The Merge: A Esperada Fusão do Ethereum se Aproxima

Em breve, a rede principal da blockchain Ethereum se fundirá com o sistema Beacon Chain. Neste post discutimos brevemente os principais aspectos da operação e das tecnologias envolvidas.

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O evento marcará o abandono – no âmbito do Ethereum – do sistema de validação de transações baseado no método da “prova de trabalho” [proof-of-work, usado pelo Bitcoin] e a transição completa para uma nova abordagem chamada de “prova de participação” [proof-of-stake – ver abaixo]. A data para o acontecimento havia sido definida vagamente como o segundo trimestre de 2022. Alguns canais da Internet especulam que será em agosto. Não sei até que ponto a atual crise nas criptos interfere no cronograma.

Essa movimentação prepara o cenário para futuros melhoramentos de escala nessa rede, incluindo a adoção da tecnologia ‘sharding’ [ver notas, no final], que vai trazer inovações ao processo de validação. A fusão, também conhecida como “The Merge”, pretende reduzir o consumo de energia do Ethereum em ~99,00%.

The Merge – o que é

“The Merge” é um “upgrade” na rede Ethereum, que vai substituir o atual mecanismo de consenso baseado na “prova de trabalho” (PdT) por um mecanismo de consenso chamado de “prova de participação” (PdP), mais sustentável, eficiente e seguro. A partir da fusão, todos os blocos no Ethereum serão produzidos via PdP. A PdP já está ativa na rede Ethereum e passou por seu primeiro hard fork em outubro de 2021.

Discussão

Ethereum em seu estado atual usa o método da prova de trabalho para garantir o consenso entre os milhares de chamados “nós” na rede. A PdT é confiável e segura, mas consome muita energia. Para produzir cada bloco na rede, o processo envolve calcular códigos alfanuméricos válidos – chamados hashes – para verificar as transações e adicionar o próximo bloco ao blockchain. Para isso os participantes precisam usar equipamento com unidades de processamento [GPUs] poderosas e famintas de energia.

A prova de participação, por outro lado, pretende garantir a segurança da rede de uma maneira diferente: o validador precisa provar é um participante [daí o nome], um stakeholder, com claro interesse no bom andamento das transações da rede.

Essa prova do interesse na participação consiste no depósito de 32 ETH – uma quantia considerável. Qualquer pessoa pode fazer esse depósito e se tornar um nó validador – um nó que participa do algoritmo de consenso da rede.

Se você depositar mais de 32 ETH, você receberá vários “slots validadores”. A recompensa pelo status de validador é uma comissão das taxas de transação validadas em seus slots. Os requisitos de hardware aumentam quanto mais você participar como validador.

O protocolo determina que 2/3 de todos os validadores ativos assinem a finalização de um bloco. Se um agente malicioso tentar adulterar o protocolo usando um grande número de validadores para reverter um bloco finalizado, seus fundos sofrerão cortes – o que significa que perdem parte de, ou todo, o ETH depositado previamente. Isso torna os ataques extremamente caros e, portanto, improváveis.

A PdP não requer o mesmo hardware poderoso, de uso intensivo de energia que a PdT. Qualquer hardware relativamente recente deverá ser capaz de executar o software necessário para operar um nó de participação de 32 ETH.

Comparando os dois métodos

A PdP busca uma maior resistência à centralização e à censura. PdT e PdP são bastante semelhantes. Ambas são sistemas que não dependem de confiança [trustless], onde qualquer pessoa pode participar. Ambos os processos se baseiam no fato de que se torna exponencialmente difícil atacar a blockchain à medida que mais blocos são adicionados; é dispendioso ser um validador. O impacto que você tem na rede e, portanto, as recompensas que você pode ganhar, são proporcionais à quantidade de recursos econômicos que você coloca (hardware de computador e eletricidade no caso da PdT – moedas em PdP). No entanto, existem diferenças importantes entre os dois métodos.

Gráfico: Vox Leone

Para minerar em uma rede PdT, é preciso investir em hardware especializado, ter acesso a uma fonte de energia barata e confiável e ter um nível substancial de habilidade técnica para administrar e manter sua “fazenda de mineração”. É possível minerar em pequena escala, mas as peculiaridades das leis econômicas tornam difícil competir com fazendas de mineração maiores e mais ricas.

