Há mais de 25 anos, o CEO da Sun Microsystems, Scott McNeally, anunciou: “A privacidade está morta. É melhor se conformar!”
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Tudo o que ocorreu desde a vasta expansão dos poderes de vigilância, primeiro na mobilização mundial na Guerra contra o Terror, depois com a ascensão do capitalismo de vigilância, facilitado pelos avanços na tecnologia de telefonia móvel, transformou qualquer noção razoável de privacidade em um anacronismo pitoresco.
Somos cada vez mais obrigados a carregar um smartphone. Nem sabemos porque, mas precisamos que eles participem conosco de eventos esportivos, da exibição de filmes, de festas, destranquem portas, chamem o táxi, ou nos liberem a catraca do metrô. A ascensão da autenticação de dois fatores torna o smartphone ainda mais necessário.
Sem meu telefone eu nem consigo mais pedir comida no restaurante cheio de garçons onde estou sentado(!) – nem consigo acessar minhas contas de trabalho. Por que diabos eu tenho que carregar uma pequena lápide de plástico e vidro de seis mil reais só para pedir uma pizza? Por que tenho que carregar um rastreador apenas para fazer login na minha conta de trabalho?
Amazon, Google, Facebook, Apple — e o resto da matilha — há muito perceberam que estão sentados em um tesouro de informações sobre quais sites visitamos, em que gastamos dinheiro, com quem conversamos, onde vamos e quais são nossos interesses. Além disso, por meio de Alexa, Siri, Roomba e outras ferramentas semelhantes, eles mapeiam nosso ambiente há anos. Conhecem a fundo nossa intimidade.
Reféns
Valentões nas redes sociais da extrema direita vivem a proclamar suas visões de liberdade de expressão absoluta. Há uma ironia cósmica no fato de eles usarem smartphones para suas diatribes.
A degradação do ambiente de negócios, em que empresas fornecedoras de bens e serviços se transformam rapidamente em esquemas rentistas, somada à corrosão dos valores éticos tradicionais sob os quais o próprio capitalismo floresceu, tornam possível imaginar uma situação-limite em que, à medida que procuram continuamente novos fluxos de receita, as corporações acabarão por decidir nos cobrar para NÃO divulgar o conhecimento que acumularam sobre nós. Uma “taxa de proteção”, por assim dizer. Afinal, eles dirão, custa dinheiro manter em sigilo tudo o que eles sabem sobre nós – o que explica em parte por que eles já vendem nossas informações para empresas de marketing e grupos políticos.
Por que essas corporações deveriam se contentar com a venda de nossos dados a apenas algumas centenas ou alguns milhares de empresas clientes, quando centenas de milhões de indivíduos podem [e talvez queiram muito] pagar para manter certas informações fora do alcance dos outros e do domínio público?
O problema fundamental é que a eletrônica e o software hoje são projetados para servir aos interesses de seus desenvolvedores acima dos interesses de seus usuários. Não são apenas telefones. Corporações de todos os tipos nos rastreiam, nos medem, nos classificam. O mesmo acontece com nossas informações de cartão de crédito – todas as compras, registradas por hora e local.
A questão não deve ser se e quanto rastreamento ou coleta de dados pessoais por fabricantes de dispositivos é aceitável. O debate deve ser sobre o que é do melhor interesse do usuário e o que o usuário realmente deseja que os serviços digitais façam com seus dados.
É preciso criar consciência de consumo – assim como fizemos com o cigarro – e uma atitude crítica, de sistemática desconfiança com relação aos fornecedores de bens e serviços eletrônicos/digitais. É preciso criar salvaguardas legais e éticas para que software e dispositivos eletrônicos sejam obrigados a agir sempre como agentes do usuário [um exemplo clássico de como seriam tais salvaguardas – embora um pouco deslocado neste contexto – são as Três Leis da Robótica, de Isaac Asimov]
O que me assusta é a falta de preocupação com a privacidade por parte dos “millenials”. A atitude dos jovens ao meu redor, dos filhos dos meus amigos, etc., é a de que, se eles não estão fazendo nada de errado, por que então se preocupar? Tento explicar a eles o que pode acontecer se um dia de repente alguém decidir que o que eles sempre fizeram se tornou ilegal, ou imoral. E o que acontece se alguém plantar falsas evidências de crimes em seus ambientes virtuais, ou dispositivos eletrônicos? Eles simplesmente não parecem entender a gravidade. Isso realmente me assusta e me faz perguntar a razão pela qual a privacidade foi permitida a se deteriorar a esse nível.
Visão de uma Distopia
Na Índia, carregar um smartphone se tornou absolutamente obrigatório [o que, por si só, configura cerceamento à liberdade]. Você não pode realizar nenhuma transação online sem um smartphone, porque por padrão os códigos das transações (OTP) são enviados para ele. Seu número de telefone se tornou sua identidade, e é usado como credencial de login na maioria dos sites.
O pagamento por telefone tornou-se tão difundido que muitas empresas não mais aceitam dinheiro – elas não querem o incômodo de devolver troco, por exemplo. Os idosos e pessoas portadoras de deficiência lutam com as idiossincrasias de um smartphone: o wi-fi de repente desliga no meio da transação; golpistas pedindo para você repassar códigos OTP; robocalls te infernizando a cada cinco minutos; pop-ups aleatórios pedindo para você baixar coisas…. O horror, o horror.
