Uma Nova Luz: Vacina Inoculada por Adesivo

Assistindo estarrecido à marcha da Covid, em um país que aparentemente desistiu de tudo, eis que entra no meu radar um novo estudo clínico vacinal, publicado em pré-print no site BioRxiv, no último dia 31/05. O trabalho dá conta de uma nova e promissora maneira de inocular o imunizante, via adesivo sobre a pele. Lembrando que este é um blog dedicado à ciência e à tecnologia, traduzimos abaixo o Resumo, com um link para o trabalho original. Antes, porém, algumas considerações.

Este adesivo tem 1 cm de diâmetro. Imagem apenas para ilustração – iStock

Ao longo de dezesseis meses [em minha contabilidade], o inventário de rumores relacionados ao contágio conseguiu transcender fronteiras. Criativas e fúteis, essas histórias se multiplicam à medida que a pandemia se recusa a ceder. Embora nos primeiros dias a maioria das conversas girassem em torno de indagações sobre potência do vírus e de como tratar o surto, o problema lentamente evoluiu para o negacionismo catastrófico, e inacraditavelmente casual, que observamos. A aparente casualidade vai contra a análise dos fatos, visto que a consciência sobre a doença é imensa e os brasileiros que viveram os tempos difíceis desde o ano passado estão muito cientes de seus efeitos fatais.

A humanidade em muitos momentos da história deixou o medo se transformar em pânico ou negação, obliterando todos os vestígios de racionalidade. O feedback em torno do gerenciamento e da responsabilidade sobre a atual pandemia também parece irracional. Assim como a teoria da cura pelo CO2 proposta por um motorista de Nova Delhi, mais teorias desse tipo abundam nos botecos, mercados e feiras do Brasil, de Manaus a Porto Alegre, que vão desde a ingestão de grandes quantidades de álcool, vermífugos e anti-malariais, até a interrupção do consumo de certas frutas e legumes [como também aumento no consumo de outros], além de apelos à superstição. A lista é interminável, e cada país, estado, cidade e localidade acrescenta seu próprio “tour de force” a essas histórias.

O desafio para as pessoas que trabalham na linha de frente é filtrar os rumores e transmitir verdades básicas sobre a pandemia e suas causas. No entanto, à medida que vemos mais complacência no horizonte, fica como um exercício para estados e municípios tentar lidar com o medo e o cansaço subjacentes às comunidades que sofrem. Para compor o problema, existe a infeliz disseminação do estigma da doença; uma doença incomum (mas não incontrolável).

A necessidade do momento é pressionar agressivamente por uma campanha de esclarecimento que envolva todas as partes interessadas [we, the people], no rádio, televisão e em tantos canais criativos quanto possível. Uma miríade de outras pequenas atividades de comunicação, como pôsteres, adesivos, banners, pinturas de parede, murais, teatro de rua, músicas, quadros, anúncios em locais de culto, também seria bem vinda,

Conforme aprendemos com esta crise, é oportuno lembrar que os registros da literatura têm sido companheiros constantes da humanidade em períodos de incerteza. E os registros informam que no passado, quando uma pandemia atingia a humanidade, não havia muito que pudesse ser feito como o tanto que podemos fazer agora, e que desgraçadamente nos recusamos a fazer como povo.

A única medida efetiva nos tempos idos era o que hoje se conhece como distanciamento social e a quarentena dos enfermos que, segundo Procópio, o principal historiador bizantino, eram feitos voluntariamente pelos indivíduos. Na era atual, só nos resta lutar contra os golpes e as flechadas da fortuna adversa, já que as luzes da razão [e do bom senso] se apagaram para grande parte da humanidade [a influência das redes sociais foi instrumental para o estabelecimento dessa indústria anti-ciência que apenas começa a mostrar sua cara. Falaremos mais sobre isso neste blog].

Temos que nos empenhar para estar um passo à frente, promover o distanciamento social, usar máscaras e garantir a higiene, coisas que não eram possíveis para todos nos tempos antigos.

O Papel da Mídia

A mídia também deve ter consciencia de sua responsabilidade pública ao reportar sobre a Covid. Em vez de jornalismo e reportagem responsável, grande parte da imprensa tem reportado vazamentos, especulações e insinuações com grande velocidade e sem verificação de fatos. As agendas individuais de cada meio de comunicação mudaram das páginas editoriais para as de notícias, levando à confusão de fatos e opiniões.

Infelizmente, a mídia (nem falemos do governo) está relatando as mortes apenas em termos de números áridos, em oposição ao impacto real da doença no país. Já perdemos quase 500.000 brasileiros, cada um deles uma pessoa importante e única. Diga-nos seus nomes, mostre-nos seus rostos, conte-nos algo sobre eles e use seu desaparecimento como inspiração para não despediçar outro cidadão útil e querido. Precisamos sentir a perda; não contar um número sem significado.

