Todo analista deveria fazer uma temporada em consultoria

Por Forrest Brazeal

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Não estou falando sobre me tornar um daqueles terceirizados que são chamados de “consultores” por suas empresas, mas que na realidade são apenas “contratados em série”. Refiro-me a uma verdadeira função de consultor, onde você seja pago para trazer experiência, dar conselhos e promover mudanças técnicas.

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Penso que existem várias maneiras diferentes de conseguir uma função como essa:

  • Abrir o próprio negócio, como consultor independente. Mas administrar seu próprio negócio envolve um conjunto de outras habilidades, como vendas e networking. Este post é focado principalmente em como a consultoria ajuda você a se tornar um melhor engenheiro de software, então não vou me fixar por muito tempo nesta opção.
  • Trabalhar para uma empresa de consultoria em uma função sênior. Dependendo do sua experiência específica, você pode achar mais fácil atingir esse objetivo em uma empresa gigante como a Deloitte ou Accenture, uma ‘boutique’ de especialistas como a Trek10, ou em algum lugar nesse espectro. Em qualquer caso, a opção “consultor de equipe” dá a você a experiência de consultoria em engenharia, mas elimina o desafio de gerenciar seu próprio esquema de vendas.
  • Trabalhar para uma empresa de tecnologia em uma função técnica voltada para o cliente: digamos, como engenheiro de pós-vendas ou arquiteto de soluções. Essa opção pode oferecer mais continuidade nos bastidores do que as outras duas, mas usa, fundamentalmente, o mesmo conjunto de habilidades.

Seja qual for a sua escolha, acredito que todo analista deve passar uma parte de sua carreira fazendo uma dessas três coisas. Trabalhar como consultor desbloqueia os ganhos de carreira que seriam difíceis, senão impossíveis, de obter como analista interno ou líder de engenharia.

Os Superpoderes do Consultor

  • Uma visão panorâmica da indústria

Depois de trabalhar com alguns clientes, você vai perceber que a maioria deles não é tão única e especial quanto eles pensam que são. Eles estão enfrentando um certo desconforto organizacional e tentando resgatar a sua dívida técnica, como todos os outros também estão. Você rapidamente começará a se tornar um “combinador de padrões” profissional, aplicando coisas que funcionaram na empresa X ao problema que você vê na empresa Y. É nesse caldo de cultura que nascem as “melhores práticas” em tecnologia.

Alguém já se referiu a esse processo de melhores práticas emergentes da consultoria como “lavagem de pensamento”, o que parece horrível, mas pode ser algo muito interessante. Com o tempo, você tem a oportunidade de construir um manual para o sucesso em sua disciplina que vai funcionar em 80% dos casos. A maioria das pessoas provavelmente não vai acreditar totalmente em suas ideias, mas você saberá que elas funcionam e exatamente o que está fazendo. Ninguém poderá tirar isso de você.

  • Trabalhar em projetos de alto impacto

Você não traz um consultor para dentro da sua empresa para ajudá-lo a manter as coisas como estão. Você o traz para ajudá-lo a impulsionar a mudança. Como consultor, seu trabalho não será manter um antigo servidor ActiveDirectory. Você terá que descobrir como migrar 2.000 pessoas para o Google Cloud.

Um bom trabalho de consultoria é um fluxo constante dos projetos mais interessantes do mercado, uma miscelânea de maneiras saborosas de aprimorar suas habilidades.

  • Realmente fazendo as coisas

Conheço o estereótipo de que consultores são charlatães que deixam as coisas em uma bagunça pior do que a que encontraram. Por outro lado, isso descreve muitas pessoas que trabalham internamente em qualquer empresa.

A diferença é que os consultores são contratados especificamente porque não têm lealdade a ninguém além do executivo que os contratou. Eles têm o poder de pular a política e apenas apontar o que precisa ser feito, mesmo que seja óbvio. Especialmente se for óbvio. Acontece que muitas das mudanças que as empresas precisam fazer – sejam técnicas ou de negócios – não exigem obscuros momentos eureka ou meses de descoberta. As pessoas inteligentes dentro da empresa provavelmente já estão cientes dos elefantes nas salas. O problema é que eles estão muito emaranhados na burocracia e nos processos falidos e não têm uma visão clara de para onde ir.

Se você tiver a oportunidade de trabalhar com uma consultoria que envolva o nível executivo, vai descobrir que consegue fazer mais em poucas semanas do que seus colegas internos poderiam fazer por conta da política da empresa.

