Algo Sobre o Google para Animar a Blogosfera

É uma injustiça, um verdadeiro crime, que, por causa de um mísero algoritmo, toda a Internet fique isolada, sem acesso aos nossos maravilhosos blogs, cheios de conteúdo, charme intelectual, tirocínio e estilo. Mas felizmente isso está para mudar.

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Imagem: Pexels.com

O Google anunciou ontem [18/08] que vai lançar atualizações em sua ferramenta de pesquisa nas próximas semanas, com o objetivo de facilitar o descobrimento de conteúdo de alta qualidade. Assim informa a reportagem do TechCrunch:

As novas melhorias de classificação buscam reduzir o conteúdo de baixa qualidade ou não original – que atualmente goza de uma classificação alta nos resultados de pesquisa. O Google diz que a atualização terá como alvo o conteúdo criado especificamente para melhorar a classificação nos mecanismos de pesquisa – conhecido como conteúdo “SEO-first”.

Os testes da empresa mostraram que a atualização vai melhorar os resultados que os usuários encontram ao pesquisar conteúdo, como materiais educacionais online, artes e entretenimento, compras e conteúdo relacionado à tecnologia [agradeço e coloco aqui um emoji de carinha agradavelmente surpresa].

As novas atualizações devem ajudar a reduzir o número de sites de baixa qualidade nos resultados, aqueles que aprenderam a manipular o sistema otimizando o conteúdo para ter uma classificação alta nos resultados de pesquisa. O Google diz que os usuários vão começar a ver o conteúdo realmente útil receber uma classificação mais proeminente nos resultados de pesquisa.

A empresa planeja refinar seus sistemas e desenvolver essas melhorias ao longo do tempo. “Com esta atualização, você verá mais resultados com informações exclusivas; assim é mais provável que você leia algo que nunca viu antes”, explicou a empresa em um post no seu blog.

Fica patente que a proximidade do TikTok no mercado de pesquisa está deixando os executivos do Google nervosos. Espero que isso então signifique que blogs como este, e de tantos outros bons que eu sigo, na plataforma WordPress e em outras, terão de novo um lugar ao Sol.

Obviamente deve ter ficado claro para o departamento financeiro que não haverá como vender links-lixo para os anunciantes se o público alvo se debandar pela falta de conteúdo original. De alguma forma os executivos da Alphabet entenderam que é necessário uma boa ancoragem de conteúdo nas páginas de resultados.

Um outro mundo, um outro tempo

Lembro-me daquele outro mundo, em que o AltaVista era a grande ferramenta de busca. Você conseguia exatamente o que pesquisava e sempre tinha que rolar por páginas e páginas de resultados, e refinar seus termos de pesquisa várias vezes, antes de encontrar o que queria – se é que conseguia encontrar.

É fácil criticar o Google hoje, mas se você vivesse naquela época, perceberia o quão bons são os resultados de pesquisa do Google. O algoritmo ‘Pagerank’, que é o núcleo de todo o serviço, é uma maravilha da engenharia de sistemas, e não há dissenso quanto a isso. Experimente um mecanismo de pesquisa alternativo concorrente hoje. Acesse bing.com, yahoo.com ou brave.com. Esses sites talvez vão fornecer algum resultado que você deseja – mas que você provavelmente não deseja tanto quanto eles pensam que você deseja.

As críticas ao Google, pelo menos as minhas, na verdade não são endereçadas à sua engenharia. Elas se referem a suas praticas intrusivas de coleção de dados; se referem ao domínio da privacidade, de como uma empresa brilhante se desviou ao longo do caminho.

Como era e como é

Não muitos anos atrás, era possível fazer duas coisas legais com o Google.

  • Você poderia inserir palavras-chave aproximadas e tentaria descobrir o que você realmente desejava entre todos os resultados retornados, ou
  • Você poderia colocar literalmente o que desejava encontrar, entre aspas, e isso forneceria exatamente o que você havia pedido.

Isso parece não funcionar mais. Um exemplo: ao tentar pesquisar um trecho de uma obra da literatura é comum ter a primeira página de resultados completamente tomada de ofertas comerciais para adquirir a obra, em variadas mídias, e não uma referência acadêmica – ou mesmo apenas literária – ao texto pesquisado.

Ou digite o número de uma peça, ou componente, ou chip, entre aspas, junto com a palavra ‘datasheet’ [folha de dados]. Será um milagre se você realmente conseguir um link para uma folha de dados. Você vai ter links para várias empresas não relacionadas, que tentam te vender coisas que não são relacionadas a qualquer palavra da sua consulta.

Isso não está nem no nível de “resultados ruins”. Isso só pode ser descrito como completo fracasso.


Mas nós sabemos que o fabuloso ‘Pagerank’ ainda está lá. Seria fantástico poder vê-lo funcionar de novo como em 2002. O Google certamente pode melhorar os resultados, se quiser, embora também seja fato que os caras de SEO vão sempre encontrar novas maneiras de colocar o lixo deles mais alto nas páginas de resultados.

Eu aplaudo o Google e desejo sorte a eles. O Google não tem um bom histórico em cumprir compromissos, e nem de agir em favor do usuário ou da sociedade. Sempre convém manter um olhar cético ao lidar com eles. Tomando tudo com uma pitada de sal, saúdo meus colegas bloguistas, na expectativa de bons tempos à frente. Ao sucesso!

Nota: Há muitos anos eu uso duckduckgo como ferramenta de pesquisa na web.


