Programador, Desenvolvedor, Analista de Sistemas, trabalhando (e estudando) na intersecção da Análise/Ciência de Dados, Aprendizado de Máquina e Segurança.
Vivemos tempos extraordinários. Os eventos correntes no leste europeu marcam “um tempo que [pelas suas peculiaridades] nunca foi vivido na história humana”, como disse Thomas L. Friedman no New York Times de hoje [Nunca Estivemos Aqui Antes].
Portanto é razoável que este blog, em princípio dedicado à ciência e à tecnologia, queira ter este registro histórico em suas páginas. Aqui falamos de sexo + tecnologia, arte + tecnologia, tudo + tecnologia. Vamos então usar a prerrogativa de poder tratar da gloriosa [slavnyy] guerra na Ucrânia, que praticamente é fruto da tecnologia, exibindo [para quem sabe ler] todos os excessos e absurdos de seu DNA social-midiático. Allez.
Um correspondente na Lituânia, nos círculos de Schneier on Security [link], dá conta da interessante nota abaixo nesta manhã de sábado. A origem e veracidade da informação só pode ser especulada, mas é compatível com os dados sobre a Rússia disponíveis a todos no Ocidente. Ponderei um tanto antes de postar, e concluo que a informação vale a pena. Aspas até o fim:
“Intel de um oficial ucraniano sobre uma reunião no covil de Putin nos Urais. Os oligarcas se reuniram nesse local para facilitar a contagem e garantir que ninguém fugisse ao encontro. Putin está furioso, ele pensou que a guerra toda seria fácil e tudo teria terminado em 1-4 dias.
Os russos não tinham um plano tático antes da invasão. A guerra custa cerca de US$ 2 bilhões por dia. Há foguetes para 3-4 dias no máximo, eles estão sendo usados com moderação. Eles não têm armas, as fábricas Tula e 2 Rotenberg não podem cumprir fisicamente os pedidos. Rifles e munição são o máximo que podem fazer.
As próximos lotes de armas russas só podem ser produzidas em um prazo de 3-4 meses – se tanto. Eles não têm matéria-prima. O que antes era fornecido principalmente pela Eslovênia, Finlândia e Alemanha agora está cortado.
Se a Ucrânia conseguir manter os russos afastados por 10 dias, os russos terão que entrar em negociações. Porque eles não têm dinheiro, armas nem recursos. No entanto, eles estão indiferentes quanto às as sanções.
Alpha Spec Ops [Operações Especiais] está perto de Kiev desde 18 de fevereiro. O objetivo era tomar Kiev e instalar um regime fantoche. Eles estão efetuando provocações contra civis inocentes – mulheres e crianças – para semear o pânico. Este é o seu trunfo.
Todo o plano da Rússia se baseia no pânico – que os civis e as forças armadas se rendam e Zelensky fuja. Eles esperam que Kharkiv se renda primeiro para que as outras cidades sigam o exemplo para evitar derramamento de sangue. Os russos estão chocados com a resistência feroz que encontraram.
Os ucranianos devem evitar o pânico! Os ataques com mísseis são para intimidação, os russos os disparam aleatoriamente para atingir “acidentalmente” edifícios residenciais para fazer o ataque parecer maior do que realmente é. A Ucrânia deve permanecer forte e devemos fornecer assistência!”
Eu estou abandonando os smartphones como dispositivos de uso pessoal. Desde o começo do ano o meu jaz morto, em uma caixa metálica. Não consigo viver com os muitos problemas dessa infortunada tecnologia.
O principal problema é que os celulares não podem funcionar se não souberem onde o usuário está. Essa característica fundamental de design é explorada sem qualquer limite por indivíduos mal-intencionados, por corporações internacionais e pelos agentes de aplicação da lei e inteligência. Não que eu tenha algo a esconder – na verdade todos temos.
