Post #200: A Era da Hipnocracia

[EDITADO – VER NOTA] Em uma era onde a informação flui livremente — e instantaneamente, é fácil assumir que a batalha pela verdade é a luta definidora do nosso tempo. Frequentemente ouvimos falar em “fake news”, “pós-verdade” e a erosão da realidade objetiva, como se o principal desafio enfrentado pela sociedade fosse simplesmente a distorção dos fatos.

Imagem de um casal com um fundo evocando hipnose.
Imagem: pexels.com

Porém, em seu provocativo livro Hipnocracia, Jianwei Xun apresenta uma perspectiva mais sutil e alarmante sobre como o poder opera hoje. Em vez de se concentrar na supressão da verdade, Xun argumenta que vivemos agora sob um sistema onde o controle é alcançado ao nos sobrecarregar com narrativas, a ponto de perdermos a capacidade de distinguir qualquer uma delas como “a verdade”.


NOTA

Este filósofo de Hong Kong não existe, como revela Sabina Minardi, editora-chefe da revista italiana L’Espresso. A teoria é fruto da imaginação do ensaísta e editor Andrea Colamedici, que assina como tradutor, mas que, na verdade, é coautor do livro, auxiliado por duas plataformas de inteligência artificial, sem qualquer menção a esse fato [conforme exigido pela legislação da UE sobre IA]. Ele justifica a obra como um “experimento filosófico e uma performance artística”.

Eu desconhecia essa infeliz estória. Decidi remover o conteúdo da matéria publicada em 5 de Abril que se referia a conteúdo explícito na obra atribuído ao suposto filósofo de Hong Kong, cuja existência foi comprovada como falsa.

O Caminho para Marte: Um Alerta Contra o Controle Autoritário

A ambição dos ultra-ricos e poderosos de expandir sua influência não é nenhuma novidade. A história está repleta de indivíduos ou grupos que, movidos por um desejo de dominância, tentaram controlar vastas faixas de território, muitas vezes com consequências devastadoras para o resto da humanidade. Mas, à medida que nos aproximamos de uma nova era na exploração espacial, devemos nos perguntar: se um indivíduo poderoso ou uma elite rica pode chegar ao topo da estrutura de poder mais significativa da Terra — falo sobre os EUA, o que o impediria de estender seu alcance além do nosso planeta para Marte, sobre o qual, deve-se dizer, o grupo político-econômico que governa os EUA já acumula ‘know-how’ e ativos consideráveis?

Mulher astronauta ergue bandeira de uma nação fictícia em Marte.
Imagem: pexels.com

Um corolário da Lei da Gravitação Universal é que qualquer entidade situada em um poço gravitacional mais raso, um planeta menos massivo, terá uma vantagem logística e maior flexibilidade comparada ao seu análogo na Terra, seja no comércio, na estratégia militar ou na governança. A menor gravidade de um planeta como Marte significa que escapar de sua superfície ou mover recursos para fora do planeta exigiria muito menos energia em comparação com a Terra. Isso dá a qualquer um no controle de tal planeta uma vantagem significativa, não apenas em termos de extração de recursos, mas também em termos de mobilidade estratégica. Seja lançando foguetes, transportando mercadorias ou exercendo influência em todo o sistema solar, a flexibilidade de operar em um campo gravitacional mais fraco proporcionaria vantagens operacionais substanciais.

À medida que avançamos em direção à possibilidade de colonizar Marte, alguém pode se perguntar com alarme: O que impede as mesmas forças que dominam a Terra de reivindicar Marte, quando sabemos que o principal incentivador e empreendedor da colonização comercial marciana tem hoje um poder que um civil não-eleito jamais teve em toda a história? O próprio conceito de exploração espacial por corporações e indivíduos poderosos abre a porta para um futuro em que alguns poucos selecionados não apenas poderiam controlar a Terra, mas também dominar um planeta adicional por inteiro, exercendo poder irrestrito em dois mundos.

A estrutura de poder da Terra em 2025

Devemos começar considerando a situação atual na Terra. Estamos a assistir a ascensão de uma elite global: indivíduos ultra-ricos que controlam vastos recursos financeiros, corporações multinacionais e os sistemas políticos que governam as nações. Esses indivíduos já estão moldando o futuro da humanidade por meio do controle de recursos, da economia e, cada vez mais, do acesso ao espaço.

Em muitos aspectos, esses jogadores poderosos são como os senhores feudais de antigamente, só que seus domínios se expandiram além das fronteiras e para os reinos da influência global e até mesmo interplanetária. Se um indivíduo ou pequeno grupo pode chegar ao topo da estrutura de poder na Terra, seja por meio de riqueza, influência política ou maestria tecnológica , o que os impediria de reivindicar domínio sobre Marte também?