Post Scriptum

Eu me pergunto quanto mais os grandes meios de comunicação serão rebaixados em sua dignidade pelas ferramentas de pesquisa. Nos Estados Unidos já surgiu a expressão churnalism [de churn – agitar]. Definição da Wikipedia (inglês):

Churnalism é um termo pejorativo para uma forma de jornalismo em que press-releases, histórias fornecidas por agências de notícias e outras formas de material pré empacotado, em lugar de notícias reais buscadas no campo, são usadas para criar artigos em jornais e em outras mídias de notícias. É uma junção de “churn” e “jornalism”. Seu objetivo é reduzir custos diminuindo as despesas com coleta de notícias originais e com verificação de fontes.

O churnalismo praticamente se tornou a norma dos dias correntes. Acesse o site da UOL para ver por si mesma(o). O churnalismo é exatamente o motivo pelo qual temos problemas com as proverbiais ‘fake news’ em primeiro lugar.

Um Infográfico para Entender o Velho Dinheiro Inglês – Definitivamente

Recentemente trabalhei em uma pequena aplicação para conversão entre moedas, o que me levou ao desenvolvimento de algo aparentemente inédito – que compartilho hoje com meus leitores.

Imagem: Vox Leone – Clique para ver o infográfico: Português | Inglês

Ao iniciar o trabalho no que deveria ser um simples código de conversão aritmética para a libra inglesa pré-decimal, eu senti que precisava de um guia visual para tornar mais confortável a composição no computador; algo que eu pudesse olhar enquanto digitava. Vasculhei a Internet em busca de uma figura que fosse parecida com o que eu tinha em mente e não encontrei. Comecei a rascunhar um diagrama para poder manter o objeto do assunto em perspectiva.

Me dei conta então que eu tinha em mãos um material novo e diferente para desenvolver. Depois de alguns dias de trabalho no LibreOffice Draw eu tinha pronto o infográfico que compartilho nesta postagem – que pode ser visto aqui, para aqueles que não pretendem ler um texto tão longo (fique à vontade para compartilhar em seu grupo da OpenEnglish, please). Achei que poderia ser interessante e útil para anglófilos, estudantes, viajantes, cidadãos do mundo e curiosos em geral.

Foi possível condensar a informação, de forma que o resultado final pode se sustentar por si próprio (como um poster) e ser compartilhado em aplicativos de mensagem e outros meios orientados à imagem. Eu gostaria de tê-lo postado aqui sozinho em sua própria glória. Mas este blog foi concebido para ter um formato longo — e disso não abro mão. Portanto era imperativo ter um texto para acompanhar a imagem, o que fiz após uma laboriosa pesquisa. Aqui está, então, esse curioso texto que foi penosamente escrito com o único objetivo de servir de escada para uma bela imagem. Esta é a Web. Voilà!

Roma e os Francos

Escrever este post acabou sendo um mergulho no mundo do dinheiro medieval. Durante os meses em que trabalhei nele pude me deter na fascinante Libra Esterlina e seu convoluto sistema duodecimal, que sempre refletiu a intrincada relação entre os vários pesos e medidas que vigoravam nas centenas de feudos e reinos medievais. Pude ter uma visão clara de como a Libra inglesa, herdeira de Roma, assimilou em si valores tradicionais, não necessariamente moedas, que desde tempos ancestrais expressavam equivalência entre pesos de metais diversos.

Como sabemos, depois do colapso do império romano, durante o feudalismo, a Europa era um mundo caótico de minúsculos reinos, costumes, pesos, medidas, leis e moedas. Principalmente moedas. Havia o Albus, no norte da Alemanha, o Denário na França, o Dinar árabe na Ibéria islâmica, o Doblo na Ibéria cristã, e uma profusão de outras na Europa central e península Itálica (o Ducado, o Florim, o Genovino, o Grosso, etc., etc.)

O pai de Carlos Magno, Pepino III, o breve, rei dos Francos – que haviam herdado de Roma seus grandes domínios territoriais – iniciou a revisão desses sistemas monetários fechando as casas de moeda dos grandes magnatas e prelados do Império e estabelecendo os direitos de cunhagem como um privilégio exclusivamente real. No entanto, mesmo com as reformas, o sistema permaneceu confuso. Havia ainda muitas diferenças de valor mesmo entre moedas de mesma denominação – 22 xelins para a libra imperial, xelins extras da casa da moeda, xelins do Tesouro Imperial…

Esse primeiro esforço regulatório de Pepino III deu ímpeto a Carlos Magno para introduzir posteriormente uma reforma mais abrangente e duradoura, que trazia uma padronização muito mais ampla destinada a tornar o Império mais governável.

Ele definiu então o que conhecemos como libra carolíngia, inicialmente como uma nova unidade de peso (408 g), significativamente maior que a antiga libra romana de 328,9 g. Também introduziu uma nova moeda de prata chamada denário, dos quais 240 compunham 1 libra de prata pura. Um denário (também denar ou denier) continha 1,7 g de prata. Para facilitar os cálculos monetários, também foi introduzida uma unidade de conta, o solidus, de modo que 1 solidus = 12 denários. Assim começou o sistema monetário tripartido característico: L 1 = 20s = 240d.

Com o Império de Carlos Magno esse sistema estabeleceu supremacia por toda a Europa ocidental. Após a conquista normanda em 1066, o sistema foi introduzido também na Inglaterra, reproduzindo exatamente o padrão carolíngio do continente: Uma Libra dividida em 20 Xelins (Solidus) e 240 centavos/pennies (Denários).

Esse sistema foi abandonado em 1971 com a decimalização da Libra. Com a decimalização a libra é hoje parecida com quase todos os outros sistemas monetários do ocidente. Genericamente: 1 Unidade Monetária dividida por 100 subunidades agrupadas em certas quantidades de conveniência.

