Arte vs Privacidade – Uma Discussão Aberta

Pense sobre como isso te afeta. Você se sente ansioso ou violado, com a câmera de segurança de seu vizinho apontada para sua casa? Ou se pergunta se seu vizinho está amparado pela lei ao registrar sua imagem no recesso de sua propriedade?

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Com a popularidade das câmeras de segurança residencial, e o potencial de disputa entre os proprietários das câmeras e seus vizinhos, a todo momento surgem questões sobre a privacidade.

Esta é uma discussão aberta, em que fatos aparentemente contraditórios são apresentados, mas nenhuma conclusão é derivada. Como já escrevemos neste espaço, vivemos em uma era em que centenas de câmeras de vigilância gravam cada passo que damos – na calçada, no metrô, dentro de lojas, hotéis, elevadores, restaurantes – literalmente em todos os lugares.

Há drones circulando no céu, câmeras nos telefones de todas as pessoas e até óculos ‘inteligentes’ capazes de tirar fotos e gravar vídeos. Eis que, no final de 2021, ao sair de casa eu assumo que eu não só posso ser, mas de fato serei fotografado ou filmado por alguém, ou algo.

Estar em público automaticamente traz um grau inevitável de conflito entre meus desejos individuais e os do resto do mundo. Não importa a minha opinião a respeito, o espaço público exige um certo contrato onde permitimos que algumas de nossas preferências de privacidade sejam provisoriamente suspensas.

A tal Privacidade

A privacidade tem um valor fundamental para a sociedade em geral. Almejamos aparecer em público sabendo que nossas fraquezas não estão à vista de todos, nos permitindo assim uma interação social confiante. Quando votamos, o fazemos acreditando que ninguém pode ver nossa decisão para depois buscar vendettas com base no modo como votamos.

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A privacidade é, portanto [e naturalmente], importante no contexto social da democracia. Em muitos casos, não queremos saber tudo sobre todos ao nosso redor. Às vezes não queremos saber nada, sobre ninguém. A privacidade pode, assim, também proteger-nos a todos de sermos expostos à toxidade de uma dose desmesurada de informação.

Graças ao anonimato [possibilitado pelas escolhas e posturas pessoais e por certas tecnologias, embora vedado no ordenamento jurídico brasileiro – o que merece um post próprio], também posso me sentir encorajado a falar publicamente contra a corrupção ou a injustiça; ou simplesmente ser mais criativo [e até subversivo] na auto-expressão.

Muitas de nossas proteções legais à confidencialidade podem ser analisadas em contraste com os estados que empregam altos níveis de vigilância, como a China ou a ex-República Democrática Alemã. Aqui, a vigilância realizada pelo Ministerium für Staatssicherheit (Stasi) foi fundamental para reprimir a dissidência aberta e reforçar a uniformidade comportamental prevista por George Orwell.

Arte

Mas como fica a arte [alô meu amigo Pedro Romualdo!]? Como conciliar no âmbito da privacidade formas de arte – falo aqui da fotografia de rua – que dependem da candura e da espontaneidade – e, nesse caso, do implícito não consentimento pelo sujeito sendo fotografado?

É forçoso admitir que há uma diferença vital entre uma estúpida câmera de vigilância e uma imagem deliberada tirada por um fotógrafo: a intenção, por óbvio. Se uma foto tem o objetivo de ridicularizar ou expor um indivíduo específico, isso pode se aproximar perigosamente do território antiético – ou pode ser apenas arte ruim. Reconhecidamente, existem algumas formas nefastas que a fotografia [estática ou ‘movie’] pode assumir, como câmeras secretas em banheiros ou as infames filmagens por debaixo de saias, ambas violações grosseiras e óbvias.

Contudo, me parece imprudente confundir esses casos (felizmente) raros com a prática geral da fotografia de rua. A comparação intempestiva entre essas duas categorias também tem o potencial para criar o notório efeito paralisante [‘the chilling effect‘] sobre a liberdade de expressão artística, condicionando o público a considerar qualquer pessoa com uma câmera um predador assustador.