A vantagem gravitacional

O fato é que um poço gravitacional mais raso de Marte fornece uma oportunidade de dominação de maneiras que o poço mais profundo da Terra não oferece. Marte, como sabemos, é menor que a Terra, o que resulta em uma atração gravitacional significativamente mais fraca. Isso significa que é mais fácil lançar cargas úteis de Marte, seja um container comercial ou um pesado míssil cinético. Se um indivíduo ou corporação pudesse obter controle sobre os recursos em Marte, talvez por meio de operações de mineração ou estabelecimento de assentamentos, eles poderiam usar essa base como um ponto de apoio estratégico para estender seu poder de volta à Terra.

Por que o controle sobre um poço gravitacional mais raso é uma vantagem tão significativa? A resposta está na física básica da viagem espacial. Escapar da gravidade da Terra requer enormes quantidades de energia, vastos recursos e infraestrutura. Mas em Marte, a gravidade mais baixa significa que seriam necessários muito menos energia e recursos para estabelecer uma instalação de lançamento ou deixar a superfície do planeta.

Gráfico comparando as profundidades dos "poços gravitacionais" da Terra e da Lua.

Aqui uma representação bidimensional do conceito da esfera de Hill, aqui mostrando o “poço gravitacional” da Terra (potencial gravitacional da Terra, linha azul), o mesmo para a Lua (linha vermelha) e seu potencial combinado (linha preta grossa). O ponto P é o ponto livre de força, onde as forças gravitacionais da Terra e da Lua se cancelam. Os tamanhos da Terra e da Lua estão na proporção, mas as distâncias e energias não estão em escala.
Image By MikeRun – Own work, using Media and, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=73987051

Se alguém garantisse uma fortaleza em Marte, seja protegendo seus recursos ou controlando a infraestrutura necessária para manter a vida humana lá, estaria em uma posição invejável. Seria capaz de lançar missões com muito menos gasto de energia e usar Marte como uma plataforma de lançamento para futuros empreendimentos interplanetários. E não vamos esquecer que quem controla a tecnologia, os recursos e a logística para chegar e sair de Marte tem uma vantagem estratégica. Eles poderiam facilmente alavancar esse acesso ao espaço para propósitos econômicos, políticos e militares.

Um Novo Tipo de Colonialismo

Não são apenas as vantagens técnicas que devem levantar alarmes, mas as potenciais consequências políticas. Se um indivíduo poderoso, ou um consórcio de elites ricas, obtiver controle sobre Marte, eles poderiam efetivamente estabelecer uma nova forma de colonialismo, um império colonial que se estende muito além dos confins da Terra. Em vez de explorar populações nativas do planeta natal eles explorariam agora uma nova fronteira: o próprio espaço. Marte se tornaria um playground para aqueles com o poder de moldar seu futuro, enquanto o resto da humanidade é deixado para se defender na Terra exaurida.

Isso pode levar a um futuro alarmante, onde os ‘players’ mais ricos e poderosos da Terra, tendo garantido seu domínio sobre outro planeta, podem ditar termos para o resto do mundo. Com Marte como sua base, eles podem manipular mercados, controlar cadeias de suprimentos ou até mesmo criar novas indústrias inteiras em torno de recursos que foram extraídos de lá.

Além disso, as implicações políticas de tal poder podem ser surpreendentes. Não se trata apenas de riqueza, mas de autoridade. Uma pessoa que controla Marte provavelmente teria os meios para controlar a própria economia e estruturas de poder que lhe permitiram estabelecer sua supremacia em primeiro lugar, em um formidável ciclo de retroalimentação. Quer eles visem influência sobre governos globais, tecnologia ou mercados, o controle de um planeta inteiro é uma vantagem inimaginável.

O que está em jogo para a Terra e a Humanidade?

O que está em jogo não é apenas a possibilidade de colonização espacial, mas a natureza da própria liberdade humana. Se a riqueza e o poder nas mãos de alguns indivíduos ou corporações se estendessem a um novo mundo — como parece que vai acontecer no grande Mars grab que se avizinha, não há como dizer o que isso poderia significar para o futuro da governança global. Poderíamos ver uma situação em que ideias como ‘capitalismo’, ‘democracia’ e ‘autodeterminação’ se tornassem sem sentido, à medida que o poder se estendesse da Terra a Marte e além.

Devemos nos perguntar: estamos dispostos a deixar que alguns poucos decidam o destino de dois mundos? O que acontecerá com os ideais de igualdade, liberdade e humanidade compartilhada quando apenas os indivíduos mais ricos puderem reivindicar não apenas a Terra, mas um outro planeta inteiro? Veremos uma nova era de oligarquia interplanetária?