No infográfico abaixo um instantâneo do sistema carolíngio no Reino Unido pouco antes da decimalização, em 15 de Fevereiro de 1971 (decimal day):

Clique aqui para uma versão maior. Aqui a versão em inglês. – Arte: Vox Leone

A seguir uma descrição de cada denominação e alguns fatos a respeito de cada uma delas. Todas as imagens são cortesia de Wikimedia Commons.

Farthing

Farthing, 1913

A menor denominação do sistema da Libra esterlina. Esse vocábulo tem origem no Inglês antigo feorðing, “quarto de um centavo”. No inglês antigo tardio também referenciava uma unidade de divisão de terra; os condados eram costumeiramente subdivididos em quatro farthings (“quadras” ou “quartos”). A palavra cognata tanto do norueguês quanto do dinamarquês antigos significa “uma quarta parte de qualquer coisa.”

O primeiro farthing redondo (de prata) foi emitido em 1279 sob Edward I. Antes dessa data, para troco em espécie nas negociações um penny era dividido fisicamente em duas metades – ou ainda em quatro quartos. Isso era conhecido como halving ou fouring. O têrmo Farthing foi provavelmente derivado de fouring.

No linguajar popular é também sinônimo de algo de pouco valor. A palavra latina correspondente em traduções bíblicas é “quadrans” – quarto de denário.


Meio penny – Ha’penny [half penny]

Meio penny, 1967

O meio “centavo” moderno sobreviveu de 1672 a 1967, mas essa denominação pode ser encontrada na história inglesa já por volta do ano 890. O half penny era coloquialmente escrito como ha’penny e pronunciado HAY-pə-nee. Muitas expressões idiomáticas ainda fazem referência ao half penny, como “two ha’pennies for a penny” – ‘trocar seis por mea duzia’. Na gíria das ruas era uma referência à vulva.

O ‘half penny carolíngio’ foi retirado em 1971 na decimalização, e substituído pelo meio centavo novo decimal, com 1/2p valendo 1,2d.


Penny

Penny, 1963

O penny inglês, de origem carolíngia, é uma fração de 1/240 libra. Acho um tanto desconfortável me referir a ele como ‘centavo’ [centésima parte], segundo o costume da língua portuguesa. Neste texto eu procuro manter o vocábulo original inglês, por falta de um melhor.

O plural de “penny” é “pence” quando se refere a uma quantidade de dinheiro, e “pennies” quando se refere a várias moedas.

Os reinos da Inglaterra e da Escócia foram fundidos pelo Ato de União de 1707 para formar o Reino Unido da Grã-Bretanha. Assim, em 1707 a moeda escocesa deixou de ter curso legal, com a libra passando a ser usada em toda a Grã-Bretanha. O penny veio a substituir o xelim escocês.

O design e as especificações da moeda esterlina de um penny ficaram inalterados pela unificação, de modo que ela continuou a ser cunhada em prata depois de 1707.

Em tempos antigos o penny podia ser combinado em dois para formar o two pence (2d), e em quatro constituindo o groat (4d).


Três pence – Three pence

Três pence, 1942

A moeda de três pence (3d), entrou em circulação pela primeira vez em meados do século XVI, durante a era do rei Eduardo VI. Valia 1/80 de uma libra, ou ¼ de um xelim. A moeda permaneceu em circulação, em várias versões, até a entrada em vigor da libra decimal.

O três pence sofreu muitas mudanças ao longo dos séculos. Enquanto algumas épocas os tiveram emitidos para circulação geral, outros períodos usaram o três pence como dinheiro cerimonial [ver maundy money]. Como moeda, a denominação chegou a ser cunhada em níquel-latão, pesando 6,8 g e medindo 21 mm, e em prata, como uma moeda de 1,5 g, com um diâmetro de 16,2 mm.


Seis pence – Sixpence

Seis pence, 1962

Os primeiros seis pence foram cunhados em 1551, também sob Eduardo VI. Eles surgiram como resultado da degradação da moeda de prata na década de 1540, em particular o testoon de prata, que caiu em valor de 12d para 6d. O testoon mesmo degradado ainda era útil em transações cotidianas, e assim foi decidido que ele devia ser transformado em uma nova moeda com a denominação de “seis pence”.

O testoon se desvalorizou porque na época, ao contrário de hoje, o valor das moedas era determinado pelo valor de mercado do metal que continham. Durante o reinado de Henrique VIII, a pureza da prata na cunhagem havia caído significativamente.

Os seis pence foram emitidos durante o reinado de todos os monarcas britânicos após Eduardo VI, bem como durante a Commonwealth, com um grande número de variações e alterações ao longo dos anos.

(*) Em 2016, a Casa da Moeda Real começou a cunhar moedas decimais de seis pence em prata, destinadas a serem compradas como presentes de Natal. Essas moedas são mais pesadas que os seis pence anteriores a 1970 (3,35 gramas em vez de 2,83 gramas) e têm a denominação de seis pence novos (6p) em vez de seis pence antigos (6d).


Xelim – Shilling

Xelim, 1963

Uma moeda fiduciária por direito próprio. Foi usado como dinheiro soberano por muitos reinos europeus [ver wiki]. O xelim inglês teve origem, como o seis pence, no já mencionado ‘testoon’, que foi emitido em 1504 sob o reinado de Henrique VII. Um testoon valia 12 pence e era feito de prata. O testoon continuou durante o reinado de Henrique VIII. O testoon de 12 pence foi finamente renomeado como xelim durante o reinado de Eduardo VI.

Depois disso, o xelim circulou sob todos os monarcas reinantes, exceto Eduardo VIII. É interessante notar que o primeiro xelim da era do Reino Unido foi cunhado em 1816, mais de um século após o Ato da União.

