Pesquisador Deseja Morte Dolorosa ao Bitcoin

O site Slashdot me alerta sobre Nicholas Weaver, pesquisador sênior do International Computer Science Institute dos EUA. Ele argumenta que as criptomoedas são inúteis e destrutivas, e deveriam “morrer em um incêndio”.

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Ele também é professor do departamento de ciência da computação da UC Berkeley e conhecido crítico das criptomoedas. Em uma entrevista recente na revista Current Affairs, ele promulga o que chama de Lei de Ferro de Weaver [sobre a Blockchain] : “quando alguém diz que você pode resolver um problema X com blockchain, essa pessoa [mostra que] não entende o problema X e você pode, portanto, ignorá-la.”

Assim, para aqueles que defendem a criptomoeda como uma solução para “bancar os não-bancáveis”, Weaver aponta para o contra-exemplo do M-Pesa – um sistema de pagamento parecido com o brasileiro Pix – que a Vodafone iniciou no Quênia em 2007, – “na mesma época que o Bitcoin…

Ele tem engolido o Terceiro Mundo. É um fenômeno enorme. Porque basicamente anexa um saldo à sua conta de telefone. De forma que você só precisa enviar uma mensagem de texto para outra pessoa para transferir dinheiro… Então, mesmo com o dispositvo móvel mais básico, você tem acesso a dinheiro eletrônico fácil de usar. Isso tomou conta de vários países e se tornou um enorme sistema primário de pagamento, [enquanto que] a criptomoeda não funciona.

Weaver também afirma que quando as empresas dizem que aceitam pagamentos em Bitcoin, “elas estão mentindo” (usam um serviço que as paga em “dinheiro real” após realizar as conversões na criptomoeda preferida do cliente). Ele acredita que a criptomoeda só tem sido usada seriamente para pagamentos de resgates de sequestro de dados [ransomware] e tráfico de drogas – coisas que as moedas fiduciárias são legalmente obrigadas a bloquear.

A razão pela qual fiquei tão azedo no espaço das criptomoedas é o ransomware. Isso está causando danos de dezenas a centenas de bilhões de dólares à economia global. É um problema que só existe porque as pessoas podem pagar em Bitcoin.

Weaver também acredita que a criptomoeda permite que os capitalistas de risco “tranformem fraudes de valores mobiliários em modelo de negócios”, quando vendem tokens de suas startups para investidores de varejo. Esses seriam produtos financeiros descaradamente não licenciados.

Isso é uma flagrante fraude de títulos, mas não é cometida por pessoas. São apenas as empresas nas quais os investidores participam que cometem a fraude, e a SEC [Securities and Exchange Comission – Comissão de Valores Mobiliários, EUA] não tem monitorado a situação de forma proativa. Eles só aplicam correções às Ofertas Iniciais de Moedas [Initial Coin Offer – ICO] retroativamente, depois que as operações falham… e quando as coisas falham, os únicos a serem processadas são as empresas. Assim, as pessoas que cometem as fraudes conseguem se descolar dos títulos – ficando legalmente inimputáveis, de forma que você não poderá jogá-las na cadeia….

A SEC tem autoridade para impedi-los de forma proativa e não [apenas] reativa. Mas ela opta por não fazer nada. Basicamente, há um medo entre os reguladores – que eu penso que começou nos anos 1980 – de serem acusados de “sufocar a inovação”. [Neste caso, porém] não há inovação para sufocar. Portanto, regule.

Weaver também é cético em relação a outras supostas vantagens da criptomoeda. Ele argumenta que a criptomoeda incentiva o ‘poder verde’ “da mesma forma que tiroteios aleatórios incentivam a venda de coletes à prova de balas“. E mesmo como um veículo de investimento, Weaver vê as criptomoedas como “esquemas de pirâmide auto-criados”.

É preciso continuar a receber novos otários. Assim que o número de otários seca, a moeda entra em colapso. E porque não é soma zero, mas uma soma profundamente negativa, existem muitos mecanismos que podem causar o repentino desmoronamento do valor para zero. Vimos isso outro dia com a stablecoin Terra e o token lateral Luna.

Quando perguntado sobre o futuro da criptomoeda, Weaver prevê que ela “Irá implodir espetacularmente”.