Nós brasileiros estamos caminhando rapidamente para uma situação de pesadelo como a vivida na Índia, considerando a falta de conhecimento tecnológico de nossas legislaturas e tribunais, combinada com a fraqueza e inação de nossas agências de regulamentação. Aqui no Brasil até mesmo a venerável e muy tecnológica Receita Federal nos obriga ao uso de software JAVA, escrito em código semi proprietário, na entrega da declaração de renda (o quão louco é isso?). E nem vou me dignar a comentar essa coisa gosmenta que é o Pix.
Visão de outra Distopia
Nos EUA, grupos antiaborto já estão usando as informações coletadas nas plataformas digitais – publicadas voluntariamente pelos usuários via smartphones – para espionar as pessoas, desde os aplicativos de fertilidade que rastreiam os ciclos menstruais das mulheres até o uso de tecnologia móvel de geo-fencing [perímetro virtual estabelecido por GPS] para bombardear com mensagens anti aborto as pacientes em, ou a caminho de, clínicas de aborto. Essa prática também tem sido cada vez mais adotada pelos órgãos de aplicação da lei através dos chamados “mandados para geo-fencing reverso”.
Através do geo fence reverso em torno de clínicas de aborto a polícia pode, por exemplo, pedir ao Google informação sobre todos os que estiveram dentro de em certo raio a partir de um local específico, em um horário específico, com base nas informações em seus telefones. Então eles cruzam as informações para gerar possíveis pistas a partir disso.
Vivemos na era da tirania do capitalismo de vigilância, é certo. A menos que muitas coisas mudem drasticamente, o que não prevejo, a privacidade não voltará.
Por meu turno, só espero que um dia, depois que a neblina dessa época insana se dissipar, as pessoas – se ainda houver pessoas – tenham clareza mental para compreender – e lamentar – a dimensão do tesouro que foi perdido.
É uma injustiça, um verdadeiro crime, que, por causa de um mísero algoritmo, toda a Internet fique isolada, sem acesso aos nossos maravilhosos blogs, cheios de conteúdo, charme intelectual, tirocínio e estilo. Mas felizmente isso está para mudar.
O Google anunciou ontem [18/08] que vai lançar atualizações em sua ferramenta de pesquisa nas próximas semanas, com o objetivo de facilitar o descobrimento de conteúdo de alta qualidade. Assim informa a reportagem do TechCrunch:
As novas melhorias de classificação buscam reduzir o conteúdo de baixa qualidade ou não original – que atualmente goza de uma classificação alta nos resultados de pesquisa. O Google diz que a atualização terá como alvo o conteúdo criado especificamente para melhorar a classificação nos mecanismos de pesquisa – conhecido como conteúdo “SEO-first”.
Os testes da empresa mostraram que a atualização vai melhorar os resultados que os usuários encontram ao pesquisar conteúdo, como materiais educacionais online, artes e entretenimento, compras e conteúdo relacionado à tecnologia [agradeço e coloco aqui um emoji de carinha agradavelmente surpresa].
As novas atualizações devem ajudar a reduzir o número de sites de baixa qualidade nos resultados, aqueles que aprenderam a manipular o sistema otimizando o conteúdo para ter uma classificação alta nos resultados de pesquisa. O Google diz que os usuários vão começar a ver o conteúdo realmente útil receber uma classificação mais proeminente nos resultados de pesquisa.
A empresa planeja refinar seus sistemas e desenvolver essas melhorias ao longo do tempo. “Com esta atualização, você verá mais resultados com informações exclusivas; assim é mais provável que você leia algo que nunca viu antes”, explicou a empresa em um post no seu blog.
Fica patente que a proximidade do TikTok no mercado de pesquisa está deixando os executivos do Google nervosos. Espero que isso então signifique que blogs como este, e de tantos outros bons que eu sigo, na plataforma WordPress e em outras, terão de novo um lugar ao Sol.
Obviamente deve ter ficado claro para o departamento financeiro que não haverá como vender links-lixo para os anunciantes se o público alvo se debandar pela falta de conteúdo original. De alguma forma os executivos da Alphabet entenderam que é necessário uma boa ancoragem de conteúdo nas páginas de resultados.
Um outro mundo, um outro tempo
Lembro-me daquele outro mundo, em que o AltaVista era a grande ferramenta de busca. Você conseguia exatamente o que pesquisava e sempre tinha que rolar por páginas e páginas de resultados, e refinar seus termos de pesquisa várias vezes, antes de encontrar o que queria – se é que conseguia encontrar.
É fácil criticar o Google hoje, mas se você vivesse naquela época, perceberia o quão bons são os resultados de pesquisa do Google. O algoritmo ‘Pagerank’, que é o núcleo de todo o serviço, é uma maravilha da engenharia de sistemas, e não há dissenso quanto a isso. Experimente um mecanismo de pesquisa alternativo concorrente hoje. Acesse bing.com, yahoo.com ou brave.com. Esses sites talvez vão fornecer algum resultado que você deseja – mas que você provavelmente não deseja tanto quanto eles pensam que você deseja.
As críticas ao Google, pelo menos as minhas, na verdade não são endereçadas à sua engenharia. Elas se referem a suas praticas intrusivas de coleção de dados; se referem ao domínio da privacidade, de como uma empresa brilhante se desviou ao longo do caminho.
Como era e como é
Não muitos anos atrás, era possível fazer duas coisas legais com o Google.