O xelim era uma moeda de prata popular. No entanto, foi regularmente degradado pelo vandalismo e perdeu valor ao longo dos anos. O valor do xelim voltou a aumentar quando Elizabeth I retirou de circulação todas as moedas degradadas e as substituiu com moedas recém-cunhadas.

Os xelins circularam amplamente por muitos séculos. Para estimar o poder de compra do xelim, é preciso especificar o período de tempo em que a moeda foi usada.

  • década de 1940

Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, um xelim poderia comprar itens domésticos comuns, como um pão ou uma barra de sabão. À medida que a economia sofria com a guerra, o custo dos bens básicos aumentava. Isso significava que, entre 1939 e o fim da guerra, o preço do leite havia subido de 3 para 9 pennies (quase um xelim) por litro.

  • década de 1960

Na década de 1960, ainda se podia comprar um pão com um xelim; ou um corte de cabelo; ou abastecer seu carro com pouco menos de 1 litro de gasolina – que na época era vendida em galões.

  • década de 1970

Na década de 70, um xelim podia pagar um telefonema de 3 minutos, um litro de leite entregue em sua casa pelo leiteiro – este com preço congelado pelo então socialismo inglês junto com outros itens essenciais, como pão ou jornais.


Florim – Florin

Florim, 1967

O ‘fiorino d’oro’ da República de Florença foi a primeira moeda de ouro europeia desde o século VII a ser cunhada em quantidade suficiente para desempenhar um papel comercial significativo.

O termo florim foi usado como empréstimo em outros lugares da Europa. Assim, houve um florim inglês emitido pela primeira vez em 1344 por Eduardo III. Era cunhado a partir de 108 grãos (6,99829 gramas) de ouro puro (‘fino’) e tinha o valor de seis xelins (equivalente a 30 pence pré-decimais). Conhecido como o “double leopard” (leopardo duplo), foi uma tentativa de Eduardo III de produzir moedas de ouro que pudessem ser usadas tanto na Europa continental quanto na Inglaterra.

Contemporaneamente, o florim britânico de dois xelins (2s) foi um experimento precoce no sentido da decimalização da moeda, com seu valor de 1/10 de uma libra, ou 24 pence. Foi emitido de 1849 a 1967, com uma emissão final para colecionadores em 1970. Foi a última moeda a ser desmonetizada antes da decimalização.


Meia coroa – Half crown

Meia coroa, 1967

A meia coroa foi emitida pela primeira vez em 1549 durante o reinado de Eduardo VI. Eduardo VI foi rapidamente sucedido pela rainha Maria, mas nenhuma meia coroa foi produzida durante o reinado de Maria, entre 1553 e 1558. Elizabeth I assumiu o trono entre 1558 e 1603. Durante seu reinado e todos os reinados posteriores até 1970 – excluindo apenas Edward VIII – as meias coroas foram emitidas. Apenas em 1970 a meia coroa foi abolida, um ano antes da decimalização.


Nota de Dez Xelins – Ten Bob Note

Nota de dez shillings

A cédula de emergência.

Em agosto de 1914, a economia britânica estava em crise devido à instabilidade causada pela “neblina da guerra” no continente. Banqueiros e políticos procuravam desesperadamente maneiras de proteger as finanças da Grã-Bretanha e impedir que os bancos entrassem em colapso.

O Governo decidiu que deveria ser disponibilizada uma grande oferta de notas no valor de 10 xelins, facilitando ao público a realização de pequenas transações.

No entanto, o Banco da Inglaterra não foi capaz de preparar e imprimir o número necessário de notas com rapidez suficiente. O governo então tomou a medida sem precedentes de emitir as notas por conta própria.

Essas notas ficaram conhecidas como Notas do Tesouro e eram diferentes de tudo que o público britânico já tinha visto. Até este ponto, a nota de menor denominação era a de £ 5 – que naqueles dias era uma quantia tão grande que muitas pessoas nunca teriam visto ou usado a nota.

Ao emitir uma nota de 10 xelins, o Tesouro criou as primeiras notas de grande circulação na Inglaterra. A nota de 10 xelins – que equivalia a meia Libra – foi a menor denominação de nota já usada no Reino Unido e acabou sendo substituída modernamente pela moeda de 50 pence, que foi introduzida já em 1969, dois anos antes do decimal day.


Libra – Pound

Libra, ca. 1960

Discorrer sobre a Libra neste ponto não faria sentido. Nada posso dizer que já não tenha sido dito, e obviamente não tenho nada original para dizer. Para aqueles que pretendem se aventurar no assunto eu digo que a pequena pesquisa que empreendi para este trabalho me mostrou que há muitas nuances, interpretações e fontes – muito poucas na língua portuguesa. Deixo um humilde link como sugestão de por onde começar.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Libra_esterlina

Posso dizer, no entanto, que a libra é [ou era] conhecida na gíria como Quid. Acredita-se que o termo tenha origem na expressão latina “quid pro quod”, que designa uma troca [“isto por aquilo”] — o que é perfeitamente adequado em se tratando de uma moeda. Foi chamada também de Soberano. Algumas denominações fracionárias da libra citadas neste trabalho já não existiam em 1971.


Guinéu – Guinea

Um guinéu de 1797, anverso e reverso

O Guinéu foi introduzido pelo rei Carlos II em 1663, logo após a Restauração. Foi cunhado em ouro de 22 quilates importado pela primeira vez da Guiné na África Ocidental, daí o nome. Originalmente, a moeda da Guiné foi definida como valendo exatamente uma libra, ou 20 xelins. No entanto, o preço de mercado do ouro aumentou e, na década de 1680, as pessoas exigiam 22 xelins por guiné em vez dos 20 oficiais. Em 1700, o preço havia subido ainda mais, para 30 xelins, de modo que um guinéu valia efetivamente uma libra e meia – este é o problema de basear o valor de uma moeda em uma mercadoria negociável como o ouro: seu valor flutua com a oferta e a demanda.

