Blockchain e o Voto

De vez em quando sou questionado sobre ideias envolvendo sistemas de votação eletrônicos, remotos e blockchains. Este post fala sobre as propriedades mínimas de segurança que um sistema de votação precisa ter, e sobre onde as blockchains ajudam e onde não ajudam. Usamos como exemplo o sistema criptografado de votação STAR-vote. Pode ser um pouco árido para os usuários não técnicos, mas também pode ser interessante para quem gosta de se envolver mais profundamente no tema.

Uma interface digital abstrata, mostrando pastas com chave pública e dados de hash escritos em código.

A comunidade de computação concorda que sistemas votação rodando em máquinas de votar modernas têm ao seu dispor processadores muito rápidos e uma quantidade enorme de armazenamento. Esse hardware moderno torna menos árdua a tarefa de implementar redes que exigem computação de alta-performance, como a Blockchain. Vamos então usar esse dado estrutural para um experimento mental:

Usando o work-flow da Blockchain, vamos colocar as máquinas de votação em rede, dentro da Blockchain. Assim, voilà, temos uma estrutura descentralizada, com uma cópia de cada voto em cada máquina de votação; podemos até usar o emaranhamento da linha do tempo, para que o histórico de cada máquina seja protegido por hashes armazenados em todas as outras máquinas. O problema da votação eletrônica está resolvido.

Em um sistema eleitoral implementado na Blockchain, todas as máquinas do sistema possuem todos os registros de votos, tornando impossível a fraude. É o mesmo esquema que legitima transações financeiras. Neste caso, a transação é o voto.

Mas qual é o ponto forte de uma blockchain? No aspecto mais fundamental, trata-se de ter um registro histórico inviolável sobre eventos. No contexto de um sistema de votação, significa que uma blockchain é um lugar perfeito para armazenar cédulas e proteger sua integridade. O STAR-Vote e muitos outros sistemas de votação criptografados “ponta a ponta” adota o conceito de “quadro público de avisos” para onde os votos criptografados são enviados para armazenagem até a contagem. Blockchain é a maneira óbvia de implementar o quadro público de avisos.

Cada eleitor do STAR-Vote sai do local de votação com um “recibo” que é apenas o hash de sua cédula criptografada, que por sua vez tem o hash da cédula do eleitor anterior. Em outras palavras, todos os eleitores do STAR-Vote deixam o local de votação com um ponteiro para a blockchain que pode ser verificado de forma independente.

Acontece que mesmo os sistemas de votação baseados em blockchain precisam de muitas propriedades de segurança adicionais antes que possam ser efetivamente confiáveis. Aqui está uma lista simplificada, empregando algum vocabulário típico desta área de estudos para referenciar essas propriedades.

Propriedade “Votado como pretendido”.

Um eleitor está olhando para uma tela de algum tipo e escolhe em um botão: “Alice para presidente”. A máquina de votação prontamente indica isso com um pop-up, ou algum texto destacado, ou sons. Contudo, é totalmente possível que algum malware dentro da máquina possa registrar silenciosamente o voto como “Bernie para presidente”. Portanto, qualquer sistema de votação precisa de um mecanismo para derrotar malware que ameace comprometer a integridade da votação.

Nota: Uma abordagem interessante aqui [e já consagrada pelo costume americano] é ter cédulas de papel impressas (e/ou cédulas de papel marcadas à mão) que podem ser comparadas estatisticamente às cédulas eletrônicas. Outra abordagem é ter um processo pelo qual a máquina pode ser “desafiada” a provar que criptografou corretamente a cédula.

Propriedade “Votado em privacidade”.

É importante que não seja possível identificar um eleitor em particular pela forma como ele votou. A votação moderna deve garantir que os votos sejam secretos, com várias medidas tomadas para tornar difícil ou impossível para os eleitores violarem esse sigilo.

Quando se deseja manter a propriedade de privacidade eleitoral nas máquinas da votação, significa que deve-se evitar que a máquina retenha o estado interno (ou seja, mantenha em seus circuitos uma lista dos votos em texto aberto, na ordem de votação) e também deve garantir que o texto cifrado dos votos, publicado na blockchain, não está vazando silenciosamente, por meio de canais subliminares, informações sobre o texto aberto que o gerou.

Propriedade “Contado como votado”.

