A Colisão do Crescimento*

Será a modernidade compatível com os limites do planeta?

Em termos simples, as pessoas querem (e são encorajadas a querer) bens e serviços além de suas necessidades básicas, e os mercados ficam felizes em atender.

Imagem: pexels.com

Uma receita comum para os países alcançarem altos padrões de vida tem sido a combinação de democracia e capitalismo. Na maioria das vezes, as pessoas votam em políticas que prometem melhorar suas circunstâncias, e as corporações tomam decisões visando maximizar os lucros/crescimento. Políticos e financistas comemoram números de crescimento forte (resmungando apenas quando um mercado superaquecido pode sinalizar inflação descontrolada), enquanto lamentam trimestres fracos e praticamente entram em pânico com a perspectiva de um período recessivo.

Hoje, o sistema econômico capitalista financeirizado que domina a atividade humana baseia-se no crescimento econômico constante e na expectativa de um futuro maior, testemunhado em taxas de juros, empréstimos, investimentos, dívidas públicas e privadas maciças e o papel descomunal do sistema bancário. O crescimento é considerado um bem tão indiscutível que o Objetivo nº 8 de Desenvolvimento Sustentável em 2015, da ONU, na verdade exige taxas de crescimento de 7% nos países menos desenvolvidos. Embora esse número seja um alvo a ser alcançado para a diminuição da distribuição desigual da riqueza entre as nações, como sempre a meta ainda é baseada na velha economia movida a combustíveis fósseis.

Imagem: Vox Leone via DreamStudio AI

A contradição embutida no sistema não cede. O crescimento, tanto material quanto econômico, simplesmente não pode continuar indefinidamente em um planeta finito. Economistas – baseados apenas em um curto período de evidência empírica – argumentam que a substituição e a dissociação [não encontro referências em português] são mecanismos que podem permitir um crescimento indefinido, se utilizados. Muitos exemplos do passado reforçam tais argumentos.

Contudo, a evidência que temos não sustenta a ideia de que o funcionamento básico da economia moderna pode acontecer sem um fluxo maciço de material e energia. Na prática, os ganhos de eficiência são amplamente zerados por qualquer crescimento adicional. Lembre-se de que todos os exemplos de progressos passados da era industrial ocorreram no contexto da exploração insustentável de recursos finitos. O futuro não precisa se parecer com o passado recente – na verdade, impactos irreversíveis acumulados significam que ele já não pode mais parecer.

Considere a história do uso de energia nos Estados Unidos nos últimos duzentos anos. A tendência segue de perto uma taxa de crescimento constante de aproximadamente 2,4% ao ano para todo este período, correspondendo convenientemente a um aumento de aproximadamente um fator de 10 a cada século. Aplicando essa taxa à taxa de produção de energia global de hoje – de 18 TW – sugere que o uso de energia da humanidade excederia a produção de todo o Sol em 1300 anos e todas as 100 bilhões de estrelas na Via Láctea em 2400 anos. Continuar com esse crescimento anual de produção de energia claramente não é possível por muito tempo em escalas de tempo relevantes para a civilização.

Pensando de outra forma, os processos de energia na Terra produzem calor que deve ser irradiado para o espaço – o único canal de resfriamento significativo. Não importa qual seja a tecnologia – mesmo permitindo recursos energéticos hipotéticos e não descobertos – a Lei de Stefan-Boltzmann na física prescreve a temperatura de equilíbrio da superfície do planeta em função da energia produzida.

Com um aumento anual contínuo de 2,4% na produção de energia, a superfície da Terra atinge temperaturas de ebulição em cerca de 400 anos e atinge a temperatura da superfície do Sol em 1000 anos. Esses números – que superam o efeito do aquecimento global impulsionado pelo CO2 – são claramente absurdos, acabando com qualquer noção de que o crescimento de energia experimentado nas últimas centenas de anos possa continuar em ritmo acelerado por outras centenas.

Imagem: Vox Leone via DreamStudio AI

Mas por que a cessação do crescimento do consumo de energia deveria significar o fim do crescimento econômico? Afinal, nem toda atividade econômica é intensiva em energia (a ideia de dissociação, como observado acima). Mas algumas atividades sempre consumirão muita energia: água fervente e outras tarefas térmicas; fertilização e colheita de alimentos; processos de fundição de alumínio e outros materiais; e transporte de pessoas e mercadorias.

Muitos deles são itens básicos não negociáveis da atividade humana e serão limitados em escala máxima pelos fatos elencados nos últimos três parágrafos. Por sua vez, a fração da economia “dissociada” – bens/serviços de valor intangível ou estético, por exemplo – deve permanecer modesta, para que os elementos essenciais de sobrevivência não sejam relegados a uma fração insignificante (portanto arbitrariamente barata) do cenário econômico

A cultura humana – os valores, crenças e atitudes das pessoas – está complexamente entrelaçada nessas transições impulsionadas pela energia.


(*) Esta é a minha tradução da Parte 4 – The Growth Collision – do espetacular artigo Modernity is incompatible with planetary limits: Developing a PLAN for the future (Novembro, 2021), que trago aqui invocando “fair use”, e que pode ser lido na íntegra [em inglês] neste link permanente:

https://doi.org/10.1016/j.erss.2021.102239


Segundo depreendo da leitura do artigo, mesmo com o uso de tecnologias limpas o planeta se aqueceria em resposta às atividades humanas, como decorrência natural da citada lei de Stefan-Boltzmann, e apenas ela. Para que haja equilíbrio o calor gerado pela energia produzida deve escapar para o espaço na totalidade. A simples presença de uma atmosfera já garante a retenção do calor que deveria ser irradiado, levando inevitavelmente a um aquecimento global. As leis da física não oferecem solução para o nosso tipo de progresso.

O que os autores propõem, aparentemente, não é nada menos do que um sistema econômico energeticamente vegetativo, sustentando uma população humana pelo menos uma ordem de grandeza (10x) menor do que a que hoje vaga pelo planeta (8 bilhões). As implicações desse argumento — a total renúncia à tecnologia de massa, e, consequentemente ao nosso estilo de vida (iluminismo, democracia, capitalismo) é devastadora e não pode ser esgotada em um simples post de blog.

Eu gostaria de ver um debate substantivo sobre este tema em nossa língua mãe. Esta é uma pequena contribuição. Seguirei a inquirir.

A.I. Art – Meus Experimentos com o Incrível ‘Stable Diffusion’

Se você não está prestando atenção ao que está acontecendo com o súbito aparecimento da Difusão Estável, você está perdendo um momento realmente interessante na história da tecnologia.

