Multiplique sua Estimativa por Pi

A estimativa de projetos é uma arte hermética, em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que no desenvolvimento de sistemas computacionais. Certa vez, ouvi falar de uma misteriosa confraria de numerólogos, que multiplicavam suas estimativas de tempo por π. A prática supostamente dava a eles uma margem de segurança suficiente para definir novos requisitos, testes, iteração e outras mudanças aleatórias no escopo do projeto.

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Isso me pareceu curioso e arbitrário, mas fiquei intrigado. Depois de refletir um tanto, pude colocar a conjectura da estimativa circular (CEC) em bases matemáticas sólidas.

Alguém – um designer, seu líder, o produtor executivo, um amigo, sua mãe – pede que você faça algo. Você pensa um pouco, faz algumas anotações, considera o que é necessário e apresenta um projeto e uma estimativa de tempo para a conclusão.

Mas as coisas mudam. Acontece que havia algumas coisas que seu designer/ líder/produtor/ amigo/mãe esqueceu de mencionar e, à medida que você fazia o trabalho, sugiram algumas ideias para estender o projeto um pouco mais. Seu escopo cresceu.

E é claro que nem tudo correu bem. Sua primeira tentativa foi um fracasso [instrutivo]. Então você focou na segunda tentativa e acabou criando uma serie de problemas que demoraram um tanto mais para serem ajustados. Você gastou dois dias extras para encontrar uma solução alternativa. Em suma, você seguiu um caminho positivamente tortuoso até seu objetivo.

Quanto tempo demorou a sua jornada em comparação com o plano original? Parece que os numerólogos estavam certos…

E aí está – não importa o que você pense quando começa um projeto. Depois de passar pela pesquisa, design, discussões, protótipos, falhas, testes, rotatividade de requisitos e todos os outros caprichos do processo criativo, você certamente terá gasto π vezes o tempo que você planejou originalmente.

Alguns podem questionar meu rigor matemático e até mesmo contestar o que acredito ser a conclusão incontestável. Alguém poderá alegar que o multiplicador correto não é de fato π – mas 2, ou √2, ou e, ou a razão áurea φ. No entanto, não conheço ninguém que chegue a alegar que o multiplicador seja < 1.

Independentemente de quaisquer inclinações numerológicas, o argumento é que você se permita admitir que no início de um projeto você a) não tem o panorama completo, b) você não sabe como as coisas vão se encaminhar, e c) há trabalho pela frente sobre coisas que você ainda não tem ideia.

Nenhuma quantidade de planejamento e análise de tarefas pode mudar isso, então não tente. Em vez disso, dê a si mesmo uma reserva de tempo plausível e então mergulhe no trabalho.

Ah, e aquela lista de tarefas que você fez no fim de semana passado? Não é por acaso que você conseguiu concluir apenas cerca de um terço dos itens da lista. ;-)

Sábado Musical – com som feito em casa

Dia de distanciamento voluntário por conta do spike na Covid. Sem o tradicional encontro dos sábados pelos bares da vida. Aproveitando para colocar em ordem coisas e ideias, me dou conta que posso me entregar ao luxo de ter some fun. Hoje vou poupar os prezados leitores das longas arengas tecnológicas e mostrar algo diferente.

Imagem: Pexels

Sim, este é um blog de tecnologia, mas a Constituição deste blog prevê espaço para a discussão de tópicos musicais, de quando em vez. Nunca aproveitei essa prerrogativa, mas hoje é um bom dia para fazê-lo.


Apresento uma música gravada com minha banda, a Stage(*), no começo do século. Se esta experiência der certo, outros sábados musicais virão. Para hoje escolhi um pop-folk [ou folk-pop] de minha autoria, “The Motion” [with lyrics], que trata da vontade estar em movimento, “cruzando as estrelas à velocidade da luz… movendo coisas no meu quarto só com o poder da mente… me movendo no ritmo da noite”. Vem muito a propósito deste desastre interminável que é a Covid.


