O Merecido Inferno Astral do Facebook

A empresa-mãe do Facebook, Meta, vive uma sequência sem precedentes de dias ruins. Em uma teleconferência de resultados no início do mês, os executivos relataram que, pela primeira vez em sua história, o Facebook havia perdido usuários ativos diários no trimestre anterior – cerca de um milhão deles, para ser exato.

O Facebook transforma empreendedores em mendigos – Imagem: Pexels

A Meta também gastou bilhões em seus projetos de realidade virtual, que o CEO Mark Zuckerberg apresentou como o futuro da empresa. Na esteira da divulgação sombria, a Meta caiu mais de US$ 237 bilhões em valor no dia 3/2, a maior perda de um dia no mercado de ações dos EUA (isso é mais do que o valor de mercado da Netflix ou do Twitter.) O patrimônio líquido de Zuckerberg também caiu US$ 31 bilhões. Foi uma notícia chocante para uma empresa que declarou números sólidos a fantásticos no passado, mesmo durante períodos de escândalo e ira pública.

Reformar a Big Tech (especificamente o Facebook) parece ser a única coisa com a qual ambos os lados do espectro político concordam em todo o mundo. Os políticos mais sensatos querem proteger os cidadãos dos danos que essas plataformas causam, enquanto políticos controversos de direita, como Ted Cruz [e muitos outros no Brasil], querem se intrometer no Facebook porque acham que a plataforma censura injustamente os pontos de vista conservadores.

A falta de consenso sempre foi o obstáculo para uma reforma significativa. Felizmente, há alguns sinais de encorajamento do lado direito da cena política (nos Estados Unidos), como o senador republicano Dan Sullivan, dizendo que o mundo um dia olhará para este para esse período e perguntará: “O que diabos estávamos pensando?”

Não estávamos pensando

Comparações entre Big Tech e Big Tabacco vêm borbulhando há anos. Mas agora, graças aos Facebook Files do Wall Street Journal, há evidências que mostram claramente os danos causados ​​pelo Facebook e Instagram. Pior ainda, os executivos do Facebook parecem saber exatamente o quão ruim é o problema, porque muitas das evidências são de primeira mão e eles ainda não tomaram nenhuma atitude à altura do problema.

É particularmente preocupante como a chefe de gerenciamento de políticas globais do Facebook, Monika Bickert, tentou distorcer as descobertas, afirmando que “a maioria dos jovens no Instagram está tendo uma boa experiência”.

Bickert estava dobrando a aposta em uma linha de argumento do Facebook, que quer forçar a todo custo a versão de que os resultados de uma pesquisa realizada no mês passado – mostrando que oito em cada 10 usuários adolescentes do Instagram nos EUA disseram que a plataforma os fez se sentir melhor – provou seus méritos.

O que acontece a seguir permanece um mistério. Mas esta semana, eu acho, marca um momento significativo no debate sobre o que fazer com o Facebook.

Pela integridade das pessoas e independência do mercado

Minha relação pessoal com o Facebook não pode ser pior. Para começar, fui um dos primeiros a aderir a plataforma, quando o Orkut era o lugar onde todos estavam. Foi difícil convencer meus amigos a experimentar o Facebook – para que eu tivesse com quem conversar no novo boulevard – que eu considerava menos cafona do que o Orkut com sua interface dantesca. Só muito depois a plataforma finalmente emplacou no Brasil. Eu ainda não sabia, mas naqueles dias minha vida de entrepreneur da web 2.0 iria se chocar contra um zuker-berg.

O Facebook é uma abominação que consumiu toda a Web no Brasil e em outros países do 3º mundo. Para muitos, não ter acesso ao Facebook significa perder a conexão com tudo, incluindo serviços essenciais para a vida offline. Mas nem sempre foi assim

Primeiro, tínhamos aplicativos de desktop (que sempre podiam comunicar dados para servidores de rede). Em seguida, envolvemos os aplicativos no navegador (que é essencialmente um sistema operacional em um sistema operacional), mas tínhamos nossas páginas e sites em servidores independentes, assim como temos nossos blogs em nossos servidores. Trabalhadores da área [eu!] tinham uma vida relativamente boa, construindo sites para empresas de todos os tamanhos, que assim eram donas de seus narizes na web. Eram completamente independentes, retendo com elas todos o valor de seus negócios.

