O Fim do Uber Barato

O dinheiro está ficando caro no mundo todo à medida que as taxas de juros aumentam, colocando fim a uma década de emergência de tecnologias “disruptivas”. O Uber talvez seja a mais notável entre elas.

Fim do Uber barato
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A suposição geral sempre foi de que o Uber estava a queimar todo o dinheiro dos investidores com o objetivo de dominar o mercado. Uma vez que eliminasse o serviço de carros, os cartéis de táxi e, finalmente, seus rivais da carona, a empresa pararia de cobrar dos passageiros menos do que estava pagando aos motoristas [uma forma de subsídio] e os preços teriam que subir.

Pois a revista Slate reporta que na manhã de segunda-feira (23/05), um Uber de Manhattan para o aeroporto JFK custava US$ 100 – quase o dobro da tarifa fixa do táxi amarelo! Prossegue a Slate:

O confronto Uber-vs-táxi é a forma como a maioria das pessoas concebe o impacto do Uber no mercado, mas a Década das Viagens Baratas teve efeitos bem mais profundos em como vivemos e nos locomovemos. O fracasso de empresas de compartilhamento de carros como Maven e car2go é um exemplo de como todo esse subsídio do Uber distorceu o mercado, anulou modelos de negócios que de outra forma poderiam ter prosperado e mudou hábitos que poderiam ter perdurado. A empresa fez isso tanto para o bem – levando à redução do tamanho dos estacionamentos, suprimindo a direção embriagada – como para o mal – aumentando a propriedade de carros e o congestionamento do tráfego.

Uma consequência bem conhecida do subsídio ao passageiro é o declínio no transporte público. Um estudo estima que a chegada de Uber e Lyft em uma cidade diminui o número de passageiros de trem em 1,29% e o de ônibus em 1,7% a cada ano. Em São Francisco, onde o Uber foi fundado, os autores estimam que o Uber diminuiu o número de passageiros de ônibus em 12,7%. Um segundo estudo concluiu um declínio de 5,4% no número de passageiros de ônibus em cidades de médio porte. Um terceiro estudo registrou o declínio em 8,9%. Um fenômeno relacionado ao Uber foi um aumento considerável no congestionamento do tráfego no centro da cidade.

De volta a mim

Uber e Lyft fazem sucesso há uma década porque o monopólio desfrutado pelas empresas de táxi não dava a elas incentivo para melhorar seu serviço – nem mesmo para aceitar cartões de crédito. O bem indiscutível que as empresas de compartilhamento de viagens fizeram ao mundo foi forçar as empresas tradicionais de táxi a ir além dos motoristas mal educados, abraçar a tecnologia e levar a sério atendimento ao cliente. Na nova configuração do mercado que se estabelece, os táxis têm uma vantagem clara porque melhoraram seu produto e, ao mesmo tempo, contam com uma melhor regulamentação para seus motoristas, veículos e preços. Se Uber e Lyft quiserem acompanhar, é a vez deles se reinventarem.

A paisagem mudará radicalmente nos próximos 10 anos, de forma irreconhecível [contanto que não nos matemos no meio-tempo]. O Uber hoje está em um lugar de dor enquanto outras empresas e seus concorrentes achatam cada vez mais a relação custo/preço. O Uber está tentando encaixar um modelo de lucro do século 20 em um serviço onde imperam novos referenciais. Está em aberto se eles serão capazes de competir, a se manter essa atitude.

Los Contras

Muitos críticos apontam que o custo das operações não deve ser tão alto, pois, em termos físicos, a tecnologia é relativamente simples. Eles argumentam que basicamente o que Uber faz é conectar um servidor a um aplicativo; o aplicativo conecta motoristas e passageiros. É isso em essência. Depois que o aplicativo e os servidores estão configurados, a manutenção do sistema não pode ser muito cara, considerando tudo.

Esses críticos também lembram que o Uber tentou se tornar uma empresa de tecnologia criando veículos autônomos. Seus lucros faltantes hoje teriam sido consumidos nesse empreendimento fracassado. Além disso, há comentário sobre executivos a desviar para ganho pessoal muito mais do que sua parte devida da receita.

Em suma, a empresa poderia ser lucrativa apenas se atendo ao que ela faz bem. Mas talvez isso não seja o suficiente para seus líderes.