Imagem: Pexels.com

Tudo começou quando há dez dias, em 22 de agosto, a start-up Stability.ai abriu o código-fonte de sua plataforma de síntese de imagem chamada Stable Diffusion – uma arquitetura de difusão latente semelhante ao DALL-E 2 do OpenAI e ao Imagen do Google, treinada com milhões de imagens extraídas da web. Desde então a tecnologia tem desfrutado uma contínua explosão de interesse.

Ao contrário do conteúdo deepfake baseado em autoencoder, ou das recriações da figura humana que podem ser alcançadas por Neural Radiance Fields (NeRF) e Generative Adversarial Networks (GANs), os sistemas baseados em difusão aprendem a gerar novas imagens adicionando ruído às imagens usadas como fontes. A reiteração desse processo ensina o sistema como fazer imagens plausíveis – e até foto-realistas – a partir apenas desse ruído.

Modelos baseados em difusão aprendem a reconstruir fotos adicionando ruído a imagens “não contaminadas” e observando a relação elas e a imagem “contaminada” à medida que mais ruído é adicionado. Imagem: Google

Com a repetição do processo, o modelo começa a entender as “relações latentes” entre fontes altamente difusas e suas versões nítidas e de maior resolução. Depois de bem treinado, um modelo de difusão latente do tipo “texto-para-imagem” pode então “recuperar” imagens, separando-as do ruído de base usando prompts de texto como guias para quais elementos recuperar.

Em apenas alguns dias, houve uma explosão de inovação em torno deste processo. As coisas que as pessoas estão criando são absolutamente surpreendentes.

Tenho acompanhado o subreddit r/StableDiffusion e seguido o fundador da Stability, Emad Mostaque, no Twitter.

Minhas experiências

No início desta semana eu comecei a fazer experimentos com a tecnologia. O mínimo que posso dizer é que gerar imagens a partir de texto é um jogo totalmente novo.

Com os modelos “texto-para-imagem”, as habilidades linguísticas adquirem muita importância, à medida que a precisão conceitual na composição do chamado “prompt” vai determinar o resultado final do trabalho. No estágio atual da tecnologia, o prompt deve ser composto em inglês. Eu suponho que uma interface em português vai surgir em algum momento – farei minha contribuição na medida do possível.

Minhas explorações mostradas aqui foram feitas na plataforma online beta.dreamstudio.ai (atualmente grátis). A conta no site permite a geração de 200 imagens, antes de começar a monetizar. Já existem muitos outros sites parecidos, e novos aparecem todo dia.

Canalizei meu Roger Dean interior e comecei a esboçar algumas coisas. Depois de uma manhã eu já tinha uma pequena coleção para curtir e mostrar:

  • Um Sonho de São Paulo

Eu gosto do estilo matte paint, e minha primeira ideia foi investigar como São Paulo apareceria como um cenário a la Blade Runner.

Um sonho de São Paulo
Prompt usado: A dream of Sao Paulo city, Caspar David Friedrich, matte painting, artstation HQ

No prompt eu estabeleço alguns parâmetros/atributos que eu gostaria que a imagem tivesse:

Dream, indicando uma atmosfera onírica; São Paulo city, o objeto central, Caspar Friedrich, replicando o estilo do artista homólogo, Matte painting, para dar a textura, Artstation HQ, para invocar o estilo do studio Artstation [games, mídia].

  • São Paulo Dream

Neste ponto o leitor já percebeu que eu gosto de São Paulo e curto uma atmosfera onírica, com elementos pós-apocalípticos.

    Prompt Usado: A dream of Sao Paulo, a distant galaxy, Caspar David Friedrich, matte painting, trending on artstation HQ
    • Nave Alien Gigante
    Prompt usado: gigantic extraterrestrial futuristic alien ship in brand new condition, not ruins, hyper-detailed, artstation trending, world renowned artists, antique renewal, good contrast, realistic color, cgsociety, greg rutkowski, gustave dore, Deviantart
    • Roma Alienígena
    Prompt usado: Julius Caesar, alien roman historic works, ruins, hyper-detailed, world renowned artists, historic artworks society, good contrast, realistic color, cgsociety, Greg Rutkowski, Deviantart
    • Um Rio de Janeiro de Sonho
    Prompt usado: Rio de Janeiro, fuzzy, dreamy, world renowned artists, good contrast, pastel color, Greg Rutkowski, Deviantart
    • Rio Hipgnosis

    Aqui eu tentei replicar o estilo do já citado Roger Dean, e do estúdio Hipgnosis, famoso pelas capas de discos das grande bandas de rock nos anos setenta, como Yes, Pink Floyd, Led Zeppelin, e muitos outros. Note a silhueta do Pão de Açúcar, quase imperceptível. Definitivamente Lisérgico.

    Prompt usado: Rio de Janeiro, sketchy, dreamy, world renowned artists, good contrast, pastel color, Roger Dean, Hipgnosis
    • Transilvania

    Aqui eu recebi o valoroso input de minha mulher, ligada ao mundo das bruxas e das brumas, que sempre me apoia em minhas desventuras digitais. A ideia era fazer Drácula aparecer no cenário, mas vejo que será preciso maior empenho na engenharia do prompt.

    Prompt usado (composto por Marília Gião): Dracula castle on a mountain, at dusk, matte paint, Transylvania dream, David Friedrich, chariots with horses, hyper detailed, deviantart

    É mesmo uma coisa incrível. Imagine ter um artista conceitual multi habilidoso ao seu dispor, cujo único propósito na existência é interagir com você e materializar suas fantasias visuais mais loucas. Tudo a um custo muito baixo.

    Você pode executar a difusão estável em seu próprio computador, em um ambiente virtual python, se tiver as inclinações técnicas para configurá-lo [é preciso placa gráfica compatível com CUDA – tipicamente Nvidia] . Posso dar algumas indicações nos comentários, se alguém tiver interesse. Em serviços online como Replicate ou Hugging Face você pode ainda usar a biblioteca “imagem-para-imagem” – que está chegando também à interface do DreamStudio que usamos aqui.

    Há muito mais acontecendo. A melhor descrição que vi até agora de um processo iterativo para construir uma imagem usando Stable Diffusion vem de Andy Salerno: 4.2 Gigabytes, ou: Como desenhar qualquer coisa. Nestes experimentos eu usei partes dos prompts de Andy.

    E há muito mais por vir.

    As inescapáveis questões éticas

    As questões éticas levantadas por esses sistemas precisam ser enfrentadas e resolvidas. São questões difíceis.