Without further ado, ladies and gentlemen, sing along with STAGE! (clap, clap, clap…) >>>>


* * *

The Motion
(E. Bernardo)
I'm in motion
I am moving on the ground
On the ocean, on that open field so green
I'm moving on the paper
I trace a swaying line
I draw her features, I draw her eyes
On the ballet of the pen
Now I cross the stars at the speed of light
I feel emotion
I'm moving on the paper
I'm moving in silence
Like a division of tanks
In search of the prey,
I go smashing the way
Outraging the defense
I'm moving on her body
I'm moving on the street
Only with the power of my mind
I move things across my room
Now I know the force
That can push the "start"
That sets me in motion
Is concentrated in her fingers
I'm moving on the rhythm of the night
I feel emotion
(repeat)

(*) Banda Stage:

Rogério Trevisan – Bateria
Valmir Marques – Guitarras
João Grandini – Baixo elétrico
Eraldo Bernardo (moi!) – Vocais

Thoughts.page: um Micro Blog para Ideias Rápidas

Em minhas interações diárias com a Internet geralmente frequento grupos de desenvolvedores de software, de veneráveis pesquisadores de segurança e de fundadores de startups. Não é surpresa que eu, portanto, às vezes tenha a sorte de conhecer coisas em primeira mão. Foi o que aconteceu na semana passada ao conhecer o thoughts.page, um site para ‘microblogging’ muito ágil e inovador.

Ilustração: Vox Leone

À primeira vista ele parece um blog com um tema gráfico muito simples, como os blogs de forma longa, comuns em serviços como Medium e Substack – assim como muitos no WordPress. Desfeita a primeira impressão visual, emerge então um site muito parecido com o Twitter.

Mas sem limites estritos de caracteres. Também sem títulos de postagens. Sem comentários, sem respostas nem @menções. Sem foto de perfil ou avatar. Sem notificações. Com interface apenas em inglês. Fácil de descobrir na plataforma. Fácil de se inscrever. Rápido para ler. Pensamentos controversos permitidos, mas protegidos pela própria arquitetura do sistema, tanto contra ataques dos haters quanto contra o abuso de bots e propaganda. Monetização não suportada. Sem algoritmo, sem cancelamentos.

Para coroar o inusitado, a rigor não é uma plataforma grátis. O preço proposto é de US$ 5 mensais para quem ganha mais de US$ 40,000 por ano [não sei como eles vão verificar – presumo que para os brasileiros será eternamente grátis]. Essa é a grande novidade do Thoughts, que se contrapõe à regra quase universal dos serviços “grátis”, que são oferecidos ao usuário em troca de seus dados comportamentais na rede – o que se tornou a fonte de todos os males na web.

Como há apenas a versão Web, para acessá-lo é necessário usar o “protocolo do dedo”, como nos primeiros dias da web: “aqui está o endereço dos meus status/pensamentos/sentimentos – digite em seu navegador e adicione aos seus favoritos”. Para divulgar o site é preciso propagar o link entre os seus contatos. Ou esperar que ele entre no índice do Google e outros.

No que diz respeito à segurança e privacidade, observo que, pelas suas características, ele é menos propenso a ‘stalking’ ou ‘bullying’ do que Twitter, Instagram, FB, etc. É uma forma de comunicação um-para-muitos sem as interações tóxicas.

Ilustração: Vox Leone

O fato de a plataforma não ter um feed RSS aumenta o nível de esforço necessário para seguir alguém. Mas tem suas compensações. Eu não uso o Twitter, mas há um punhado de pessoas que ocasionalmente checo usando o velho Firefox para ver sua página [que favoritei]. Isso tem a vantagem de manter o número de pessoas que eu sigo a um mínimo absoluto e limitar a frequência com que leio seus tweets, independentemente da frequência com que me lembro de verificar se elas disseram algo novo.

Difícil de descobrir

Com o Thoughts é mais difícil seguir um número muito grande de pessoas [mas esse parece ser o ponto!]. Depois de criado seu blog se torna um subdomínio da plataforma, como por exemplo, leone.thoughts.page. Na prática, não é diferente de visitar um site por meio de um item favorito do navegador [eu com certeza visitaria uma página de pensamentos de uma banda local, de um comediante ou qualquer outra pessoa que tivesse ideias interessantes]. O Twitter começou recentemente a desencorajar esse tipo de visualização passiva [sem login]. Apenas navegar para o perfil do Twitter de alguém [Ex: https://twitter.com/mr-nice-guy] agora resulta em um pop-up me pedindo para fazer o login, e tentar seguir qualquer link resulta em um pop-up semelhante que não pode ser fechado.