A única questão é quando. Eu achei que já teria implodido um ano atrás. Mas basicamente, o que vimos com Terra e Luna – que entraram em colapso repentinamente devido a esses ciclos de feedbacks positivos descendentes – acontecerá em todo espaço de criptomoedas.

O Washington Nationals [time de basebal da MLB americana] outro dia começou a tuitar freneticamente a propósito de seu relacionamento comercial com a [comunidade de Bitcoin] Terra. Isso foi um negócio de US$ 38 milhões por cinco anos, pagos antecipadamente em dinheiro. Assim, pelos próximos cinco anos, os Washington Nationals estão obrigados a divulgar uma criptomoeda que já falhou espetacularmente.

Minha humilde opinião

Toda a premissa por trás do Bitcoin (e assemelhados) era que ele não poderia ser controlado, regulado ou manipulado por nenhum governo. Foi apresentado como uma espécie de moeda utópica libertária.

Só que isso agora começa a parecer uma miragem. O nome verdadeiro da “liberdade da tirania do governo” é simplesmente evasão fiscal. E não é segredo para ninguém que a anonimidade das criptomoedas é um mito – se o governo realmente quiser, ele tem total capacidade de saber exatamente quem transferiu quanto para quem na Blockchain. Assim, de início a promessa básica das criptomoedas não pode ser cumprida.

Minha razão pessoal para ter sempre acreditado que era insustentável é muito simples: é um sistema que adiciona grandes quantidades de registros a um livro em constante expansão. A capacidade de computação e memória disponíveis são quantidades finitas. A adoção das criptomoedas pelo público geral traria desafios enormes à capacidade de operação dos sistemas computacionais, algo não muito considerado quando o ridículo consumo de energia elétrica do sistema absorve toda a atenção sobre o assunto.

Ressalvo neste ponto que é preciso diferenciar as criptomoedas dos smart contracts. Eu ainda acredito muito que os contratos inteligentes têm um papel a representar na economia do futuro – se é que vamos ultrapassar este momento crítico na história. Por outro lado, mesmo minha avaliação superficial mais básica do funcionamento das criptomoedas sempre me sugeriu que a ideia é basicamente insustentável. Conheço-as desde o primeiro dia.

(*)Atenção jogadores: O Bitcoin ainda tem alguma chance maior que zero de substituir o dólar como moeda de reserva mundial. Se isso acontecer, o valor do bitcoin será todo-o-dinheiro-do-mundo / 21 milhões [o total de Bitcoin que pode existir, dos quais 90% já foram ‘extraídos’]. Uma grana maravilhosa. Portanto, façam suas apostas.

Notas Sobre o Twitter e a Liberdade de Expressão

Eu não estava interessado no Twitter antes e não estou agora, mas o comentário gerado pela recente mudança na administração do site é muito interessante, e estarei a acompanhar os desenvolvimentos bem de perto.

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Em primeiro lugar, porque é realmente muito engraçado assistir de fora. Cenário: o Twitter, de longe a mais tóxica de todas as plataformas, está sendo vendido para um empreendedor rebelde e imprevisível e os usuários estão surtando porque têm medo de o “Twitter se tornar tóxico”. Não é uma maravilhosa ironia?

Escusado será dizer que as plataformas sociais não podem ser absolutamente livres para todos: a liberdade de expressão sempre esteve sujeita a limites e Elon Musk não parece questionar isso de forma alguma.

Ele apenas entende que as vozes daqueles que foram considerados “deploráveis”, ou “tóxicos”, ou “inaceitáveis” pela elite atual – ainda que o que eles digam esteja dentro dos limites da lei – também têm o direito de serem ouvidas.

Liberdade de expressão

Em minha filosofia pessoal, o direito de falar/escrever/expressar uma opinião, desde que esteja dentro dos limites da lei, supera o direito de qualquer progressista a um ”espaço virtual seguro”. A liberdade de expressão é muito mais importante do que Harry e Meghan se sentirem ameaçados em sua fachada pública. É deveras preocupante que isso tenha se tornado um assunto controverso.

Uma democracia saudável precisa de um debate indisciplinado e o tipo de restrição à expressão pessoal [não se trata de censura pelo fato de não envolver o estado ou o espaço público real] que parece estar acontecendo no Twitter [expulsar Donald enquanto o Talibã pode manter sua conta] está nos afastando disso. O equilíbrio precisa ser restabelecido de alguma forma.