Ah, os prazeres da vida de volta! Sem um celular é possível dedicar meu tempo inteiro à atividades realmente úteis. É libertador poder evitar os lunáticos do WhatsApp; ou o mau gosto e a indigência mental de certos influencers; poder evitar aquele meme do Big Brother [socorro!]. Evitar ver as pessoas tirando selfies diante do espelho, olhando apatetadas para o celular. Ou evitar os golpes do Pix.
Sem o smartphone é muito fácil evitar os robóticos e intoleráveis operadores de telemarketing. É possível evitar também que as companhias de seguros definam o prêmio a pagar pelo seguro do carro, por conta do histórico de localização e informações de acelerômetro extraídos do smartphone [“você fez Campinas-São Paulo em 25 minutos, faz manobras bruscas e freia muito forte“]. Ou ser incluído em um cadastro fantasma de crédito, como os que pululam no mercado e definem os valores que pagamos pelos diversos serviços que usamos.
Evitar ser atropelado. Ou levar um tiro de um sniper do Mossad.
Vou deixar as torturadamente óbvias questões de segurança de lado nesta postagem, para focar em outros atributos igualmente preocupantes e pouco discutidos dos smartphones. Allez.
São dispositivos voltados ao consumo ostensivo
Os smartphones são apenas dispositivos de consumo insano e irrefreável. Nesse aspecto, eles diferem criticamente dos PCs, porque os PCs são dispositivos igualitários, no sentido de que o mesmo dispositivo pode ser usado para tanto para criação quanto consumo de conteúdo. Isso significa que qualquer pessoa com um PC pode criar e consumir, se assim o desejar. Essa igualdade cultural, estabelecida no começo da era da Web [minha referência é o Eterno Setembro de 1993] foi diminuída pelo êxodo dos usuários para os dispositivos móveis – que só podem ser usados para consumo.
Eles não são verdadeiros clientes de rede
Os smartphones têm CPUs poderosas e conexões de rede rápidas, exceto que você é impedido de usar esses recursos de forma significativa, porque seu uso consome a carga da bateria – e as pessoas não querem que a preciosa vida útil da bateria de seus telefones seja drenada desnecessariamente.
Portanto, há uma enorme quantidade de poder de computação e conectividade de rede que, na prática, você não pode usar. Isso leva a uma consequência ainda mais infeliz e ridícula: por causa dessas limitações, em um smartphone você não pode implementar a maioria dos protocolos de rede existentes [ou você pode, mas não sem esgotar a bateria]. O que é um paradoxo para um equipamento voltado à conectividade .
Eles arruinaram o web design
Mas eu provavelmente deverei escrever um artigo inteiro sobre isso.
As tecnologias são opacas
São produtos e serviços com alinhamentos empresariais nebulosos, ou de clara malevolência. Supostamente, com o Android, por exemplo, você é livre para instalar software de fontes arbitrárias e substituir o sistema operacional. Exceto que esses recursos são frequentemente restritos pelos próprios fabricantes, ou pelas telecoms.
Promovem a discriminação
A discriminação contra pessoas que exercem controle sobre seus dispositivos é comum, e qualquer aplicativo de análise vai revelar isso. Há uma expectativa predominante das empresas de tecnologia, de que as pessoas vão sempre abrir mão do controle sobre seus dispositivos, a ponto de aqueles que o fizerem serem minoria suficiente para serem discriminados e terem a funcionalidade de seus dispositivos reduzida por isso. A vida bancária é hoje uma tortura sem smartphones. Mas isso não deveria ser encarado de forma normal. É um abuso terrível e – por motivos óbvios – não deveria acontecer.
Ademais, prevalência de fontes de ransomware operados na Rússia, que vendem contas de celular roubadas da Internet, sugere que o uso de verificação por telefone como estratégia anti-spam não tem sido muito eficaz.
São responsáveis por uma centralização maciça
Um número desproporcional de aplicativos para, digamos, Android, depende de um servidor central operado pelo fabricante do software, com algum protocolo proprietário entre o cliente e esse servidor. De fato, essa é a própria premissa dos sistemas de notificação por push usados pelo Android e iOS.
