Os Fakes de Elon

No final da semana passada, minha página inicial do Youtube foi subitamente inundada por uma onda de “eventos ao vivo”.

Figura de uma mulher ao computador.
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Conforme eu rolava para baixo, havia pelo menos cinco desses eventos acontecendo simultaneamente, todos com Elon Musk. Sabemos que ele é um cara que entende de tecnologia, mas, a menos que tenha havido um avanço previamente não anunciado na clonagem humana, me pareceu óbvio que nem mesmo ele poderia dar cinco palestras em cinco locais diferentes ao mesmo tempo.

Assistir a um desses vídeos por alguns minutos levantou algumas “bandeiras vermelhas”, já que o avatar de Musk continuava repetindo a mesma coisa várias vezes: “Digitalize o código QR na tela. Deposite Bitcoin ou Etherium. Duplique seu dinheiro.” (Estou parafraseando, mas essa era a essência das mensagens.). E os vídeos pareciam haver sido digitalizados de fitas VHS de 1995.

Como é possível que alguém com capacidade mental além do tronco cerebral possa cair nesses esquemas está completamente além da minha compreensão.

Detectar golpes é uma habilidade. Uma habilidade difícil, que você tem que desenvolver constantemente. Muitos não confiam em si mesmos o suficiente para fazer isso, ou não têm tempo ou não estão dispostos a fazer o esforço. Ou talvez não saibam por onde começar. Eu pessoalmente comecei meu esforço estudando o chamado sequestro emocional. Depois, desenvolvi regulação emocional para superá-lo.

Diariamente, passo um tempo pensando em meus vieses cognitivos, para entendê-los (são esses vieses que impedem as pessoas de ver um golpe sendo armado). Pesquiso falácias lógicas (como expressamos esses vieses cognitivos). Quanto mais eu me dedico, mais fácil é detectar um golpe.

Meu cérebro é plástico, mas nada disso veio naturalmente. Tive que trabalhar duro para desenvolver defesas. Mas se eu posso fazer isso, qualquer um pode. Não sou de forma alguma uma pessoa superinteligente. É triste que esses temas não façam parte do nosso sistema educacional – talvez os donos do mundo prefiram gado irracional a humanos pensantes.

Regular e taxar

A tecnologia de A.I. é impressionante, mas por que alguém confiaria em influenciadores sem fazer qualquer questionamento? Musk, motivo deste post, por mais admirável que seja, provou repetidamente que não é confiável. Nos casos em que seus empreendimentos tiveram sucesso, foi apesar de suas contribuições, e não por causa delas, e sempre que ele assume um papel mais ativo em seus negócios, o empreendimento geralmente sofre (veja por exemplo Tesla). Se vejo Musk endossando qualquer coisa — mesmo um endosso genuíno — imediatamente me torno mais cético em relação ao que ele está endossando.

As empresas de mídia social não só não estão realmente interessadas em bloquear ou remover esses conteúdos (afinal eles geram muito tráfego) como também, a bem da verdade, no momento elas não têm como removê-los, mesmo que quisessem. Os anúncios são exibidos em tempo real a partir de servidores de terceiros. No momento em que uma empresa bloqueia um anúncio fraudulento, ele pode já ter desaparecido, ou reaparecido com alterações suficientes para evitar o bloqueio. Esses são problemas estruturais de origem que precisam de dinheiro para serem enfrentados.

Como a Big Tech se recusa a dedicar quaisquer recursos sérios para controlar fraudes, golpes e roubos baseados na Internet, ela DEVE ser regulamentada e taxada sem piedade pelo governo federal para que os cidadãos sejam protegidos da anarquia e da ganância da Internet. O Facebook e o Google podem se dar ao luxo de gastar algumas centenas de milhões ou um bilhão extra para limpar seu site, seus aplicativos e algoritmos, mas ao invés disso eles preferem lucrar com o caos. Lucros anuais do Facebook nos últimos quatro anos: US$ 30 bilhões. Lucros anuais do Google no mesmo período: US$ 154 bilhões.