Você poderia inserir palavras-chave aproximadas e tentaria descobrir o que você realmente desejava entre todos os resultados retornados, ou
Você poderia colocar literalmente o que desejava encontrar, entre aspas, e isso forneceria exatamente o que você havia pedido.
Isso parece não funcionar mais. Um exemplo: ao tentar pesquisar um trecho de uma obra da literatura é comum ter a primeira página de resultados completamente tomada de ofertas comerciais para adquirir a obra, em variadas mídias, e não uma referência acadêmica – ou mesmo apenas literária – ao texto pesquisado.
Ou digite o número de uma peça, ou componente, ou chip, entre aspas, junto com a palavra ‘datasheet’ [folha de dados]. Será um milagre se você realmente conseguir um link para uma folha de dados. Você vai ter links para várias empresas não relacionadas, que tentam te vender coisas que não são relacionadas a qualquer palavra da sua consulta.
Isso não está nem no nível de “resultados ruins”. Isso só pode ser descrito como completo fracasso.
Mas nós sabemos que o fabuloso ‘Pagerank’ ainda está lá. Seria fantástico poder vê-lo funcionar de novo como em 2002. O Google certamente pode melhorar os resultados, se quiser, embora também seja fato que os caras de SEO vão sempre encontrar novas maneiras de colocar o lixo deles mais alto nas páginas de resultados.
Eu aplaudo o Google e desejo sorte a eles. O Google não tem um bom histórico em cumprir compromissos, e nem de agir em favor do usuário ou da sociedade. Sempre convém manter um olhar cético ao lidar com eles. Tomando tudo com uma pitada de sal, saúdo meus colegas bloguistas, na expectativa de bons tempos à frente. Ao sucesso!
Nota: Há muitos anos eu uso duckduckgo como ferramenta de pesquisa na web.
Post Scriptum
Eu me pergunto quanto mais os grandes meios de comunicação serão rebaixados em sua dignidade pelas ferramentas de pesquisa. Nos Estados Unidos já surgiu a expressão churnalism [de churn – agitar]. Definição da Wikipedia (inglês):
Churnalism é um termo pejorativo para uma forma de jornalismo em que press-releases, histórias fornecidas por agências de notícias e outras formas de material pré empacotado, em lugar de notícias reais buscadas no campo, são usadas para criar artigos em jornais e em outras mídias de notícias. É uma junção de “churn” e “jornalism”. Seu objetivo é reduzir custos diminuindo as despesas com coleta de notícias originais e com verificação de fontes.
O churnalismo praticamente se tornou a norma dos dias correntes. Acesse o site da UOL para ver por si mesma(o). O churnalismo é exatamente o motivo pelo qual temos problemas com as proverbiais ‘fake news’ em primeiro lugar.
Eu leio os jornais. Eu vejo o ritmo do ‘progresso’. Eu entendo como esses novos modelos de aprendizado de máquina funcionam em um nível técnico e estou impressionado com a rapidez com que eles estão se desenvolvendo.
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Francamente, eu não espero que a arte digital feita por humanos (imagens, vídeos, filmes, música, texto) sobreviva mais uma década. O que espero é que pouca ou nenhuma arte digital seja vendida com lucro por artistas humanos daqui a dez anos, e a única razão pela qual não estendo esse raciocínio para mídias físicas como escultura ou arte de rua é que eu não sei se teremos robôs hábeis o suficiente para fazê-las – embora seja inevitável que robôs habilidosos surjam em algum momento, na duvidosa hipótese de que a civilização sobreviva.
As pessoas frequentemente vão buscar o exemplo da pintura e da fotografia para defender a ideia de que inteligência artificial (IA) não vai realmente acabar com o mercado de arte, mas eu simplesmente não vejo esse exemplo como válido. A fotografia e a pintura sobreviveram porque são fundamentalmente diferentes e podem ser facilmente distinguidas, desde que seus respectivos criadores optem por se diferenciar.
A arte da IA é diferente, porque seu propósito específico é replicar. Não importa o que os artistas humanos façam com a mídia digital, a IA sempre vai estar lá para engolir as mudanças de qualquer nova onda e aprender a replicá-las.
O advento da fotografia nunca teve a intenção de matar a indústria da pintura. Contrariamente, esses algoritmos de IA, gestados nas grandes corporações de tecnologia, têm como objetivo manifesto matar a indústria da imagem.
Sobre a Excelência na técnica
Leonardo da Vinci não apenas pegou um pincel, compôs a Mona Lisa e se proclamou mestre. Ele construiu suas habilidades como aprendiz em oficinas, fazendo obras acessórias, figuras de fundo e encomendas menores. É esse trabalho que cria a oportunidade para que obras-primas aconteçam. Se esse ambiente desaparecer, o topo da elite artística será afetado. Existe algo único no equilíbrio entre ser ousado o suficiente para se destacar da multidão, mas ao mesmo tempo acessível o suficiente para um apelo mais amplo.
No momento, os modelos de aprendizado de máquina ainda são fracos, mas já são fortes o suficiente para tirar 90% dos artistas digitais do mercado. Com o custo próximo de zero, as pessoas não vão mais reutilizar nada. Vão gerar algo novo para cada coisa que fizerem. Não tenho certeza se há algo que possa ser feito para evitar esse futuro. Penso que devemos começar reconhecer que muita coisa vai se perder nessa revolução. Também duvido que artifícios sociais como bolsas de estudo e programas de residência possam deter o avanço das máquinas simplesmente jogando dinheiro no problema.