A prova de participação parece ser mais amigável para os participantes menores da blockchain. Para participar como validador e começar a apostar, é preciso depositar 32 ETH (é possível com menos, mas foge ao escopo deste post). O equipamento necessário para se tornar um nó e participar do consenso de PdP pode ser qualquer hardware de consumo razoavelmente moderno.

A prova de participação e o consumo de energia

Na prova de trabalho, quem resolver o bloco primeiro recebe a recompensa. Ou seja, a PdT é uma “corrida armamentista”. Se você tiver mais capacidade de computação [taxa de hash] do que seus concorrentes, é mais provável que você ganhe. O resultado final é que os mineradores PdT trabalham com 100% de capacidade, 24 horas por dia. Essa demanda extrema de energia continua a crescer com o valor das recompensas nos blocos que eles estão tentando ganhar.

Por outro lado, na prova de participação os proponentes do bloco são selecionados aleatoriamente – removendo completamente a exigência de uma corrida armamentista. Não há como aumentar a probabilidade de que qualquer nó específico seja escolhido para propor um bloco – portanto, não há necessidade de consumir cada vez mais energia para melhorar suas chances competitivas.

Como os nós PdP são estimados em 99% (ou mais) mais eficientes do que seus equivalentes PdT, o PdP representa um grande avanço para a eficiência energética da tecnologia blockchain.

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Notas

Sharding e Beacon Chain

Sharding [fragmentação] é o processo de dividir um banco de dados horizontalmente para distribuir a carga – é um conceito comum em ciência da computação. No contexto do Ethereum, o sharding funcionará com outros módulos para dividir os rollups da camada 2 em fragmentos de rede, distribuindo o fardo de lidar com a grande quantidade de dados necessários para rollups em toda a rede. Os fragmentos podem ser pensados também como sub-redes na blockchain. O propósito é reduzir o congestionamento da rede e aumentar as transações por segundo.

O Beacon Chain contém toda a lógica para manter os fragmentos de rede [shards] seguros e sincronizados. A Beacon Chain coordenará os validadores da blockchain, encaminhando-os aos fragmentos nos quais eles precisam trabalhar. Também facilitará a comunicação entre os fragmentos, recebendo e armazenando dados de transação dos fragmentos que podem ser acessados por outros fragmentos. Isso dará aos fragmentos um instantâneo do estado do Ethereum para manter tudo sincronizado.

Triplo halving

“The Triple Halving” é o nome que a comunidade Ethereum dá à grande queda na emissão de ETH que ocorrerá quando “The Merge” ocontecer e o Ethereum estiver totalmente portado para o algoritmo de prova de participação. “The Triple Halving” é uma brincadeira com o “Halving” do Bitcoin. Enquanto o Bitcoin reduz pela metade sua taxa de emissão a cada 4 anos, o Ethereum verá sua taxa de emissão reduzida em cerca de 90% no momento da fusão. Isso é equivalente a 3 Bitcoin “halvings” acontecendo ao mesmo tempo. O Ethereum experimentará uma redução de emissão repentino, o que levará mais de 12 anos para ser correspondido na rede do Bitcoin.

Fontes:

https://ethereum.org

https://ethmerge.com

O Smartwatch e o Autoconhecimento

Na filosofia, ainda não é uma questão decidida que o ‘mandamento’ “conhece a ti mesmo” possa ser realmente seguido, uma vez que não está claro que haja algo para conhecer.

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No final de tudo, o “eu” [link] pode muito bem ser o pote de ouro no fim do arco-íris: pode simplesmente não existir. O eu pode ser uma ilusão, como sustentava a maioria das correntes da filosofia budista clássica; ou pode ser um “buraco de ser no coração do Ser”, como sugeriu Jean-Paul Sartre um tanto desconsoladamente; ou pode ser perfeitamente real, mas, por definição, além dos limites da cognoscibilidade.

A religião do corpo

Se você se convencer de que o mundo é complexo demais para a razão humana – como querem os adeptos da terra plana e outros milhões de infelizes sem luz que vagam pela redes, e que para você ele é definitivamente opaco ao conhecimento, sujeito aos desígnios de um Deus irascível, existem várias maneiras diferentes de reagir para superar o sentimento de frustração. Você pode decidir “seguir o fluxo”; viver seus dias na feliz ignorância de sua “verdadeira” natureza, mas em harmonia sentimental com o mundo ao seu redor.