O problema é que a grande massa historicamente excluída agora dispõe de meios poderosos de auto expressão e comunicação. Todos têm agora algo análogo a uma bomba atômica em uma maleta. Para ser totalmente franco, eu mesmo cheguei a flertar com fantasias Butlerianas. Até recentemente eu acreditava que a democratização da computação e seu poder de amplificação da experiência humana tinha sido um erro, que acabou por gerar uma ameaça existencial para a espécie. A solução, portanto, seria o confisco dessa capacidade e a limitação do poder de computação acessível ao usuário comum.

É fácil ver que a “solução” acarretaria problemas ainda maiores, o que faz as palavras de meu estimado correspondente Clive Robinson se destacarem como um verdadeiro axioma: “problemas sociais não podem ser resolvidos pela tecnologia”. Será preciso firmeza institucional e muita educação pública para que seja possível superar este momento delicado da trajetória humana.

Nota lateral: minha própria orientação política mudou nos últimos anos, de centro-esquerda para centro-direita. Vários são os fatores que causaram isso, mas comentários como os de Hillary Clinton sobre os “deploráveis” [sou hétero] não ajudaram a aumentar minha simpatia. Aquilo cristalizou a hipocrisia absoluta do lado em que eu pensava estar – alegando ser tolerante mas ainda abusando e desrespeitando pessoas que pensam diferente. O Twitter de hoje é simplesmente uma manifestação online da atitude mental a partir da qual comentários como aquele floresceram.

Aspectos pouco discutidos

Uma parte desta aquisição industrial que parece ser ignorada em favor das implicações da guerra cultural são os aspectos financeiros. O Twitter é um negócio viável? Será capaz de gerar um lucro substancial para Musk? Não faço ideia.

A outra parte da história que não foi considerada [pelo menos não que eu tenha visto] é a reação dos funcionários progressistas do Twitter. Li em algum lugar que alguns deles chegaram a chorar quando a notícia da aquisição foi divulgada (sim, eu ri). Mas como eles vão se comportar quando Musk estiver totalmente no controle? Eles vão se demitir em massa? Ou eles vão permanecer na empresa e assim minar sua própria agenda? Elon vai reequipar toda a organização com pessoas de outra matriz ideológica?

Me parece que quando Elon Musk insiste na questão da ‘liberdade de expressão’ o que ele quer dizer realmente é que “o Twitter favoreceu demais a Elite progressista, e eu não vou mais fazer isso”. É possível argumentar que a chamada Elite progressista é servida por verdadeiras ‘guildas’ para impor sua posição de dominância – as guildas, neste caso, sendo instituições como a CNN, a Rede Globo, e as Mídias Sociais, além dos sumos sacerdotes da intelligensia. A compra do Twitter por alguém aparentemente “fora da Elite” tem, portanto, uma desconfortável sensação de deslocamento.

De fato, a atmosfera pública exala, em pleno 2022, uma alarmante fragrância de fin-de-siècle oitocentista.

Da Wikipedia sobre o fin-de-siècle: O principal tema político da época era a revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia liberal. A geração do fin-de-siècle apoiou o emocionalismo, o irracionalismo, o subjetivismo e o vitalismo, enquanto a mentalidade da época via a civilização como estando em uma crise que exigia uma solução massiva e total.

Liberalismo versus coletivismo

Além disso, a própria ideia contemporânea [notadamente nos EUA] de que os marxistas são “liberais” – uma filosofia fantástica que tem sido construída pelas melhores mentes acadêmicas do Ocidente por décadas – é uma falácia. No século passado os marxistas foram perseguidos, cancelados, odiados por causa das coisas horríveis que os marxistas de todo o mundo faziam.

Tanto para revidar quanto para formular um rótulo aceitável para se adaptar ao sistema político [ou mesmo para se esconder], eles inventaram uma “nova filosofia”, na verdade apenas uma regurgitação do marxismo, e a chamaram de “liberalismo progressista” como se fosse simplesmente um novo ramo do estimado liberalismo clássico.

É claro que não era nada disso – e qualquer um que se desse ao trabalho de examinar perceberia rapidamente que era a total antítese do liberalismo. Era coletivismo versus individualismo; governo grande versus governo pequeno; resultados iguais versus oportunidades iguais. E o mais importante de tudo, propagou-se um certo “imperativo moral” de violar os direitos de certas pessoas em nome de um objetivo indefinível de “justiça social” [já ouvimos isso antes?].

