Bug nos Smart Contracts aciona um alerta jurídico

Na última quinta-feira [02/12] o blog “Schneier on Security” divulgou o caso [e deu início a uma discussão técnica] do hacker que roubou US $ 31 milhões da empresa de blockchain MonoX Finance, explorando um bug no software que o serviço usa para redigir contratos inteligentes.

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Especificamente, o atacante usou o mesmo token tanto para o tokenIn quanto para o tokenOut, que são métodos para trocar o valor de um token por outro neste tipo de operação. Funciona mais ou menos assim: O MonoX atualiza os preços após cada troca, calculando novos preços para ambos os tokens [in e out]. Quando a troca é concluída, o preço do tokenIn, ou seja, o token que é enviado pelo usuário, diminui, e o preço do tokenOut, o token recebido pelo usuário, aumenta.

Ao usar o mesmo token para as diferentes operações de tokenIn e tokenOut, o hacker inflou muito o preço do token MONO porque a atualização do tokenOut sobrescreveu a atualização de preço do tokenIn. O hacker então trocou o token por $ 31 milhões em tokens nas blockchains Ethereum e Polygon.

O problema básico neste evento é que, na arquitetura da blockchain, o código é a autoridade final – não há um protocolo de adjudicação. Então, se houver uma vulnerabilidade no código, não há recurso possível [e, claro, existem muitas vulnerabilidades no código].

Para muito observadores, incluindo Bruce Schneier, essa é uma razão suficiente para não usar contratos inteligentes para algo importante, por enquanto.

Os sistemas de adjudicação baseados na intervenção humana não são uma inútil bagagem humana pré Internet. Eles são vitais.

Bruce Schneier

Código de programação versus arbitragem humana

Na modesta opinião deste bloguista, embora, de fato, estejamos muito longe de o código ser um árbitro da justiça melhor do que um ser humano, acho que o problema básico aqui tem menos a ver com o código sendo a autoridade final e mais a ver com a falta de um protocolo de adjudicação.

No momento, não há uma boa maneira de ajustar retrospectivamente os resultados desses chamados contratos “inteligentes” com base em conhecimentos ou fatos que só podem ser totalmente apreciados ex post ao invés de ex ante, seja o conhecimento de funcionalidades não intencionais do código ou circunstâncias específicas não antecipadas pelas partes contratantes.

Este parece ser um problema bem compreendido por profissionais do direito e um aspecto amplamente suportado por diversos sistemas jurídicos (por meio de várias doutrinas, como quebra de expectativa ou previsibilidade). Já os tecnologistas proponentes de contratos inteligentes [incluindo a mim] parecem não ter ainda uma visão clara desses aspectos.

Uma transferência legítima de acordo com as regras codificadas

Para além do ‘problema básico’ descrito acima, existe um outro problema não menos básico e que se não for tratado corretamente deixará os “Contratos Inteligentes” para sempre quebrados: a maioria dos programadores normalmente escreve código sequencial limitado, não código de máquina de estado completo. Assim, uma grande quantidade elementos computacionais é deixada de fora na implementação dos contratos. Esses elementos, portanto, ficam “pendurados” e esperando para ser usados [e abusados].

Alguns críticos da blockchain dos contratos inteligentes argumentam que seria necessário incorporar uma versão forte da chamada Lógica de Hoare para garantir a integridade da computação na blockchain. A lógica de Hoare é um conjunto fundamental de regras, publicadas no final dos anos 1960. O bloco fundamental da Lógica de Hoare é a Tripla de Hoare.

Uma tripla de Hoare é da forma

{P} C {Q}

Onde {P} e {Q} são afirmações sobre o estado do sistema e C é um comando.

P, é a pré-condição
Q, é a pós-condição

Onde as asserções P e Q são expressas como fórmulas na lógica de predicados.

Quando a pré-condição P é atendida, a execução do comando C causa mudanças no sistema e estabelece a pós-condição Q.

Embora seja possível construir um código de “estado completo” com a lógica de Hoare, não é algo que a maioria das pessoas goste de fazer. Em suma, é um processo tedioso, não criativo, e colocar os pingos nos i’s e cruzar os t’s podem ser tarefas incrivelmente tediosas. Portanto, raramente é implementada, o que acaba inevitavelmente trazendo problemas em um tempo futuro.