Durante o início do século 18, o preço do ouro voltou a cair para os níveis de 1680. Em 1717, o rei George I fixou a taxa de câmbio entre moedas de ouro e prata por decreto, com valor de mercado de 21 xelins por guinéu.

Em outras palavras, depois de 1717 existiu uma moeda que valia uma libra mais um xelim (21 xelins, ou 252 pennies), mas nenhuma moeda valia exatamente uma libra. O soberano não estava em circulação no século XVIII: foi introduzido em 1817.

Como um guinéu valia 5% a mais do que uma libra, tornou-se um símbolo de status precificar itens de luxo, como roupas e joias, em guinéus, em vez de libras. Um oficial naval de classe média comprava seu uniforme por cinco libras; o alfaiate ao lado atendendo a um oficial mais aristocrático poderia vender o mesmo uniforme por cinco guinéus, porque seus clientes eram ricos o suficiente para ignorar a margem de 5% e gostavam de ostentar isso. Da mesma forma, um carpinteiro poderia cotar seus preços em libras, mas um advogado cotaria seus honorários em guinéus.

Referências

Les réformes monétaires carolingiennes

https://www.persee.fr/doc/ahess_0395-2649_1952_num_7_1_2021

https://www.etymonline.com/

https://coinsite.com/

https://wblog.wiki/

https://thecoinexpert.co.uk/

https://blog.westminstercollection.com/

Uma Preocupação Minha

Embora muitos governos, incluindo os países ricos, tenham reduzido ou parado de coletar e relatar dados sobre o surto global de SARS-CoV-2, o vírus segue feliz em sua história evolutiva.

Imagem: Pexels

As últimas edições são as variantes BA.2, BA.2.12.1, BA4, BA5, e mais uma montanha de X-alguma-coisa (onde X significa ‘recombinante’), todas com taxas de transmissão muito altas, algumas ao redor de 1:25.

Um estudo pré impresso publicado no site Biorxiv, com o título “Anticorpos de Escape BA.2.12.1, BA.4 e BA.5 Induzidos Pela Infecção por Ômicron” [link, em inglês], contém muitos pontos de dados interessantes e preocupantes. É um artigo científico comprido, com 46 páginas e muitos detalhes.

Eu me dei ao trabalho de ler, para que você não precise. O sumário executivo é este:

As novas mutações escapam facilmente aos anticorpos produzidos em infecções anteriores, como também escapam aos anticorpos produzidos pelas vacinas. Isso significa: os anticorpos que você adquire ao se recuperar de um surto de COVID-19 ou de uma injeção de reforço da vacina agora não funcionarão tão bem.

Esta é uma das várias razões pelas quais a China está lutando muito para conter seus surtos de BA2. Entre os problemas, estão a) a baixa taxa de vacinação do segmento mais velho da população [levando a um aumento do excesso de mortes nessa faixa etária] e b) os próprios mecanismos de escape imunológico dessas mutações rápidas do vírus, que causam doenças em massa e com alta taxa de transmissão (1:25). Esses fatores movem-se rapidamente por grandes setores da população.

Além disso, a fase de recuperação da doença não está produzindo uma proteção confiável de anticorpos nas pessoas como se esperava. Esse pressuposto é uma das bases da políticas de “imunidade de rebanho” e das estratégias de convivência com o vírus.

A China já deve estar ciente de alguns desses problemas, pois eles têm encomendado enormes hospitais do tipo “ala Nightingale” [link em inglês, infelizmente] com mais de 400 leitos cada, cuja construção, sob demanda, não leva mais de quatro dias.

Era già tutto previsto

Eu e algumas pessoas de meu círculo – gente que faz estatística profissionalmente – previmos que isso poderia muito bem acontecer. Também previmos que a Big Phama cruzaria os braços, a menos que recebesse mais alguns bilhões de financiamentos de emergência para novas vacinas. Idem com relação à incompetência e/ou má fé de governos, etc.

E assim aconteceu. Temos uma série de cepas muito virulentas que se espalham pelas populações mais rápido que o sarampo, mas até agora não eram tão patogênicas para as pessoas já infectadas ou vacinadas anteriormente.

As probabilidades são de que o próximo inverno no hemisfério norte seja o início de outra pandemia que poderia ser facilmente evitada, e as chances são de maior patogenicidade. Teremos sorte se, de fato, ela não começar aumentar aqui no hemisfério sul em algum momento dos próximos dois meses, em função do inverno.

As marcas da Covid na história serão:

  • Medidas pequenas e tardias
  • Falência de pequenas nações.
  • Mortes aos milhões
  • Incapacitação a longo prazo.
  • Novas doenças
  • Encurtamento da expectativa de vida

Mas também,

  • Abdicação às responsabilidades
  • Populações entregues à exploração rentista
  • Governos cortando pensões e outros benefícios.
  • Nenhuma alteração nas políticas que possibilitaram a pandemia.

Tudo isso levará, quase tão certamente quanto a noite segue o dia, a outra nova pandemia neste século. Espero estar errado.

* * *

Nova postagem no meio da próxima semana. Não poderei ler as postagens dos membros do blog e dos colegas da blogosfera até o dia 17. Saudações a todos e a todas.

Notas Sobre o Twitter e a Liberdade de Expressão

Eu não estava interessado no Twitter antes e não estou agora, mas o comentário gerado pela recente mudança na administração do site é muito interessante, e estarei a acompanhar os desenvolvimentos bem de perto.