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Proteção Completa por Vacina de Espículas de SARS-CoV-2 Inoculada por Adesivo de Pele

Resumo

O SARS-CoV-2 infectou mais de 160 milhões de pessoas, resultou em mais de 3,3 milhões de mortes, e ainda coloca muitos desafios na distribuição de vacinas. Neste estudo, usamos um adesivo de micro-matriz de alta densidade para aplicar uma vacina contendo subunidades da espícula do
SARS-CoV-2 diretamente na pele.

Mostramos que a vacina, revestindo o adesivo a seco, é termoestável, e a entrega das espículas via HD-MAP induziu maiores respostas imunológicas em celulas e anticorpos, com soro capaz de neutralizar potentemente partículas isoladas clinicamente relevantes, incluindo das linhagens B.1.1.7 e B .1.35.

Finalmente, uma única dose de espículas administrada por HD-MAP forneceu proteção completa contra o desafio letal do vírus, demonstrando que a administração de uma vacina SARS-CoV-2 por HD-MAP é superior à vacinação tradicional com agulha e seringa e tem potencial para provocar um grande impacto na pandemia de COVID-19 em curso.

Link para o trabalho original

A Era da Domótica

A cada vez mais popular tecnologia que permite a ‘computadorização’ das casas – por enquanto da parcela mais afluente da população – tem um nome raramente evocado, seja em fala ou escrita: Domótica. Segundo a corrente principal, o termo ‘domótica’ é uma composição entre a palavra latina “domus” (casa, lar) e as palavras “robótica” ou “eletrônica”. Outros dizem que é simplesmente uma contração da expressão “robótica doméstica” [‘domotics’, em inglês]. De qualquer forma, os proponentes da automação doméstica querem encher seu espaço de vida com tecnologias ‘espertas’.

Imagem: iStock

Em uma casa esperta, todos os sistemas e utensílios são auxiliados por computador e controlados remotamente. Isso permite, por exemplo, programar as luzes e o aquecimento para que se ativem ou desliguem sozinhos. É possivel fazer com que as luzes diminuam ao se aproximar a hora de dormir, ou programar utensílios para trabalhar em horários específicos. A imaginação é o limite.

A domótica também inclui dispositivos como campainhas ‘inteligentes’, fechamento/travamento automático de portas e gerenciamento de sistemas de alarme.

As razões do crescimento

Os casos de uso da automação residencial se enquadram em três categorias principais: conforto, eficiência e segurança. O público geral parece ter a percepção de que a domótica adiciona muito valor a esses aspectos-chave do ambiente doméstico. A seguir, alguns exemplos:

  • Conforto (e conveniência)

A automação residencial alivia sobremaneira o peso das tarefas domésticas. É possível configurar o aspirador para trabalhar por você. Não é preciso se lembrar de desligar a máquina de lavar quando a secadora estiver pela metade com a última carga – ela pode fazer isso sozinha.

A domótica também significa ter o controle remoto da tecnologia que roda em sua casa. Você pode desligar ou ligar as luzes sem ir até o interruptor [ou sem estar em casa]. Você pode configurar sua máquina de café para começar o preparo enquanto você fica na cama por mais uns minutos. As possibilidades são inúmeras.

  • Eficiência

Além do conforto, a domótica também propõe aumentar a eficiência da sua casa.

Uma casa ‘inteligente’ é uma grande aliada no controle do uso de itens como eletricidade, aquecimento e água. Quando sua casa pode desligar automaticamente as luzes e o aquecimento, você reduz substancialmente o desperdício de energia. Isso se traduz em economia de dinheiro e um ambiente mais sustentável.

  • Segurança

A automação residencial inclui tecnologias de segurança, como sistemas de alarme e campainhas inteligentes. É possível, por exemplo, definir o alarme remotamente. Se ele disparar por algum motivo, você tem um alerta automático imediato.

Como outro exemplo, sua casa pode gerenciar a iluminação de forma a parecer que você está em casa durante um feriado. Em vez de se preocupar por ter deixado o ferro de passar ligado, você pode relaxar sabendo que sua casa inteligente o desligou.

Há também os recursos que ajudam a proteger o patrimônio. Por exemplo, sensores de vazamento de água e detectores de fumaça/monóxido de carbono. É possível ser alertado sobre os problemas antes que eles causem danos irreversíveis.

As vulnerabilidades da domótica

Como acontece com qualquer tecnologia, também existem desvantagens a serem consideradas.