PS: Tudo isso também se aplica à Lua. Mas a competição já estabelecida entre várias nações impede que um pequeno grupo civil e/ou minoritário estabeleça a sua supremacia — quero acreditar.

Algoritmo Versus Comportamento Emergente

Vivemos a falar sobre algoritmos e sobre a influência que exercem sobre a sociedade. Mas algoritmos têm pouco a ver com a assim-chamada ‘revolução da IA’ e participam apenas da fase de input dos dados que serão processados pelas camadas ocultas das redes neurais subjacentes. O resultado dessa computação emerge naturalmente dos dados de uma forma fascinante.

Não é possível determinar por algoritmo o comportamento dos neurônios nas camadas mais profundas (‘hidden layers’) de uma rede neural – Concepção artística. Imagem: pexels.com

Neste post exploro sucintamente o que diferencia esses modelos de IA do software tradicional.

O Software Tradicional: algoritmos e Controle Total

O software tradicional, como as aplicações que usamos para navegar na web ou para organizar nossas tarefas diárias, é criado a partir de uma programação clara e controlada pelos desenvolvedores. Nesse tipo de software, os desenvolvedores são responsáveis por decidir como ele deve funcionar. Eles estruturam a arquitetura do software, definem as entradas e saídas, criam os fluxos de dados e, essencialmente, escrevem as regras que governam o funcionamento do programa. A lógica do código é escrita manualmente, com pouca ou nenhuma intervenção de dados externos.

Por exemplo, quando um desenvolvedor cria um sistema de gerenciamento de tarefas, ele pode definir exatamente como os dados devem ser exibidos na interface do usuário, como as informações serão organizadas em um banco de dados e quais ações o usuário pode executar. O comportamento do software é, portanto, determinado por uma série de decisões conscientes tomadas pelos desenvolvedores, com base em sua experiência e nas necessidades do usuário.

O Software de Aprendizado de Máquina: Os Dados “Programam” o Comportamento

Por outro lado, quando falamos de software de aprendizado de máquina, como os LLMs, o cenário muda drasticamente. Esses modelos não são programados da mesma forma que o software tradicional. Eles são, de certa forma, “treinados” em grandes volumes de dados, e seu comportamento é amplamente determinado pelas características e padrões presentes nesses dados.

A diferença principal está no fato de que, enquanto no software tradicional o desenvolvedor controla diretamente o comportamento do sistema, nos modelos de aprendizado de máquina o desempenho do modelo é ditado pelos dados que ele recebe. O desenvolvedor pode escolher o tipo de modelo (por exemplo, redes neurais profundas ou florestas aleatórias) e o algoritmo a ser utilizado, mas a maneira como o modelo responde aos dados e, por consequência, como ele se comporta em diferentes cenários, é algo que emerge de forma dinâmica e não totalmente previsível.

Quando treinamos um modelo como um LLM, por exemplo, ele aprende a identificar padrões de linguagem, relacionamentos entre palavras e estruturas de frases a partir de enormes quantidades de textos. O modelo, então, ajusta seus parâmetros internos (algo que pode ser descrito como uma “programação automática”) para se tornar cada vez mais eficaz em prever ou gerar linguagem com base no que aprendeu. A inteligência do modelo é resultado direto da interação com os dados, e o papel do desenvolvedor é criar a infraestrutura que permita esse aprendizado, mais do que codificar explicitamente cada comportamento ou resultado.

A Emergência de Comportamentos Complexos

O mais fascinante sobre os LLMs é que seu comportamento não pode ser totalmente previsto ou controlado, mesmo por seus criadores. Eles “aprendem” de forma autônoma, ou seja, a partir dos dados com os quais são alimentados. Isso cria um software mais flexível, capaz de lidar com uma variedade de situações de forma adaptativa. No entanto, também significa que o controle direto sobre o comportamento do sistema não é tão claro quanto em um software tradicional.

Por exemplo, ao treinar um modelo de linguagem, um desenvolvedor pode não conseguir prever exatamente como o modelo irá responder a uma pergunta específica, porque sua resposta é uma combinação complexa de dados anteriores, padrões de linguagem e o contexto em que a pergunta foi feita. Isso é muito diferente de um software tradicional, onde o desenvolvedor pode prever e controlar precisamente o comportamento do programa em todas as situações.