Regulamente e taxe a fonte do problema e o problema desaparecerá em grande parte. Mais impostos e mais proteção ao consumidor, e menos capitalismo abutre não regulamentado e subtributado.

Tirem os Políticos das Redes!

Combater a mentira deixou de ser algo que se faz por nobreza de caráter, com propósitos ideológicos ou cívicos, e se tornou um ato positivo, concreto, contra a sua utilização como ferramenta para desmantelar o bem político e social.

tirem os políticos das redes
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A jurisprudência da liberdade de expressão teve origem na cláusula de debate [link em inglês, sorry] da Constituição americana, concebida originalmente como um instrumento para garantir aos representantes do povo imunidade contra achaques baseados na expressão de suas ideias no curso dos trabalhos legislativos. Mas hoje metastatizou para todo o corpo social na forma de lesões e feridas.

A cláusula de debate funcionava bem quando a informação político-institucional era difundida por telégrafo e publicações regionais, como jornais e periódicos. Agora, no século XXI, com cada representante eleito a ter nas mãos uma plataforma de publicação, a capacidade de levar o discurso para fora do contexto clássico tem dois efeitos interessantes: 1) os representantes mudam seu comportamento para (retro)alimentar as plataformas, e 2) as plataformas funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, induzindo representantes desonestos e de má-fé a aplicar as cláusulas de discurso e debate de forma falsa e abusiva, ao mesmo tempo que as vinculam, como garantia, a todas as suas atividades.

Assim, a atividade política se desvia cada vez mais dos atos constitucionais de mandato, e se torna cada vez mais um auto-serviço à sua própria causa e agenda.

O remédio

Defendo a noção de que os políticos que atuam como funcionários do governo, ou representantes do povo em quaisquer esferas e em qualquer capacidade devem [por força da lei] comunicar principalmente através de canais oficiais, em vez de dependerem de plataformas de redes sociais, e que a sua presença nas redes sociais pode ser considerada um abuso de poder.

1. Os canais oficiais garantem transparência e responsabilização: Quando os políticos comunicam através de canais oficiais, como websites governamentais, comunicados de imprensa ou declarações oficiais, existe um certo nível de responsabilização e transparência. Esses canais muitas vezes passam por escrutínio e seguem protocolos específicos, garantindo que as informações sejam precisas, verificadas e alinhadas com as políticas governamentais. Esta transparência é crucial para manter a confiança entre o governo e o público.

2. Igualdade de acesso para todos os cidadãos: Os canais oficiais proporcionam igualdade de acesso à informação para todos os cidadãos. Nem todos têm acesso ou utilizam plataformas de redes sociais, e depender apenas delas para a comunicação pode excluir segmentos da população, especialmente aqueles provenientes de meios socioeconômicos mais baixos ou de grupos demográficos mais idosos. Ao utilizar canais oficiais, os políticos garantem que as suas mensagens cheguem a um público mais vasto, independentemente da sua presença nas redes sociais.

3. Preservação da integridade institucional: Os governos baseiam-se em instituições e protocolos estabelecidos. A comunicação através dos canais oficiais respeita estas instituições e mantém a sua integridade. Quando os políticos ignoram os canais oficiais em favor dos meios de comunicação social, podem minar os processos e estruturas estabelecidos, levando à confusão ou mesmo à erosão da confiança pública nas instituições governamentais.

4. Mitigar a desinformação e a má comunicação: Os canais oficiais envolvem frequentemente uma equipe de especialistas que garantem que a informação é precisa, consistente e desprovida de desinformação. As plataformas de redes sociais, por outro lado, são suscetíveis à rápida disseminação de rumores, notícias falsas e desinformação. Ao utilizarem principalmente canais oficiais, os políticos podem ajudar a mitigar a propagação de informações falsas e garantir que o público receba informações fiáveis e verificadas.