Na vida normal, a última coisa que alguém realmente deseja é ter contratos irrevogáveis. Então a arbitragem geralmente fica “embutida” informalmente nos contratos inteligentes, através de métodos ad hoc. Em princípio, não há razão para que os contratos inteligentes não possam ter arbitragem embutida. Mas isso apenas cria uma série de questões subsequentes que ninguém quer abordar.

Até que a arbitragem de fato ou o controle total do estado sejam implementados nos Smart Contracts, veremos muito mais desse tipo de coisa acontecendo.

Move fast, break things

Eu temo que o problema descrito aqui seja um resultado lógico da abordagem “mova-se rápido e quebre coisas” preconizadas pelo Manifesto Ágil. As pessoas precisam pensar com clareza sobre até onde [e se] podemos utilizar certos paradigmas de desenvolvimento de sistemas na construção da infraestrutura da blockchain.

E como eu disse em outros posts aqui, precisamos parar de chamar as coisas de “inteligentes” quando elas são estúpidas. Antigamente, um dispositivo que não era útil sem uma conexão de rede era apropriadamente chamado de terminal burro. O código é sempre vulnerável, e qualquer desenvolvedor que não entenda isso é um “stupid hire”.

Hey, Zuck, conserte o Facebook antes de fugir para o Metaverso (please?)

Os tediosos conflitos do Facebook. Não importa o assunto. Quaisquer que sejam eles, são de uma monotonia atroz. Com emojis – essa simbologia infantil de representação de um rosto genérico – e “compartilhamentos”, o Facebook [e seus semelhantes] nos reduziu ao que somos na essência – ou nos expôs em nossa nudez e nosso vazio, como sempre fomos.

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A erosão de nosso senso de nós mesmos como uma espécie evoluída e dotada de valores mais elevados tem sido constante. Falando apenas por mim – talvez eu esteja sozinho, mas duvido – o que os algoritmos conseguiram acima de tudo foi me tornar menos interessado nas pessoas. Minha opinião sobre considerar as pessoas como entidades dignas de interesse despencou.

Essa desilusão é um sentimento novo para mim: sempre fui o tipo de idiota que acha nossa espécie fascinante. Eu gosto de conversar com as pessoas e ouvir o que elas pensam – e, francamente, analisá-las. Gosto de tentar descobrir como elas raciocinam. Gosto de como suas histórias pessoais informam sua abordagem a um problema ou a alguma questão. Antes, eu tinha a ideia – talvez ingênua – de que se eu conversasse com alguém por tempo suficiente, poderia descobrir de onde elas vêm, o que as moldou e por que suas vidas as levaram para onde elas estão agora – e se seu esforço valeu a pena.

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Hoje em dia, tenho a impressão de que eu não preciso falar com alguém por mais que 20 minutos para saber tudo o que ele ou ela assiste ou consome e qual o alcance de sua vida cultural. Eu também seria capaz dar um palpite bastante decente sobre que outras coisas que ele ou ela provavelmente acredita. Tamanha simplificação da vida ocorrida nos últimos 15 anos parece indicar que o problema humano está resolvido e tem muito menos a ver com a história ou com a diversidade entre os indivíduos do que se suspeitava.

Essa afirmações podem parecer um exagero, eu reconheço, mas o sucesso que o Facebook teve até hoje demonstra que conhecer o intimo de uma pessoas não é muito difícil como parecia em um passado um pouco mais distante. Desvendar as pessoas é basicamente o que algoritmos fazem. Eles provaram que o panopticon é totalmente possível.

Mas nem o Facebook ou o YouTube se contentam em apenas conhecer as pessoas “para sua melhor conveniência”; eles ativamente segregam as pessoas em perfis, padrões e grupos. O resultado final, como sabemos agora, é catastrófico. Parece seguro dizer agora que os grupos constroem sua própria dinâmica e tornam as pessoas mais bajuladoras ao líder autoritário, ou chatas, ou furiosas. A expressão “Câmara de eco” nem chega perto de descrever o empobrecimento da experiência humana no ambiente do Facebook.

O Facebook diz valorizar a conexão entre as pessoas. Mas acontece que não há nada intrinsecamente bom na conexão online entre as pessoas. Na internet, a exposição a pessoas diferentes muitas vezes nos faz odiá-las, e esse ódio estrutura cada vez mais nossa política. A corrosão social causada pelo Facebook e outras plataformas não é um efeito colateral de más decisões de gerenciamento e design. É algo que está embutido na própria natureza da mídia social.

