Esse Estranho Capitalismo Virtual

A indústria de Tecnologia, Informação e Comunicação (TIC) tem uma questão interessante, e os economistas profissionais aparentemente não gostam de falar sobre ela.

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Em praticamente todos os setores da economia o preço de um bem sobe mais rápido do que sua utilidade, um fenômeno intrinsecamente “inflacionário”. Portanto, há pouco sentido em adiar uma compra – logo, compre um apartamento ou casa o mais cedo possível.

Agora considere os computadores, um item cujo desempenho (utilidade) historicamente dobrou a cada 18 meses, segundo a progressão conhecida como Lei de Moore. No entanto, o preço deles em moeda fiduciária permaneceu relativamente estável. Ou seja, R$ 1.500 sempre deram acesso a um moderno laptop para consumo ou negócios, ano após ano.

Enquanto isso, a maioria das outras coisas sofria com uma inflação da moeda fiduciária de cerca de 3% ao ano. Portanto, depois de uma década, o que custava $100 agora fora reajustado para ~ $134. Note que com a economia pagando, na melhor das hipóteses, cerca de 2% de rendimento, você só teria ~ $125 guardados na poupança nesse mesmo período.

Assim, quando você quisesse comprar um laptop de ponta, seus $ 1.500 no banco, depois de uma década, teriam chegado a $1.875 ($375 a mais). Contudo, o computador seria 100 vezes mais poderoso. Do ponto de vista econômico, isso representa uma deflação muito séria e muito prejudicial. Portanto, pelas normas da economia clássica, a industria de TIC não deveria existir – nem qualquer outra indústria de eletrônicos de consumo.

O capitalismo virtual

Esse problema estava se espalhando para o mercado automotivo, devido à eletrônica embarcada, o que estava se mostrando prejudicial de várias maneiras.

No entanto, e esse é o novo fenômeno, alguns fabricantes automotivos agora não mais “vendem” carros aos consumidores. Em em vez disso eles agora usam expressões como “buy back” ou “trade up“- uma espécie de leasing rebatizado. Em essência, fazem você pagar uma taxa de uso mensal indefinidamente. Eles apenas te dão outro carro, com cada vez mais componentes eletrônicos, a cada três anos – o que ainda é efetivamente deflacionário pelas regras dos economistas clássicos.

Alguns fabricantes de carros de ponta nem tentam esconder o fato de que os seus produtos vêm com todos os recursos possíveis já embutidos – só que desativados. Se você pagar um pouco a mais a cada mês, eles vão permitir que você os use, bastando apenas uma atualização remota do cṍdigo.

Você não é proprietário legítimo do carro [arrisco dizer que, nessas condições, dar certos comandos de voz em tons mais ríspidos poderia trazer apuros jurídicos].

Além disso, como reza o contrato [que você talvez não tenha lido], você precisa também dar a eles a sua alma, em forma de um dilúvio de informações pessoais.

Um sabor de mercantilismo

As velhas regras da economia estão se tornando menos relevantes à medida que somos forçados a uma economia rentista da qual não se pode escapar. Veja assim o futuro próximo: perca sua renda por algum motivo e eles, remotamente, desligam tudo o que você achava que possuía. Mesmo assim todas as coisas ao seu redor ainda vão continuar a espionar você minuto a minuto, dia a dia – porque para se desconectar é preciso usar uma das funcionalidades que eles desativaram remotamente. Nada como a proverbial “liberdade capitalista”.

De qualquer forma, em um futuro próximo certamente haverá alguma cláusula legal para fazer você pagar um montante adicional para ser excluído da vigilância.

Pelo que me disseram, as telecoms americanas chegaram muito perto desse modelo, ou de algo que serviria de trampolim para ele. O usuário pagaria pelo plano de conectividade – em oposição a um modelo grátis baseado em anúncios – mas mesmo assim as empresas o espionariam e venderiam os dados coletados.

Se você quisesse o plano “sem vigilância”, a ideia era que você teria que pagar mais, com todos os tipos de outros penduricalhos, etc., totalizando algo como $30/mês a mais – eles ainda iriam espionar e coletar dados, mas não “vendê-los” enquanto você continuasse a pagar o “resgate” [como em um sequestro].

Não ficou claro o que eles queriam dizer com “não vender” e não havia garantia de que eles não venderiam todos os seus dados privados em uma data posterior – aparentemente alguém decidiu que o mercado ainda não estava pronto para essa opção, “ainda”.

