Notáveis Fazem Alerta Sobre as Criptomoedas

Um evento muito importante sobre as criptomoedas aconteceu nesta semana, e, como sempre, passou abaixo do radar da grande mídia Tupiniquim. É exatamente por isso que este blog existe.

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Um grupo de tecnologistas renomados uniu forças para pressionar os legisladores dos EUA a reprimir a crescente indústria de criptomoedas, marcando o primeiro esforço conjunto para combater o lobby bem financiado por empresas de blockchain.

O Financial Times [não vou dar link pois essa é uma das muralhas de pagamento mais formidáveis da Internet] reporta que

o professor de Harvard Bruce Schneier, o ex-engenheiro da Microsoft Miguel de Icaza e engenheiro-chefe do Google Cloud Kelsey Hightower, estão entre os 26 cientistas da computação e acadêmicos que assinaram uma carta [link, em inglês] entregue aos legisladores dos EUA criticando fortemente os investimentos em criptomoedas e a tecnologia blockchain. Embora várias pessoas já tenham feito avisos semelhantes sobre a segurança e a confiabilidade [ou falta de] dos ativos digitais, esta iniciativa marca um esforço mais organizado para desafiar a crescente influência dos defensores das criptomoedas, que querem resistir às tentativas de regular esse setor movediço.

“As alegações que os defensores do blockchain fazem não são verdadeiras”, disse Schneier. “Não é seguro, não é descentralizado. Qualquer sistema em que alguém pode perder suas economias porque esqueceu a senha de acesso não é um sistema seguro”, acrescentou. “Estamos fazendo um contra-lobby, é disso que trata esta carta”, disse o signatário e desenvolvedor de software Stephen Diehl. “A indústria de criptomoedas tem seu próprio pessoal, e eles falam o que querem aos políticos.”

Uma análise recente feita pelo Public Citizen, um grupo de defesa do consumidor, sobre o banco de dados de divulgação de lobby do Congresso dos EUA, revelou que o número de lobistas que representam a indústria de cripto aumentou de 115 para 320 entre 2018 e 2021, e o dinheiro gasto em lobby para o setor de cripto quadruplicou de US$ 2,2 milhões a US$ 9 milhões no mesmo período. A Coinbase, cambista de criptomoedas com sede nos EUA, liderou o esforço com 26 lobistas e US$ 1,5 milhão gastos em lobby em 2021. Empresas com crescente interesse no setor de criptomoedas, incluindo Meta, Visa e PayPal, também fizeram lobby para o setor. Enquanto isso, as principais cambistas de criptomoedas, como FTX, Binance e Crypto.com, também gastaram muito em acordos de patrocínio com estrelas do esporte e do entretenimento para promover seus produtos ao público.

Contra-ataque

Note que essas pessoas não são a turma do capital. São cientistas da computação reais pedindo que esses esquemas, que muitos equiparam a pirâmides financeiras, sejam controlados. Eles não têm tempo a perder em discussões fúteis.

Há tempos esses especialistas alertam contra a adoção intempestiva de criptomoedas. Stephen Diehl disse tempos atrás que os Tokens Não Fungíveis são uma farsa e recebeu tanta atenção que os “cripto bros” escreveram alguns artigos atacando-o. Portanto não é surpresa que ele esteja contra atacando no Congresso.

Para minhas finanças pessoais, devo dizer que estou absolutamente apavorado que esse tipo de ativo esteja sendo tratado como ativo real. O crash do mercado de 2008 envolveu a propriedade imóvel. Desta vez folgo que serão apenas macacos entediados.

Distinção e responsabilidades

Uma distinção importante é que as moedas chamadas “fiduciárias” são controladas por governos e bancos centrais que têm interesse em manter a estabilidade da economia geral e não inflacionar o valor de cada unidade de moeda, porque também é o governo e os bancos centrais que têm a responsabilidade de financiar a recuperação de qualquer colapso econômico.