Há muitos motivos pelos quais o Facebook e as empresas de mídia social que vieram depois dele estão implicados no colapso democrático, na violência comunitária em todo o mundo e na guerra civil [ainda fria, mas que fica cada vez mais quente] em lugares como os Estados Unidos e mesmo o Brasil. Esses sistemas em redes centralizadas, com interação entre os membros mediadas fora da ordem cronológica, são motores de foguete para espalhar desinformação e combustível de jato para teorias da conspiração. Eles recompensam as pessoas por expressarem raiva e desprezo pelo “outro”, sequestrando e usando os mesmos circuitos mentais que injetam dopamina na circulação quando você ganha jogando caça-níqueis.

Foto por Eugene Capon em Pexels.com

Metaverso

Mesmo recentemente, até alguns anos atrás, havia ainda espaço para resistir a esse aspecto horrível da maleabilidade humana. Os experimentos de aprisionamento de Stanford haviam sido desmistificados e parecia que nossas piores noções a respeito da humanidade haviam desaparecido. “Todo mundo é um idiota online, mas as pessoas não são suas performances digitais”, alguém disse. Ou talvez as pessoas sejam mais complicadas do que parece.

Vou ser cuidadoso aqui e dizer que, claro, não é apenas o Facebook que trilha a senda da infâmia. Mas como sou um falível humano [embora fazer parte da humanidade tenha um quê de rebaixamento existencial no momento], vou recorrer à minha própria subjetividade [basicamente não algorítmica]: O Facebook é obviamente o pior ofensor entre todos – pelo menos quando se trata de manipular a lamentável previsibilidade dos afetos humanos.

Nas próximas semanas [e meses] espero ser capaz de absorver as implicações da mudança [do nome da holding co. da rede para Meta] para minha esfera pessoal, como também os efeitos de larga escala, desde a política até a democracia, passando pela saúde pública, à medida que mais fatos forem sendo conhecidos [ainda estou digerindo os Facebook Papers].

Eu adoraria prognosticar que a reformulação da marca visando ocupar o Metaverso será um fracasso e que os humanos enxergarão a verdade através da enorme cortina de relações públicas e propaganda. É deprimente que uma empresa que provou infligir tantos danos à sociedade tenha decidido não fazer uma mínima auto crítica sobre seu passado, não consertar nada e, de fato, expandir suas operações para usurpar ainda mais a vida das pessoas.

Eu gostaria de acreditar que o Metaverso não vai funcionar, e que o convite ridículo de Mark Zuckerberg para que as pessoas “se conectem nos espaços ilimitados da realidade virtual” – onde peixes nadam entre as árvores, e Lucy voa no céu com diamantes – não atrairá ninguém. Mas vamos encarar a verdade: antes de todos nós começarmos a usá-los, eu também achava que os rostinhos de emoji eram a suprema idiotia. Veja onde estamos agora… :)

* * *

Nota: Se este post for compartilhado no Facebook, o que é muito bem vindo [engajar com o adversário em seu próprio campo], claro que eu vou apreciar por demais a ironia. ká ká ká.

Tire sua Câmera da Minha Cara

A tecnologia de vigilância biométrica, como o reconhecimento facial, é uma tecnologia que permite que você seja identificado, analisado e rastreado em espaços públicos. Ela se alastra fora de controle.

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O que está acontecendo?

A vigilância biométrica está aumentando assustadoramente. Vemos câmeras de reconhecimento facial em cada vez mais lugares. Pense, por exemplo, no posto de gasolina, no supermercado, nos estádios de futebol. Pense nas casas, nas ruas e nas câmeras voltadas diretamente para o seu rosto enquanto você caminha pela calçada. E então pense no uso de toda essa informação pelos aparelhos de repressão policial local e nacional. É sabido que a polícia aplica o reconhecimento facial a imagens de câmeras comuns, de baixa tecnologia. Mas sabemos também que eles estão fazendo experimentos com aplicações de reconhecimento facial de maior alcance e tecnologia mais especializada.

O reconhecimento facial é muito intrusivo. Mas isso não impede os legisladores, nas cidades e no Congresso, de apresentar cada vez mais projetos para sua implantação. Poucos parlamentares se importam com as garantias constitucionais, e de seus gabinetes saem projetos de lei cada vez mais penetrantes.