Imagem: Pexels

Em primeiro lugar, porque é realmente muito engraçado assistir de fora. Cenário: o Twitter, de longe a mais tóxica de todas as plataformas, está sendo vendido para um empreendedor rebelde e imprevisível e os usuários estão surtando porque têm medo de o “Twitter se tornar tóxico”. Não é uma maravilhosa ironia?

Escusado será dizer que as plataformas sociais não podem ser absolutamente livres para todos: a liberdade de expressão sempre esteve sujeita a limites e Elon Musk não parece questionar isso de forma alguma.

Ele apenas entende que as vozes daqueles que foram considerados “deploráveis”, ou “tóxicos”, ou “inaceitáveis” pela elite atual – ainda que o que eles digam esteja dentro dos limites da lei – também têm o direito de serem ouvidas.

Liberdade de expressão

Em minha filosofia pessoal, o direito de falar/escrever/expressar uma opinião, desde que esteja dentro dos limites da lei, supera o direito de qualquer progressista a um ”espaço virtual seguro”. A liberdade de expressão é muito mais importante do que Harry e Meghan se sentirem ameaçados em sua fachada pública. É deveras preocupante que isso tenha se tornado um assunto controverso.

Uma democracia saudável precisa de um debate indisciplinado e o tipo de restrição à expressão pessoal [não se trata de censura pelo fato de não envolver o estado ou o espaço público real] que parece estar acontecendo no Twitter [expulsar Donald enquanto o Talibã pode manter sua conta] está nos afastando disso. O equilíbrio precisa ser restabelecido de alguma forma.

O problema é que a grande massa historicamente excluída agora dispõe de meios poderosos de auto expressão e comunicação. Todos têm agora algo análogo a uma bomba atômica em uma maleta. Para ser totalmente franco, eu mesmo cheguei a flertar com fantasias Butlerianas. Até recentemente eu acreditava que a democratização da computação e seu poder de amplificação da experiência humana tinha sido um erro, que acabou por gerar uma ameaça existencial para a espécie. A solução, portanto, seria o confisco dessa capacidade e a limitação do poder de computação acessível ao usuário comum.

É fácil ver que a “solução” acarretaria problemas ainda maiores, o que faz as palavras de meu estimado correspondente Clive Robinson se destacarem como um verdadeiro axioma: “problemas sociais não podem ser resolvidos pela tecnologia”. Será preciso firmeza institucional e muita educação pública para que seja possível superar este momento delicado da trajetória humana.

Nota lateral: minha própria orientação política mudou nos últimos anos, de centro-esquerda para centro-direita. Vários são os fatores que causaram isso, mas comentários como os de Hillary Clinton sobre os “deploráveis” [sou hétero] não ajudaram a aumentar minha simpatia. Aquilo cristalizou a hipocrisia absoluta do lado em que eu pensava estar – alegando ser tolerante mas ainda abusando e desrespeitando pessoas que pensam diferente. O Twitter de hoje é simplesmente uma manifestação online da atitude mental a partir da qual comentários como aquele floresceram.

Aspectos pouco discutidos

Uma parte desta aquisição industrial que parece ser ignorada em favor das implicações da guerra cultural são os aspectos financeiros. O Twitter é um negócio viável? Será capaz de gerar um lucro substancial para Musk? Não faço ideia.

A outra parte da história que não foi considerada [pelo menos não que eu tenha visto] é a reação dos funcionários progressistas do Twitter. Li em algum lugar que alguns deles chegaram a chorar quando a notícia da aquisição foi divulgada (sim, eu ri). Mas como eles vão se comportar quando Musk estiver totalmente no controle? Eles vão se demitir em massa? Ou eles vão permanecer na empresa e assim minar sua própria agenda? Elon vai reequipar toda a organização com pessoas de outra matriz ideológica?

Me parece que quando Elon Musk insiste na questão da ‘liberdade de expressão’ o que ele quer dizer realmente é que “o Twitter favoreceu demais a Elite progressista, e eu não vou mais fazer isso”. É possível argumentar que a chamada Elite progressista é servida por verdadeiras ‘guildas’ para impor sua posição de dominância – as guildas, neste caso, sendo instituições como a CNN, a Rede Globo, e as Mídias Sociais, além dos sumos sacerdotes da intelligensia. A compra do Twitter por alguém aparentemente “fora da Elite” tem, portanto, uma desconfortável sensação de deslocamento.

De fato, a atmosfera pública exala, em pleno 2022, uma alarmante fragrância de fin-de-siècle oitocentista.

Da Wikipedia sobre o fin-de-siècle: O principal tema político da época era a revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia liberal. A geração do fin-de-siècle apoiou o emocionalismo, o irracionalismo, o subjetivismo e o vitalismo, enquanto a mentalidade da época via a civilização como estando em uma crise que exigia uma solução massiva e total.

Liberalismo versus coletivismo

Além disso, a própria ideia contemporânea [notadamente nos EUA] de que os marxistas são “liberais” – uma filosofia fantástica que tem sido construída pelas melhores mentes acadêmicas do Ocidente por décadas – é uma falácia. No século passado os marxistas foram perseguidos, cancelados, odiados por causa das coisas horríveis que os marxistas de todo o mundo faziam.

Tanto para revidar quanto para formular um rótulo aceitável para se adaptar ao sistema político [ou mesmo para se esconder], eles inventaram uma “nova filosofia”, na verdade apenas uma regurgitação do marxismo, e a chamaram de “liberalismo progressista” como se fosse simplesmente um novo ramo do estimado liberalismo clássico.

É claro que não era nada disso – e qualquer um que se desse ao trabalho de examinar perceberia rapidamente que era a total antítese do liberalismo. Era coletivismo versus individualismo; governo grande versus governo pequeno; resultados iguais versus oportunidades iguais. E o mais importante de tudo, propagou-se um certo “imperativo moral” de violar os direitos de certas pessoas em nome de um objetivo indefinível de “justiça social” [já ouvimos isso antes?].