Isso pode representar uma oportunidade para esta nova plataforma. Os ventos da web estão para mudar, com a Web 2.0 mostrando sinais de fadiga. A princípio parece que sua configuração que não permite que as pessoas enviem mensagens ou sigam umas às outras (e na qual você não precisa usar seu nome verdadeiro) não pode ser usada para interações sociais. Mas em um segundo pensamento lembro que o mundo está repleto de comunicações unidirecionais [ou bi ou multi-unidirecionais] e portanto sempre haverá casos de uso computacionais para elas. Dois efeitos colaterais positivos dessas comunicações são que, no mínimo, esse esquema neutraliza as interações nocivas e o efeito “bolha de opinião”.

Ilustração: Vox Leone

Eu me pergunto se a falta de ferramentas de interação entre os pares fará com que os eventuais usuários do Thoughts tentem criar soluções alternativas para interagir de outras maneiras. Por exemplo, no início do Twitter as pessoas usavam RT e outras técnicas para divulgar e/ou responder a tweets, embora a própria plataforma não tivesse essas funções. Eu pessoalmente adoraria ver um concorrente para o Twitter [o que é a própria motivação deste post]. Será interessante observar.

Para um leitor, Thoughts desarticula a ideia de ir a um único site específico [como o Twitter], escolher um tópico e ver imediatamente nele um fluxo de pensamentos de muitas pessoas diferentes. Para um escritor, porém, acredito que um micro blog como esse pode ser combinado a um full blog WordPress para complementar e estender pensamentos iniciados nos grandes blogposts e criar uma retroalimentação positiva para ambos os sites.

Como tudo na vida, é preciso conhecer sua audiência. Quem é o público para seus pensamentos? Presumivelmente, não o seu círculo de amigos – que têm suas próprias vidas e não vão atualizar sua página várias vezes ao dia para te ver. As únicas possibilidades que vejo para quem pretende usar a plataforma como um fim em si mesmo são a) que nenhuma outra alma jamais chegue a ler seus escritos lá – caso em que você pode muito bem escrever suas ideias em um arquivo de texto em seu disco rígido, ou b) que atraia a atenção de um tipo que você prefere não receber: um seguidor obsessivo com assustadoramente muito tempo livre em suas mãos ou então enxames de robôs russos visando os vulneráveis e os propensos a compartilhar demais suas emoções.

Mas se você tem uma visão estratégica do que pretende atingir, como blogger ou no relacionamento com clientes, Thoughts parece ser uma grande ferramenta para complementar seu Blog ou para fazer backlinks para aumentar o pagerank de seu(s) site(s). Os seguidores do seu blog principal provavelmente sempre darão uma olhada em seu micro blog.

Ilustração: Vox Leone

E se você é do tipo social ou ‘early adopter’ também sabe que é sempre bom reservar seu nome ou marca em uma nova plataforma que surge [ok, não precisa me agradecer]. A propósito, criei uma conta, e meus pensamentos estão [ou estarão] em leone.thoughts.page [ainda testando]. Salve entre seus favoritos, please. :)

* * *

Termo de Isenção de Responsabilidade:

  • Não tenho nenhum tipo de relação com esse site/domínio. Conheci a ferramenta durante a exposição que seu fundador fez no site Hacker News.
  • É bem possível que em breve eu me arrependa de ter postado isto, se o serviço não decolar.
  • E como evangelista da Segurança digital, aproveito para avisar do risco sempre existente de ataques do tipo Cross-Site Scripting neste tipo de site [como é corriqueiro no FB, Twitter et al]. Sempre navegue com consciência.

O Movimento Global para Controlar as Big Techs

Hoje eu enfoco uma das seções do relatório Internet Freedom 2021, produzido pela Freedom House. Essa seção do relatório apresenta um cenário no qual o usuário segue sendo o grande perdedor na guerra titânica entre governos e empresas de tecnologia e indica um caminho a seguir. Em um mundo perfeito este material teria uma repercussão também na mídia tradicional e nos grandes portais online. Mas, por algum motivo, somos nós bloguistas de tecnologia que tomamos nas mãos essa missão. Que assim seja.

Imagem: iStock

Na grande batalha entre estados nacionais e empresas de tecnologia, os direitos dos usuários da Internet se tornaram as principais vítimas. Um número crescente de governos tem afirmado sua autoridade sobre empresas de tecnologia, muitas vezes forçando as empresas a terem papel ativo na censura e vigilância online. Esses desenvolvimentos constituíram, em seu conjunto, um ataque sem precedentes à liberdade de expressão online, fazendo com que a liberdade global da internet diminuísse pelo 11º ano consecutivo.

