Blockchain e o Voto

De vez em quando sou questionado sobre ideias envolvendo sistemas de votação eletrônicos, remotos e blockchains. Este post fala sobre as propriedades mínimas de segurança que um sistema de votação precisa ter, e sobre onde as blockchains ajudam e onde não ajudam. Usamos como exemplo o sistema criptografado de votação STAR-vote. Pode ser um pouco árido para os usuários não técnicos, mas também pode ser interessante para quem gosta de se envolver mais profundamente no tema.

Uma interface digital abstrata, mostrando pastas com chave pública e dados de hash escritos em código.

A comunidade de computação concorda que sistemas votação rodando em máquinas de votar modernas têm ao seu dispor processadores muito rápidos e uma quantidade enorme de armazenamento. Esse hardware moderno torna menos árdua a tarefa de implementar redes que exigem computação de alta-performance, como a Blockchain. Vamos então usar esse dado estrutural para um experimento mental:

Usando o work-flow da Blockchain, vamos colocar as máquinas de votação em rede, dentro da Blockchain. Assim, voilà, temos uma estrutura descentralizada, com uma cópia de cada voto em cada máquina de votação; podemos até usar o emaranhamento da linha do tempo, para que o histórico de cada máquina seja protegido por hashes armazenados em todas as outras máquinas. O problema da votação eletrônica está resolvido.

Em um sistema eleitoral implementado na Blockchain, todas as máquinas do sistema possuem todos os registros de votos, tornando impossível a fraude. É o mesmo esquema que legitima transações financeiras. Neste caso, a transação é o voto.

Mas qual é o ponto forte de uma blockchain? No aspecto mais fundamental, trata-se de ter um registro histórico inviolável sobre eventos. No contexto de um sistema de votação, significa que uma blockchain é um lugar perfeito para armazenar cédulas e proteger sua integridade. O STAR-Vote e muitos outros sistemas de votação criptografados “ponta a ponta” adota o conceito de “quadro público de avisos” para onde os votos criptografados são enviados para armazenagem até a contagem. Blockchain é a maneira óbvia de implementar o quadro público de avisos.

Cada eleitor do STAR-Vote sai do local de votação com um “recibo” que é apenas o hash de sua cédula criptografada, que por sua vez tem o hash da cédula do eleitor anterior. Em outras palavras, todos os eleitores do STAR-Vote deixam o local de votação com um ponteiro para a blockchain que pode ser verificado de forma independente.

Acontece que mesmo os sistemas de votação baseados em blockchain precisam de muitas propriedades de segurança adicionais antes que possam ser efetivamente confiáveis. Aqui está uma lista simplificada, empregando algum vocabulário típico desta área de estudos para referenciar essas propriedades.

Propriedade “Votado como pretendido”.

Um eleitor está olhando para uma tela de algum tipo e escolhe em um botão: “Alice para presidente”. A máquina de votação prontamente indica isso com um pop-up, ou algum texto destacado, ou sons. Contudo, é totalmente possível que algum malware dentro da máquina possa registrar silenciosamente o voto como “Bernie para presidente”. Portanto, qualquer sistema de votação precisa de um mecanismo para derrotar malware que ameace comprometer a integridade da votação.

Nota: Uma abordagem interessante aqui [e já consagrada pelo costume americano] é ter cédulas de papel impressas (e/ou cédulas de papel marcadas à mão) que podem ser comparadas estatisticamente às cédulas eletrônicas. Outra abordagem é ter um processo pelo qual a máquina pode ser “desafiada” a provar que criptografou corretamente a cédula.

Propriedade “Votado em privacidade”.

É importante que não seja possível identificar um eleitor em particular pela forma como ele votou. A votação moderna deve garantir que os votos sejam secretos, com várias medidas tomadas para tornar difícil ou impossível para os eleitores violarem esse sigilo.