Post scriptum

O capitalismo tem perdido também outras dimensões. Acabamos de ver aqui como o capitalismo está rapidamente se dissociando da ideia de “propriedade”.

Mas nem é preciso uma análise atenta para ver que o conceito de concorrência está sendo pulverizado por monopólios cada vez mais poderosos. Noções mais abstratas e difusas, como virtude, pudor, modéstia e mérito, tão sagradas à clássica moral capitalista protestante, já foram extintas pela brutal economia da atenção e pelo imediatismo narcisista das redes sociais, em que é possível encontrar completos imbecis a fazer fortunas da noite para o dia, e a ditar o ethos da época [o que alguns chamam de zeitgeist].

Eticamente, o capitalismo está em frangalhos, desta vez muito mais do que esteve em qualquer período da história, e a marcha de sua insensatez parece apenas se acelerar. O capitalismo se parece cada vez mais com o seus antecessores primitivos, o feudalismo e o mercantilismo. A social-democracia de tempos atrás, praticamente extinta, me parece agora um regime muito mais sofisticado e justo – e em 1989 parecia, de fato, ter vencido a História.

Realmente, só se dá valor ao que se perde.

O Mito da Anonimidade do Bitcoin

O site Wired traz um longo artigo de Andy Greenberg, sobre como agentes da lei, em conjunto com a empresa Chainalysis, desanonimizaram transações de bitcoin em 2017, para chegar a uma associação criminosa voltada ao abuso de menores.

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Segundo o artigo,

alguns anos após a chegada do Bitcoin, pesquisadores acadêmicos de segurança – e depois empresas como a Chainalysis – começaram a abrir buracos nas máscaras que separam os endereços dos usuários do Bitcoin de suas identidades do mundo real. A empresa tinha capacidade de seguir bitcoins na blockchain enquanto os ‘bits‘ trafegavam de endereço em endereço até chegarem a um que pudesse ser vinculado a uma identidade conhecida.

Em alguns casos, um investigador da empresa foi capaz de descobrir os endereços de Bitcoin de uma pessoa ao negociar com ela em tempo real, da mesma forma que um agente de narcóticos disfarçado pode conduzir uma compra e apreensão. Em outros casos, os investigadores puderam conduzir as transações para uma conta onde os regulamentos financeiros exigiam que os usuários provassem sua identidade. Uma rápida intimação ao(s) investigador(es) envolvidos foi suficiente para revelar a identidade das outras partes e assim eliminar qualquer ilusão de anonimato do Bitcoin.

A Chainalysis combinava essas técnicas de desanonimização com métodos que permitiam “agrupar” endereços, mostrando que dezenas [até milhões] de endereços às vezes pertenciam a uma única pessoa ou organização. Por exemplo, quando moedas de dois [ou mais] desses endereços eram gastas em uma única transação, isso revelava que o criador dessa transação de “vários registros” devia ser o controlador de ambos os endereços, permitindo que a Chainalysis os agrupasse em uma única identidade.

Em outros casos, a Chainalysis podia seguir [o que traduzirei como] a “cadeia de embolso”– um processo análogo ao rastreamento de um único maço de dinheiro enquanto um usuário o ‘embolsa’ repetidamente, ou seja, retira algumas notas e o coloca em um bolso diferente [ver ‘peel chain‘].

Graças a truques como esses, o Bitcoin acabou se tornando praticamente o oposto de “não rastreável”: uma espécie de “pote de mel” para criminosos criptográficos que, durante anos, registraram de maneira obediente e inapagável as evidências de seus negócios mal feitos. Em 2017, agências como o FBI, a Drug Enforcement Agency e a divisão de Investigação Criminal do IRS já rastreavam transações de Bitcoin rotineiramente, muitas vezes com a ajuda da Chainalysis.

O Bitcoin pode ser rastreado

Os criminosos não conheciam a tecnologia subjacente à criptomoeda [ignorância compartilhada por virtualmente 100% dos ‘investidores’], e acreditavam no proverbial “anonimato do bitcoin”, uma lenda urbana concebida na época do lançamento da moeda pelo lendário Satoshi Nakamoto.

Essa suposta não-rastreabilidade do bitcoin (e todas as outras similares) nunca foi um assunto sério para os profissionais de software, muito menos para os especialistas em segurança. Porque a rastreabilidade está necessariamente embutida na arquitetura do sistema pelos próprios requisitos do software. As moedas digitais precisam garantir duas coisas:

  • um mecanismo anti “duplo gasto”.
  • um registro completamente público de todas as transações.

