‘Inteligência Artificial’ e o Futuro das Artes Digitais

Eu leio os jornais. Eu vejo o ritmo do ‘progresso’. Eu entendo como esses novos modelos de aprendizado de máquina funcionam em um nível técnico e estou impressionado com a rapidez com que eles estão se desenvolvendo.

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Imagem: Pexels.com

Francamente, eu não espero que a arte digital feita por humanos (imagens, vídeos, filmes, música, texto) sobreviva mais uma década. O que espero é que pouca ou nenhuma arte digital seja vendida com lucro por artistas humanos daqui a dez anos, e a única razão pela qual não estendo esse raciocínio para mídias físicas como escultura ou arte de rua é que eu não sei se teremos robôs hábeis o suficiente para fazê-las – embora seja inevitável que robôs habilidosos surjam em algum momento, na duvidosa hipótese de que a civilização sobreviva.

As pessoas frequentemente vão buscar o exemplo da pintura e da fotografia para defender a ideia de que inteligência artificial (IA) não vai realmente acabar com o mercado de arte, mas eu simplesmente não vejo esse exemplo como válido. A fotografia e a pintura sobreviveram porque são fundamentalmente diferentes e podem ser facilmente distinguidas, desde que seus respectivos criadores optem por se diferenciar.

A arte da IA é diferente, porque seu propósito específico é replicar. Não importa o que os artistas humanos façam com a mídia digital, a IA sempre vai estar lá para engolir as mudanças de qualquer nova onda e aprender a replicá-las.

O advento da fotografia nunca teve a intenção de matar a indústria da pintura. Contrariamente, esses algoritmos de IA, gestados nas grandes corporações de tecnologia, têm como objetivo manifesto matar a indústria da imagem.

Sobre a Excelência na técnica

Leonardo da Vinci não apenas pegou um pincel, compôs a Mona Lisa e se proclamou mestre. Ele construiu suas habilidades como aprendiz em oficinas, fazendo obras acessórias, figuras de fundo e encomendas menores. É esse trabalho que cria a oportunidade para que obras-primas aconteçam. Se esse ambiente desaparecer, o topo da elite artística será afetado. Existe algo único no equilíbrio entre ser ousado o suficiente para se destacar da multidão, mas ao mesmo tempo acessível o suficiente para um apelo mais amplo.

No momento, os modelos de aprendizado de máquina ainda são fracos, mas já são fortes o suficiente para tirar 90% dos artistas digitais do mercado. Com o custo próximo de zero, as pessoas não vão mais reutilizar nada. Vão gerar algo novo para cada coisa que fizerem. Não tenho certeza se há algo que possa ser feito para evitar esse futuro. Penso que devemos começar reconhecer que muita coisa vai se perder nessa revolução. Também duvido que artifícios sociais como bolsas de estudo e programas de residência possam deter o avanço das máquinas simplesmente jogando dinheiro no problema.

Otimistas

Há um lado otimista nesta questão. Seus lugares-tenentes sustentam que não precisamos temer a arte da IA. Na verdade, os artistas podem até querer agradecer.

Segundo os otimistas, há muito tempo os artistas sentem uma espécie de tédio por causa da falta de um caminho claro para a inovação ou para criação de algo “novo” e inspirador. As coisas tornaram-se obsoletas e excessivamente mercantilizadas, com músicos, fotógrafos, pintores, etc. muitas vezes confessando que o que eles criam não passa de recauchutagem de ideias desgastadas – admito que qualquer artista ligado na cena vai mesmo dizer que não há mais muita arte inspiradora.

A IA essencialmente reorganiza motivos antigos de novas maneiras. É um dispositivo de permutação que mostra o estado da arte atual (na qual é baseado o treinamento dos modelos) aplicado a situações arbitrárias. Os artistas podem usá-lo como ferramenta para encontrar um espaço onde uma nova exploração seja possível e, finalmente, começar a criar arte inspiradora novamente.

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Imagem gerada no popular serviço Esta Pessoa Não Existe. É uma imagem criada com o uso de redes GAN – Generational Adversarial Network.

