Meu Problema com Smartphones

Eu estou abandonando os smartphones como dispositivos de uso pessoal. Desde o começo do ano o meu jaz morto, em uma caixa metálica. Não consigo viver com os muitos problemas dessa infortunada tecnologia.

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O principal problema é que os celulares não podem funcionar se não souberem onde o usuário está. Essa característica fundamental de design é explorada sem qualquer limite por indivíduos mal-intencionados, por corporações internacionais e pelos agentes de aplicação da lei e inteligência. Não que eu tenha algo a esconder – na verdade todos temos.

Ah, os prazeres da vida de volta! Sem um celular é possível dedicar meu tempo inteiro à atividades realmente úteis. É libertador poder evitar os lunáticos do WhatsApp; ou o mau gosto e a indigência mental de certos influencers; poder evitar aquele meme do Big Brother [socorro!]. Evitar ver as pessoas tirando selfies diante do espelho, olhando apatetadas para o celular. Ou evitar os golpes do Pix.

Sem o smartphone é muito fácil evitar os robóticos e intoleráveis operadores de telemarketing. É possível evitar também que as companhias de seguros definam o prêmio a pagar pelo seguro do carro, por conta do histórico de localização e informações de acelerômetro extraídos do smartphone [“você fez Campinas-São Paulo em 25 minutos, faz manobras bruscas e freia muito forte“]. Ou ser incluído em um cadastro fantasma de crédito, como os que pululam no mercado e definem os valores que pagamos pelos diversos serviços que usamos.

Evitar ser atropelado. Ou levar um tiro de um sniper do Mossad.

Vou deixar as torturadamente óbvias questões de segurança de lado nesta postagem, para focar em outros atributos igualmente preocupantes e pouco discutidos dos smartphones. Allez.

São dispositivos voltados ao consumo ostensivo

Os smartphones são apenas dispositivos de consumo insano e irrefreável. Nesse aspecto, eles diferem criticamente dos PCs, porque os PCs são dispositivos igualitários, no sentido de que o mesmo dispositivo pode ser usado para tanto para criação quanto consumo de conteúdo. Isso significa que qualquer pessoa com um PC pode criar e consumir, se assim o desejar. Essa igualdade cultural, estabelecida no começo da era da Web [minha referência é o Eterno Setembro de 1993] foi diminuída pelo êxodo dos usuários para os dispositivos móveis – que só podem ser usados ​​para consumo.

Eles não são verdadeiros clientes de rede

Os smartphones têm CPUs poderosas e conexões de rede rápidas, exceto que você é impedido de usar esses recursos de forma significativa, porque seu uso consome a carga da bateria – e as pessoas não querem que a preciosa vida útil da bateria de seus telefones seja drenada desnecessariamente.

Portanto, há uma enorme quantidade de poder de computação e conectividade de rede que, na prática, você não pode usar. Isso leva a uma consequência ainda mais infeliz e ridícula: por causa dessas limitações, em um smartphone você não pode implementar a maioria dos protocolos de rede existentes [ou você pode, mas não sem esgotar a bateria]. O que é um paradoxo para um equipamento voltado à conectividade .

Eles arruinaram o web design

Mas eu provavelmente deverei escrever um artigo inteiro sobre isso.

As tecnologias são opacas

São produtos e serviços com alinhamentos empresariais nebulosos, ou de clara malevolência. Supostamente, com o Android, por exemplo, você é livre para instalar software de fontes arbitrárias e substituir o sistema operacional. Exceto que esses recursos são frequentemente restritos pelos próprios fabricantes, ou pelas telecoms.

Promovem a discriminação

A discriminação contra pessoas que exercem controle sobre seus dispositivos é comum, e qualquer aplicativo de análise vai revelar isso. Há uma expectativa predominante das empresas de tecnologia, de que as pessoas vão sempre abrir mão do controle sobre seus dispositivos, a ponto de aqueles que o fizerem serem minoria suficiente para serem discriminados e terem a funcionalidade de seus dispositivos reduzida por isso. A vida bancária é hoje uma tortura sem smartphones. Mas isso não deveria ser encarado de forma normal. É um abuso terrível e – por motivos óbvios – não deveria acontecer.