  • Empatia com as necessidades do cliente

Quando você faz consultoria, não há filtros entre você e a eficácia de seu trabalho. Consultores que não cumprem o prometido não duram muito. Assim, você fica ‘expert’ em ouvir, documentar e mostrar o valor do seu trabalho. Você aprende a resolver problemas reais, não imaginários – porque é para isso que você é pago agora.

  • Melhoria do “tempo médio para competência” em novas habilidades

Você não está recebendo honorários de consultoria para aprender no trabalho; seu tempo de adaptação para qualquer nova tecnologia que você encontrar será extremamente rápido. Aprender como aprender se torna uma ferramenta mais importante do que qualquer linguagem ou estrutura. Com o tempo, isso significa que você se surpreenderá com a rapidez com que assimilará novas informações.

Eu disse uma temporada, não necessariamente uma carreira inteira

A consultoria tem desvantagens e elas se multiplicam quanto mais você permanece no campo. Mesmo assumindo a situação ideal, com uma equipe honesta e clientes legais, você começará a lidar com coisas como:

  • A rotatividade constante de projetos é fatigante

Quer dizer, novos projetos são empolgantes, mas em algum momento você simplesmente começa a querer trabalhar em algo familiar para variar um pouco.

  • Sem pele no jogo

Como consultor você será avaliado em um curto horizonte de tempo. Você entregará seus resultados, será pago e seguirá para o próximo show. Isso limita o escopo dos projetos de mudança com os quais você pode se envolver de forma significativa. Também o separa dos resultados comerciais de longo prazo de seu trabalho. A menos que você tenha relacionamentos excepcionalmente épicos com seus clientes, um dia você pode querer ser mais jogador do que treinador.

  • Ser um “especialista” profissional é perigoso para o seu crescimento

Policiais, políticos e consultores têm esta maldição em comum: eles são profissionalmente incentivados a evitar admitir que podem estar errados.

Quando você entra para trabalhar na estrutura digital de um cliente, não está lá para aprender, bagunçar, cometer erros e tentar novamente. Você está lá para saber mais do que o cliente, acertar na primeira vez e fazer o diretor parecer inteligente ao contratá-lo.

Sempre achei esse arranjo estressante e não particularmente honesto. Sou uma pessoa disciplinada, com formação e experiência; um cara que lê a documentação. Contudo, não gosto de ter que projetar um ar de competência que nem sempre sinto. Principalmente porque tenho medo de acabar me convencendo de que realmente sou um especialista e acabar me acomodando para sempre no ponto mais baixo da curva Dunning-Kruger.

Então, por que dar consultoria?

Para resumir tudo isso de forma simples: embora a consultoria seja estressante e tenha incentivos estranhos, também é um atalho para se tornar sênior muito rapidamente. É como comprimir dez anos de experiência em um quarto do tempo. Você vai começar a pensar sobre tecnologia em um contexto de negócios. Você vai construir sua rede. E quando você voltar para casa, você será o engenheiro viajado que todos procurarão para obter informações.

Tradução: Bravo Marques

Poema Concreto para a Semana da Pátria

Vamos dar mais uma pausa a partir de hoje, desta vez para descansar mesmo – embora ainda hoje eu ainda tenha alguns pepinos para resolver. Vamos aproveitar a semana da pátria, não sem um certo desconforto pelos desenvolvimentos na política. Só me resta torcer para que o bom senso prevaleça, e o nosso blog volte no dia 13 ainda podendo usufruir da liberdade do Estado de Direito. Como é fim de semana, posso me permitir um post amalucado, uma de minhas incursões no campo da poesia concreta. Espero que gostem. Até a volta!


Back to Work

Bitcoin: nem Moeda, nem Investimento

Nesta postagem, espero argumentar com os leitores sobre como o bitcoin não pode fazer o que o dinheiro normal faz e que, como um investimento, é mais parecido com um esquema de pirâmide, não sendo, portanto, a salvação do mundo. Tentarei explicar o que os bitcoins são – ou não são, na esperança de que os leitores possam tomar uma decisão informada se quiserem participar dessa nova corrida do ouro.

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Moeda digital ingênua

Vamos começar com um experimento mental. Quero fundar uma nova moeda, mas não quero ter o incômodo de realmente cunhar moedas ou imprimir notas. Então, o que eu faço é pegar pedaços de papel comum e escrever números neles, digamos de 0 a 30 milhões, e digo ao mundo que esses números são dinheiro. Vou chamá-lo de Bitcoin.

