Pare de Chamar Tudo de ‘Inteligência Artificial’!

Não existe na Neurociência uma Teoria Geral da Mente, que suporte de forma objetiva os esforços da engenharia para construir uma máquina que simule as funcionalidades do cérebro biológico. Não há sequer um esboço dessa teoria. Por esta razão, os sistemas de inteligência artificial geral ainda estão muito longe de ser avançados o suficiente para substituir os humanos em muitas tarefas envolvendo o raciocínio, o conhecimento do mundo real e a interação social.

A versão contemporânea da Inteligência Artificial é apenas um algoritmo, propriamente chamado de Aprendizagem de Máquina.

Sem dúvida eles têm mostrado competência de nível aparentemente humano em habilidades repetitivas de reconhecimento de baixo nível, mas no nível cognitivo eles estão apenas imitando a inteligência humana, obedecendo a um rígido algoritmo clássico; uma máquina eletrônica incapaz de qualquer pensamento, raso ou profundo, ou criatividade, diz Michael I. Jordan, um pesquisador líder em AI e aprendizagem de máquinas.

Jordan é professor no Departamento de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação, e do Departamento de Estatística, na Universidade da Califórnia, Berkeley. Ele ressalta que a imitação do pensamento humano não é o único objetivo da aprendizagem de máquina – o campo da engenharia de software que sustenta o progresso recente na busca da AI – ou mesmo o melhor objetivo. Em vez disso, a aprendizagem de máquina pode servir para estender a inteligência humana, via análise meticulosa de grandes conjuntos de dados, da mesma maneira que um mecanismo de busca aumenta o conhecimento humano organizando a Web. A aprendizagem de máquina também pode fornecer novos serviços aos seres humanos, em domínios como saúde, comércio e transporte, reunindo informações armazenadas em vários conjuntos de dados, encontrando padrões e propondo novos cursos de ação.

“As pessoas estão ficando confusas com o significado de AI nas discussões sobre tendências de tecnologia – existe uma noção de que há nos computadores algum tipo de pensamento inteligente responsável ​​pelo progresso, e que essa inteligência está competindo com os humanos”, diz ele. “Nós não temos isso, mas as pessoas falam como se tivéssemos.” Jordan deve saber. Afinal, o Fellow da IEEE é uma das autoridades líderes do mundo em aprendizado de máquina. Em 2016, ele foi considerado o mais influente cientista de computação por um programa que analisou publicações de pesquisa, informou a revista Science.

Jordan ajudou a transformar o campo da aprendizagem de máquina não supervisionada [que pode encontrar padrões e estruturas em massas de dados não indexados], de uma coleção de algoritmos não relacionados a um campo intelectualmente coerente. A aprendizagem não supervisionada desempenha um papel importante em aplicações científicas, especialmente onde não há dados uniformemente formatados sobre um problema (como o tráfego da Internet, por exemplo).

“Embora as extrapolações da ficção científica sobre AI e super inteligência sejam divertidas, elas são apenas uma distração “, diz ele. “Não tem havido foco suficiente no problema real, que é construir sistemas baseados em aprendizagem de máquina em escala planetária que realmente funcionem, ofereçam valor para os seres humanos e não ampliem as desigualdades.

Na íntegra em spectrum.ieee.org (em inglês)

Monetize Sua Imagem – De Olhos Bem Abertos

À primeira vista, o BitClout parece um híbrido rudimentar entre o Twitter e uma plataforma de investimentos como o Robinhood: há um feed de postagens, botões de “curtir” e compartilhar, e qualquer pessoa pode criar um perfil usando apenas um número de telefone.

O que chama atenção, porém, é que a plataforma rapidamente criou cerca de 15 mil perfis baseados em personalidades populares do Twitter, incluindo Elon Musk e outros influenciadores do universo cripto, sem solicitar autorização. Diamondhands, o criador do BitClout (que opera sob pseudônimo, embora sua identidade seja amplamente conhecida), afirma que a iniciativa buscava evitar que impostores ocupassem esses espaços primeiro.

O diferencial central do BitClout está no fato de que cada perfil está vinculado a uma “moeda” própria, cujo valor oscila conforme o interesse e a adesão de outros usuários. Seguir alguém deixa de ser apenas um gesto social: passa a ser também um ato econômico. Na prática, usuários podem investir na reputação de terceiros, comprando ativos atrelados à sua imagem pública. Como resume Diamondhands: trata-se de uma forma de “automonetização”, em que a valorização pessoal se converte diretamente em valor financeiro. Fãs passam a “apostar” no capital simbólico de quem acompanham.

Usuários comuns que aceitam essa lógica podem criar perfis e capturar parte do valor gerado por suas próprias moedas. Já as personalidades que foram adicionadas sem consentimento podem reivindicar seus perfis simplesmente publicando um tweet confirmando sua entrada na plataforma, um mecanismo que, não por acaso, também funciona como marketing gratuito para o BitClout. Paralelamente, já surgiram ferramentas como o BitClout Pulse, que acompanham a valorização dessas moedas.