Otimistas
Há um lado otimista nesta questão. Seus lugares-tenentes sustentam que não precisamos temer a arte da IA. Na verdade, os artistas podem até querer agradecer.
Segundo os otimistas, há muito tempo os artistas sentem uma espécie de tédio por causa da falta de um caminho claro para a inovação ou para criação de algo “novo” e inspirador. As coisas tornaram-se obsoletas e excessivamente mercantilizadas, com músicos, fotógrafos, pintores, etc. muitas vezes confessando que o que eles criam não passa de recauchutagem de ideias desgastadas – admito que qualquer artista ligado na cena vai mesmo dizer que não há mais muita arte inspiradora.
A IA essencialmente reorganiza motivos antigos de novas maneiras. É um dispositivo de permutação que mostra o estado da arte atual (na qual é baseado o treinamento dos modelos) aplicado a situações arbitrárias. Os artistas podem usá-lo como ferramenta para encontrar um espaço onde uma nova exploração seja possível e, finalmente, começar a criar arte inspiradora novamente.
Os otimistas ainda consideram que o que está sendo banalizado agora é apenas a transformação das obras mesmas em espaços de ideias digitalmente definíveis: crie uma nova ideia em arte, dê a uma máquina representações suficientes e ela pode gerar infinitamente novos trabalhos dentro desse espaço.
A corrente otimista argumenta que certas coisas vão escapar à banalização. O que ainda não pode ser banalizado seria:
1) Novos espaços de ideias. A IA é incapaz de gerar algo que possa ser definido como um novo movimento artístico.
2) Novas mídias. Algo como Dall-E [ver nota no final] vai aparecer, mais cedo ou mais tarde, para gerar arquivos CAD. Contudo, há muitas expressões artísticas que não serão fisicamente reproduzíveis por um computador. As obras nessas mídias permanecerão valiosas ou até aumentarão de valor. E embora a IA possa gerar novas ideias nesses espaços, será necessário que haja pessoas que decidam se esforçar para executá-las.
3) Curadoria. Decidir quais ideias (geradas por IA ou não) merecem atenção.
Take final
Comecei a investigar este assunto na década passada, e as evidências me sugerem que começaremos a ver todas as atividades humanas enfrentando um declínio salarial anual de 6 a 12% a partir de agora. Uma máquina já pode fazer trabalho humano bem o suficiente para substituí-lo ou substituir mais de 90% das pessoas no trabalho que elas fazem, deixando o resto brigando por migalhas.
A parte criativa e sensível do seu trabalho, que uma máquina não pode fazer, pode parecer muito importante para você, mas o chefe do chefe do seu chefe provavelmente não se importa com isso, já que a mediocridade escalável é mais lucrativa do que qualquer “extra” que um humano possa oferecer.
Na verdade, a já envelhecida queixa das empresas de que “existe-trabalho-mas-ninguém-está-qualificado” é uma grande balela. Os mesmos executivos que dizem isso estão espremendo seus gerentes de linha, ao não deixá-los contratar auxílio e forçá-los ao trabalho cada vez mais pesado.
A tendência de longo prazo dos salários é de queda. Os mercados de trabalho não parecem mais se comportar como o da oferta e procura de bens. Nesse mercado as curvas não mais encontram equilíbrio. Elas divergem.
Não se trata apenas de AI Art, e outras macaquices digitais. Estamos muito provavelmente caminhando para um colapso salarial generalizado e de base ampla em todo o mundo, e esse tipo de situação provavelmente resultará em um conflito global entre pessoas e capital, no qual a) todo um sistema socioeconômico é derrubado, ou b) a humanidade é lançada na escravidão da qual é improvável que se recupere.
Nota: DALL·E é uma versão do GPT-3 [Generative Pre-trained Transformer – Transformador Generativo Pré- treinado] com bilhões de parâmetros, treinada para gerar imagens a partir de descrições de texto [ex: “ovelha a tocar piano em um navio”], usando um conjunto de dados de pares de texto-imagem. Ele tem um conjunto diversificado de recursos, incluindo a criação de versões antropomorfizadas de animais e objetos, combinando conceitos não relacionados de maneiras plausíveis, renderizando texto e aplicando transformações a imagens existentes.
Recentemente trabalhei em uma pequena aplicação para conversão entre moedas, o que me levou ao desenvolvimento de algo aparentemente inédito – que compartilho hoje com meus leitores.
Imagem: Vox Leone – Clique para ver o infográfico: Português | Inglês
Ao iniciar o trabalho no que deveria ser um simples código de conversão aritmética para a libra inglesa pré-decimal, eu senti que precisava de um guia visual para tornar mais confortável a composição no computador; algo que eu pudesse olhar enquanto digitava. Vasculhei a Internet em busca de uma figura que fosse parecida com o que eu tinha em mente e não encontrei. Comecei a rascunhar um diagrama para poder manter o objeto do assunto em perspectiva.
Me dei conta então que eu tinha em mãos um material novo e diferente para desenvolver. Depois de alguns dias de trabalho no LibreOffice Draw eu tinha pronto o infográfico que compartilho nesta postagem – que pode ser visto aqui, para aqueles que não pretendem ler um texto tão longo (fique à vontade para compartilhar em seu grupo da OpenEnglish, please). Achei que poderia ser interessante e útil para anglófilos, estudantes, viajantes, cidadãos do mundo e curiosos em geral.