Eles levaram a uma centralização maciça. Parte do movimento dos ativos de Internet em direção à “nuvem” provavelmente é impulsionado pelo fato de que, embora os smartphones tenham recursos computacionais substanciais, você não pode usá-los por causa da curta duração da bateria. Isso faz com que a computação seja transferida para a nuvem, criando uma dependência de uma entidade centralizada. Quantos aplicativos para smartphones vendidos ainda funcionariam se seus fabricantes falissem ou saíssem do negócio?
Provavelmente o exemplo mais risível da centralidade desempenhada pelo telefone é quando, em um momento de loucura [ou de bebedeira] eu tento criar, em um desktop, uma conta numa rede social qualquer. Após o envio do formulário de registro, o site sempre diz para eu me inscrever através do aplicativo de smartphone, o que é um non sequitur realmente bizarro, já que eu não forneço nenhuma evidência de que eu tenha um smartphone. O que é hilário, no entanto, é que é possível criar uma conta do Twitter de dentro de uma máquina virtual no Android (obviamente sem número de telefone), provando essencialmente que a coisa toda é apenas teatro de segurança.
O que realmente me irrita nessas exigências por números de telefone [que são formatados no infame padrão E.164 – the international public telecommunication numbering plan – plano numérico da comunicação pública internacional], no entanto, é a maneira como eles me obrigam a abandonar meus orgulhosos princípios de pioneiro independente da Internet, sem documento e sem telefone.
Quando o Google exige um número E.164, eles não fazem isso apesar do fato de o E.164 ser um padrão técnico um tanto opaco e fechado, mas exatamente por causa disso. Basicamente, tudo de ruim sobre o namespace E.164 e suas organizações constituintes é precisamente o que o torna atraente para fins nebulosos em organizações como o Google etcaterva.
Os gigantes da conectividade e seus operadores sustentam uma rede opaca, mantendo-a assim, porque no íntimo consideram problemática a própria abertura da internet. Isso representa essencialmente a retirada intencional do papel da Internet original como a raiz de todas as redes, orquestrada por uma organização que está ironicamente associada à própria internet. É um movimento deprimente de se ver.
A maioria dos veículos da mídia tradicional tem insistido que a Rússia vai invadir a Ucrânia amanhã (16/02). A data pode estar errada, mas, como disse uma das minhas fontes, “se você der brinquedos a uma criança, ela acabará brincando com eles”.
Faço a seguir, com minhas palavras, um rápido apanhado do que pude levantar sobre esse tema, nos últimos três dias, junto a alguns dos meus contatos estrangeiros na indústria da segurança e inteligência. Eu recorri à opinião deles eles na tentativa de estimar o potencial impacto dessa crise nas atividades na Internet, mais o que esperar agora, as consequências futuras, etc, tanto para meu consumo próprio e quanto para compartilhar com meus leitores.
Como não é difícil deduzir, todas as atividades relacionadas ao trinômio informação-comunicação-tecnologia [ICT] serão impactadas negativamente por qualquer potencial ação militar. Essa será uma questão não apenas das “partes em conflito”, mas um problema global, à medida que malware(*) de todos os tipos, extremamente viciosos, se espalharem para cada canto da internet. Não é possível precisar o caos que “guerra cibernética total” trará, mas evidências anteriores sugerem que, se começar, tomará conta de todo o mundo em menos de 24 horas.
Cyber Warfare
A Rússia até agora não usou tropas ou armas convencionais para atacar a Ucrânia, mas isso não significa que não a tenha atacado. Ela faz isso incansavelmente há anos usando armas eletrônicas e psicológicas.
Os Estados Unidos também têm sido alvo de hostilidades semelhantes, principalmente no que diz respeito à desinformação e campanhas de influência em torno das eleições. Mas algo muito pior pode estar por vir. Agora as apostas são maiores. Em vez de continuar com intermináveis guerras partidárias, os americanos deveriam se unir em um esforço para se preparar para o que pode ser um ataque sério à sua infraestrutura eletrônica. Isso deve receber o mesmo senso de urgência que um ataque militar iminente despertaria.