Então inventamos as “redes sociais” e estamos colocando tudo lá.

Poderíamos apenas ter melhorado a tecnologia de aplicativos de desktop (incluindo descoberta, entrega, interoperabilidade, portabilidade e flexibilidade de design de interface do usuário), mas escolhemos os navegadores. Poderíamos parar por aqui, usar a Web padrão e melhorar a experiência de uso de RSS/Atom/RDF/XMPP/etc.

Mas não. Seguimos uma toada enfadonha e insana em direção ao imobilismo e à falta de agência. Rendemos nossas páginas, contatos, assinaturas para o Facebook. Praticamente todas as empresas do mundo agora dependem desse elemento tóxico em suas relações com os consumidores.

No campo da inteligência de negócios as empresas estão prostradas, compartilhando passivamente com os Mestres do Universo o valor principal de seu negócio [que são os bens imateriais proporcionados pelas interações]. O Facebook efetivamente transforma os empreendedores em mendigos a implorar migalhas da economia da atenção.

Os pequenos e médios estúdios e desenvolvedores independentes de software para infraestrutura web, que eram milhões em 2003, estavam aniquilados em 2015. Mesmo em um país da UE muito desenvolvido, as pessoas enfrentam o problema frequente de que algum item está disponível apenas via Facebook. Isso é surreal. Porque as empresas não mais se preocupam em ter seus próprios sites/e-mails/telefones. Isso representa um problema sério – e perturbadoramente óbvio – para a cadeia de suprimentos no médio e longo prazos [para não falar de empregos para a mão de obra qualificada].

Redes sociais precisam de regulamentação anti monopólio

É incrível que tenhamos chegado a um momento na história em que instituições empresariais e pessoas importantes – aparentemente bem sucedidas e inteligentes, voluntariamente contribuem para a hipercentralização da informação [portanto dos negócios] nas mãos de apenas uma corporação, que pode facilmente falhar – intencionalmente ou não. O Facebook está se tornando uma espécie de sistema chinês, em que há apenas uma rede. Os usuários usam aplicativos dentro dessa rede, e para eles, essa é a Internet. Isso é um sonho de controle social para um governo.

Olhando de forma mais ampla, as redes sociais são uma camada desnecessária dentro da arquitetura da web – embora a tendência maliciosa seja envolver as estruturas de comunicação dentro de mais e mais camadas. Este blog é uma prova viva disso [neste momento você não está em uma rede social].

Imagem: Pexels

Por mais liberal que eu possa ser, sou um homem sensato. Eu reconheço o primado do contrato social, que está danificado quase além de possibilidade de reparo, em grande parte por causa apenas dessa empresa de tecnologia. Isso precisa de severa reflexão. Eu esperaria que os governos reconhecessem a gravidade do problema [do monopólio] das redes sociais para a sustentabilidade econômica, para as relações internacionais, para a saúde mental de seus usuários e para a democracia.

Alguns governos já começam a levar as mudanças climáticas cada vez mais a sério. Este problema das redes sociais é o mais recente que enfrentamos e potencialmente pior: são as redes sociais que fomentarão a discórdia e o abandono da razão, que potencialmente nos levarão ao colapso da civilização.

Espero que ao testemunhar os recentes percalços muitas pessoas poderosas tenham se convencido de que o Facebook está, de fato, fora de controle.

Hey, Zuck, conserte o Facebook antes de fugir para o Metaverso (please?)

Os tediosos conflitos do Facebook. Não importa o assunto. Quaisquer que sejam eles, são de uma monotonia atroz. Com emojis – essa simbologia infantil de representação de um rosto genérico – e “compartilhamentos”, o Facebook [e seus semelhantes] nos reduziu ao que somos na essência – ou nos expôs em nossa nudez e nosso vazio, como sempre fomos.

Foto por Pixabay em Pexels.com

A erosão de nosso senso de nós mesmos como uma espécie evoluída e dotada de valores mais elevados tem sido constante. Falando apenas por mim – talvez eu esteja sozinho, mas duvido – o que os algoritmos conseguiram acima de tudo foi me tornar menos interessado nas pessoas. Minha opinião sobre considerar as pessoas como entidades dignas de interesse despencou.