Existe um cabo de guerra constante entre a liberdade de expressão e as preocupações com a privacidade. Contudo esse não deveria ser um jogo de soma zero, em que um ‘player‘ supera inevitavelmente o outro. Embora fotografar em espaço público seja legal [não há expectativa de privacidade na rua], ninguém nos estados democráticos é sacrificado pela arte [ainda]. Há o recurso à lei. Somos, como sociedade, protegidos contra o fotógrafo fazer o que quiser com a imagem.

Espiar no espaço privado de alguém com equipamento especializado ou um drone é ilegal. Um fotógrafo pode ser processado por difamação se assediar intencionalmente um indivíduo. Sem um documento de consentimento formal nenhuma imagem pode ser usada para fins comerciais, como anunciar um produto. No estado de direito a lei tem o devido zelo na salvaguarda do sujeito, destacando as más intenções que possam expor ou prejudicar o fotografado.

A questão do consentimento na fotografia de rua se torna então, como vemos, complicada porque o sujeito a ser protegido é aparentemente um tanto indefinido – na verdade, muitas vezes talvez nem se trate de uma questão de consentimento de forma alguma, mas de outras figuras legais. O que, no fim, realmente se resume ao valor da arte versus privacidade em nossa sociedade.

Exigir consentimento praticamente elimina a fotografia de rua, e também a maioria dos documentários cinematográficos, como formas artísticas viáveis. Para algumas pessoas, esse seria um preço absolutamente justo a pagar. Para muitos outros seria um mundo muito infeliz de se viver. Por meu turno, reconheço a fotografia de rua e seu lugar importante em nossa cultura, refletindo nossa frágil realidade de volta para nós mesmos.

Escreverei mais sobre a função da fotografia de rua como forma de arte em uma postagem futura, abrindo espaço tanto para suas deficiências conceituais quanto para sua importância, na tentativa de encontrar um terreno comum que seja a ‘fonte da verdade’.


Nota: neste site usamos material fotográfico de repositórios reconhecidos e trabalhamos na suposição de que modelos humanos eventualmente apresentados deram seu consentimento para a publicação.

Sua impressão digital pode ser hackeada por R$ 10

A autenticação por impressão digital é, sem dúvida, uma alternativa conveniente para senhas e códigos PIN. Quem quer gastar tempo digitando uma longa sequência de números, letras e caracteres quando um simples toque é suficiente?

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Infelizmente, essa conveniência tem um custo. Porque, ao contrário de uma senha normal, sua impressão digital é pública – você deixa sua impressão digital nos corrimãos das escadas, na maçaneta da porta, nas portas dos táxis, telas do Smartphone iPhone, taças de vinho no seu restaurante preferido. e em muitos outros lugares.

Neste artigo, a equipe da empresa Kraken Security Labs demonstra como é fácil para os agentes mal-intencionados contornar esse método de login que está se tornando o favorito dos usuários.

Roubando a impressão digital

Para comprometer seu dispositivo, ou conta, não é preciso nem mesmo o acesso direto à sua impressão digital. Uma foto de uma superfície que você tocou (de uma mesa na biblioteca ao equipamento de sua academia de ginástica) é o suficiente.

Uma foto da impressão digital de uma vítima na tela do computador – Imagem: Kraken Labs

Com esta imagem disponível, uma hora de trabalho no Photoshop rende um negativo bem decente:

Imagem em negativo da foto anterior – Imagem: Kraken Labs

Em seguida, a imagem foi impressa em uma folha de acetato, usando uma impressora a laser – o toner cria na folha uma estrutura 3D da impressão digital.

A folha de acetato com a nossa nova impressão – Imagem: Kraken Labs

Na etapa final, adiciona-se um pouco de cola de madeira por cima da impressão para dar uma textura macia e vívida à impressão digital fake, para que ela possa ser usada em um scanner.

Construindo a impressão digital sintética – Imagem: Kraken Labs

Lançando o Ataque

De posse da impressão digital, tudo o que o agente precisa fazer é colocá-la no scanner.