Ou você pode voltar sua atenção para o seu corpo, como a coisa mais próxima que você vai chegar do próprio eu, e tentar aprender tudo o que puder sobre ele. Tentar encontrar seu equilíbrio e livrá-lo da decadência e da impermanência. Ao fazer isso, com o tempo você e seus pares podem vir a acreditar que as informações derivadas desse tipo de investigação podem ser consideradas realmente como autoconhecimento no sentido mais amplo.

Essa impressão de que o conhecimento das “estatísticas vitais” do corpo (velocidade, resistência, elasticidade, etc.) é um bem em si mesmo se torna particularmente atraente quando é apresentada não apenas como algo útil, mas como algo agradável. E não há maneira mais eficaz de tornar o aprendizado agradável do que transformá-lo em um game; fazê-lo depender da intermediação de algum dispositivo novo, prático e elegante, uma mistura de tecnologia e novidade – um gadget que não existia apenas alguns anos antes.

Em um mundo inundado com esses novos dispositivos, não é de todo surpreendente descobrir que o autoconhecimento que muitas pessoas buscam agora não é nada mais do que pode ser revelado pelo AppleWatch ou pelo Fitbit.

Anexar alguma recompensa tangível – como o progresso nas etapas de um videogame – a atividades cotidianas, como caminhar ou correr, parece estar muito de acordo com os interesses das empresas de tecnologia – com a benção de todos os governos – que querem a todo custo que você integre completamente o produto deles à sua vida e interaja com esse produto o tanto quanto possível.

Na China já se atribui “créditos sociais” (ou os deduz, no caso daqueles corajosos o suficiente para se opor ao governo) a tarefas mundanas, como participar de sessões de ioga, ou visitar um parente idoso. Esse crédito é instrumental na hora de adquirir uma casa ou usufruir certos privilégios. Nada se transaciona sem uma consulta a esse banco de dados.

Aplicando o manual aperfeiçoado pela China, governos e corporações de todo o mundo usam a psicologia comportamental e a neurociência para manipular as pessoas das mais variadas maneiras. Os algoritmos subtraem a liberdade de nossas mentes misteriosas e insondáveis, mantendo-as cativas e firmemente focadas na torrente de informação que sai das pequenas telas dos smartphones, simulacro da realidade do mundo exterior.

Neste ponto, devo anotar, confesso que eu não tenho certeza de que devamos abandonar totalmente a psicologia comportamental. Alguma “gameficação” na vida pode ser divertida e útil. Por exemplo, quando faço um curso online [como é usual nestes tempos pandêmicos], não posso negar que gosto muito de ganhar pontos, de subir de nível e das medalhas, e acho que isso de alguma forma ajuda a aprender melhor, mais rápido e com mais prazer. Mas minha posição é a de que a neurociência não deve ser praticada à custa do nosso mundo íntimo, misterioso e invisível ao de fora.

Conhece a ti mesmo

A opinião de Nietzsche sobre “conhece ti mesmo” é interessante: “Uma coisa conhecida é uma coisa que não é mais preocupante.” Assim, na visão nietzscheana, a expressão “conhece a ti mesmo” pode ser interpretada como uma injunção para se tornar objetivo e direcionar a atenção quase inteiramente para o mundo exterior, para a realidade crua dos fatos.

Mas tenho para mim que essa Máxima Délfica, tal como usada por Sócrates, tem um cunho mais literal. Ele era um filósofo e, como tal, praticava o que talvez seja o único método confiável para ter sucesso em um empreendimento: um mergulho profundo no perigoso inconsciente. Um empreendimento que, ao mesmo tempo em que envolve uma transformação interior, também traz o Céu à Terra.

Infelizmente, essa parece ser uma tarefa quase impossível na era das redes sociais, de emoções fáceis induzidas pelos torpes algoritmos e quase completa incapacidade de foco e raciocínio. Alguns sustentam que Napoleão chegou a sentir um chamado para a filosofia – notadamente de Maquiavel, mas mesmo naquela época amigável à introspecção pareceu mais fácil para ele partir para conquistar o mundo, em vez de enfrentar o reino interior.

