Guia Prático: Blockchain e Contratos Inteligentes II

Na primeira parte deste guia prático exploramos os fundamentos da blockchain. A segunda parte tem um foco claro e objetivo: mostrar na prática a estrutura dos contratos inteligentes e como você pode implementá-los em sua própria blockchain.

Mão escrevendo 'Ethereum" em um quadro 'white board'.
Imagem: pexels.com

Se no primeiro volume vimos a estrutura básica do bloco e da blockchain, aqui começamos a plantar os mecanismos que darão vida às aplicações descentralizadas (dApps). Seja para transferências automatizadas, registros imutáveis ou lógica condicional entre partes, os contratos inteligentes são a chave para desbloquear o verdadeiro potencial da Web3.


🚀 Integrando Contratos Inteligentes à Sua Blockchain

Contratos inteligentes permitem acordos automatizados e autoexecutáveis sem a necessidade de uma autoridade central. Você pode implementá-los diretamente na sua blockchain para viabilizar funcionalidades como transferência de ativos, validação de transações ou execução de aplicativos descentralizados (dApps).

🌐 Visão Geral dos Contratos Inteligentes

Contratos inteligentes são programas que rodam na blockchain. Eles podem ser escritos em linguagens como Solidity (comumente usada no Ethereum) ou Vyper, e têm como objetivo automatizar acordos ou transações entre partes.

Em sua blockchain baseada em Go, você essencialmente precisará de:

  • Uma forma de armazenar contratos inteligentes na blockchain.
  • Um mecanismo para executar o código do contrato inteligente quando certas condições forem atendidas.

Vamos simular isso de forma simples para começar, utilizando as capacidades nativas do Go. Isso não será tão complexo quanto o Ethereum, mas ilustrará os conceitos. Se você quiser avançar para contratos inteligentes compatíveis com o Ethereum, precisará de Solidity e de um cliente Ethereum como Geth ou Parity.

Abordagem Básica para Integrar Contratos Inteligentes

1️⃣ Representar Contratos Inteligentes

Em Go, você pode representar um contrato inteligente criando uma estrutura (struct) para o código do contrato e seu estado. Vamos começar definindo um contrato inteligente simples que pode atualizar seu estado quando chamado.

type SmartContract struct {
	ID    int
	Code  string  // Este pode ser o código do contrato (por exemplo, código Solidity ou pseudo-código)
	State string  // Armazena o estado do contrato (por exemplo, "ativo", "concluído", etc.)
}

2️⃣ Adicionar Contratos Inteligentes aos Blocos

Você pode modificar a estrutura do bloco para incluir um contrato inteligente em cada bloco.

type Block struct {
	Index         int
	Timestamp     string
	Data          string // Dados da transação ou do contrato inteligente
	PrevHash      string
	Hash          string
	SmartContract *SmartContract // Adiciona um ponteiro para o contrato inteligente (se houver)
}

Ao adicionar um novo bloco, você pode verificar se o bloco deve conter um contrato inteligente e configurá-lo.

func (bc *Blockchain) addBlockWithContract(data string, contract *SmartContract) {
	prevBlock := bc.Chain[len(bc.Chain)-1]
	newBlock := Block{
		Index:         prevBlock.Index + 1,
		Timestamp:     time.Now().String(),
		Data:          data,
		PrevHash:      prevBlock.Hash,
		Hash:          calculateHash(prevBlock.Index+1, prevBlock.Hash, data),
		SmartContract: contract,
	}
	bc.Chain = append(bc.Chain, newBlock)
}

3️⃣ Simular a Execução do Contrato

Uma maneira básica de simular a execução de um contrato é chamando uma função no SmartContract quando certas condições forem atendidas.

Vamos supor que você tenha um contrato que permite alguém “ativá-lo” e definir seu estado como “concluído”:

func (sc *SmartContract) execute() {
	// Para este exemplo simples, vamos dizer que executar significa mudar o estado
	if sc.State == "ativo" {
		sc.State = "concluído"
		fmt.Println("Contrato executado com sucesso!")
	} else {
		fmt.Println("Contrato já está concluído!")
	}
}

Então, na sua blockchain, você poderia ter uma função que verifica se há contratos que precisam ser executados quando um novo bloco é adicionado:

func (bc *Blockchain) executeContracts() {
	for _, block := range bc.Chain {
		if block.SmartContract != nil && block.SmartContract.State == "ativo" {
			block.SmartContract.execute()
		}
	}
}