5. Prevenir agendas e preconceitos pessoais: As plataformas de redes sociais muitas vezes confundem os limites entre as opiniões pessoais e as declarações oficiais. Os políticos podem utilizar as redes sociais para promover agendas ou preconceitos pessoais, o que pode ser prejudicial ao processo democrático. Ao comunicarem através dos canais oficiais, é mais provável que os políticos apresentem informações de uma forma neutra e imparcial, centrando-se nos interesses do público e não nos interesses pessoais ou partidários.

Embora as redes sociais tenham potencial para ser uma ferramenta valiosa para a comunicação, os políticos que atuam como funcionários do governo devem confiar principalmente nos canais oficiais para garantir a transparência, a igualdade de acesso, a integridade institucional, a precisão e a neutralidade. A dependência excessiva das redes sociais pode, de fato, ser vista como um abuso de poder, uma vez que pode contornar protocolos e instituições estabelecidas, conduzindo potencialmente à desinformação e comprometendo os princípios democráticos.

AI não é Páreo para as Sutilezas Humanas

Faço uma resenha crítica de um artigo muito pertinente publicado no MIT Press Reader , de autoria dos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman. O trabalho trata de dois grandes grupos de problemas e suas e implicações e correlações com o pensamento humano e com a inteligência de máquina.

As nuances humanas
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A ênfase das abordagens computacionais da inteligência que nos acostumamos a ver no noticiário tem sido colocada em problemas formais e bem estruturados; problemas que têm um objetivo claro e um número definido de soluções possíveis. Esses problemas são os que podem ser, portanto, resolvidos por um algoritmo.

Mas nós, humanos, somos criativos, irracionais e inconsistentes. Concentrar-se nesses problemas bem estruturados às vezes pode ser enganoso e improdutivo – como o proverbial bêbado a procurar as chaves perdidas ao redor do poste, só porque ali é onde a luz brilha mais forte.

Os autores argumentam que existem dois grupos de problemas que são muito típicos da inteligência humana e merecem um olhar atento.

Um grupo contém os chamados problemas de insight. Os problemas de insight geralmente não podem ser resolvidos por um procedimento passo a passo, como um algoritmo, ou, quando podem, o processo se torna extremamente tedioso. Em vez disso, os problemas de insight exigem a reestruturação da própria abordagem do solucionador do problema.

Outro grupo são os problemas de procedimento [no artigo original é usada a expressão “problems of path” – problemas de caminho]. Em problemas de procedimento o solucionador tem disponível uma representação, que inclui um estado inicial, um estado objetivo e um conjunto de ferramentas ou operadores que podem ser aplicados para percorrer a representação. Em problemas de insight o solucionador não tem essas balizas.

Com problemas de procedimanto o solucionador geralmente pode avaliar quão próximo o estado atual do sistema está do estado objetivo. A maioria dos algoritmos de aprendizado de máquina depende desse tipo de avaliação.

Com problemas de insight, por outro lado, muitas vezes é difícil determinar se houve algum progresso até que o problema seja essencialmente resolvido. O que chamaríamos “efeito eureka” ou “momento aha!”, uma compreensão repentina de uma solução anteriormente incompreensível.

Insights são para humanos

De acordo com os autores, os problemas de insight podem ser representados de diversas maneiras. A maneira como você pensa sobre um problema, ou seja, como você representa o problema, pode ser fundamental para resolvê-lo.

Muito pouco se sabe sobre como resolvemos problemas de insight. Esses problemas são normalmente difíceis de estudar em laboratório com muita profundidade, porque as pessoas tễm uma dificuldade natural em descrever as etapas que percorrem para resolvê-los. A maior parte desses problemas pode ser resolvida com a obtenção de um ou dois insights secundários capazes de mudar a natureza do enfoque sobre eles.