Portanto, um mergulho profundo no inconsciente – hoje negligenciado – não é para todos, a menos que se esteja a procura de alívio para aflições mentais ou fazendo um balanço da vida na hora da morte (ou coisa pior). Se o seu Fitbit está a dizer que você precisa de uma corrida na praia [e dos consequentes likes dos seus seguidores], não há tempo a perder em aventuras introspectivas.

A pulsão coletiva de mergulhar no materialismo digital das redes destrói qualquer capacidade de apreciação da consciência fenomenológica, arriscada e cheia de nuances. Especialmente nestes momentos históricos em que os grandes do mundo se preparam para guiar as massas em direção a gloriosos planaltos.

O Linux Vai um Dia Conquistar o PC?

No site The Register encontro um artigo de opinião escrito pelo veterano repórter de tecnologia e entusiasta do GNU/Linux, Steven J. Vaughan-Nichols, do qual transcrevo trechos para depois comentar.

Linux Mint
Área de trabalho do esplêndido Linux MintImagem: WikiMedia Commons

[…] tendo coberto o mundo do desktop Linux (…), acho que usei mais dele do que qualquer outra pessoa que também tenha uma vida além do PC. Em suma, eu amo o desktop Linux. Muitas distribuições do Linux para desktop são ótimas. Eu sou um grande fã do Linux Mint há anos. Também gosto, em nenhuma ordem específica, do Fedora, openSUSE, Ubuntu e MX Linux. Mas você sabe o que? Isso é um problema. Temos muitas distribuições de desktop Linux excelentes, o que significa que nenhuma delas consegue ganhar participação de mercado suficiente para causar qualquer impacto real no mercado geral.

[…]Além de mais de 200 distribuições, existem 21 interfaces de desktop diferentes e mais de meia dúzia de gerenciadores de instalação de software, como o Debian Package Management System (DPKG), Red Hat Package Manager (RPM), Pacman, Zypper e muitos outros. Depois, há toda uma gama desses novos contêineres para instalar programas, incluindo Flatpak, Snap e AppImage. Eu mal consigo ver todos e isso sendo parte do meu trabalho! Como esperar que os usuários comuns entendam tudo isso? É impossível. Nenhum dos principais distribuidores Linux – Canonical, Red Hat e SUSE – realmente se importa com o desktop Linux. (…) seu dinheiro vem de servidores, contêineres, nuvem e Internet das Coisas (IoT). Desktop? Por favor. Devemos apenas ficar felizes por eles gastarem tanto no desktop.

[…]Agora, dito tudo isso, não quero que você tenha a impressão de que não acho que o desktop Linux seja importante. Eu acho. Na verdade, acho crítico. A Microsoft, você vê, está abandonando o desktop tradicional baseado em PC. (…) em favor da “nuvem”. Isso significa que o futuro do sistema operacional de desktop estará nas mãos da Apple, com o macOS, e nas nossas, com o Linux. Como alguém que se lembra da transição de mainframes, controlados centralmente, para PCs, de uso individual, não quero retornar a um mundo onde todo o poder pertence à Microsoft ou a qualquer outra corporação.

“O desktop Linux nunca será tão grande quanto o Windows já foi”, escreve Vaughan-Nichols no encerramento. “Entre a ascensão dos serviços de nuvem e o domínio do smartphone, não é possível isso acontecer. Mas ele ainda pode se tornar o desktop convencional mais popular.”

Linux precisa de padrões

Foi oportuna a ênfase nos usuários avançados. De muitas maneiras, eles são o centro de gravidade em um ecossistema de tecnologia.

Quase todos os usuários avançados/técnicos que conheço querem “padrões”. As distribuições Linux estão repletas de padrões por baixo do capô, mas não há um padrão de certificação de hardware (portanto, encontrar periféricos compatíveis é sempre estranho, além de arriscado) e não há uma interface de usuário padrão. Os usuários técnicos querem essas duas coisas. Um técnico que seja obrigado a dar instruções de suporte técnico ao usuário, ensinando a ele comandos de terminal porque não há uma Interface Gráfica padrão é um técnico que um dia dará as costas ao “desktop Linux”.