Se temos eleitores levando para casa um recibo de algum tipo que identifica seu voto de texto cifrado na blockchain, então eles também podem querer ter algum tipo de prova criptográfica de que a contagem final do voto inclui seu voto específico. Isso acaba sendo uma aplicação direta de primitivos criptográficas homomórficos.

Se olharmos para essas três propriedades, é possível notar que a blockchain não ajuda muito com as duas primeiras, embora seja muito útil para a terceira.

Atingir a propriedade “votado como pretendido” requer uma variedade de mecanismos que vão de cédulas de papel a desafios pontuais para máquinas. A blockchain protege a integridade do voto registrado, mas nada tem a dizer sobre sua fidelidade à intenção do eleitor.

Para alcançar uma propriedade “votado em privacidade”, é necessário bloquear o software na plataforma de votação e, nesse caso, bloquear a máquina de votar. E como essa propriedade de bloqueio pode ser verificada? Precisamos de garantias fortes que possam ser verificadas de forma independente. Também precisamos garantir que o usuário não possa ser enganado e levado a executar um aplicativo de votação falso. Podemos conseguir isso no contexto das urnas eletrônicas comuns, que são utilizadas exclusivamente para fins de votação. Podemos implantar centralmente uma infraestrutura de chave criptográfica e colocar controles físicos sobre o movimento das máquinas.

Mas, se estendermos este experimento mental para incluir o voto pela Internet, um desejo comumente expresso pelo público de alguns países [que talvez aconteça], veremos que não temos infraestrutura hoje para fazer isso usando telefones celulares e computadores pessoais – e provavelmente não a teremos nos próximos anos. O voto remoto [em casa, no escritório, na rua] também torna excepcionalmente fácil para um cônjuge, um chefe ou um vizinho vigiar por cima do seu ombro e “ajudá-lo” a votar da maneira que eles querem que você vote.

As blockchains acabam sendo incrivelmente úteis para verificar a propriedade “contado como votado”, porque obriga todas as máquinas do sistema a concordar com o conjunto exato de cédulas que está sendo tabulado. Se um funcionário eleitoral precisar desqualificar uma cédula por qualquer motivo, esse fato precisa ser público e todos precisam saber que uma cédula específica, ali na blockchain, precisa ser descontada, caso contrário, a matemática criptográfica não vai fechar.

Concluindo, é fácil ver como as blockchains fornecem elementos primitivos excepcionalmente úteis, que podem ajudar a construir sistemas de votação em que a contagem final é consistente com os registros de votos lançados. No entanto, um bom sistema de votação precisa satisfazer muitas propriedades adicionais que uma blockchain não pode fornecer. Embora haja uma certa sedução intelectual em fingir que votar não é diferente do que mover criptomoedas em uma blockchain, a realidade do problema é um pouco mais complicada.

Monetize Sua Imagem – De Olhos Bem Abertos

À primeira vista, o BitClout parece um cruzamento primitivo entre o Twitter e o Robinhood, incluindo um feed de mensagens e botões para “curtir” ou compartilhar o que outras pessoas postam. Qualquer pessoa pode criar um perfil e começar a participar da rede fornecendo um número de telefone. Mas o interessante é que, em pouco tempo, o BitClout já criou 15.000 perfis com base em personalidades populares do Twitter, incluindo Elon Musk e outros influenciadores do mundo das cripto-moedas – todos sem pedir a devida permissão. Diamondhands [o homem por trás do Bitclout, que se manifesta sob anonimato, embora sua identidade real seja bem conhecida] alega que o BitClout criou os perfis de famosos para evitar que impostores criassem contas falsas e se apropriassem das personalidades dessas celebridades.

Cada conta do BitClout também é ligada a uma “moeda” que sobe e cai de valor, dependendo de quantas pessoas a usam. Qualquer pessoa pode seguir uma determinada conta – como no Twitter ou no Instagram – mas a existência da moeda significa que elas também podem possuir um ativo ligado à reputação pública do dono da conta sendo seguida. “O que você começa a fazer é se automonetizar”, diz Diamondhands. “Todas as coisas positivas que você coloca no mundo vão fazer com que as pessoas gostem de você e comprem sua moeda. Assim, você pode monetizar o entusiasmo por sua imagem, e deixar os fãs viajarem na sua nave.”