Essa desilusão é um sentimento novo para mim: sempre fui o tipo de idiota que acha nossa espécie fascinante. Eu gosto de conversar com as pessoas e ouvir o que elas pensam – e, francamente, analisá-las. Gosto de tentar descobrir como elas raciocinam. Gosto de como suas histórias pessoais informam sua abordagem a um problema ou a alguma questão. Antes, eu tinha a ideia – talvez ingênua – de que se eu conversasse com alguém por tempo suficiente, poderia descobrir de onde elas vêm, o que as moldou e por que suas vidas as levaram para onde elas estão agora – e se seu esforço valeu a pena.

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Hoje em dia, tenho a impressão de que eu não preciso falar com alguém por mais que 20 minutos para saber tudo o que ele ou ela assiste ou consome e qual o alcance de sua vida cultural. Eu também seria capaz dar um palpite bastante decente sobre que outras coisas que ele ou ela provavelmente acredita. Tamanha simplificação da vida ocorrida nos últimos 15 anos parece indicar que o problema humano está resolvido e tem muito menos a ver com a história ou com a diversidade entre os indivíduos do que se suspeitava.

Essa afirmações podem parecer um exagero, eu reconheço, mas o sucesso que o Facebook teve até hoje demonstra que conhecer o intimo de uma pessoas não é muito difícil como parecia em um passado um pouco mais distante. Desvendar as pessoas é basicamente o que algoritmos fazem. Eles provaram que o panopticon é totalmente possível.

Mas nem o Facebook ou o YouTube se contentam em apenas conhecer as pessoas “para sua melhor conveniência”; eles ativamente segregam as pessoas em perfis, padrões e grupos. O resultado final, como sabemos agora, é catastrófico. Parece seguro dizer agora que os grupos constroem sua própria dinâmica e tornam as pessoas mais bajuladoras ao líder autoritário, ou chatas, ou furiosas. A expressão “Câmara de eco” nem chega perto de descrever o empobrecimento da experiência humana no ambiente do Facebook.

O Facebook diz valorizar a conexão entre as pessoas. Mas acontece que não há nada intrinsecamente bom na conexão online entre as pessoas. Na internet, a exposição a pessoas diferentes muitas vezes nos faz odiá-las, e esse ódio estrutura cada vez mais nossa política. A corrosão social causada pelo Facebook e outras plataformas não é um efeito colateral de más decisões de gerenciamento e design. É algo que está embutido na própria natureza da mídia social.

Há muitos motivos pelos quais o Facebook e as empresas de mídia social que vieram depois dele estão implicados no colapso democrático, na violência comunitária em todo o mundo e na guerra civil [ainda fria, mas que fica cada vez mais quente] em lugares como os Estados Unidos e mesmo o Brasil. Esses sistemas em redes centralizadas, com interação entre os membros mediadas fora da ordem cronológica, são motores de foguete para espalhar desinformação e combustível de jato para teorias da conspiração. Eles recompensam as pessoas por expressarem raiva e desprezo pelo “outro”, sequestrando e usando os mesmos circuitos mentais que injetam dopamina na circulação quando você ganha jogando caça-níqueis.

Foto por Eugene Capon em Pexels.com

Metaverso

Mesmo recentemente, até alguns anos atrás, havia ainda espaço para resistir a esse aspecto horrível da maleabilidade humana. Os experimentos de aprisionamento de Stanford haviam sido desmistificados e parecia que nossas piores noções a respeito da humanidade haviam desaparecido. “Todo mundo é um idiota online, mas as pessoas não são suas performances digitais”, alguém disse. Ou talvez as pessoas sejam mais complicadas do que parece.

Vou ser cuidadoso aqui e dizer que, claro, não é apenas o Facebook que trilha a senda da infâmia. Mas como sou um falível humano [embora fazer parte da humanidade tenha um quê de rebaixamento existencial no momento], vou recorrer à minha própria subjetividade [basicamente não algorítmica]: O Facebook é obviamente o pior ofensor entre todos – pelo menos quando se trata de manipular a lamentável previsibilidade dos afetos humanos.