Três posições – ao meu ver equivocadas – que a comunidade FOSS [Free Open Source SoftwareSoftware Livre] assume, e que levam a essa situação são:

1. Pregar que o “’Linux’ é um sistema operacional”. Fora do âmbito técnico essas palavras alienam o ouvinte. Apenas os técnicos entendem ou se interessam por esse jargão. Para qualquer pessoa com mentalidade de consumidor (que inclui a maioria dos usuários avançados) isso não significa nada. Aliás, tenho receio de ter perdido leitores no início deste texto, com todas aquelas siglas e nomes esquisitos. Se você ainda está aqui, receba minha admiração pela sua capacidade de foco(*). É preciso vender o Linux como uma solução a problemas comuns e não um ‘sistema operacional’. Não me ocorre no momento nenhum remédio para esse problema crítico de comunicação, mas ele tem que ser superado.

2. Inconsistência nas interfaces de usuário. “Interfaces são compromissos” (aprendi isso em Análise de Sistemas). A fragmentação do Linux é ainda maior quando se fala nos ambientes gráficos de usuário disponíveis (GNOME, KDE, MATE, etc). Interfaces são compromissos para todos os envolvidos. Se uma determinada categoria de stakeholder experimenta o computador como algo caótico, nunca previsível, o sistema todo pode desmoronar. Os computadores devem fornecer consistência ou então enfrentar o opóbrio.

3. Opções demais para instalação e atualização. O “empacotamento” da distribuição sempre foi hostil, tanto ao desenvolvedor de aplicativos quanto ao usuário, de novo por razões de fragmentação do ecossistema. Cada distribuição tem seu gerenciador de pacotes particular. Uma tentativa de solução proposta é o padrão universal Snap no qual se baseia o popular Snapcraft. Segundo a Wiki “Snapcraft é uma ferramenta para desenvolvedores empacotar seus programas no formato Snap. Ele roda em qualquer distribuição Linux suportada por Snap, macOS e Microsoft Windows. O Snapcraft compila os pacotes de forma a garantir que o resultado de uma compilação seja o mesmo, independentemente de qual distribuição ou sistema operacional ele é compilado”.

Faça como o Windows

Para merecer a atenção e o investimento do público em geral, os desenvolvedores de desktops FOSS precisam voltar sua mentalidade para as questões: a) Como fazer para que as pessoas fiquem empolgadas o suficiente com a plataforma para começar a escrever aplicativos para ela? b) Como juntar desenvolvedores de aplicativos e usuários finais da maneira mais satisfatória possível?

As respostas para isso podem variar às vezes, mas geralmente se parecem com:

  • Integrar o sistema verticalmente
  • Manter o visual consistente – mas não espartano

A maioria dos usuários avançados prefere Windows ou OS X exatamente por esses motivos!

Em oposição, o FOSS – como eu o o conheço – sempre tende a enfatizar a integração horizontal, a resolução de dependências através de bibliotecas, UIs descartáveis e APIs espartanas – todas as respostas erradas para desafiar a Microsoft no campo do desktop!

Além disso, se você tiver uma coleção de APIs para desktop, elas apenas serão úteis se todo o conjunto tiver versões padrão. Mesmo assim a comunidade de distribuição Linux não se importa em misturar as versões upstream conforme cada um achar melhor – isso seria perfeitamente razoável em um mundo em que todos os “desenvolvedores” fossem hackers de sistema.

O Google (Alphabet) aparentemente descobriu a solução para a maioria dos problemas acima com o Android, construído a partir do Kernel do Linux, mas sempre pronto para substituí-lo/alterá-lo/descartá-lo.

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(*) A propósito disto, respeito muito a inteligência das pessoas que se propõem a ler este blog, e não faço concessões ao fácil [:wink]

Notáveis Fazem Alerta Sobre as Criptomoedas

Um evento muito importante sobre as criptomoedas aconteceu nesta semana, e, como sempre, passou abaixo do radar da grande mídia Tupiniquim. É exatamente por isso que este blog existe.

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Um grupo de tecnologistas renomados uniu forças para pressionar os legisladores dos EUA a reprimir a crescente indústria de criptomoedas, marcando o primeiro esforço conjunto para combater o lobby bem financiado por empresas de blockchain.