Se as pessoas acreditarem em mim, o esquema funcionará e você poderá fazer pagamentos com esses pedaços de papel. Curiosamente, nem precisamos dos pedaços de papel: é o próprio número que é o dinheiro. Isso também torna muito fácil fazer pagamentos online – sem necessidade de enviar papel e sem nenhum banco envolvido. Em vez de manter grandes pilhas de papel para provar que temos dinheiro, apenas armazenamos os números em um arquivo em algum lugar [se você excluir o arquivo, perderá seu dinheiro].

Muito bem. O problema agora é que nada impede que as pessoas gastem esse dinheiro duas ou mais vezes. Então, pego meu bitcoin número 40001 e uso-o para comprar pão e, ao mesmo tempo, encomendar algumas roupas online com ele.

Claramente, usar números como dinheiro pode funcionar em teoria, mas logo a moeda entra em colapso, pois todo mundo tem uma cópia de cada número. As pessoas podem simplesmente continuar a gastar seus números repetidamente, e logo ninguém os quer mais.

Mantendo o controle para evitar crédito em dobro

No bitcoin, todas as transações são registradas. Portanto, se você gastar um bitcoin [o 40001, já apresentado], essa transação será transmitida e armazenada na rede. Se eu tentar gastar o mesmo bitcoin novamente, descobrirei que a rede se recusa a registrar essa nova transação – porque agora já existe uma cadeia de transação mais longa registrada, atualizada para incluir o novo proprietário do crédito 40001. Assim, evita-se o reuso da transação.

No entanto, isso significa duas coisas:

  • Cada transação é registrada. Portanto, se você receber seu salário em bitcoins e gastá-lo no fornecedor local de drogas, essa transação será registrada para sempre. Isso pode voltar para assombrá-lo em um estágio posterior da vida [agora seu empregador sabe onde você gasta seu dinheiro]
  • Gravar e verificar a transação leva tempo. Como a rede de bitcoin [chamada Blockchain] é totalmente distribuída e não tem um ponto central confiável, as transações só são consideradas efetivamente registradas se partes suficientes da rede as tiverem verificado. Isso leva cerca de 10 minutos e, para certeza absoluta, recomenda-se uma espera de uma hora. Portanto, esqueça as compras rápidas usando bitcoins

Adicionando privacidade

Essa estória de registrar a transação não agrada a ninguém e, na verdade, constitui uma falha de privacidade evidente. Uma “solução” foi encontrada, no entanto. Quando alguém deseja enviar dinheiro para outra pessoa, cria-se uma nova identidade para essa transação.

Ao trocar essas identidades personalizadas, cada transação individual ganha um ar de anonimato. Contudo, se você quiser de fato gastar suas moedas, você vai ter que vinculá-las à sua identidade na transação de saída de qualquer maneira, anulando assim o anonimato inicial.

A oferta de dinheiro

De onde vêm os bitcoins? Em uma moeda normal, um banco central cria dinheiro, geralmente em linha com o crescimento (esperado ou pretendido) da economia. Como o bitcoin não tem banco central, foram encontrados meios para permitir que as pessoas “minerem” novas moedas a uma frequência predeterminada – e constante.

Há um suprimento constante de novos bitcoins, definido em 150 bitcoins/hora até 2017, ponto no qual isso diminuiu para 75 bitcoins/hora. No fim de tudo, haverá os 30 milhões planejados inicialmente, e nada mais além disso.

Isso torna impossível olhar para bitcoins como “dinheiro”. Economias inteiras foram destruídas pela calibragem errada da taxa de criação de dinheiro (muito baixa em 1710 na França, causando deflação, muito alta com quase todas as outras moedas, resultando em inflação). Embora possamos nos exasperar ao ver que os bancos centrais ainda não conseguiram eliminar os desequilíbrios das moedas tradicionais, os bitcoins têm apenas um ritmo único de criação de dinheiro, e esse ritmo não tem flexibilidade para se ajustar às oscilações da economia.

Resumindo, a economia pode crescer, mas o número de bitcoins em circulação pode não corresponder a esse crescimento. Na medida em que o interesse em bitcoins cresce mais rápido do que a sua taxa de criação – como é o caso atualmente – o bitcoin começa a mostrar um pesado comportamento deflacionário. Cada bitcoin individual passa a valer cada vez mais ‘dinheiro normal’. Isso desestimula o gasto das criptomoedas.