Foi possível condensar a informação, de forma que o resultado final pode se sustentar por si próprio (como um poster) e ser compartilhado em aplicativos de mensagem e outros meios orientados à imagem. Eu gostaria de tê-lo postado aqui sozinho em sua própria glória. Mas este blog foi concebido para ter um formato longo — e disso não abro mão. Portanto era imperativo ter um texto para acompanhar a imagem, o que fiz após uma laboriosa pesquisa. Aqui está, então, esse curioso texto que foi penosamente escrito com o único objetivo de servir de escada para uma bela imagem. Esta é a Web. Voilà!
Roma e os Francos
Escrever este post acabou sendo um mergulho no mundo do dinheiro medieval. Durante os meses em que trabalhei nele pude me deter na fascinante Libra Esterlina e seu convoluto sistema duodecimal, que sempre refletiu a intrincada relação entre os vários pesos e medidas que vigoravam nas centenas de feudos e reinos medievais. Pude ter uma visão clara de como a Libra inglesa, herdeira de Roma, assimilou em si valores tradicionais, não necessariamente moedas, que desde tempos ancestrais expressavam equivalência entre pesos de metais diversos.
Como sabemos, depois do colapso do império romano, durante o feudalismo, a Europa era um mundo caótico de minúsculos reinos, costumes, pesos, medidas, leis e moedas. Principalmente moedas. Havia o Albus, no norte da Alemanha, o Denário na França, o Dinar árabe na Ibéria islâmica, o Doblo na Ibéria cristã, e uma profusão de outras na Europa central e península Itálica (o Ducado, o Florim, o Genovino, o Grosso, etc., etc.)
O pai de Carlos Magno, Pepino III, o breve, rei dos Francos – que haviam herdado de Roma seus grandes domínios territoriais – iniciou a revisão desses sistemas monetários fechando as casas de moeda dos grandes magnatas e prelados do Império e estabelecendo os direitos de cunhagem como um privilégio exclusivamente real. No entanto, mesmo com as reformas, o sistema permaneceu confuso. Havia ainda muitas diferenças de valor mesmo entre moedas de mesma denominação – 22 xelins para a libra imperial, xelins extras da casa da moeda, xelins do Tesouro Imperial…
Esse primeiro esforço regulatório de Pepino III deu ímpeto a Carlos Magno para introduzir posteriormente uma reforma mais abrangente e duradoura, que trazia uma padronização muito mais ampla destinada a tornar o Império mais governável.
Ele definiu então o que conhecemos como libra carolíngia, inicialmente como uma nova unidade de peso (408 g), significativamente maior que a antiga libra romana de 328,9 g. Também introduziu uma nova moeda de prata chamada denário, dos quais 240 compunham 1 libra de prata pura. Um denário (também denar ou denier) continha 1,7 g de prata. Para facilitar os cálculos monetários, também foi introduzida uma unidade de conta, o solidus, de modo que 1 solidus = 12 denários. Assim começou o sistema monetário tripartido característico: L 1 = 20s = 240d.
Com o Império de Carlos Magno esse sistema estabeleceu supremacia por toda a Europa ocidental. Após a conquista normanda em 1066, o sistema foi introduzido também na Inglaterra, reproduzindo exatamente o padrão carolíngio do continente: Uma Libra dividida em 20 Xelins (Solidus) e 240 centavos/pennies (Denários).
Esse sistema foi abandonado em 1971 com a decimalização da Libra. Com a decimalização a libra é hoje parecida com quase todos os outros sistemas monetários do ocidente. Genericamente: 1 Unidade Monetária dividida por 100 subunidades agrupadas em certas quantidades de conveniência.
No infográfico abaixo um instantâneo do sistema carolíngio no Reino Unido pouco antes da decimalização, em 15 de Fevereiro de 1971 (decimal day):
A seguir uma descrição de cada denominação e alguns fatos a respeito de cada uma delas. Todas as imagens são cortesia de Wikimedia Commons.
Farthing
Farthing, 1913
A menor denominação do sistema da Libra esterlina. Esse vocábulo tem origem no Inglês antigo feorðing, “quarto de um centavo”. No inglês antigo tardio também referenciava uma unidade de divisão de terra; os condados eram costumeiramente subdivididos em quatro farthings (“quadras” ou “quartos”). A palavra cognata tanto do norueguês quanto do dinamarquês antigos significa “uma quarta parte de qualquer coisa.”
O primeiro farthing redondo (de prata) foi emitido em 1279 sob Edward I. Antes dessa data, para troco em espécie nas negociações um penny era dividido fisicamente em duas metades – ou ainda em quatro quartos. Isso era conhecido como halving ou fouring. O têrmo Farthing foi provavelmente derivado de fouring.
No linguajar popular é também sinônimo de algo de pouco valor. A palavra latina correspondente em traduções bíblicas é “quadrans” – quarto de denário.
Meio penny – Ha’penny [half penny]
Meio penny, 1967
O meio “centavo” moderno sobreviveu de 1672 a 1967, mas essa denominação pode ser encontrada na história inglesa já por volta do ano 890. O half penny era coloquialmente escrito como ha’penny e pronunciado HAY-pə-nee. Muitas expressões idiomáticas ainda fazem referência ao half penny, como “two ha’pennies for a penny” – ‘trocar seis por mea duzia’. Na gíria das ruas era uma referência à vulva.