Exatamente por causa das medidas contra o duplo gasto, cada moeda digital tem um identificador único que atua como um ‘fio condutor da verdade’ em cada movimento. Some-se a isso as técnicas avançadas de comunicações, como a análise de tráfego, pareada com sua equivalente financeira, a análise de transações, e lá se vai a não-rastreabilidade.

Para aqueles que ainda estão com o braço levantado, perguntem a si mesmos: “em um sistema topologicamente homogêneo, “liso” – como deve ser a arquitetura de uma criptomoeda – que mato há para se esconder?”.

A única maneira de se esconder seria de alguma forma esgotar os recursos computacionais desses rastreamentos. Como os recursos necessários para rastrear a blockchain são consideravelmente menos intensivos do que os requeridos para realizar transações, se torna óbvio que a opção ‘esconder’ não está no cardápio.

É surpreendente o tempo que os ocasionais golpistas e, mais importante, as instituições de aplicação da lei, levam para perceber esses fatos.

A inexorável corrosão das liberdades

Em 2016, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que deixaria de cunhar notas de € 500, em uma medida que, segundo eles, visava coibir fraudes e lavagem de dinheiro. A nota de 500 euros é a segunda maior denominação atualmente na zona da moeda comum do euro, e o BCE diz que é a nota preferida entre os criminosos.

Embora o objetivo declarado fosse impedir o crime financeiro, certos comentaristas [entre os quais me incluo] defendem que esse movimento hoje faz parte da crescente tendência autoritária de controle social e eliminação do dissenso. O dinheiro em espécie é simplesmente livre demais, anônimo demais. Outros analistas sustentam que a ‘guerra’ ao dinheiro se insere em um cenário de ‘corrida para o abismo’ para enfraquecer as moedas, a fim de estimular economias em declínio em todo o mundo. Seja qual for a verdade, tudo indica que veremos a eliminação completa do papel-moeda – transformado em ‘tokens’ fiduciários armazenados como registros eletrônicos em contas bancárias.

Liberdade de escolha

Às vezes falamos de “consentimento informado”, para enfatizar nossa suposta liberdade de escolha. Nós ‘conscientemente escolhemos’ usar cartão de crédito, ou bitcoin. Mas com toda a honestidade, como alguém pode ser suficientemente “informado” de tudo, em toda e qualquer pequena oportunidade?

Afinal, quando você usa um cartão de crédito para fazer uma compra, você está suficientemente “informado” para saber tudo o que seus “registros comerciais em poder de terceiros” vão produzir? A atitude blasé das pessoas diante desses detalhes torna a coleta e venda desregulada de dados pessoais muito, muito assustadora.

Eu prefiro dinheiro vivo ao invés de plástico ou bitcoins, porque, segundo minha opinião “informada”, eu fico à mercê do governo e das corporações [ou coisas ainda piores] quando ‘escolho’ usar cartões ou bitcoins.

Os políticos agora querem me impedir de ter o direito de fazer essa escolha [sem dúvida esse será o novo grande debate nos parlamentos do mundo]. Eles querem forçar todos ao dinheiro eletrônico [no Brasil, aplicativos como o Pix representam o primeiro movimento nesse sentido]. Todos devem fazer sua parte na Economia da Vigilância para que novas formas de tributação e controle social possam ser introduzidas. Ah, e, claro, lucros muito maiores para o setor bancário, que se libertaria de qualquer concorrência nos métodos de pagamento.

Vamos ser sinceros, a blockchain, e o que ela mostra nas auditorias financeiras, é uma visão pública do que a maioria das empresas de cartão de crédito/débito mantém em seus registros privados. Não é à toa que os governos, no início desconfiados, agora abraçam a ideia da criptomoeda com paixão, facilitando sua aceitação, como aconteceu com os cartões de crédito.

Por essa facilidade de rastreamento a blockchain deverá ser algo positivo no mundo dos contratos [o que é um assunto à parte].

Post scriptum

E então há os telefones celulares e os registros detalhados que eles armazenam, incluindo “dados de localização” com um grau muito alto de precisão. O fato de eu ser efetivamente forçado, pela pressão social e institucional [de novo, o Pix], a carregar um dispositivo de rastreamento no bolso, não é fácil para mim. Não é “consentimento informado” de forma alguma. Minha escolha seria completamente diferente se eu tivesse uma.