Os usuários normais do BitClout que se sentirem à vontade para serem comprados e vendidos desta maneira podem criar um perfil para ganhar uma parte das moedas associadas à sua imagem. No caso das personalidades do Twitter, que foram adicionadas à plataforma “à força”, elas podem reivindicar seu perfil no BitClout (e uma parte das moedas associadas a ele) simplesmente twitando que eles se juntaram à rede – um requisito que convenientemente fornece marketing gratuito para o BitClout. Já até apareceu um site de rastreamento chamado BitClout Pulse para rastrear o valor das moedas mais populares.

Esse cavalo-de-pau incomum do BitClout no conceito de redes sociais se estende além da adição de pessoas sem sua permissão. O projeto também se destaca por suas operações técnicas, que dependem de dezenas de nós de blockchain autônomos espalhados pelo mundo – uma arquitetura muito diferente do Instagram ou Twitter, que se baseiam em servidores centralizados para manter suas redes em execução. Cada mensagem ou transação é registrada na blockchain do BitClout – que Diamondhands descreve vagamente como “software desenvolvido de forma personalizada, semelhante ao Bitcoin, mas com maior funcionalidade de rede social”.

Ele diz que o código do BitClout é aberto e que a equipe vai publicá-lo em breve. Tudo isso, diz Diamondhands, eventualmente levará empresas de marca a hospedar seus próprios nós do BitClout, que exibirão feeds direcionados a vários interesses segmentados. Por exemplo, a ESPN poderia manter um nó exibindo um feed recheado com atrações esportivas, enquanto a Bloomberg pode fazer o mesmo com foco no mercado de ações. Mas a estrutura em nó do BitClout também significa que ele não terá políticas de moderação centralizadas, como as encontradas em plataformas como Twitter ou Instagram. Isso representa outro conjunto de problemas que precisa de respostas adequadas.

Descentralização das redes é o futuro, mas este caso demonstra que ainda é preciso cuidado e profissionalismo na adoção dessas novas tecnologias e na seleção dos atores com quem vamos hospedar nossa infraestrutura e estabelecer nossas parcerias.

Editado para incluir:

No jargão das criptomoedas, qualquer moeda cuja oferta pode ser aumentada com facilidade é chamada shitcoin – o que não é o caso de moedas como Ouro e Bitcoin, que são baseadas no clássico princípio da escassez.

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Palavras-chave para pesquisar este assunto na rede:

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Tokens Não Fungíveis e a Nova Economia Real

(*) Este não é um tutorial, e assume que o(a) leitor(a) tem alguma informação prévia sobre o assunto.

Em termos simples, um token não fungível (TNF) é um ativo digital exclusivo. Nenhum token não fungível é igual a outro. Colocando de outra forma, quando enviamos 1 Bitcoin (BTC) para um usuário e recebemos 1 BTC, de volta, nada muda em nossa perspectiva. Isso é porque cada Bitcoin é idêntico ao outro, tornando-o um ativo digital fungível [i.e., pode ser negociado em espécie]

Em oposição, um TNF é como a Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Ele é único e é isso que o torna valioso. Cada TNF armazena alguma forma de metadados que faz dele um registro único na blockchain (note que até mesmo os TNFs em blocos similares da mesma blockchain não são intercambiáveis).


Como o token não fungível dá poder ao seu proprietário?

Um TNF é uma estrutura de dados que vem equipada com um mecanismo para armazenar metadados abrangentes que vão além do mero token; ele armazena os detalhes tanto do bem negociado (o ativo) como do proprietário. Consequentemente, os envolvidos na transação ficam garantidos quanto à procedência do ítem.

Os TNFs têm algum valor?

Para responder isso, vejamos uma linha de tempo. As tentativas de criar TNFs na Blockchain começaram em 2013 quando a ColorCoin foi construída no Bitcoin. No entanto, o primeiro padrão técnico organizando os TNFs apareceu em 2017. Seu nome foi Ethereum Request for Comments 721 [em tradução livre significa Requisição da Etherium para Comentar – “comentar”, aqui, no sentido de propor padrões] .

Essa especificação é um bocado diferente da ERC20 [especificação técnica usada para smart contracts na blockchain da Ethereum, que implementa tokens]. Isso porque a ERC721 rastreia tanto a propriedade em sí mesma quanto os movimentos de tokens individuais. E é essa capacidade que faz um token não fungível algo único e valioso.