4️⃣ Acionar Contratos Inteligentes

Agora você pode executar a lógica do contrato inteligente ao adicionar blocos à sua blockchain:

func main() {
	blockchain := Blockchain{}
	blockchain.Chain = append(blockchain.Chain, createGenesisBlock())

	// Cria um novo contrato inteligente
	contract := &SmartContract{
		ID:    1,
		Code:  "transferir(100 tokens)",
		State: "ativo", // Inicialmente ativo, pode ser executado
	}

	// Adiciona o contrato a um novo bloco
	blockchain.addBlockWithContract("Dados da Transação", contract)

	// Executa quaisquer contratos ativos
	blockchain.executeContracts()

	// Imprime a blockchain para verificar o estado do contrato
	for _, block := range blockchain.Chain {
		fmt.Printf("Bloco %d: %s - Estado do Contrato: %s\n", block.Index, block.Timestamp, block.SmartContract.State)
	}
}

5️⃣ Expandir os Contratos Inteligentes

Para tornar este sistema mais semelhante ao que você veria com contratos inteligentes baseados no Ethereum, você poderia:

  • Adicionar uma linguagem (como Solidity) para escrever contratos mais complexos.
  • Usar uma máquina virtual para executar a lógica do contrato (semelhante à EVM do Ethereum).
  • Adicionar mecanismos de gás para limitar quanto de recursos cada execução de contrato consome.
  • Implementar um algoritmo de consenso para execução descentralizada (Proof of Work, Proof of Stake, etc.).

Considerações do Mundo Real

Para integrar completamente contratos inteligentes em uma blockchain:

  • Armazenamento de dados: Armazene o código e os estados do contrato de forma descentralizada (por exemplo, IPFS ou em seus blocos).
  • Ambiente de execução: Você precisará implementar um sistema para interpretar e executar o código do contrato de forma segura. Isso poderia ser semelhante à Máquina Virtual Ethereum (EVM), mas poderia ser muito mais simples na sua blockchain baseada em Go.
  • Segurança: Contratos inteligentes podem ser vulneráveis a ataques como reentrância ou bugs de estouro. Lidar com isso de forma segura é crucial (por exemplo, testando contratos minuciosamente).

Conectar a um Contrato Inteligente baseado em Ethereum (Avançado)

Se você está procurando conectar sua blockchain Go ao Ethereum ou a uma blockchain semelhante ao Ethereum para executar contratos inteligentes Solidity, aqui está a abordagem geral:

  1. Instalar o Web3 para Go: Esta é uma biblioteca Go que permite interagir com contratos inteligentes do Ethereum. go get github.com/ethereum/go-ethereum
  2. Conectar-se ao Ethereum: Você precisará configurar um nó Ethereum (por exemplo, usando Infura ou executando seu próprio nó) e usar o Web3 em Go para implantar e interagir com contratos inteligentes.

Aqui está um exemplo:

package main

import (
    "fmt"
    "log"

    "github.com/ethereum/go-ethereum/accounts/abi"
    "github.com/ethereum/go-ethereum/common"
    "github.com/ethereum/go-ethereum/ethclient"
)

func main() {
    client, err := ethclient.Dial("https://mainnet.infura.io/v3/YOUR_INFURA_PROJECT_ID")
    if err != nil {
        log.Fatalf("Falha ao conectar ao cliente Ethereum: %v", err)
    }

    address := common.HexToAddress("0xYourContractAddress")

    fmt.Println("Conectado ao Ethereum!")
    fmt.Println("Endereço do Contrato:", address.Hex())
}

Nesta segunda parte, exploramos na prática como os contratos inteligentes funcionam dentro de uma blockchain. Em breve vamos aprofundar ainda mais: analisando padrões de contratos inteligentes, interações entre múltiplos contratos e desafios reais como segurança, escalabilidade e integração com redes como Ethereum.

O futuro é descentralizado — e ele começa com nossas linhas de código.

Guia Prático: Blockchain e Contratos Inteligentes I

Há muito tempo tenho vontade de criar um tutorial. No entanto, sempre tive um certo pudor, além do receio de ser (percebido como) apenas mais um.

Imagem decorativa do texto, mostrando objetos de escritório em torno da palavra 'blockchain'
Imagem: pexels.com

Sempre estabeleci como condição para um tutorial que o assunto tratado fosse realmente relevante e original. Agora, finalmente, surge a oportunidade de desenvolver um tutorial original sobre esse sistema importante, ainda pouco compreendido, mas cada vez mais presente na realidade do mundo moderno.