Os otimistas ainda consideram que o que está sendo banalizado agora é apenas a transformação das obras mesmas em espaços de ideias digitalmente definíveis: crie uma nova ideia em arte, dê a uma máquina representações suficientes e ela pode gerar infinitamente novos trabalhos dentro desse espaço.

A corrente otimista argumenta que certas coisas vão escapar à banalização. O que ainda não pode ser banalizado seria:

1) Novos espaços de ideias. A IA é incapaz de gerar algo que possa ser definido como um novo movimento artístico.

2) Novas mídias. Algo como Dall-E [ver nota no final] vai aparecer, mais cedo ou mais tarde, para gerar arquivos CAD. Contudo, há muitas expressões artísticas que não serão fisicamente reproduzíveis por um computador. As obras nessas mídias permanecerão valiosas ou até aumentarão de valor. E embora a IA possa gerar novas ideias nesses espaços, será necessário que haja pessoas que decidam se esforçar para executá-las.

3) Curadoria. Decidir quais ideias (geradas por IA ou não) merecem atenção.

Take final

Comecei a investigar este assunto na década passada, e as evidências me sugerem que começaremos a ver todas as atividades humanas enfrentando um declínio salarial anual de 6 a 12% a partir de agora. Uma máquina já pode fazer trabalho humano bem o suficiente para substituí-lo ou substituir mais de 90% das pessoas no trabalho que elas fazem, deixando o resto brigando por migalhas.

A parte criativa e sensível do seu trabalho, que uma máquina não pode fazer, pode parecer muito importante para você, mas o chefe do chefe do seu chefe provavelmente não se importa com isso, já que a mediocridade escalável é mais lucrativa do que qualquer “extra” que um humano possa oferecer.

Na verdade, a já envelhecida queixa das empresas de que “existe-trabalho-mas-ninguém-está-qualificado” é uma grande balela. Os mesmos executivos que dizem isso estão espremendo seus gerentes de linha, ao não deixá-los contratar auxílio e forçá-los ao trabalho cada vez mais pesado.

A tendência de longo prazo dos salários é de queda. Os mercados de trabalho não parecem mais se comportar como o da oferta e procura de bens. Nesse mercado as curvas não mais encontram equilíbrio. Elas divergem.

Não se trata apenas de AI Art, e outras macaquices digitais. Estamos muito provavelmente caminhando para um colapso salarial generalizado e de base ampla em todo o mundo, e esse tipo de situação provavelmente resultará em um conflito global entre pessoas e capital, no qual a) todo um sistema socioeconômico é derrubado, ou b) a humanidade é lançada na escravidão da qual é improvável que se recupere.


Nota: DALL·E é uma versão do GPT-3 [Generative Pre-trained Transformer – Transformador Generativo Pré- treinado] com bilhões de parâmetros, treinada para gerar imagens a partir de descrições de texto [ex: “ovelha a tocar piano em um navio”], usando um conjunto de dados de pares de texto-imagem. Ele tem um conjunto diversificado de recursos, incluindo a criação de versões antropomorfizadas de animais e objetos, combinando conceitos não relacionados de maneiras plausíveis, renderizando texto e aplicando transformações a imagens existentes.

Leitura recomendadada

https://arxiv.org/abs/2005.14165

https://openai.com/blog/dall-e/

Só no Brasil: O Primeiro Território Não-fungível do Mundo

Um projeto chamado Nemus Earth surgiu em março, oferecendo a venda de um NFT Ethereum para quem quiser se tornar um “Guardião” da floresta amazônica brasileira.

Imagem: Pexels.com

Eu detesto dar moral para estelionatários internéticos, mas aqui está o link. O projeto tem planos grandiosos para criar um “cinturão de proteção” na Amazônia brasileira para concentrar os esforços de combate ao desmatamento. O material de divulgação do projeto se esforça para explicar que “a atividade econômica é necessária” na terra que eles vão comprar e traça um plano para empregar os indígenas da área na extração da castanha-do-pará em uma plantação abandonada — que o projeto pretende “revitalizar”.

Os autores descrevem a “cooperação” com a população local, que irá “desbloquear a riqueza geracional para essas comunidades”, embora não haja nenhum plano concreto para que essas pessoas realmente se juntem à comunidade de “Guardiões” ou encaminhem alguma opinião sobre a governança do projeto.