Não conheço nenhum vereador ou deputado que defenda a regulamentação da vigilância urbana ou que cobre maior responsabilidade das empresas de tecnologia. Mas conheço muitos que defendem mais e mais vigilância. Então você sabe que algo está realmente errado. Além do reconhecimento facial, também vemos outras maneiras pelas quais nossos corpos são rastreados, analisados ​​e controlados [os passaportes de imunidade são apenas a iteração mais recente desse controle].

Por que estou preocupado?

O espaço público desempenha um papel importante em uma sociedade livre e aberta. É o lugar onde a vida pública e o debate público acontecem e onde exercemos nossos direitos democráticos. É importante que todos se sintam livres nesses espaços. Livres para se reunir, expressar sua opinião e se movimentar. Os custos sociais associados ao uso da vigilância biométrica no espaço público são inaceitáveis.

Devido à aplicação não direcionada de vigilância biométrica, os transeuntes são capturados indiscriminadamente. Isso permite que os indivíduos sejam identificados, analisados, rastreados, traçados e controlados em grande escala. Essa tecnologia cria uma sociedade de desconfiança, de controle e de discriminação na qual você não pode mais participar de forma anônima da vida pública. Isso tem um efeito limitador [“the chilling effect“] sobre o quão livre você se sente para exercer seus direitos.

A biometria significa que as características do seu corpo são reduzidas a unidades mensuráveis. A vigilância biométrica transforma as pessoas em códigos de barras ambulantes que podem ser digitalizados e combinados com os dados já coletados anteriormente sobre elas. É muito importante lembrar que você só tem um rosto, cujas características não pode mudar e que não pode deixar em casa. Depois que um código de barras for vinculado ao seu rosto, você sempre poderá ser rastreado com ele. Uma vez capturado, você perde o controle dos dados e não há como escapar da vigilância.

O sistema de crédito social da China

A vigilância biométrica está tornando realidade o pesadelo burocrático descrito por George Orwell em seu 1984. O estado chinês está estabelecendo um vasto sistema que irá monitorar o comportamento de sua enorme população e classificá-los todos com base em seu “crédito social”. O Sistema de Crédito Social [SCS] na China não é apenas destinado a punir quem critica o governo e o Estado, como é o caso na maioria dos regimes totalitários. O SCS pode acusar até mesmo a menor infração, como fumar em uma zona de não fumantes.

Esse sistema, anunciado pela primeira vez em 2014, visa reforçar a ideia de que “manter a confiança é glorioso e quebrar a confiança é vergonhoso”, de acordo com um documento do governo chinês. O programa já está totalmente operacional em todo o país, mas ainda está em fase de testes. O esquema será obrigatório. No momento, o sistema é fragmentado – alguns são administrados por prefeituras, outros são avaliados por plataformas tecnológicas privadas que armazenam dados pessoais.

Como nas pontuações de milhas ou crédito privado que conhecemos, a pontuação social de uma pessoa pode subir e descer dependendo de seu comportamento. A metodologia exata é um segredo – mas exemplos de infrações incluem dirigir mal, fumar em zonas não fumantes, comprar muitos videogames e postar notícias falsas online. Violar o “código social” pode resultar em proibição de voar ou usar o trem, usar a internet, ter uma escolaridade decente, conseguir um emprego, se hospedar em hotéis e até mesmo de ter um animal de estimação.

A China obviamente está tirando proveito da mentalidade de rebanho, ao rotular os violadores de “maus cidadãos” [observo aqui que mentalidade de rebanho é algo que não falta em nossa sociedade desconfiada da ciência]. Alguém duvida que esses mesmos argumentos poderão ser e serão adotados pelos governos do ocidente, especialmente em uma época de radicalização política e ameaças à ordem publica?

Como toda tecnologia de criação e monitoramento de perfis, a vigilância por câmeras é construída, em sua essência mais íntima, para diferenciar e classificar as pessoas. Isso reforça as desigualdades existentes na sociedade, bem como o desequilíbrio de poder entre governos, empresas de tecnologia e cidadãos.