A mídia fala constantemente sobre blockchain e seus derivados — como as criptomoedas e os contratos inteligentes mas, para muitos, incluindo colegas de profissão, esses conceitos ainda são envoltos em uma névoa de imprecisão, quando não de total confusão. Este guia tem como objetivo destacar o aspecto concreto dessas tecnologias, trazendo à tona sua implementação real por meio de código, e mostrando, na prática, como interagir com elas dentro do ambiente computacional.

Neste tutorial uso a linguagem Go, tanto pela simplicidade como por seu uso crescente nos projetos voltados à Blockchain. Qualquer LLM poderá refatorar o código facilmente para qualquer outra linguagem, como Python.


O que é uma Blockchain?

O termo “blockchain” vem da junção das palavras em inglês block (bloco) e chain (cadeia), e descreve exatamente o que ela é: uma cadeia de blocos ligados entre si, onde cada bloco contém um conjunto de dados, um carimbo de data/hora (timestamp), e um hash que o conecta ao bloco anterior. Essa estrutura torna os dados praticamente imutáveis, sendo largamente usada para garantir transparência e segurança em ambientes descentralizados.

Um Pouco de História

A ideia de encadear blocos usando hashes não surgiu com o Bitcoin. Já em 1991, Stuart Haber e W. Scott Stornetta propuseram um sistema computacional para armazenar documentos com carimbos de tempo de forma segura — sem possibilidade de adulteração. Esse trabalho é considerado uma das raízes da blockchain moderna. Foi somente em 2008 que Satoshi Nakamoto uniu essa ideia com o conceito de dinheiro digital, criando o Bitcoin e, com ele, a blockchain como a conhecemos hoje.


Conceitos-chave para Entender

🧩 Bloco

Cada bloco é como uma página em um livro-razão digital. Ele possui:

  • Carimbo de data/hora (T1, T2, T3…): Indica quando o bloco foi criado.
  • Hash do bloco anterior (PreHash): Uma “impressão digital” do bloco anterior, que o conecta à cadeia.
  • Hash atual (Root Hash): Calculado com base no conteúdo do bloco e serve para garantir sua integridade.
  • Dados: Pode conter qualquer informação — transações financeiras, contratos, documentos, etc.
Figura 1 - Diagrama ilustrativo da blockchain.
Fig 1 – Ilustração da estrutura de um bloco.

Como se vê, o hash do bloco anterior se liga ao hash atual, conectando a cadeia. Se qualquer informação em um bloco for alterada, seu hash muda. Isso quebra a cadeia, tornando evidente que houve uma tentativa de adulteração.

🔐 Hashing

Hashing é o processo de aplicar uma função criptográfica sobre um dado para obter uma sequência de caracteres (o hash). Um dos algoritmos mais usados é o SHA-256, criado pela NSA e adotado amplamente desde os anos 2000. Ele transforma qualquer entrada (como um texto ou número) em uma sequência hexadecimal de 64 caracteres. Pequenas mudanças no dado original geram hashes completamente diferentes — um princípio chamado efeito avalanche.

⛏️ Prova de Trabalho (Proof of Work)

A Prova de Trabalho surgiu para resolver o problema da confiança em redes descentralizadas, como no Bitcoin. Ela exige que os participantes gastem poder computacional para adicionar novos blocos, tornando ataques muito caros e, portanto, inviáveis. A ideia foi inspirada em sistemas anti-spam dos anos 90 (como o Hashcash de Adam Back), onde uma tarefa computacional dificultava o envio de emails em massa.


🛠️ Construindo uma Blockchain Simples em Go

Agora que (provavelmente) entendemos os conceitos, vamos ver como isso se traduz em código.


Etapa 1: Definir a Estrutura do Bloco

package main

import (
    "crypto/sha256"
    "fmt"
    "time"
)

type Block struct {
    Index     int
    Timestamp string
    Data      string
    PrevHash  string
    Hash      string
}

🧱 Aqui definimos os principais componentes do bloco. Veja que a estrutura lógica do bloco define todos os ítens (atributos) do bloco, como ilustrado na Fig 1. Ele é uma estrutura básica, mas com tudo o que precisamos para construir a cadeia.