A primeira preocupação é a vulnerabilidade potencial a hackers e falhas técnicas. O que acontece se a porta da frente apresentar mau funcionamento e você ficar preso; ou se um ator mal-intencionado desativar seus alarmes? Essa preocupação é (parcialmente) mitigada através de uma maior educação/conscientização sobre segurança cibernética em geral – complementada por boas práticas. A instalação de atualizações regulares do ‘firmware’ é também de suma importância, assim como o uso de senhas fortes, com mais de 20 caracteres – este post de março se relaciona ao assunto.

A segunda preocupação gira em torno da privacidade e da proteção de dados. O uso da domótica gera dados e metadados de todos os tipos – dados sobre quando você está em casa, o que faz em casa e como usa seus eletrodomésticos [que, por serem ‘inteligentes’, são totalmente integrados ao sistema]. Esses dados são valiosos para todos os tipos de atores: anunciantes, cibercriminosos, corporações e o estado-nação [sim, todos nós temos algo a esconder]. Ao convidar a ‘Internet das Coisas’ (‘Internet of Things’ – IoT) para sua casa, você também convida novas camadas de vigilância e garimpagem de dados – inofensivas ou não.

Em terceiro lugar vêm as questões de integração e custos. Diferentes ferramentas de tecnologia doméstica nem sempre funcionam bem umas com as outras. Isso pode resultar em um gerenciamento complicado de muitos recursos. Ou em um compromisso involuntário de longo prazo com apenas uma ou duas marcas que funcionam integradas.

Imagine um mundo onde o trabalho doméstico não-criativo não mais existe. Sua casa se administra sozinha e você tem o controle, não importa onde esteja. Suas tarefas são executadas pela automação e seu tempo vai para os seus projetos, lazer e estar com a família/amigos. Em última análise, a domótica propõe economizar dinheiro, tempo e energia, ao mesmo tempo em que melhora a qualidade de vida.

Como toda tecnologia, ela traz vantagens e oportunidades, mas também novos problemas e desafios. Para que adicione real valor e não se transforme em uma grande superfície a ser explorada para ataques ao bem-estar e ao patrimônio, ela demanda consciência nas ações e completa alfabetização digital. Voltaremos sempre a este assunto.

A Escassez de Chips e o Preço do Seu Smartphone

A Intel anunciou ontem (31/05) que pode levar vários anos para que a escassez global de semicondutores seja resolvida, um problema que já provocou o fechamento de várias linhas de produção de automóveis e que também está sendo sentido em outras áreas, incluindo produtos eletrônicos de consumo.

iStock

O CEO Pat Gelsinger disse, em uma sessão virtual da feira Computex em Taipé, que a necessidade de atividades remotas na pandemia levou a um surto de crescimento explosivo na indústria de semicondutores, o que colocou uma grande pressão nas cadeias de suprimento globais.

“Embora a indústria tenha tomado medidas para absorver os efeitos das restrições no curto-prazo, ainda pode levar alguns anos para o que o ecossistema supere a escassez de capacidade de fundição, substratos e componentes.”

Gelsinger havia dito ao The Washington Post, em uma entrevista em meados de abril do ano passado, que a escassez levaria “alguns anos” para se resolver e que planejava começar a produzir chips domesticamente, dentro de seis a nove meses, para resolver a escassez nas fábricas de automóveis dos EUA.

A Intel anunciou um plano de US $ 20 bilhões em março passado para expandir sua capacidade de fabricação, construindo duas fábricas no Arizona.

Planejamos expandir para outros locais nos EUA e na Europa, garantindo ao mundo uma cadeia de fornecimento de semicondutores sustentável e segura

Os planos da Intel desafiam diretamente as duas outras empresas no mundo capazes de fazer chips avançados – A Taiwan Semiconductor Manufacturing e a Samsung Electronics, da Coréia do Sul.

As duas passaram a dominar o negócio de fabricação de semicondutores, com o deslocamento de seu centro de gravidade dos Estados Unidos, onde grande parte da tecnologia foi inventada, para a Ásia, onde atualmente são fabricados mais de dois terços dos chips avançados.

Tendência vem para durar

Essa tendência de aumento dos preços dos produtos eletrônicos não vai parar. Os fabricantes por certo não estão dispostos a dar seus smartphones no prejuízo.

O déficit do mercado também contribui para essa inflação do preço. A alta vai continuar e, já a partir do segundo semestre deste ano, teremos que começar a nos acostumar com os novos patamares de preços dos smartphones, alertou o vice-presidente da fabricante indiana Realme, Xu Qi.

Ele disse que a escassez aguda de chips 5G – entre os quais as plataformas Snapdragon 870 e Snapdragon 888 – começou a ser sentida no início do ano. Também havia escassez de processadores 4G. Além disso, o executivo da Realme observou que houve um aumento nos preços de memória, componentes para carregadores e outras peças. Esses itens adicionaram cerca de 10% aos preços.