Sob condições deflacionárias, em termos nominais, as coisas vão ficando sempre cada vez mais baratas. Por que comprar um carro agora, quando você tem certeza de que será mais barato na próxima semana? Essas condições já destruíram economias inteiras.

Os problemas em resumo:

  • As transações de Bitcoin são (muito) mais lentas do que as transações normais de dinheiro (10 minutos a 1 hora)
  • Cada transação de bitcoin deixa um rastro publicamente visível que só pode ser obscurecido, mas nunca apagado
  • Como a taxa de criação de bitcoins é fixa, o valor monetário regular dos bitcoins irá flutuar muito, tornando-os inadequados para funcionar como moeda normal

Muitos adeptos do bitcoin concordarão com os pontos acima e oferecerão duas respostas:

  • Bitcoin não é uma moeda normal, mas um investimento
  • A maioria dos problemas pode ser resolvida calculando o valor do bitcoin de uma transação em relação às taxas de conversão para dinheiro normal – uma espécie de ‘câmbio’.

Esse raciocínio não se sustenta. Se olharmos para os bitcoins como um investimento, isso só funcionará se pudermos convencer as pessoas a participar e, assim, aumentar o ecossistema dos bitcoins. Mas por que as pessoas participariam? Ora, porque o valor da moeda continua aumentando! Isso é normalmente conhecido como ‘esquema de pirâmide’, onde as pessoas que entram primeiro levam o dinheiro daqueles que entram no jogo depois. Estes, por sua vez, só ganham dinheiro se atraírem ainda mais pessoas a participar.

Se olharmos para os bitcoins como moeda, mas admitirmos que ainda precisamos do dinheiro tradicional como referência de valor, então qual é a vantagem do bitcoin? Qualquer uma das supostas vantagens dos bitcoins desaparece se ele precisar da moeda normal como um adjunto para ser útil.

Finalmente

Portanto, antes de entrar no movimento dos bitcoins, perceba, pelo descrito acima, que, como moeda, os bitcoins são cheios de falhas. Como investimento, você já está atrasado para o jogo e está apenas financiando as pessoas que entraram antes. E antes mesmo que você perceba, você se verá entusiasmado falando sobre bitcoins em festas de aniversário, porque agora você faz parte da pirâmide!

Este texto tem um sabor de frustração, porque vejo pessoas que eu considerava mais espertas do que eu dedicando enormes quantidades de energia a projetos relacionados ao bitcoin e não contribuindo de fato para o seu próprio bem-estar ou para o bem-estar da sociedade.

Um segundo título deste discurso retórico poderia ser: Bitcoin – cale a boca e faça as contas.

Abuso Psicológico nas Redes: da AOL ao Facebook

Era uma vez, há cerca de trinta anos, uma rede de computadores chamada America Online. Já existia uma Internet, mas a maioria das pessoas não sabia de sua existência ou sobre como usá-la. A AOL e alguns concorrentes, Compuserve e Prodigy, ofereciam às pessoas atividades simples que elas podiam fazer online, como conversar com outras pessoas. Os serviços tinham apenas uma desvantagem: eram limitados.

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As pessoas não podiam fazer o que queriam, só podiam escolher o que havia em um pequeno menu de funções que os serviços disponibilizavam.

À medida que crescia e crescia, a World Wide Web se tornava um lugar incrível, em contraste com a AOL. As pessoas estavam tão empolgadas com a World Wide Web que nunca mais quiseram voltar para a AOL, Compuserve ou Prodigy. Os três serviços definharam.

Entra na história o Facebook

As pessoas ficaram entusiasmadas com o Facebook porque era um lugar onde podiam encontrar pessoas reais que elas conheciam, assim como o MySpace, mas também porque tinha alguns recursos também comuns a AOL, como o jogo Farmville. As empresas ficavam cada vez mais entusiasmadas porque o Facebook começou a gerar muita receita de publicidade.

Os anunciantes gostavam do Facebook porque ele não apenas sabia quem estava falando com quem, mas também sabia bastante sobre os hobbies e interesses das pessoas. Os anunciantes gostaram disso porque podiam agora usar as informações para “direcionar” seus anúncios como nunca antes. Acadêmicos e pundits diziam que o Facebook tinha o que é conhecido como “efeito de rede”. Ele se tornava mais poderoso quanto mais pessoas se juntavam a ele.