    A difusão estável foi treinada com milhões de imagens extraídas da web. Essas imagens são protegidas por direitos autorais. Não estou qualificado para falar sobre a legalidade disso. Pessoalmente, estou mais preocupado com a moralidade.

    O Stable Diffusion v1 Model Card tem todos os detalhes de especificação, mas para resumir, ele usa um conjunto de dados LAION-5B (5,85 bilhões de pares de imagem-texto) e seu subconjunto Laion-aesthetics v2 5+ (um conjunto de aproximadamente 600 Milhões de pares). Essas imagens foram retiradas da web.

    O modelo final tem cerca de 4,2 GB de dados – um blob binário de “floating points”. O fato de se poder comprimir uma quantidade tão grande de informação visual em um volume tão pequeno é, em si, um feito fascinante. Contudo, de novo, as pessoas que criaram essas imagens não foram consultadas sobre seu consentimento.

    Para além disso, como já como discutimos no blog em outra postagem [link], o modelo pode ser visto como uma ameaça direta ao meio de subsistência de milhões de profissionais pelo mundo afora. Eu mesmo fui um desenhista ilustrador em meu primeiro emprego. Hoje eu não teria chance de começar. O vídeo e o áudio seguirão o mesmo caminho. Ninguém esperava que as IAs criativas viessem tão rapidamente para ceifar os empregos dos artistas, mas aqui estamos!

    Há também implicações [negativas] para o mercado de arte — e, em breve, do fonográfico, além do cinema.

    Nasce uma Nova profissão: a Engenharia de Prompt

    Como tentei mostrar, e como você mesma(o) pode verificar se resolver praticar a técnica no link que forneci, o background pessoal influenciará muito no sucesso. As pessoas que vão exercer essa atividade em um nível profissional elevado nas agências de criação terão que se aprofundar na observação e no estudo da linguagem.

    Além da precisão linguística, os parâmetros envolvidos na composição do prompt, para um resultado artístico perfeitamente controlado, exigem conhecimento técnico, senso de estilo e conhecimento histórico. Quanto mais palavras-chave relacionadas estiverem envolvidas na composição maior será o controle do artista sobre o resultado final. Exemplo: o prompt

    Uma cidade futurista distante, cheia de prédios altos dentro de uma enorme cúpula de vidro transparente, No meio de um deserto árido cheio de grandes dunas, Raios de sol, Artstation, Céu escuro cheio de estrelas com um sol brilhante, Escala maciça, Neblina, Muito detalhado, Cinematográfico, Colorido

    é mais sofisticado do que simplesmente

    Uma cidade cheia de prédios altos dentro de uma enorme cúpula de vidro transparente

    Note que a densidade conceitual, portanto a qualidade, do prompt depende muito do background cultural e linguístico da pessoa que faz a composição. De fato, um prompt de qualidade se assemelha muito a uma cena de cinema descrita em um roteiro/storyboard [a propósito, lá se vão os Production Designers, junto com os concept artists, graphic designers, set designers, costume designers, lighting designers…].

    Na tentativa de monetizar os frutos da nova tecnologia, os empreendedores da Internet serão forçados pela mão invisível do mercado de trabalho a se aprofundar nos conhecimentos linguísticos. Será um efeito colateral benigno, penso eu, considerando estado atual da Internet. Talvez isso leve a uma melhor articulação das ideias no ambiente da rede.

    Assim como influenciadores do YouTube têm talento para lidar com os aspectos visuais das interações humanas, os aspirantes à engenharia de prompt terão que se destacar em farejar as nuances da expressão humana. Eles têm grande potencial para ser os novos profissionais descolados da economia digital, assim como foram os web designers, e depois os influencers — que, com o fim das redes sociais, agora tendem a perder relevância.

    Para se diferenciar, os engenheiros de prompt terão que ser ávidos leitores e praticantes de semiótica/semiologia.

    Umberto Eco e os estruturalistas poderão voltar à moda.

    Indistinguível da magia

    Apenas alguns meses atrás, se eu tivesse visto alguém criar essas imagens em um programa de TV, ou em um vídeo do YouTube, eu teria resmungado sobre essas mistificações, grosseiras mesmo para padrões da TV e da Internet (sorry).

    A ficção científica é real agora. Modelos generativos de aprendizagem de máquina estão aqui, e a taxa com que eles estão melhorando é absolutamente irreal. Eu digo isso tendo um histórico de ceticismo quanto ao “hype” e às possibilidades dessa modalidade de AI. Vale a pena prestar atenção ao que eles são capazes de fazer, como estão se desenvolvendo, e ao impacto que eles terão na sociedade.

    Leitura recomendada

    https://arxiv.org/abs/2112.10752

    https://github.com/CompVis/stable-diffusion


    Reativei minha conta para twitar sobre essas coisas para o meu único seguidor. Siga @VoxLeone no Twitter e me ajude a conquistar o Brasil!

    Também fiz conta no Reddit, onde meu Karma é exatamente = 1. Siga u/VoxLeone!

    Algo Sobre o Google para Animar a Blogosfera

    É uma injustiça, um verdadeiro crime, que, por causa de um mísero algoritmo, toda a Internet fique isolada, sem acesso aos nossos maravilhosos blogs, cheios de conteúdo, charme intelectual, tirocínio e estilo. Mas felizmente isso está para mudar.

    laptop-google
    Imagem: Pexels.com

    O Google anunciou ontem [18/08] que vai lançar atualizações em sua ferramenta de pesquisa nas próximas semanas, com o objetivo de facilitar o descobrimento de conteúdo de alta qualidade. Assim informa a reportagem do TechCrunch:

    As novas melhorias de classificação buscam reduzir o conteúdo de baixa qualidade ou não original – que atualmente goza de uma classificação alta nos resultados de pesquisa. O Google diz que a atualização terá como alvo o conteúdo criado especificamente para melhorar a classificação nos mecanismos de pesquisa – conhecido como conteúdo “SEO-first”.

    Os testes da empresa mostraram que a atualização vai melhorar os resultados que os usuários encontram ao pesquisar conteúdo, como materiais educacionais online, artes e entretenimento, compras e conteúdo relacionado à tecnologia [agradeço e coloco aqui um emoji de carinha agradavelmente surpresa].

    As novas atualizações devem ajudar a reduzir o número de sites de baixa qualidade nos resultados, aqueles que aprenderam a manipular o sistema otimizando o conteúdo para ter uma classificação alta nos resultados de pesquisa. O Google diz que os usuários vão começar a ver o conteúdo realmente útil receber uma classificação mais proeminente nos resultados de pesquisa.

