Tempo de Revisitar o Método Científico

Como se eu estivesse a lançar ao mar uma mensagem em uma garrafa, em um esforço patético, desesperado, para salvar um pedaço precioso do conhecimento humano da sanha dos bárbaros. Assim me sinto em 2021 ao teclar esta peça.

Imagem: Pexels

Estupefato [e, francamente, um tanto abalado na cidadania] depois de testemunhar o [e sobreviver ao] assalto à razão perpetrado nos últimos quase dois anos pelo governo e parte dos brasileiros, me ponho a divagar sobre o que explicaria tamanho desprezo dos patrícios à lógica [além da ética] e à razão, durante a desditosa pandemia.

Eu pessoalmente suspeito que o motivo seja um item [ou mais] da lista abaixo:

  • A maioria das pessoas não conhece a ciência, e mesmo quando sabem “sobre” a ciência, muitas vezes têm a impressão errada dela.
  • Eles usam a palavra “coronavírus” como se houvesse apenas uma variante. Não estão cientes que um vírus que pode sofrer mutações facilmente.
  • Eles não conhecem o sistema de “revisão pelos pares”, e têm medo de que os cientistas estejam mentindo para eles.
  • Eles dizem a si mesmos que é o Sol que está tornando a Terra mais quente, “porque isso é óbvio”.
  • Eles não querem conhecer a ciência, porque sabem que isso significa ler, estudar, e todas as dificuldades envolvidas em aprender qualquer coisa nova. Mas não gostam da implicação de que as pessoas educadas “sabem mais do que eles” sobre qualquer coisa.
  • Eles não querem aceitar a ciência, porque são profundamente supersticiosos e/ou porque eles têm fé em algo que eles acham que a ciência contradiz.

Quaisquer que sejam as inclinações deste nosso fantástico povo, eu tento resgatar um pouco da sanidade perdida, senão para benefício do ambiente geral, pelo menos para mim mesmo. Como uma litania, textos como este se repetem pela internet afora aos milhares [embora raramente em português]. Mas, não importando quantas vezes já tenha sido repetido, o tema ganha aqui hoje a minha muito necessária versão pessoal.

O que é o método científico?

O método científico é um processo de investigação usado para explorar observações e responder perguntas. Isso não significa que todos os cientistas sigam exatamente o mesmo processo. Algumas áreas da ciência podem ser testadas mais facilmente do que outras. Por exemplo, os cientistas que estudam a evolução das estrelas ou a fisiologia dos dinossauros não podem acelerar a vida de uma estrela em um milhão de anos ou fazer exames médicos nos dinossauros para testar suas hipóteses.

Quando a experimentação direta não é possível, os cientistas adaptam o método científico, dentro dos limites da lógica. Essa plasticidade permite quase tantas versões do método científico quanto existem cientistas. Mas mesmo quando modificado, o objetivo do método permanece o mesmo: descobrir relações de causa e efeito fazendo perguntas, reunindo e examinando cuidadosamente as evidências e verificando se todas as informações disponíveis podem ser combinadas em uma resposta lógica.

Quem inventou o método científico?

O método científico não foi inventado por nenhuma pessoa, mas é o resultado de séculos de debate sobre a melhor forma de descobrir como o mundo natural funciona. O antigo filósofo grego Aristóteles foi um dos primeiros a promover a noção de que a observação e o raciocínio lógico são os instrumentos mais adequados para desvendar o funcionamento da natureza. O matemático árabe Hasan Ibn al-Haytham é frequentemente citado como a primeira pessoa a escrever sobre a importância da experimentação. Assim, temos, através do legado desses filósofos, os princípios científicos basilares da observação, do raciocínio lógico e da experimentação.

Desde então, um grande número de filósofos/cientistas escreveu sobre como a ciência deveria idealmente ser conduzida. Entre eles os eminentes Roger Bacon, Tomás de Aquino, Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes, Isaac Newton, John Hume e John Stuart Mill. Os cientistas hoje continuam a evoluir e refinar o método científico à medida que exploram novas técnicas e novas áreas da ciência.