As consequências de uma guerra cibernética real [e absolutamente inédita] são algo que todos os americanos, e em larga medida o ocidente, deveriam considerar com especial seriedade.
Um exemplo vivo na memória é o ataque NotPetya de 2017 contra a Ucrânia, no qual alguns computadores pertencentes aos setores financeiro, comercial e de rede elétrica foram apagados. Pense também em ataques maciços de ransomware, e outros danos que colocariam os sistemas financeiros, a infraestrutura e o governo de joelhos. Um ataque como esse em escala global seria catastrófico.
Uma coisa é quase certa, nenhum sistema operacional ou aplicativo de consumidor/comercial atual tem qualquer resiliência à infinidade de ataques que serão liberados muito rapidamente em um ataque cibernético massivo. Atualizações de segurança não serão uma opção, pois seus repositórios de distribuição estarão também comprometidos.
É sabido que existe malware capaz de transformar chips da Intel em nada mais do que pequenas pastilhas de silício. Da mesma forma, todo Flash ROM [pendrive] deve hoje ser considerado portador de malware persistente, instalado por meio de ataques cirúrgicos à cadeia de suprimentos realizados previamente – nos últimos dez anos. Esses pequenos componentes eletrônicos constituem a base do sistema econômico ocidental.
Portanto, agora pode ser um bom momento para as organizações investigarem seriamente a opção de “puxar o plugue da conectividade” em tudo o que não seja essencial. Além disso, cercar/segregar rigidamente a conectividade essencial como se fosse Chernobyl.
Outra coisa a considerar, agora e para o futuro, especialmente se a guerra se materializar, é como proteger a segurança, a integridade e a disponibilidade de seus ativos na Nuvem no médio e longo prazos. Um cenário de guerra cibernética semipermanente traz muitos obstáculos – alguns intransponíveis – a esse modelo de negócio.
Se você é um investidor semi profissional ou amador, este é o momento de checar seu portfólio e (re)considerar onde seu dinheiro é investido.
Um efeito colateral será o preço das cripto moedas, que [eu suspeito] se tornará ainda mais volátil. Espere muita especulação e fraude/roubo à medida que novas moedas e sistemas de contrato surgem procurando por dinheiro fácil e grandes quantidades de energia para impulsionar os esquemas.
Qualquer aumento na especulação de cripto moedas causará um aumento exponencial nos ataques à ICT.
Conclusão
A guerra cibernética é uma incógnita, mas a história sugere que será ruim para os vulneráveis e despreparados. A maioria dos sistemas de negócios está muito exposta e não tem capacidade de parar o tipo de malware que espera nos arsenais de guerra cibernética. Portanto, esses sistemas serão cooptados, destruídos, ou ambos, em uma guerra cibernética “total”.
(*)Nota: A palavra Malware [assim como hardware, software e qualquer outro ware] não tem plural em inglês. Essa é a convenção que adotamos neste blog.
A empresa-mãe do Facebook, Meta, vive uma sequência sem precedentes de dias ruins. Em uma teleconferência de resultados no início do mês, os executivos relataram que, pela primeira vez em sua história, o Facebook havia perdido usuários ativos diários no trimestre anterior – cerca de um milhão deles, para ser exato.
O Facebook transforma empreendedores em mendigos – Imagem: Pexels
A Meta também gastou bilhões em seus projetos de realidade virtual, que o CEO Mark Zuckerberg apresentou como o futuro da empresa. Na esteira da divulgação sombria, a Meta caiu mais de US$ 237 bilhões em valor no dia 3/2, a maior perda de um dia no mercado de ações dos EUA (isso é mais do que o valor de mercado da Netflix ou do Twitter.) O patrimônio líquido de Zuckerberg também caiu US$ 31 bilhões. Foi uma notícia chocante para uma empresa que declarou números sólidos a fantásticos no passado, mesmo durante períodos de escândalo e ira pública.