Acredito que essa tecnologia é uma violação brutal de nossos direitos e liberdades e uma ameaça à nossa sociedade livre e aberta. Com as tecnologias de reconhecimento facial sendo crescentemente aplicadas ao redor, é hora de lutar por nossa liberdade na rua. Os reguladores nacionais parecem não estar suficientemente equipados [ou com vontade] para fazer cumprir a Constituição; para impedir o uso desta tecnologia nefasta.

Claramente, a maioria das pessoas está completamente no escuro sobre esses programas subterrâneos e suas implicações perigosas. Portanto, a missão para aqueles que estão “por dentro” deve ser espalhar a palavra e alertar o maior número possível de pessoas. É preciso também que cada um assuma responsabilidade pessoal pela quantidade de dados que compartilha voluntariamente com sites de mídia social, aplicativos e a Internet em geral. A única defesa contra a erosão total da privacidade – e, portanto, da liberdade – é um público educado que defende seus próprios direitos.

Não há lugar para a tecnologia de vigilância biométrica em uma sociedade livre. É por isso que eu acredito que essas tecnologias deveriam ser efetivamente banidas da vida pública. Como bem disse Winston Churchill, uma sociedade que troca a liberdade por segurança não merece nem liberdade e nem segurança.

Facebook Muda de Nome Rumo ao Metaverso

O Facebook costumava ser visto de forma positiva pelos usuários, pois conectava o mundo e aproximava as pessoas. Isso não é mais o caso. Tem havido escândalos após escândalos e os usuários agora associam o Facebook a todas as coisas negativas que o Facebook dizia combater.

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Neste ponto da história, o Facebook não pode mais vencer a guerra para ganhar os corações e mentes das pessoas a respeito uma série de questões. Então, em vez disso, ele precisa construir “uma nova narrativa”. A empresa está, assim, abandonando o nome e a marca Facebook e se concentrando em uma nova visão em torno do chamado Metaverso.

Não importa se essa visão é possível ou não, ou se a realidade virtual (RV) vai ou não se tornar o próximo paradigma de interação social. O importante é que trata-se de um segmento novo e interessante para construir uma nova marca e Mark Zuckerberg não quer perder a oportunidade.

O metaverso em minha opinião, sempre foi um grande embaraço. O Second Life existe há 20 anos e ainda é uma novidade divertida. O que o Facebook quer é adicionar publicidade e conteúdos de marca e fazer um second-life mais caro devido aos requisitos de hardware de última geração [além de torná-lo mais lento, com uma interface mais difícil – porque é RV].

Ninguém descobriu ainda uma maneira de proporcionar uma boa experiência de usuário em sistemas de realidade virtual, e também nenhum “caso de uso matador”. Não acho que o Facebook seja particularmente capaz de lançar algo que possa competir com qualquer coisa que a Microsoft ou a Apple possam lançar. Todos os CEOs que compram essa ideia de metaverso só falam sobre o universo de possibilidades, mas sinto que a única possibilidade que estão eles perseguindo é construir um Wal-Mart na Times Square.

A maioria desses CEOs aponta com aprovação o execrável [filme] “Jogador 1” como exemplo de uma visão a ser realizada. Eu sinto muito, mas penso que um garoto excitado de 15 anos raspando os pêlos do corpo para ser mais aerodinâmico na RV, enquanto se envolve em extensos monólogos de autocongratulação sobre como ele é um cara legal por não sentir repulsa por sua namorada “rubenesca”, enquanto recita versos de Ghostbusters em uma série de vinhetas incoerentes do tipo “lembra disso?”, não é uma visão para o futuro.

É uma pena porque acho que há obviamente usos legítimos para a telepresença via RV. Ela pode ser a próxima fronteira da videochamada, o que parece estar de acordo com a missão declarada do Facebook de conectar o mundo. Mas, suspeito que na realidade tudo o que nós teremos será um videogame extremamente ruim em vez disso – será que eles também terão NFTs?.

Posso ver como pode ser frustrante administrar uma empresa cheia de esforços diferentes, alguns dos quais pretendem ser novidadeiros ou pelo menos representar uma mudança de direção. Mas, debalde todos os esforços, ainda assim não deixam de ser percebidos e lembrados como mais uma coisa azul.

Espero que essa jogada permita que Zuckerberg permaneça tecnologicamente relevante, ocupando o lugar ao qual seus dons pessoais o levaram, em vez de ficar atolado em questões sobre os padrões éticos [ou falta de] em suas plataformas usadas por adolescentes e crianças.