O Financial Times [não vou dar link pois essa é uma das muralhas de pagamento mais formidáveis da Internet] reporta que

o professor de Harvard Bruce Schneier, o ex-engenheiro da Microsoft Miguel de Icaza e engenheiro-chefe do Google Cloud Kelsey Hightower, estão entre os 26 cientistas da computação e acadêmicos que assinaram uma carta [link, em inglês] entregue aos legisladores dos EUA criticando fortemente os investimentos em criptomoedas e a tecnologia blockchain. Embora várias pessoas já tenham feito avisos semelhantes sobre a segurança e a confiabilidade [ou falta de] dos ativos digitais, esta iniciativa marca um esforço mais organizado para desafiar a crescente influência dos defensores das criptomoedas, que querem resistir às tentativas de regular esse setor movediço.

“As alegações que os defensores do blockchain fazem não são verdadeiras”, disse Schneier. “Não é seguro, não é descentralizado. Qualquer sistema em que alguém pode perder suas economias porque esqueceu a senha de acesso não é um sistema seguro”, acrescentou. “Estamos fazendo um contra-lobby, é disso que trata esta carta”, disse o signatário e desenvolvedor de software Stephen Diehl. “A indústria de criptomoedas tem seu próprio pessoal, e eles falam o que querem aos políticos.”

Uma análise recente feita pelo Public Citizen, um grupo de defesa do consumidor, sobre o banco de dados de divulgação de lobby do Congresso dos EUA, revelou que o número de lobistas que representam a indústria de cripto aumentou de 115 para 320 entre 2018 e 2021, e o dinheiro gasto em lobby para o setor de cripto quadruplicou de US$ 2,2 milhões a US$ 9 milhões no mesmo período. A Coinbase, cambista de criptomoedas com sede nos EUA, liderou o esforço com 26 lobistas e US$ 1,5 milhão gastos em lobby em 2021. Empresas com crescente interesse no setor de criptomoedas, incluindo Meta, Visa e PayPal, também fizeram lobby para o setor. Enquanto isso, as principais cambistas de criptomoedas, como FTX, Binance e Crypto.com, também gastaram muito em acordos de patrocínio com estrelas do esporte e do entretenimento para promover seus produtos ao público.

Contra-ataque

Note que essas pessoas não são a turma do capital. São cientistas da computação reais pedindo que esses esquemas, que muitos equiparam a pirâmides financeiras, sejam controlados. Eles não têm tempo a perder em discussões fúteis.

Há tempos esses especialistas alertam contra a adoção intempestiva de criptomoedas. Stephen Diehl disse tempos atrás que os Tokens Não Fungíveis são uma farsa e recebeu tanta atenção que os “cripto bros” escreveram alguns artigos atacando-o. Portanto não é surpresa que ele esteja contra atacando no Congresso.

Para minhas finanças pessoais, devo dizer que estou absolutamente apavorado que esse tipo de ativo esteja sendo tratado como ativo real. O crash do mercado de 2008 envolveu a propriedade imóvel. Desta vez folgo que serão apenas macacos entediados.

Distinção e responsabilidades

Uma distinção importante é que as moedas chamadas “fiduciárias” são controladas por governos e bancos centrais que têm interesse em manter a estabilidade da economia geral e não inflacionar o valor de cada unidade de moeda, porque também é o governo e os bancos centrais que têm a responsabilidade de financiar a recuperação de qualquer colapso econômico.

Por outro lado, as criptomoedas são controladas por entidades que têm interesse em inflar o valor de cada unidade de sua moeda e não se importam se a moeda eventualmente entrar em colapso porque eles apenas vão continuar seu caminho, à espera do próximo esquema – você não vai encontrar os mineradores de bitcoin para pagar os custos de moradia, alimentação ou o auxílo-desemprego das pessoas afetadas se e quando o bitcoin cair e acabar com bilhões em investimentos. A indústria de criptomoedas espalhou tanta fumaça na paisagem que os meros mortais não fazem a menor ideia do que isso tudo significa. Essa mesma indústria também conseguiu fazer com que as pessoas acreditassem que este é o futuro, e se você não vê esse futuro você é obviamente uma pessoa das cavernas.