As normas globais mudaram drasticamente no sentido de uma maior intervenção governamental na esfera digital. Dos setenta estados cobertos pelo relatório, um total de quarenta e oito ingressou com ações judiciais ou administrativas contra empresas de tecnologia. Enquanto alguns movimentos refletiram tentativas legítimas de mitigar danos online, controlar o uso indevido de dados ou acabar com as práticas de mercado manipuladoras, muitas novas leis nacionais impuseram censura excessivamente ampla e requisitos de coleta de dados ao setor privado. As atividades online dos usuários agora são moderadas e monitoradas por empresas de forma mais difundida, através de processos que carecem das salvaguardas requeridas na governança democrática, como transparência, supervisão judicial e responsabilidade pública.

O impulso em direção à regulamentação nacional surgiu em parte devido à persistente falha em enfrentar os danos on-line por meio da autorregulação. Os Estados Unidos desempenharam um papel importante na definição das primeiras normas da Internet em torno da liberdade de expressão e dos mercados livres, mas sua abordagem laissez-faire para a indústria de tecnologia criou oportunidades para manipulação autoritária, exploração de dados e prevaricação generalizada.

Na ausência de uma visão global compartilhada para uma internet livre e aberta, os governos estão adotando suas próprias abordagens individuais para policiar a esfera digital. Os formuladores de políticas em muitos países têm citado uma vaga necessidade de retomar o controle da Internet das mãos de potências estrangeiras, corporações multinacionais e, em alguns casos, da sociedade civil.

Esse deslocamento de poder das empresas para os estados ocorreu em meio a um recorde de atentados contra a liberdade de expressão online. Em 56 países, as autoridades prenderam ou condenaram pessoas por seu discurso online. Os governos suspenderam o acesso à internet em pelo menos 20 países, e 21 estados bloquearam o acesso às plataformas de mídia social, mais frequentemente em tempos de turbulência política, como protestos e eleições. À medida que a repressão digital se intensifica e se expande para mais países, os usuários, compreensivelmente, não têm confiança de que as iniciativas de seus governos para regulamentar a internet levarão a uma maior proteção de seus direitos.

O recente surto de ação regulatória pode ser classificado em três categorias relativas a a) conteúdo online; b) dados pessoais e c) comportamento de mercado. Muitas das novas medidas em cada categoria têm o potencial de ameaçar os interesses dos usuários.

Mais governos introduziram regras problemáticas para remover a opinião dos usuários das plataformas da Internet. Algumas das leis foram criadas para suprimir conteúdo que seja crítico ao governo, em vez de proteger os usuários de material nocivo. Outras leis atenuam os padrões do devido processo legal, eliminando a necessidade de uma ordem judicial ou obrigando o uso de inteligência artificial (IA) para a remoção de conteúdo, o que pode resultar em danos colaterais significativos para a expressão política, social e religiosa. Apenas em alguns casos essas leis exigem que as empresas realizem relatórios de transparência e forneçam aos produtores de conteúdo uma via para apelação. Os usuários são cada vez mais deixados sem ajuda para enfrentar os sistemas de moderação obscuros das empresas e proteger seus direitos online.

A Liberdade de Expressão Atrás das Grades: autoridades governamentais investigaram, prenderam ou condenaram pessoas com base apenas em seus posts em redes sociais. – Imagem: Freedom House

Um padrão semelhante é aparente em questões de gerenciamento de dados. Um número crescente de leis facilita a vigilância do governo ao enfraquecer a criptografia e obrigar que as plataformas armazenem dados do usuário em servidores localizados no país. Esses requisitos de localização deixam os dados especialmente vulneráveis ​​em ambientes com padrões fracos de estado de direito e tornam mais difícil para as empresas oferecer serviços transnacionais com fortes recursos de segurança cibernética. Mesmo as leis que consagram os direitos dos usuários de controlar seus dados geralmente contêm vagas isenções para a segurança nacional, enquanto outras impõem requisitos de licenciamento onerosos para empresas locais e estrangeiras.

Os reguladores da indústria em todo o mundo têm compartilhado o empenho em reprimir as práticas comerciais anticompetitivas e abusivas. Grandes empresas de tecnologia receberam multas pesadas por não protegerem os dados e explorar seu poder de mercado para promover seus próprios produtos. Em alguns países, as autoridades trabalharam com as empresas para tornar os produtos concorrentes interoperáveis ​​e permitir que os usuários alternassem entre eles com mais facilidade. No entanto, regimes autoritários como os da China e da Rússia tomaram medidas violentas, sem levar em conta o devido processo legal ou o Estado de Direito, refletindo o desejo de subordinar ainda mais o setor privado aos interesses políticos repressivos do Estado.