Por outro lado, as criptomoedas são controladas por entidades que têm interesse em inflar o valor de cada unidade de sua moeda e não se importam se a moeda eventualmente entrar em colapso porque eles apenas vão continuar seu caminho, à espera do próximo esquema – você não vai encontrar os mineradores de bitcoin para pagar os custos de moradia, alimentação ou o auxílo-desemprego das pessoas afetadas se e quando o bitcoin cair e acabar com bilhões em investimentos. A indústria de criptomoedas espalhou tanta fumaça na paisagem que os meros mortais não fazem a menor ideia do que isso tudo significa. Essa mesma indústria também conseguiu fazer com que as pessoas acreditassem que este é o futuro, e se você não vê esse futuro você é obviamente uma pessoa das cavernas.

Conselho grátis

Meu conselho aos formuladores de políticas: se você não consegue entender essa conversa de criptomoeda, provavelmente há uma boa razão, e não é porque você é estúpido. É porque a coisa toda é terrivelmente complexa. Confie em si mesmo e os desafie para o debate. No minuto em que você colocar um cripto-bro na frente do congresso, fizer perguntas em português claro, e o cripto-bro não conseguir dar respostas inteligíveis, será um sinal claro para acionar o alarme.

Há um segmento de formuladores de políticas [para não citar aquele que não deve ser citado] que pensam que o Brasil – ou qualquer outro país – será condenado ao atraso financeiro se não embarcar nessa canoa. O melhor que se pode dizer sobre o assunto é que as criptomoedas são uma solução à procura de um problema. O pior que pode ser dito… Por onde começo?

Confie no seu instinto, tenha coragem e apenas diga não.

Pesquisador Deseja Morte Dolorosa ao Bitcoin

O site Slashdot me alerta sobre Nicholas Weaver, pesquisador sênior do International Computer Science Institute dos EUA. Ele argumenta que as criptomoedas são inúteis e destrutivas, e deveriam “morrer em um incêndio”.

Bitcoins-enterrados
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Ele também é professor do departamento de ciência da computação da UC Berkeley e conhecido crítico das criptomoedas. Em uma entrevista recente na revista Current Affairs, ele promulga o que chama de Lei de Ferro de Weaver [sobre a Blockchain] : “quando alguém diz que você pode resolver um problema X com blockchain, essa pessoa [mostra que] não entende o problema X e você pode, portanto, ignorá-la.”

Assim, para aqueles que defendem a criptomoeda como uma solução para “bancar os não-bancáveis”, Weaver aponta para o contra-exemplo do M-Pesa – um sistema de pagamento parecido com o brasileiro Pix – que a Vodafone iniciou no Quênia em 2007, – “na mesma época que o Bitcoin…

Ele tem engolido o Terceiro Mundo. É um fenômeno enorme. Porque basicamente anexa um saldo à sua conta de telefone. De forma que você só precisa enviar uma mensagem de texto para outra pessoa para transferir dinheiro… Então, mesmo com o dispositvo móvel mais básico, você tem acesso a dinheiro eletrônico fácil de usar. Isso tomou conta de vários países e se tornou um enorme sistema primário de pagamento, [enquanto que] a criptomoeda não funciona.

Weaver também afirma que quando as empresas dizem que aceitam pagamentos em Bitcoin, “elas estão mentindo” (usam um serviço que as paga em “dinheiro real” após realizar as conversões na criptomoeda preferida do cliente). Ele acredita que a criptomoeda só tem sido usada seriamente para pagamentos de resgates de sequestro de dados [ransomware] e tráfico de drogas – coisas que as moedas fiduciárias são legalmente obrigadas a bloquear.

A razão pela qual fiquei tão azedo no espaço das criptomoedas é o ransomware. Isso está causando danos de dezenas a centenas de bilhões de dólares à economia global. É um problema que só existe porque as pessoas podem pagar em Bitcoin.

Weaver também acredita que a criptomoeda permite que os capitalistas de risco “tranformem fraudes de valores mobiliários em modelo de negócios”, quando vendem tokens de suas startups para investidores de varejo. Esses seriam produtos financeiros descaradamente não licenciados.

Isso é uma flagrante fraude de títulos, mas não é cometida por pessoas. São apenas as empresas nas quais os investidores participam que cometem a fraude, e a SEC [Securities and Exchange Comission – Comissão de Valores Mobiliários, EUA] não tem monitorado a situação de forma proativa. Eles só aplicam correções às Ofertas Iniciais de Moedas [Initial Coin Offer – ICO] retroativamente, depois que as operações falham… e quando as coisas falham, os únicos a serem processadas são as empresas. Assim, as pessoas que cometem as fraudes conseguem se descolar dos títulos – ficando legalmente inimputáveis, de forma que você não poderá jogá-las na cadeia….