Conselho grátis

Meu conselho aos formuladores de políticas: se você não consegue entender essa conversa de criptomoeda, provavelmente há uma boa razão, e não é porque você é estúpido. É porque a coisa toda é terrivelmente complexa. Confie em si mesmo e os desafie para o debate. No minuto em que você colocar um cripto-bro na frente do congresso, fizer perguntas em português claro, e o cripto-bro não conseguir dar respostas inteligíveis, será um sinal claro para acionar o alarme.

Há um segmento de formuladores de políticas [para não citar aquele que não deve ser citado] que pensam que o Brasil – ou qualquer outro país – será condenado ao atraso financeiro se não embarcar nessa canoa. O melhor que se pode dizer sobre o assunto é que as criptomoedas são uma solução à procura de um problema. O pior que pode ser dito… Por onde começo?

Confie no seu instinto, tenha coragem e apenas diga não.

Momento Pede Cautela com Aplicativos Financeiros

O site Protocol informa que as avaliações de valor das ações das fintechs têm despencado mais rápido e com mais força do que o resto do setor de tecnologia.

Fintech
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De acordo com o artigo no Protocol,

um gráfico publicado pela a16z mostra que o pico de múltiplos [o que são ‘múltiplos’ no contexto das ações] de receita futura para empresas de fintech foi em outubro de 2021, quando atingiu quase 25x. Agora, caiu para menos de 5x. De acordo com dados da F-Prime Capital, esta é uma queda mais acentuada do que a verificada em outros setores da tecnologia.

Até 2019, as fintechs estavam em relativa sintonia com as altas das empresas emergentes dos serviços de nuvem. Entre 2020 e 2021 a valorização subiu como um foguete para ficar muito acima do desempenho das outras empresas de serviços de nuvem. Mas desde o início deste ano, o índice fintech da F-Prime vem caindo. Ele chegou a cair abaixo abaixo do índice de nuvem no final de março. À medida que as fintechs públicas estão vendo seus valores de mercado encolherem, será mais difícil para as empresas ainda privadas justificarem suas próprias avaliações exuberantes.

A queda das avaliações do mercado público golpeou o mercado com força extra esta semana. Mais startups de fintech começaram a fazer cortes. Das 19 demissões em massa listadas no Layoffs.FYI esta semana, nove foram em empresas financeiras. A Klarna disse aos funcionários, por meio de uma mensagem de vídeo, que demitiria 10% de sua força de trabalho. “Quando estabelecemos nossos planos de negócios para 2022, no outono do ano passado, era um mundo muito diferente do que estamos hoje”, disse o CEO Sebastian Siemiatkowski no vídeo.

Definições

Fintech é uma uma palavra composta da língua inglesa que significa “tecnologia financeira”. É um termo genérico para qualquer tecnologia usada para aumentar, simplificar, digitalizar ou competir com os serviços financeiros tradicionais.

Fintech refere-se a software, algoritmos e aplicativos para ferramentas baseadas em computador e dispositivos móveis. Em alguns casos, também inclui hardware – como cofrinhos inteligentes e conectados ou plataformas de negócios baseadas em realidade virtual (VR). As plataformas de fintech permitem que o usuário desempenhe tarefas comuns, como depositar cheques, movimentar dinheiro entre contas, pagar contas ou solicitar ajuda financeira.

Elas também abrangem conceitos tecnicamente complexos, como empréstimos ponto a ponto ou trocas de criptomoedas. Essa complexidade, porém, não impede que influencers [atrizes da lista B, designers de unhas, coaches de maquiagem, nutricionistas autodidatas] e figuras do entretenimento [cantores de funk, DJ’s, sofredoras sertanejas, etc.] posem de consultores financeiros a exaltar as fintechs no horário nobre da televisão e nas infames redes sociais.

Os bancos usam fintechs para processos de back-end – monitoramento da atividade da conta, por exemplo – e soluções voltadas para o consumidor, como o aplicativo que você usa para verificar seu saldo. Indivíduos usam fintech para tudo, desde cálculos de impostos até incursões nos mercados, sem necessidade de experiência prévia em investimento (o horror, o horror!).