Outras atividades econômicas planejadas pelo projeto envolvem “silvicultura sustentável”, “capacitação das autoridades policiais locais”, atividades envolvendo drones e, claro, geração de compensações de carbono para outros projetos.

Poluir para proteger

O prospecto da entidade informa que a iniciativa será implementada na blockchain Ethereum. O projeto, cujo objetivo declarado é a conservação ambiental, aparentemente decidiu esconder dos potenciais guardiões o enorme consumo de energia, emissões de poluentes e resíduos eletrônicos decorrentes do processamento de qualquer blockchain, incluindo a do Ethereum.

O projeto abriu sua segunda rodada de “cunhagem” em 3 de março e está oferecendo seus NFTs por preços entre 0,06 ETH e 19,44 ETH (US$ 150 a US$ 50.000).

Em 20 de julho, eles emitiram um comunicado à imprensa alegando que “o primeiro território não fungível do mundo foi oficialmente nomeado por indígenas no Brasil em conjunto com a Nemus” [nota de VL: tsc, tsc, tsc]. A empresa afirma possuir 41.000 hectares de terra na Amazônia.

Entra a Cavalaria

Em 25 de julho, o Ministério Público Federal (MPF) divulgou um comunicado dando conta que havia exigido da Nemus comprovação de propriedade das áreas que reivindica, esclarecimentos sobre os projetos on-line que prometeram realizar e a comprovação de que receberam autorização da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) ou de qualquer outro órgão público que lhes permita atuar na área e se engajar com os diversos grupos indígenas.

De acordo com o MPF, integrantes de grupos indígenas da região denunciam que a empresa violou seus direitos. Eles também relataram que a Nemus havia manifestado planos de usar máquinas pesadas para abrir uma pista de pouso e construir uma estrada para acessar os castanhais da região.

As lideranças dos Apurinã alegaram que os representantes da empresa pressionaram os indígenas – que não lêem bem – a assinar os documentos (dos quais não forneceram cópias).

http://www.mpf.mp.br/am/sala-de-imprensa/noticias-am/mpf-aciona-empresa-que-vende-ativos-digitais-nfts-de-areas-da-amazonia

Essa empresa não é a única a se aventurar na hiléia. Outras, como SuperWorld, Moss, etc., estão trabalhando a todo vapor para vir buscar sua fatia nesse comércio. Assim, a farra dos NFT’s encontra o caos administrativo da Amazônia. O que poderia dar errado?

Post Scriptum

Ao escrever este post eu descubro, com tristeza mas não surpresa, que não há na Internet em português nenhum tópico (semi) autoritativo que seja [ex: Wikipédia] que contemple o termo hiléia [aqui um link relacionado ao tema]. Isso é inaceitável no maior país Amazônico e suposto líder mundial da biodiversidade. O que duzentos milhões de brasileiros fazem o dia todo? Será que alguém poderia dar um tempo no Facebook para fazer um mísero texto sobre a Amazônia? Eu já tenho meu tempo ocupado aqui com os problemas da computação, segurança e privacidade, e não posso fazer tudo, ok? Me ajude aí!

Outro problema típico – e recorrente – da incúria [ou da proverbial preguiça] do Patropi é o total desleixo com a administração de muitos sites dos vários níveis de governo. O site governamental que vinculei neste texto, nada menos que o site do Ministério Público Federal, está com o certificado de segurança vencido. Cuidado ao visitar [ou simplesmente não visite]. Assim realmente não dá!

Ps do Ps

Para terminar em alto astral, informo aos leitores que estou produzindo um conteúdo muito bom – e um tanto longo – sobre a Libra Esterlina, que pretendo publicar na semana que entra. O post vai trazer um infográfico inédito que concebemos para facilitar o entendimento de quais e como eram as denominações e frações da Libra antes da decimalização, em 1971. Ele é o resultado de minhas pesquisas para desenvolver um módulo universal de conversão de moedas.