Quando se deseja manter a propriedade de privacidade eleitoral nas máquinas da votação, significa que deve-se evitar que a máquina retenha o estado interno (ou seja, mantenha em seus circuitos uma lista dos votos em texto aberto, na ordem de votação) e também deve garantir que o texto cifrado dos votos, publicado na blockchain, não está vazando silenciosamente, por meio de canais subliminares, informações sobre o texto aberto que o gerou.

Propriedade “Contado como votado”.

Se temos eleitores levando para casa um recibo de algum tipo que identifica seu voto de texto cifrado na blockchain, então eles também podem querer ter algum tipo de prova criptográfica de que a contagem final do voto inclui seu voto específico. Isso acaba sendo uma aplicação direta de primitivos criptográficas homomórficos.

Se olharmos para essas três propriedades, é possível notar que a blockchain não ajuda muito com as duas primeiras, embora seja muito útil para a terceira.

Atingir a propriedade “votado como pretendido” requer uma variedade de mecanismos que vão de cédulas de papel a desafios pontuais para máquinas. A blockchain protege a integridade do voto registrado, mas nada tem a dizer sobre sua fidelidade à intenção do eleitor.

Para alcançar uma propriedade “votado em privacidade”, é necessário bloquear o software na plataforma de votação e, nesse caso, bloquear a máquina de votar. E como essa propriedade de bloqueio pode ser verificada? Precisamos de garantias fortes que possam ser verificadas de forma independente. Também precisamos garantir que o usuário não possa ser enganado e levado a executar um aplicativo de votação falso. Podemos conseguir isso no contexto das urnas eletrônicas comuns, que são utilizadas exclusivamente para fins de votação. Podemos implantar centralmente uma infraestrutura de chave criptográfica e colocar controles físicos sobre o movimento das máquinas.

Mas, se estendermos este experimento mental para incluir o voto pela Internet, um desejo comumente expresso pelo público de alguns países [que talvez aconteça], veremos que não temos infraestrutura hoje para fazer isso usando telefones celulares e computadores pessoais – e provavelmente não a teremos nos próximos anos. O voto remoto [em casa, no escritório, na rua] também torna excepcionalmente fácil para um cônjuge, um chefe ou um vizinho vigiar por cima do seu ombro e “ajudá-lo” a votar da maneira que eles querem que você vote.

As blockchains acabam sendo incrivelmente úteis para verificar a propriedade “contado como votado”, porque obriga todas as máquinas do sistema a concordar com o conjunto exato de cédulas que está sendo tabulado. Se um funcionário eleitoral precisar desqualificar uma cédula por qualquer motivo, esse fato precisa ser público e todos precisam saber que uma cédula específica, ali na blockchain, precisa ser descontada, caso contrário, a matemática criptográfica não vai fechar.

Concluindo, é fácil ver como as blockchains fornecem elementos primitivos excepcionalmente úteis, que podem ajudar a construir sistemas de votação em que a contagem final é consistente com os registros de votos lançados. No entanto, um bom sistema de votação precisa satisfazer muitas propriedades adicionais que uma blockchain não pode fornecer. Embora haja uma certa sedução intelectual em fingir que votar não é diferente do que mover criptomoedas em uma blockchain, a realidade do problema é um pouco mais complicada.

Universidade de Columbia Anuncia Novo Avanço em Chips Implantáveis

Dispositivos médicos miniaturizados implantáveis ​​que transmitem dados sem fio “estão transformando a saúde e melhorando a qualidade de vida de milhões de pessoas”, escreve a Universidade de Columbia em 12 de maio último, observando que esses dispositivos são “amplamente usados ​​para monitorar e mapear sinais biológicos, para dar suporte e melhorar as funções fisiológicas, e para tratar doenças. “

Há muito considerados, em ciência e ficção, fundamentais para um salto na direção de uma nova era de cuidados médicos, esses dispositivos podem ser usados ​​para monitorar condições fisiológicas, como temperatura, pressão arterial, glicose e respiração, tanto para procedimentos diagnósticos quanto terapêuticos. Até o momento, os chamados “Dispositivos Eletrônicos Implantáveis” convencionais têm sido altamente ineficientes em termos de tamanho – geralmente exigem vários chips, invólucros, fios e transdutores externos. Para piorar, sofrem com o armazenamento de energia e recarga de suas ineficientes baterias.