Reformar a Big Tech (especificamente o Facebook) parece ser a única coisa com a qual ambos os lados do espectro político concordam em todo o mundo. Os políticos mais sensatos querem proteger os cidadãos dos danos que essas plataformas causam, enquanto políticos controversos de direita, como Ted Cruz [e muitos outros no Brasil], querem se intrometer no Facebook porque acham que a plataforma censura injustamente os pontos de vista conservadores.
A falta de consenso sempre foi o obstáculo para uma reforma significativa. Felizmente, há alguns sinais de encorajamento do lado direito da cena política (nos Estados Unidos), como o senador republicano Dan Sullivan, dizendo que o mundo um dia olhará para este para esse período e perguntará: “O que diabos estávamos pensando?”
Não estávamos pensando
Comparações entre Big Tech e Big Tabacco vêm borbulhando há anos. Mas agora, graças aos Facebook Files do Wall Street Journal, há evidências que mostram claramente os danos causados pelo Facebook e Instagram. Pior ainda, os executivos do Facebook parecem saber exatamente o quão ruim é o problema, porque muitas das evidências são de primeira mão e eles ainda não tomaram nenhuma atitude à altura do problema.
É particularmente preocupante como a chefe de gerenciamento de políticas globais do Facebook, Monika Bickert, tentou distorcer as descobertas, afirmando que “a maioria dos jovens no Instagram está tendo uma boa experiência”.
Bickert estava dobrando a aposta em uma linha de argumento do Facebook, que quer forçar a todo custo a versão de que os resultados de uma pesquisa realizada no mês passado – mostrando que oito em cada 10 usuários adolescentes do Instagram nos EUA disseram que a plataforma os fez se sentir melhor – provou seus méritos.
O que acontece a seguir permanece um mistério. Mas esta semana, eu acho, marca um momento significativo no debate sobre o que fazer com o Facebook.
Pela integridade das pessoas e independência do mercado
Minha relação pessoal com o Facebook não pode ser pior. Para começar, fui um dos primeiros a aderir a plataforma, quando o Orkut era o lugar onde todos estavam. Foi difícil convencer meus amigos a experimentar o Facebook – para que eu tivesse com quem conversar no novo boulevard – que eu considerava menos cafona do que o Orkut com sua interface dantesca. Só muito depois a plataforma finalmente emplacou no Brasil. Eu ainda não sabia, mas naqueles dias minha vida de entrepreneur da web 2.0 iria se chocar contra um zuker-berg.
O Facebook é uma abominação que consumiu toda a Web no Brasil e em outros países do 3º mundo. Para muitos, não ter acesso ao Facebook significa perder a conexão com tudo, incluindo serviços essenciais para a vida offline. Mas nem sempre foi assim
Primeiro, tínhamos aplicativos de desktop (que sempre podiam comunicar dados para servidores de rede). Em seguida, envolvemos os aplicativos no navegador (que é essencialmente um sistema operacional em um sistema operacional), mas tínhamos nossas páginas e sites em servidores independentes, assim como temos nossos blogs em nossos servidores. Trabalhadores da área [eu!] tinham uma vida relativamente boa, construindo sites para empresas de todos os tamanhos, que assim eram donas de seus narizes na web. Eram completamente independentes, retendo com elas todos o valor de seus negócios.
Então inventamos as “redes sociais” e estamos colocando tudo lá.
Poderíamos apenas ter melhorado a tecnologia de aplicativos de desktop (incluindo descoberta, entrega, interoperabilidade, portabilidade e flexibilidade de design de interface do usuário), mas escolhemos os navegadores. Poderíamos parar por aqui, usar a Web padrão e melhorar a experiência de uso de RSS/Atom/RDF/XMPP/etc.
Mas não. Seguimos uma toada enfadonha e insana em direção ao imobilismo e à falta de agência. Rendemos nossas páginas, contatos, assinaturas para o Facebook. Praticamente todas as empresas do mundo agora dependem desse elemento tóxico em suas relações com os consumidores.