A SEC tem autoridade para impedi-los de forma proativa e não [apenas] reativa. Mas ela opta por não fazer nada. Basicamente, há um medo entre os reguladores – que eu penso que começou nos anos 1980 – de serem acusados de “sufocar a inovação”. [Neste caso, porém] não há inovação para sufocar. Portanto, regule.

Weaver também é cético em relação a outras supostas vantagens da criptomoeda. Ele argumenta que a criptomoeda incentiva o ‘poder verde’ “da mesma forma que tiroteios aleatórios incentivam a venda de coletes à prova de balas“. E mesmo como um veículo de investimento, Weaver vê as criptomoedas como “esquemas de pirâmide auto-criados”.

É preciso continuar a receber novos otários. Assim que o número de otários seca, a moeda entra em colapso. E porque não é soma zero, mas uma soma profundamente negativa, existem muitos mecanismos que podem causar o repentino desmoronamento do valor para zero. Vimos isso outro dia com a stablecoin Terra e o token lateral Luna.

Quando perguntado sobre o futuro da criptomoeda, Weaver prevê que ela “Irá implodir espetacularmente”.

A única questão é quando. Eu achei que já teria implodido um ano atrás. Mas basicamente, o que vimos com Terra e Luna – que entraram em colapso repentinamente devido a esses ciclos de feedbacks positivos descendentes – acontecerá em todo espaço de criptomoedas.

O Washington Nationals [time de basebal da MLB americana] outro dia começou a tuitar freneticamente a propósito de seu relacionamento comercial com a [comunidade de Bitcoin] Terra. Isso foi um negócio de US$ 38 milhões por cinco anos, pagos antecipadamente em dinheiro. Assim, pelos próximos cinco anos, os Washington Nationals estão obrigados a divulgar uma criptomoeda que já falhou espetacularmente.

Minha humilde opinião

Toda a premissa por trás do Bitcoin (e assemelhados) era que ele não poderia ser controlado, regulado ou manipulado por nenhum governo. Foi apresentado como uma espécie de moeda utópica libertária.

Só que isso agora começa a parecer uma miragem. O nome verdadeiro da “liberdade da tirania do governo” é simplesmente evasão fiscal. E não é segredo para ninguém que a anonimidade das criptomoedas é um mito – se o governo realmente quiser, ele tem total capacidade de saber exatamente quem transferiu quanto para quem na Blockchain. Assim, de início a promessa básica das criptomoedas não pode ser cumprida.

Minha razão pessoal para ter sempre acreditado que era insustentável é muito simples: é um sistema que adiciona grandes quantidades de registros a um livro em constante expansão. A capacidade de computação e memória disponíveis são quantidades finitas. A adoção das criptomoedas pelo público geral traria desafios enormes à capacidade de operação dos sistemas computacionais, algo não muito considerado quando o ridículo consumo de energia elétrica do sistema absorve toda a atenção sobre o assunto.

Ressalvo neste ponto que é preciso diferenciar as criptomoedas dos smart contracts. Eu ainda acredito muito que os contratos inteligentes têm um papel a representar na economia do futuro – se é que vamos ultrapassar este momento crítico na história. Por outro lado, mesmo minha avaliação superficial mais básica do funcionamento das criptomoedas sempre me sugeriu que a ideia é basicamente insustentável. Conheço-as desde o primeiro dia.

(*)Atenção jogadores: O Bitcoin ainda tem alguma chance maior que zero de substituir o dólar como moeda de reserva mundial. Se isso acontecer, o valor do bitcoin será todo-o-dinheiro-do-mundo / 21 milhões [o total de Bitcoin que pode existir, dos quais 90% já foram ‘extraídos’]. Uma grana maravilhosa. Portanto, façam suas apostas.

O Mito da Anonimidade do Bitcoin

O site Wired traz um longo artigo de Andy Greenberg, sobre como agentes da lei, em conjunto com a empresa Chainalysis, desanonimizaram transações de bitcoin em 2017, para chegar a uma associação criminosa voltada ao abuso de menores.