Todos nós sabemos que as pessoas nem sempre se comportam da maneira estritamente sistemática necessária para o pensamento rigorosamente lógico. Esses desvios não são falhas ou erros no pensamento humano, mas características essenciais sem as quais provavelmente a inteligência não evoluiria.

Normalmente não parecemos prestar muita atenção às partes formais de um problema – especialmente quando fazemos escolhas arriscadas. Tversky e Kahneman descobriram que as pessoas fazem escolhas diferentes quando apresentadas às mesmas alternativas, dependendo de como essas alternativas sejam descritas.

Em alguns dos testes realizados, as pessoas preferiam o resultado certo ao incerto, quando o certo era enquadrado num tom positivo, e preferiam a alternativa incerta à certa, quando a certa era enquadrada num tom negativo. Com efeito, a estrutura ou tom das alternativas modulou a disposição dos participantes em aceitar o risco.

Nossas decisões, sejam elas corretas ou incorretas, sempre são produzidas pelos mesmos processos cognitivos. Ao contrário dos computadores, somos relativamente limitados no que podemos manter na memória ativa ao mesmo tempo.

Processos rápidos, processos lentos

Temos uma complexidade no nosso pensamento e processos intelectuais que nem sempre trabalha a nosso favor. Tiramos conclusões precipitadas. Somos mais facilmente persuadidos pelos argumentos que se adequam às nossas visões preconcebidas, ou que são apresentados num contexto ou noutro. Às vezes nos comportamos como computadores, mas na maioria das vezes somos desleixados e inconsistentes.

Daniel Kahneman descreve a mente humana como consistindo de dois sistemas, um que é rápido, relativamente impreciso e automático, e um outro que é lento, deliberado, e demora para chegar a uma conclusão mas, quando finalmente chega, é consistentemente mais preciso.

O primeiro sistema, diz ele, é ativado quando você vê a imagem de uma pessoa e percebe que ela está com raiva e provavelmente gritará. O segundo sistema é acionado quando você tenta resolver um problema de multiplicação como 17 × 32. O reconhecimento da raiva, em essência, surge em nossa mente sem nenhum esforço óbvio, mas o problema de matemática requer esforço deliberado e talvez a ajuda de lápis e papel (ou uma calculadora).

O que ele chama de segundo sistema está muito próximo do estado atual da inteligência artificial. Envolve esforços deliberados e sistemáticos que exigem o uso de invenções cognitivas.

O desenvolvimento dos sitemas computacionais inteligentes concentrou-se no tipo de trabalho realizado pelo sistema deliberado, embora o sistema automático ativado pelo reflexo possa ser tão ou mais importante. E pode ser mais desafiador de emular em um computador.

Mais fatos interessantes [em inglês] seguindo o link:

https://thereader.mitpress.mit.edu/ai-insight-problems-quirks-human-intelligence/

Dez Ideias (não tão) Práticas para Romper Bolhas Culturais

… ao invés de apenas apontar dedos e procurar culpados. Este é um assunto muito extenso para ser abordado de forma eficaz aqui, mas alguns pontos principais podem ser discutidos:

Criança estourando bolhas de sabão.
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1. É muito fácil ser derrotista ou fatalista. Não sou complacente com a seriedade do desafio de tirar a sociedade do marasmo, do beco sem saída filosófico em que nos metemos neste século – e, em particular, com a maneira como certas “ideias progressistas” foram incorporadas ao treinamento de professores e ao sistema educacional geral – mas existem paralelos históricos encorajadores quanto à possibilidade de rompimento de impasses culturais.

Na década de 1930, a década que assistiu ao fim da primeira fase do capitalismo, e com a qual alguns acadêmicos comparam nosso tempo, muitos estudantes e grupos jovens apoiaram o pacifismo ou o marxismo. Na década de 1960, seus sucessores abraçaram uma variedade de ideias políticas e sociais radicais. Em ambos os casos, seus pais ficaram horrorizados, mas o primeiro grupo veio a se tornar a “maior geração” e o segundo os liberais, embora auto-indulgentes, “boomers”. A sociedade ocidental historicamente progrediu ao enfrentar desafios e reagir de forma construtiva. É prematuro presumir que falharemos desta vez.