A impressão digital fake funcionando em um MacBook Pro – Imagem: Kraken Labs

O laboratório foi capaz de reproduzir esse (conhecido) ataque na maioria dos dispositivos que foi disponibilizada para teste. Se este fosse um ataque real, o atacante teria acesso a uma vasta gama de informações confidenciais.

Protegendo-se do Ataque

Segundo Kraken Labs, uma impressão digital não deve ser considerada uma alternativa segura a uma senha forte. Esse método deixa suas informações – e, potencialmente, seus ativos digitais – vulneráveis ​​até mesmo ao menos sofisticado dos invasores.

Deve estar claro agora que, embora sua impressão digital seja exclusivamente sua, ela ainda pode ser explorada com relativa facilidade. Na melhor das hipóteses, você deve considerar usá-lo apenas como um elemento de autenticação de segundo fator (2FA).

Fonte: Kraken Security Labs

O Bitcoin Chega ao Mercado Imobiliário

A Bloomberg informa que a La Haus, uma startup de tecnologia imobiliária do México apoiada pela Jeff Bezos Expeditions, disse que passará a aceitar Bitcoin para transações imobiliárias, aumentando a crescente adoção da criptomoeda como meio de pagamento na América Latina.

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A empresa, que já permite aos usuários comprar imóveis por meio de um aplicativo, permitirá que os compradores paguem com moeda digital, começando com um conjunto habitacional em Playa del Carmen, no México. Ela gradualmente abrirá o restante de seu portfólio de mais de 80.000 propriedades para o Bitcoin, de acordo com a empresa.

“Acreditamos que o Bitcoin será a moeda de reserva do futuro”, disse Rodrigo Sanchez-Rios, presidente e cofundador da La Haus, em entrevista. “Em nossa essência, somos uma empresa de tecnologia. É natural para nós sermos pioneiros com esta tecnologia”.

A empresa está fazendo parceria com o processador de pagamentos OpenNode, com sede em Los Angeles, para permitir transações tanto na web quanto na Lightning Network – que foi projetada para tornar as compras mais rápidas e fáceis. A La Haus atuará como intermediária, pagando os vendedores em moeda corrente. A empresa ainda não decidiu quanto de Bitcoin manterá em seus balanços, disse ele.

Apesar de sua notória volatilidade, a aceitação do Bitcoin – que possui um valor de mercado de mais de US $ 1,2 trilhão após uma alta de 20% no mês passado que empurrou o preço para recordes acima de US $ 68.000 – está crescendo em toda a América Latina.

El Salvador se tornou em setembro o primeiro país do mundo a tornar ‘legal tender’ a criptomoeda, despertando o interesse de outros governos e empresas em nossa região.

O Futuro do Bitcoin

Este blog tem acompanhado a movimentação em torno do Bitcoin e minha impressão é que as opiniões em geral são mistas, indo de um otimismo cauteloso a uma visão crítica contundente.

O futuro do Bitcoin parece promissor, mas seu destino final como moeda vai depender de vários fatores. A volatilidade do Bitcoin é bem conhecida, mas para que a adoção em larga escala seja finalmente alcançada é necessário melhorar essa reputação.

Os comerciantes sempre relutarão em aceitar uma forma de pagamento cujo valor tenha uma boa chance de diminuir logo em seguida. Esse é o estado de coisas hoje, realisticamente. Mas o que precisa acontecer para que isso mude?

(1) Certeza regulatória

Com sua natureza descentralizada, a ideia de regulamentação pode parecer contraditória para o Bitcoin. Mas, na realidade, a certeza regulatória é vital para a sua adoção em massa. Embora alguns países, como a Coréia do Sul e o Japão, tenham liderado o caminho na discussão de diretrizes claras para a regulamentação do Bitcoin, grande parte do mundo ainda está atrasada nesse aspecto.

Em muitos países, o status legal do Bitcoin ainda é obscuro. À medida que mais governos ao redor do mundo introduzirem estruturas regulatórias nos próximos anos, isso dará ao Bitcoin mais legitimidade como um ativo convencional.