Entre a privacidade e a segurança a sociedade ocidental fez uma “Escolha de Hobson” invertida [uma opção entre dois nadas], e no processo deu muito poder a pessoas que realmente não deveriam tê-lo.

* * *

Escrevo no dia 12 de abril. Este post marca um ano do domínio voxleone.com. Dia de pagamento pesado ao WordPress. Mas eu pago, trabalho até aos domingos e procuro fazer um conteúdo de muita qualidade [138 artigos, 200.000 palavras], pelo simples objetivo de construir um grande site de ciência e análise de dados – além de informação e discussão tecnológica – na língua portuguesa [with a little help from my friends].

Sou insistente e só estamos no começo. 🙂

Bug nos Smart Contracts aciona um alerta jurídico

Na última quinta-feira [02/12] o blog “Schneier on Security” divulgou o caso [e deu início a uma discussão técnica] do hacker que roubou US $ 31 milhões da empresa de blockchain MonoX Finance, explorando um bug no software que o serviço usa para redigir contratos inteligentes.

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Especificamente, o atacante usou o mesmo token tanto para o tokenIn quanto para o tokenOut, que são métodos para trocar o valor de um token por outro neste tipo de operação. Funciona mais ou menos assim: O MonoX atualiza os preços após cada troca, calculando novos preços para ambos os tokens [in e out]. Quando a troca é concluída, o preço do tokenIn, ou seja, o token que é enviado pelo usuário, diminui, e o preço do tokenOut, o token recebido pelo usuário, aumenta.

Ao usar o mesmo token para as diferentes operações de tokenIn e tokenOut, o hacker inflou muito o preço do token MONO porque a atualização do tokenOut sobrescreveu a atualização de preço do tokenIn. O hacker então trocou o token por $ 31 milhões em tokens nas blockchains Ethereum e Polygon.

O problema básico neste evento é que, na arquitetura da blockchain, o código é a autoridade final – não há um protocolo de adjudicação. Então, se houver uma vulnerabilidade no código, não há recurso possível [e, claro, existem muitas vulnerabilidades no código].

Para muito observadores, incluindo Bruce Schneier, essa é uma razão suficiente para não usar contratos inteligentes para algo importante, por enquanto.

Os sistemas de adjudicação baseados na intervenção humana não são uma inútil bagagem humana pré Internet. Eles são vitais.

Bruce Schneier

Código de programação versus arbitragem humana

Na modesta opinião deste bloguista, embora, de fato, estejamos muito longe de o código ser um árbitro da justiça melhor do que um ser humano, acho que o problema básico aqui tem menos a ver com o código sendo a autoridade final e mais a ver com a falta de um protocolo de adjudicação.

No momento, não há uma boa maneira de ajustar retrospectivamente os resultados desses chamados contratos “inteligentes” com base em conhecimentos ou fatos que só podem ser totalmente apreciados ex post ao invés de ex ante, seja o conhecimento de funcionalidades não intencionais do código ou circunstâncias específicas não antecipadas pelas partes contratantes.

Este parece ser um problema bem compreendido por profissionais do direito e um aspecto amplamente suportado por diversos sistemas jurídicos (por meio de várias doutrinas, como quebra de expectativa ou previsibilidade). Já os tecnologistas proponentes de contratos inteligentes [incluindo a mim] parecem não ter ainda uma visão clara desses aspectos.

Uma transferência legítima de acordo com as regras codificadas

Para além do ‘problema básico’ descrito acima, existe um outro problema não menos básico e que se não for tratado corretamente deixará os “Contratos Inteligentes” para sempre quebrados: a maioria dos programadores normalmente escreve código sequencial limitado, não código de máquina de estado completo. Assim, uma grande quantidade elementos computacionais é deixada de fora na implementação dos contratos. Esses elementos, portanto, ficam “pendurados” e esperando para ser usados [e abusados].

Alguns críticos da blockchain dos contratos inteligentes argumentam que seria necessário incorporar uma versão forte da chamada Lógica de Hoare para garantir a integridade da computação na blockchain. A lógica de Hoare é um conjunto fundamental de regras, publicadas no final dos anos 1960. O bloco fundamental da Lógica de Hoare é a Tripla de Hoare.

Uma tripla de Hoare é da forma

{P} C {Q}

Onde {P} e {Q} são afirmações sobre o estado do sistema e C é um comando.