Nas próximas semanas [e meses] espero ser capaz de absorver as implicações da mudança [do nome da holding co. da rede para Meta] para minha esfera pessoal, como também os efeitos de larga escala, desde a política até a democracia, passando pela saúde pública, à medida que mais fatos forem sendo conhecidos [ainda estou digerindo os Facebook Papers].

Eu adoraria prognosticar que a reformulação da marca visando ocupar o Metaverso será um fracasso e que os humanos enxergarão a verdade através da enorme cortina de relações públicas e propaganda. É deprimente que uma empresa que provou infligir tantos danos à sociedade tenha decidido não fazer uma mínima auto crítica sobre seu passado, não consertar nada e, de fato, expandir suas operações para usurpar ainda mais a vida das pessoas.

Eu gostaria de acreditar que o Metaverso não vai funcionar, e que o convite ridículo de Mark Zuckerberg para que as pessoas “se conectem nos espaços ilimitados da realidade virtual” – onde peixes nadam entre as árvores, e Lucy voa no céu com diamantes – não atrairá ninguém. Mas vamos encarar a verdade: antes de todos nós começarmos a usá-los, eu também achava que os rostinhos de emoji eram a suprema idiotia. Veja onde estamos agora… :)

* * *

Nota: Se este post for compartilhado no Facebook, o que é muito bem vindo [engajar com o adversário em seu próprio campo], claro que eu vou apreciar por demais a ironia. ká ká ká.

Facebook Muda de Nome Rumo ao Metaverso

O Facebook costumava ser visto de forma positiva pelos usuários, pois conectava o mundo e aproximava as pessoas. Isso não é mais o caso. Tem havido escândalos após escândalos e os usuários agora associam o Facebook a todas as coisas negativas que o Facebook dizia combater.

Imagem: Pexels

Neste ponto da história, o Facebook não pode mais vencer a guerra para ganhar os corações e mentes das pessoas a respeito uma série de questões. Então, em vez disso, ele precisa construir “uma nova narrativa”. A empresa está, assim, abandonando o nome e a marca Facebook e se concentrando em uma nova visão em torno do chamado Metaverso.

Não importa se essa visão é possível ou não, ou se a realidade virtual (RV) vai ou não se tornar o próximo paradigma de interação social. O importante é que trata-se de um segmento novo e interessante para construir uma nova marca e Mark Zuckerberg não quer perder a oportunidade.

O metaverso em minha opinião, sempre foi um grande embaraço. O Second Life existe há 20 anos e ainda é uma novidade divertida. O que o Facebook quer é adicionar publicidade e conteúdos de marca e fazer um second-life mais caro devido aos requisitos de hardware de última geração [além de torná-lo mais lento, com uma interface mais difícil – porque é RV].

Ninguém descobriu ainda uma maneira de proporcionar uma boa experiência de usuário em sistemas de realidade virtual, e também nenhum “caso de uso matador”. Não acho que o Facebook seja particularmente capaz de lançar algo que possa competir com qualquer coisa que a Microsoft ou a Apple possam lançar. Todos os CEOs que compram essa ideia de metaverso só falam sobre o universo de possibilidades, mas sinto que a única possibilidade que estão eles perseguindo é construir um Wal-Mart na Times Square.

A maioria desses CEOs aponta com aprovação o execrável [filme] “Jogador 1” como exemplo de uma visão a ser realizada. Eu sinto muito, mas penso que um garoto excitado de 15 anos raspando os pêlos do corpo para ser mais aerodinâmico na RV, enquanto se envolve em extensos monólogos de autocongratulação sobre como ele é um cara legal por não sentir repulsa por sua namorada “rubenesca”, enquanto recita versos de Ghostbusters em uma série de vinhetas incoerentes do tipo “lembra disso?”, não é uma visão para o futuro.

É uma pena porque acho que há obviamente usos legítimos para a telepresença via RV. Ela pode ser a próxima fronteira da videochamada, o que parece estar de acordo com a missão declarada do Facebook de conectar o mundo. Mas, suspeito que na realidade tudo o que nós teremos será um videogame extremamente ruim em vez disso – será que eles também terão NFTs?.

Posso ver como pode ser frustrante administrar uma empresa cheia de esforços diferentes, alguns dos quais pretendem ser novidadeiros ou pelo menos representar uma mudança de direção. Mas, debalde todos os esforços, ainda assim não deixam de ser percebidos e lembrados como mais uma coisa azul.