Infelizmente, o estratagema funcionou. A rede de professores marxistas em universidades de todos os países começou a alardear o “liberalismo progressista” como o novo eufemismo para o marxismo. Para os de fora, soava como liberalismo. Mas, as coisas sempre desandam quando, por ideologia, a palavra ‘justiça’ aparece na frente da palavra ‘social’. O resultado é sempre a negação do que se pretende: “NÃO Liberalismo” [iliberalismo] e “injustiça”.

Todos os totalitários precisam, para atingir seus objetivos, mentir perpetuamente. Do contrário seria obviamente impossível concordar com os objetivos que eles realmente querem atingir. Até cerca de 2010, havia um equilíbrio entre as pessoas que amavam a liberdade versus aqueles que queriam um governo draconiano em seu alcance social, com as diferenças geralmente sendo nuanças. Hoje, a divisão é quase perfeita – com amantes da liberdade e os progressistas cripto-totalitários em lados claramente opostos.

Vale a pena notar que Milton Friedman e F. A. Hayek, ambos odiados pelos “liberais progressistas” de hoje, que os consideram cães raivosos da direita, se recusaram a desistir do termo “liberal” em favor do termo “conservador”, referindo-se a si mesmos como “liberais clássicos”. F. A. Hayek chegou a escrever um artigo chamado “Por Que Não Sou Conservador” em um esforço para reabilitar o termo, apontando que a raiz etimológica da palavra liberal é liberdade.

Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.

O Mito da Anonimidade do Bitcoin

O site Wired traz um longo artigo de Andy Greenberg, sobre como agentes da lei, em conjunto com a empresa Chainalysis, desanonimizaram transações de bitcoin em 2017, para chegar a uma associação criminosa voltada ao abuso de menores.

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Segundo o artigo,

alguns anos após a chegada do Bitcoin, pesquisadores acadêmicos de segurança – e depois empresas como a Chainalysis – começaram a abrir buracos nas máscaras que separam os endereços dos usuários do Bitcoin de suas identidades do mundo real. A empresa tinha capacidade de seguir bitcoins na blockchain enquanto os ‘bits‘ trafegavam de endereço em endereço até chegarem a um que pudesse ser vinculado a uma identidade conhecida.

Em alguns casos, um investigador da empresa foi capaz de descobrir os endereços de Bitcoin de uma pessoa ao negociar com ela em tempo real, da mesma forma que um agente de narcóticos disfarçado pode conduzir uma compra e apreensão. Em outros casos, os investigadores puderam conduzir as transações para uma conta onde os regulamentos financeiros exigiam que os usuários provassem sua identidade. Uma rápida intimação ao(s) investigador(es) envolvidos foi suficiente para revelar a identidade das outras partes e assim eliminar qualquer ilusão de anonimato do Bitcoin.

A Chainalysis combinava essas técnicas de desanonimização com métodos que permitiam “agrupar” endereços, mostrando que dezenas [até milhões] de endereços às vezes pertenciam a uma única pessoa ou organização. Por exemplo, quando moedas de dois [ou mais] desses endereços eram gastas em uma única transação, isso revelava que o criador dessa transação de “vários registros” devia ser o controlador de ambos os endereços, permitindo que a Chainalysis os agrupasse em uma única identidade.

Em outros casos, a Chainalysis podia seguir [o que traduzirei como] a “cadeia de embolso”– um processo análogo ao rastreamento de um único maço de dinheiro enquanto um usuário o ‘embolsa’ repetidamente, ou seja, retira algumas notas e o coloca em um bolso diferente [ver ‘peel chain‘].

Graças a truques como esses, o Bitcoin acabou se tornando praticamente o oposto de “não rastreável”: uma espécie de “pote de mel” para criminosos criptográficos que, durante anos, registraram de maneira obediente e inapagável as evidências de seus negócios mal feitos. Em 2017, agências como o FBI, a Drug Enforcement Agency e a divisão de Investigação Criminal do IRS já rastreavam transações de Bitcoin rotineiramente, muitas vezes com a ajuda da Chainalysis.

O Bitcoin pode ser rastreado

Os criminosos não conheciam a tecnologia subjacente à criptomoeda [ignorância compartilhada por virtualmente 100% dos ‘investidores’], e acreditavam no proverbial “anonimato do bitcoin”, uma lenda urbana concebida na época do lançamento da moeda pelo lendário Satoshi Nakamoto.