P, é a pré-condição
Q, é a pós-condição

Onde as asserções P e Q são expressas como fórmulas na lógica de predicados.

Quando a pré-condição P é atendida, a execução do comando C causa mudanças no sistema e estabelece a pós-condição Q.

Embora seja possível construir um código de “estado completo” com a lógica de Hoare, não é algo que a maioria das pessoas goste de fazer. Em suma, é um processo tedioso, não criativo, e colocar os pingos nos i’s e cruzar os t’s podem ser tarefas incrivelmente tediosas. Portanto, raramente é implementada, o que acaba inevitavelmente trazendo problemas em um tempo futuro.

Na vida normal, a última coisa que alguém realmente deseja é ter contratos irrevogáveis. Então a arbitragem geralmente fica “embutida” informalmente nos contratos inteligentes, através de métodos ad hoc. Em princípio, não há razão para que os contratos inteligentes não possam ter arbitragem embutida. Mas isso apenas cria uma série de questões subsequentes que ninguém quer abordar.

Até que a arbitragem de fato ou o controle total do estado sejam implementados nos Smart Contracts, veremos muito mais desse tipo de coisa acontecendo.

Move fast, break things

Eu temo que o problema descrito aqui seja um resultado lógico da abordagem “mova-se rápido e quebre coisas” preconizadas pelo Manifesto Ágil. As pessoas precisam pensar com clareza sobre até onde [e se] podemos utilizar certos paradigmas de desenvolvimento de sistemas na construção da infraestrutura da blockchain.

E como eu disse em outros posts aqui, precisamos parar de chamar as coisas de “inteligentes” quando elas são estúpidas. Antigamente, um dispositivo que não era útil sem uma conexão de rede era apropriadamente chamado de terminal burro. O código é sempre vulnerável, e qualquer desenvolvedor que não entenda isso é um “stupid hire”.

O Bitcoin Chega ao Mercado Imobiliário

A Bloomberg informa que a La Haus, uma startup de tecnologia imobiliária do México apoiada pela Jeff Bezos Expeditions, disse que passará a aceitar Bitcoin para transações imobiliárias, aumentando a crescente adoção da criptomoeda como meio de pagamento na América Latina.

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A empresa, que já permite aos usuários comprar imóveis por meio de um aplicativo, permitirá que os compradores paguem com moeda digital, começando com um conjunto habitacional em Playa del Carmen, no México. Ela gradualmente abrirá o restante de seu portfólio de mais de 80.000 propriedades para o Bitcoin, de acordo com a empresa.

“Acreditamos que o Bitcoin será a moeda de reserva do futuro”, disse Rodrigo Sanchez-Rios, presidente e cofundador da La Haus, em entrevista. “Em nossa essência, somos uma empresa de tecnologia. É natural para nós sermos pioneiros com esta tecnologia”.

A empresa está fazendo parceria com o processador de pagamentos OpenNode, com sede em Los Angeles, para permitir transações tanto na web quanto na Lightning Network – que foi projetada para tornar as compras mais rápidas e fáceis. A La Haus atuará como intermediária, pagando os vendedores em moeda corrente. A empresa ainda não decidiu quanto de Bitcoin manterá em seus balanços, disse ele.

Apesar de sua notória volatilidade, a aceitação do Bitcoin – que possui um valor de mercado de mais de US $ 1,2 trilhão após uma alta de 20% no mês passado que empurrou o preço para recordes acima de US $ 68.000 – está crescendo em toda a América Latina.

El Salvador se tornou em setembro o primeiro país do mundo a tornar ‘legal tender’ a criptomoeda, despertando o interesse de outros governos e empresas em nossa região.

O Futuro do Bitcoin

Este blog tem acompanhado a movimentação em torno do Bitcoin e minha impressão é que as opiniões em geral são mistas, indo de um otimismo cauteloso a uma visão crítica contundente.

O futuro do Bitcoin parece promissor, mas seu destino final como moeda vai depender de vários fatores. A volatilidade do Bitcoin é bem conhecida, mas para que a adoção em larga escala seja finalmente alcançada é necessário melhorar essa reputação.

Os comerciantes sempre relutarão em aceitar uma forma de pagamento cujo valor tenha uma boa chance de diminuir logo em seguida. Esse é o estado de coisas hoje, realisticamente. Mas o que precisa acontecer para que isso mude?