    A empresa planeja refinar seus sistemas e desenvolver essas melhorias ao longo do tempo. “Com esta atualização, você verá mais resultados com informações exclusivas; assim é mais provável que você leia algo que nunca viu antes”, explicou a empresa em um post no seu blog.

    Fica patente que a proximidade do TikTok no mercado de pesquisa está deixando os executivos do Google nervosos. Espero que isso então signifique que blogs como este, e de tantos outros bons que eu sigo, na plataforma WordPress e em outras, terão de novo um lugar ao Sol.

    Obviamente deve ter ficado claro para o departamento financeiro que não haverá como vender links-lixo para os anunciantes se o público alvo se debandar pela falta de conteúdo original. De alguma forma os executivos da Alphabet entenderam que é necessário uma boa ancoragem de conteúdo nas páginas de resultados.

    Um outro mundo, um outro tempo

    Lembro-me daquele outro mundo, em que o AltaVista era a grande ferramenta de busca. Você conseguia exatamente o que pesquisava e sempre tinha que rolar por páginas e páginas de resultados, e refinar seus termos de pesquisa várias vezes, antes de encontrar o que queria – se é que conseguia encontrar.

    É fácil criticar o Google hoje, mas se você vivesse naquela época, perceberia o quão bons são os resultados de pesquisa do Google. O algoritmo ‘Pagerank’, que é o núcleo de todo o serviço, é uma maravilha da engenharia de sistemas, e não há dissenso quanto a isso. Experimente um mecanismo de pesquisa alternativo concorrente hoje. Acesse bing.com, yahoo.com ou brave.com. Esses sites talvez vão fornecer algum resultado que você deseja – mas que você provavelmente não deseja tanto quanto eles pensam que você deseja.

    As críticas ao Google, pelo menos as minhas, na verdade não são endereçadas à sua engenharia. Elas se referem a suas praticas intrusivas de coleção de dados; se referem ao domínio da privacidade, de como uma empresa brilhante se desviou ao longo do caminho.

    Como era e como é

    Não muitos anos atrás, era possível fazer duas coisas legais com o Google.

    • Você poderia inserir palavras-chave aproximadas e tentaria descobrir o que você realmente desejava entre todos os resultados retornados, ou
    • Você poderia colocar literalmente o que desejava encontrar, entre aspas, e isso forneceria exatamente o que você havia pedido.

    Isso parece não funcionar mais. Um exemplo: ao tentar pesquisar um trecho de uma obra da literatura é comum ter a primeira página de resultados completamente tomada de ofertas comerciais para adquirir a obra, em variadas mídias, e não uma referência acadêmica – ou mesmo apenas literária – ao texto pesquisado.

    Ou digite o número de uma peça, ou componente, ou chip, entre aspas, junto com a palavra ‘datasheet’ [folha de dados]. Será um milagre se você realmente conseguir um link para uma folha de dados. Você vai ter links para várias empresas não relacionadas, que tentam te vender coisas que não são relacionadas a qualquer palavra da sua consulta.

    Isso não está nem no nível de “resultados ruins”. Isso só pode ser descrito como completo fracasso.


    Mas nós sabemos que o fabuloso ‘Pagerank’ ainda está lá. Seria fantástico poder vê-lo funcionar de novo como em 2002. O Google certamente pode melhorar os resultados, se quiser, embora também seja fato que os caras de SEO vão sempre encontrar novas maneiras de colocar o lixo deles mais alto nas páginas de resultados.

    Eu aplaudo o Google e desejo sorte a eles. O Google não tem um bom histórico em cumprir compromissos, e nem de agir em favor do usuário ou da sociedade. Sempre convém manter um olhar cético ao lidar com eles. Tomando tudo com uma pitada de sal, saúdo meus colegas bloguistas, na expectativa de bons tempos à frente. Ao sucesso!

    Nota: Há muitos anos eu uso duckduckgo como ferramenta de pesquisa na web.


    Post Scriptum

    Eu me pergunto quanto mais os grandes meios de comunicação serão rebaixados em sua dignidade pelas ferramentas de pesquisa. Nos Estados Unidos já surgiu a expressão churnalism [de churn – agitar]. Definição da Wikipedia (inglês):

    Churnalism é um termo pejorativo para uma forma de jornalismo em que press-releases, histórias fornecidas por agências de notícias e outras formas de material pré empacotado, em lugar de notícias reais buscadas no campo, são usadas para criar artigos em jornais e em outras mídias de notícias. É uma junção de “churn” e “jornalism”. Seu objetivo é reduzir custos diminuindo as despesas com coleta de notícias originais e com verificação de fontes.

    O churnalismo praticamente se tornou a norma dos dias correntes. Acesse o site da UOL para ver por si mesma(o). O churnalismo é exatamente o motivo pelo qual temos problemas com as proverbiais ‘fake news’ em primeiro lugar.

    Um Infográfico para Entender o Velho Dinheiro Inglês – Definitivamente

    Estive a trabalhar em uma pequena aplicação para conversão entre moedas que me levou ao desenvolvimento de algo aparentemente inédito – que compartilho hoje com meus leitores.

    Imagem: Vox Leone

    Ao iniciar uma pesquisa para o que deveria ser um simples código de conversão aritmética para a libra inglesa pré-decimal, eu senti que precisava de um guia visual para tornar mais confortável a composição no computador; algo que eu pudesse olhar enquanto digitava. Comecei a rascunhar um diagrama para poder manter o objeto do assunto em perspectiva. Vasculhei a Internet em busca de uma figura que fosse parecida e não encontrei.

    Me dei conta então que eu tinha em mãos um material novo e diferente para desenvolver. Depois de alguns dias de trabalho no LibreOffice Draw eu tinha pronto o infográfico que compartilho nesta postagem – que pode ser visto aqui, para aqueles que não pretendem ler um texto tão longo (fique à vontade para compartilhar em seu grupo da OpenEnglish, please). Achei que poderia ser interessante e útil para anglófilos, estudantes, viajantes, cidadãos do mundo e curiosos em geral.

    Foi possível condensar a informação, de forma que o resultado final pode se sustentar por si próprio (como um poster) e ser compartilhado em aplicativos de mensagem e outros meios orientados à imagem. Eu gostaria de tê-lo postado aqui sozinho em sua própria glória. Mas este blog foi concebido para ter um formato longo, e disso não abro mão. Portanto era imperativo ter um texto para acompanhar, o que fiz após uma laboriosa pesquisa. Aqui está, então, esse curioso texto que foi penosamente escrito com o único objetivo de servir de escada para uma bela imagem. Esta é a Web. Voilà!