Essa suposta não-rastreabilidade do bitcoin (e todas as outras similares) nunca foi um assunto sério para os profissionais de software, muito menos para os especialistas em segurança. Porque a rastreabilidade está necessariamente embutida na arquitetura do sistema pelos próprios requisitos do software. As moedas digitais precisam garantir duas coisas:

  • um mecanismo anti “duplo gasto”.
  • um registro completamente público de todas as transações.

Exatamente por causa das medidas contra o duplo gasto, cada moeda digital tem um identificador único que atua como um ‘fio condutor da verdade’ em cada movimento. Some-se a isso as técnicas avançadas de comunicações, como a análise de tráfego, pareada com sua equivalente financeira, a análise de transações, e lá se vai a não-rastreabilidade.

Para aqueles que ainda estão com o braço levantado, perguntem a si mesmos: “em um sistema topologicamente homogêneo, “liso” – como deve ser a arquitetura de uma criptomoeda – que mato há para se esconder?”.

A única maneira de se esconder seria de alguma forma esgotar os recursos computacionais desses rastreamentos. Como os recursos necessários para rastrear a blockchain são consideravelmente menos intensivos do que os requeridos para realizar transações, se torna óbvio que a opção ‘esconder’ não está no cardápio.

É surpreendente o tempo que os ocasionais golpistas e, mais importante, as instituições de aplicação da lei, levam para perceber esses fatos.

A inexorável corrosão das liberdades

Em 2016, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que deixaria de cunhar notas de € 500, em uma medida que, segundo eles, visava coibir fraudes e lavagem de dinheiro. A nota de 500 euros é a segunda maior denominação atualmente na zona da moeda comum do euro, e o BCE diz que é a nota preferida entre os criminosos.

Embora o objetivo declarado fosse impedir o crime financeiro, certos comentaristas [entre os quais me incluo] defendem que esse movimento hoje faz parte da crescente tendência autoritária de controle social e eliminação do dissenso. O dinheiro em espécie é simplesmente livre demais, anônimo demais. Outros analistas sustentam que a ‘guerra’ ao dinheiro se insere em um cenário de ‘corrida para o abismo’ para enfraquecer as moedas, a fim de estimular economias em declínio em todo o mundo. Seja qual for a verdade, tudo indica que veremos a eliminação completa do papel-moeda – transformado em ‘tokens’ fiduciários armazenados como registros eletrônicos em contas bancárias.

Liberdade de escolha

Às vezes falamos de “consentimento informado”, para enfatizar nossa suposta liberdade de escolha. Nós ‘conscientemente escolhemos’ usar cartão de crédito, ou bitcoin. Mas com toda a honestidade, como alguém pode ser suficientemente “informado” de tudo, em toda e qualquer pequena oportunidade?

Afinal, quando você usa um cartão de crédito para fazer uma compra, você está suficientemente “informado” para saber tudo o que seus “registros comerciais em poder de terceiros” vão produzir? A atitude blasé das pessoas diante desses detalhes torna a coleta e venda desregulada de dados pessoais muito, muito assustadora.

Eu prefiro dinheiro vivo ao invés de plástico ou bitcoins, porque, segundo minha opinião “informada”, eu fico à mercê do governo e das corporações [ou coisas ainda piores] quando ‘escolho’ usar cartões ou bitcoins.

Os políticos agora querem me impedir de ter o direito de fazer essa escolha [sem dúvida esse será o novo grande debate nos parlamentos do mundo]. Eles querem forçar todos ao dinheiro eletrônico [no Brasil, aplicativos como o Pix representam o primeiro movimento nesse sentido]. Todos devem fazer sua parte na Economia da Vigilância para que novas formas de tributação e controle social possam ser introduzidas. Ah, e, claro, lucros muito maiores para o setor bancário, que se libertaria de qualquer concorrência nos métodos de pagamento.

Vamos ser sinceros, a blockchain, e o que ela mostra nas auditorias financeiras, é uma visão pública do que a maioria das empresas de cartão de crédito/débito mantém em seus registros privados. Não é à toa que os governos, no início desconfiados, agora abraçam a ideia da criptomoeda com paixão, facilitando sua aceitação, como aconteceu com os cartões de crédito.