(1) Certeza regulatória

Com sua natureza descentralizada, a ideia de regulamentação pode parecer contraditória para o Bitcoin. Mas, na realidade, a certeza regulatória é vital para a sua adoção em massa. Embora alguns países, como a Coréia do Sul e o Japão, tenham liderado o caminho na discussão de diretrizes claras para a regulamentação do Bitcoin, grande parte do mundo ainda está atrasada nesse aspecto.

Em muitos países, o status legal do Bitcoin ainda é obscuro. À medida que mais governos ao redor do mundo introduzirem estruturas regulatórias nos próximos anos, isso dará ao Bitcoin mais legitimidade como um ativo convencional.

(2) Facilidade de uso

Pagar por bens com moeda corrente é uma experiência simples. Embora o uso de dinheiro convencional seja cada vez mais raro, é ainda muito fácil pagar com cartões ou com aplicativos como ApplePay ou WeChatPay, especialmente em mercados asiáticos. Pagar por produtos usando Bitcoin ainda não é uma experiência simples para a maioria das pessoas.

Na situação atual, embora sejam componentes necessários à arquitetura do sistema, coisas como “carteiras quentes e frias” e “chaves públicas e privadas” podem ser muito complexas para uma pessoa comum entender. A indústria da criptografia precisa encontrar uma maneira de tornar o processo de compra com Bitcoin mais facilmente digerível.

Uma maneira de conseguir isso é por meio de um maior envolvimento de terceiros, expondo o Bitcoin a um público mais amplo por meio de outras plataformas. Conforme noticiado recentemente pela Bybit Insights, o Paypal está planejando oferecer vendas via criptomoedas para seus 325 milhões de usuários.

Esse “gateway” de pagamento pode muito bem vir a ser uma virada de jogo na adoção em massa do Bitcoin e da criptografia. Visa e Mastercard também anunciaram iniciativas para incluir a opção de pagamentos em Bitcoins e criptomoedas em geral, em um sinal seguro de que os provedores de pagamento estão suavizando sua postura.

(3) O Trilema da Escalabilidade da Blockchain

A escalabilidade é um problema constante para a blockchain do Bitcoin. Enquanto um novo bloco na blockchain pode acomodar em média cerca de 2700 transações (com um bloco adicionado a cada 10 minutos), a Visa, por exemplo, pode precisar de 2.000 transações por segundo [transações por segundo (TPS) é o número de transações que uma rede blockchain pode processar a cada segundo].

Portanto, é óbvio que para ser capaz de competir, mudanças precisam ser feitas para melhorar a escalabilidade da rede Bitcoin. Esse problema é conhecido como trilema da escalabilidade da blockchain:

  • Escalabilidade: é a capacidade da blockchain de acomodar um maior volume de transações.
  • Segurança: é a capacidade de proteger os dados mantidos na blockchain de diferentes ataques ou a capacidade de defesa da blockchain contra duplicidades.
  • Descentralização: é a capacidade de redundância na rede, que impede que entidades ou grupos minoritários assumam o controle.
Gráfico: Vox Leone

Várias soluções foram propostas. Uma dessas soluções é o SegWit.

O desenvolvedor de Bitcoin Dr. Pieter Wuille, sugere que, para resolver esse problema, a assinatura digital precisa ser segregada dos dados da transação. Este processo é conhecido como Testemunha Segregada ou Segregated Witness – SegWit. A assinatura digital responde por 65% do tamanho físico de uma determinada transação. SegWit propõe remover a assinatura de dentro da entrada e movê-la para uma outra estrutura, no final de uma transação.

Isso aumentaria o limite de tamanho de um bloco de 1 MB para um pouco menos de 4 MB. Além de aumentar ligeiramente o tamanho dos blocos, o SegWit também resolve o problema do “spoofing”, em que um receptor pode interceptar e modificar o ID de transação do remetente em uma tentativa de extrair mais moedas desse remetente. Visto que a assinatura digital seria separada da entrada, a parte inescrupulosa não teria como alterar o ID da transação sem também anular a assinatura digital.

O grau de escalabilidade é importante porque determina a capacidade eventual de qualquer rede. Dito de outra forma, ele determina o limite superior de quão grande uma rede pode crescer.