(2) Facilidade de uso

Pagar por bens com moeda corrente é uma experiência simples. Embora o uso de dinheiro convencional seja cada vez mais raro, é ainda muito fácil pagar com cartões ou com aplicativos como ApplePay ou WeChatPay, especialmente em mercados asiáticos. Pagar por produtos usando Bitcoin ainda não é uma experiência simples para a maioria das pessoas.

Na situação atual, embora sejam componentes necessários à arquitetura do sistema, coisas como “carteiras quentes e frias” e “chaves públicas e privadas” podem ser muito complexas para uma pessoa comum entender. A indústria da criptografia precisa encontrar uma maneira de tornar o processo de compra com Bitcoin mais facilmente digerível.

Uma maneira de conseguir isso é por meio de um maior envolvimento de terceiros, expondo o Bitcoin a um público mais amplo por meio de outras plataformas. Conforme noticiado recentemente pela Bybit Insights, o Paypal está planejando oferecer vendas via criptomoedas para seus 325 milhões de usuários.

Esse “gateway” de pagamento pode muito bem vir a ser uma virada de jogo na adoção em massa do Bitcoin e da criptografia. Visa e Mastercard também anunciaram iniciativas para incluir a opção de pagamentos em Bitcoins e criptomoedas em geral, em um sinal seguro de que os provedores de pagamento estão suavizando sua postura.

(3) O Trilema da Escalabilidade da Blockchain

A escalabilidade é um problema constante para a blockchain do Bitcoin. Enquanto um novo bloco na blockchain pode acomodar em média cerca de 2700 transações (com um bloco adicionado a cada 10 minutos), a Visa, por exemplo, pode precisar de 2.000 transações por segundo [transações por segundo (TPS) é o número de transações que uma rede blockchain pode processar a cada segundo].

Portanto, é óbvio que para ser capaz de competir, mudanças precisam ser feitas para melhorar a escalabilidade da rede Bitcoin. Esse problema é conhecido como trilema da escalabilidade da blockchain:

  • Escalabilidade: é a capacidade da blockchain de acomodar um maior volume de transações.
  • Segurança: é a capacidade de proteger os dados mantidos na blockchain de diferentes ataques ou a capacidade de defesa da blockchain contra duplicidades.
  • Descentralização: é a capacidade de redundância na rede, que impede que entidades ou grupos minoritários assumam o controle.
Gráfico: Vox Leone

Várias soluções foram propostas. Uma dessas soluções é o SegWit.

O desenvolvedor de Bitcoin Dr. Pieter Wuille, sugere que, para resolver esse problema, a assinatura digital precisa ser segregada dos dados da transação. Este processo é conhecido como Testemunha Segregada ou Segregated Witness – SegWit. A assinatura digital responde por 65% do tamanho físico de uma determinada transação. SegWit propõe remover a assinatura de dentro da entrada e movê-la para uma outra estrutura, no final de uma transação.

Isso aumentaria o limite de tamanho de um bloco de 1 MB para um pouco menos de 4 MB. Além de aumentar ligeiramente o tamanho dos blocos, o SegWit também resolve o problema do “spoofing”, em que um receptor pode interceptar e modificar o ID de transação do remetente em uma tentativa de extrair mais moedas desse remetente. Visto que a assinatura digital seria separada da entrada, a parte inescrupulosa não teria como alterar o ID da transação sem também anular a assinatura digital.

O grau de escalabilidade é importante porque determina a capacidade eventual de qualquer rede. Dito de outra forma, ele determina o limite superior de quão grande uma rede pode crescer.

Enfim

Como sabemos, ao contrário do petróleo o Bitcoin não é tangível e não tem uso prático no mundo físico. Ele também tem uma oferta limitada. E o protocolo subjacente à blockchain garante que novos Bitcoins sejam produzidos a uma taxa consistente (embora decrescente, chamada de ‘halving‘ – a cada quatro anos a produção é cortada pela metade), independente do poder de computação. Dessa forma, a relação do Bitcoin com a oferta, produção e preço final é completamente diferente das commodities tradicionais. Isso faz sentido, porque, afinal de contas, a intenção original era ser uma moeda completamente diferente.