Ademais, prevalência de fontes de ransomware operados na Rússia, que vendem contas de celular roubadas da Internet, sugere que o uso de verificação por telefone como estratégia anti-spam não tem sido muito eficaz.

São responsáveis por uma centralização maciça

Um número desproporcional de aplicativos para, digamos, Android, depende de um servidor central operado pelo fabricante do software, com algum protocolo proprietário entre o cliente e esse servidor. De fato, essa é a própria premissa dos sistemas de notificação por push usados ​​pelo Android e iOS.

Eles levaram a uma centralização maciça. Parte do movimento dos ativos de Internet em direção à “nuvem” provavelmente é impulsionado pelo fato de que, embora os smartphones tenham recursos computacionais substanciais, você não pode usá-los por causa da curta duração da bateria. Isso faz com que a computação seja transferida para a nuvem, criando uma dependência de uma entidade centralizada. Quantos aplicativos para smartphones vendidos ainda funcionariam se seus fabricantes falissem ou saíssem do negócio?

Provavelmente o exemplo mais risível da centralidade desempenhada pelo telefone é quando, em um momento de loucura [ou de bebedeira] eu tento criar, em um desktop, uma conta numa rede social qualquer. Após o envio do formulário de registro, o site sempre diz para eu me inscrever através do aplicativo de smartphone, o que é um non sequitur realmente bizarro, já que eu não forneço nenhuma evidência de que eu tenha um smartphone. O que é hilário, no entanto, é que é possível criar uma conta do Twitter de dentro de uma máquina virtual no Android (obviamente sem número de telefone), provando essencialmente que a coisa toda é apenas teatro de segurança.

O que realmente me irrita nessas exigências por números de telefone [que são formatados no infame padrão E.164 – the international public telecommunication numbering planplano numérico da comunicação pública internacional], no entanto, é a maneira como eles me obrigam a abandonar meus orgulhosos princípios de pioneiro independente da Internet, sem documento e sem telefone.

Quando o Google exige um número E.164, eles não fazem isso apesar do fato de o E.164 ser um padrão técnico um tanto opaco e fechado, mas exatamente por causa disso. Basicamente, tudo de ruim sobre o namespace E.164 e suas organizações constituintes é precisamente o que o torna atraente para fins nebulosos em organizações como o Google et caterva.

Os gigantes da conectividade e seus operadores sustentam uma rede opaca, mantendo-a assim, porque no íntimo consideram problemática a própria abertura da internet. Isso representa essencialmente a retirada intencional do papel da Internet original como a raiz de todas as redes, orquestrada por uma organização que está ironicamente associada à própria internet. É um movimento deprimente de se ver.

(*) Editado por questões de estilo

O Conflito na Ucrânia e a Internet

A maioria dos veículos da mídia tradicional tem insistido que a Rússia vai invadir a Ucrânia amanhã (16/02). A data pode estar errada, mas, como disse uma das minhas fontes, “se você der brinquedos a uma criança, ela acabará brincando com eles”.

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Faço a seguir, com minhas palavras, um rápido apanhado do que pude levantar sobre esse tema, nos últimos três dias, junto a alguns dos meus contatos estrangeiros na indústria da segurança e inteligência. Eu recorri à opinião deles eles na tentativa de estimar o potencial impacto dessa crise nas atividades na Internet, mais o que esperar agora, as consequências futuras, etc, tanto para meu consumo próprio e quanto para compartilhar com meus leitores.

Como não é difícil deduzir, todas as atividades relacionadas ao trinômio informação-comunicação-tecnologia [ICT] serão impactadas negativamente por qualquer potencial ação militar. Essa será uma questão não apenas das “partes em conflito”, mas um problema global, à medida que malware(*) de todos os tipos, extremamente viciosos, se espalharem para cada canto da internet. Não é possível precisar o caos que “guerra cibernética total” trará, mas evidências anteriores sugerem que, se começar, tomará conta de todo o mundo em menos de 24 horas.