Advogado do Diabo

Concordo que eles não parecem ser uma empresa gerida de forma eficiente. Por outro lado, por ter passado parte da minha vida profissional no campo da logística, eu posso ver como é complicado [e portanto caro] manter o número necessário de motoristas para que os usuários sejam atendidos em tempo hábil, como os clientes da Uber estão acostumados. A Uber tem uma grande rotatividade de motoristas, e isso é insano.

Parte da despesa que muitos críticos não entendem é que o Uber paga grandes bônus e incentivos no primeiro mês para os novos motoristas para atraí-los para o rebanho, mas são incapazes de manter o ritmo de pagamento em função do cada vez mais escasso capital de risco e do irrealismo das baixas tarifas que eles cobram.

Obviamente, eles poderiam pagar mais aos motoristas para mantê-los no serviço, mas isso só faz aumentar as tarifas. Aumentar as tarifas tem um forte impacto na demanda. Os próprios estudos internos do Uber mostraram isso várias vezes. Há também o fato de que o aumento do pagamento dos motoristas é “para sempre”, mas o pagamento de bônus aos acionistas e outras despesas não podem ser facilmente reduzidos a qualquer momento.

Meu ponto é que se tivesse sido sempre fácil reduzir tão drasticamente as tarifas tradicionais de táxi como o Uber inicialmente fez, isso já teria acontecido. Sim, eles economizaram dinheiro não tendo que fornecer os veículos para o serviço, mas de agora em diante eles serão obrigados a pagar mais aos seus motoristas, para mantê-los dirigindo e destruindo seus próprios veículos. Com o passar do tempo, os mitos sobre o dinheiro fácil que os motoristas supostamente podem ganhar com o Uber foram amplamente destruídos. Isso também dificulta a retenção de motoristas.

O Uber ainda continuará a existir com tarifas mais altas e talvez ele ate se torne melhor, do ponto de vista do cliente, do que muitas empresas de táxi. Mas a vantagem que costumava ter tem diminuído rapidamente, com seus concorrentes agora se tornando também capazes de prestar um serviço lucrativo.

Parte do que impediu as empresas tradicionais de táxi de competir com o Uber é que elas não puderam investir em um aplicativo e atrair mais motoristas justamente porque as tarifas que estavam praticando não estavam sendo lucrativas – por causa do Uber. Para competir com o Uber elas só podem cobrar um certo tanto, e, nesse ponto, a maioria dos consumidores pagará com prazer um pouco mais ao Uber do que a uma empresa de táxi, talvez pela dinâmica cultural em curso. Lamentavelmente, o Uber não soube usar essa margem que sempre teve.

Para terminar

Aumentar as tarifas é a maneira mais rápida de curar as preocupações atuais do Uber quanto a um influxo menor de dinheiro vindo do capital de risco. Mas aumentar as tarifas significa oferecer menos viagens, o que também afeta o pagamento do motorista. Menos passageiros equivale a menos tarifas.

No fim de tudo, o Uber só conseguiu obter o número de passageiros que possui vendendo corridas com prejuízo. Como o artigo que enfocamos aponta, esse tempo acabou. Agora o Uber vai se tornar uma empresa de táxi como qualquer outra, e será forçado ao paradoxo de ter que atrair passageiros praticando tarifas cada vez mais altas.

O maior obstáculo a ser superado é interno. O Uber construiu toda a sua cultura sobre o pressuposto duvidoso de que ele era a “Próxima Grande Coisa” transformadora. De fato era, desde que tivesse conseguido obter trinta bilhões de dólares para queimar, mas esse dinheiro acabou.

Será um ajuste difícil para alguns de seus orgulhosos funcionários quando perceberem: “Ei, não somos uma empresa de tecnologia; somos apenas uma empresa de táxi”…

Pesquisador Deseja Morte Dolorosa ao Bitcoin

O site Slashdot me alerta sobre Nicholas Weaver, pesquisador sênior do International Computer Science Institute dos EUA. Ele argumenta que as criptomoedas são inúteis e destrutivas, e deveriam “morrer em um incêndio”.

Bitcoins-enterrados
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Ele também é professor do departamento de ciência da computação da UC Berkeley e conhecido crítico das criptomoedas. Em uma entrevista recente na revista Current Affairs, ele promulga o que chama de Lei de Ferro de Weaver [sobre a Blockchain] : “quando alguém diz que você pode resolver um problema X com blockchain, essa pessoa [mostra que] não entende o problema X e você pode, portanto, ignorá-la.”