O poder de reduzir constantemente a oferta pela metade é realmente uma solução elegante, considerando que em 2060 a oferta anual de Bitcoins aumentará apenas na casa das centenas, e não milhões, por ano. Quando essa oferta adicional se tornar insignificante, poderemos ver a volatilidade do preço do bitcoin cair. E só então, talvez, o Bitcoin pare de nos fazer lembrar de commodities e investimentos e realmente se torne o que deveria ter sido desde o início.

Seguimos com atenção aos problemas do Bitcoin e abriremos outras discussões à medida que surgem novos desenvolvimentos.

Tire sua Câmera da Minha Cara

A tecnologia de vigilância biométrica, como o reconhecimento facial, é uma tecnologia que permite que você seja identificado, analisado e rastreado em espaços públicos. Ela se alastra fora de controle.

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O que está acontecendo?

A vigilância biométrica está aumentando assustadoramente. Vemos câmeras de reconhecimento facial em cada vez mais lugares. Pense, por exemplo, no posto de gasolina, no supermercado, nos estádios de futebol. Pense nas casas, nas ruas e nas câmeras voltadas diretamente para o seu rosto enquanto você caminha pela calçada. E então pense no uso de toda essa informação pelos aparelhos de repressão policial local e nacional. É sabido que a polícia aplica o reconhecimento facial a imagens de câmeras comuns, de baixa tecnologia. Mas sabemos também que eles estão fazendo experimentos com aplicações de reconhecimento facial de maior alcance e tecnologia mais especializada.

O reconhecimento facial é muito intrusivo. Mas isso não impede os legisladores, nas cidades e no Congresso, de apresentar cada vez mais projetos para sua implantação. Poucos parlamentares se importam com as garantias constitucionais, e de seus gabinetes saem projetos de lei cada vez mais penetrantes.

Não conheço nenhum vereador ou deputado que defenda a regulamentação da vigilância urbana ou que cobre maior responsabilidade das empresas de tecnologia. Mas conheço muitos que defendem mais e mais vigilância. Então você sabe que algo está realmente errado. Além do reconhecimento facial, também vemos outras maneiras pelas quais nossos corpos são rastreados, analisados ​​e controlados [os passaportes de imunidade são apenas a iteração mais recente desse controle].

Por que estou preocupado?

O espaço público desempenha um papel importante em uma sociedade livre e aberta. É o lugar onde a vida pública e o debate público acontecem e onde exercemos nossos direitos democráticos. É importante que todos se sintam livres nesses espaços. Livres para se reunir, expressar sua opinião e se movimentar. Os custos sociais associados ao uso da vigilância biométrica no espaço público são inaceitáveis.

Devido à aplicação não direcionada de vigilância biométrica, os transeuntes são capturados indiscriminadamente. Isso permite que os indivíduos sejam identificados, analisados, rastreados, traçados e controlados em grande escala. Essa tecnologia cria uma sociedade de desconfiança, de controle e de discriminação na qual você não pode mais participar de forma anônima da vida pública. Isso tem um efeito limitador [“the chilling effect“] sobre o quão livre você se sente para exercer seus direitos.

A biometria significa que as características do seu corpo são reduzidas a unidades mensuráveis. A vigilância biométrica transforma as pessoas em códigos de barras ambulantes que podem ser digitalizados e combinados com os dados já coletados anteriormente sobre elas. É muito importante lembrar que você só tem um rosto, cujas características não pode mudar e que não pode deixar em casa. Depois que um código de barras for vinculado ao seu rosto, você sempre poderá ser rastreado com ele. Uma vez capturado, você perde o controle dos dados e não há como escapar da vigilância.