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Segundo o artigo,

alguns anos após a chegada do Bitcoin, pesquisadores acadêmicos de segurança – e depois empresas como a Chainalysis – começaram a abrir buracos nas máscaras que separam os endereços dos usuários do Bitcoin de suas identidades do mundo real. A empresa tinha capacidade de seguir bitcoins na blockchain enquanto os ‘bits‘ trafegavam de endereço em endereço até chegarem a um que pudesse ser vinculado a uma identidade conhecida.

Em alguns casos, um investigador da empresa foi capaz de descobrir os endereços de Bitcoin de uma pessoa ao negociar com ela em tempo real, da mesma forma que um agente de narcóticos disfarçado pode conduzir uma compra e apreensão. Em outros casos, os investigadores puderam conduzir as transações para uma conta onde os regulamentos financeiros exigiam que os usuários provassem sua identidade. Uma rápida intimação ao(s) investigador(es) envolvidos foi suficiente para revelar a identidade das outras partes e assim eliminar qualquer ilusão de anonimato do Bitcoin.

A Chainalysis combinava essas técnicas de desanonimização com métodos que permitiam “agrupar” endereços, mostrando que dezenas [até milhões] de endereços às vezes pertenciam a uma única pessoa ou organização. Por exemplo, quando moedas de dois [ou mais] desses endereços eram gastas em uma única transação, isso revelava que o criador dessa transação de “vários registros” devia ser o controlador de ambos os endereços, permitindo que a Chainalysis os agrupasse em uma única identidade.

Em outros casos, a Chainalysis podia seguir [o que traduzirei como] a “cadeia de embolso”– um processo análogo ao rastreamento de um único maço de dinheiro enquanto um usuário o ‘embolsa’ repetidamente, ou seja, retira algumas notas e o coloca em um bolso diferente [ver ‘peel chain‘].

Graças a truques como esses, o Bitcoin acabou se tornando praticamente o oposto de “não rastreável”: uma espécie de “pote de mel” para criminosos criptográficos que, durante anos, registraram de maneira obediente e inapagável as evidências de seus negócios mal feitos. Em 2017, agências como o FBI, a Drug Enforcement Agency e a divisão de Investigação Criminal do IRS já rastreavam transações de Bitcoin rotineiramente, muitas vezes com a ajuda da Chainalysis.

O Bitcoin pode ser rastreado

Os criminosos não conheciam a tecnologia subjacente à criptomoeda [ignorância compartilhada por virtualmente 100% dos ‘investidores’], e acreditavam no proverbial “anonimato do bitcoin”, uma lenda urbana concebida na época do lançamento da moeda pelo lendário Satoshi Nakamoto.

Essa suposta não-rastreabilidade do bitcoin (e todas as outras similares) nunca foi um assunto sério para os profissionais de software, muito menos para os especialistas em segurança. Porque a rastreabilidade está necessariamente embutida na arquitetura do sistema pelos próprios requisitos do software. As moedas digitais precisam garantir duas coisas:

  • um mecanismo anti “duplo gasto”.
  • um registro completamente público de todas as transações.

Exatamente por causa das medidas contra o duplo gasto, cada moeda digital tem um identificador único que atua como um ‘fio condutor da verdade’ em cada movimento. Some-se a isso as técnicas avançadas de comunicações, como a análise de tráfego, pareada com sua equivalente financeira, a análise de transações, e lá se vai a não-rastreabilidade.

Para aqueles que ainda estão com o braço levantado, perguntem a si mesmos: “em um sistema topologicamente homogêneo, “liso” – como deve ser a arquitetura de uma criptomoeda – que mato há para se esconder?”.

A única maneira de se esconder seria de alguma forma esgotar os recursos computacionais desses rastreamentos. Como os recursos necessários para rastrear a blockchain são consideravelmente menos intensivos do que os requeridos para realizar transações, se torna óbvio que a opção ‘esconder’ não está no cardápio.

É surpreendente o tempo que os ocasionais golpistas e, mais importante, as instituições de aplicação da lei, levam para perceber esses fatos.

A inexorável corrosão das liberdades

Em 2016, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que deixaria de cunhar notas de € 500, em uma medida que, segundo eles, visava coibir fraudes e lavagem de dinheiro. A nota de 500 euros é a segunda maior denominação atualmente na zona da moeda comum do euro, e o BCE diz que é a nota preferida entre os criminosos.

