O Linux Vai um Dia Conquistar o PC?

No site The Register encontro um artigo de opinião escrito pelo veterano repórter de tecnologia e entusiasta do GNU/Linux, Steven J. Vaughan-Nichols, do qual transcrevo trechos para depois comentar.

Linux Mint
Área de trabalho do esplêndido Linux MintImagem: WikiMedia Commons

[…] tendo coberto o mundo do desktop Linux (…), acho que usei mais dele do que qualquer outra pessoa que também tenha uma vida além do PC. Em suma, eu amo o desktop Linux. Muitas distribuições do Linux para desktop são ótimas. Eu sou um grande fã do Linux Mint há anos. Também gosto, em nenhuma ordem específica, do Fedora, openSUSE, Ubuntu e MX Linux. Mas você sabe o que? Isso é um problema. Temos muitas distribuições de desktop Linux excelentes, o que significa que nenhuma delas consegue ganhar participação de mercado suficiente para causar qualquer impacto real no mercado geral.

[…]Além de mais de 200 distribuições, existem 21 interfaces de desktop diferentes e mais de meia dúzia de gerenciadores de instalação de software, como o Debian Package Management System (DPKG), Red Hat Package Manager (RPM), Pacman, Zypper e muitos outros. Depois, há toda uma gama desses novos contêineres para instalar programas, incluindo Flatpak, Snap e AppImage. Eu mal consigo ver todos e isso sendo parte do meu trabalho! Como esperar que os usuários comuns entendam tudo isso? É impossível. Nenhum dos principais distribuidores Linux – Canonical, Red Hat e SUSE – realmente se importa com o desktop Linux. (…) seu dinheiro vem de servidores, contêineres, nuvem e Internet das Coisas (IoT). Desktop? Por favor. Devemos apenas ficar felizes por eles gastarem tanto no desktop.

[…]Agora, dito tudo isso, não quero que você tenha a impressão de que não acho que o desktop Linux seja importante. Eu acho. Na verdade, acho crítico. A Microsoft, você vê, está abandonando o desktop tradicional baseado em PC. (…) em favor da “nuvem”. Isso significa que o futuro do sistema operacional de desktop estará nas mãos da Apple, com o macOS, e nas nossas, com o Linux. Como alguém que se lembra da transição de mainframes, controlados centralmente, para PCs, de uso individual, não quero retornar a um mundo onde todo o poder pertence à Microsoft ou a qualquer outra corporação.

“O desktop Linux nunca será tão grande quanto o Windows já foi”, escreve Vaughan-Nichols no encerramento. “Entre a ascensão dos serviços de nuvem e o domínio do smartphone, não é possível isso acontecer. Mas ele ainda pode se tornar o desktop convencional mais popular.”

Linux precisa de padrões

Foi oportuna a ênfase nos usuários avançados. De muitas maneiras, eles são o centro de gravidade em um ecossistema de tecnologia.

Quase todos os usuários avançados/técnicos que conheço querem “padrões”. As distribuições Linux estão repletas de padrões por baixo do capô, mas não há um padrão de certificação de hardware (portanto, encontrar periféricos compatíveis é sempre estranho, além de arriscado) e não há uma interface de usuário padrão. Os usuários técnicos querem essas duas coisas. Um técnico que seja obrigado a dar instruções de suporte técnico ao usuário, ensinando a ele comandos de terminal porque não há uma Interface Gráfica padrão é um técnico que um dia dará as costas ao “desktop Linux”.

Três posições – ao meu ver equivocadas – que a comunidade FOSS [Free Open Source SoftwareSoftware Livre] assume, e que levam a essa situação são:

1. Pregar que o “’Linux’ é um sistema operacional”. Fora do âmbito técnico essas palavras alienam o ouvinte. Apenas os técnicos entendem ou se interessam por esse jargão. Para qualquer pessoa com mentalidade de consumidor (que inclui a maioria dos usuários avançados) isso não significa nada. Aliás, tenho receio de ter perdido leitores no início deste texto, com todas aquelas siglas e nomes esquisitos. Se você ainda está aqui, receba minha admiração pela sua capacidade de foco(*). É preciso vender o Linux como uma solução a problemas comuns e não um ‘sistema operacional’. Não me ocorre no momento nenhum remédio para esse problema crítico de comunicação, mas ele tem que ser superado.

2. Inconsistência nas interfaces de usuário. “Interfaces são compromissos” (aprendi isso em Análise de Sistemas). A fragmentação do Linux é ainda maior quando se fala nos ambientes gráficos de usuário disponíveis (GNOME, KDE, MATE, etc). Interfaces são compromissos para todos os envolvidos. Se uma determinada categoria de stakeholder experimenta o computador como algo caótico, nunca previsível, o sistema todo pode desmoronar. Os computadores devem fornecer consistência ou então enfrentar o opóbrio.

3. Opções demais para instalação e atualização. O “empacotamento” da distribuição sempre foi hostil, tanto ao desenvolvedor de aplicativos quanto ao usuário, de novo por razões de fragmentação do ecossistema. Cada distribuição tem seu gerenciador de pacotes particular. Uma tentativa de solução proposta é o padrão universal Snap no qual se baseia o popular Snapcraft. Segundo a Wiki “Snapcraft é uma ferramenta para desenvolvedores empacotar seus programas no formato Snap. Ele roda em qualquer distribuição Linux suportada por Snap, macOS e Microsoft Windows. O Snapcraft compila os pacotes de forma a garantir que o resultado de uma compilação seja o mesmo, independentemente de qual distribuição ou sistema operacional ele é compilado”.

Faça como o Windows

Para merecer a atenção e o investimento do público em geral, os desenvolvedores de desktops FOSS precisam voltar sua mentalidade para as questões: a) Como fazer para que as pessoas fiquem empolgadas o suficiente com a plataforma para começar a escrever aplicativos para ela? b) Como juntar desenvolvedores de aplicativos e usuários finais da maneira mais satisfatória possível?

As respostas para isso podem variar às vezes, mas geralmente se parecem com:

  • Integrar o sistema verticalmente
  • Manter o visual consistente – mas não espartano

A maioria dos usuários avançados prefere Windows ou OS X exatamente por esses motivos!

Em oposição, o FOSS – como eu o o conheço – sempre tende a enfatizar a integração horizontal, a resolução de dependências através de bibliotecas, UIs descartáveis e APIs espartanas – todas as respostas erradas para desafiar a Microsoft no campo do desktop!

Além disso, se você tiver uma coleção de APIs para desktop, elas apenas serão úteis se todo o conjunto tiver versões padrão. Mesmo assim a comunidade de distribuição Linux não se importa em misturar as versões upstream conforme cada um achar melhor – isso seria perfeitamente razoável em um mundo em que todos os “desenvolvedores” fossem hackers de sistema.

O Google (Alphabet) aparentemente descobriu a solução para a maioria dos problemas acima com o Android, construído a partir do Kernel do Linux, mas sempre pronto para substituí-lo/alterá-lo/descartá-lo.

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(*) A propósito disto, respeito muito a inteligência das pessoas que se propõem a ler este blog, e não faço concessões ao fácil [:wink]

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