Tudo isso afetará inevitavelmente o custo dos produtos finais. Usuários em vários países já começaram a migração ativa para os dispositivos com suporte para redes de quinta geração. O crescimento da demanda por esses modelos também forçará seu preço para cima.

(*) O texto foi editado em 01/06 para correções tipográficas

Semana Dura no Home Office

Semana correndo em um turbilhão de compromissos. Estou finalizando um projeto acadêmico e isso tem consumido todas as minhas horas nos últimos dias. Hoje mesmo tenho duas provas à tarde, mais duas amanhã e mais uma na segunda. Essa maratona acabou tendo impacto na atividade – e na interatividade – do site. Espero que pela primeira e última vez; este site é agora parte integral da minha rotina.

Eu havia prometido para hoje meu post de agradecimento pela indicação ao “Outstanding Blogger Award” [adorei isso :)] – uma verdadeira tradição na comunidade WordPress – mas terei que adiar, pois ainda não tive como terminar as avaliações das minhas indicações. Está sendo um post muito divertido de escrever. Será prazeroso compartilhar.

Por tudo isso, então, vou precisar interromper os posts até segunda-feira (31). Semana que vem, se tudo der certo, terei um horizonte livre pela frente, e a verdadeira diversão pode então começar.

Paralelamente, preciso saber se o volume de conteúdo está adequado. O post de ontem (27) foi muito ruim, e foi instigado pela ânsia de gerar estatísticas. Essa não deve ser a motivação primeira quando se faz um blog. Ele deve ser um fruto livre da razão. Deve ser um trabalho diário, quase monástico, feito com dedicação e paciência, com os olhos do espírito nas pessoas reais que estão do outro lado. Mea culpa. Preciso acertar o tom.

Talvez eu esteja forçando demais a barra postando com uma frequência muito alta. Isso não é bom para ninguém, pois muito conteúdo de qualidade, no qual se investe muito esforço, talvez esteja sendo desperdiçado sem necessidade. Eu daria um dólar de prata para saber. Se alguém tiver sugestões, sou todo ouvidos.

Deseje-me sorte em minhas tribulações. Recomendações a todos.

Vive Teus Anos Como Te Apraz (Mas Não Pede Mais)

Não é o assunto mais animado, e nem mesmo totalmente apropriado per minhas próprias diretrizes para o site. Mas é um estudo científico recente (25/05), de uma publicação respeitável, em uma esfera que interessa aos trans-humanistas – que compõem um sub-grupo expressivo entre os tecnologistas – além dos youtubers evangelistas da juventude eterna. A postar apenas para um registro rápido. De passagem, é interessante tentar contrapor filosoficamente nossas pequenas veleidades suburbanas a esses fatos impiedosos que a Segunda Lei da Termodinâmica nos joga no caminho. Sugiro como exercício mental [ou algo de ‘mindfulness’, como dizem no YouTube’].

(*) Há também um pouco de acomodação de minha parte em usar esse (pre)texto conveniente em uma semana em que, no que tange a tecnologia da informação, nada realmente blogworthy aparece no meu radar.

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A Análise Longitudinal dos Marcadores Sanguíneos Revela Perda Progressiva de Resiliência e Prediz o Limite de Vida Humana

Resumo

Investigamos as propriedades dinâmicas das flutuações de estado do organismo ao longo das trajetórias individuais de envelhecimento armazenadas em um grande banco de dados longitudinal de medições de hemograma completo de um laboratório de diagnóstico. Para simplificar a análise, usamos uma estimativa log-linear da mortalidade a partir das variáveis ​​do hemograma completo como uma única medida quantitativa do processo de envelhecimento – doravante denominado indicador dinâmico do estado do organismo (DOSI).

Observamos que o aumento da distribuição do DOSI na população – dependente da idade – pode ser explicado por uma perda progressiva da resiliência fisiológica medida pelo tempo de autocorrelação do DOSI.

A extrapolação dessa tendência sugeriu que tanto o tempo de recuperação do DOSI como a variância divergiriam simultaneamente em um ponto crítico entre 120-150 anos de idade, correspondendo a uma perda completa da resiliência.

A observação foi imediatamente confirmada pela análise independente das propriedades de correlação das flutuações dos níveis de atividade física intradia coletadas por dispositivos vestíveis (wearables).

Concluímos que a criticalidade que resulta no fim da vida é uma propriedade biológica intrínseca de um organismo, que não depende de fatores de estresse e significa um limite fundamental ou absoluto da expectativa de vida humana.

Link para o trabalho na íntegra, em Nature.com