O ‘half penny carolíngio’ foi retirado em 1971 na decimalização, e substituído pelo meio centavo novo decimal, com 1/2p valendo 1,2d.
Penny
Penny, 1963
O penny inglês, de origem carolíngia, é uma fração de 1/240 libra. Acho um tanto desconfortável me referir a ele como ‘centavo’ [centésima parte], segundo o costume da língua portuguesa. Neste texto eu procuro manter o vocábulo original inglês, por falta de um melhor.
O plural de “penny” é “pence” quando se refere a uma quantidade de dinheiro, e “pennies” quando se refere a várias moedas.
Os reinos da Inglaterra e da Escócia foram fundidos pelo Ato de União de 1707 para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha. Assim, em 1707 a moeda escocesa deixou de ter curso legal, com a libra passando a ser usada em toda a Grã-Bretanha. O penny veio a substituir o xelim escocês.
O design e as especificações da moeda esterlina de um penny ficaram inalterados pela unificação, de modo que ela continuou a ser cunhada em prata depois de 1707.
Em tempos antigos o penny podia ser combinado em dois para formar o two pence (2d), e em quatro constituindo o groat (4d).
Três pence – Three pence
Três pence, 1942
A moeda de três pence (3d), entrou em circulação pela primeira vez em meados do século XVI, durante a era do rei Eduardo VI. Valia 1/80 de uma libra, ou ¼ de um xelim. A moeda permaneceu em circulação, em várias versões, até a entrada em vigor da libra decimal.
O três pence sofreu muitas mudanças ao longo dos séculos. Enquanto algumas épocas os tiveram emitidos para circulação geral, outros períodos usaram o três pence como dinheiro cerimonial [ver maundy money]. Como moeda, a denominação chegou a ser cunhada em níquel-latão, pesando 6,8 g e medindo 21 mm, e em prata, como uma moeda de 1,5 g, com um diâmetro de 16,2 mm.
Seis pence – Sixpence
Seis pence, 1962
Os primeiros seis pence foram cunhados em 1551, também sob Eduardo VI. Eles surgiram como resultado da degradação da moeda de prata na década de 1540, em particular o testoon de prata, que caiu em valor de 12d para 6d. O testoon mesmo degradado ainda era útil em transações cotidianas, e assim foi decidido que ele devia ser transformado em uma nova moeda com a denominação de “seis pence”.
O testoon se desvalorizou porque na época, ao contrário de hoje, o valor das moedas era determinado pelo valor de mercado do metal que continham. Durante o reinado de Henrique VIII, a pureza da prata na cunhagem havia caído significativamente.
Os seis pence foram emitidos durante o reinado de todos os monarcas britânicos após Eduardo VI, bem como durante a Commonwealth, com um grande número de variações e alterações ao longo dos anos.
(*) Em 2016, a Casa da Moeda Real começou a cunhar moedas decimais de seis pence em prata, destinadas a serem compradas como presentes de Natal. Essas moedas são mais pesadas que os seis pence anteriores a 1970 (3,35 gramas em vez de 2,83 gramas) e têm a denominação de seis pence novos (6p) em vez de seis pence antigos (6d).
Xelim – Shilling
Xelim, 1963
Uma moeda fiduciária por direito próprio. Foi usado como dinheiro soberano por muitos reinos europeus [ver wiki]. O xelim inglês teve origem, como o seis pence, no já mencionado ‘testoon’, que foi emitido em 1504 sob o reinado de Henrique VII. Um testoon valia 12 pence e era feito de prata. O testoon continuou durante o reinado de Henrique VIII. O testoon de 12 pence foi finamente renomeado como xelim durante o reinado de Eduardo VI.
Depois disso, o xelim circulou sob todos os monarcas reinantes, exceto Eduardo VIII. É interessante notar que o primeiro xelim da era do Reino Unido foi cunhado em 1816, mais de um século após o Ato da União.
O xelim era uma moeda de prata popular. No entanto, foi regularmente degradado pelo vandalismo e perdeu valor ao longo dos anos. O valor do xelim voltou a aumentar quando Elizabeth I retirou de circulação todas as moedas degradadas e as substituiu com moedas recém-cunhadas.
Os xelins circularam amplamente por muitos séculos. Para estimar o poder de compra do xelim, é preciso especificar o período de tempo em que a moeda foi usada.
década de 1940
Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, um xelim poderia comprar itens domésticos comuns, como um pão ou uma barra de sabão. À medida que a economia sofria com a guerra, o custo dos bens básicos aumentava. Isso significava que, entre 1939 e o fim da guerra, o preço do leite havia subido de 3 para 9 pennies (quase um xelim) por litro.
década de 1960
Na década de 1960, ainda se podia comprar um pão com um xelim; ou um corte de cabelo; ou abastecer seu carro com pouco menos de 1 litro de gasolina – que na época era vendida em galões.
década de 1970
Na década de 70, um xelim podia pagar um telefonema de 3 minutos, um litro de leite entregue em sua casa pelo leiteiro – este com preço congelado pelo então socialismo inglês junto com outros itens essenciais, como pão ou jornais.
Florim – Florin
Florim, 1967
O ‘fiorino d’oro’ da República de Florença foi a primeira moeda de ouro europeia desde o século VII a ser cunhada em quantidade suficiente para desempenhar um papel comercial significativo.