Fiquei muito satisfeito com o trabalho – do qual não encontrei equivalentes na Internet – e estou ansioso para publicá-lo. Será muito interessante para os anglófilos, estudantes e curiosos em geral [inclusive os ingleses, que poderão se perguntar porque nunca houve um material visual oficial para explicar a Sterling aos povos bárbaros]. Com esse material poderá vir o tão esperado salto de audiência para este blog. Fingers crossed.

https://twitter.com/VoxLeone

Os Outros Já Tiveram Todas as Ideias

Nos fóruns de desenvolvedores e empreendedores que frequento, tem ficado muito comum ouvir coisas com mais ou menos o seguinte teor:

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Estou começando a desconfiar de quem diz que ainda existem inúmeros problemas para resolver neste mundo. Eu faço uma pesquisa rápida no Google para qualquer ideia que eu tenha e adivinhem? O nicho já está cheio de concorrentes no campo. Como iniciar uma startup hoje em dia? Sim, eu sei, é preciso se diferenciar. Sim, eu sei, é a execução que importa. Mas é desencorajador colocar as esperanças em um mercado que já está cheio de outros que começaram seu progresso quando eu era ainda um iniciante.

Como abordar essa exasperação?

Esse parece ser um familiar poço de desespero. Escritores são propensos a ansiedades semelhantes. “Tudo o que vale a pena dizer já foi dito. Mas, como ninguém estava ouvindo, é preciso dizer de novo” – assim escreveu André Gide. Curiosamente, Goethe já havia defendido o mesmo ponto um século antes. Jean de La Bruyère havia dito a mesma coisa no século XVII. Agostinho havia escrito mais ou menos a mesma coisa no final da Antiguidade. E o Eclesiastes havia vencido a todos séculos antes disso: “Não há nada de novo sob o sol”.

Eu também estou na corrida. Não tenho autoridade alguma para falar sobre o que leva uma startup ao sucesso – noto aqui que eu não sou muito fã do termo “startup”, que remete às panelinhas universitárias da elite econômica. Contudo, também tenho ideias originais, portanto sei em primeira pessoa que há ainda muito espaço para a inovação. Eu vejo que as tensões desencorajadoras não estão no espaço da criação, e nem na capacidade de realização. Estão em outros fatores, como capacidade de crédito, rede de relacionamentos, ambiente de negócios, etc. Meras externalidades.

Estou convencido também de que grande parte do problema se resume à uma questão de perspectiva: o que você procura é um segmento/categoria de mercado novo ou maduro? Segmentos de mercado recém inaugurados trazem muitas oportunidades, e há muitos deles ao redor. Nós desenvolvedores precisamos saber usar um novo mercado ao nosso favor.

Se eu realmente me atrevesse a dar um conselho, eu descreveria exatamente o que estou fazendo agora, e diria mova-se rapidamente começando nas áreas que seus concorrentes já validaram e aprenda a evitar os erros que eles cometeram no passado. Faça o possível para se diferenciar com base no feedback do seu mercado.

A concorrência é inevitável, mas pode ser aproveitada para aumentar seu aprendizado sobre o mercado e as necessidades do seu cliente, se souber como analisar sua estatística. Ela é positiva na medida em que é muito mais fácil ter várias empresas validando e/ou invalidando um novo espaço do que você fazer isso sozinho.

O ciclo de vendas para mercados novos e não comprovados geralmente é muito lento, pois eles exigem educação [exposição ao produto] e mudança de comportamento do consumidor. Então por que não deixar que os primeiros a adotar seu produto se encarreguem naturalmente disso antes de você conquistar uma participação significativa no mercado?

Unicórnios

Se você está tentando montar uma startup unicórnio este post não é para você [e apenas minha sôfrega imaginação te vê frequentando este blog].

Mas se você – como eu – quer ter um negócio real, ou alguma coisa própria, na internet, e acha que tem uma solução competitiva para algum problema – o sucesso obviamente será decorrente, então você e eu só precisamos fazer algo melhor do que o que já existe [e tratar de espalhar bem a novidade]. Onde as Big Techs são catedrais nós seremos bazares. Pense em uma feira onde servem os mesmos tipos de comida e como os chefs conseguem dar seu toque pessoal aos sabores, diferença que reflete na qualidade, clientela, e na atmosfera geral.

Há muitas maneiras de fazer algo melhor. Quase sempre é possível tornar um produto ou serviço de tecnologia melhor, com maior velocidade, com interface do usuário mais intuitiva, mais especializado para uma tarefa específica, e assim por diante.