Essa proposta pouco convencional de rede social se estende à sua infraestrutura técnica. Diferentemente de plataformas como Twitter ou Instagram, baseadas em servidores centralizados, o BitClout opera sobre uma rede descentralizada de nós de blockchain distribuídos globalmente. Todas as interações – postagens e transações – são registradas nessa blockchain, descrita por seu criador como um sistema semelhante ao Bitcoin, mas com funcionalidades voltadas para redes sociais.

Segundo Diamondhands, o código será aberto em breve, e a visão de longo prazo inclui empresas operando seus próprios nós dentro da rede. Isso permitiria, por exemplo, que organizações como ESPN ou Bloomberg mantivessem feeds temáticos voltados a seus respectivos públicos. No entanto, essa mesma arquitetura descentralizada implica a ausência de uma moderação centralizada, um ponto crítico que levanta questões ainda não resolvidas.

A descentralização das redes sociais pode apontar para o futuro, mas casos como o BitClout evidenciam que sua adoção exige cautela. Mais do que entusiasmo tecnológico, é fundamental avaliar com rigor os modelos propostos, os incentivos envolvidos e, sobretudo, os atores com quem escolhemos construir infraestrutura e estabelecer parcerias.


Nota adicional:
No jargão do mercado cripto, moedas cuja oferta pode ser facilmente inflada costumam ser chamadas de “shitcoins”. Isso as diferencia de ativos com maior escassez estrutural, como o ouro.

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Palavras-chave para pesquisar este assunto na rede:

bitclout, bitclout pulse, bitcoin, blockchain, monetização

Covid-19: Variantes das Variantes Podem Levar ao Escape de Imunidade

A disseminação descontrolada das variantes mais contagiosas de coronavírus no Brasil parece ter criado versões ainda mais perigosas do vírus que causa a Covid-19. Uma equipe de pesquisadores da Fiocruz documentou as mudanças. Suas descobertas foram registradas em uma pré-impressão no site virological.org, antes da revisão pelos pares. Apresentamos abaixo o resumo em português.

Resumo

Mutações tanto no domínio de ligação ao receptor (RBD) quanto no domínio amino (n) -terminal (NTD) da(s) glicoproteína(s) das espículas do SARS-Cov-2, podem alterar sua antigenicidade e promover o escape da imunidade. Identificamos que as linhagens da SARS-Cov-2, circulando no Brasil com mutações preocupantes no RBD, adquiriram exclusões e inserções convergentes no NTD da proteína S, o que alterou o antígeno NTD-superlocal e outros epítopos previstos para esta região. Esses achados suportam a afirmação de que a transmissão generalizada em andamento da SARS-Cov-2 no Brasil está gerando novas linhagens virais que podem ser mais resistentes à neutralização do que as variantes parentais de preocupação.

(*)Esta é uma pesquisa da Fiocruz. Por alguma razão celestial ela foi publicada em inglês antes desta maltratada língua pátria. Coisas da Torre de Marfim; dos desígnios acadêmicos narcisísticos aqui da Banânia. De qualquer forma, presto um serviço público não-remunerado ao trazer o assunto à atenção do público brasileiro, em língua portuguesa, através deste blog. Talvez um dia Deus me pague [yeah, sure… :rollseyes]

Funcionalidade de VPN usando Túnel SSH

Este não é um blog novidadeiro ou de breaking news. Também não é um site de dicas. Meu compromisso é ter um canto na Web para discussão, em formato longo, de assuntos que não são contemplados em outras mídias e sites de língua portuguesa, mas que são importantes no debate internacional no campo da Tecnologia da Informação (de acordo com o que eu vejo). Assim, sempre haverá lugar aqui para sugestão de algumas técnicas rápidas e diretas, principalmente quando ligadas à Segurança e Privacidade Se este texto parece uma dica, que assim seja.

Alguns recursos na Internet podem ser acessados apenas a partir de clientes [*clientes são programas que rodam em seu computador local] com endereços IP específicos. Por exemplo, suponha que você queira baixar um documento da sua universidade publicado em uma revista científica. Nesse caso, normalmente você precisa se conectar ao site da revista a partir de um computador com um endereço IP que pertença à sua universidade. Se você estiver trabalhando em casa, é possível se conectar à VPN da universidade, de forma a que seu endereço IP de casa seja disfarçado como endereço IP do campus.

Contudo, nem sempre é possível usar a VPN fornecida pela sua universidade. Por exemplo, algumas VPNs requerem um software cliente especial, que pode não suportar certos sistemas operacionais, como o Linux. Existiria então alguma solução alternativa simples para VPN? A resposta é sim, se você puder estabelecer uma conexão SSH para um servidor com o endereço IP de sua universidade – por exemplo, para a estação de trabalho em execução no seu departamento. Essa conexão é chamada Túnel SSH e é implementada através de protoclos como o Socks.

Socks Proxy

Para contornar/resolver o problema do acesso à revista científica , podemos executar o seguinte comando, que cria uma listagem do servidor Socks na porta 12345 do seu localhost.