O sistema de crédito social da China

A vigilância biométrica está tornando realidade o pesadelo burocrático descrito por George Orwell em seu 1984. O estado chinês está estabelecendo um vasto sistema que irá monitorar o comportamento de sua enorme população e classificá-los todos com base em seu “crédito social”. O Sistema de Crédito Social [SCS] na China não é apenas destinado a punir quem critica o governo e o Estado, como é o caso na maioria dos regimes totalitários. O SCS pode acusar até mesmo a menor infração, como fumar em uma zona de não fumantes.

Esse sistema, anunciado pela primeira vez em 2014, visa reforçar a ideia de que “manter a confiança é glorioso e quebrar a confiança é vergonhoso”, de acordo com um documento do governo chinês. O programa já está totalmente operacional em todo o país, mas ainda está em fase de testes. O esquema será obrigatório. No momento, o sistema é fragmentado – alguns são administrados por prefeituras, outros são avaliados por plataformas tecnológicas privadas que armazenam dados pessoais.

Como nas pontuações de milhas ou crédito privado que conhecemos, a pontuação social de uma pessoa pode subir e descer dependendo de seu comportamento. A metodologia exata é um segredo – mas exemplos de infrações incluem dirigir mal, fumar em zonas não fumantes, comprar muitos videogames e postar notícias falsas online. Violar o “código social” pode resultar em proibição de voar ou usar o trem, usar a internet, ter uma escolaridade decente, conseguir um emprego, se hospedar em hotéis e até mesmo de ter um animal de estimação.

A China obviamente está tirando proveito da mentalidade de rebanho, ao rotular os violadores de “maus cidadãos” [observo aqui que mentalidade de rebanho é algo que não falta em nossa sociedade desconfiada da ciência]. Alguém duvida que esses mesmos argumentos poderão ser e serão adotados pelos governos do ocidente, especialmente em uma época de radicalização política e ameaças à ordem publica?

Como toda tecnologia de criação e monitoramento de perfis, a vigilância por câmeras é construída, em sua essência mais íntima, para diferenciar e classificar as pessoas. Isso reforça as desigualdades existentes na sociedade, bem como o desequilíbrio de poder entre governos, empresas de tecnologia e cidadãos.

Acredito que essa tecnologia é uma violação brutal de nossos direitos e liberdades e uma ameaça à nossa sociedade livre e aberta. Com as tecnologias de reconhecimento facial sendo crescentemente aplicadas ao redor, é hora de lutar por nossa liberdade na rua. Os reguladores nacionais parecem não estar suficientemente equipados [ou com vontade] para fazer cumprir a Constituição; para impedir o uso desta tecnologia nefasta.

Claramente, a maioria das pessoas está completamente no escuro sobre esses programas subterrâneos e suas implicações perigosas. Portanto, a missão para aqueles que estão “por dentro” deve ser espalhar a palavra e alertar o maior número possível de pessoas. É preciso também que cada um assuma responsabilidade pessoal pela quantidade de dados que compartilha voluntariamente com sites de mídia social, aplicativos e a Internet em geral. A única defesa contra a erosão total da privacidade – e, portanto, da liberdade – é um público educado que defende seus próprios direitos.

Não há lugar para a tecnologia de vigilância biométrica em uma sociedade livre. É por isso que eu acredito que essas tecnologias deveriam ser efetivamente banidas da vida pública. Como bem disse Winston Churchill, uma sociedade que troca a liberdade por segurança não merece nem liberdade e nem segurança.

Facebook Muda de Nome Rumo ao Metaverso

O Facebook costumava ser visto de forma positiva pelos usuários, pois conectava o mundo e aproximava as pessoas. Isso não é mais o caso. Tem havido escândalos após escândalos e os usuários agora associam o Facebook a todas as coisas negativas que o Facebook dizia combater.

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Neste ponto da história, o Facebook não pode mais vencer a guerra para ganhar os corações e mentes das pessoas a respeito uma série de questões. Então, em vez disso, ele precisa construir “uma nova narrativa”. A empresa está, assim, abandonando o nome e a marca Facebook e se concentrando em uma nova visão em torno do chamado Metaverso.