Infelizmente, o estratagema funcionou. A rede de professores marxistas em universidades de todos os países começou a alardear o “liberalismo progressista” como o novo eufemismo para o marxismo. Para os de fora, soava como liberalismo. Mas, as coisas sempre desandam quando, por ideologia, a palavra ‘justiça’ aparece na frente da palavra ‘social’. O resultado é sempre a negação do que se pretende: “NÃO Liberalismo” [iliberalismo] e “injustiça”.

Todos os totalitários precisam, para atingir seus objetivos, mentir perpetuamente. Do contrário seria obviamente impossível concordar com os objetivos que eles realmente querem atingir. Até cerca de 2010, havia um equilíbrio entre as pessoas que amavam a liberdade versus aqueles que queriam um governo draconiano em seu alcance social, com as diferenças geralmente sendo nuanças. Hoje, a divisão é quase perfeita – com amantes da liberdade e os progressistas cripto-totalitários em lados claramente opostos.

Vale a pena notar que Milton Friedman e F. A. Hayek, ambos odiados pelos “liberais progressistas” de hoje, que os consideram cães raivosos da direita, se recusaram a desistir do termo “liberal” em favor do termo “conservador”, referindo-se a si mesmos como “liberais clássicos”. F. A. Hayek chegou a escrever um artigo chamado “Por Que Não Sou Conservador” em um esforço para reabilitar o termo, apontando que a raiz etimológica da palavra liberal é liberdade.

A Visão do Computador, Nós e os Presidenciáveis

Neste post vou abordar um assunto com o qual os leitores podem facilmente se identificar, pois o que vamos discutir está firmemente arraigado em nossa vida diária. Faça um esforço para ler até o fim. Você pode se surpreender e até gostar.

Arte: Vox Leone

Como já informei, aqui em nosso lab temos usado o incrível Jupyter Notebook, nas tarefas rotineiras de análise de dados, e também em pesquisas relacionadas à visão de computador e processamento de linguagem natural. Isso nos permite colaborar (trabalhar em rede), consolidar dados que serão usados em outras fases do trabalho e gerar as mais diversas visualizações, que são necessárias nas relações com clientes e o público geral.

Nas últimas semanas estive absorvido na tarefa de desenvolver nossa própria aplicação de reconhecimento facial, usando tecnologias populares na área, como Tensorflow, Computer Vision 2, Matplotlib e Pandas. Tudo orquestrado pela excelente biblioteca DeepFace, que disponibiliza oito modelos pré-treinados.

Os resultados que tivemos foram impressionantes. Animado com os experimentos, preparei este Notebook para demonstrar aos leitores como somos vistos pelos olhos digitais que pululam ao nosso redor (sempre em detrimento de nossa privacidade) e quais as tecnologias empregadas.

Os aeroportos resumem a experiência. Todos sabem que ao entrar nesse tipo de ambiente nós somos enquadrados de todos os ângulos imagináveis, por sensores cada vez mais sofisticados, entre os quais se destacam os onipresentes sensores óticos. Já discutimos neste blog – e vamos continuar – algumas questões éticas e legais a respeito do assunto, mas hoje quero demonstrar sucintamente como a análise facial é feita materialmente e quais as informações que os sistemas de vigilância podem obter bastando apenas voltar seu olhar em nossa direção.

A Tecnologia

Vou ter que usar um pouco de código, e algum jargão, mas você pode pular até o resultado da análise da imagem e discussão, mais abaixo.

Seguindo a tendência de grande parte da indústria, nossa aplicação – escrita em Python – é desenvolvida e executada dentro de um ambiente virtual Conda. O núcleo do ambiente é a versátil biblioteca DeepFace, desenvolvida pela Alphabet (Google), aqui instalada através do repositório pip. (*)ressalto que não é recomendado misturar os canais dos repositórios Conda e pip em um mesmo ambiente, mas neste experimento se torna necessário usar pip pelo fato de DeepFace ainda não estar disponível no repositório Conda.

Depois de ter instalado a DeepFace e suas dependências no ambiente virtual, iniciamos o script importando a DeepFace e outras bibliotecas das quais ela depende, como TensorFlow, CV2 e Matplotilb. TensorFlow é o motor da aplicação. CV2 é responsável pela visão de computador, neste caso digitalizando apropriadamente as imagens. Matplotlib é a responsável pela renderização das imagens (plotagem). Vou comentar o código com as explicações.

Análise dos resultados

Et voilà! Depois de alguns segundos temos o resultado da análise. O algoritmo, mesmo nesta configuração básica, é sensível o bastante para detectar sete variações emocionais, além da idade aparente e do gênero. Ele também é capaz de diferenciar seis etnicidades, um tanto arbitrárias, devo dizer, espelhando a classificação dos países anglo-saxões.

Eu anoto neste ponto que usamos a biblioteca DeepFace em sua configuração original, assim como o modelo de aprendizado de máquina pré-treinado em bancos de imagens com milhões de amostras. Não tivemos ainda tempo hábil para introduzir grandes modificações no código e treinar nossos próprios modelos, o que já está sendo feito – e será mostrado oportunamente.

Esta é a análise que os sistemas fazem sobre mim [sobre nós] no momento em que saio do táxi na porta do aeroporto.

É uma análise aparentemente trivial de uma imagem trivial. Contexto real da foto: acabei de chegar a uma chácara para uma festa de aniversário – alguns anos atrás.