Cryptokitties, um jogo de simulação com o tema /objetivo “criar gatos”, foi a primeira implementação bem sucedida da ERC721. Sendo assim, cada ERC721 representava um gatinho digital único. Um evento notável aconteceu em 2017, quando um gatinho digital cryptokitty foi negociado por US $ 172.625 – 600 ETH na época, o mais caro até então. Foi quando gigantes como o Google Ventures perceberam o poder dos TNFs.

Recentemente, uma start-up de Blockchain, Enjin, entrou em uma parceria com a Microsoft para criar uma linha de colecionáveis chamada Azure Heroes. Vou usá-la adiante como um exemplo ligeiro para abordar como os TNFs funcionam no mundo real.

Proposição de valor

No mundo real, os TNFs têm alguns casos de uso com grande potencial nas artes plásticas, na música, antiguidades, certificados de propriedade e muito mais. A industria de games está na vanguarda do processo. Existem algumas razões pelas quais a industria de jogos competitivos e/ou de simulação foi a primeira a implementar TNFs. Entre outros fatores, foi porque a ideia estava ao alcance do braço em uma industria que flerta com o imaterial, e porque os gamers já estavam familiarizados desde sempre com o conceito de colecionáveis ​​digitais.

As iterações futuras dos TNFs provavelmente ligarão ativos físicos a esses tokens para transferências sem confiança no mundo real. Para ficar em apenas um exemplo de uma grande industria, os certificados de identificação e as licenças de software podem ser negociados como TNFs.

Muitos projetos já estão propondo melhoramentos nas especificações de TNFs como as ERC115, ERC875 e ERC998.

Características de um token não fungível

  • Eles são exclusivos do proprietário;
  • Eles não são intercambiáveis ​​com outros TNF idênticos;
  • Cada TNF tem características únicas;
  • Cada TNF representa propriedade, direitos e privilégios;
  • TNFs não são divisíveis.

Como funcionam e como adquiri-los?

Há muitas maneiras pelas quais os TNFs podem funcionar. Como este é um blog de tecnologia, vamos usar como exemplo os últimos colecionáveis ​​digitais introduzidos pela Microsoft.

Naturalmente, muitos desenvolvedores de software trabalham na plataforma Microsoft Azure. Agora eles estão recebendo colecionáveis digitais como estímulo financeiro adicional. Um total de cinco distintivos (Badges) baseados na blockchain foram desenvolvido pela Enjin.

Os cinco distintivos da Microsoft: Lider da Inclusão, Herói do Conteúdo, Herói da Comunidade, Mentor e Maker

Cada distintivo está disponível em número limitado e será concedido à pessoa que fizer contribuições significativas para a plataforma Azure. Cada distintivo é basicamente um token ERC-721 que pode ser armazenado na carteira Enjin e negociado como qualquer ativo digital. Cada distintivo é único devido à sua definição de propriedade e é isso que define seu valor atual e futuro.

Para o desenvolvedor Azure receber um distintivo do token, é necessário enviar uma candidatura pessoal, além de fazer uma contribuição valiosa no trabalho para a plataforma. Quando a equipe da Microsoft faz a revisão e a avaliação positiva do trabalho, o desenvolvedor recebe o distintivo digital, que pode então ser reivindicado digitalizando um código QR. À primeira vista não parece sério, mas esses prêmios são muito cobiçados. É nessas ocasiões que lembramos que no capitalismo a noção de valor pode ser, às vezes, contraintuitiva.

Fica implícito que para ter acesso aos mercados de TNFs é preciso possuir uma carteira de blockchain – que pode ser baixada em muitos sites. Aqui apresentamos o site da Enjin (que foi citada no texto), onde também pode ser baixada. Não temos nenhuma relação com eles e este link não constitui aprovação da empresa.

Conclusão

As moedas fungíveis de criptografia já provam diariamente sua importância no ecossistema de ativos digitais. Os tokens não-fungíveis, por outro lado, representam uma oportunidade em potencial para tokenizar os ativos físicos mantendo uma linhagem tecnológica única [Blockchain –> QualquerCoin –> TNF] . Tudo somado, os TNFs ampliarão o escopo da blockchain no mundo real e levarão a experiência humana de comércio a novas dimensões.

Certamente voltaremos ao assunto.