Por essa facilidade de rastreamento a blockchain deverá ser algo positivo no mundo dos contratos [o que é um assunto à parte].

Post scriptum

E então há os telefones celulares e os registros detalhados que eles armazenam, incluindo “dados de localização” com um grau muito alto de precisão. O fato de eu ser efetivamente forçado, pela pressão social e institucional [de novo, o Pix], a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, não é fácil para mim. Não é “consentimento informado” de forma alguma. Minha escolha seria completamente diferente se eu tivesse uma.

Entre a privacidade e a segurança a sociedade ocidental fez uma “Escolha de Hobson” invertida [uma opção entre dois nadas], e no processo deu muito poder a pessoas que realmente não deveriam tê-lo.

* * *

Escrevo no dia 12 de abril. Este post marca um ano do domínio voxleone.com. Dia de pagamento pesado ao WordPress. Mas eu pago, trabalho até aos domingos e procuro fazer um conteúdo de muita qualidade [138 artigos, 200.000 palavras], pelo simples objetivo de construir um grande site de ciência e análise de dados – além de informação e discussão tecnológica – na língua portuguesa [with a little help from my friends].

Sou insistente e só estamos no começo. :)

A Miséria da Internet em 2022

Há muito tempo deixei de gostar dessa coisa absurda que internet se tornou. Posso talvez não ser o único, embora eu não encontre meus iguais nestas terras torturadas.

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Mas, para além da desilusão, ainda gosto muito do meu trabalho em computação [agora em tempos de recomeço!]. Gosto de projetar e me deixar absorver pelos detalhes dos sistemas, hora a hora, minuto a minuto, e deixar as preocupações da vida de lado; gosto de pesquisar defeitos e descobrir o que está acontecendo de errado; gosto de aprender coisas novas; eu gosto muito dos insights sobre dados proporcionados por tecnologias como Python. Gosto até mesmo de web design, algumas vezes.

Mas aqui está a minha verdade: em algum lugar ao longo do caminho, eu perdi totalmente o interesse por essa web que as outras pessoas consomem, e principalmente pelas abjetas redes sociais.

Em 2022 eu: não assisto a vídeos em computadores; não ouço podcasts; não tenho o sócio-linfoma [o câncer mental induzido pelas redes anti-sociais]; não tenho Netflix nem Spotify; não uso Uber; não tenho nem quero uma Alexa [e tenho raiva de quem tem]; não quero meus interruptores de luz conectados à internet; nem minha geladeira; nem meu fogão; nem realmente qualquer coisa, exceto meu(s) computador(es).

As tecnologias que fazem a alegria dos corintianos e flamenguistas; que os fazem se sentir importantes e “acolhidos”; que dão aos idiotas fama e um desproporcional poder de fogo; que sequestram a capacidade crítica dos Josés e das Marias… essas coisas para mim não têm nenhuma graça. De fato as considero nefastas, considerando que não são, como outrora, tecnologias libertadoras.

A tecnologia de rede se tornou absolutamente desumana quando, por volta de 2003, passou a servir cada vez mais os interesses das oligarquias e dos governos ao se degradar em vigilância e controle mental das massas. Não é mais divertido. Não é bonito [a fealdade das pessoas e das coisas parece ser outra marca definitiva do século 21]. Não vou colaborar com esse sistema.

Computadores – incluindo celulares, tablets, o que for – não são meu “hobby”. Não paro de trabalhar e vou jogar na internet “para me distrair”. Eu geralmente paro de trabalhar e quero fazer algo que não envolva a internet. Eu gosto de ler. Eu gosto de ouvir Miles Davis. Gosto de comer fora, em restaurantes, à moda antiga. Eu gosto de dirigir meu carro e ir a lugares.

Um dos meus principais critérios para comprar coisas é se elas funcionam sem uma conexão de rede. Fora do trabalho eu uso computadores para… bem, ler coisas. Ou seja, realmente ler. Texto. Fotos também, se for preciso. Eu os uso para mergulhar em temas profundos e tentar ver além do que a visão me mostra.

Não é mais 1998. Não é o ano do “Linux no desktop” – nunca haverá o ano do Linux no desktop. Sequer será o ano do desktop. Hoje em dia computar é simplesmente o que eu faço. Porque é o que eu faço.