Embora o objetivo declarado fosse impedir o crime financeiro, certos comentaristas [entre os quais me incluo] defendem que esse movimento hoje faz parte da crescente tendência autoritária de controle social e eliminação do dissenso. O dinheiro em espécie é simplesmente livre demais, anônimo demais. Outros analistas sustentam que a ‘guerra’ ao dinheiro se insere em um cenário de ‘corrida para o abismo’ para enfraquecer as moedas, a fim de estimular economias em declínio em todo o mundo. Seja qual for a verdade, tudo indica que veremos a eliminação completa do papel-moeda – transformado em ‘tokens’ fiduciários armazenados como registros eletrônicos em contas bancárias.

Liberdade de escolha

Às vezes falamos de “consentimento informado”, para enfatizar nossa suposta liberdade de escolha. Nós ‘conscientemente escolhemos’ usar cartão de crédito, ou bitcoin. Mas com toda a honestidade, como alguém pode ser suficientemente “informado” de tudo, em toda e qualquer pequena oportunidade?

Afinal, quando você usa um cartão de crédito para fazer uma compra, você está suficientemente “informado” para saber tudo o que seus “registros comerciais em poder de terceiros” vão produzir? A atitude blasé das pessoas diante desses detalhes torna a coleta e venda desregulada de dados pessoais muito, muito assustadora.

Eu prefiro dinheiro vivo ao invés de plástico ou bitcoins, porque, segundo minha opinião “informada”, eu fico à mercê do governo e das corporações [ou coisas ainda piores] quando ‘escolho’ usar cartões ou bitcoins.

Os políticos agora querem me impedir de ter o direito de fazer essa escolha [sem dúvida esse será o novo grande debate nos parlamentos do mundo]. Eles querem forçar todos ao dinheiro eletrônico [no Brasil, aplicativos como o Pix representam o primeiro movimento nesse sentido]. Todos devem fazer sua parte na Economia da Vigilância para que novas formas de tributação e controle social possam ser introduzidas. Ah, e, claro, lucros muito maiores para o setor bancário, que se libertaria de qualquer concorrência nos métodos de pagamento.

Vamos ser sinceros, a blockchain, e o que ela mostra nas auditorias financeiras, é uma visão pública do que a maioria das empresas de cartão de crédito/débito mantém em seus registros privados. Não é à toa que os governos, no início desconfiados, agora abraçam a ideia da criptomoeda com paixão, facilitando sua aceitação, como aconteceu com os cartões de crédito.

Por essa facilidade de rastreamento a blockchain deverá ser algo positivo no mundo dos contratos [o que é um assunto à parte].

Post scriptum

E então há os telefones celulares e os registros detalhados que eles armazenam, incluindo “dados de localização” com um grau muito alto de precisão. O fato de eu ser efetivamente forçado, pela pressão social e institucional [de novo, o Pix], a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, não é fácil para mim. Não é “consentimento informado” de forma alguma. Minha escolha seria completamente diferente se eu tivesse uma.

Entre a privacidade e a segurança a sociedade ocidental fez uma “Escolha de Hobson” invertida [uma opção entre dois nadas], e no processo deu muito poder a pessoas que realmente não deveriam tê-lo.

* * *

Escrevo no dia 12 de abril. Este post marca um ano do domínio voxleone.com. Dia de pagamento pesado ao WordPress. Mas eu pago, trabalho até aos domingos e procuro fazer um conteúdo de muita qualidade [138 artigos, 200.000 palavras], pelo simples objetivo de construir um grande site de ciência e análise de dados – além de informação e discussão tecnológica – na língua portuguesa [with a little help from my friends].

Sou insistente e só estamos no começo. 🙂

Bug nos Smart Contracts aciona um alerta jurídico

Na última quinta-feira [02/12] o blog “Schneier on Security” divulgou o caso [e deu início a uma discussão técnica] do hacker que roubou US $ 31 milhões da empresa de blockchain MonoX Finance, explorando um bug no software que o serviço usa para redigir contratos inteligentes.

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Especificamente, o atacante usou o mesmo token tanto para o tokenIn quanto para o tokenOut, que são métodos para trocar o valor de um token por outro neste tipo de operação. Funciona mais ou menos assim: O MonoX atualiza os preços após cada troca, calculando novos preços para ambos os tokens [in e out]. Quando a troca é concluída, o preço do tokenIn, ou seja, o token que é enviado pelo usuário, diminui, e o preço do tokenOut, o token recebido pelo usuário, aumenta.