    Roma e os Francos

    Escrever este post acabou sendo um mergulho no mundo do dinheiro da Idade Média. Durante os meses em que trabalhei nele pude me deter na fascinante Libra Esterlina e seu convoluto sistema duodecimal, que sempre refletiu a intrincada relação entre os vários pesos e medidas que vigoravam nas centenas de feudos e reinos medievais. Pude ter uma visão clara de como a Libra inglesa, herdeira de Roma, assimilou em si valores tradicionais, não necessariamente moedas, que desde tempos ancestrais expressavam equivalência entre pesos de metais diversos.

    Como sabemos, depois do colapso do império romano, durante o feudalismo, a Europa era um mundo caótico de minúsculos reinos, costumes, pesos, medidas, leis e moedas. Principalmente moedas. Havia o Albus, no norte da Alemanha, o Denário na França, o Dinar árabe na Ibéria islâmica, o Doblo na Ibéria cristã, e uma profusão de outras na Europa central e península Itálica (o Ducado, o Florim, o Genovino, o Grosso, etc., etc.)

    O pai de Carlos Magno, Pepino III, o breve, rei dos Francos – que haviam herdado de Roma seus grandes domínios territoriais – iniciou a revisão desses sistemas fechando as casas de moeda dos grandes magnatas e prelados do Império e estabelecendo os direitos de cunhagem como um privilégio exclusivamente real. No entanto, mesmo com as reformas, o sistema permaneceu confuso. Havia ainda muitas diferenças de valor mesmo entre moedas de mesma denominação – 22 xelins para a libra imperial, xelins extras da casa da moeda, xelins do Tesouro Imperial…

    Esse primeiro esforço regulatório de Pepino III deu ímpeto a Carlos Magno para introduzir posteriormente uma reforma mais abrangente e duradoura, que trazia uma padronização muito mais ampla destinada a tornar o Império mais governável.

    Ele definiu então o que conhecemos como libra carolíngia, inicialmente como uma nova unidade de peso, significativamente maior que a antiga libra romana de 328,9 g. Também introduziu uma nova moeda de prata chamada denário, dos quais 240 compunham 1 libra de prata pura. Um denário (também denar ou denier) continha 1,7 g de prata. Para facilitar os cálculos monetários, também foi introduzida uma unidade de conta, o solidus, de modo que 1 solidus = 12 denários. Assim começou o sistema monetário tripartido característico: L 1 = 20s = 240d.

    Com o Império de Carlos Magno esse sistema estabeleceu supremacia por toda a Europa ocidental. Após a conquista normanda em 1066, o sistema foi introduzido também na Inglaterra, reproduzindo exatamente o padrão carolíngio do continente: Uma Libra dividida em 20 Xelins (Solidus) e 240 centavos/pennies (Denários).

    Esse sistema foi abandonado em 1971 com a decimalização da Libra. Com a decimalização a libra é hoje parecida com quase todos os outros sistemas monetários do ocidente. Genericamente: 1 Unidade Monetária dividida por 100 subunidades agrupadas em certas quantidades de conveniência.

    No infográfico abaixo um instantâneo do sistema carolíngio no Reino Unido pouco antes da decimalização, em 15 de Fevereiro de 1971 (decimal day):

    Clique aqui para uma versão maior. Aqui a versão em inglês. – Arte: Vox Leone

    A seguir uma descrição de cada denominação e alguns fatos a respeito de cada uma delas. Todas as imagens são cortesia de Wikimedia Commons.

    Farthing

    Farthing, 1913

    A menor denominação do sistema da Libra esterlina. Esse vocábulo tem origem no Inglês antigo feorðing, “quarto de um centavo”. No inglês antigo tardio também referenciava uma unidade de divisão de terra; os condados eram costumeiramente subdivididos em quatro farthings (“quadras” ou “quartos”). A palavra cognata tanto do norueguês quanto do dinamarquês antigos significa “uma quarta parte de qualquer coisa.”

    O primeiro farthing redondo (de prata) foi emitido em 1279 sob Edward I. Antes dessa data, para troco em espécie nas negociações um penny era dividido fisicamente em duas metades – ou ainda em quatro quartos. Isso era conhecido como halving ou fouring. O têrmo Farthing foi provavelmente derivado de fouring.

    No linguajar popular é também sinônimo de algo de pouco valor. A palavra latina correspondente em traduções bíblicas é “quadrans” – quarto de denário.


    Meio penny – Ha’penny [half penny]

    Meio penny, 1967

    O meio “centavo” moderno sobreviveu de 1672 a 1967, mas essa denominação pode ser encontrada na história inglesa já por volta do ano 890. O half penny era coloquialmente escrito como ha’penny e pronunciado HAY-pə-nee. Muitas expressões idiomáticas ainda fazem referência ao half penny, como “two ha’pennies for a penny” – ‘trocar seis por mea duzia’. Na gíria das ruas era uma referência à vulva.

    O ‘half penny carolíngio’ foi retirado em 1971 na decimalização, e substituído pelo meio centavo novo decimal, com 1/2p valendo 1,2d.


    Penny

    Penny, 1963

    O penny inglês, de origem carolíngia, é uma fração de 1/240 libra. Acho um tanto desconfortável me referir a ele como ‘centavo’ [centésima parte], segundo o costume da língua portuguesa. Neste texto eu procuro manter o vocábulo original inglês, por falta de um melhor.

    O plural de “penny” é “pence” quando se refere a uma quantidade de dinheiro, e “pennies” quando se refere a várias moedas.

    Os reinos da Inglaterra e da Escócia foram fundidos pelo Ato de União de 1707 para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha. Assim, em 1707 a moeda escocesa deixou de ter curso legal, com a libra passando a ser usada em toda a Grã-Bretanha. O penny veio a substituir o xelim escocês.

    O design e as especificações da moeda esterlina de um penny ficaram inalterados pela unificação, de modo que ela continuou a ser cunhada em prata depois de 1707.

    Em tempos antigos o penny podia ser combinado em dois para formar o two pence (2d), e em quatro constituindo o groat (4d).


    Três pence – Three pence

    Três pence, 1942

    A moeda de três pence (3d), entrou em circulação pela primeira vez em meados do século XVI, durante a era do rei Eduardo VI. Valia 1/80 de uma libra, ou ¼ de um xelim. A moeda permaneceu em circulação, em várias versões, até a entrada em vigor da libra decimal.