Cyber Warfare

A Rússia até agora não usou tropas ou armas convencionais para atacar a Ucrânia, mas isso não significa que não a tenha atacado. Ela faz isso incansavelmente há anos usando armas eletrônicas e psicológicas.

Os Estados Unidos também têm sido alvo de hostilidades semelhantes, principalmente no que diz respeito à desinformação e campanhas de influência em torno das eleições. Mas algo muito pior pode estar por vir. Agora as apostas são maiores. Em vez de continuar com intermináveis ​​guerras partidárias, os americanos deveriam se unir em um esforço para se preparar para o que pode ser um ataque sério à sua infraestrutura eletrônica. Isso deve receber o mesmo senso de urgência que um ataque militar iminente despertaria.

As consequências de uma guerra cibernética real [e absolutamente inédita] são algo que todos os americanos, e em larga medida o ocidente, deveriam considerar com especial seriedade.

Um exemplo vivo na memória é o ataque NotPetya de 2017 contra a Ucrânia, no qual alguns computadores pertencentes aos setores financeiro, comercial e de rede elétrica foram apagados. Pense também em ataques maciços de ransomware, e outros danos que colocariam os sistemas financeiros, a infraestrutura e o governo de joelhos. Um ataque como esse em escala global seria catastrófico.

Uma coisa é quase certa, nenhum sistema operacional ou aplicativo de consumidor/comercial atual tem qualquer resiliência à infinidade de ataques que serão liberados muito rapidamente em um ataque cibernético massivo. Atualizações de segurança não serão uma opção, pois seus repositórios de distribuição estarão também comprometidos.

É sabido que existe malware capaz de transformar chips da Intel em nada mais do que pequenas pastilhas de silício. Da mesma forma, todo Flash ROM [pendrive] deve hoje ser considerado portador de malware persistente, instalado por meio de ataques cirúrgicos à cadeia de suprimentos realizados previamente – nos últimos dez anos. Esses pequenos componentes eletrônicos constituem a base do sistema econômico ocidental.

Portanto, agora pode ser um bom momento para as organizações investigarem seriamente a opção de “puxar o plugue da conectividade” em tudo o que não seja essencial. Além disso, cercar/segregar rigidamente a conectividade essencial como se fosse Chernobyl.

Outra coisa a considerar, agora e para o futuro, especialmente se a guerra se materializar, é como proteger a segurança, a integridade e a disponibilidade de seus ativos na Nuvem no médio e longo prazos. Um cenário de guerra cibernética semipermanente traz muitos obstáculos – alguns intransponíveis – a esse modelo de negócio.

Se você é um investidor semi profissional ou amador, este é o momento de checar seu portfólio e (re)considerar onde seu dinheiro é investido.

Um efeito colateral será o preço das cripto moedas, que [eu suspeito] se tornará ainda mais volátil. Espere muita especulação e fraude/roubo à medida que novas moedas e sistemas de contrato surgem procurando por dinheiro fácil e grandes quantidades de energia para impulsionar os esquemas.

Qualquer aumento na especulação de cripto moedas causará um aumento exponencial nos ataques à ICT.

Conclusão

A guerra cibernética é uma incógnita, mas a história sugere que será ruim para os vulneráveis ​​e despreparados. A maioria dos sistemas de negócios está muito exposta e não tem capacidade de parar o tipo de malware que espera nos arsenais de guerra cibernética. Portanto, esses sistemas serão cooptados, destruídos, ou ambos, em uma guerra cibernética “total”.

(*)Nota: A palavra Malware [assim como hardware, software e qualquer outro ware] não tem plural em inglês. Essa é a convenção que adotamos neste blog.

Legalmente, FBI

O site Property of the People, graças a um pedido de Direito à Informação, publicou nos Estados Unidos, no final de novembro, uma lista que mostra quais dados os órgãos policiais podem obter – legalmente – de qual aplicativo de mensagens. O documento com o título “Acesso legal” data de 7 de janeiro de 2021.