Ao usar o mesmo token para as diferentes operações de tokenIn e tokenOut, o hacker inflou muito o preço do token MONO porque a atualização do tokenOut sobrescreveu a atualização de preço do tokenIn. O hacker então trocou o token por $ 31 milhões em tokens nas blockchains Ethereum e Polygon.

O problema básico neste evento é que, na arquitetura da blockchain, o código é a autoridade final – não há um protocolo de adjudicação. Então, se houver uma vulnerabilidade no código, não há recurso possível [e, claro, existem muitas vulnerabilidades no código].

Para muito observadores, incluindo Bruce Schneier, essa é uma razão suficiente para não usar contratos inteligentes para algo importante, por enquanto.

Os sistemas de adjudicação baseados na intervenção humana não são uma inútil bagagem humana pré Internet. Eles são vitais.

Bruce Schneier

Código de programação versus arbitragem humana

Na modesta opinião deste bloguista, embora, de fato, estejamos muito longe de o código ser um árbitro da justiça melhor do que um ser humano, acho que o problema básico aqui tem menos a ver com o código sendo a autoridade final e mais a ver com a falta de um protocolo de adjudicação.

No momento, não há uma boa maneira de ajustar retrospectivamente os resultados desses chamados contratos “inteligentes” com base em conhecimentos ou fatos que só podem ser totalmente apreciados ex post ao invés de ex ante, seja o conhecimento de funcionalidades não intencionais do código ou circunstâncias específicas não antecipadas pelas partes contratantes.

Este parece ser um problema bem compreendido por profissionais do direito e um aspecto amplamente suportado por diversos sistemas jurídicos (por meio de várias doutrinas, como quebra de expectativa ou previsibilidade). Já os tecnologistas proponentes de contratos inteligentes [incluindo a mim] parecem não ter ainda uma visão clara desses aspectos.

Uma transferência legítima de acordo com as regras codificadas

Para além do ‘problema básico’ descrito acima, existe um outro problema não menos básico e que se não for tratado corretamente deixará os “Contratos Inteligentes” para sempre quebrados: a maioria dos programadores normalmente escreve código sequencial limitado, não código de máquina de estado completo. Assim, uma grande quantidade elementos computacionais é deixada de fora na implementação dos contratos. Esses elementos, portanto, ficam “pendurados” e esperando para ser usados [e abusados].

Alguns críticos da blockchain dos contratos inteligentes argumentam que seria necessário incorporar uma versão forte da chamada Lógica de Hoare para garantir a integridade da computação na blockchain. A lógica de Hoare é um conjunto fundamental de regras, publicadas no final dos anos 1960. O bloco fundamental da Lógica de Hoare é a Tripla de Hoare.

Uma tripla de Hoare é da forma

{P} C {Q}

Onde {P} e {Q} são afirmações sobre o estado do sistema e C é um comando.

P, é a pré-condição
Q, é a pós-condição

Onde as asserções P e Q são expressas como fórmulas na lógica de predicados.

Quando a pré-condição P é atendida, a execução do comando C causa mudanças no sistema e estabelece a pós-condição Q.

Embora seja possível construir um código de “estado completo” com a lógica de Hoare, não é algo que a maioria das pessoas goste de fazer. Em suma, é um processo tedioso, não criativo, e colocar os pingos nos i’s e cruzar os t’s podem ser tarefas incrivelmente tediosas. Portanto, raramente é implementada, o que acaba inevitavelmente trazendo problemas em um tempo futuro.

Na vida normal, a última coisa que alguém realmente deseja é ter contratos irrevogáveis. Então a arbitragem geralmente fica “embutida” informalmente nos contratos inteligentes, através de métodos ad hoc. Em princípio, não há razão para que os contratos inteligentes não possam ter arbitragem embutida. Mas isso apenas cria uma série de questões subsequentes que ninguém quer abordar.

Até que a arbitragem de fato ou o controle total do estado sejam implementados nos Smart Contracts, veremos muito mais desse tipo de coisa acontecendo.