Assim, para aqueles que defendem a criptomoeda como uma solução para “bancar os não-bancáveis”, Weaver aponta para o contra-exemplo do M-Pesa – um sistema de pagamento parecido com o brasileiro Pix – que a Vodafone iniciou no Quênia em 2007, – “na mesma época que o Bitcoin…

Ele tem engolido o Terceiro Mundo. É um fenômeno enorme. Porque basicamente anexa um saldo à sua conta de telefone. De forma que você só precisa enviar uma mensagem de texto para outra pessoa para transferir dinheiro… Então, mesmo com o dispositvo móvel mais básico, você tem acesso a dinheiro eletrônico fácil de usar. Isso tomou conta de vários países e se tornou um enorme sistema primário de pagamento, [enquanto que] a criptomoeda não funciona.

Weaver também afirma que quando as empresas dizem que aceitam pagamentos em Bitcoin, “elas estão mentindo” (usam um serviço que as paga em “dinheiro real” após realizar as conversões na criptomoeda preferida do cliente). Ele acredita que a criptomoeda só tem sido usada seriamente para pagamentos de resgates de sequestro de dados [ransomware] e tráfico de drogas – coisas que as moedas fiduciárias são legalmente obrigadas a bloquear.

A razão pela qual fiquei tão azedo no espaço das criptomoedas é o ransomware. Isso está causando danos de dezenas a centenas de bilhões de dólares à economia global. É um problema que só existe porque as pessoas podem pagar em Bitcoin.

Weaver também acredita que a criptomoeda permite que os capitalistas de risco “tranformem fraudes de valores mobiliários em modelo de negócios”, quando vendem tokens de suas startups para investidores de varejo. Esses seriam produtos financeiros descaradamente não licenciados.

Isso é uma flagrante fraude de títulos, mas não é cometida por pessoas. São apenas as empresas nas quais os investidores participam que cometem a fraude, e a SEC [Securities and Exchange Comission – Comissão de Valores Mobiliários, EUA] não tem monitorado a situação de forma proativa. Eles só aplicam correções às Ofertas Iniciais de Moedas [Initial Coin Offer – ICO] retroativamente, depois que as operações falham… e quando as coisas falham, os únicos a serem processadas são as empresas. Assim, as pessoas que cometem as fraudes conseguem se descolar dos títulos – ficando legalmente inimputáveis, de forma que você não poderá jogá-las na cadeia….

A SEC tem autoridade para impedi-los de forma proativa e não [apenas] reativa. Mas ela opta por não fazer nada. Basicamente, há um medo entre os reguladores – que eu penso que começou nos anos 1980 – de serem acusados de “sufocar a inovação”. [Neste caso, porém] não há inovação para sufocar. Portanto, regule.

Weaver também é cético em relação a outras supostas vantagens da criptomoeda. Ele argumenta que a criptomoeda incentiva o ‘poder verde’ “da mesma forma que tiroteios aleatórios incentivam a venda de coletes à prova de balas“. E mesmo como um veículo de investimento, Weaver vê as criptomoedas como “esquemas de pirâmide auto-criados”.

É preciso continuar a receber novos otários. Assim que o número de otários seca, a moeda entra em colapso. E porque não é soma zero, mas uma soma profundamente negativa, existem muitos mecanismos que podem causar o repentino desmoronamento do valor para zero. Vimos isso outro dia com a stablecoin Terra e o token lateral Luna.

Quando perguntado sobre o futuro da criptomoeda, Weaver prevê que ela “Irá implodir espetacularmente”.

A única questão é quando. Eu achei que já teria implodido um ano atrás. Mas basicamente, o que vimos com Terra e Luna – que entraram em colapso repentinamente devido a esses ciclos de feedbacks positivos descendentes – acontecerá em todo espaço de criptomoedas.

O Washington Nationals [time de basebal da MLB americana] outro dia começou a tuitar freneticamente a propósito de seu relacionamento comercial com a [comunidade de Bitcoin] Terra. Isso foi um negócio de US$ 38 milhões por cinco anos, pagos antecipadamente em dinheiro. Assim, pelos próximos cinco anos, os Washington Nationals estão obrigados a divulgar uma criptomoeda que já falhou espetacularmente.

Minha humilde opinião

Toda a premissa por trás do Bitcoin (e assemelhados) era que ele não poderia ser controlado, regulado ou manipulado por nenhum governo. Foi apresentado como uma espécie de moeda utópica libertária.