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O documento não contém nenhuma notícia interessante, mas fornece uma boa visão geral das diferenças entre WhatsApp, Signal, Threema & Cia. no relacionamento com o que os americanos chamam de Agências de Aplicação da Lei. Um total de nove aplicativos são listados – com a ausência do Meta Messenger. Graças ao uso generalizado de criptografia ponta a ponta, a maioria dos agentes do FBI e outras instituições policiais não têm acesso aos conteúdos, mas há exceções.

As informações mais importantes do documento, resumidas:

IMessage da Apple: Os dados básicos do usuário podem ser solicitados com uma intimação (“Subpoena“), e os dados sobre o uso nos últimos 25 dias também podem ser solicitados de acordo com outras leis. Se a “pessoa de interesse” for usuária da iCloud da Apple, as mensagens podem ser acessadas, bastando para isso um mandado de busca e apreensão.

Line: Outra grande fonte de informação para os agentes da lei, especialmente informações pessoais do usuário e informação de suporte ao cliente. Com um mandado de busca, o conteúdo das mensagens pode ser obtido, se a pessoa alvo não ativou a criptografia ponta a ponta. O provedor não libera apenas mídia enviada.

Signal: Este aplicativo libera apenas a data e a hora da última utilização. A criptografia de ponta a ponta não vem como configuração padrão, e precisa ser ativada pelo usuário.

Telegram: Em investigações de terrorismo este provedor poderá fornecer endereços IP e números de telefone às autoridades responsáveis – nada mais. Aqui também a criptografia precisa ser ativada pelo usuário.

Threema: O provedor suíço apenas fornece um número de telefone e o hash [um número hexadecimal] do endereço de e-mail, se isso tiver sido especificado no mandado. Além disso, pode fornecer também a chave de criptografia pública e um token para mensagens “push”, bem como os dados de configuração da conta e o último login.

Viber: Aqui há apenas dados para registro (incluindo o endereço IP usado) e uma linha do tempo das mensagens enviadas e recebidas – mas nenhum conteúdo.

WeChat: O provedor chinês só fornece dados sobre contas de pessoas não chinesas, incluindo nomes, números de telefone, endereços de e-mail e endereços IP.

Clique/toque para uma versão maior. Imagem: Property of the People

WhatsApp: Dependendo da jurisdição da solicitação de fornecimento de dados, o mensageiro mais popular do mundo pode fornecer desde dados básicos do usuário, informações sobre contas bloqueadas, catálogos de endereços e possivelmente até a origem e o destino de cada mensagem. Se a “pessoa de interesse” usa um iPhone e ativou backups no iCloud, mais dados poderão ser obtidos, incluindo o conteúdo das mensagens.

Wickr: Este app não fornece o conteúdo das mensagens, mas, fora isso, disponibiliza uma série de dados incomuns. É possível determinar quando as contas foram configuradas, em quantos dispositivos uma conta foi usada e quando foi a última conexão. O número de mensagens, bem como o número de contas ligadas a elas [mas não sua identidade]. A imagem de avatar também poderá ser fornecida, bem como uma quantidade limitada de informações sobre as configurações do dispositivo.

Criptografia de ponta a ponta

A lista demonstra mais uma vez, para a alegria dos evangelistas da segurança, o quão difundida está a criptografia ponta a ponta [end-to-end encryption – E2E] e como é difícil para os policiais – nos EUA – obterem o conteúdo das contas dos usuários. A criptografia E2E introduzida recentemente para backups do WhatsApp deve restringir ainda mais o acesso dos órgãos policiais.

No entanto, o conteúdo da comunicação rigorosamente não é protegido em nenhum deles. A razão é que os provedores dos serviços estão espalhados por várias jurisdições, operando sob valores culturais diferentes. Por exemplo, o conteúdo do Telegram não é criptografado por padrão. Além disso, a lista trata apenas dos dados para os quais os investigadores dos EUA estão em contato direto com os provedores dos serviços.