A Análise

O algoritmo me interpreta como um homem branco de aparentes 37 anos – sendo agradavelmente generoso na avaliação etária. É interessante que ele me atribui uma certa negritude, como alternativa, muito mais do que seria esperado de minha ascendência mediterrânea, que fica relegada a um baixíssimo patamar de probabilidade. Minha expressão é calma, que o algoritmo traduz como neutra. Como indicam os números na tabela em inglês, posso estar também um pouco triste, e com um certo nojinho.

Contudo, o resultado me atribui uma significativa aparência de medo, como o segundo resultado mais provável. Por que eu estaria com medo nesta foto? Acabei de chegar a uma festa e a tarde de sábado parece promissora – no aeroporto isso acenderia uma luz amarela no centro de comando da segurança. Interrompo o teste e começo a tentar entender esse resultado aparentemente divergente.

Depois de algumas horas eu tive um insight que realmente me encantou. Eu entendi que, de fato, o algoritmo havia conseguido ver através da minha máscara social. Ele captou uma verdade íntima e bastante sutil: eu realmente sou ansioso em situações sociais, e sempre demoro um pouco a me adaptar aos ambientes – valentemente, com um sorriso no rosto. Mas a ansiedade – uma forma de medo – deve sulcar nossa face de uma maneira óbvia a sistemas de precisão, que conhecem dezenas de milhões de rostos que respondem sempre da mesma maneira; da mesma maneira humana demais. Minúsculos espasmos musculares, resultantes de nossas emoções, não importa quão sutis, deixam sua marca em nossa face, e em imagens de alta resolução nos desnudam de qualquer abrigo.

Ver o sistema em ação elevou em vários graus minha confiança na tecnologia [além de uma óbiva inquietação]. Depois de muitas rodadas do sistema, com imagens diferentes, eu tenho razões para crer que esse tipo de algoritmo é consistente na detecção de sinais e marcadores de emoções bastante sutis.

Revelando emoções ocultas

Existe uma atividade humana em que ser capaz de detectar as emoções alheias seria de muita utilidade: a política, por exemplo. Seria do maior interesse público tentar sondar os reais sentimentos daqueles que se apresentam para gerir a coisa pública. Nessa atividade em que a manipulação das emoções é tão corriqueira, seria interessante tentar ver através das máscaras.

Acontece que em abril de 2022 nós temos essas fantásticas ferramentas e estamos aprendendo a dominá-las. Vamos tentar, então, fazer a mesma análise que fiz acima, de mim mesmo, em imagens casuais dos principais políticos que se apresentam para a disputa presidencial deste ano. Vamos usar fotos tiradas da internet e submetê-las ao mesmo algoritmo.

Com certeza os candidatos não vão se importar, pois todos eles, com palavras ou atos, já se manifestaram apoiadores da vigilância eletrônica na vida do cidadão. É uma ironia deliciosa poder usar contra os representantes do sistema a mesma tecnologia que o sistema usa para nos oprimir delicadamente. Vai ser, no mínimo, divertido.

Nota: as imagens abaixo foram buscadas no site da Wikimedia Commons. Foram escolhidas por serem adequadas a este projeto. São apresentadas na ordem alfabética dos sobrenomes dos retratados.

Este Notebook é melhor visualizado em um desktop.

Bolsonaro, Jair

O perfil de Bolsonaro revela uma grande carga de emotividade. Uma mistura de raiva, medo e tristeza, indicando um rosto que quer esconder o que sente. O modelo também é generoso na atribuição da idade, desvio que foi notado em todas as imagens analisadas [creio que sei a razão para isso, que comento na conclusão do artigo].

Dória, João

Vamos concordar que a imagem não precisa de análise por AI. Embora o modelo opte pela etnicidade Latina, na verdade ele se mostra indeciso. Isso implica em um certo viés colorista. Comento na conclusão.

Gomes, Ciro

Uma expressão neutra com um forte sinal – isolado – de tristeza. Minha avaliação humana concorda.

Lula da Silva, Luiz Inácio

Tristeza generalizada, com um sinal de nojo/desconforto [talvez pela situação]. A idade também é grandemente descontada.

Moro, Sérgio

A raiva e a tristeza predominam. O desvio etário se mostra menor. Um autêntico Latino Hispânico.

Tebet, Simone

Embora não esteja exibindo um sorriso exuberante [como Dória], o modelo atribuiu à imagem um sinal de alegria muito sólido. Não há emoções conflitantes, indicando sinceridade e abertura. A discrepância etária também é menor aqui. Surpreendentemente o modelo não atribui um peso muito forte à herança árabe da senadora.

Conclusão e notas

Como eu disse anteriormente, o modelo Facenet, um dos oito implementados na biblioteca DeepFace, se comporta de forma muito satisfatória. É preciso lembrar que o modelo reflete a amostra com a qual foi treinado. A medida que mais iterações do processo de treinamento venham a incorporar mais e mais segmentos populacionais, a precisão deverá aumentar.

Deixo uma crítica à classificação étnica empregada pelo modelo. Ela reflete a abordagem do censo americano, mas claramente não é mais adequada. Uma revisão se impõe. Os desvios notados com relação à idade das pessoas analisadas, se devem, provavelmente, à baixa resolução das imagens, que nivela os valores dos pixels dando margem a um enganoso efeito de filtro. A discrepância parece ser diretamente proporcional à idade do analisado [quanto mais idoso, maior a discrepância]. Esse desvio é responsável também pelo ‘colorismo’ do software, que dá grande peso à palidez aparente da imagem na classificação étnica.

Vamos continuar experimentando e trabalhando para tornar o modelo mais fiel às nossas características.

Referências

Jupyter Notebook – https://jupyter.org/

Anaconda – https://anaconda.org/

DeepFace – https://github.com/serengil/deepface

TensorFlow – https://www.tensorflow.org/