Espero que essa jogada permita que Zuckerberg permaneça tecnologicamente relevante, ocupando o lugar ao qual seus dons pessoais o levaram, em vez de ficar atolado em questões sobre os padrões éticos [ou falta de] em suas plataformas usadas por adolescentes e crianças.

Idealmente, uma plataforma ética também poderia ser cultivada por meio de algum tipo de transferência de parte do poder tecnológico acumulado pelas Big Techs à comunidade, de alguma forma. Um dos maiores desafios para o futuro é, em minha opinião, permitir que tais sistemas éticos se desenvolvam de forma padronizada, mas de maneira diversa. Em um mundo ideal, cada nova comunidade ou grupo deve ter sua própria dinâmica psicológica e merece a oportunidade de existir sem ser arrastada para a mesmice da(s) plataforma(s) por um conjunto agressivo, irritado ou tóxico de usuários.

Sinceramente, me deprime que esse revival do termo metaverso esteja sendo levado a sério e que provavelmente irá grudar no vocabulário como o desprezível termo “nuvem” e, pior, que o desenvolvimento dessas tecnologias esteja sendo conduzido por uma empresa como o Facebook.

Pessoalmente não estou interessado na visão particular de Mark Zuckerberg sobre o metaverso. Em vez disso, tenho medo de quantos mais caminhos errados podemos tomar no modo como desenvolvemos nossa tecnologia da informação e a aplicamos na sociedade. A visão FOSS [Free Open-Source Software – software livre] da computação, em que o progresso do software é compartilhado e atua como um equalizador, e onde as pessoas controlam o comportamento do seu software é o que precisamos, e não um lixo novo e melhor de vigilância-vigilância-propaganda-usuário-hostil [Agora em 3D!]

Voltaremos ao tema, certamente.

Tempo de Revisitar o Método Científico

É como se eu estivesse lançando ao mar uma mensagem dentro de uma garrafa – um gesto talvez desesperado – na tentativa de salvar um fragmento precioso do conhecimento humano da fúria dos bárbaros. Assim me sinto, em 2021, ao escrever estas linhas.

Imagem: Pexels

Estupefato e, francamente, um tanto abalado em minha condição de cidadão, depois de testemunhar (e sobreviver a) o assalto à razão perpetrado nos últimos quase dois anos pelo governo e por parte dos brasileiros, vejo-me a refletir sobre o que poderia explicar tamanho desprezo pela lógica, pela ética e pela própria razão durante esta desditosa pandemia.

Eu pessoalmente suspeito que o motivo seja um item [ou mais] da lista abaixo:

  • A maioria das pessoas não conhece a ciência, e mesmo quando sabem “sobre” a ciência, muitas vezes têm a impressão errada dela.
  • Eles usam a palavra “coronavírus” como se houvesse apenas uma variante. Não estão cientes que um vírus que pode sofrer mutações facilmente.
  • Eles não conhecem o sistema de “revisão pelos pares”, e têm medo de que os cientistas estejam mentindo para eles.
  • Eles dizem a si mesmos que é o Sol que está tornando a Terra mais quente, “porque é óbvio”.
  • Eles não querem conhecer a ciência, porque sabem que isso significa ler, estudar, e todas as dificuldades envolvidas em aprender qualquer coisa nova. Mas não gostam da implicação de que as pessoas educadas “sabem mais do que eles” sobre qualquer coisa.
  • Eles não querem aceitar a ciência, porque são profundamente supersticiosos e/ou porque eles têm fé em algo que eles acham que a ciência contradiz.

Quaisquer que sejam as inclinações deste nosso extraordinário povo, tento aqui resgatar um pouco da sanidade perdida ou, ao menos, preservar a minha. Textos como este se multiplicam pela internet aos milhares (ainda que raramente em português). Mas, independentemente de quantas vezes já tenha sido dito, o tema exige hoje a minha versão pessoal – talvez mais necessária para mim do que para qualquer outra pessoa.

O que é o método científico?