Deve-se também ter em mente que o primeiro no mercado nem sempre é o mais bem-sucedido; muitas vezes é o segundo no mercado, ou mesmo o décimo, desde que o projeto deles tenha a melhor execução. O Facebook não era muito melhor do que o Myspace, e, embora as pessoas esqueçam, havia dezenas de outros sites que competiam pelo mesmo espaço naquela época. Tudo o que o Facebook fez melhor foi apresentar uma interface de usuário melhorada e segmentar um público específico (universitários, na época). A expansão para outros públicos veio depois.

Enfim, o resumo é que, mesmo que uma ideia tenha sido feita, será que ela foi feita de modo definitivo, do jeito que você quer, ou do jeito que o público quer? Quero acreditar que sempre há escolhas – especialmente quando não tentamos ser unicórnios.

Um produto Mínimo Viável não é mais suficiente

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No palavreado das startups, um produto mínimo viável (PMV), é um produto com recursos suficientes para atrair clientes pioneiros e validar uma ideia de produto ainda no início do ciclo de desenvolvimento.

O conceito de PMV desempenha um papel central no chamado desenvolvimento ágil. Em setores como software, o PMV é uma ferramenta valiosa para ajudar a equipe de desenvolvimento a receber feedback do usuário o mais rápido possível para iterar na melhora do produto.

O que é PMI?

Este é um conceito originário da metodologia Lean Development [desenvolvimento enxuto]. A abreviação vem do inglês Minimum Awesome Product, [Produto Mínimo Incrível – PMI]. “Incrível” aqui significa exatamente isso – um produto que os consumidores chamarão de incrível. Eles não esperam nada menos em 2022.

O PMI é uma evolução do PMV e uma forma de evitar que o produto mínimo viável seja muito “mínimo”. Hoje em dia, os usuários já são muito acostumados a uma “experiência” gráfica e não estão dispostos a explorar um site com Times New Roman preto sobre um fundo branco e um botão “Inscrever-se” – Embora haja quem vá ao outro extremo e carregue seu PMV com excesso de animações, imagens, vídeos e outros efeitos especiais extravagantes.

A principal distinção de um PMI quando comparado a um PMV é que o PMI tem um conjunto de recursos um pouco mais amplo, além de também levar em contar o design da interface e da experiência do usuário [UX]. O PMI usa os elementos que os usuários estão acostumados a encontrar em aplicativos do mesmo tipo. Um design de interface bem estruturado tende fazer o usuário acreditar que o aplicativo é mais eficaz do que um outro com um design mais despojado. Além disso, é preciso ter sempre em vista a maneira como seus concorrentes projetam seus produtos. O seu não deve parecer mais tosco em comparação.

De qualquer forma, é claro que um produto mínimo viável sempre deve aspirar ser um um produto mínimo incrível. O pressuposto de um PMV foi sempre a qualidade do conjunto de recursos e não qualidade final. Ele deve ter o conjunto mínimo de recursos necessários, mas construídos e projetados com o melhor padrão. Resumindo: se o seu negócio é vender pizza, o seu produto mínimo viável deve ser uma pizza que seja incrível.

The Merge: A Esperada Fusão do Ethereum se Aproxima

Em breve, a rede principal da blockchain Ethereum se fundirá com o sistema Beacon Chain. Neste post discutimos brevemente os principais aspectos da operação e das tecnologias envolvidas.

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O evento marcará o abandono – no âmbito do Ethereum – do sistema de validação de transações baseado no método da “prova de trabalho” [proof-of-work, usado pelo Bitcoin] e a transição completa para uma nova abordagem chamada de “prova de participação” [proof-of-stake – ver abaixo]. A data para o acontecimento havia sido definida vagamente como o segundo trimestre de 2022. Alguns canais da Internet especulam que será em agosto. Não sei até que ponto a atual crise nas criptos interfere no cronograma.

Essa movimentação prepara o cenário para futuros melhoramentos de escala nessa rede, incluindo a adoção da tecnologia ‘sharding’ [ver notas, no final], que vai trazer inovações ao processo de validação. A fusão, também conhecida como “The Merge”, pretende reduzir o consumo de energia do Ethereum em ~99,00%.