A opção -D especifica um encaminhamento “dinâmico” de porta em nível de aplicativo local. Isso funciona alocando opcionalmente um soquete para ouvir a porta no lado local. Sempre que uma conexão for feita a esta porta, a conexão é encaminhada sobre o canal seguro e o protocolo do aplicativo é então usado para determinar onde se conectar a partir da máquina remota. Atualmente, os protocolos Socks4 e Socks5 são suportados; o SSH atuará como um servidor Socks.

Se você quiser pará-lo, basta pressionar [Control] – [C]

Firefox via Socks proxy

A próxima etapa é a configuração de proxy no seu navegador. Usarei o Firefox como exemplo. A configuração está em preferências> Configuração de rede> Configurações …

Configuração de um Socks proxy no Firefox

Depois de fazer isso, você pode logar, procurar os papers que precisa e começar a baixá-los.

Para testar essa funcionalidade VPN improvisada, pesquise “Qual é o meu IP” no duckduckgo.com (ou Google) usando o navegador com proxy. Você vai reparar que ele exibe agora o IP de ssh_remote_host_ip em vez do IP de sua máquina local.

Pânico Moral e Extremismo na Rede

Em conversa com um grupo de desenvolvimento de software em um dos fóruns da Web, o assunto acabou descambando para o fenômeno do extremismo na rede, que leva à atual polarização política. À medida que a conversa evoluia, começaram a ser apontados alguns alguns paralelos históricos com o momento presente, como os repetidos episódios de pânico moral que o mundo enfrentou em vários momentos de mudanças culturais chave.

O tema básico da conversa pode ser resumido na segunte premissa: Uma vez que o extremismo assume o comando, não há limite para até que ponto ele chegará, até que toda a comunidade imploda.

Em primeiro lugar, uma definição de pânico moral: pânico moral é um medo generalizado, na maioria das vezes irracional, de que alguém ou um grupo é uma ameaça aos valores, segurança e interesses de uma comunidade ou sociedade em geral. Normalmente, o pânico moral é perpetuado pela mídia de notícias, alimentado por políticos e muitas vezes resulta na passagem de novas leis ou políticas que visam a fonte do pânico (minorias em geral). O pânico moral sempre promove polarização política e o aumento do controle social.

Para ser justos na abordagem do tema, temos que reconhecer que pessoas são apenas humanos sendo humanos. Um olhar superficial pela história revela que esta é a norma do mundo. De um ponto de vista evolucionário, nós sentimos pânico moral para cimentar nosso lugar nos nossos respectivos grupos sociais, e temos uma necessidade quase obsessiva de ter um grupo de “outros” a quem culpar os problemas da sociedade. Sejam eles creches satânicas, comunistas, ateus, bruxas, racistas, transfóbicos, católicos, protestantes… claramente, e eu quero dizer claramente, isso é o que os humanos fazem. Pelo menos um grande número de nós. É um fato incrivelmente consistente e repetido através da história.

O que é fascinante é que cada geração se convence de que ela progrediu além desse traço profundamente humano, e insiste em que nesta geração, e só desta vez, seu preconceito pelos outros é nobre e existe para servir um bem social maior. “Todos os outros fanáticos estavam errados, mas desta vez, nós conseguimos fazer certo! O Preconceito finalmente curará o preconceito! Espere e você verá! “

Claro que isso nunca acontece, e quando a poeira se instala depois dos debates e das lutas, a maioria dos apóstolos do pânico moral sente algum constrangimento e tenta se distanciar do seu comportamento passado. Eles na verdade estavam viciados na liberação de dopamina que estar no grupo com poder propiciava. Para não mencionar que, com tantas outras pessoas para culpar, eles não precisavam reconhecer nenhuma de suas próprias falhas. Afinal, pelo menos, eles não são “outros”.

Central para o pânico moral é o pensamento preto/branco que o perpetua. Você é muito bom ou muito ruim. Não há área cinzenta. Se a pessoa tem a opinião x, não mais importa o que ela faz. Ela é má.

É um tipo de histeria em massa e exemplos do passado se contam às centenas, se não milhares. Infelizmente, faz parte do comportamento da massa humana.

O que mudou, é que tal comportamento costumava ser mais fortemente praticado pelos religiosos. Desta vez, os poderes do mundo mudaram seu método: ao invés de explorar o medo, exploram o narcisismo, e têm agora até os mais educados da sociedade sob controle.

Isso é desalentador, pois parece que não temos mais nenhum grupo com resistência cognitiva ou pensamento crítico sólido, à medida em que mais e mais pessoas assumem uma atitude de total sinalização de virtude (em oposição à verdadeira ação virtuosa), alienação e servilismo ao pensamento grupal.

O que no fim de tudo acontece é que, à medida em que mais e mais pessoas se tornam incapazes de manter a ilusão – e todos os apóstolos do pânico moral são iludidos, em diferentes graus – o custo de manter a identidade grupal torna-se muito inconveniente frente à realidade da situação, e uma inevitável reação toma lugar. Então as desculpas começam… “Nossa, eu nunca pensei que a Gestapo fosse tão má… Ei, e não fui o único que sinalizou virtude para eles… “

Então, outro bicho-papão é escolhido e o ciclo recomeça. O que você está testemunhando é a condição humana fazendo o que faz.