O método científico é um processo de investigação usado para explorar observações e responder perguntas. Isso não significa que todos os cientistas sigam exatamente o mesmo processo. Algumas áreas da ciência podem ser testadas mais facilmente do que outras. Por exemplo, os cientistas que estudam a evolução das estrelas ou a fisiologia dos dinossauros não podem acelerar a vida de uma estrela em um milhão de anos ou fazer exames médicos nos dinossauros para testar suas hipóteses.

Quando a experimentação direta não é possível, os cientistas adaptam o método científico, dentro dos limites da lógica. Essa plasticidade permite quase tantas versões do método científico quanto existem cientistas. Mas mesmo quando modificado, o objetivo do método permanece o mesmo: descobrir relações de causa e efeito fazendo perguntas, reunindo e examinando cuidadosamente as evidências e verificando se todas as informações disponíveis podem ser combinadas em uma resposta lógica.

Quem inventou o método científico?

O método científico não foi inventado por nenhuma pessoa, mas é o resultado de séculos de debate sobre a melhor forma de descobrir como o mundo natural funciona. O antigo filósofo grego Aristóteles foi um dos primeiros a promover a noção de que a observação e o raciocínio lógico são os instrumentos mais adequados para desvendar o funcionamento da natureza. O matemático árabe Hasan Ibn al-Haytham é frequentemente citado como a primeira pessoa a escrever sobre a importância da experimentação. Assim, temos, através do legado desses filósofos, os princípios científicos basilares da observação, do raciocínio lógico e da experimentação.

Desde então, um grande número de filósofos/cientistas escreveu sobre como a ciência deveria idealmente ser conduzida. Entre eles os eminentes Roger Bacon, Tomás de Aquino, Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes, Isaac Newton, John Hume e John Stuart Mill. Os cientistas hoje continuam a evoluir e refinar o método científico à medida que exploram novas técnicas e novas áreas da ciência.

Os cientistas realmente usam o método científico?

Os cientistas sempre usam o método científico, mas nem sempre exatamente conforme estabelecido nas etapas ensinadas em sala de aula. Assim como um chef pode fazer algumas alterações em uma receita para se adaptar aos ingredientes disponíveis, um cientista igualmente pode adaptar o método científico alternando etapas, saltando para frente e para trás entre as etapas ou repetindo um subconjunto das etapas – porque ele ou ela está lidando com as condições imperfeitas do mundo real.

Mas é importante salientar que os cientistas sempre se esforçam para manter os princípios básicos do método científico usando observações, experimentos e dados, para confirmar ou rejeitar explicações de como um fenômeno funciona.

O método científico: etapas e exemplos

Mesmo que o método científico se apresente como uma série progressiva de etapas, é preciso ter em mente que novas informações ou pensamentos sobre o problema em foco podem obrigar o pesquisador a recuar e repetir as etapas a qualquer momento durante o processo. Um processo como o método científico que envolve backup e repetição é chamado de processo iterativo.

Esteja você desenvolvendo um projeto de feira de ciências, uma atividade científica em sala de aula, uma pesquisa independente ou qualquer outra investigação científica prática, a compreensão das etapas do método científico o ajudará a focar sua pergunta e trabalhar usando as observações e os dados objetivos, para responder à hipótese da maneira mais rigorosa possível.

Fluxograma do método científico

O Método Científico começa com uma pergunta. Uma pesquisa de base é então conduzida para tentar responder a essa pergunta. Se você deseja encontrar evidências para uma resposta à questão, você elabora uma hipótese e testa essa hipótese em um experimento. Se o experimento funcionar e os dados forem analisados, você pode provar ou refutar sua hipótese. Se sua hipótese for refutada, você pode voltar com as novas informações obtidas e criar uma nova hipótese para reiniciar o processo científico. – Diagrama: Vox Leone

Etapas do Método Científico

  1. Fazer uma pergunta

O método científico começa quando o pesquisador [que pode ser qualquer pessoa que busque a verdade, independente de sua escolaridade] faz uma pergunta sobre algo que observa:

Ex: Será que a Cloroquina funciona contra a COVID-19?

  1. Pesquisa de base

Em vez de começar do zero, o cientista rigoroso elabora um plano para responder à sua pergunta, e usa bibliotecas, pesquisas em campo e na Internet para se aprofundar no conhecimento do domínio em estudo.