Os pesquisadores da Columbia | Engineering reportam que eles construíram o que dizem ser o menor sistema single-chip do mundo, com um volume total de menos de 0,1 mm cúbico. O sistema é tão pequeno quanto um ácaro e visível apenas sob um microscópio.

O chip, mostrado na ponta de uma agulha hipodérmica. Crédito da Imagem: Chen Shi/Columbia Engineering.

“Queríamos ver o quão longe poderíamos forçar os limites de quão pequeno um chip funcional poderia ser construído”, disse o líder do estudo, Ken Shepard, professor de engenharia elétrica da Lau Family e professor de engenharia biomédica. “Esta é uma nova ideia no paradigma ‘chip como sistema’ – ele sozinho é um sistema eletrônico completo, sem precisar de mais nada. Isso é algo revolucionário para o desenvolvimento de dispositivos médicos implantáveis, ​​miniaturizados, sem fio, capazes de monitorar muitas coisas simultaneamente. [Esperamos que], no fim do processo, eles sejam aprovados para aplicações clínicas em humanos”.

O chip, que é uma particula implantável/injetável sem invólucro ou envelopagem adicional, foi fabricado na Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, com modificações adicionais de processo realizadas na sala limpa da Columbia Nano Initiative e na Nanofabricação do Centro de Pesquisa Científica Avançada da Universidade da Cidade de Nova York (ASRC). Shepard comentou: “Este é um bom exemplo de tecnologia ‘além de Moore’ [referência à Lei de Moore] – introduzimos novos materiais no semicondutor de óxido de metal padrão para dar a ele uma nova função. Neste caso, adicionamos materiais piezoelétricos diretamente no circuito integrado para transduzir a energia acústica em energia elétrica.

O objetivo da equipe é desenvolver chips que possam ser injetados no corpo com uma agulha hipodérmica e que possam depois se comunicar de volta para fora do corpo por meio de ultrassom, fornecendo informações sobre quaisquer medições que eles façam localmente

Os dispositivos sendo testados atualmente apenas medem a temperatura corporal, mas existem muitos outros parâmetros possiveis nos quais a equipe trabalha. Reproduzimos abaixo o Resumo do paper da Columbia | Engeneering.

Link para o trabalho na íntegra.

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Aplicação de uma Particula Implantável Menor Que 0,1 mm3 para Detecção Sem-fio de Temperatura in vivo em Tempo Real

Resumo

Tem havido um interesse crescente em dispositivos médicos miniaturizados implantáveis para monitoramento fisiológico in vivo e in situ. Aqui, apresentamos um implante que consiste de um dispositivo de captura de imagem em ultrassom convencional com carga de energia e comunicação de dados via wireless, e que atua como uma sonda para detecção de temperatura em tempo real, incluindo o monitoramento da temperatura corporal e mudanças de temperatura resultantes da aplicação terapêutica de ultrassom.

O dispositivo, menor que 0,1-mm3 e consumo de energia menor que -1-nW, que chamamos de Mote [ou Cisco – algo muito pequeno, como um ‘cisco nos olhos’; grão de poeira, n. do t.], consegue atingir essa miniaturização agressiva por meio da integração monolítica de um chip sensor de temperatura de baixa potência, customizado com um transdutor piezoelétrico em microescala montado em sua parte superior. O pequeno volume deslocado por esses Motes permite que eles sejam implantados, ou injetados, usando técnicas minimamente invasivas, com biocompatibilidade aprimorada. Demonstramos sua funcionalidade de detecção in vivo em um procedimento de neuroestimulação por ultrassom em camundongos. Nossos Motes têm potencial para serem adaptados ao sensoriamento distribuído e localizado de outros parâmetros fisiológicos clinicamente relevantes.