Só que isso agora começa a parecer uma miragem. O nome verdadeiro da “liberdade da tirania do governo” é simplesmente evasão fiscal. E não é segredo para ninguém que a anonimidade das criptomoedas é um mito – se o governo realmente quiser, ele tem total capacidade de saber exatamente quem transferiu quanto para quem na Blockchain. Assim, de início a promessa básica das criptomoedas não pode ser cumprida.

Minha razão pessoal para ter sempre acreditado que era insustentável é muito simples: é um sistema que adiciona grandes quantidades de registros a um livro em constante expansão. A capacidade de computação e memória disponíveis são quantidades finitas. A adoção das criptomoedas pelo público geral traria desafios enormes à capacidade de operação dos sistemas computacionais, algo não muito considerado quando o ridículo consumo de energia elétrica do sistema absorve toda a atenção sobre o assunto.

Ressalvo neste ponto que é preciso diferenciar as criptomoedas dos smart contracts. Eu ainda acredito muito que os contratos inteligentes têm um papel a representar na economia do futuro – se é que vamos ultrapassar este momento crítico na história. Por outro lado, mesmo minha avaliação superficial mais básica do funcionamento das criptomoedas sempre me sugeriu que a ideia é basicamente insustentável. Conheço-as desde o primeiro dia.

(*)Atenção jogadores: O Bitcoin ainda tem alguma chance maior que zero de substituir o dólar como moeda de reserva mundial. Se isso acontecer, o valor do bitcoin será todo-o-dinheiro-do-mundo / 21 milhões [o total de Bitcoin que pode existir, dos quais 90% já foram ‘extraídos’]. Uma grana maravilhosa. Portanto, façam suas apostas.

Notas Sobre o Twitter e a Liberdade de Expressão

Eu não estava interessado no Twitter antes e não estou agora, mas o comentário gerado pela recente mudança na administração do site é muito interessante, e estarei a acompanhar os desenvolvimentos bem de perto.

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Em primeiro lugar, porque é realmente muito engraçado assistir de fora. Cenário: o Twitter, de longe a mais tóxica de todas as plataformas, está sendo vendido para um empreendedor rebelde e imprevisível e os usuários estão surtando porque têm medo de o “Twitter se tornar tóxico”. Não é uma maravilhosa ironia?

Escusado será dizer que as plataformas sociais não podem ser absolutamente livres para todos: a liberdade de expressão sempre esteve sujeita a limites e Elon Musk não parece questionar isso de forma alguma.

Ele apenas entende que as vozes daqueles que foram considerados “deploráveis”, ou “tóxicos”, ou “inaceitáveis” pela elite atual – ainda que o que eles digam esteja dentro dos limites da lei – também têm o direito de serem ouvidas.

Liberdade de expressão

Em minha filosofia pessoal, o direito de falar/escrever/expressar uma opinião, desde que esteja dentro dos limites da lei, supera o direito de qualquer progressista a um ”espaço virtual seguro”. A liberdade de expressão é muito mais importante do que Harry e Meghan se sentirem ameaçados em sua fachada pública. É deveras preocupante que isso tenha se tornado um assunto controverso.

Uma democracia saudável precisa de um debate indisciplinado e o tipo de restrição à expressão pessoal [não se trata de censura pelo fato de não envolver o estado ou o espaço público real] que parece estar acontecendo no Twitter [expulsar Donald enquanto o Talibã pode manter sua conta] está nos afastando disso. O equilíbrio precisa ser restabelecido de alguma forma.

O problema é que a grande massa historicamente excluída agora dispõe de meios poderosos de auto expressão e comunicação. Todos têm agora algo análogo a uma bomba atômica em uma maleta. Para ser totalmente franco, eu mesmo cheguei a flertar com fantasias Butlerianas. Até recentemente eu acreditava que a democratização da computação e seu poder de amplificação da experiência humana tinha sido um erro, que acabou por gerar uma ameaça existencial para a espécie. A solução, portanto, seria o confisco dessa capacidade e a limitação do poder de computação acessível ao usuário comum.

É fácil ver que a “solução” acarretaria problemas ainda maiores, o que faz as palavras de meu estimado correspondente Clive Robinson se destacarem como um verdadeiro axioma: “problemas sociais não podem ser resolvidos pela tecnologia”. Será preciso firmeza institucional e muita educação pública para que seja possível superar este momento delicado da trajetória humana.