  1. Elaborar uma hipótese

Uma hipótese é um palpite sobre como as coisas funcionam. É uma tentativa de responder à pergunta original com uma afirmação que pode ser testada. A hipótese deve ser declarada junto com a previsão resultante:

Ex: Se Alice tomar Cloroquina ela não vai se infectar com COVID-19.

  1. Testar a hipótese fazendo um experimento

O experimento então testa se a previsão é precisa e, portanto, se a hipótese é suportada ou não. O experimento científico obedece a um método próprio, para garantir condições controladas – para que seja um teste justo. Em um teste justo o pesquisador certifica-se de alterar apenas um fator de cada vez, mantendo todas as outras condições iguais.

É normal um estudo repetir os experimentos várias vezes para ter certeza de que os primeiros resultados não foram acidentais.

Ex: Tratar um grupo de 100 pacientes com Cloroquina e um outro grupo de controle de 100 pacientes com um medicamento inócuo [placebo].

  1. Análise dos dados e conclusão

Uma vez que o experimento esteja completo, o pesquisador coleta suas medições e as analisa para ver se elas confirmam a hipótese ou não.

Ex: de 100 pacientes tratados com Cloroquina, 90 foram infectados com COVID-19. O número de infectados foi igual no grupo de controle, que tomou placebo. Conclui-se que a hipótese de que a Cloroquina evita a infecção por COVID-19 é FALSA.

Em suas atividades diárias os cientistas profissionais rotineiramente concluem – às vezes com decepção – que suas previsões não foram precisas e suas hipóteses não foram confirmadas. Mesmo decepcionados eles comunicarão os resultados negativos de seu experimento. Em seguida, voltarão a elaborar uma nova hipótese com base nas novas informações que aprenderam durante o experimento. Isso inicia uma nova iteração do processo do método científico.

  1. Comunicação dos resultados

Para concluir o estudo o pesquisador comunicará seus resultados a outras pessoas em um relatório final. Cientistas profissionais em geral publicam seu relatório final em uma revista científica ou apresentam seus resultados em um pôster ou em uma palestra em um encontro científico.

Em suma, a verdade científica revelada pelo método é a correspondência com a realidade objetiva. As hipóteses podem ou não corresponder à realidade. Quando uma hipótese corresponde à realidade, ela é confirmada como verdadeira. Quando uma hipótese descreve uma realidade diferente do que ela propõe, essa hipótese é falsa. A maneira como descobrimos se uma dada crença é verdadeira ou falsa é através do uso das evidências empíricas e lógicas requeridas pelo método científico.


Referências:

Karl Popper: Conjectures and Refutations
https://www.academia.edu/38681885/Karl_Popper_Conjectures_and_Refutations

What Is Empirical Testing?
http://www.strevens.org/research/episteme/Empirica.pdf

Democracy of Incomplete Victories: State, Civil Society, and the Scientific Method
https://philpapers.org/archive/KASDOI.pdf

Sobre os Problemas com o Facebook & Cia

Um usuário [ramenporn], dizendo ser da equipe de recuperação de desastre do Facebook, postou esta nota no Reddit, hoje mais cedo:

Imagem: iStock

Como muitos de vocês sabem, o DNS para serviços FB foi afetado e isso é provavelmente um sintoma do problema real, que é o peering de BGP com roteadores do Facebook caiu, muito provavelmente devido a uma mudança de configuração que entrou em vigor pouco antes de as interrupções acontecerem (começaram por volta das 15h40 UTC). Há pessoas agora tentando obter acesso aos roteadores de peering para implementar correções, mas as pessoas com acesso físico estão sem contato com as pessoas que têm conhecimento de como realmente autenticar nos sistemas e das pessoas que sabem o que realmente fazer. Então agora há um desafio logístico para unificar todo esse conhecimento. Parte disso também se deve ao menor número de funcionários nos centros de dados devido às medidas contra a pandemia.

Portanto, o problema básico parece ser “BGP peering“, que é o pareamento entre os DNS dos serviços do Facebook, em explicação simples (ver Aspectos Técnicos, abaixo, para uma explicação mais técnica), além da distribuição física das equipes por muitos locais separados.

O post foi em seguida apagado, assim como diversas contas desse usuário em outros sites e canais.

Eu imagino que ele não foi autorizado a postar essas informações. Espero que ele não perca o emprego.