Os cientistas realmente usam o método científico?

Os cientistas sempre usam o método científico, mas nem sempre exatamente conforme estabelecido nas etapas ensinadas em sala de aula. Assim como um chef pode fazer algumas alterações em uma receita para se adaptar aos ingredientes disponíveis, um cientista igualmente pode adaptar o método científico alternando etapas, saltando para frente e para trás entre as etapas ou repetindo um subconjunto das etapas – porque ele ou ela está lidando com as condições imperfeitas do mundo real.

Mas é importante salientar que os cientistas sempre se esforçam para manter os princípios básicos do método científico usando observações, experimentos e dados, para confirmar ou rejeitar explicações de como um fenômeno funciona.

O método científico: etapas e exemplos

Mesmo que o método científico se apresente como uma série progressiva de etapas, é preciso ter em mente que novas informações ou pensamentos sobre o problema em foco podem obrigar o pesquisador a recuar e repetir as etapas a qualquer momento durante o processo. Um processo como o método científico que envolve backup e repetição é chamado de processo iterativo.

Esteja você desenvolvendo um projeto de feira de ciências, uma atividade científica em sala de aula, uma pesquisa independente ou qualquer outra investigação científica prática, a compreensão das etapas do método científico o ajudará a focar sua pergunta e trabalhar usando as observações e os dados objetivos, para responder à hipótese da maneira mais rigorosa possível.

Fluxograma do método científico

O Método Científico começa com uma pergunta. Uma pesquisa de base é então conduzida para tentar responder a essa pergunta. Se você deseja encontrar evidências para uma resposta à questão, você elabora uma hipótese e testa essa hipótese em um experimento. Se o experimento funcionar e os dados forem analisados, você pode provar ou refutar sua hipótese. Se sua hipótese for refutada, você pode voltar com as novas informações obtidas e criar uma nova hipótese para reiniciar o processo científico. – Diagrama: Vox Leone

Etapas do Método Científico

  1. Fazer uma pergunta

O método científico começa quando o pesquisador [que pode ser qualquer pessoa que busque a verdade, independente de sua escolaridade] faz uma pergunta sobre algo que observa:

Ex: Será que a Cloroquina funciona contra a COVID-19?

  1. Pesquisa de base

Em vez de começar do zero, o cientista rigoroso elabora um plano para responder à sua pergunta, e usa bibliotecas, pesquisas em campo e na Internet para se aprofundar no conhecimento do domínio em estudo.

  1. Elaborar uma hipótese

Uma hipótese é um palpite sobre como as coisas funcionam. É uma tentativa de responder à pergunta original com uma afirmação que pode ser testada. A hipótese deve ser declarada junto com a previsão resultante:

Ex: Se Alice tomar Cloroquina ela não vai se infectar com COVID-19.

  1. Testar a hipótese fazendo um experimento

O experimento então testa se a previsão é precisa e, portanto, se a hipótese é suportada ou não. O experimento científico obedece a um método próprio, para garantir condições controladas – para que seja um teste justo. Em um teste justo o pesquisador certifica-se de alterar apenas um fator de cada vez, mantendo todas as outras condições iguais.

É normal um estudo repetir os experimentos várias vezes para ter certeza de que os primeiros resultados não foram acidentais.

Ex: Tratar um grupo de 100 pacientes com Cloroquina e um outro grupo de controle de 100 pacientes com um medicamento inócuo [placebo].

  1. Análise dos dados e conclusão

Uma vez que o experimento esteja completo, o pesquisador coleta suas medições e as analisa para ver se elas confirmam a hipótese ou não.

Ex: de 100 pacientes tratados com Cloroquina, 90 foram infectados com COVID-19. O número de infectados foi igual no grupo de controle, que tomou placebo. Conclui-se que a hipótese de que a Cloroquina evita a infecção por COVID-19 é FALSA.