2. A reação à atual estagnação do pensamento ocidental parece estar ganhando força. A “janela de Overton” tem se expandido visivelmente. Pelos sinais ao redor, minha impressão é que nos últimos dezoito meses os maiores de 30 anos começaram acordar para o que está a acontecer. É menos claro para mim se houve tanto movimento entre os mais jovens.

3. Vejo como o desafio central a tarefa de persuadir a Geração Z – e especialmente os estudantes da Geração Z nas universidades de maior prestígio – a reconhecer as virtudes do debate aberto como verdade objetiva e ter a não conformidade à qualquer ideia majoritaria como trunfo.

4. Dito de outra forma, a questão central diz respeito aos meios, não aos fins. Muitas pessoas concordam com – ou pelo menos aceitam como legítimas – muitas das reclamações da Geração Z. O problema não é que os Wokes querem tolerância para trans, menos desigualdade econômica, justiça racial, mais ação sobre mudanças climáticas, etc, mas sim sua relutância em debater essas questões e suas tentativas de intimidar e deslegitimar qualquer dissidência, mesmo em questões de detalhe. Eles estão atacando os valores do Iluminismo, que conduziram a vida ocidental por duzentos anos. Em particular, eles estão tentando destruir a primazia do livre debate como caminho para boas decisões.

5. Esta não é apenas uma batalha de ideias em si. Alimenta-se de uma série de fatores estruturais também. O impacto da política de identidade, mídia social, negacionismo, polarização, bolhas culturais/ideológicas, etc, tem sido amplamente discutido. Eles fornecem o solo fértil sem o qual as sementes dos radicalismos progressista e conservador teriam murchado e não florescido. A sociedade ocidental precisa ajustar suas estruturas legais, políticas e tecnológicas.

6. O que mais beneficiaria o debate informado é a regulamentação das mídias sociais. Para além do impacto psicológico nos adolescentes, o próprio “status quo” dessas estruturas é inaceitável. Algoritmos que deliberadamente empurram indivíduos para cantos ideologicamente extremos da internet podem beneficiar os donos da redes sociais por meio do aumento do “engajamento” enfurecido e, portanto, da lucratividade, mas o impacto que isso tem na sociedade é muito pernicioso. Precisamos aceitar que a praça pública precisa de regras pactuadas e transparentes.

7. A maioria das pessoas responde com mais força a histórias do que a conceitos abstratos. Além de focar em exemplos individuais, como sucesso das mulheres trans em esportes femininos, etc., certas grandes contranarrativas históricas precisam ser desenvolvidas e impulsionadas, por exemplo as que descrevem como o “sistema ocidental”, o conjunto de instituições e valores que resgatou bilhões da pobreza e da tirania, pode ser implantado de forma benéfica em qualquer lugar – e poderia facilmente ter surgido no Oriente Médio ou na China como na Europa.

8. Pessoalmente, acredito que a situação econômica da Geração Z é um fator muito mais importante para explicar sua radicalização do que geralmente é aceito. Se suas perspectivas individuais fossem menos desanimadoras, suspeito que eles ficariam mais calmos em uma ampla gama de tópicos. Como conseguir isso é outra área de debate.

9. O ponto geral é que precisamos reafirmar os valores centrais do Iluminismo, mas também desenvolver novas ideias sobre como aplicá-los, dada a sociedade e a tecnologia atuais. É insuficiente defender a “liberdade de expressão”; também precisamos estabelecer novas regras sobre como certos discursos são privilegiados e outros discursos são desenfatizados na praça pública. A maioria concordaria que a censura a certos temas durante a Covid foi exagerada, mas exagerados também são os algoritmos que exacerbam a polarização e o extremismo.