O escândalo da NSA trouxe à mente o fato de que os serviços secretos têm muitas opções diferentes para seu trabalho. As revelações de Edward Snowden sobre as capacidades e procedimentos da NSA, no entanto, desempenharam um papel fundamental na ampla mudança em direção à criptografia de ponta a ponta como a que está disponível hoje em dia.

É no comportamento do usuário que o elo fraco da segurança está localizado. Mas isso é assunto para um outro post.

Bug nos Smart Contracts aciona um alerta jurídico

Na última quinta-feira [02/12] o blog “Schneier on Security” divulgou o caso [e deu início a uma discussão técnica] do hacker que roubou US $ 31 milhões da empresa de blockchain MonoX Finance, explorando um bug no software que o serviço usa para redigir contratos inteligentes.

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Especificamente, o atacante usou o mesmo token tanto para o tokenIn quanto para o tokenOut, que são métodos para trocar o valor de um token por outro neste tipo de operação. Funciona mais ou menos assim: O MonoX atualiza os preços após cada troca, calculando novos preços para ambos os tokens [in e out]. Quando a troca é concluída, o preço do tokenIn, ou seja, o token que é enviado pelo usuário, diminui, e o preço do tokenOut, o token recebido pelo usuário, aumenta.

Ao usar o mesmo token para as diferentes operações de tokenIn e tokenOut, o hacker inflou muito o preço do token MONO porque a atualização do tokenOut sobrescreveu a atualização de preço do tokenIn. O hacker então trocou o token por $ 31 milhões em tokens nas blockchains Ethereum e Polygon.

O problema básico neste evento é que, na arquitetura da blockchain, o código é a autoridade final – não há um protocolo de adjudicação. Então, se houver uma vulnerabilidade no código, não há recurso possível [e, claro, existem muitas vulnerabilidades no código].

Para muito observadores, incluindo Bruce Schneier, essa é uma razão suficiente para não usar contratos inteligentes para algo importante, por enquanto.

Os sistemas de adjudicação baseados na intervenção humana não são uma inútil bagagem humana pré Internet. Eles são vitais.

Bruce Schneier

Código de programação versus arbitragem humana

Na modesta opinião deste bloguista, embora, de fato, estejamos muito longe de o código ser um árbitro da justiça melhor do que um ser humano, acho que o problema básico aqui tem menos a ver com o código sendo a autoridade final e mais a ver com a falta de um protocolo de adjudicação.

No momento, não há uma boa maneira de ajustar retrospectivamente os resultados desses chamados contratos “inteligentes” com base em conhecimentos ou fatos que só podem ser totalmente apreciados ex post ao invés de ex ante, seja o conhecimento de funcionalidades não intencionais do código ou circunstâncias específicas não antecipadas pelas partes contratantes.

Este parece ser um problema bem compreendido por profissionais do direito e um aspecto amplamente suportado por diversos sistemas jurídicos (por meio de várias doutrinas, como quebra de expectativa ou previsibilidade). Já os tecnologistas proponentes de contratos inteligentes [incluindo a mim] parecem não ter ainda uma visão clara desses aspectos.

Uma transferência legítima de acordo com as regras codificadas

Para além do ‘problema básico’ descrito acima, existe um outro problema não menos básico e que se não for tratado corretamente deixará os “Contratos Inteligentes” para sempre quebrados: a maioria dos programadores normalmente escreve código sequencial limitado, não código de máquina de estado completo. Assim, uma grande quantidade elementos computacionais é deixada de fora na implementação dos contratos. Esses elementos, portanto, ficam “pendurados” e esperando para ser usados [e abusados].

Alguns críticos da blockchain dos contratos inteligentes argumentam que seria necessário incorporar uma versão forte da chamada Lógica de Hoare para garantir a integridade da computação na blockchain. A lógica de Hoare é um conjunto fundamental de regras, publicadas no final dos anos 1960. O bloco fundamental da Lógica de Hoare é a Tripla de Hoare.

Uma tripla de Hoare é da forma

{P} C {Q}

Onde {P} e {Q} são afirmações sobre o estado do sistema e C é um comando.