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Este post foi editado para correção de erros de grafia e sintaxe, além de problemas de estilo.

Citando o Meio Ambiente, Tesla Adia Planos para o Bitcoin

O preço do Bitcoin despencou depois que Elon Musk disse que a Tesla não aceitaria mais a criptomoeda como método de pagamento. O anúncio foi feito pelo CEO em um comunicado no Twitter na noite de quarta-feira (12/5). Musk levantou preocupações sobre o impacto climático da mineração de Bitcoin.

Musk, que esteve sob os holofotes recentemente por manipular o preço das criptomoedas por meio de tweets, citou como o raciocínio por trás da reviravolta da Tesla a enorme quantidade de energia elétrica necessária para manter o Bitcoin rodando – e os impactos ambientais decorrentes.

Grandes aglomerados de CPUs, em grandes datacenters, são usados para minar Bitcoin, através de um processo chamado ‘prova de trabalho’. A prova de trabalho é computacionalmente complexa, exigindo o cálculo de chaves criptográficas em tempo integral. A complexidade da computação tem uma relação linear com o consumo de energia: mais computação –> mais energia.

“Estamos preocupados com o rápido e crescente uso de combustíveis fósseis para mineração e transações de Bitcoin, especialmente o carvão, que tem as piores emissões de qualquer combustível”, disse o comunicado. Embora a criptomoeda seja uma “boa ideia em muitos níveis”, ela tem um “grande custo para o meio ambiente”, disse Musk.

O preço do Bitcoin caiu quase 13% após o anúncio da Tesla, de acordo com a Coin Metrics. O site de criptomoedas Coindesk mostrou que o valor em dólares do Bitcoin caiu para uma 24-hour low, pouco acima de US$ 46.000, antes de se recuperar ligeiramente para flutuar em torno de US$ 50.000.

Envolvimento Tesla-Bitcoin

A Tesla provocou uma explosão do Bitcoin em fevereiro, após anunciar que investiria cerca de US$ 1,5 bilhão na criptomoeda, com a intenção de permitir que os clientes a usassem para comprar seus carros eletricos.

O valor de mercado total da carteira de Bitcoin da Tesla no final de março era de US$ 2,48 bilhões, como mostraram os registros de títulos. Apesar da movimentação, a Tesla disse que não planeja vender suas participações em Bitcoin.

“A Tesla não venderá nenhum Bitcoin e pretendemos usá-lo para transações tão logo o processo de mineração faça a transição para um modal de energia mais sustentável”, disse o comunicado. A empresa também procura outras opções de criptomoeda, sem os impactos ambientais do Bitcoin, complementa.

Alguns observadores também se refiriram ao recente anúncio de que governos nacionais dariam início a um “enquadramento” da estrutura das criptomoedas para explicar a decisão.

Impacto no meio ambiente

Um estudo realizado em 2019 por pesquisadores da Universidade Técnica de Munique e do MIT descobriu que as emissões de CO2 para toda a rede Bitcoin chegaram a 22,9 milhões de toneladas em 2018. Nessa taxa, a curva de emissões de carbono atribuíveis ao Bitcoin se assemelha à de uma grande cidade de um país rico ou de todo um país em desenvolvimento como o Sri Lanka.

Musk tem mostrado um grande entusiasmo em popularizar o uso de carros elétricos, como os produzidos pela Tesla, atraindo motoristas para longe dos veículos com os motores de combustão interna, que respondem por uma boa parte das mudanças climáticas.