The Merge – o que é

“The Merge” é um “upgrade” na rede Ethereum, que vai substituir o atual mecanismo de consenso baseado na “prova de trabalho” (PdT) por um mecanismo de consenso chamado de “prova de participação” (PdP), mais sustentável, eficiente e seguro. A partir da fusão, todos os blocos no Ethereum serão produzidos via PdP. A PdP já está ativa na rede Ethereum e passou por seu primeiro hard fork em outubro de 2021.

Discussão

Ethereum em seu estado atual usa o método da prova de trabalho para garantir o consenso entre os milhares de chamados “nós” na rede. A PdT é confiável e segura, mas consome muita energia. Para produzir cada bloco na rede, o processo envolve calcular códigos alfanuméricos válidos – chamados hashes – para verificar as transações e adicionar o próximo bloco ao blockchain. Para isso os participantes precisam usar equipamento com unidades de processamento [GPUs] poderosas e famintas de energia.

A prova de participação, por outro lado, pretende garantir a segurança da rede de uma maneira diferente: o validador precisa provar é um participante [daí o nome], um stakeholder, com claro interesse no bom andamento das transações da rede.

Essa prova do interesse na participação consiste no depósito de 32 ETH – uma quantia considerável. Qualquer pessoa pode fazer esse depósito e se tornar um nó validador – um nó que participa do algoritmo de consenso da rede.

Se você depositar mais de 32 ETH, você receberá vários “slots validadores”. A recompensa pelo status de validador é uma comissão das taxas de transação validadas em seus slots. Os requisitos de hardware aumentam quanto mais você participar como validador.

O protocolo determina que 2/3 de todos os validadores ativos assinem a finalização de um bloco. Se um agente malicioso tentar adulterar o protocolo usando um grande número de validadores para reverter um bloco finalizado, seus fundos sofrerão cortes – o que significa que perdem parte de, ou todo, o ETH depositado previamente. Isso torna os ataques extremamente caros e, portanto, improváveis.

A PdP não requer o mesmo hardware poderoso, de uso intensivo de energia que a PdT. Qualquer hardware relativamente recente deverá ser capaz de executar o software necessário para operar um nó de participação de 32 ETH.

Comparando os dois métodos

A PdP busca uma maior resistência à centralização e à censura. PdT e PdP são bastante semelhantes. Ambas são sistemas que não dependem de confiança [trustless], onde qualquer pessoa pode participar. Ambos os processos se baseiam no fato de que se torna exponencialmente difícil atacar a blockchain à medida que mais blocos são adicionados; é dispendioso ser um validador. O impacto que você tem na rede e, portanto, as recompensas que você pode ganhar, são proporcionais à quantidade de recursos econômicos que você coloca (hardware de computador e eletricidade no caso da PdT – moedas em PdP). No entanto, existem diferenças importantes entre os dois métodos.

Gráfico: Vox Leone

Para minerar em uma rede PdT, é preciso investir em hardware especializado, ter acesso a uma fonte de energia barata e confiável e ter um nível substancial de habilidade técnica para administrar e manter sua “fazenda de mineração”. É possível minerar em pequena escala, mas as peculiaridades das leis econômicas tornam difícil competir com fazendas de mineração maiores e mais ricas.

A prova de participação parece ser mais amigável para os participantes menores da blockchain. Para participar como validador e começar a apostar, é preciso depositar 32 ETH (é possível com menos, mas foge ao escopo deste post). O equipamento necessário para se tornar um nó e participar do consenso de PdP pode ser qualquer hardware de consumo razoavelmente moderno.

A prova de participação e o consumo de energia

Na prova de trabalho, quem resolver o bloco primeiro recebe a recompensa. Ou seja, a PdT é uma “corrida armamentista”. Se você tiver mais capacidade de computação [taxa de hash] do que seus concorrentes, é mais provável que você ganhe. O resultado final é que os mineradores PdT trabalham com 100% de capacidade, 24 horas por dia. Essa demanda extrema de energia continua a crescer com o valor das recompensas nos blocos que eles estão tentando ganhar.