Acontece que havia alguns problemas com o Facebook. O Facebook era muito parecido com a AOL. Limitava as pessoas, dizendo-lhes com quem podiam se comunicar. Depois de um tempo, as pessoas não tinham mais controle. Elas haviam fornecido tantas informações íntimas para o Facebook e seus concorrentes que era como se essas empresas fossem donas das pessoas quando elas estavam no ciberespaço. Esses serviços também não pareciam fazer um bom trabalho com as informações que acumulavam sobre os usuários.

Por causa de seu notório sigilo, é difícil saber o quão consciente o Facebook está a respeito dos danos que ele causa a seus “usuários”. Por exemplo, em setembro de 2019, a Insider Magazine publicou um artigo que analisava dados do CDC [Centro de Controle de Doenças dos EUA] a respeito do suicídio de adolescentes nos Estados Unidos.

Eu me pergunto quantos desses adolescentes foram empurrados para o abismo graças a comentários descuidados no Facebook? Quantas outras Michelles Carters [link em inglês] existem por aí?

O problema mais amplo que enfrentamos como sociedade é que simplesmente não sabemos o quão nocivas as redes sociais podem ser. Esse problema das redes sociais é muito parecido com a luta que enfrentamos com as empresas de tabaco – que sempre souberam o quão prejudicial o tabaco era, mas se esforçavam para esconder a pesquisa que eles mesmos realizavam comprovando os fatos. As empresas petroquímicas também se encaixam nesse perfil, com seus próprios cientistas alertando sobre a ligação entre combustíveis fósseis e o aquecimento global.

Há um crescente corpo de evidências a nos indicar que o que o Facebook faz não é apenas algo “inofensivo” como “publicidade direcionada”. Seria muito mais preciso descrever seu modus operandi como “manipulação psicológica”. Essas evidências sugerem que, no contexto amplo da sociedade, a dinâmica entre o Facebook e seus usuários é uma forma de abuso psicológico.

Combater o problema

Talvez seja hora de reunirmos algum tipo de Comissão Parlamentar de Inquérito [sob os auspícios da OMS] e fazer com que se exija, para o bem da saúde pública, que todas as grandes redes sociais sejam obrigadas a entregar detalhes de todas as “análises internas” que possuem sobre os efeitos de sua plataforma em sua base de usuários. Essa CPI idealmente deve ter autoridade para forçar o testemunho de todos profissionais de psicologia empregados por essas empresas.

Na verdade, talvez seja hora de determinar que todas essas empresas [acima de um determinado tamanho de base de usuários] devem, por lei, ter psicólogos clínicos na equipe e exigir que esse pessoal esteja envolvido na supervisão das decisões estratégicas em relação ao design e implementação dos recursos da plataforma.

Há uma expressão comumente usada em sistemas legais do Ocidente: “Ignorância da lei não é defesa”. No Brasil, o artigo 3 da Introdução ao Código Civil dispõe: “Ninguém se escusa de cumprir a lei alegando que não a conhece” Por uma linha de pensamento semelhante, ocultar atos de dano criminoso ou negligência parece, à primeira vista, tornar uma corporação cúmplice, se o ato original atingir o nível de comportamento criminoso.

Infelizmente, as coisas começam a ficar muito obscuras quando você explora o desafio de definir “dano mental” em termos de um ato criminoso. Pelo que li antes de postar este comentário, o problema fica quase intratável quando combinamos o desafio de estabelecer o grau de dano que um indivíduo pode sofrer, com o desafio de demonstrar que o dano veio como resultado direto das ações das corporações. Perguntas complexas surgem: o usuário/paciente era predisposto? Era vulnerável, emocional ou mentalmente?

Em outras palavras, parece ser bastante possível que uma empresa estabeleça um modelo de negócios nocivo ao bem-estar emocional e/ou mental de usuários e ainda assim opere impunemente, escondendo-se atrás da dificuldade de se provar que a empresa foi a causadora do dano.

É o que provavelmente pode estar acontecendo agora: estamos bloqueados nas nossas ações – cientes de que há um dano sendo causado pelas redes sociais, mas incapazes de fazer qualquer coisa a respeito.