Enfim

Como sabemos, ao contrário do petróleo o Bitcoin não é tangível e não tem uso prático no mundo físico. Ele também tem uma oferta limitada. E o protocolo subjacente à blockchain garante que novos Bitcoins sejam produzidos a uma taxa consistente (embora decrescente, chamada de ‘halving‘ – a cada quatro anos a produção é cortada pela metade), independente do poder de computação. Dessa forma, a relação do Bitcoin com a oferta, produção e preço final é completamente diferente das commodities tradicionais. Isso faz sentido, porque, afinal de contas, a intenção original era ser uma moeda completamente diferente.

O poder de reduzir constantemente a oferta pela metade é realmente uma solução elegante, considerando que em 2060 a oferta anual de Bitcoins aumentará apenas na casa das centenas, e não milhões, por ano. Quando essa oferta adicional se tornar insignificante, poderemos ver a volatilidade do preço do bitcoin cair. E só então, talvez, o Bitcoin pare de nos fazer lembrar de commodities e investimentos e realmente se torne o que deveria ter sido desde o início.

Seguimos com atenção aos problemas do Bitcoin e abriremos outras discussões à medida que surgem novos desenvolvimentos.

Bitcoin: nem Moeda, nem Investimento

Nesta postagem, espero argumentar com os leitores sobre como o bitcoin não pode fazer o que o dinheiro normal faz e que, como um investimento, é mais parecido com um esquema de pirâmide, não sendo, portanto, a salvação do mundo. Tentarei explicar o que os bitcoins são – ou não são, na esperança de que os leitores possam tomar uma decisão informada se quiserem participar dessa nova corrida do ouro.

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Moeda digital ingênua

Vamos começar com um experimento mental. Quero fundar uma nova moeda, mas não quero ter o incômodo de realmente cunhar moedas ou imprimir notas. Então, o que eu faço é pegar pedaços de papel comum e escrever números neles, digamos de 0 a 30 milhões, e digo ao mundo que esses números são dinheiro. Vou chamá-lo de Bitcoin.

Se as pessoas acreditarem em mim, o esquema funcionará e você poderá fazer pagamentos com esses pedaços de papel. Curiosamente, nem precisamos dos pedaços de papel: é o próprio número que é o dinheiro. Isso também torna muito fácil fazer pagamentos online – sem necessidade de enviar papel e sem nenhum banco envolvido. Em vez de manter grandes pilhas de papel para provar que temos dinheiro, apenas armazenamos os números em um arquivo em algum lugar [se você excluir o arquivo, perderá seu dinheiro].

Muito bem. O problema agora é que nada impede que as pessoas gastem esse dinheiro duas ou mais vezes. Então, pego meu bitcoin número 40001 e uso-o para comprar pão e, ao mesmo tempo, encomendar algumas roupas online com ele.

Claramente, usar números como dinheiro pode funcionar em teoria, mas logo a moeda entra em colapso, pois todo mundo tem uma cópia de cada número. As pessoas podem simplesmente continuar a gastar seus números repetidamente, e logo ninguém os quer mais.

Mantendo o controle para evitar crédito em dobro

No bitcoin, todas as transações são registradas. Portanto, se você gastar um bitcoin [o 40001, já apresentado], essa transação será transmitida e armazenada na rede. Se eu tentar gastar o mesmo bitcoin novamente, descobrirei que a rede se recusa a registrar essa nova transação – porque agora já existe uma cadeia de transação mais longa registrada, atualizada para incluir o novo proprietário do crédito 40001. Assim, evita-se o reuso da transação.

No entanto, isso significa duas coisas:

  • Cada transação é registrada. Portanto, se você receber seu salário em bitcoins e gastá-lo no fornecedor local de drogas, essa transação será registrada para sempre. Isso pode voltar para assombrá-lo em um estágio posterior da vida [agora seu empregador sabe onde você gasta seu dinheiro]
  • Gravar e verificar a transação leva tempo. Como a rede de bitcoin [chamada Blockchain] é totalmente distribuída e não tem um ponto central confiável, as transações só são consideradas efetivamente registradas se partes suficientes da rede as tiverem verificado. Isso leva cerca de 10 minutos e, para certeza absoluta, recomenda-se uma espera de uma hora. Portanto, esqueça as compras rápidas usando bitcoins

Adicionando privacidade

Essa estória de registrar a transação não agrada a ninguém e, na verdade, constitui uma falha de privacidade evidente. Uma “solução” foi encontrada, no entanto. Quando alguém deseja enviar dinheiro para outra pessoa, cria-se uma nova identidade para essa transação.