P, é a pré-condição
Q, é a pós-condição

Onde as asserções P e Q são expressas como fórmulas na lógica de predicados.

Quando a pré-condição P é atendida, a execução do comando C causa mudanças no sistema e estabelece a pós-condição Q.

Embora seja possível construir um código de “estado completo” com a lógica de Hoare, não é algo que a maioria das pessoas goste de fazer. Em suma, é um processo tedioso, não criativo, e colocar os pingos nos i’s e cruzar os t’s podem ser tarefas incrivelmente tediosas. Portanto, raramente é implementada, o que acaba inevitavelmente trazendo problemas em um tempo futuro.

Na vida normal, a última coisa que alguém realmente deseja é ter contratos irrevogáveis. Então a arbitragem geralmente fica “embutida” informalmente nos contratos inteligentes, através de métodos ad hoc. Em princípio, não há razão para que os contratos inteligentes não possam ter arbitragem embutida. Mas isso apenas cria uma série de questões subsequentes que ninguém quer abordar.

Até que a arbitragem de fato ou o controle total do estado sejam implementados nos Smart Contracts, veremos muito mais desse tipo de coisa acontecendo.

Move fast, break things

Eu temo que o problema descrito aqui seja um resultado lógico da abordagem “mova-se rápido e quebre coisas” preconizadas pelo Manifesto Ágil. As pessoas precisam pensar com clareza sobre até onde [e se] podemos utilizar certos paradigmas de desenvolvimento de sistemas na construção da infraestrutura da blockchain.

E como eu disse em outros posts aqui, precisamos parar de chamar as coisas de “inteligentes” quando elas são estúpidas. Antigamente, um dispositivo que não era útil sem uma conexão de rede era apropriadamente chamado de terminal burro. O código é sempre vulnerável, e qualquer desenvolvedor que não entenda isso é um “stupid hire”.

Hey, Zuck, conserte o Facebook antes de fugir para o Metaverso (please?)

Os tediosos conflitos do Facebook. Não importa o assunto. Quaisquer que sejam eles, são de uma monotonia atroz. Com emojis – essa simbologia infantil de representação de um rosto genérico – e “compartilhamentos”, o Facebook [e seus semelhantes] nos reduziu ao que somos na essência – ou nos expôs em nossa nudez e nosso vazio, como sempre fomos.

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A erosão de nosso senso de nós mesmos como uma espécie evoluída e dotada de valores mais elevados tem sido constante. Falando apenas por mim – talvez eu esteja sozinho, mas duvido – o que os algoritmos conseguiram acima de tudo foi me tornar menos interessado nas pessoas. Minha opinião sobre considerar as pessoas como entidades dignas de interesse despencou.

Essa desilusão é um sentimento novo para mim: sempre fui o tipo de idiota que acha nossa espécie fascinante. Eu gosto de conversar com as pessoas e ouvir o que elas pensam – e, francamente, analisá-las. Gosto de tentar descobrir como elas raciocinam. Gosto de como suas histórias pessoais informam sua abordagem a um problema ou a alguma questão. Antes, eu tinha a ideia – talvez ingênua – de que se eu conversasse com alguém por tempo suficiente, poderia descobrir de onde elas vêm, o que as moldou e por que suas vidas as levaram para onde elas estão agora – e se seu esforço valeu a pena.

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Hoje em dia, tenho a impressão de que eu não preciso falar com alguém por mais que 20 minutos para saber tudo o que ele ou ela assiste ou consome e qual o alcance de sua vida cultural. Eu também seria capaz dar um palpite bastante decente sobre que outras coisas que ele ou ela provavelmente acredita. Tamanha simplificação da vida ocorrida nos últimos 15 anos parece indicar que o problema humano está resolvido e tem muito menos a ver com a história ou com a diversidade entre os indivíduos do que se suspeitava.

Essa afirmações podem parecer um exagero, eu reconheço, mas o sucesso que o Facebook teve até hoje demonstra que conhecer o intimo de uma pessoas não é muito difícil como parecia em um passado um pouco mais distante. Desvendar as pessoas é basicamente o que algoritmos fazem. Eles provaram que o panopticon é totalmente possível.