Etapa 2: Criar o Bloco Gênesis

func createGenesisBlock() Block {
    return Block{
        Index:     0,
        Timestamp: time.Now().String(),
        Data:      "Genesis Block",
        PrevHash:  "",
        Hash:      calculateHash(0, "", "Genesis Block"),
    }
}

📜 O bloco gênesis é o primeiro bloco da blockchain. Ele é especial porque não possui um antecessor. No Bitcoin, ele foi minerado por Satoshi Nakamoto em 3 de janeiro de 2009. Uma curiosidade: sua mensagem de dados incluía o título de uma manchete de jornal daquele dia, uma crítica à crise bancária da época.


Etapa 3: Função de Hash

func calculateHash(index int, prevHash, data string) string {
    record := fmt.Sprintf("%d%s%s", index, prevHash, data)
    hash := sha256.New()
    hash.Write([]byte(record))
    return fmt.Sprintf("%x", hash.Sum(nil))
}

🔍 Essa função garante a integridade do bloco, produzindo um hash único com base nas suas informações. Isso é o que torna a blockchain resistente a modificações: se qualquer dado mudar, o hash será diferente.


Etapa 4: Criar a Blockchain

type Blockchain struct {
    Chain []Block
}

func (bc *Blockchain) addBlock(data string) {
    prevBlock := bc.Chain[len(bc.Chain)-1]
    newBlock := Block{
        Index:     prevBlock.Index + 1,
        Timestamp: time.Now().String(),
        Data:      data,
        PrevHash:  prevBlock.Hash,
        Hash:      calculateHash(prevBlock.Index+1, prevBlock.Hash, data),
    }
    bc.Chain = append(bc.Chain, newBlock)
}

🔗 Aqui a cadeia começa a tomar forma. Cada novo bloco contém o hash do anterior, criando a estrutura de “cadeia”.


Etapa 5: Iniciar e Usar a Blockchain

func main() {
    blockchain := Blockchain{}
    blockchain.Chain = append(blockchain.Chain, createGenesisBlock())

    blockchain.addBlock("Primeiro bloco depois do genesis")
    blockchain.addBlock("Segundo bloco depois do genesis")

    for _, block := range blockchain.Chain {
        fmt.Printf("Index: %d, Timestamp: %s, Data: %s, PrevHash: %s, Hash: %s\n",
            block.Index, block.Timestamp, block.Data, block.PrevHash, block.Hash)
    }
}

📤 A execução do código imprime cada bloco da cadeia, demonstrando como a estrutura vai se formando e se conectando.


Etapa 6: Saída Esperada

Index: 0, Timestamp: ..., Data: Genesis Block, PrevHash: , Hash: 6b3d...
Index: 1, Timestamp: ..., Data: Primeiro bloco depois do genesis, PrevHash: 6b3d..., Hash: 2c6e...
Index: 2, Timestamp: ..., Data: Segundo bloco depois do genesis, PrevHash: 2c6e..., Hash: 9c4a...

📊 Você verá blocos encadeados, com cada PrevHash correspondendo ao Hash do bloco anterior.


🧠 O que mais?

A blockchain construída acima é funcional, mas ainda simples. Você pode expandir com:


Validação da Blockchain

func (bc *Blockchain) isValid() bool {
    for i := 1; i < len(bc.Chain); i++ {
        prevBlock := bc.Chain[i-1]
        block := bc.Chain[i]
        if block.PrevHash != prevBlock.Hash || block.Hash != calculateHash(block.Index, block.PrevHash, block.Data) {
            return false
        }
    }
    return true
}

🔎 Esta função verifica se a cadeia é válida. É um conceito essencial para detectar fraudes ou inconsistências em sistemas descentralizados.


🔨 Prova de Trabalho (Opcional)

Você pode implementar um campo nonce no bloco e ajustar o algoritmo de hash para que o resultado comece com, por exemplo, “0000”. Isso simula a mineração usada no Bitcoin, onde é preciso tentar milhões de combinações até encontrar um hash com a “dificuldade” exigida.


🌐 Descentralização

Até agora, nossa blockchain é local e centralizada. Em um projeto mais complexo, você pode usar:

  • Go-Ethereum: Implementação oficial do Ethereum em Go.
  • Gorilla Websocket: Para comunicação P2P entre nós (nodes).
  • Go-Swagger: Para criar APIs REST que expõem a blockchain.