Em suas atividades diárias os cientistas profissionais rotineiramente concluem – às vezes com decepção – que suas previsões não foram precisas e suas hipóteses não foram confirmadas. Mesmo decepcionados eles comunicarão os resultados negativos de seu experimento. Em seguida, voltarão a elaborar uma nova hipótese com base nas novas informações que aprenderam durante o experimento. Isso inicia uma nova iteração do processo do método científico.

  1. Comunicação dos resultados

Para concluir o estudo o pesquisador comunicará seus resultados a outras pessoas em um relatório final. Cientistas profissionais em geral publicam seu relatório final em uma revista científica ou apresentam seus resultados em um pôster ou em uma palestra em um encontro científico.

Em suma, a verdade científica revelada pelo método é a correspondência com a realidade objetiva. As hipóteses podem ou não corresponder à realidade. Quando uma hipótese corresponde à realidade, ela é confirmada como verdadeira. Quando uma hipótese descreve uma realidade diferente do que ela propõe, essa hipótese é falsa. A maneira como descobrimos se uma dada crença é verdadeira ou falsa é através do uso das evidências empíricas e lógicas requeridas pelo método científico.


Referências:

Karl Popper: Conjectures and Refutations
https://www.academia.edu/38681885/Karl_Popper_Conjectures_and_Refutations

What Is Empirical Testing?
http://www.strevens.org/research/episteme/Empirica.pdf

Democracy of Incomplete Victories: State, Civil Society, and the Scientific Method
https://philpapers.org/archive/KASDOI.pdf

Primeiro Aqui*: Estudo Indica Que a Covid-19 é Uma Doença do Sistema Circulatório

No domingo (14/3) surgiu na minha Internet o estudo da Sociedade Européia de Cardiológia dando conta de que, afinal, a COVID-19 é, por todas as evidências, uma doença endotelial. Essa é uma notícia absolutamente significativa, pois poderia mudar a concepção sobre a doença, ainda tencarada como enfermidade respiratória. Abaixo traduzimos o resumo do trabalho, com um link para o paper original. Certamente haverá cada vez menos espaço para o meme da “gripezinha”.

(*) Em lingua portuguesa.

Resumo

O endotélio vascular fornece a interface crucial entre o compartimento de sangue e os tecidos, e exibe uma série de propriedades notáveis ​​que normalmente mantêm a homeostase. Esta gama de funções estritamente reguladas inclui o controle da hemostase, fibrinólise, vasomotação, inflamação, estresse oxidativo, permeabilidade vascular e estrutura.

Embora essas funções participem da regulação momento-a-momento da circulação e coordenem muitos mecanismos de defesa no hospedeiro, elas também podem contribuir para a doença, quando suas funções, geralmente homeostáticas e defensivas, se alinham e se transformam contra o anfitrião.

SARS-COV-2, o agente etiológico da Covid-19, é a causa da atual pandemia. Produz manifestações inesperadas da cabeça aos pés, causando estragos indiscriminados em vários sistemas de órgãos, incluindo os pulmões, coração, cérebro, rim e vasculatura. Este ensaio explora a hipótese de que a Covid-19, particularmente nos últimos estágios complicados, represente uma doença endotelial. Citocinas, mediadores protéicos pro-inflamatórios, servem como sinais de perigo que mudam as funções endoteliais do modo homeostático para o modo defensivo. O “fim de jogo” da Covid-19 geralmente envolve uma tempestade de citocina, um fenômeno flogistico alimentado por feedbacks positivos bem compreendidos, que governam a produção de citocinas e sobrecarregam os mecanismos contra-regulatórios.

O conceito de Covid-19 como uma doença endotelial proporciona uma imagem fisiopatológica unificadora dessa infecção furiosa, e também fornece estrutura para uma estratégia de tratamento racional, em um momento em que possuímos uma base de evidência modesta para orientar nossas tentativas terapêuticas de confrontar esta nova pandemia.

Link para o trabalho original: https://academic.oup.com/eurheartj/article/41/32/3038/5901158

Este texto foi editado para melhor clareza.