Mas nem o Facebook ou o YouTube se contentam em apenas conhecer as pessoas “para sua melhor conveniência”; eles ativamente segregam as pessoas em perfis, padrões e grupos. O resultado final, como sabemos agora, é catastrófico. Parece seguro dizer agora que os grupos constroem sua própria dinâmica e tornam as pessoas mais bajuladoras ao líder autoritário, ou chatas, ou furiosas. A expressão “Câmara de eco” nem chega perto de descrever o empobrecimento da experiência humana no ambiente do Facebook.

O Facebook diz valorizar a conexão entre as pessoas. Mas acontece que não há nada intrinsecamente bom na conexão online entre as pessoas. Na internet, a exposição a pessoas diferentes muitas vezes nos faz odiá-las, e esse ódio estrutura cada vez mais nossa política. A corrosão social causada pelo Facebook e outras plataformas não é um efeito colateral de más decisões de gerenciamento e design. É algo que está embutido na própria natureza da mídia social.

Há muitos motivos pelos quais o Facebook e as empresas de mídia social que vieram depois dele estão implicados no colapso democrático, na violência comunitária em todo o mundo e na guerra civil [ainda fria, mas que fica cada vez mais quente] em lugares como os Estados Unidos e mesmo o Brasil. Esses sistemas em redes centralizadas, com interação entre os membros mediadas fora da ordem cronológica, são motores de foguete para espalhar desinformação e combustível de jato para teorias da conspiração. Eles recompensam as pessoas por expressarem raiva e desprezo pelo “outro”, sequestrando e usando os mesmos circuitos mentais que injetam dopamina na circulação quando você ganha jogando caça-níqueis.

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Metaverso

Mesmo recentemente, até alguns anos atrás, havia ainda espaço para resistir a esse aspecto horrível da maleabilidade humana. Os experimentos de aprisionamento de Stanford haviam sido desmistificados e parecia que nossas piores noções a respeito da humanidade haviam desaparecido. “Todo mundo é um idiota online, mas as pessoas não são suas performances digitais”, alguém disse. Ou talvez as pessoas sejam mais complicadas do que parece.

Vou ser cuidadoso aqui e dizer que, claro, não é apenas o Facebook que trilha a senda da infâmia. Mas como sou um falível humano [embora fazer parte da humanidade tenha um quê de rebaixamento existencial no momento], vou recorrer à minha própria subjetividade [basicamente não algorítmica]: O Facebook é obviamente o pior ofensor entre todos – pelo menos quando se trata de manipular a lamentável previsibilidade dos afetos humanos.

Nas próximas semanas [e meses] espero ser capaz de absorver as implicações da mudança [do nome da holding co. da rede para Meta] para minha esfera pessoal, como também os efeitos de larga escala, desde a política até a democracia, passando pela saúde pública, à medida que mais fatos forem sendo conhecidos [ainda estou digerindo os Facebook Papers].

Eu adoraria prognosticar que a reformulação da marca visando ocupar o Metaverso será um fracasso e que os humanos enxergarão a verdade através da enorme cortina de relações públicas e propaganda. É deprimente que uma empresa que provou infligir tantos danos à sociedade tenha decidido não fazer uma mínima auto crítica sobre seu passado, não consertar nada e, de fato, expandir suas operações para usurpar ainda mais a vida das pessoas.

Eu gostaria de acreditar que o Metaverso não vai funcionar, e que o convite ridículo de Mark Zuckerberg para que as pessoas “se conectem nos espaços ilimitados da realidade virtual” – onde peixes nadam entre as árvores, e Lucy voa no céu com diamantes – não atrairá ninguém. Mas vamos encarar a verdade: antes de todos nós começarmos a usá-los, eu também achava que os rostinhos de emoji eram a suprema idiotia. Veja onde estamos agora… :)

* * *

Nota: Se este post for compartilhado no Facebook, o que é muito bem vindo [engajar com o adversário em seu próprio campo], claro que eu vou apreciar por demais a ironia. ká ká ká.