🎓 Conclusão da primeira parte

Construir uma blockchain do zero é uma excelente forma de aprender estruturas de dados, criptografia, segurança da informação e sistemas distribuídos. Começando com algo simples, você pode continuar a adicionar camadas de complexidade: provas de consenso, contratos inteligentes, persistência em disco, interfaces gráficas e muito mais.

Se você chegou até aqui você está mais perto de entender não só como a blockchain funciona, mas por que ela é revolucionária. Na segunda parte deste pequeno guia, vou mostrar a lógica estrutural de um contrato inteligente e como adicioná-lo à Blockchain.

Estou desenvolvendo um tutorial completo (e executável!) sobre o tema, que abrigarei em meu Github. Você pode acompanhar — e contribuir.

O Efeito Trump: O ‘Surto’ do Bitcoin e a Nova Era das Criptomoedas

Com a eleição americana já decidida, o Bitcoin volta a ocupar o centro das atenções, impulsionado por uma onda de entusiasmo que fez seu valor se aproximar dos US$ 100.000 por unidade.

Boné vermelho com os dizeres 'make bitcoin great again'
Imagem modificada por AI

Até mesmo os críticos mais ferrenhos das criptomoedas — como eu, que há tempos alerto sobre seus riscos — precisam reconhecer que o cenário mudou drasticamente. Sob a presidência de Donald Trump, antes cético e agora um defensor das moedas digitais, o ambiente está preparado para uma nova rodada de alta nas criptomoedas.

Os fatores que impulsionam esse movimento são, em grande parte, políticos e baseados em um crescente hype, em vez de uma mudança fundamental no valor das criptomoedas. Afinal, a realidade permanece: essas moedas digitais têm pouco valor intrínseco. O Bitcoin e suas contrapartes digitais não oferecem um produto ou serviço tangível. Mesmo assim, estão se tornando rapidamente uma referência no sistema financeiro global, principalmente devido a um afrouxamento na regulação e ao apoio de um número crescente de influenciadores nas mídias sociais.

Essa transformação deve-se em grande parte à abordagem de Trump em relação à regulação. Espera-se que seu governo reduza consideravelmente a supervisão sobre as criptomoedas, criando um ambiente mais favorável ao crescimento desse mercado. A perspectiva de um cenário regulatório mais flexível deve incentivar os apoiadores da indústria, permitindo um novo ciclo especulativo que remonta ao espírito do Velho Oeste nos mercados financeiros.

Apesar de anos de promessas e hype, as criptomoedas ainda carecem de usos práticos no cotidiano. Defensores das moedas digitais podem argumentar que elas servem como proteção contra a inflação, reserva de valor ou uma alternativa melhor para remessas internacionais, mas nenhuma dessas afirmações foi realmente comprovada. Como um observador comentou de forma direta: “Ninguém encontrou um uso real para o Bitcoin além de possuir Bitcoin.”

No entanto, há áreas em que as criptomoedas, especialmente o Bitcoin, têm um valor claro: transações financeiras ilícitas. Seja para atividades criminosas, terrorismo ou lavagem de dinheiro, o Bitcoin tem se mostrado uma ferramenta eficaz. Um exemplo notório disso é o uso crescente de criptomoedas por investidores chineses, que buscam contornar as restrições do governo para a movimentação de capitais para o exterior. Embora as implicações legais e éticas sejam complexas, é inegável que as criptomoedas se firmaram como uma ferramenta nesse tipo de transação.

Nos Estados Unidos, a negociação de criptomoedas tem sido dificultada por entraves regulatórios, especialmente sob a liderança de Gary Gensler na Securities and Exchange Commission (SEC). Gensler se opôs veementemente ao setor, tratando muitas das ofertas de criptomoedas como valores mobiliários não registrados. Com a volta de Trump, esse cenário pode mudar. Sob uma nova gestão da SEC, as criptomoedas poderiam ser tratadas mais como commodities — como o ouro ou a soja — do que como ações ou títulos. Os reguladores de commodities tendem a se concentrar mais em fraudes do que na proteção ao investidor, o que daria aos emissores de criptomoedas uma liberdade maior.

Mudança nas diretrizes

A mudança de postura de Trump em relação às criptomoedas parece ser movida por uma razão clara: dinheiro. Somente este ano, os entusiastas das criptomoedas investiram mais de US$ 135 milhões em apoio a candidatos que defendem políticas favoráveis a esses ativos digitais. Trump também entrou no jogo, lançando o World Liberty Financial, uma nova iniciativa voltada para o mercado de criptomoedas, embora ainda não tenha alcançado seus objetivos de arrecadação. Além disso, Trump se cercou de figuras de destaque do setor, como Howard Lutnick, presidente da Cantor Fitzgerald, que agora deve comandar o Departamento de Comércio.