Minha história

Aprendi a programar Basic em um CP-300 (48k de RAM!) – um lixo gestado durante a infame reserva de mercado para computadores nacionais, da desditosa ditadura militar [que a malta inculta quer reviver, agora sob a liderança idiocrática do palhaço Javoltar Barrigonaro]. Passei por alguns sistemas menos limitados de 8 bits e aprendi FORTRAN alguns anos depois.

Depois trabalhei em uma companhia multinacional, onde lidar com computadores não era minha atividade-fim. Em 1999 eu finalmente consegui penetrar nos mistérios do Linux [SUSE, se me lembro]. De repente eu não precisava mais programar sozinho. Qualquer coisa era de código aberto. Eu apenas dava uma espiada no código- fonte, mudava alguma coisa e recompilava em algo novo. Aquilo era a vida!

Fiquei encantado com alguns desenvolvimentos realmente engenhosos. Adorei como a computação pareceu mais completa depois disso – pode ter sido minha imaginação, mas foi o que senti. Eu ainda era principalmente um usuário, mas senti que estava no controle e entendi muito bem o que estava por baixo do capô. E se não entendesse, eu sempre soube onde procurar a iluminação – e sempre havia um blog com a iluminação.

Muitos anos depois, já na primeira década do século, já empresário do ramo, eu realmente continuava a me aprofundar. Chegava a Web 2.0 e eu não percebi na época que eu era um dos últimos dinossauros. A excelência do código aberto começava a perder terreno para as plataformas “na nuvem”, baseadas em código proprietário e uso intensivo de dados capturados dos usuários – que mais tarde dariam origem ao atual sistema vicioso e predatório do capitalismo de vigilância.

Hoje quase nenhum usuário sabe como a tecnologia funciona. Quinze anos atrás ainda sabíamos apreciar a arte de uma applet Java, de uma library ou mesmo de um framework. Mas hoje quase ninguém mais. Tudo o que consumimos são produtos ruins com um pequeno ciclo de atualização antes que a obsolescência planejada entre em ação e você tenha que comprar a versão mais recente – e o melhor hardware – novamente. O software é na maioria das vezes escrito por algum chimpanzé que encara a programação apenas como um trabalho e acha que quanto mais linhas de código escrever melhor ele vai ficar com seu supervisor [que via de regra não é muito melhor que ele]. Existem exceções, mas esse é o balanço das coisas.

Marketing em lugar da Engenharia

Os departamentos de marketing [sociopatas de fala mansa, como Steve Jobs] substituíram a engenharia [pesquise “the curse of Boeing”] no controle do que chega ao mercado, e tudo indica que não vão abrir mão desse controle. Os técnicos cederam à pressão do time-to-market. Isso vale para qualquer smartphone, qualquer receptor, qualquer roteador. Muitos até rodam Linux, mas mesmo assim a maioria ainda é muito ruim. Mesmo o acesso básico à Internet hoje vem com termos de serviço com os quais realmente ninguém com uma mente sã poderia concordar.

Acho que o que desempenha um papel importante na falta de entusiasmo tecnológico atual [além do analfabetismo funcional de toda a sociedade, incluindo a sedizente “elite”] é que, em 1998, a perspectiva de uma rede livre rodando software livre em computadores cada vez mais poderosos nos os quais podíamos mexer, alterar, estender, etc, prometia um futuro lindo pela frente. Eu adorava estar a viver [uma saudação aos irmãos de Angola e da lusofonia!] nos míticos anos 2000.

Vinte anos se passaram, e que o que temos em vez da utopia tecnológica que produziria cientistas-filósofos é a desgraça deprimente das redes sociais, que transformou grande parte da humanidade em zumbis consumidores, depravados, alienados, incivilizados e animalescos. Os Mestres do Universo – banqueiros, nababos da mídia, ONG’s com relações incestuosas com o poder, capitalistas da vigilância e outros parasitas – se divertem ao ver a massa cada vez mais dócil, fotografando e compartilhando seu caminho rumo à obliteração. A vida feliz das ovelhas a caminho do abatedouro.

Eu queria não ter tomado a pílula vermelha.


(*) Tentei buscar referências sobre a reserva de mercado para computadores no Brasil da década de setenta e não encontrei. Isso comprova meu ponto sobre a futilidade, o atraso e o inaceitável baixo nível intelectual da Internet em português. Culpa do referido sócio-linfoma.