Por outro lado, na prova de participação os proponentes do bloco são selecionados aleatoriamente – removendo completamente a exigência de uma corrida armamentista. Não há como aumentar a probabilidade de que qualquer nó específico seja escolhido para propor um bloco – portanto, não há necessidade de consumir cada vez mais energia para melhorar suas chances competitivas.

Como os nós PdP são estimados em 99% (ou mais) mais eficientes do que seus equivalentes PdT, o PdP representa um grande avanço para a eficiência energética da tecnologia blockchain.

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Notas

Sharding e Beacon Chain

Sharding [fragmentação] é o processo de dividir um banco de dados horizontalmente para distribuir a carga – é um conceito comum em ciência da computação. No contexto do Ethereum, o sharding funcionará com outros módulos para dividir os rollups da camada 2 em fragmentos de rede, distribuindo o fardo de lidar com a grande quantidade de dados necessários para rollups em toda a rede. Os fragmentos podem ser pensados também como sub-redes na blockchain. O propósito é reduzir o congestionamento da rede e aumentar as transações por segundo.

O Beacon Chain contém toda a lógica para manter os fragmentos de rede [shards] seguros e sincronizados. A Beacon Chain coordenará os validadores da blockchain, encaminhando-os aos fragmentos nos quais eles precisam trabalhar. Também facilitará a comunicação entre os fragmentos, recebendo e armazenando dados de transação dos fragmentos que podem ser acessados por outros fragmentos. Isso dará aos fragmentos um instantâneo do estado do Ethereum para manter tudo sincronizado.

Triplo halving

“The Triple Halving” é o nome que a comunidade Ethereum dá à grande queda na emissão de ETH que ocorrerá quando “The Merge” ocontecer e o Ethereum estiver totalmente portado para o algoritmo de prova de participação. “The Triple Halving” é uma brincadeira com o “Halving” do Bitcoin. Enquanto o Bitcoin reduz pela metade sua taxa de emissão a cada 4 anos, o Ethereum verá sua taxa de emissão reduzida em cerca de 90% no momento da fusão. Isso é equivalente a 3 Bitcoin “halvings” acontecendo ao mesmo tempo. O Ethereum experimentará uma redução de emissão repentino, o que levará mais de 12 anos para ser correspondido na rede do Bitcoin.

Fontes:

https://ethereum.org

https://ethmerge.com

O Smartwatch e o Autoconhecimento

Na filosofia, ainda não é uma questão decidida que o ‘mandamento’ “conhece a ti mesmo” possa ser realmente seguido, uma vez que não está claro que haja algo para conhecer.

Imagem: Pexels

No final de tudo, o “eu” [link] pode muito bem ser o pote de ouro no fim do arco-íris: pode simplesmente não existir. O eu pode ser uma ilusão, como sustentava a maioria das correntes da filosofia budista clássica; ou pode ser um “buraco de ser no coração do Ser”, como sugeriu Jean-Paul Sartre um tanto desconsoladamente; ou pode ser perfeitamente real, mas, por definição, além dos limites da cognoscibilidade.

A religião do corpo

Se você se convencer de que o mundo é complexo demais para a razão humana – como querem os adeptos da terra plana e outros milhões de infelizes sem luz que vagam pela redes, e que para você ele é definitivamente opaco ao conhecimento, sujeito aos desígnios de um Deus irascível, existem várias maneiras diferentes de reagir para superar o sentimento de frustração. Você pode decidir “seguir o fluxo”; viver seus dias na feliz ignorância de sua “verdadeira” natureza, mas em harmonia sentimental com o mundo ao seu redor.

Ou você pode voltar sua atenção para o seu corpo, como a coisa mais próxima que você vai chegar do próprio eu, e tentar aprender tudo o que puder sobre ele. Tentar encontrar seu equilíbrio e livrá-lo da decadência e da impermanência. Ao fazer isso, com o tempo você e seus pares podem vir a acreditar que as informações derivadas desse tipo de investigação podem ser consideradas realmente como autoconhecimento no sentido mais amplo.