    O três pence sofreu muitas mudanças ao longo dos séculos. Enquanto algumas épocas os tiveram emitidos para circulação geral, outros períodos usaram o três pence como dinheiro cerimonial [ver maundy money]. Como moeda, a denominação chegou a ser cunhada em níquel-latão, pesando 6,8 g e medindo 21 mm, e em prata, como uma moeda de 1,5 g, com um diâmetro de 16,2 mm.


    Seis pence – Sixpence

    Seis pence, 1962

    Os primeiros seis pence foram cunhados em 1551, também sob Eduardo VI. Eles surgiram como resultado da degradação da moeda de prata na década de 1540, em particular o testoon de prata, que caiu em valor de 12d para 6d. O testoon mesmo degradado ainda era útil em transações cotidianas, e assim foi decidido que ele devia ser transformado em uma nova moeda com a denominação de “seis pence”.

    O testoon se desvalorizou porque na época, ao contrário de hoje, o valor das moedas era determinado pelo valor de mercado do metal que continham. Durante o reinado de Henrique VIII, a pureza da prata na cunhagem havia caído significativamente.

    Os seis pence foram emitidos durante o reinado de todos os monarcas britânicos após Eduardo VI, bem como durante a Commonwealth, com um grande número de variações e alterações ao longo dos anos.

    (*) Em 2016, a Casa da Moeda Real começou a cunhar moedas decimais de seis pence em prata, destinadas a serem compradas como presentes de Natal. Essas moedas são mais pesadas que os seis pence anteriores a 1970 (3,35 gramas em vez de 2,83 gramas) e têm a denominação de seis pence novos (6p) em vez de seis pence antigos (6d).


    Xelim – Shilling

    Xelim, 1963

    Uma moeda fiduciária por direito próprio. Foi usado como dinheiro soberano por muitos reinos europeus [ver wiki]. O xelim inglês teve origem, como o seis pence, no já mencionado ‘testoon’, que foi emitido em 1504 sob o reinado de Henrique VII. Um testoon valia 12 pence e era feito de prata. O testoon continuou durante o reinado de Henrique VIII. O testoon de 12 pence foi finamente renomeado como xelim durante o reinado de Eduardo VI.

    Depois disso, o xelim circulou sob todos os monarcas reinantes, exceto Eduardo VIII. É interessante notar que o primeiro xelim da era do Reino Unido foi cunhado em 1816, mais de um século após o Ato da União.

    O xelim era uma moeda de prata popular. No entanto, foi regularmente degradado pelo vandalismo e perdeu valor ao longo dos anos. O valor do xelim voltou a aumentar quando Elizabeth I retirou de circulação todas as moedas degradadas e as substituiu com moedas recém-cunhadas.

    Os xelins circularam amplamente por muitos séculos. Para estimar o poder de compra do xelim, é preciso especificar o período de tempo em que a moeda foi usada.

    • década de 1940

    Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, um xelim poderia comprar itens domésticos comuns, como um pão ou uma barra de sabão. À medida que a economia sofria com a guerra, o custo dos bens básicos aumentava. Isso significava que, entre 1939 e o fim da guerra, o preço do leite havia subido de 3 centavos, indo para 9 centavos (quase um xelim) por litro.

    • década de 1960

    Na década de 1960, ainda se podia comprar um pão com um xelim; ou um corte de cabelo; ou abastecer seu carro com pouco menos de 1 litro de gasolina – que na verdade era vendida em galões na época.

    • década de 1970

    Na década de 70, um xelim podia pagar um telefonema de 3 minutos, um litro de leite entregue em sua casa pelo leiteiro – este com preço congelado pelo então socialismo inglês junto com outros itens essenciais, como pão ou jornais.


    Florim – Florin

    Florim, 1967

    O ‘fiorino d’oro’ da República de Florença foi a primeira moeda de ouro europeia desde o século VII a ser cunhada em quantidade suficiente para desempenhar um papel comercial significativo.

    O termo florim foi usado como empréstimo em outros lugares da Europa. Assim, houve um florim inglês emitido pela primeira vez em 1344 por Eduardo III. Era cunhado a partir de 108 grãos (6,99829 gramas) de ouro puro (‘fino’) e tinha o valor de seis xelins (equivalente a 30 pence pré-decimais). Conhecido como o “double leopard” (leopardo duplo), foi uma tentativa de Eduardo III de produzir moedas de ouro que pudessem ser usadas tanto na Europa continental quanto na Inglaterra.

    Contemporaneamente, o florim britânico de dois xelins (2s) foi um experimento precoce no sentido da decimalização da moeda, com seu valor de 1/10 de uma libra, ou 24 pence. Foi emitido de 1849 a 1967, com uma emissão final para colecionadores em 1970. Foi a última moeda a ser desmonetizada antes da decimalização.


    Meia coroa – Half crown

    Meia coroa, 1967

    A meia coroa foi emitida pela primeira vez em 1549 durante o reinado de Eduardo VI. Eduardo VI foi rapidamente sucedido pela rainha Maria, mas nenhuma meia coroa foi produzida durante o reinado de Maria, entre 1553 e 1558. Elizabeth I assumiu o trono entre 1558 e 1603. Durante seu reinado e todos os reinados posteriores até 1970 – excluindo apenas Edward VIII – as meias coroas foram emitidas. Apenas em 1970 a meia coroa foi finalmente desmonetizada, um ano antes da decimalização.


    Nota de Dez Xelins – Ten Bob Note

    Nota de dez shillings

    A cédula de emergência.

    Em agosto de 1914, a economia britânica estava em crise devido à instabilidade causada pela “neblina da guerra” no continente. Banqueiros e políticos procuravam desesperadamente maneiras de proteger as finanças da Grã-Bretanha e impedir que os bancos entrassem em colapso.

    O Governo decidiu que deveria ser disponibilizada uma grande oferta de notas no valor de 10 xelins, facilitando ao público a realização de pequenas transações.

    No entanto, o Banco da Inglaterra não foi capaz de preparar e imprimir o número necessário de notas com rapidez suficiente. O governo então tomou a medida sem precedentes de emitir as notas por conta própria.

    Essas notas ficaram conhecidas como Notas do Tesouro e eram diferentes de tudo que o público britânico já tinha visto. Até este ponto, a nota de menor denominação era a de £ 5 – que naqueles dias era uma quantia tão grande que muitas pessoas nunca teriam visto ou usado a nota.

    Ao emitir uma nota de 10 xelins, o Tesouro criou as primeiras notas de grande circulação na Inglaterra. A nota de 10 xelins – que equivalia a meia Libra – foi a menor denominação de nota já usada no Reino Unido e acabou sendo substituída modernamente pela moeda de 50 pence, que foi introduzida já em 1969, dois anos antes do decimal day.


