, as pessoas querem (e são encorajadas a querer) bens e serviços além de suas necessidades básicas, e os mercados ficam felizes em atender.

Imagem: pexels.com

Uma receita comum para os países alcançarem altos padrões de vida tem sido a combinação de democracia e capitalismo. Na maioria das vezes, as pessoas votam em políticas que prometem melhorar suas circunstâncias, e as corporações tomam decisões visando maximizar os lucros/crescimento. Políticos e financistas comemoram números de crescimento forte (resmungando apenas quando um mercado superaquecido pode sinalizar inflação descontrolada), enquanto lamentam trimestres fracos e praticamente entram em pânico com a perspectiva de um período recessivo.

Hoje, o sistema econômico capitalista financeirizado que domina a atividade humana baseia-se no crescimento econômico constante e na expectativa de um futuro maior, testemunhado em taxas de juros, empréstimos, investimentos, dívidas públicas e privadas maciças e o papel descomunal do sistema bancário. O crescimento é considerado um bem tão indiscutível que o Objetivo nº 8 de Desenvolvimento Sustentável em 2015, da ONU, na verdade exige taxas de crescimento de 7% nos países menos desenvolvidos. Embora esse número seja um alvo a ser alcançado para a diminuição da distribuição desigual da riqueza entre as nações, como sempre a meta ainda é baseada na velha economia movida a combustíveis fósseis.

Imagem: Vox Leone via DreamStudio AI

A contradição embutida no sistema não cede. O crescimento, tanto material quanto econômico, simplesmente não pode continuar indefinidamente em um planeta finito. Economistas – baseados apenas em um curto período de evidência empírica – argumentam que a substituição e a dissociação [não encontro referências em português] são mecanismos que podem permitir um crescimento indefinido, se utilizados. Muitos exemplos do passado reforçam tais argumentos.

Contudo, a evidência que temos não sustenta a ideia de que o funcionamento básico da economia moderna pode acontecer sem um fluxo maciço de material e energia. Na prática, os ganhos de eficiência são amplamente zerados por qualquer crescimento adicional. Lembre-se de que todos os exemplos de progressos passados da era industrial ocorreram no contexto da exploração insustentável de recursos finitos. O futuro não precisa se parecer com o passado recente – na verdade, impactos irreversíveis acumulados significam que ele já não pode mais parecer.

Considere a história do uso de energia nos Estados Unidos nos últimos duzentos anos. A tendência segue de perto uma taxa de crescimento constante de aproximadamente 2,4% ao ano para todo este período, correspondendo convenientemente a um aumento de aproximadamente um fator de 10 a cada século. Aplicando essa taxa à taxa de produção de energia global de hoje – de 18 TW – sugere que o uso de energia da humanidade excederia a produção de todo o Sol em 1300 anos e todas as 100 bilhões de estrelas na Via Láctea em 2400 anos. Continuar com esse crescimento anual de produção de energia claramente não é possível por muito tempo em escalas de tempo relevantes para a civilização.

Pensando de outra forma, os processos de energia na Terra produzem calor que deve ser irradiado para o espaço – o único canal de resfriamento significativo. Não importa qual seja a tecnologia – mesmo permitindo recursos energéticos hipotéticos e não descobertos – a Lei de Stefan-Boltzmann na física prescreve a temperatura de equilíbrio da superfície do planeta em função da energia produzida.

Com um aumento anual contínuo de 2,4% na produção de energia, a superfície da Terra atinge temperaturas de ebulição em cerca de 400 anos e atinge a temperatura da superfície do Sol em 1000 anos. Esses números – que superam o efeito do aquecimento global impulsionado pelo CO2 – são claramente absurdos, acabando com qualquer noção de que o crescimento de energia experimentado nas últimas centenas de anos possa continuar em ritmo acelerado por outras centenas.

Imagem: Vox Leone via DreamStudio AI

Mas por que a cessação do crescimento do consumo de energia deveria significar o fim do crescimento econômico? Afinal, nem toda atividade econômica é intensiva em energia (a ideia de dissociação, como observado acima). Mas algumas atividades sempre consumirão muita energia: água fervente e outras tarefas térmicas; fertilização e colheita de alimentos; processos de fundição de alumínio e outros materiais; e transporte de pessoas e mercadorias.

Muitos deles são itens básicos não negociáveis da atividade humana e serão limitados em escala máxima pelos fatos elencados nos últimos três parágrafos. Por sua vez, a fração da economia “dissociada” – bens/serviços de valor intangível ou estético, por exemplo – deve permanecer modesta, para que os elementos essenciais de sobrevivência não sejam relegados a uma fração insignificante (portanto arbitrariamente barata) do cenário econômico

A cultura humana – os valores, crenças e atitudes das pessoas – está complexamente entrelaçada nessas transições impulsionadas pela energia.


(*) Esta é a minha tradução da Parte 4 – The Growth Collision – do espetacular artigo Modernity is incompatible with planetary limits: Developing a PLAN for the future (Novembro, 2021), que trago aqui invocando “fair use”, e que pode ser lido na íntegra [em inglês] neste link permanente:

https://doi.org/10.1016/j.erss.2021.102239


Segundo depreendo da leitura do artigo, mesmo com o uso de tecnologias limpas o planeta se aqueceria em resposta às atividades humanas, como decorrência natural da citada lei de Stefan-Boltzmann, e apenas ela. Para que haja equilíbrio o calor gerado pela energia produzida deve escapar para o espaço na totalidade. A simples presença de uma atmosfera já garante a retenção do calor que deveria ser irradiado, levando inevitavelmente a um aquecimento global. As leis da física não oferecem solução para o nosso tipo de progresso.

O que os autores propõem, aparentemente, não é nada menos do que um sistema econômico energeticamente vegetativo, sustentando uma população humana pelo menos uma ordem de grandeza (10x) menor do que a que hoje vaga pelo planeta (8 bilhões). As implicações desse argumento — a total renúncia à tecnologia de massa, e, consequentemente ao nosso estilo de vida (iluminismo, democracia, capitalismo) é devastadora e não pode ser esgotada em um simples post de blog.

Eu gostaria de ver um debate substantivo sobre este tema em nossa língua mãe. Esta é uma pequena contribuição. Seguirei a inquirir.