Sobre Democracia, Fake News e Amigos

Sou um racionalista hard-core, com um espírito curioso, voltado à honesta busca da verdade final. A existência desse conceito absurdo de “notícia falsa” (tal como o conhecemos agora) em pleno século vinte e um, é algo que literalmente me deprime e me faz duvidar de minha fé na humanidade. Com a evolução da crise da Covid, e depois de perder um número proibitivamente alto de amigos em virtude das controvérsias geradas por elas, sinto que o problema começa a afetar seriamente a minha esfera pessoal. Paladino da Ciência que sou, e para acalmar os meus sentidos, decidi empreender uma pesquisa – que eu chamaria de sistemática – da literatura sobre Fake News, a qual compartilho a seguir, no mui adequado formato de ‘prosa blogueana’.

As fake news costumam ser estudadas ao longo de quatro linhas principais: caracterização, criação, circulação e combate. O exato modelo de como caracterizar notícias falsas tem sido muito debatido na academia, uma vez que a definição do termo é ainda controversa. Diferentes tipos de noticias falsas têm diferentes gradações entre intenção e facticidade. Quanto às outras linhas de pesquisa, aquelas voltadas à criação dizem respeito à produção de notícias falsas, frequentemente com motivação financeira, política ou social. As dedicadas à circulação de notícias falsas referem-se às diferentes maneiras pelas quais as informações falsas são disseminadas e amplificadas, geralmente por meio de tecnologias de comunicação, como mídias sociais e mecanismos de busca. Por último, o combate às notícias falsas aborda a multiplicidade de técnicas para detectar e combatê-las em diferentes níveis, levando-se em conta desde os aspectos jurídicos, financeiros e técnicos até a alfabetização individual em mídia e informação e novos serviços de verificação de fatos.

Fake News foi eleita a palavra [ou expressão] do ano em 2017 pelo Dicionário Collins. Em 2017, o uso do termo havia aumentado 365% com relação à 2016 (Dicionário Collins, 2017). A eleição presidencial americana em 2016 colocara o fenômeno na agenda internacional.

Mas embora o termo pareça relativamente novo, os fenômenos que ele cobre são antigos. Manipulação, desinformação, falsidade, rumores, teorias da conspiração – ações e comportamentos frequentemente associados ao termo – existem desde que os humanos se comunicam. A novidade do termo, neste contexto, está relacionada à forma como as informações falsas ou enganosas são produzidas, distribuídas e consumidas por meio da tecnologia de comunicação digital.

Fiz um apanhado da literatura, e inúmeros trabalhos sobre o tema, escritos desde o início do século vinte, vieram à tona – que, por brevidade, limito aqui a poucos exemplos:

.Em uma coluna publicada no The Atlantic em 1919, Walter Lippmann expôs uma visão abrangente dos problemas que a propaganda representava para a sociedade ocidental moderna (Sproule, 1997).

.Lippmann argumentou que a função básica da democracia era proteger as notícias – a fonte da opinião pública – da mácula da propaganda. Nenhuma sociedade moderna sem meios adequados para detectar mentiras pode se considerar livre (Lippmann, 1922).

.Sem informações confiáveis, será difícil para as democracias continuarem a funcionar. Notícias falsas e desinformação são símbolos de um problema social mais amplo: a manipulação da opinião pública para infuenciar o mundo real (Gu, Kropotov e Yarochkin, 2017).

Mas mesmo que a desinformação seja a esta altura um fenômeno histórico, cada nova tecnologia de comunicação permite novas maneiras de manipular notícias e amplificar rumores. Manter o passo alinhado com as novas tecnologias de informação digital requer novas maneiras de enfrentar os desafios; um certo pensar-fora-da-caixa. Informações falsas disfarçadas de notícias já criaram sérias preocupações materiais e humanas em muitos países. Diferentes pesquisadores a chamaram por diferentes nomes:

.Poluição da informação (Wardle & Hossein, 2017),

.Manipulação da mídia (Warwick & Lewis, 2017) ou

.Guerra de informação (Khaldarova & Pantti, 2016).

