Tokens Não Fungíveis e a Propriedade Real

A Blockchain, para além do mundo das criptomoedas, é cheia de casos de uso em potencial que supostamente seriam game-changers. Mencionei isso, um tanto obliquamente, em minha última postagem, com um exemplo de sistema eleitoral. Mas as propostas de casos de uso vão muito além disso. Nesta postagem vamos propositalmente considerar um cenário pessimista para a adoção da Blockchain.

Não se limitando ao universo da logística, muitas startups tentam implementar um caso de uso da Blockchain em torno do registro e transferência de propriedade de alguma coisa. Afinal, se é possível para as criptomoedas, então por que não podemos usá-la para tudo? A esse respeito, um exemplo que temos visto frequentemente, e que também foi alvo de um post neste blog, é registrar na Blockchain propriedade de arte ou bens de luxo – através dos chamados NFTs.

Vamos conjecturar sobre isso, empregando o método de Einstein, o experimento mental [gedanken experiment] – como fizemos no último post. Suponha que temos um blockchain aceito globalmente que registra todas as transações de arte. O mundo inteiro passou por um processo de rigoroso de compliance; todas as transações anteriores foram registradas e as chaves foram emitidas para todos os legítimos proprietários. O estado espanhol agora tem uma chave privada com a qual pode provar que é o proprietário de Guernica e também gregistrou na blockchain que a peça está atualmente em exibição no Museu do Prado. Guernica se tornou um token não fungível.

Então, o governo espanhol tem um protocolo de segurança de primeiríssima linha para proteger a chave privada ligada à propriedade de Guernica. Mas, espere, acabou de haver um golpe militar apoiado por franquistas. Na mudança de governo alguns altos burocratas se corromperam. São eles que têm acesso às chaves, e as usam para transferir Guernica para um de seus comparsas, Juan El-Loco.

Guernica, de Pablo Picasso

O que acontece agora? De acordo com a blockchain, Juan El-Loco é o legítimo proprietário. Pode ele simplesmente impor essa propriedade contra a vontade do governo espanhol e forçar o Prado a levar Guernica para a casa de praia dele em Isla Margarita? Bem, o governo espanhol tem certamente meios para forçá-lo a reverter a transação. Mas e se ele for inesperadamente astuto e destruir a chave privada? Transferir a propriedade torna-se agora virtualmente impossível.

Este é um exemplo extremo e acho que ninguém neste momento [posso estar errado] argumentaria a favor de uma explosão no uso de blockchain na arte. Mas este experimento mental destaca o problema central de usar blockchain para ancorar o mundo real. Para cada transferência de propriedade, você tem duas operações. Elas precisam estar sincronizadas o tempo todo para funcionar corretamente. Em Ciência da Computação, isso é chamado de “transação atômica”. A transação atômica ou se completa totalmente ou falha totalmente. Ou você executa todas as operações ou nenhuma delas. Isso já é difícil em transações concorrentes efetuadas em um único banco de dados; quase impossível em dois sistemas e é essencialmente impossível na complexidade desestruturada do mundo real.

A única maneira de contornar esse problema no mundo real é definir um dos sistemas como “fonte da verdade”. Os entusiastas da blockchain adorariam que a blockchain fosse a fonte da verdade para muitas atividades humanas, mas é exatamente aqui que deparamos com problemas inesperados, como descrevi há pouco (essencialmente, o estado espanhol tendo que abrir mão da propriedade de Guernica porque a blockchain atesta isso).

Na realidade, a “fonte da verdade”, muito provavelmente, seriam os tribunais do mundo. E isso já acontece. A menos que o estado espanhol concorde em desistir da propriedade de Guernica (o que certamente passaria por um processo político-legal complicado), ela nunca mudará de proprietário. E se isso acontecer, seria o que chamamos de roubo e o Estado espanhol tem um mandato legal para retomar a propriedade.

Para concluir o experimento: quando sua fonte de verdade é o sistema legal, não há absolutamente nenhuma necessidade de uma blockchain para arbitrar.

Meu take de entusiasta da Blockchain: para escapar desse aparente dilema, e preciso considerar que a Blockchain não é a solução de todos os problemas do mundo. A Blockchain apenas fornece um livro-razão público para rastrear a linhagem das transações. Ela não impõe propriedade. O sistema legal é o ator que impõe a propriedade. Blockchain apenas torna o trabalho do tribunal mais fácil. Com o blockchain, podemos saber que Guernica foi ilegalmente transferida para o funcionário corrupto e saber quem ele é.