No campo da inteligência de negócios as empresas estão prostradas, compartilhando passivamente com os Mestres do Universo o valor principal de seu negócio [que são os bens imateriais proporcionados pelas interações]. O Facebook efetivamente transforma os empreendedores em mendigos a implorar migalhas da economia da atenção.
Os pequenos e médios estúdios e desenvolvedores independentes de software para infraestrutura web, que eram milhões em 2003, estavam aniquilados em 2015. Mesmo em um país da UE muito desenvolvido, as pessoas enfrentam o problema frequente de que algum item está disponível apenas via Facebook. Isso é surreal. Porque as empresas não mais se preocupam em ter seus próprios sites/e-mails/telefones. Isso representa um problema sério – e perturbadoramente óbvio – para a cadeia de suprimentos no médio e longo prazos [para não falar de empregos para a mão de obra qualificada].
Redes sociais precisam de regulamentação anti monopólio
É incrível que tenhamos chegado a um momento na história em que instituições empresariais e pessoas importantes – aparentemente bem sucedidas e inteligentes, voluntariamente contribuem para a hipercentralização da informação [portanto dos negócios] nas mãos de apenas uma corporação, que pode facilmente falhar – intencionalmente ou não. O Facebook está se tornando uma espécie de sistema chinês, em que há apenas uma rede. Os usuários usam aplicativos dentro dessa rede, e para eles, essa é a Internet. Isso é um sonho de controle social para um governo.
Olhando de forma mais ampla, as redes sociais são uma camada desnecessária dentro da arquitetura da web – embora a tendência maliciosa seja envolver as estruturas de comunicação dentro de mais e mais camadas. Este blog é uma prova viva disso [neste momento você não está em uma rede social].
Imagem: Pexels
Por mais liberal que eu possa ser, sou um homem sensato. Eu reconheço o primado do contrato social, que está danificado quase além de possibilidade de reparo, em grande parte por causa apenas dessa empresa de tecnologia. Isso precisa de severa reflexão. Eu esperaria que os governos reconhecessem a gravidade do problema [do monopólio] das redes sociais para a sustentabilidade econômica, para as relações internacionais, para a saúde mental de seus usuários e para a democracia.
Alguns governos já começam a levar as mudanças climáticas cada vez mais a sério. Este problema das redes sociais é o mais recente que enfrentamos e potencialmente pior: são as redes sociais que fomentarão a discórdia e o abandono da razão, que potencialmente nos levarão ao colapso da civilização.
Espero que ao testemunhar os recentes percalços muitas pessoas poderosas tenham se convencido de que o Facebook está, de fato, fora de controle.
A medida que a Ômicron avança, eu começo a ver argumentos surpreendentes (e um pouco perturbadores) sobre como proceder daqui em diante em face da… epidemia?
O fluxo de informação na genética é muito mais complexo do que pode parecer em uma análise superficial, um ponto ilustrado de forma travessa por um pequeno factóide: pesquisadores descobriram que, cortando a cabeça e a cauda de um verme e aplicando uma corrente elétrica – o que interrompe o fluxo de informações no crescimento celular – você pode obter um verme com cabeça em ambas as extremidades. Se você cortar esse novo verme ao meio, você terá dois novos vermes de duas cabeças, mesmo que tenham exatamente o mesmo DNA do verme original de uma cabeça.
Tudo isso demonstra que há algo mais do que o DNA se escondendo nas leis da genética. É a chamada epigenética. Na biologia, a epigenética é o estudo das mudanças hereditárias do fenótipo que não envolvem alterações na sequência de DNA.
A evolução leva tempo, mas é brutal em sua seletividade. O indivíduo de uma espécie, seja qual for, dos humanos aos vírus, sempre surge como um “ponto ideal” entre variáveis independentes e caóticas. Tanto a otimização excessiva quanto a sub-otimização são prejudiciais a esses sistemas compostos de partes menores, embora cada parte tenha otimizações diferentes e pareça surgir de fundamentos muito básicos através do caminho da “complexidade”.