Do que o FB tem medo? Penso que desde que essas pessoas não estejam compartilhando informações internas/proprietárias da empresa, esse assunto não é particularmente sensível. Além disso, ter alguma transparência sobre o problema é bom para todos.

Quem gostaria de trabalhar para uma empresa que pode tomar medidas disciplinares drásticas porque um engenheiro postou um comentário no Reddit basicamente para dizer “BGP’s down lol” – Se eu estivesse no comando, daria a ele um modesto bônus, por ajudar a alcançar de forma direta o usuário e a comunidade em geral.

Por outro lado…

Compartilhar o status de um evento em andamento pode complicar a recuperação. Tais relatórios públicos em tempo real podem atrapalhar o fluxo de informação entre as equipes.

Conclusão

Tenho certeza de que acionistas e outros líderes de negócios da empresa ficarão muito mais confortáveis em relatar isso como uma série de falhas técnicas infelizes (que alegarão fazer parte do negócio), em vez de uma falha organizacional de toda a empresa. O fato de não poderem identificar fisicamente as pessoas que conhecem a configuração do roteador mostra uma organização que ainda não pensou em todos os seus modos de falha. Muita gente não vai gostar disso. Não é incomum ter técnicos de datacenter com acesso ao sistema e o pessoal de software real sendo barrado. Contudo, sendo esse o motivo pelo qual um dos serviços mais populares do mundo está desativado por quase 5 horas agora, levantará muitos questionamentos..

Pessoalmente eu também espero que isso não prejudique as perspectivas de aumento no trabalho remoto. Se eles tiverem problemas em colocar na sala de comando alguém que conheça a configuração, porque todos moram a uma viagem de avião dos datacenters, eu posso ver no futuro próximo gerentes de muitos ramos de atividade relutando em ter uma equipe completamente remota.

Fica a lição para os empreendedores, que ficaram reféns de um serviço sobre o qual eles não têm controle. Eu nunca perco a oportunidade de salientar o quanto é importante controlar seus próprios dados e os dados de sua empresa. Faça um site dedicado ao seu negócio em seu próprio domínio. Fale com seus clientes e parceiros através de blogs como este. Consulte uma empresa de sistemas [como a Vox Leone] para ver onde seu negócio pode melhorar. O custo-benefício é altamente compensador. Nunca se esqueça que a tal “nuvem” é apenas o computador de outra pessoa. Use as redes sociais apenas para o que elas foram criadas: falar com papai, mamãe e titia.

Aspectos Técnicos: Sobre o BGP

Como reportou ramenporn, no centro deste apagão está a tecnologia Border Gateway Protocol (BGP), que é o serviço postal da Internet. Quando alguém coloca uma carta no correio, o serviço postal processa a correspondência e escolhe um caminho rápido e eficiente para entregar a carta ao destinatário. Da mesma forma, quando alguém envia dados pela Internet, o BGP é responsável por examinar todos os caminhos disponíveis que os dados podem percorrer e escolher a melhor rota, o que geralmente significa pular entre sistemas autônomos.

BGP é o protocolo que faz a Internet funcionar. Ele faz isso habilitando o roteamento de dados. Quando um usuário em Cingapura acessa um site hospedado na Argentina, o BGP é o protocolo que permite que a comunicação aconteça de forma rápida e eficiente.


Abaixo um traceroute do meio da tarde, mostrando os serviços Facebook em downtime

> traceroute a.ns.facebook.com
      traceroute to a.ns.facebook.com (129.134.30.12), 30 hops max, 60 byte packets
      1  service.local.net (192.168.1.254)  0.484 ms  0.474 ms  0.422 ms
      2  107-131-124-1.lightspeed.sntcca.sbcglobal.net (107.131.124.1)  1.592 ms  1.657 ms  1.607 ms 
      3  71.148.149.196 (71.148.149.196)  1.676 ms  1.697 ms  1.705 ms
      4  12.242.105.110 (12.242.105.110)  11.446 ms  11.482 ms  11.328 ms
      5  12.122.163.34 (12.122.163.34)  7.641 ms  7.668 ms  11.438 ms
      6  cr83.sj2ca.ip.att.net (12.122.158.9)  4.025 ms  3.368 ms  3.394 ms
      7  * * *
      ...