Entre as propostas mais curiosas que Trump e seus aliados defenderam está a criação de uma reserva estratégica de Bitcoin — uma ideia absurda que sugere que os Estados Unidos deveriam acumular um ativo de valor questionável. No entanto, é interessante notar que o governo dos EUA já possui uma quantidade significativa de Bitcoin, principalmente apreendido em casos criminais.

Essa confluência de influência política e apoio financeiro resultou no que podemos chamar de um “impacto Trump” nas criptomoedas. O Bitcoin subiu de cerca de US$ 40.000 no início do ano para quase US$ 94.000 atualmente. As ações da Coinbase, maior bolsa de criptomoedas, também tiveram um aumento de quase 44%. Caso a administração de Trump consiga reduzir a supervisão regulatória, a demanda por criptomoedas deve crescer ainda mais.

Porém, não nos deixemos enganar: essa alta não significa que as criptomoedas se tornaram mais seguras. Na realidade, com a redução das barreiras regulatórias, esses ativos digitais provavelmente se tornarão ainda mais voláteis. Os mercados de criptomoedas são conhecidos por suas flutuações de preço, que são impulsionadas mais pela especulação e pela emoção do que por fundamentos sólidos. Essa volatilidade é um reflexo de uma tendência maior no mundo dos investimentos modernos, onde a psicologia do mercado muitas vezes dita os preços dos ativos.

Warren Buffett, em sua carta anual, lamentou recentemente que o mercado de investimentos tenha se tornado cada vez mais “semelhante a um cassino”. E as criptomoedas são talvez o exemplo mais claro dessa realidade. Com menos proteção regulatória, esse “cassino” atrairá ainda mais especuladores, e, no segundo mandato de Trump, a indústria de criptomoedas será uma das principais promotoras desse frenesi.

A nova era das criptomoedas — movida por ambição política e especulação desenfreada — chegou. Se ela se consolidará como um mercado sustentável ou se tornará um grande alerta, o tempo dirá. O certo é que, sob Trump, o Bitcoin se prepara para um futuro tudo, menos previsível.

Os Fakes de Elon

No final da semana passada, minha página inicial do Youtube foi subitamente inundada por uma onda de “eventos ao vivo”.

Figura de uma mulher ao computador.
Imagem: pexels.com

Conforme eu rolava para baixo, havia pelo menos cinco desses eventos acontecendo simultaneamente, todos com Elon Musk. Sabemos que ele é um cara que entende de tecnologia, mas, a menos que tenha havido um avanço previamente não anunciado na clonagem humana, me pareceu óbvio que nem mesmo ele poderia dar cinco palestras em cinco locais diferentes ao mesmo tempo.

Assistir a um desses vídeos por alguns minutos levantou algumas “bandeiras vermelhas”, já que o avatar de Musk continuava repetindo a mesma coisa várias vezes: “Digitalize o código QR na tela. Deposite Bitcoin ou Etherium. Duplique seu dinheiro.” (Estou parafraseando, mas essa era a essência das mensagens.). E os vídeos pareciam haver sido digitalizados de fitas VHS de 1995.

Como é possível que alguém com capacidade mental além do tronco cerebral possa cair nesses esquemas está completamente além da minha compreensão.

Detectar golpes é uma habilidade. Uma habilidade difícil, que você tem que desenvolver constantemente. Muitos não confiam em si mesmos o suficiente para fazer isso, ou não têm tempo ou não estão dispostos a fazer o esforço. Ou talvez não saibam por onde começar. Eu pessoalmente comecei meu esforço estudando o chamado sequestro emocional. Depois, desenvolvi regulação emocional para superá-lo.

Diariamente, passo um tempo pensando em meus vieses cognitivos, para entendê-los (são esses vieses que impedem as pessoas de ver um golpe sendo armado). Pesquiso falácias lógicas (como expressamos esses vieses cognitivos). Quanto mais eu me dedico, mais fácil é detectar um golpe.