Blockchain e o Voto

De vez em quando sou questionado sobre ideias envolvendo sistemas de votação eletrônicos, remotos e blockchains. Este post fala sobre as propriedades mínimas de segurança que um sistema de votação precisa ter, e sobre onde as blockchains ajudam e onde não ajudam. Usamos como exemplo o sistema criptografado de votação STAR-vote. Pode ser um pouco árido para os usuários não técnicos, mas também pode ser interessante para quem gosta de se envolver mais profundamente no tema.

Uma interface digital abstrata, mostrando pastas com chave pública e dados de hash escritos em código.

A comunidade de computação concorda que sistemas votação rodando em máquinas de votar modernas têm ao seu dispor processadores muito rápidos e uma quantidade enorme de armazenamento. Esse hardware moderno torna menos árdua a tarefa de implementar redes que exigem computação de alta-performance, como a Blockchain. Vamos então usar esse dado estrutural para um experimento mental:

Usando o work-flow da Blockchain, vamos colocar as máquinas de votação em rede, dentro da Blockchain. Assim, voilà, temos uma estrutura descentralizada, com uma cópia de cada voto em cada máquina de votação; podemos até usar o emaranhamento da linha do tempo, para que o histórico de cada máquina seja protegido por hashes armazenados em todas as outras máquinas. O problema da votação eletrônica está resolvido.

Em um sistema eleitoral implementado na Blockchain, todas as máquinas do sistema possuem todos os registros de votos, tornando impossível a fraude. É o mesmo esquema que legitima transações financeiras. Neste caso, a transação é o voto.

Mas qual é o ponto forte de uma blockchain? No aspecto mais fundamental, trata-se de ter um registro histórico inviolável sobre eventos. No contexto de um sistema de votação, significa que uma blockchain é um lugar perfeito para armazenar cédulas e proteger sua integridade. O STAR-Vote e muitos outros sistemas de votação criptografados “ponta a ponta” adota o conceito de “quadro público de avisos” para onde os votos criptografados são enviados para armazenagem até a contagem. Blockchain é a maneira óbvia de implementar o quadro público de avisos.

Cada eleitor do STAR-Vote sai do local de votação com um “recibo” que é apenas o hash de sua cédula criptografada, que por sua vez tem o hash da cédula do eleitor anterior. Em outras palavras, todos os eleitores do STAR-Vote deixam o local de votação com um ponteiro para a blockchain que pode ser verificado de forma independente.

Acontece que mesmo os sistemas de votação baseados em blockchain precisam de muitas propriedades de segurança adicionais antes que possam ser efetivamente confiáveis. Aqui está uma lista simplificada, empregando algum vocabulário típico desta área de estudos para referenciar essas propriedades.

Propriedade “Votado como pretendido”.

Um eleitor está olhando para uma tela de algum tipo e escolhe em um botão: “Alice para presidente”. A máquina de votação prontamente indica isso com um pop-up, ou algum texto destacado, ou sons. Contudo, é totalmente possível que algum malware dentro da máquina possa registrar silenciosamente o voto como “Bernie para presidente”. Portanto, qualquer sistema de votação precisa de um mecanismo para derrotar malware que ameace comprometer a integridade da votação.

Nota: Uma abordagem interessante aqui [e já consagrada pelo costume americano] é ter cédulas de papel impressas (e/ou cédulas de papel marcadas à mão) que podem ser comparadas estatisticamente às cédulas eletrônicas. Outra abordagem é ter um processo pelo qual a máquina pode ser “desafiada” a provar que criptografou corretamente a cédula.

Propriedade “Votado em privacidade”.

É importante que não seja possível identificar um eleitor em particular pela forma como ele votou. A votação moderna deve garantir que os votos sejam secretos, com várias medidas tomadas para tornar difícil ou impossível para os eleitores violarem esse sigilo.

Quando se deseja manter a propriedade de privacidade eleitoral nas máquinas da votação, significa que deve-se evitar que a máquina retenha o estado interno (ou seja, mantenha em seus circuitos uma lista dos votos em texto aberto, na ordem de votação) e também deve garantir que o texto cifrado dos votos, publicado na blockchain, não está vazando silenciosamente, por meio de canais subliminares, informações sobre o texto aberto que o gerou.

Propriedade “Contado como votado”.

Se temos eleitores levando para casa um recibo de algum tipo que identifica seu voto de texto cifrado na blockchain, então eles também podem querer ter algum tipo de prova criptográfica de que a contagem final do voto inclui seu voto específico. Isso acaba sendo uma aplicação direta de primitivos criptográficas homomórficos.

Se olharmos para essas três propriedades, é possível notar que a blockchain não ajuda muito com as duas primeiras, embora seja muito útil para a terceira.