O termo florim foi usado como empréstimo em outros lugares da Europa. Assim, houve um florim inglês emitido pela primeira vez em 1344 por Eduardo III. Era cunhado a partir de 108 grãos (6,99829 gramas) de ouro puro (‘fino’) e tinha o valor de seis xelins (equivalente a 30 pence pré-decimais). Conhecido como o “double leopard” (leopardo duplo), foi uma tentativa de Eduardo III de produzir moedas de ouro que pudessem ser usadas tanto na Europa continental quanto na Inglaterra.
Contemporaneamente, o florim britânico de dois xelins (2s) foi um experimento precoce no sentido da decimalização da moeda, com seu valor de 1/10 de uma libra, ou 24 pence. Foi emitido de 1849 a 1967, com uma emissão final para colecionadores em 1970. Foi a última moeda a ser desmonetizada antes da decimalização.
Meia coroa – Half crown
Meia coroa, 1967
A meia coroa foi emitida pela primeira vez em 1549 durante o reinado de Eduardo VI. Eduardo VI foi rapidamente sucedido pela rainha Maria, mas nenhuma meia coroa foi produzida durante o reinado de Maria, entre 1553 e 1558. Elizabeth I assumiu o trono entre 1558 e 1603. Durante seu reinado e todos os reinados posteriores até 1970 – excluindo apenas Edward VIII – as meias coroas foram emitidas. Apenas em 1970 a meia coroa foi abolida, um ano antes da decimalização.
Nota de Dez Xelins – Ten Bob Note
Nota de dez shillings
A cédula de emergência.
Em agosto de 1914, a economia britânica estava em crise devido à instabilidade causada pela “neblina da guerra” no continente. Banqueiros e políticos procuravam desesperadamente maneiras de proteger as finanças da Grã-Bretanha e impedir que os bancos entrassem em colapso.
O Governo decidiu que deveria ser disponibilizada uma grande oferta de notas no valor de 10 xelins, facilitando ao público a realização de pequenas transações.
No entanto, o Banco da Inglaterra não foi capaz de preparar e imprimir o número necessário de notas com rapidez suficiente. O governo então tomou a medida sem precedentes de emitir as notas por conta própria.
Essas notas ficaram conhecidas como Notas do Tesouro e eram diferentes de tudo que o público britânico já tinha visto. Até este ponto, a nota de menor denominação era a de £ 5 – que naqueles dias era uma quantia tão grande que muitas pessoas nunca teriam visto ou usado a nota.
Ao emitir uma nota de 10 xelins, o Tesouro criou as primeiras notas de grande circulação na Inglaterra. A nota de 10 xelins – que equivalia a meia Libra – foi a menor denominação de nota já usada no Reino Unido e acabou sendo substituída modernamente pela moeda de 50 pence, que foi introduzida já em 1969, dois anos antes do decimal day.
Libra – Pound
Libra, ca. 1960
Discorrer sobre a Libra neste ponto não faria sentido. Nada posso dizer que já não tenha sido dito, e obviamente não tenho nada original para dizer. Para aqueles que pretendem se aventurar no assunto eu digo que a pequena pesquisa que empreendi para este trabalho me mostrou que há muitas nuances, interpretações e fontes – muito poucas na língua portuguesa. Deixo um humilde link como sugestão de por onde começar.
Posso dizer, no entanto, que a libra é [ou era] conhecida na gíria como Quid. Acredita-se que o termo tenha origem na expressão latina “quid pro quod”, que designa uma troca [“isto por aquilo”] — o que é perfeitamente adequado em se tratando de uma moeda. Foi chamada também de Soberano. Algumas denominações fracionárias da libra citadas neste trabalho já não existiam em 1971.
Guinéu – Guinea
Um guinéu de 1797, anverso e reverso
O Guinéu foi introduzido pelo rei Carlos II em 1663, logo após a Restauração. Foi cunhado em ouro de 22 quilates importado pela primeira vez da Guiné na África Ocidental, daí o nome. Originalmente, a moeda da Guiné foi definida como valendo exatamente uma libra, ou 20 xelins. No entanto, o preço de mercado do ouro aumentou e, na década de 1680, as pessoas exigiam 22 xelins por guiné em vez dos 20 oficiais. Em 1700, o preço havia subido ainda mais, para 30 xelins, de modo que um guinéu valia efetivamente uma libra e meia – este é o problema de basear o valor de uma moeda em uma mercadoria negociável como o ouro: seu valor flutua com a oferta e a demanda.
Durante o início do século 18, o preço do ouro voltou a cair para os níveis de 1680. Em 1717, o rei George I fixou a taxa de câmbio entre moedas de ouro e prata por decreto, com valor de mercado de 21 xelins por guinéu.
Em outras palavras, depois de 1717 existiu uma moeda que valia uma libra mais um xelim (21 xelins, ou 252 pennies), mas nenhuma moeda valia exatamente uma libra. O soberano não estava em circulação no século XVIII: foi introduzido em 1817.
Como um guinéu valia 5% a mais do que uma libra, tornou-se um símbolo de status precificar itens de luxo, como roupas e joias, em guinéus, em vez de libras. Um oficial naval de classe média comprava seu uniforme por cinco libras; o alfaiate ao lado atendendo a um oficial mais aristocrático poderia vender o mesmo uniforme por cinco guinéus, porque seus clientes eram ricos o suficiente para ignorar a margem de 5% e gostavam de ostentar isso. Da mesma forma, um carpinteiro poderia cotar seus preços em libras, mas um advogado cotaria seus honorários em guinéus.