Meu cérebro é plástico, mas nada disso veio naturalmente. Tive que trabalhar duro para desenvolver defesas. Mas se eu posso fazer isso, qualquer um pode. Não sou de forma alguma uma pessoa superinteligente. É triste que esses temas não façam parte do nosso sistema educacional – talvez os donos do mundo prefiram gado irracional a humanos pensantes.

Regular e taxar

A tecnologia de A.I. é impressionante, mas por que alguém confiaria em influenciadores sem fazer qualquer questionamento? Musk, motivo deste post, por mais admirável que seja, provou repetidamente que não é confiável. Nos casos em que seus empreendimentos tiveram sucesso, foi apesar de suas contribuições, e não por causa delas, e sempre que ele assume um papel mais ativo em seus negócios, o empreendimento geralmente sofre (veja por exemplo Tesla). Se vejo Musk endossando qualquer coisa — mesmo um endosso genuíno — imediatamente me torno mais cético em relação ao que ele está endossando.

As empresas de mídia social não só não estão realmente interessadas em bloquear ou remover esses conteúdos (afinal eles geram muito tráfego) como também, a bem da verdade, no momento elas não têm como removê-los, mesmo que quisessem. Os anúncios são exibidos em tempo real a partir de servidores de terceiros. No momento em que uma empresa bloqueia um anúncio fraudulento, ele pode já ter desaparecido, ou reaparecido com alterações suficientes para evitar o bloqueio. Esses são problemas estruturais de origem que precisam de dinheiro para serem enfrentados.

Como a Big Tech se recusa a dedicar quaisquer recursos sérios para controlar fraudes, golpes e roubos baseados na Internet, ela DEVE ser regulamentada e taxada sem piedade pelo governo federal para que os cidadãos sejam protegidos da anarquia e da ganância da Internet. O Facebook e o Google podem se dar ao luxo de gastar algumas centenas de milhões ou um bilhão extra para limpar seu site, seus aplicativos e algoritmos, mas ao invés disso eles preferem lucrar com o caos. Lucros anuais do Facebook nos últimos quatro anos: US$ 30 bilhões. Lucros anuais do Google no mesmo período: US$ 154 bilhões.

Regulamente e taxe a fonte do problema e o problema desaparecerá em grande parte. Mais impostos e mais proteção ao consumidor, e menos capitalismo abutre não regulamentado e subtributado.

A Promessa de Descentralização e Empoderamento da ‘Web 3.0’

Web 3.0 é o que Sir Tim Berners-Lee e o W3C, apoiados por empresas como o Google, querem que o futuro seja.

Imagem: Pexels.com

Alguma definição

Segundo a Forbes

…é um desafio definir precisamente a Web 3.0. Para desenvolvedores e entusiastas de criptomoedas, a Web 3.0 incorpora as tecnologias e conceitos que estão no centro das criptomoedas: descentralização, economia baseada em tokens e blockchain.

A descentralização significa que os usuários podem realizar transações ponto a ponto, eliminando intermediários e removendo o poder das entidades controladoras. Há um maior foco na privacidade, transparência e poder do usuário.

Aqui é onde a tecnologia blockchain e a criptomoeda entram na equação. As criptomoedas e a economia de tokens facilitam esse modelo de descentralização, permitindo que as informações sejam armazenadas em um livro-razão distribuído fora do âmbito de qualquer entidade controladora.

Um cheiro de peixe no ar

O fato de o Google – o maior centralizador do mundo, que sempre esteve a dirigir as coisas nas versões anteriores da Web – participar dos grupos de trabalho da Web 3.0, já levanta suspeitas desconfortáveis quanto à sua influência nesse processo.

A expressão Web 3.0 foi supostamente cunhada há quase uma década por um dos gurus da blockchain, e está cheia de exageros e mistificações, como tudo nestes tempos correntes. Todos nós já deveríamos saber que blockchain é um desastre e criptomoedas/cripto-tokens estão rapidamente se tornando “más notícias” até no mercado de camisetas de segunda mão.

Infelizmente, assim como nos primeiros dias de Blockchain e Bitcoin, os jornalistas – que geralmente sabem pouco ou nada de computação ou criptografia – estão viajando na ‘vibe‘ de gente de fala mansa e sorrisos sedutores, a malhar na Internet uma utopia futura que levará todas as pessoas ao nirvana.

Nos encontros que tenho na vida diária, eu percebo que meus comentários sobre certos vigaristas e embusteiros da Web 3.0 não são muito populares em certos círculos. Em minha defesa digo que meus pontos de vista não são únicos e são compartilhados uma legião de gurus igualmente sorridentes a dizer isso a um grande público nos tubes da vida.