Ao trocar essas identidades personalizadas, cada transação individual ganha um ar de anonimato. Contudo, se você quiser de fato gastar suas moedas, você vai ter que vinculá-las à sua identidade na transação de saída de qualquer maneira, anulando assim o anonimato inicial.

A oferta de dinheiro

De onde vêm os bitcoins? Em uma moeda normal, um banco central cria dinheiro, geralmente em linha com o crescimento (esperado ou pretendido) da economia. Como o bitcoin não tem banco central, foram encontrados meios para permitir que as pessoas “minerem” novas moedas a uma frequência predeterminada – e constante.

Há um suprimento constante de novos bitcoins, definido em 150 bitcoins/hora até 2017, ponto no qual isso diminuiu para 75 bitcoins/hora. No fim de tudo, haverá os 30 milhões planejados inicialmente, e nada mais além disso.

Isso torna impossível olhar para bitcoins como “dinheiro”. Economias inteiras foram destruídas pela calibragem errada da taxa de criação de dinheiro (muito baixa em 1710 na França, causando deflação, muito alta com quase todas as outras moedas, resultando em inflação). Embora possamos nos exasperar ao ver que os bancos centrais ainda não conseguiram eliminar os desequilíbrios das moedas tradicionais, os bitcoins têm apenas um ritmo único de criação de dinheiro, e esse ritmo não tem flexibilidade para se ajustar às oscilações da economia.

Resumindo, a economia pode crescer, mas o número de bitcoins em circulação pode não corresponder a esse crescimento. Na medida em que o interesse em bitcoins cresce mais rápido do que a sua taxa de criação – como é o caso atualmente – o bitcoin começa a mostrar um pesado comportamento deflacionário. Cada bitcoin individual passa a valer cada vez mais ‘dinheiro normal’. Isso desestimula o gasto das criptomoedas.

Sob condições deflacionárias, em termos nominais, as coisas vão ficando sempre cada vez mais baratas. Por que comprar um carro agora, quando você tem certeza de que será mais barato na próxima semana? Essas condições já destruíram economias inteiras.

Os problemas em resumo:

  • As transações de Bitcoin são (muito) mais lentas do que as transações normais de dinheiro (10 minutos a 1 hora)
  • Cada transação de bitcoin deixa um rastro publicamente visível que só pode ser obscurecido, mas nunca apagado
  • Como a taxa de criação de bitcoins é fixa, o valor monetário regular dos bitcoins irá flutuar muito, tornando-os inadequados para funcionar como moeda normal

Muitos adeptos do bitcoin concordarão com os pontos acima e oferecerão duas respostas:

  • Bitcoin não é uma moeda normal, mas um investimento
  • A maioria dos problemas pode ser resolvida calculando o valor do bitcoin de uma transação em relação às taxas de conversão para dinheiro normal – uma espécie de ‘câmbio’.

Esse raciocínio não se sustenta. Se olharmos para os bitcoins como um investimento, isso só funcionará se pudermos convencer as pessoas a participar e, assim, aumentar o ecossistema dos bitcoins. Mas por que as pessoas participariam? Ora, porque o valor da moeda continua aumentando! Isso é normalmente conhecido como ‘esquema de pirâmide’, onde as pessoas que entram primeiro levam o dinheiro daqueles que entram no jogo depois. Estes, por sua vez, só ganham dinheiro se atraírem ainda mais pessoas a participar.

Se olharmos para os bitcoins como moeda, mas admitirmos que ainda precisamos do dinheiro tradicional como referência de valor, então qual é a vantagem do bitcoin? Qualquer uma das supostas vantagens dos bitcoins desaparece se ele precisar da moeda normal como um adjunto para ser útil.

Finalmente

Portanto, antes de entrar no movimento dos bitcoins, perceba, pelo descrito acima, que, como moeda, os bitcoins são cheios de falhas. Como investimento, você já está atrasado para o jogo e está apenas financiando as pessoas que entraram antes. E antes mesmo que você perceba, você se verá entusiasmado falando sobre bitcoins em festas de aniversário, porque agora você faz parte da pirâmide!

Este texto tem um sabor de frustração, porque vejo pessoas que eu considerava mais espertas do que eu dedicando enormes quantidades de energia a projetos relacionados ao bitcoin e não contribuindo de fato para o seu próprio bem-estar ou para o bem-estar da sociedade.

Um segundo título deste discurso retórico poderia ser: Bitcoin – cale a boca e faça as contas.