Um projeto chamado Nemus Earth surgiu em março, oferecendo a venda de um NFT Ethereum para quem quiser se tornar um “Guardião” da floresta amazônica brasileira.
Imagem: Pexels.com
Eu detesto dar moral para estelionatários internéticos, mas aqui está o link. O projeto tem planos grandiosos para criar um “cinturão de proteção” na Amazônia brasileira para concentrar os esforços de combate ao desmatamento. O material de divulgação do projeto se esforça para explicar que “a atividade econômica é necessária” na terra que eles vão comprar e traça um plano para empregar os indígenas da área na extração da castanha-do-pará em uma plantação abandonada — que o projeto pretende “revitalizar”.
Os autores descrevem a “cooperação” com a população local, que irá “desbloquear a riqueza geracional para essas comunidades”, embora não haja nenhum plano concreto para que essas pessoas realmente se juntem à comunidade de “Guardiões” ou encaminhem alguma opinião sobre a governança do projeto.
Outras atividades econômicas planejadas pelo projeto envolvem “silvicultura sustentável”, “capacitação das autoridades policiais locais”, atividades envolvendo drones e, claro, geração de compensações de carbono para outros projetos.
Poluir para proteger
O prospecto da entidade informa que a iniciativa será implementada na blockchain Ethereum. O projeto, cujo objetivo declarado é a conservação ambiental, aparentemente decidiu esconder dos potenciais guardiões o enorme consumo de energia, emissões de poluentes e resíduos eletrônicos decorrentes do processamento de qualquer blockchain, incluindo a do Ethereum.
O projeto abriu sua segunda rodada de “cunhagem” em 3 de março e está oferecendo seus NFTs por preços entre 0,06 ETH e 19,44 ETH (US$ 150 a US$ 50.000).
Em 20 de julho, eles emitiram um comunicado à imprensa alegando que “o primeiro território não fungível do mundo foi oficialmente nomeado por indígenas no Brasil em conjunto com a Nemus” [nota de VL: tsc, tsc, tsc]. A empresa afirma possuir 41.000 hectares de terra na Amazônia.
Entra a Cavalaria
Em 25 de julho, o Ministério Público Federal (MPF) divulgou um comunicado dando conta que havia exigido da Nemus comprovação de propriedade das áreas que reivindica, esclarecimentos sobre os projetos on-line que prometeram realizar e a comprovação de que receberam autorização da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) ou de qualquer outro órgão público que lhes permita atuar na área e se engajar com os diversos grupos indígenas.
De acordo com o MPF, integrantes de grupos indígenas da região denunciam que a empresa violou seus direitos. Eles também relataram que a Nemus havia manifestado planos de usar máquinas pesadas para abrir uma pista de pouso e construir uma estrada para acessar os castanhais da região.
As lideranças dos Apurinã alegaram que os representantes da empresa pressionaram os indígenas – que não lêem bem – a assinar os documentos (dos quais não forneceram cópias).
Essa empresa não é a única a se aventurar na hiléia. Outras, como SuperWorld, Moss, etc., estão trabalhando a todo vapor para vir buscar sua fatia nesse comércio. Assim, a farra dos NFT’s encontra o caos administrativo da Amazônia. O que poderia dar errado?
Post Scriptum
Ao escrever este post eu descubro, com tristeza mas não surpresa, que não há na Internet em português nenhum tópico (semi) autoritativo que seja [ex: Wikipédia] que contemple o termo hiléia [aqui um link relacionado ao tema]. Isso é inaceitável no maior país Amazônico e suposto líder mundial da biodiversidade. O que duzentos milhões de brasileiros fazem o dia todo? Será que alguém poderia dar um tempo no Facebook para fazer um mísero texto sobre a Amazônia? Eu já tenho meu tempo ocupado aqui com os problemas da computação, segurança e privacidade, e não posso fazer tudo, ok? Me ajude aí!
Outro problema típico – e recorrente – da incúria [ou da proverbial preguiça] do Patropi é o total desleixo com a administração de muitos sites dos vários níveis de governo. O site governamental que vinculei neste texto, nada menos que o site do Ministério Público Federal, está com o certificado de segurança vencido. Cuidado ao visitar [ou simplesmente não visite]. Assim realmente não dá!
Ps do Ps
Para terminar em alto astral, informo aos leitores que estou produzindo um conteúdo muito bom – e um tanto longo – sobre a Libra Esterlina, que pretendo publicar na semana que entra. O post vai trazer um infográfico inédito que concebemos para facilitar o entendimento de quais e como eram as denominações e frações da Libra antes da decimalização, em 1971. Ele é o resultado de minhas pesquisas para desenvolver um módulo universal de conversão de moedas.
Fiquei muito satisfeito com o trabalho – do qual não encontrei equivalentes na Internet – e estou ansioso para publicá-lo. Será muito interessante para os anglófilos, estudantes e curiosos em geral [inclusive os ingleses, que poderão se perguntar porque nunca houve um material visual oficial para explicar a Sterling aos povos bárbaros]. Com esse material poderá vir o tão esperado salto de audiência para este blog. Fingers crossed.