Idealmente, uma plataforma ética também poderia ser cultivada por meio de algum tipo de transferência de parte do poder tecnológico acumulado pelas Big Techs à comunidade, de alguma forma. Um dos maiores desafios para o futuro é, em minha opinião, permitir que tais sistemas éticos se desenvolvam de forma padronizada, mas de maneira diversa. Em um mundo ideal, cada nova comunidade ou grupo deve ter sua própria dinâmica psicológica e merece a oportunidade de existir sem ser arrastada para a mesmice da(s) plataforma(s) por um conjunto agressivo, irritado ou tóxico de usuários.

Sinceramente, me deprime que esse revival do termo metaverso esteja sendo levado a sério e que provavelmente irá grudar no vocabulário como o desprezível termo “nuvem” e, pior, que o desenvolvimento dessas tecnologias esteja sendo conduzido por uma empresa como o Facebook.

Pessoalmente não estou interessado na visão particular de Mark Zuckerberg sobre o metaverso. Em vez disso, tenho medo de quantos mais caminhos errados podemos tomar no modo como desenvolvemos nossa tecnologia da informação e a aplicamos na sociedade. A visão FOSS [Free Open-Source Software – software livre] da computação, em que o progresso do software é compartilhado e atua como um equalizador, e onde as pessoas controlam o comportamento do seu software é o que precisamos, e não um lixo novo e melhor de vigilância-vigilância-propaganda-usuário-hostil [Agora em 3D!]

Voltaremos ao tema, certamente.

Multiplique sua Estimativa por Pi

A estimativa de projetos é uma arte hermética, em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que no desenvolvimento de sistemas computacionais. Certa vez, ouvi falar de uma misteriosa confraria de numerólogos, que multiplicavam suas estimativas de tempo por π. A prática supostamente dava a eles uma margem de segurança suficiente para definir novos requisitos, testes, iteração e outras mudanças aleatórias no escopo do projeto.

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Isso me pareceu curioso e arbitrário, mas fiquei intrigado. Depois de refletir um tanto, pude colocar a conjectura da estimativa circular (CEC) em bases matemáticas sólidas.

Alguém – um designer, seu líder, o produtor executivo, um amigo, sua mãe – pede que você faça algo. Você pensa um pouco, faz algumas anotações, considera o que é necessário e apresenta um projeto e uma estimativa de tempo para a conclusão.

Mas as coisas mudam. Acontece que havia algumas coisas que seu designer/ líder/produtor/ amigo/mãe esqueceu de mencionar e, à medida que você fazia o trabalho, sugiram algumas ideias para estender o projeto um pouco mais. Seu escopo cresceu.

E é claro que nem tudo correu bem. Sua primeira tentativa foi um fracasso [instrutivo]. Então você focou na segunda tentativa e acabou criando uma serie de problemas que demoraram um tanto mais para serem ajustados. Você gastou dois dias extras para encontrar uma solução alternativa. Em suma, você seguiu um caminho positivamente tortuoso até seu objetivo.

Quanto tempo demorou a sua jornada em comparação com o plano original? Parece que os numerólogos estavam certos…

E aí está – não importa o que você pense quando começa um projeto. Depois de passar pela pesquisa, design, discussões, protótipos, falhas, testes, rotatividade de requisitos e todos os outros caprichos do processo criativo, você certamente terá gasto π vezes o tempo que você planejou originalmente.

Alguns podem questionar meu rigor matemático e até mesmo contestar o que acredito ser a conclusão incontestável. Alguém poderá alegar que o multiplicador correto não é de fato π – mas 2, ou √2, ou e, ou a razão áurea φ. No entanto, não conheço ninguém que chegue a alegar que o multiplicador seja < 1.

Independentemente de quaisquer inclinações numerológicas, o argumento é que você se permita admitir que no início de um projeto você a) não tem o panorama completo, b) você não sabe como as coisas vão se encaminhar, e c) há trabalho pela frente sobre coisas que você ainda não tem ideia.

Nenhuma quantidade de planejamento e análise de tarefas pode mudar isso, então não tente. Em vez disso, dê a si mesmo uma reserva de tempo plausível e então mergulhe no trabalho.

Ah, e aquela lista de tarefas que você fez no fim de semana passado? Não é por acaso que você conseguiu concluir apenas cerca de um terço dos itens da lista. ;-)