Nota lateral: minha própria orientação política mudou nos últimos anos, de centro-esquerda para centro-direita. Vários são os fatores que causaram isso, mas comentários como os de Hillary Clinton sobre os “deploráveis” [sou hétero] não ajudaram a aumentar minha simpatia. Aquilo cristalizou a hipocrisia absoluta do lado em que eu pensava estar – alegando ser tolerante mas ainda abusando e desrespeitando pessoas que pensam diferente. O Twitter de hoje é simplesmente uma manifestação online da atitude mental a partir da qual comentários como aquele floresceram.

Aspectos pouco discutidos

Uma parte desta aquisição industrial que parece ser ignorada em favor das implicações da guerra cultural são os aspectos financeiros. O Twitter é um negócio viável? Será capaz de gerar um lucro substancial para Musk? Não faço ideia.

A outra parte da história que não foi considerada [pelo menos não que eu tenha visto] é a reação dos funcionários progressistas do Twitter. Li em algum lugar que alguns deles chegaram a chorar quando a notícia da aquisição foi divulgada (sim, eu ri). Mas como eles vão se comportar quando Musk estiver totalmente no controle? Eles vão se demitir em massa? Ou eles vão permanecer na empresa e assim minar sua própria agenda? Elon vai reequipar toda a organização com pessoas de outra matriz ideológica?

Me parece que quando Elon Musk insiste na questão da ‘liberdade de expressão’ o que ele quer dizer realmente é que “o Twitter favoreceu demais a Elite progressista, e eu não vou mais fazer isso”. É possível argumentar que a chamada Elite progressista é servida por verdadeiras ‘guildas’ para impor sua posição de dominância – as guildas, neste caso, sendo instituições como a CNN, a Rede Globo, e as Mídias Sociais, além dos sumos sacerdotes da intelligensia. A compra do Twitter por alguém aparentemente “fora da Elite” tem, portanto, uma desconfortável sensação de deslocamento.

De fato, a atmosfera pública exala, em pleno 2022, uma alarmante fragrância de fin-de-siècle oitocentista.

Da Wikipedia sobre o fin-de-siècle: O principal tema político da época era a revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia liberal. A geração do fin-de-siècle apoiou o emocionalismo, o irracionalismo, o subjetivismo e o vitalismo, enquanto a mentalidade da época via a civilização como estando em uma crise que exigia uma solução massiva e total.

Liberalismo versus coletivismo

Além disso, a própria ideia contemporânea [notadamente nos EUA] de que os marxistas são “liberais” – uma filosofia fantástica que tem sido construída pelas melhores mentes acadêmicas do Ocidente por décadas – é uma falácia. No século passado os marxistas foram perseguidos, cancelados, odiados por causa das coisas horríveis que os marxistas de todo o mundo faziam.

Tanto para revidar quanto para formular um rótulo aceitável para se adaptar ao sistema político [ou mesmo para se esconder], eles inventaram uma “nova filosofia”, na verdade apenas uma regurgitação do marxismo, e a chamaram de “liberalismo progressista” como se fosse simplesmente um novo ramo do estimado liberalismo clássico.

É claro que não era nada disso – e qualquer um que se desse ao trabalho de examinar perceberia rapidamente que era a total antítese do liberalismo. Era coletivismo versus individualismo; governo grande versus governo pequeno; resultados iguais versus oportunidades iguais. E o mais importante de tudo, propagou-se um certo “imperativo moral” de violar os direitos de certas pessoas em nome de um objetivo indefinível de “justiça social” [já ouvimos isso antes?].

Infelizmente, o estratagema funcionou. A rede de professores marxistas em universidades de todos os países começou a alardear o “liberalismo progressista” como o novo eufemismo para o marxismo. Para os de fora, soava como liberalismo. Mas, as coisas sempre desandam quando, por ideologia, a palavra ‘justiça’ aparece na frente da palavra ‘social’. O resultado é sempre a negação do que se pretende: “NÃO Liberalismo” [iliberalismo] e “injustiça”.

Todos os totalitários precisam, para atingir seus objetivos, mentir perpetuamente. Do contrário seria obviamente impossível concordar com os objetivos que eles realmente querem atingir. Até cerca de 2010, havia um equilíbrio entre as pessoas que amavam a liberdade versus aqueles que queriam um governo draconiano em seu alcance social, com as diferenças geralmente sendo nuanças. Hoje, a divisão é quase perfeita – com amantes da liberdade e os progressistas cripto-totalitários em lados claramente opostos.