Atingir a propriedade “votado como pretendido” requer uma variedade de mecanismos que vão de cédulas de papel a desafios pontuais para máquinas. A blockchain protege a integridade do voto registrado, mas nada tem a dizer sobre sua fidelidade à intenção do eleitor.

Para alcançar uma propriedade “votado em privacidade”, é necessário bloquear o software na plataforma de votação e, nesse caso, bloquear a máquina de votar. E como essa propriedade de bloqueio pode ser verificada? Precisamos de garantias fortes que possam ser verificadas de forma independente. Também precisamos garantir que o usuário não possa ser enganado e levado a executar um aplicativo de votação falso. Podemos conseguir isso no contexto das urnas eletrônicas comuns, que são utilizadas exclusivamente para fins de votação. Podemos implantar centralmente uma infraestrutura de chave criptográfica e colocar controles físicos sobre o movimento das máquinas.

Mas, se estendermos este experimento mental para incluir o voto pela Internet, um desejo comumente expresso pelo público de alguns países [que talvez aconteça], veremos que não temos infraestrutura hoje para fazer isso usando telefones celulares e computadores pessoais – e provavelmente não a teremos nos próximos anos. O voto remoto [em casa, no escritório, na rua] também torna excepcionalmente fácil para um cônjuge, um chefe ou um vizinho vigiar por cima do seu ombro e “ajudá-lo” a votar da maneira que eles querem que você vote.

As blockchains acabam sendo incrivelmente úteis para verificar a propriedade “contado como votado”, porque obriga todas as máquinas do sistema a concordar com o conjunto exato de cédulas que está sendo tabulado. Se um funcionário eleitoral precisar desqualificar uma cédula por qualquer motivo, esse fato precisa ser público e todos precisam saber que uma cédula específica, ali na blockchain, precisa ser descontada, caso contrário, a matemática criptográfica não vai fechar.

Concluindo, é fácil ver como as blockchains fornecem elementos primitivos excepcionalmente úteis, que podem ajudar a construir sistemas de votação em que a contagem final é consistente com os registros de votos lançados. No entanto, um bom sistema de votação precisa satisfazer muitas propriedades adicionais que uma blockchain não pode fornecer. Embora haja uma certa sedução intelectual em fingir que votar não é diferente do que mover criptomoedas em uma blockchain, a realidade do problema é um pouco mais complicada.

Citando o Meio Ambiente, Tesla Adia Planos para o Bitcoin

O preço do Bitcoin despencou depois que Elon Musk disse que a Tesla não aceitaria mais a criptomoeda como método de pagamento. O anúncio foi feito pelo CEO em um comunicado no Twitter na noite de quarta-feira (12/5). Musk levantou preocupações sobre o impacto climático da mineração de Bitcoin.

Musk, que esteve sob os holofotes recentemente por manipular o preço das criptomoedas por meio de tweets, citou como o raciocínio por trás da reviravolta da Tesla a enorme quantidade de energia elétrica necessária para manter o Bitcoin rodando – e os impactos ambientais decorrentes.

Grandes aglomerados de CPUs, em grandes datacenters, são usados para minar Bitcoin, através de um processo chamado ‘prova de trabalho’. A prova de trabalho é computacionalmente complexa, exigindo o cálculo de chaves criptográficas em tempo integral. A complexidade da computação tem uma relação linear com o consumo de energia: mais computação –> mais energia.

“Estamos preocupados com o rápido e crescente uso de combustíveis fósseis para mineração e transações de Bitcoin, especialmente o carvão, que tem as piores emissões de qualquer combustível”, disse o comunicado. Embora a criptomoeda seja uma “boa ideia em muitos níveis”, ela tem um “grande custo para o meio ambiente”, disse Musk.

O preço do Bitcoin caiu quase 13% após o anúncio da Tesla, de acordo com a Coin Metrics. O site de criptomoedas Coindesk mostrou que o valor em dólares do Bitcoin caiu para uma 24-hour low, pouco acima de US$ 46.000, antes de se recuperar ligeiramente para flutuar em torno de US$ 50.000.

Envolvimento Tesla-Bitcoin

A Tesla provocou uma explosão do Bitcoin em fevereiro, após anunciar que investiria cerca de US$ 1,5 bilhão na criptomoeda, com a intenção de permitir que os clientes a usassem para comprar seus carros eletricos.

O valor de mercado total da carteira de Bitcoin da Tesla no final de março era de US$ 2,48 bilhões, como mostraram os registros de títulos. Apesar da movimentação, a Tesla disse que não planeja vender suas participações em Bitcoin.

“A Tesla não venderá nenhum Bitcoin e pretendemos usá-lo para transações tão logo o processo de mineração faça a transição para um modal de energia mais sustentável”, disse o comunicado. A empresa também procura outras opções de criptomoeda, sem os impactos ambientais do Bitcoin, complementa.