Não importa se essa visão é possível ou não, ou se a realidade virtual (RV) vai ou não se tornar o próximo paradigma de interação social. O importante é que trata-se de um segmento novo e interessante para construir uma nova marca e Mark Zuckerberg não quer perder a oportunidade.

O metaverso em minha opinião, sempre foi um grande embaraço. O Second Life existe há 20 anos e ainda é uma novidade divertida. O que o Facebook quer é adicionar publicidade e conteúdos de marca e fazer um second-life mais caro devido aos requisitos de hardware de última geração [além de torná-lo mais lento, com uma interface mais difícil – porque é RV].

Ninguém descobriu ainda uma maneira de proporcionar uma boa experiência de usuário em sistemas de realidade virtual, e também nenhum “caso de uso matador”. Não acho que o Facebook seja particularmente capaz de lançar algo que possa competir com qualquer coisa que a Microsoft ou a Apple possam lançar. Todos os CEOs que compram essa ideia de metaverso só falam sobre o universo de possibilidades, mas sinto que a única possibilidade que estão eles perseguindo é construir um Wal-Mart na Times Square.

A maioria desses CEOs aponta com aprovação o execrável [filme] “Jogador 1” como exemplo de uma visão a ser realizada. Eu sinto muito, mas penso que um garoto excitado de 15 anos raspando os pêlos do corpo para ser mais aerodinâmico na RV, enquanto se envolve em extensos monólogos de autocongratulação sobre como ele é um cara legal por não sentir repulsa por sua namorada “rubenesca”, enquanto recita versos de Ghostbusters em uma série de vinhetas incoerentes do tipo “lembra disso?”, não é uma visão para o futuro.

É uma pena porque acho que há obviamente usos legítimos para a telepresença via RV. Ela pode ser a próxima fronteira da videochamada, o que parece estar de acordo com a missão declarada do Facebook de conectar o mundo. Mas, suspeito que na realidade tudo o que nós teremos será um videogame extremamente ruim em vez disso – será que eles também terão NFTs?.

Posso ver como pode ser frustrante administrar uma empresa cheia de esforços diferentes, alguns dos quais pretendem ser novidadeiros ou pelo menos representar uma mudança de direção. Mas, debalde todos os esforços, ainda assim não deixam de ser percebidos e lembrados como mais uma coisa azul.

Espero que essa jogada permita que Zuckerberg permaneça tecnologicamente relevante, ocupando o lugar ao qual seus dons pessoais o levaram, em vez de ficar atolado em questões sobre os padrões éticos [ou falta de] em suas plataformas usadas por adolescentes e crianças.

Idealmente, uma plataforma ética também poderia ser cultivada por meio de algum tipo de transferência de parte do poder tecnológico acumulado pelas Big Techs à comunidade, de alguma forma. Um dos maiores desafios para o futuro é, em minha opinião, permitir que tais sistemas éticos se desenvolvam de forma padronizada, mas de maneira diversa. Em um mundo ideal, cada nova comunidade ou grupo deve ter sua própria dinâmica psicológica e merece a oportunidade de existir sem ser arrastada para a mesmice da(s) plataforma(s) por um conjunto agressivo, irritado ou tóxico de usuários.

Sinceramente, me deprime que esse revival do termo metaverso esteja sendo levado a sério e que provavelmente irá grudar no vocabulário como o desprezível termo “nuvem” e, pior, que o desenvolvimento dessas tecnologias esteja sendo conduzido por uma empresa como o Facebook.

Pessoalmente não estou interessado na visão particular de Mark Zuckerberg sobre o metaverso. Em vez disso, tenho medo de quantos mais caminhos errados podemos tomar no modo como desenvolvemos nossa tecnologia da informação e a aplicamos na sociedade. A visão FOSS [Free Open-Source Software – software livre] da computação, em que o progresso do software é compartilhado e atua como um equalizador, e onde as pessoas controlam o comportamento do seu software é o que precisamos, e não um lixo novo e melhor de vigilância-vigilância-propaganda-usuário-hostil [Agora em 3D!]

Voltaremos ao tema, certamente.