    Libra – Pound

    Libra, ca. 1960

    Discorrer sobre a Libra neste ponto não faria sentido. Nada posso dizer que já não tenha sido dito, e obviamente não tenho nada original para dizer. Para aqueles que pretendem se aventurar no assunto eu digo que a pequena pesquisa que empreendi para este trabalho me mostrou que há muitas nuances, interpretações e fontes – muito poucas na língua portuguesa. Deixo um humilde link como sugestão de por onde começar.

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Libra_esterlina

    Posso dizer, no entanto, que a libra é [ou era] conhecida na gíria como Quid. Acredita-se que o termo tenha origem na expressão latina “quid pro quod”, que designa uma troca [“isto por aquilo”] — o que é perfeitamente adequado em se tratando de uma moeda. Foi chamada também de Soberano. Algumas denominações fracionárias da libra citadas neste trabalho já não existiam em 1971.


    Guinéu – Guinea

    Um guinéu de 1797, anverso e reverso

    O Guinéu foi introduzido pelo rei Carlos II em 1663, logo após a Restauração. Foi cunhado em ouro de 22 quilates importado pela primeira vez da Guiné na África Ocidental, daí o nome. Originalmente, a moeda da Guiné foi definida como valendo exatamente uma libra, ou 20 xelins. No entanto, o preço de mercado do ouro aumentou e, na década de 1680, as pessoas exigiam 22 xelins por guiné em vez dos 20 oficiais. Em 1700, o preço havia subido ainda mais, para 30 xelins, de modo que um guinéu valia efetivamente uma libra e meia – este é o problema de basear o valor de uma moeda em uma mercadoria negociável como o ouro: seu valor flutua com a oferta e a demanda.

    Durante o início do século 18, o preço do ouro voltou a cair para os níveis de 1680. Em 1717, o rei George I fixou a taxa de câmbio entre moedas de ouro e prata por decreto, com valor de mercado de 21 xelins por guinéu.

    Em outras palavras, depois de 1717 existiu uma moeda que valia uma libra mais um xelim (21 xelins, ou 252 pennies), mas nenhuma moeda valia exatamente uma libra. O soberano não estava em circulação no século XVIII: foi introduzido em 1817.

    Como um guinéu valia 5% a mais do que uma libra, tornou-se um símbolo de status precificar itens de luxo, como roupas e joias, em guinéus, em vez de libras. Um oficial naval de classe média comprava seu uniforme por cinco libras; o alfaiate ao lado atendendo a um oficial mais aristocrático poderia vender o mesmo uniforme por cinco guinéus, porque seus clientes eram ricos o suficiente para ignorar a margem de 5% e gostavam de ostentar isso. Da mesma forma, um carpinteiro poderia cotar seus preços em libras, mas um advogado cotaria seus honorários em guinéus.

    Referências

    Les réformes monétaires carolingiennes

    https://www.persee.fr/doc/ahess_0395-2649_1952_num_7_1_2021

    https://www.etymonline.com/

    https://coinsite.com/

    https://wblog.wiki/

    https://thecoinexpert.co.uk/

    https://blog.westminstercollection.com/

    Tirando a Adivinhação do Cuidado Bucal – com Inteligência Artificial

    Overjet – fundada por alunos do MIT – analisa e anota radiografias bucais para ajudar dentistas a oferecer cuidado mais abrangente

    Zach Winn | MIT News Office

    A Overjet, fundada por alunos do MIT, usa inteligência artificial para anotar radiografias para dentistas – Imagem: Cortesia de Overjet

    Quando você imagina um radiologista em um hospital, pode ser que você pense em um especialista que se senta em uma câmara escura e passa horas examinando raios-X para fazer diagnósticos.

    Compare essa imagem mental com seu dentista, que além de interpretar raios-X também tem que fazer cirurgias, gerenciar equipe, comunicar-se com pacientes e administrar seus negócios. Quando os dentistas analisam raios-X, eles o fazem em salas iluminadas e em computadores que não são especializados em radiologia, e geralmente com o paciente sentado ao lado deles.

    Portanto não é surpresa que dentistas que analisam um mesmo raio X possam propor tratamentos diferentes. “Os dentistas fazem um ótimo trabalho, considerando todas as suas ocupações”, diz Wardah Inam SM, PhD. Inam é cofundadora da Overjet, uma empresa que usa inteligência artificial para analisar e anotar raios-X para dentistas e seguradoras.

    A Overjet busca tirar a subjetividade das interpretações de raios-X para melhorar o atendimento ao paciente. “Trata-se de avançar para uma medicina mais precisa, onde temos os tratamentos certos na hora certa”, diz Inam, que cofundou a empresa com Alexander Jelicich. “É aí que a tecnologia pode ajudar. Uma vez que quantificamos a doença, podemos facilitar a recomendação do tratamento correto.”

    Overjet foi aprovado pela Food and Drug Administration [EUA] para detectar e delinear cáries e quantificar os níveis ósseos como auxílio no diagnóstico da doença periodontal, uma infecção gengival comum, mas evitável, que causa a deterioração do maxilar e de outros tecidos que suportam os dentes. Além de ajudar os dentistas a detectar e tratar doenças, o software da Overjet também foi projetado para ajudar os dentistas a mostrar aos pacientes os problemas que estão vendo e explicar por que estão recomendando determinados tratamentos.

    A empresa, que já analisou dezenas de milhões de raios-X, é usada por clínicas odontológicas em todos os Estados Unidos e atualmente está trabalhando com seguradoras que representam mais de 75 milhões de pacientes nos EUA. Inam espera que os dados que a Overjet está analisando possam ser usados para agilizar as operações e melhorar o atendimento aos pacientes. “Nossa missão na Overjet é melhorar a saúde bucal criando um futuro clinicamente preciso, eficiente e centrado no paciente”, diz Inam.

    Foi uma jornada relâmpago para Inam, que não sabia nada sobre a indústria odontológica até que uma experiência desconcertante despertou seu interesse em 2018.

    Chegando à raiz do problema

    Inam veio para o MIT em 2010, primeiro para seu mestrado e depois seu doutorado em engenharia elétrica e ciência da computação, e diz que pegou o vírus do empreendedorismo desde cedo. “Para mim, o MIT era uma área livre à experimentação, onde você podia aprender coisas diferentes e descobrir o que você gosta e o que você não gosta”, diz Inam. “Além disso, se você está curioso sobre um problema, pode realmente mergulhar nele.”