Como sabemos, a maioria dos sistemas biológicos podem, acima de um certo nível de complexidade, copiar a si mesmos. Qualquer erro nesse processo de cópia – se não for corrigido – vai resultar em uma variante genética. Se essa mudança aleatória causar um aumento marginal na longevidade ou na capacidade de reprodução do indivíduo, ela será favorecida e passada adiante. Daí a noção de “evolução” ser fundamental para o que acontece nas mutações genéticas.
O resultado é sempre uma especialização que dá vantagem ao organismo que, por isso, acaba se tornando predominante. Até que a mutação se torne menos vantajosa ou outra variante ganhe uma vantagem diferente.
Podemos ver isso em ação em “tempo real” atualmente com as variantes do SarsCov: a Delta foi substituída pela Ômicron, que por sua vez está sendo substituída por outra variante da Ômicron. No final do atual processo, portanto, presume-se que um sistema simbiótico eficaz se desenvolverá e o SarsCov2 se tornará, como os outros vírus Corona que infectam humanos [como o resfriado comum], um oportunista de fundo.
Os jovens vão contaminar todo o mundo
Então, o resumo de tudo é que, vendo o desenrolar dos fatos, em minha situação eu tenho pouca escolha. Vou me infectar, assim como todos os outros que não vivem em uma bolha isolada.
Na verdade, minhas escolhas se limitam a:
1. Continuar empurrando a pedra ladeira acima – que no fim vai acabar rolando de volta.
2. Facilitar o contágio inevitável – relativamente benigno para uma pessoa totalmente vacinada.
Tão pouca escolha se torna uma escolha real. Os itens 1 e 2 se traduzem da seguinte forma:
1. Viver em uma bolha que eventualmente irá estourar, sabendo que a cada dia que passa minha imunidade está diminuindo. Então, quanto mais eu evitar, pior será nos meses à frente. Poderá ainda haver uma variante consideravelmente mais patogênica.
2. Aceitar o inevitável, enquanto eu ainda tenho alguma proteção vacinal – e a variante atual é relativamente benigna para uma pessoa com esquema vacinal completo.
A Dinamarca suspendeu todas as restrições com base no que parece ser uma evidência científica sensata. Somam-se a isso profissionais de saúde com expertise na área dizendo, a “Ômicron é a vacina que não pudemos fazer ou distribuir”.
Você tem que perguntar o que isso realmente significa, não apenas em um nível social, mas individual.
Sem escolha
Nenhuma ação que as pessoas tomem é isenta de riscos – mesmo ficar na cama tem riscos significativos para a saúde. Assim, surge a questão não apenas do “risco comparado”, mas também do “risco nominal”.
No momento tenho alguma imunidade da vacina, mas isso está diminuindo. Essa imunidade pode não estar presente em algumas semanas, quando uma nova variante inevitavelmente surgir.
A auto-contaminação é um risco calculado que eu não assumiria em nenhuma outra circunstância. Mas está claro que os políticos querem qualquer desculpa para “abrir tudo de cambulhada”. Então a minha escolha foi removida, já há algum tempo.
Eu serei infectado, não porque eu deseje/queira, mas porque minha escolha foi tirada de mim. Evitar todos que possam estar infectados é impraticável, então em algum momento eu – provavelmente – ficarei infectado e sintomático – mas espero que não no nível que exija internação hospitalar.
Imitando o fraseado do pérfido Bolsonaro, no tocante (argh!) à patogenicidade, ela está no nível mais baixo em dois anos.
A próxima variante será menos patogênica? Eu não tenho ideia. Mas é mais provável ser mais para cima do que para baixo do que está sendo dito. Vou deixar os outros lutarem com essa questão.
O que eu sei é que minha imunidade, como a de todo mundo, está em contagem regressiva…