As empresas contam com as fintechs para processamento de pagamentos, transações de comércio eletrônico, contabilidade e, mais recentemente, para buscar assistência em programas de assistência governamental. Após a pandemia da COVID-19, mais e mais empresas estão recorrendo às fintechs para habilitar recursos como pagamentos “sem fricção” ou outras transações baseadas em tecnologia.

Aumento da concorrência global

Historicamente, as instituições financeiras tradicionais sempre foram protegidas pelas condições nacionais de seus respectivos mercados. Dentro de cada jurisdição nacional há um conjunto diferenciado de condições e regulamentações financeiras, gerando instituições financeiras compatíveis com serviços adaptados às necessidades locais.

Nos últimos anos, no entanto, essas fronteiras nacionais foram rapidamente erodidas, impulsionadas pela rápida ascensão de empresas de fintech que oferecem soluções financeiras globais. Como resultado, as finanças institucionais foram forçadas a competir de passo a passo com essas empresas aparentemente ágeis ou aprender a cooperar e estabelecer parcerias com elas.

Essa dinâmica do “tradicional versus ágil” alimentou um cenário competitivo em todo o mundo, e os jogadores que desejam prevalecer nessa corrida precisam escolher suas alianças estratégicas com sabedoria.

No caso de muitas fintechs, buscar alianças com terceiros não é uma escolha. Seus modelos de negócios realmente dependem disso. Para as equipes de operações computacionais, a pressão adicional da concorrência e a necessidade de contratar serviços e parcerias de terceiros para se manter à frente são fontes de risco operacional que podem aumentar a exposição além de qualquer controle.

‍Responsabilidade profissional e pessoal

No final das contas, a maioria das fintechs fornece ou habilita um serviço financeiro.

Isso – por si só – expõe a empresa à negligência, erros de serviço, reclamações de fraude e vários outros riscos comuns associados a serviços financeiros. As fintechs, que oferecem produtos financeiros totalmente novos por meio de modelos de serviços inovadores, são especialmente propensas a se encontrar no lado errado das reivindicações de responsabilidade profissional.

Em geral, o problema é de desajuste: as fintechs geralmente sobrecarregam sua própria capacidade operacional e não padronizam novos processos, gerando assim cada vez mais erros. Os consumidores, por outro lado, são propensos a usar os aplicativos de fintech com pouca atenção, sem conhecimento básico de tecnologias da web e quase sempre sem tomar medidas de precaução para proteger a si mesmos, seus dados e seu dinheiro.

Fintechs têm o dever ético de mitigar os riscos operacionais

O risco operacional é o risco de fazer negócios com fintechs, e gerenciar esse risco é uma prioridade inevitável para qualquer liderança de operações. Na maioria das vezes, a maior exposição ao risco pode ser encontrada em processos operacionais mal implementados. A mitigação de riscos geralmente começa com a aplicação de uma estrutura de avaliação de riscos testada e comprovada, e não há garantia de que os aplicativos de fintech populares estejam preocupados com esses aspectos. O marketing irreverente dessas empresas na televisão brasileira e na Internet, usando Youtubers e figuras dos reality shows, não me ajuda a ter muita confiança.

Para terminar

Sem uma abordagem sistemática para definir e demonstrar o comportamento ético, a insistência em uma suposta superioridade prática das fintechs vai sair pela culatra. À medida que a adoção de fintechs continua a aumentar, haverá um número crescente de instâncias em que as fintechs falharão no teste da ética e da segurança operacional. Mesmo que a porcentagem dessas falhas seja menor entre as fintechs do que entre as instituições financeiras tradicionais, isso não ajudará a diminuir as percepções de alto risco associadas a elas.

As fintechs fariam um favor a si mesmas ao abandonar a perigosa superficialidade em seu marketing e a retórica vazia da “conveniência”, em favor da adoção de procedimentos operacionais e de supervisão ética de alto padrão, além de focar na resolução dos complexos problemas dos consumidores e clientes. Se elas estão à altura desses desafios logo saberemos.

PS: Este post se refere aos acontecimentos do momento nos mercado avançados. Essas tendências se refletem, às vezes com um pequeno atraso, nos mercados periféricos, como o Brasil, mas sempre se refletem. Lembro aos leitores que uma gripe lá acaba sendo uma pneumonia aqui.

Fontes adicionais:

https://www.forbes.com

https://www.weforum.org/