Em minhas conversas e vivências, noto que um ponto comum entre as pessoas que têm uma vida intelectual é um certo desconforto existencial, a sensação íntima e presente, de que informações falsas poluem a esfera pública e podem prejudicar a democracia de maneira imprevisivel. Conforme argumentado por Warwick e Lewis, “a manipulação das redes sociais pode contribuir para a diminuição da confiança na mídia convencional, aumento da desinformação e maior radicalização” (2017).

Além de tudo isso, políticos e outros atores poderosos se apropriaram do termo para caracterizar a cobertura negativa da mídia sobre suas ações. Mais notoriamente, e mais de uma vez, o presidente americano Donald Trump rotulou meios de comunicação como a CNN ou o The New York Times como fake news. O mesmo se dá aqui no Brasil, com o presidente engajado em uma jihad pessoal contra a mídia tradicional. Conforme relatado pelo New York Times, em países onde a liberdade de imprensa é restrita ou está sob considerável ameaça – como Rússia, China, Turquia, Líbia, Polônia, Hungria, Tailândia, Somália e outros [ahem, Brasil] – os líderes políticos já invocaram as fake news como justificativa para repelir o escrutínio da mídia. Ao sugerir que as notícias não podem ser confiáveis e ao rotulá-las como notícias falsas, os políticos deliberadamente minam a confiança no jornalismo e nos meios de comunicação, uma das principais instituições em nações democráticas baseadas na liberdade de expressão e de imprensa.

Mais pesquisas sobre a escala e o escopo da desinformação em diferentes países são necessárias para descrever com precisão a magnitude e as características do problema. Para os estudantes de jornalismo, este recente debate sobre a desinformação tem sido uma evocação valiosa das raízes de sua profissão: avaliação crítica de informações e fontes; responsabilidade e códigos de conduta ética. O aumento dos esforços pela transparência, tanto na ecologia das plataformas de informação quanto nos métodos jornalísticos, pode, a longo prazo, aumentar a confiança do público em relação a como a informação é tratada e amplificada tanto pelas plataformas sociais quanto pelas redações da mídia profissional.

Novas ferramentas e métodos – incluindo alfabetização midiática e informacional – para identificar e detectar conteúdo manipulado, seja ele texto, imagens, vídeos ou áudio, são necessários, se queremos conter as tentativas de manipulação de diferentes atores. Em vez de tentar legislar sobre o problema – que se tornou por demais politizado – ou ceder ao ímpeto repressivo, os atores políticos e as instituições devem reconhecer que têm um papel importante a desempenhar na melhoria da qualidade do ecossistema de informações, por meio do financiamento à pesquisa e do apoio à mídia independente e pelo compartilhamento de dados com o público.

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(*) Este post foi editado em 13/05 para correções de digitação e pequenos ajustes de estilo.

Fundação Linux Lança Projeto para o Ecossistema Agrícola Global

Na quarta-feira passada, a Linux Foundation, a organização sem fins lucrativos que busca promover a inovação em massa por meio de tecnologias de código aberto, anunciou o lançamento da Fundação AgStack, o primeiro projeto de infraestrutura digital de código aberto desenhado especificamente para o ecossistema agrícola global.

A Fundação AgStack vai melhorar a eficiência da agricultura global por meio da criação, manutenção e aprimoramento de uma infraestrutura digital gratuita, reutilizável, aberta e especializada, para dados e aplicativos agrícolas.

Os membros fundadores e contribuintes incluem líderes das indústrias de tecnologia e agricultura, abrangendo diversos setores e geografias. Membros e parceiros incluem Agralogics, Call for Code, Centricity Global, Digital Green, Farm Foundation, farmOS, HPE, IBM, Mixing Bowl & Better Food Ventures, NIAB, OpenTeam, Our Sci, Produce Marketing Association, Purdue University / OATS & Agricultural Informatics Laboratório, a Universidade da Califórnia em Agricultura e Recursos Naturais (UC-ANR) e o Projeto SmartFarm da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

“O ecossistema da agricultura global precisa desesperadamente de uma reforma digital. Há muita perda de produtividade e inovação devido à ausência de ferramentas e dados reutilizáveis. Estou animado para liderar esta comunidade de líderes, colaboradores e membros – de vários setores e países – para ajudar a construir este recurso comum e reutilizável – AgStack – que ajudará todas as partes interessadas na agricultura global com ferramentas e dados digitais abertos, ” Disse Sumer Johal, Diretor Executivo da AgStack.