Move fast, break things

Eu temo que o problema descrito aqui seja um resultado lógico da abordagem “mova-se rápido e quebre coisas” preconizadas pelo Manifesto Ágil. As pessoas precisam pensar com clareza sobre até onde [e se] podemos utilizar certos paradigmas de desenvolvimento de sistemas na construção da infraestrutura da blockchain.

E como eu disse em outros posts aqui, precisamos parar de chamar as coisas de “inteligentes” quando elas são estúpidas. Antigamente, um dispositivo que não era útil sem uma conexão de rede era apropriadamente chamado de terminal burro. O código é sempre vulnerável, e qualquer desenvolvedor que não entenda isso é um “stupid hire”.

O Bitcoin Chega ao Mercado Imobiliário

A Bloomberg informa que a La Haus, uma startup de tecnologia imobiliária do México apoiada pela Jeff Bezos Expeditions, disse que passará a aceitar Bitcoin para transações imobiliárias, aumentando a crescente adoção da criptomoeda como meio de pagamento na América Latina.

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A empresa, que já permite aos usuários comprar imóveis por meio de um aplicativo, permitirá que os compradores paguem com moeda digital, começando com um conjunto habitacional em Playa del Carmen, no México. Ela gradualmente abrirá o restante de seu portfólio de mais de 80.000 propriedades para o Bitcoin, de acordo com a empresa.

“Acreditamos que o Bitcoin será a moeda de reserva do futuro”, disse Rodrigo Sanchez-Rios, presidente e cofundador da La Haus, em entrevista. “Em nossa essência, somos uma empresa de tecnologia. É natural para nós sermos pioneiros com esta tecnologia”.

A empresa está fazendo parceria com o processador de pagamentos OpenNode, com sede em Los Angeles, para permitir transações tanto na web quanto na Lightning Network – que foi projetada para tornar as compras mais rápidas e fáceis. A La Haus atuará como intermediária, pagando os vendedores em moeda corrente. A empresa ainda não decidiu quanto de Bitcoin manterá em seus balanços, disse ele.

Apesar de sua notória volatilidade, a aceitação do Bitcoin – que possui um valor de mercado de mais de US $ 1,2 trilhão após uma alta de 20% no mês passado que empurrou o preço para recordes acima de US $ 68.000 – está crescendo em toda a América Latina.

El Salvador se tornou em setembro o primeiro país do mundo a tornar ‘legal tender’ a criptomoeda, despertando o interesse de outros governos e empresas em nossa região.

O Futuro do Bitcoin

Este blog tem acompanhado a movimentação em torno do Bitcoin e minha impressão é que as opiniões em geral são mistas, indo de um otimismo cauteloso a uma visão crítica contundente.

O futuro do Bitcoin parece promissor, mas seu destino final como moeda vai depender de vários fatores. A volatilidade do Bitcoin é bem conhecida, mas para que a adoção em larga escala seja finalmente alcançada é necessário melhorar essa reputação.

Os comerciantes sempre relutarão em aceitar uma forma de pagamento cujo valor tenha uma boa chance de diminuir logo em seguida. Esse é o estado de coisas hoje, realisticamente. Mas o que precisa acontecer para que isso mude?

(1) Certeza regulatória

Com sua natureza descentralizada, a ideia de regulamentação pode parecer contraditória para o Bitcoin. Mas, na realidade, a certeza regulatória é vital para a sua adoção em massa. Embora alguns países, como a Coréia do Sul e o Japão, tenham liderado o caminho na discussão de diretrizes claras para a regulamentação do Bitcoin, grande parte do mundo ainda está atrasada nesse aspecto.

Em muitos países, o status legal do Bitcoin ainda é obscuro. À medida que mais governos ao redor do mundo introduzirem estruturas regulatórias nos próximos anos, isso dará ao Bitcoin mais legitimidade como um ativo convencional.

(2) Facilidade de uso

Pagar por bens com moeda corrente é uma experiência simples. Embora o uso de dinheiro convencional seja cada vez mais raro, é ainda muito fácil pagar com cartões ou com aplicativos como ApplePay ou WeChatPay, especialmente em mercados asiáticos. Pagar por produtos usando Bitcoin ainda não é uma experiência simples para a maioria das pessoas.