Alguns observadores também se refiriram ao recente anúncio de que governos nacionais dariam início a um “enquadramento” da estrutura das criptomoedas para explicar a decisão.

Impacto no meio ambiente

Um estudo realizado em 2019 por pesquisadores da Universidade Técnica de Munique e do MIT descobriu que as emissões de CO2 para toda a rede Bitcoin chegaram a 22,9 milhões de toneladas em 2018. Nessa taxa, a curva de emissões de carbono atribuíveis ao Bitcoin se assemelha à de uma grande cidade de um país rico ou de todo um país em desenvolvimento como o Sri Lanka.

Musk tem mostrado um grande entusiasmo em popularizar o uso de carros elétricos, como os produzidos pela Tesla, atraindo motoristas para longe dos veículos com os motores de combustão interna, que respondem por uma boa parte das mudanças climáticas.

Mineradora Canadense de Bitcoin Escolhe a Argentina para ‘Fábrica’

Quando se sabe que a mineração de bitcoin é muito intensiva no uso da energia elétrica [que alguns economistas alegam ser a âncora de facto da moeda], a nota que captamos neste domingo sonolento [e certamente mortal, como saberei nos jornais da noite], revela alguns desenvolvimentos interessantes no campo das criptomoedas.

Milhares de CPUs em um datacenter

Um report do Mercopress dá conta de que a mineradora de bitcoin canadense Bitfarms anunciou planos de iniciar operações na Argentina no início de 2022, com um total de 55.000 máquinas. O país surgiu como uma escolha lógica devido aos custos relativamente baixos em pesos locais, com todos os lucros sendo em bitcoin, disseram analistas.

A empresa celebrou um contrato ‘significativamente aprimorado’ de compra de energia com um produtor privado da Argentina, segundo o qual a Bitfarms tem o direito de extrair até 210 MW de eletricidade a seu critério.

A duração inicial do contrato é de oito anos. Durante os primeiros quatro anos, o custo efetivo da eletricidade será de US$ 0,022 por kWh”, disse a empresa, fundada em 2017, em comunicado.

Traduzido em números, 210 MW é suficiente para instalar 55.000 máquinas de mineração e gerar cerca de US$ 650 milhões de receita ou 11.774 bitcoins, com base nos “níveis de dificuldade atuais” da prova de trabalho e em um preço de criptomoeda de US$ 55.000 por unidade.

Ver nota no Mercopress

Governos Preparam Blitz Contra as Criptomoedas

Jess Powell, CEO da Kraken, a quarta maior negociadora de criptomoedas do mundo, adverte que governos pelo planeta afora podem estar preparando uma grande blitz contra o uso de Bitcoin e outras criptomoedas. CNBC reporta:

“Acho que pode haver alguma repressão”, disse Jesse Powell em uma entrevista à CNBC. As criptomoedas dispararam em valor ultimamente, com o Bitcoin alcançando um recorde de mais de US$ 61.000 no mês passado. A moeda digital mais valiosa do mundo tem sido negociada ultimamente em torno de US$ 60.105. […] O chefe da Kraken acha que a incerteza regulatória em torno das Criptos não vai dissipar tão cedo. Uma regra contra a lavagem de dinheiro proposta pelo governo dos EUA recentemente exige que as pessoas que mantêm Criptos em uma carteira digital privada passem por verificação de identidade se fizerem transações acima de US$ 3.000. “Algo assim poderia realmente ferir as Criptos e matar o caso de uso original, que era apenas tornar os serviços financeiros acessíveis a todos”, disse Powell.

Foto por Worldspectrum em Pexels.com

As criptomoedas como o Bitcoin têm sido frequentemente associadas a atividades ilícitas devido ao fato de que as pessoas que transacionam com ela são pseudônimas – você pode ver para onde os fundos estão sendo enviados, mas não quem os enviou ou os recebeu. “Espero que agências reguladoras americanas e internacionais não tenham uma visão muito estreita sobre o assunto”, disse Powell. “Outros países, a China especialmente, estão levando Cripto muito a sério e assumindo uma postura de muito longo prazo”.

O CEO de Kraken disse sentir que os EUA são mais “suscetíveis” às pressões de negócios tradicionais em extinção – em outras palavras, os bancos – que “vão perder se as Criptos se tornarem normalizadas”. “Eu acho também que já pode ser tarde demais”, acrescentou Powell. “Talvez o gênio já esteja fora da garrafa e tentar bani-las neste momento só vai torná-las mais atraentes. Certamente enviaria uma mensagem de que o governo as vê como uma alternativa superior à sua própria moeda.”

Link para CNBC (English)