A Linux Foundation observou que 33 por cento de todos os alimentos produzidos são desperdiçados, enquanto nove por cento das pessoas no mundo estão com fome ou desnutridas. Esses dados sociais são combinados com sistemas antigos que são muito lentos e ineficientes e não podem funcionar em toda a crescente e complexa cadeia de abastecimento agrícola. A AgStack usará colaboração e software de código aberto para construir uma infraestrutura digital do século 21 que, segundo ela, será um catalisador para a inovação em novos aplicativos, eficiência e escala.

“A explosão de inovações em agrotecnologia de grandes empresas a startups, governos e organizações sem fins lucrativos representa uma virada de jogo para os agricultores do Sul e do Norte Global”, disse Rikin Gandhi, co-fundador e diretor executivo do parceiro da AgStack Digital Green. “Ao mesmo tempo, é fundamental construirmos uma infraestrutura digital que garanta que o impacto dessas mudanças possibilite a inclusão e aumento da resiliência dos produtores mais marginalizados, especialmente em meio às mudanças climáticas.”

AgStack consiste em um repositório aberto para criar e publicar modelos, acesso fácil e gratuito a dados públicos, estruturas interoperáveis ​​para uso em projetos cruzados, extensões, e caixas de ferramentas baseadas em tópicos específicos. Ele irá alavancar tecnologias existentes, como padrões agrícolas (AgGateway, UN-FAO, CAFA, USDA e NASA-AR); dados públicos (Landsat, Sentinel, NOAA e Soilgrids; modelos (UC-ANR IPM) e projetos de código aberto como Hyperledger, Kubernetes, Open Horizon, Postgres, Django e muito mais.

“Temos o prazer de fornecer o ambiente para o AgStack existir e crescer”, disse Mike Dolan, gerente geral e vice-presidente sênior de projetos da Linux Foundation. “É claro que, ao usar software de código aberto para padronizar a infraestrutura digital para a agricultura, a AgStack pode reduzir custos, acelerar a integração e permitir a inovação. É incrível ver um setor como a agricultura usar princípios de código aberto para inovar.”

Precision AI

O anúncio da AgStack segue nesta semana com outras notícias importantes sobre financiamento no espaço agtech. Na terça-feira passada, a empresa canadense de robótica agrícola Precision AI anunciou que fechou com sucesso uma rodada de negociações de US$ 20 milhões, liderada pelo cofundador do GoogleX, Tom Chi’s At One Ventures, junto com o Fundo de Inovação Industrial da BDC Capital, Fulcrum Global Capital e Golden Opportunities Fund.

Os fundos serão usados ​​para apoiar o avanço da plataforma disruptiva de agricultura de precisão, a Precision AI, que gerencia enxames de drones para reduzir drasticamente o uso de herbicidas na agricultura de cultivo em linha.

De acordo com o Precision AI, a pulverização de herbicidas é uma das atividades agrícolas menos eficientes, com mais de 80% desperdiçada em solo descoberto. Embora os concorrentes tenham se concentrado em safras de alto valor e pequena área, a Precision AI diz que sua tecnologia pode ser aplicada a grandes lavouras a um custo muito mais baixo do que as grandes máquinas agrícolas tradicionais, reduzindo potencialmente o uso de pesticidas em até 95%, mantendo o rendimento da colheita e proporcionando economia de até US$ 52 por acre por safra.

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No ano passado escrevi uma monografia sobre Agricultura de Precisão. Pretendo disponibilizá-la em breve, com novas adições ao blog.