O Taliban, não o Ocidente, Ganhou a Guerra Tecnológica do Afeganistão

Por Christopher Ankersen e Mike Martin

MIT Technological Review

Na verdade, ao contrário da narrativa típica, os avanços tecnológicos ocorridos durante os 20 anos de conflito favoreceram mais o Taliban do que o Ocidente. Na guerra da inovação, o Taliban venceu. O que isso significa? O Ocidente lutou na guerra de uma mesma maneira, do início ao fim. Os primeiros ataques aéreos em 2001 foram conduzidos por bombardeiros B-52, o mesmo modelo que entrou em serviço pela primeira vez em 1955; em agosto, os ataques que marcaram o fim da presença norte-americana vieram do mesmo venerável modelo de aeronave.

Imagem: Pinterest

O Taliban, entretanto, deu alguns saltos enormes. Eles começaram a guerra com AK-47s e outras armas convencionais simples, mas hoje eles tiram grande proveito da telefonia móvel e da internet – não apenas para melhorar suas armas e seus sistemas de comando e controle, mas, ainda mais crucialmente, para operar suas comunicações estratégicas e sua PsyOps/guerra psicológica, assim como suas táticas de influência nas redes sociais.

O que explica esses ganhos tecnológicos – embora modestos e desigualmente distribuídos? Para o Taliban, a guerra no Afeganistão foi existencial. Confrontados com centenas de milhares de tropas estrangeiras de países da OTAN e caçados no solo e no ar, tiveram de se adaptar para sobreviver.

Embora a maior parte de seu equipamento de combate tenha permanecido simples e fácil de manter (muitas vezes não mais do que uma Kalashnikov, alguma munição, um rádio e um lenço na cabeça), eles tiveram que buscar novas tecnologias em outros grupos insurgentes ou desenvolver sua própria. Um exemplo importante: bombas de beira de estrada ou Improvised Explosive Devices – IEDs. Essas armas simples causaram mais baixas aliadas do que qualquer outra. Ativados originalmente por placas de pressão, como as minas, eles evoluíram no meio da guerra para que o Taliban pudesse detoná-los com telefones celulares de qualquer lugar com sinal de celular.

Como a linha de base tecnológica do Taliban era mais baixa, as inovações que eles fizeram são ainda mais significativas. Mas o verdadeiro avanço tecnológico do Taliban ocorreu no nível estratégico. Cientes de suas deficiências anteriores, eles tentaram superar as fraquezas mostradas em sua passagem anterior no governo. Entre 1996 e 2001, eles optaram por ser reclusos, e havia apenas uma foto conhecida de seu líder, Mullah Omar.

Desde então, porém, o Taliban desenvolveu uma equipe sofisticada de relações públicas, aproveitando a mídia social no país e no exterior. Os ataques com IEDs geralmente eram gravados por telefone celular e carregados em um dos muitos feeds do Twitter do Taliban para ajudar no recrutamento, arrecadação de fundos e moral.

Outro exemplo é a técnica de varrer automaticamente as mídias sociais em busca de frases-chave como “apoio ao ISI” – referindo-se ao serviço de segurança do Paquistão, que tem uma relação com o Taliban – e, em seguida, liberar um exército de bots online para enviar mensagens que tentam remodelar a imagem do movimento.

Para a coalizão, as coisas eram bem diferentes. As forças ocidentais tinham acesso a uma ampla gama de tecnologia de classe mundial, desde vigilância baseada no espaço até sistemas operados remotamente, como robôs e drones. Mas para eles, a guerra no Afeganistão não era uma guerra de sobrevivência; era uma guerra de escolha. E, por causa disso, grande parte da tecnologia visava reduzir o risco de baixas, em vez de obter a vitória total.

As forças ocidentais investiram pesadamente em armas que pudessem tirar os soldados do perigo – força aérea, drones – ou tecnologias que pudessem acelerar a disponibilidade de tratamento médico imediato. Coisas que mantêm o inimigo à distância ou protegem os soldados de perigos, como armas, coletes à prova de balas e detecção de bombas na beira da estrada, têm sido o foco do Ocidente.

A prioridade militar abrangente do Ocidente está em outro lugar: na batalha entre potências maiores. Tecnologicamente, isso significa investir em mísseis hipersônicos para se igualar aos da China ou da Rússia, por exemplo, ou em inteligência artificial militar para tentar enganá-los.

Tradução: Bravo Marques

Conteúdo original na íntegra em MIT Technological Review [em inglês]