Essa impressão de que o conhecimento das “estatísticas vitais” do corpo (velocidade, resistência, elasticidade, etc.) é um bem em si mesmo se torna particularmente atraente quando é apresentada não apenas como algo útil, mas como algo agradável. E não há maneira mais eficaz de tornar o aprendizado agradável do que transformá-lo em um game; fazê-lo depender da intermediação de algum dispositivo novo, prático e elegante, uma mistura de tecnologia e novidade – um gadget que não existia apenas alguns anos antes.

Em um mundo inundado com esses novos dispositivos, não é de todo surpreendente descobrir que o autoconhecimento que muitas pessoas buscam agora não é nada mais do que pode ser revelado pelo AppleWatch ou pelo Fitbit.

Anexar alguma recompensa tangível – como o progresso nas etapas de um videogame – a atividades cotidianas, como caminhar ou correr, parece estar muito de acordo com os interesses das empresas de tecnologia – com a benção de todos os governos – que querem a todo custo que você integre completamente o produto deles à sua vida e interaja com esse produto o tanto quanto possível.

Na China já se atribui “créditos sociais” (ou os deduz, no caso daqueles corajosos o suficiente para se opor ao governo) a tarefas mundanas, como participar de sessões de ioga, ou visitar um parente idoso. Esse crédito é instrumental na hora de adquirir uma casa ou usufruir certos privilégios. Nada se transaciona sem uma consulta a esse banco de dados.

Aplicando o manual aperfeiçoado pela China, governos e corporações de todo o mundo usam a psicologia comportamental e a neurociência para manipular as pessoas das mais variadas maneiras. Os algoritmos subtraem a liberdade de nossas mentes misteriosas e insondáveis, mantendo-as cativas e firmemente focadas na torrente de informação que sai das pequenas telas dos smartphones, simulacro da realidade do mundo exterior.

Neste ponto, devo anotar, confesso que eu não tenho certeza de que devamos abandonar totalmente a psicologia comportamental. Alguma “gameficação” na vida pode ser divertida e útil. Por exemplo, quando faço um curso online [como é usual nestes tempos pandêmicos], não posso negar que gosto muito de ganhar pontos, de subir de nível e das medalhas, e acho que isso de alguma forma ajuda a aprender melhor, mais rápido e com mais prazer. Mas minha posição é a de que a neurociência não deve ser praticada à custa do nosso mundo íntimo, misterioso e invisível ao de fora.

Conhece a ti mesmo

A opinião de Nietzsche sobre “conhece ti mesmo” é interessante: “Uma coisa conhecida é uma coisa que não é mais preocupante.” Assim, na visão nietzscheana, a expressão “conhece a ti mesmo” pode ser interpretada como uma injunção para se tornar objetivo e direcionar a atenção quase inteiramente para o mundo exterior, para a realidade crua dos fatos.

Mas tenho para mim que essa Máxima Délfica, tal como usada por Sócrates, tem um cunho mais literal. Ele era um filósofo e, como tal, praticava o que talvez seja o único método confiável para ter sucesso em um empreendimento: um mergulho profundo no perigoso inconsciente. Um empreendimento que, ao mesmo tempo em que envolve uma transformação interior, também traz o Céu à Terra.

Infelizmente, essa parece ser uma tarefa quase impossível na era das redes sociais, de emoções fáceis induzidas pelos torpes algoritmos e quase completa incapacidade de foco e raciocínio. Alguns sustentam que Napoleão chegou a sentir um chamado para a filosofia – notadamente de Maquiavel, mas mesmo naquela época amigável à introspecção pareceu mais fácil para ele partir para conquistar o mundo, em vez de enfrentar o reino interior.

Portanto, um mergulho profundo no inconsciente – hoje negligenciado – não é para todos, a menos que se esteja a procura de alívio para aflições mentais ou fazendo um balanço da vida na hora da morte (ou coisa pior). Se o seu Fitbit está a dizer que você precisa de uma corrida na praia [e dos consequentes likes dos seus seguidores], não há tempo a perder em aventuras introspectivas.

A pulsão coletiva de mergulhar no materialismo digital das redes destrói qualquer capacidade de apreciação da consciência fenomenológica, arriscada e cheia de nuances. Especialmente nestes momentos históricos em que os grandes do mundo se preparam para guiar as massas em direção a gloriosos planaltos.