Aproveitar a tecnologia para difusão de valores democráticos

Ainda há tempo para os governos democráticos buscarem medidas inteligentes e estritas para proteger os direitos dos usuários online. Democracias deveriam lidar com maior transparência e responsabilidade em relação às práticas de moderação de conteúdo das plataformas. As leis de privacidade de dados devem se concentrar na proteção dos usuários, evitando uma maior fragmentação da Internet. E a política de concorrência deve promover a inovação que responda à demanda do usuário por maior personalização, segurança e interoperabilidade. A regulamentação deve garantir que o poder não se acumule nas mãos de apenas alguns atores dominantes, seja no governo ou no setor privado.

O poder emancipatório da internet depende de sua natureza igualitária. Onde quer que um usuário esteja baseado, uma Internet livre e aberta deve oferecer acesso igual a ferramentas educacionais, criativas e comunicativas que facilitem o progresso pessoal e social. Os governos democráticos têm a obrigação de criar regulamentações que permitam aos usuários se expressar livremente, compartilhar informações além das fronteiras e responsabilizar os poderosos. Caso contrário, as novas tecnologias podem servir para reforçar e acelerar o declínio global da democracia.

Fonte: Freedom on the Internet 2021

Todo analista deveria fazer uma temporada em consultoria

Por Forrest Brazeal

www.cloudirregular.com

Não estou falando sobre me tornar um daqueles terceirizados que são chamados de “consultores” por suas empresas, mas que na realidade são apenas “contratados em série”. Refiro-me a uma verdadeira função de consultor, onde você seja pago para trazer experiência, dar conselhos e promover mudanças técnicas.

Imagem: iStock

Penso que existem várias maneiras diferentes de conseguir uma função como essa:

  • Abrir o próprio negócio, como consultor independente. Mas administrar seu próprio negócio envolve um conjunto de outras habilidades, como vendas e networking. Este post é focado principalmente em como a consultoria ajuda você a se tornar um melhor engenheiro de software, então não vou me fixar por muito tempo nesta opção.
  • Trabalhar para uma empresa de consultoria em uma função sênior. Dependendo do sua experiência específica, você pode achar mais fácil atingir esse objetivo em uma empresa gigante como a Deloitte ou Accenture, uma ‘boutique’ de especialistas como a Trek10, ou em algum lugar nesse espectro. Em qualquer caso, a opção “consultor de equipe” dá a você a experiência de consultoria em engenharia, mas elimina o desafio de gerenciar seu próprio esquema de vendas.
  • Trabalhar para uma empresa de tecnologia em uma função técnica voltada para o cliente: digamos, como engenheiro de pós-vendas ou arquiteto de soluções. Essa opção pode oferecer mais continuidade nos bastidores do que as outras duas, mas usa, fundamentalmente, o mesmo conjunto de habilidades.

Seja qual for a sua escolha, acredito que todo analista deve passar uma parte de sua carreira fazendo uma dessas três coisas. Trabalhar como consultor desbloqueia os ganhos de carreira que seriam difíceis, senão impossíveis, de obter como analista interno ou líder de engenharia.

Os Superpoderes do Consultor

  • Uma visão panorâmica da indústria

Depois de trabalhar com alguns clientes, você vai perceber que a maioria deles não é tão única e especial quanto eles pensam que são. Eles estão enfrentando um certo desconforto organizacional e tentando resgatar a sua dívida técnica, como todos os outros também estão. Você rapidamente começará a se tornar um “combinador de padrões” profissional, aplicando coisas que funcionaram na empresa X ao problema que você vê na empresa Y. É nesse caldo de cultura que nascem as “melhores práticas” em tecnologia.

Alguém já se referiu a esse processo de melhores práticas emergentes da consultoria como “lavagem de pensamento”, o que parece horrível, mas pode ser algo muito interessante. Com o tempo, você tem a oportunidade de construir um manual para o sucesso em sua disciplina que vai funcionar em 80% dos casos. A maioria das pessoas provavelmente não vai acreditar totalmente em suas ideias, mas você saberá que elas funcionam e exatamente o que está fazendo. Ninguém poderá tirar isso de você.

  • Trabalhar em projetos de alto impacto

Você não traz um consultor para dentro da sua empresa para ajudá-lo a manter as coisas como estão. Você o traz para ajudá-lo a impulsionar a mudança. Como consultor, seu trabalho não será manter um antigo servidor ActiveDirectory. Você terá que descobrir como migrar 2.000 pessoas para o Google Cloud.