    Enquanto fazia aulas de empreendedorismo na Sloan School of Management, Inam acabou iniciando uma série de novos empreendimentos com colegas de classe. “Eu não sabia que queria começar uma empresa quando vim para o MIT”, diz Inam. “Eu sabia que queria resolver problemas importantes. Passei por essa jornada de decidir entre a academia e a indústria, mas gosto de ver as coisas acontecerem mais rápido e gosto de causar impacto na minha vida, e foi isso que me atraiu para o empreendedorismo.”

    Durante seu pós-doutorado no Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial (CSAIL), Inam e um grupo de pesquisadores aplicaram aprendizado de máquina a sinais wireless para criar sensores biomédicos que pudessem rastrear os movimentos de uma pessoa, detectar quedas e monitorar a frequência respiratória.

    Ela não tinha interesse pela odontologia até depois de deixar o MIT, quando teve que mudar de dentista e recebeu um plano de tratamento totalmente novo. Confusa com a mudança, ela pegou seus raios-X e pediu a outros dentistas para dar uma olhada, apenas para receber mais variações nas recomendações de diagnóstico e tratamento.

    Nesse ponto, Inam decidiu mergulhar na odontologia por conta própria, lendo livros sobre o assunto, assistindo a vídeos no YouTube e, eventualmente, entrevistando dentistas. Antes que ela percebesse ela estava gastando mais tempo estudando sobre odontologia do que em seu trabalho.

    Na mesma semana em que Inam deixou o emprego, ela soube da competição Hacking Medicine do MIT e decidiu participar. Foi aí que ela começou a construir sua equipe e a fazer conexões. O primeiro financiamento da Overjet veio do grupo de investimentos afiliado ao Media Lab, o E14 Fund.

    “O fundo E14 fez o primeiro cheque, e acho que não teríamos chegado a existir se não fosse por eles nos dando uma chance”, diz ela. Inam aprendeu que um grande motivo para a variação nas recomendações de tratamento entre os dentistas é o grande número de opções potenciais de tratamento para cada doença. Uma cárie, por exemplo, pode ser tratada com uma restauração, uma coroa, um canal radicular, uma ponte, e assim por diante.

    Quando se trata de doença periodontal, os dentistas devem fazer avaliações milimétricas para determinar a gravidade e a progressão da doença. A extensão e progressão da doença determina o melhor tratamento. “Eu senti que a tecnologia poderia desempenhar um grande papel não apenas para melhorar o diagnóstico, mas também para comunicar com os pacientes de forma mais eficaz, para que eles entendam e não precisem passar pelo processo confuso que fiz de me perguntar quem está com a razão”, diz Inam.

    A Overjet começou como uma ferramenta para ajudar as seguradoras a otimizar os sinistros odontológicos antes de começar a integrar sua ferramenta diretamente nas clínicas odontológicas. Todos os dias, algumas das maiores organizações odontológicas do país estão usando Overjet, incluindo Guardian Insurance, Delta Dental, Dental Care Alliance e Jefferson Dental and Orthodontics.

    Hoje, à medida que um raio-X odontológico é importado para um computador, o software da Overjet analisa e anota as imagens automaticamente. No momento em que a imagem aparece na tela o sistema tem informações sobre o tipo de raio-X tirado, como os dentes podem ser afetados, o nível exato de perda óssea, anotando com sobreposições de cores, indicando a localização e gravidade das cáries e muito mais. A análise efetuada fornece aos dentistas mais informações para informar os pacientes sobre as opções de tratamento.

    O software da Overjet analisa e anota radiografias bucais automaticamente em tempo quase real, oferecendo informações sobre o tipo de radiografia tirada, como um dente pode ser afetado, o nível exato de perda óssea, com sobreposições de cores, a localização e gravidade das cáries, e mais. (clique para abrir a imagem no tamanho original) – Imagem: Cortesia de Overjet

    “Agora, o dentista ou higienista só precisa sintetizar essas informações e usar as ferramentas incluídas no software para se comunicar com você”, diz Inam. “Aí então, ele vai te mostrar as radiografias com as anotações do Overjet e dizer: ‘Você tem 4 milímetros de perda óssea e está no vermelho; isso é mais do que os 3 milímetros que você tinha da última vez, então vou recomendar o tratamento x, y, z.” O Overjet também incorpora informações históricas sobre cada paciente, rastreando a perda óssea em cada dente e ajudando os dentistas a detectar casos em que a doença está progredindo mais rapidamente.

    “Vimos casos em que um paciente com câncer com xerostomia pode ir do nada para algo extremamente ruim nos seis meses entre as visitas. Esses pacientes devem ir ao dentista com mais frequência”, diz Inam. “Trata-se de usar dados para mudar a forma como praticamos o atendimento, planejamos o tratamento e oferecemos serviços para diferentes tipos de pacientes.”

    O sistema operacional da odontologia

    A FDA autorizou a Overjet a operar em duas doenças altamente prevalentes. A autorização também coloca a empresa em posição de conduzir análises em nível de setor e ajudar as clínicas a se compararem com seus pares. “Usamos a mesma tecnologia para ajudar as clínicas a entender o seu desempenho e melhorar as operações”, diz Inam. “Podemos olhar para cada paciente em cada clínica e identificar como elas podem usar o software para melhorar os cuidados que estão fornecendo.”

    Seguindo em frente, Inam vê a Overjet desempenhando um papel fundamental em praticamente todos os aspectos das operações odontológicas. “Estas radiografias foram digitalizadas há bastante tempo, mas nunca foram usadas porque os computadores não conseguiam lê-las”, diz Inam. “A Overjet está transformando dados não estruturados em dados que se pode analisar.

    No momento, estamos construindo a infraestrutura básica. Eventualmente, queremos expandir a plataforma para melhorar qualquer serviço que uma clínica possa fornecer, basicamente nos tornando o sistema operacional da clínica para ajudá-las a fazer seu trabalho de forma mais eficaz.”

    Republicado com a permissão de MIT Newshttps://news.mit.edu/

    Tradução: Eraldo. B. Marques

    ~ o ~

    Nota de VoxL: Tenho uma longa história de colaboração com odontólogos e radiologistas, em vários projetos. Nos últimos anos tenho me capacitado no campo do Aprendizado de Máquina (AI) e me preparo para oferecer serviços como o descrito no artigo — começando ainda em 2022, espero. Estamos trabalhando nos detalhes do fluxo de trabalho.

    Alguns meses atrás eu fiz um post explorando o tema da visão de computador (VC) [link], enfocando de forma prática a análise facial.

    Desejamos boa sorte à Overjet no marcado brasileiro, mas aviso que seremos concorrentes [Hey, há um lugar para todos sob o Sol!].