Vale a pena notar que Milton Friedman e F. A. Hayek, ambos odiados pelos “liberais progressistas” de hoje, que os consideram cães raivosos da direita, se recusaram a desistir do termo “liberal” em favor do termo “conservador”, referindo-se a si mesmos como “liberais clássicos”. F. A. Hayek chegou a escrever um artigo chamado “Por Que Não Sou Conservador” em um esforço para reabilitar o termo, apontando que a raiz etimológica da palavra liberal é liberdade.

Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.

O Mito da Anonimidade do Bitcoin

O site Wired traz um longo artigo de Andy Greenberg, sobre como agentes da lei, em conjunto com a empresa Chainalysis, desanonimizaram transações de bitcoin em 2017, para chegar a uma associação criminosa voltada ao abuso de menores.

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Segundo o artigo,

alguns anos após a chegada do Bitcoin, pesquisadores acadêmicos de segurança – e depois empresas como a Chainalysis – começaram a abrir buracos nas máscaras que separam os endereços dos usuários do Bitcoin de suas identidades do mundo real. A empresa tinha capacidade de seguir bitcoins na blockchain enquanto os ‘bits‘ trafegavam de endereço em endereço até chegarem a um que pudesse ser vinculado a uma identidade conhecida.

Em alguns casos, um investigador da empresa foi capaz de descobrir os endereços de Bitcoin de uma pessoa ao negociar com ela em tempo real, da mesma forma que um agente de narcóticos disfarçado pode conduzir uma compra e apreensão. Em outros casos, os investigadores puderam conduzir as transações para uma conta onde os regulamentos financeiros exigiam que os usuários provassem sua identidade. Uma rápida intimação ao(s) investigador(es) envolvidos foi suficiente para revelar a identidade das outras partes e assim eliminar qualquer ilusão de anonimato do Bitcoin.

A Chainalysis combinava essas técnicas de desanonimização com métodos que permitiam “agrupar” endereços, mostrando que dezenas [até milhões] de endereços às vezes pertenciam a uma única pessoa ou organização. Por exemplo, quando moedas de dois [ou mais] desses endereços eram gastas em uma única transação, isso revelava que o criador dessa transação de “vários registros” devia ser o controlador de ambos os endereços, permitindo que a Chainalysis os agrupasse em uma única identidade.

Em outros casos, a Chainalysis podia seguir [o que traduzirei como] a “cadeia de embolso”– um processo análogo ao rastreamento de um único maço de dinheiro enquanto um usuário o ‘embolsa’ repetidamente, ou seja, retira algumas notas e o coloca em um bolso diferente [ver ‘peel chain‘].

Graças a truques como esses, o Bitcoin acabou se tornando praticamente o oposto de “não rastreável”: uma espécie de “pote de mel” para criminosos criptográficos que, durante anos, registraram de maneira obediente e inapagável as evidências de seus negócios mal feitos. Em 2017, agências como o FBI, a Drug Enforcement Agency e a divisão de Investigação Criminal do IRS já rastreavam transações de Bitcoin rotineiramente, muitas vezes com a ajuda da Chainalysis.

O Bitcoin pode ser rastreado

Os criminosos não conheciam a tecnologia subjacente à criptomoeda [ignorância compartilhada por virtualmente 100% dos ‘investidores’], e acreditavam no proverbial “anonimato do bitcoin”, uma lenda urbana concebida na época do lançamento da moeda pelo lendário Satoshi Nakamoto.

Essa suposta não-rastreabilidade do bitcoin (e todas as outras similares) nunca foi um assunto sério para os profissionais de software, muito menos para os especialistas em segurança. Porque a rastreabilidade está necessariamente embutida na arquitetura do sistema pelos próprios requisitos do software. As moedas digitais precisam garantir duas coisas:

  • um mecanismo anti “duplo gasto”.
  • um registro completamente público de todas as transações.

Exatamente por causa das medidas contra o duplo gasto, cada moeda digital tem um identificador único que atua como um ‘fio condutor da verdade’ em cada movimento. Some-se a isso as técnicas avançadas de comunicações, como a análise de tráfego, pareada com sua equivalente financeira, a análise de transações, e lá se vai a não-rastreabilidade.

Para aqueles que ainda estão com o braço levantado, perguntem a si mesmos: “em um sistema topologicamente homogêneo, “liso” – como deve ser a arquitetura de uma criptomoeda – que mato há para se esconder?”.