Um bom trabalho de consultoria é um fluxo constante dos projetos mais interessantes do mercado, uma miscelânea de maneiras saborosas de aprimorar suas habilidades.

  • Realmente fazendo as coisas

Conheço o estereótipo de que consultores são charlatães que deixam as coisas em uma bagunça pior do que a que encontraram. Por outro lado, isso descreve muitas pessoas que trabalham internamente em qualquer empresa.

A diferença é que os consultores são contratados especificamente porque não têm lealdade a ninguém além do executivo que os contratou. Eles têm o poder de pular a política e apenas apontar o que precisa ser feito, mesmo que seja óbvio. Especialmente se for óbvio. Acontece que muitas das mudanças que as empresas precisam fazer – sejam técnicas ou de negócios – não exigem obscuros momentos eureka ou meses de descoberta. As pessoas inteligentes dentro da empresa provavelmente já estão cientes dos elefantes nas salas. O problema é que eles estão muito emaranhados na burocracia e nos processos falidos e não têm uma visão clara de para onde ir.

Se você tiver a oportunidade de trabalhar com uma consultoria que envolva o nível executivo, vai descobrir que consegue fazer mais em poucas semanas do que seus colegas internos poderiam fazer por conta da política da empresa.

  • Empatia com as necessidades do cliente

Quando você faz consultoria, não há filtros entre você e a eficácia de seu trabalho. Consultores que não cumprem o prometido não duram muito. Assim, você fica ‘expert’ em ouvir, documentar e mostrar o valor do seu trabalho. Você aprende a resolver problemas reais, não imaginários – porque é para isso que você é pago agora.

  • Melhoria do “tempo médio para competência” em novas habilidades

Você não está recebendo honorários de consultoria para aprender no trabalho; seu tempo de adaptação para qualquer nova tecnologia que você encontrar será extremamente rápido. Aprender como aprender se torna uma ferramenta mais importante do que qualquer linguagem ou estrutura. Com o tempo, isso significa que você se surpreenderá com a rapidez com que assimilará novas informações.

Eu disse uma temporada, não necessariamente uma carreira inteira

A consultoria tem desvantagens e elas se multiplicam quanto mais você permanece no campo. Mesmo assumindo a situação ideal, com uma equipe honesta e clientes legais, você começará a lidar com coisas como:

  • A rotatividade constante de projetos é fatigante

Quer dizer, novos projetos são empolgantes, mas em algum momento você simplesmente começa a querer trabalhar em algo familiar para variar um pouco.

  • Sem pele no jogo

Como consultor você será avaliado em um curto horizonte de tempo. Você entregará seus resultados, será pago e seguirá para o próximo show. Isso limita o escopo dos projetos de mudança com os quais você pode se envolver de forma significativa. Também o separa dos resultados comerciais de longo prazo de seu trabalho. A menos que você tenha relacionamentos excepcionalmente épicos com seus clientes, um dia você pode querer ser mais jogador do que treinador.

  • Ser um “especialista” profissional é perigoso para o seu crescimento

Policiais, políticos e consultores têm esta maldição em comum: eles são profissionalmente incentivados a evitar admitir que podem estar errados.

Quando você entra para trabalhar na estrutura digital de um cliente, não está lá para aprender, bagunçar, cometer erros e tentar novamente. Você está lá para saber mais do que o cliente, acertar na primeira vez e fazer o diretor parecer inteligente ao contratá-lo.

Sempre achei esse arranjo estressante e não particularmente honesto. Sou uma pessoa disciplinada, com formação e experiência; um cara que lê a documentação. Contudo, não gosto de ter que projetar um ar de competência que nem sempre sinto. Principalmente porque tenho medo de acabar me convencendo de que realmente sou um especialista e acabar me acomodando para sempre no ponto mais baixo da curva Dunning-Kruger.

Então, por que dar consultoria?

Para resumir tudo isso de forma simples: embora a consultoria seja estressante e tenha incentivos estranhos, também é um atalho para se tornar sênior muito rapidamente. É como comprimir dez anos de experiência em um quarto do tempo. Você vai começar a pensar sobre tecnologia em um contexto de negócios. Você vai construir sua rede. E quando você voltar para casa, você será o engenheiro viajado que todos procurarão para obter informações.

Tradução: Bravo Marques