Nem todos serão permitidos entrar na utopia

A razão é que somos todos basicamente preguiçosos e não queremos assumir responsabilidades.

Como em todo empreendimento ocidental moderno, não importa o que seja, se houver o mais leve odor de status, dinheiro ou poder no ar ao redor, toda uma uma hierarquia de controle espontaneamente se desenvolve, com poder, dinheiro e status sendo acumulados no topo, sugados daqueles na base.

Quando você olha para a Web 1.0 no século passado, os sites eram estáticos e descentralizados, mas impossíveis de encontrar, exceto por acaso. Surgiu então a ideia da indexação e duas coisas aconteceram:

  • as coisas tenderam a se centralizar.
  • os primeiros a comercializar dominaram o mercado.

No início dos anos 2000 a Web 2.0 trouxe outro enfoque. Os usuários se tornaram consumidores insaciáveis, embora ainda criassem algum conteúdo. Os novos comportamentos tiveram o efeito colateral de propiciar uma cultura de roubo maciço de informações pessoais e propaganda enganosa cada vez mais agressiva. As estruturas de poder e controle social ganharam uma dimensão e uma centralização cada vez maiores, à medida que as “mídias sociais” apareciam. O preço que pagamos no final foi a fratura da sociedade e o alastramento da ignorância e superstição.

R.I.P.

A Web 2.0 agora está morrendo, pois a propaganda enganosa não está mais a gerar lucro suficiente no ambiente de extrema ganância; ela não está trazendo as recompensas prometidas e os investidores, depois de mais de uma década, ainda não estão vendo nenhum dinheiro real retornando. Sua riqueza foi tomada e embolsada por muitos.

Assim, algum tipo de Web 3.0 aparecerá. Queremos que ela seja utópica e igualitária, mas os donos do poder conhecem nossa índole. Eles sabem que não estamos preparados para assumir a responsabilidade para que o sistema seja mesmo igualitário.

Portanto, espere muitos golpistas criando novas bolhas para os investidores despejarem dinheiro como em um ralo no oceano. Ao mesmo tempo, espere um novo tipo de agregação de dados e controle social mais profundo e pirâmides ainda maiores de status, poder e dinheiro.


Adendo – “Xxxxx é o ópio do Povo.”

Em seu tempo, esse dito [de Karl Marx, sorry] era verdadeiro até certo ponto, mas ele adquiriu muitos outros sentidos desde então. Um deles – mais ou menos uma década atrás – é “Reality TV é o ópio do Povo”. Mais recentemente, e com mais verdade, “Rede Social é o ópio do Povo”.

Observar as redes sociais hoje nos dá uma pista de como será a Web 3.0 se aqueles no topo da hierarquia tiverem carta branca para fazer o que querem. Ela será projetada nas melhores tradições orwellianas para nos transformar não em escravos espancados, mas algo pior: servos estúpidos completamente controlados.

Aqueles que constroem essas hierarquias – oligarquias tecnológicas como Google, Apple, Amazon – não querem que você tenha bens; tudo será para alugar [você já deve ter percebido que não tem controle total sobre certas coisas que você imagina ser de sua propriedade, ex. Smartphone]. Será então a era da economia rentista. Tudo o que você vai fazer é pagar, pagar e pagar de novo à medida que vive; um inquilino em todos os sentidos. Como você não terá ativos, a realidade da inflação será usada contra você.

O aluguel que você paga irá para o topo da pirâmide, onde será convertido em ativos que somente eles poderão possuir. Você descobrirá que, à medida que seu salário aumenta, a inflação garantirá que esse aumento não tenha nenhum efeito material em sua vida. Não importa quanto você ganhe, o aluguel sempre vai te separar do seu dinheiro. Você será deliberadamente mantido pobre e dependente, e portanto controlado. Se você tiver bens, eles serão retirados de você “por meios legais” e, se você resistir, será levado à ruína por custas judiciais ou despesas médicas.

O mundo ficará estagnado à medida que o progresso se tornar quase impossível. Esse é o sonho utópico deles, que eles tentarão de todas as formas forçar sobre nós como um pesadelo vivo, a menos que

acordemos, assumamos a responsabilidade e paremos de ir como sonâmbulos em direção à armadilha

Tem que ser você e eu, e não eles, quem deve assumir a responsabilidade pela Web 3.0.