A única maneira de se esconder seria de alguma forma esgotar os recursos computacionais desses rastreamentos. Como os recursos necessários para rastrear a blockchain são consideravelmente menos intensivos do que os requeridos para realizar transações, se torna óbvio que a opção ‘esconder’ não está no cardápio.

É surpreendente o tempo que os ocasionais golpistas e, mais importante, as instituições de aplicação da lei, levam para perceber esses fatos.

A inexorável corrosão das liberdades

Em 2016, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que deixaria de cunhar notas de € 500, em uma medida que, segundo eles, visava coibir fraudes e lavagem de dinheiro. A nota de 500 euros é a segunda maior denominação atualmente na zona da moeda comum do euro, e o BCE diz que é a nota preferida entre os criminosos.

Embora o objetivo declarado fosse impedir o crime financeiro, certos comentaristas [entre os quais me incluo] defendem que esse movimento hoje faz parte da crescente tendência autoritária de controle social e eliminação do dissenso. O dinheiro em espécie é simplesmente livre demais, anônimo demais. Outros analistas sustentam que a ‘guerra’ ao dinheiro se insere em um cenário de ‘corrida para o abismo’ para enfraquecer as moedas, a fim de estimular economias em declínio em todo o mundo. Seja qual for a verdade, tudo indica que veremos a eliminação completa do papel-moeda – transformado em ‘tokens’ fiduciários armazenados como registros eletrônicos em contas bancárias.

Liberdade de escolha

Às vezes falamos de “consentimento informado”, para enfatizar nossa suposta liberdade de escolha. Nós ‘conscientemente escolhemos’ usar cartão de crédito, ou bitcoin. Mas com toda a honestidade, como alguém pode ser suficientemente “informado” de tudo, em toda e qualquer pequena oportunidade?

Afinal, quando você usa um cartão de crédito para fazer uma compra, você está suficientemente “informado” para saber tudo o que seus “registros comerciais em poder de terceiros” vão produzir? A atitude blasé das pessoas diante desses detalhes torna a coleta e venda desregulada de dados pessoais muito, muito assustadora.

Eu prefiro dinheiro vivo ao invés de plástico ou bitcoins, porque, segundo minha opinião “informada”, eu fico à mercê do governo e das corporações [ou coisas ainda piores] quando ‘escolho’ usar cartões ou bitcoins.

Os políticos agora querem me impedir de ter o direito de fazer essa escolha [sem dúvida esse será o novo grande debate nos parlamentos do mundo]. Eles querem forçar todos ao dinheiro eletrônico [no Brasil, aplicativos como o Pix representam o primeiro movimento nesse sentido]. Todos devem fazer sua parte na Economia da Vigilância para que novas formas de tributação e controle social possam ser introduzidas. Ah, e, claro, lucros muito maiores para o setor bancário, que se libertaria de qualquer concorrência nos métodos de pagamento.

Vamos ser sinceros, a blockchain, e o que ela mostra nas auditorias financeiras, é uma visão pública do que a maioria das empresas de cartão de crédito/débito mantém em seus registros privados. Não é à toa que os governos, no início desconfiados, agora abraçam a ideia da criptomoeda com paixão, facilitando sua aceitação, como aconteceu com os cartões de crédito.

Por essa facilidade de rastreamento a blockchain deverá ser algo positivo no mundo dos contratos [o que é um assunto à parte].

Post scriptum

E então há os telefones celulares e os registros detalhados que eles armazenam, incluindo “dados de localização” com um grau muito alto de precisão. O fato de eu ser efetivamente forçado, pela pressão social e institucional [de novo, o Pix], a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, não é fácil para mim. Não é “consentimento informado” de forma alguma. Minha escolha seria completamente diferente se eu tivesse uma.

Entre a privacidade e a segurança a sociedade ocidental fez uma “Escolha de Hobson” invertida [uma opção entre dois nadas], e no processo deu muito poder a pessoas que realmente não deveriam tê-lo.

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Escrevo no dia 12 de abril. Este post marca um ano do domínio voxleone.com. Dia de pagamento pesado ao WordPress. Mas eu pago, trabalho até aos domingos e procuro fazer um conteúdo de muita qualidade [138 artigos, 200.000 palavras], pelo simples objetivo de construir um grande site de ciência e análise de dados – além de informação e discussão tecnológica – na língua portuguesa [with a little help from my friends].

Sou insistente e só estamos no começo. :)