10. Impulsionar uma agenda positiva é importante, mas importante também, a meu ver, é uma crítica implacável da teoria e prática do movimento progressista radical. Precisamos criticar a mentalidade que vê tudo como uma luta de poder entre categorias privilegiadas e as marginalizadas — infinitamente redefinidas.

Outros enfatizariam pontos diferentes. Um debate contínuo – em um espírito construtivo e amigável – sem dúvida levaria a conclusões mais ricas do que aquelas produzidas por qualquer indivíduo.

Ilusão e Martírio nas Redes Sociais

Eu tenho argumentado que as mídias sociais – assim como um grande número de blogs – permitem que as pessoas se distorçam de maneira doentia para obter lucro.

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Quando a reinvenção pessoal para o sucesso comercial se torna a norma, é fácil perder de vista as próprias necessidades enquanto se concentra em atender às demandas insaciáveis do público. Há uma grande diferença entre apresentar bem-estar para um público e realmente tê-lo alcançado.

O ciclo implacável de vender e reembalar o ego não apenas cria uma variedade estonteante de personas a serem mantidas, mas também estabelece as bases para uma crise existencial quando a demanda por essa identidade curada diminui.

A morte da ‘momblogger

Este mês de maio viu o passamento, aos 47 anos, de Heather Armstrong, uma das primeiras blogueiras a documentar os altos e baixos da maternidade. Armstrong, conhecida por seus fãs pelo nome de seu site, Dooce, morreu por suicídio, de acordo com seu parceiro, Pete Ashdow – como também fartamente noticiado na mídia de língua inglesa.

Nos anos finais de sua vida, Armstrong já era conhecida postumamente, por assim dizer; escrevendo no Instagram para uma fração de seu antigo público; seu passado mais conhecido do que seu presente. Tenho certeza que muitos bloguistas, podcasters e os variados especialistas virtuais de hoje são capazes de entender o drama de Heather, uma vez que compartilham, em graus variados, a mesma experiência agridoce. Nas redes sociais, inúmeras pessoas se entregaram inteiramente ao jogo da criação de conteúdo pessoal – fazendo jogadas que invariavelmente levarão a retornos decrescentes, até que não tenham mais jogadas a fazer.

Armstrong via a si mesma como uma empresa dedicada ao melhoramento pessoal. Mas será que ela realmente escrevia para seu público ou dialogava consigo mesma? Seu trabalho autobiográfico final, The Valedictorian of Being Dead, foi projetado para consumo, e não para grande voos filosóficos ou qualquer tipo de debate sério. Portanto, a questão permanece: quem ela realmente tentava influenciar?

Se você projetar sua vida para o consumo, ela será consumida. Longe de pretender julgar instâncias alheias, isto é um alerta – e para mim mesmo um mantra, que repito como expiação de fracassos, ou como desculpa. E o que acontece depois? É tão surpreendente que o vazio que sobra seja aterrorizante? Quando sua existência é uma piada pronta, uma boa história paga, uma anedota fofa, uma opinião – reveladora – sobre o que fazer e não fazer… Quando sua experiência de vida se torna simplesmente uma busca por qualquer conteúdo novo e monetizável, e suas escolhas são feitas com uma piscadela e um aceno de cabeça para os assinantes. O que você se torna quando não há mais nada para rir, zombar, satirizar ou ridicularizar? Quem é você depois de ter vendido tudo? O que realmente resta?

E você se pergunta: “Como cheguei aqui?”. “Para onde vai esta estrada?” E você pode se perguntar: “Estou certo? Estou errado?” E você talvez diga diante do espelho: “Meu Deus, o que eu fiz?”

Não foi a primeira e claramente não será a última vez que um ser humano descobre que a objetificação absoluta do Self é uma espécie de barganha faustiana, como a destilada em ‘Dorian Gray’. No fim, parece que a triste Sra. Armstrong achou o preço final alto demais para continuar a pagar. Que ela esteja em paz e que seu martírio não tenha sido em vão.