Na situação atual, embora sejam componentes necessários à arquitetura do sistema, coisas como “carteiras quentes e frias” e “chaves públicas e privadas” podem ser muito complexas para uma pessoa comum entender. A indústria da criptografia precisa encontrar uma maneira de tornar o processo de compra com Bitcoin mais facilmente digerível.

Uma maneira de conseguir isso é por meio de um maior envolvimento de terceiros, expondo o Bitcoin a um público mais amplo por meio de outras plataformas. Conforme noticiado recentemente pela Bybit Insights, o Paypal está planejando oferecer vendas via criptomoedas para seus 325 milhões de usuários.

Esse “gateway” de pagamento pode muito bem vir a ser uma virada de jogo na adoção em massa do Bitcoin e da criptografia. Visa e Mastercard também anunciaram iniciativas para incluir a opção de pagamentos em Bitcoins e criptomoedas em geral, em um sinal seguro de que os provedores de pagamento estão suavizando sua postura.

(3) O Trilema da Escalabilidade da Blockchain

A escalabilidade é um problema constante para a blockchain do Bitcoin. Enquanto um novo bloco na blockchain pode acomodar em média cerca de 2700 transações (com um bloco adicionado a cada 10 minutos), a Visa, por exemplo, pode precisar de 2.000 transações por segundo [transações por segundo (TPS) é o número de transações que uma rede blockchain pode processar a cada segundo].

Portanto, é óbvio que para ser capaz de competir, mudanças precisam ser feitas para melhorar a escalabilidade da rede Bitcoin. Esse problema é conhecido como trilema da escalabilidade da blockchain:

  • Escalabilidade: é a capacidade da blockchain de acomodar um maior volume de transações.
  • Segurança: é a capacidade de proteger os dados mantidos na blockchain de diferentes ataques ou a capacidade de defesa da blockchain contra duplicidades.
  • Descentralização: é a capacidade de redundância na rede, que impede que entidades ou grupos minoritários assumam o controle.
Gráfico: Vox Leone

Várias soluções foram propostas. Uma dessas soluções é o SegWit.

O desenvolvedor de Bitcoin Dr. Pieter Wuille, sugere que, para resolver esse problema, a assinatura digital precisa ser segregada dos dados da transação. Este processo é conhecido como Testemunha Segregada ou Segregated Witness – SegWit. A assinatura digital responde por 65% do tamanho físico de uma determinada transação. SegWit propõe remover a assinatura de dentro da entrada e movê-la para uma outra estrutura, no final de uma transação.

Isso aumentaria o limite de tamanho de um bloco de 1 MB para um pouco menos de 4 MB. Além de aumentar ligeiramente o tamanho dos blocos, o SegWit também resolve o problema do “spoofing”, em que um receptor pode interceptar e modificar o ID de transação do remetente em uma tentativa de extrair mais moedas desse remetente. Visto que a assinatura digital seria separada da entrada, a parte inescrupulosa não teria como alterar o ID da transação sem também anular a assinatura digital.

O grau de escalabilidade é importante porque determina a capacidade eventual de qualquer rede. Dito de outra forma, ele determina o limite superior de quão grande uma rede pode crescer.

Enfim

Como sabemos, ao contrário do petróleo o Bitcoin não é tangível e não tem uso prático no mundo físico. Ele também tem uma oferta limitada. E o protocolo subjacente à blockchain garante que novos Bitcoins sejam produzidos a uma taxa consistente (embora decrescente, chamada de ‘halving‘ – a cada quatro anos a produção é cortada pela metade), independente do poder de computação. Dessa forma, a relação do Bitcoin com a oferta, produção e preço final é completamente diferente das commodities tradicionais. Isso faz sentido, porque, afinal de contas, a intenção original era ser uma moeda completamente diferente.

O poder de reduzir constantemente a oferta pela metade é realmente uma solução elegante, considerando que em 2060 a oferta anual de Bitcoins aumentará apenas na casa das centenas, e não milhões, por ano. Quando essa oferta adicional se tornar insignificante, poderemos ver a volatilidade do preço do bitcoin cair. E só então, talvez, o Bitcoin pare de nos fazer lembrar de commodities e investimentos e realmente se torne o que deveria ter sido desde o início.

Seguimos com atenção aos problemas do Bitcoin e abriremos outras discussões à medida que surgem novos desenvolvimentos.