A Nova Era do Software

Portanto, os LLMs e outros modelos de aprendizado de máquina nos mostram que a programação de software não é mais uma tarefa totalmente controlada pelo ser humano através de um algoritmo. Em vez disso, esses modelos demonstram uma nova forma de processamento de dados que é, em grande parte, determinada pela interação com dados reais. O papel do desenvolvedor é mais sobre criar as condições para que o aprendizado aconteça, do que programar diretamente cada aspecto do comportamento do software.

Isso nos leva a uma reflexão importante: à medida que avançamos para o futuro da tecnologia, as linhas entre o que é “programado” e o que é “aprendido” estão se tornando cada vez mais tênues. O software está se tornando mais inteligente, mas também mais imprevisível, e essa é uma das características mais emocionantes da inteligência artificial.


Leituras adicionais:

Comportamento Emergente:

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Dois Cenários de Singularidade: Acelerados no Digital ou um Retorno Naturalista?

À medida que a era digital avança, o papel das redes sociais na formação da nossa realidade coletiva se torna cada vez mais evidente.

Esqueleto usando óculos de realidade aumentada.
Imagem: pexels.com

Os efeitos da conectividade constante começam a aparecer, e parece que estamos diante de um ponto de inflexão. Dois futuros divergentes parecem cada vez mais prováveis: um futuro dominado por realidades virtuais e inteligência artificial hiperaceleradas ou, por outro lado, uma retirada tecnológica em massa em direção a uma contra-cultura naturalista. Ambos os cenários refletem as forças tecnológicas e culturais que estão rapidamente remodelando o mundo, e vale a pena refletir sobre as implicações de cada um.

O Cenário Aceleracionista Landiano-Stephensiano: Tornando-se Viciados em VR Afinados por AGI

O primeiro cenário é uma extensão da visão aceleracionista defendida por figuras como Nick Land e Raymond Stephens. Ele imagina um futuro onde a tecnologia avança sem restrições, acelerando a humanidade para uma nova forma de existência. Nesse cenário, a maioria da população urbana se tornaria profundamente imersa em realidades aumentadas e virtuais, interagindo principalmente por meio de espaços digitais imersivos.

As redes sociais, em sua forma atual, já criam um senso de desconexão, mas seu potencial futuro pode amplificar essa fragmentação. As dinâmicas sociais que vemos hoje — onde os usuários estão cada vez mais isolados em câmaras de eco, onde identidades virtuais são tão importantes (ou mais) que as físicas — provavelmente se intensificarão. À medida que a tecnologia evolui, a realidade aumentada (AR) e a realidade virtual (VR) estão prestes a se tornar mais imersivas, talvez até permitindo que os usuários se ajustem completamente a versões personalizadas de inteligência artificial (AGI) dentro de espaços virtuais.

Neste mundo, o físico se torna secundário. Viciados em VR não estão mais fugindo de suas realidades, mas vivendo em existências paralelas e digitalmente aprimoradas. As massas urbanas, já conectadas aos dispositivos digitais, provavelmente experimentarão uma fusão ainda mais pronunciada do virtual e físico. A sobrecarga sensorial do estímulo constante, juntamente com os avanços da IA, pode resultar em uma sociedade onde a realidade não é mais uma experiência compartilhada, mas uma paisagem personalizada e regulada por algoritmos.

Neste futuro potencial, os seres humanos podem parar de buscar engajamento significativo com o mundo físico. Em vez disso, eles escolheriam existir em espaços onde as experiências são moldadas de acordo com suas necessidades e desejos, um espaço governado não pelas limitações da biologia, mas pelas infinitas possibilidades oferecidas pela IA. Nesse mundo, a singularidade não se refere apenas ao surgimento da inteligência das máquinas, mas ao desaparecimento completo da conexão humana física em favor de uma existência inteiramente digital e aumentada.

A Contra-Cultura Naturalista: Retrocedendo o Relógio

Mulher jovem correndo por um campo de flores.
Imagem: pexels.com

Em um contraste marcante, há uma possibilidade crescente de que as pessoas comecem a rejeitar a tecnologia que se enraizou tão profundamente em suas vidas. A saturação dos espaços digitais, a pressão esmagadora de se “performar” online e a desconexão causada pelas redes sociais poderiam catalisar um movimento de contra-cultura naturalista. Essa visão alternativa não se trata apenas da rejeição das tecnologias modernas, mas do retorno a uma existência mais simples e conectada à natureza.

À medida que o controle das redes sociais sobre nossos estados mentais se intensifica, pode surgir uma reação significativa. Afinal, a busca por significado em um mundo dominado pela tecnologia pode ser uma empreitada exaustiva e alienante. Se o futuro aceleracionista é aquele onde mergulhamos mais profundamente em nossos avatares digitais, o movimento contra-cultural nos levaria a dar um passo atrás para um passado analógico — talvez não literalmente, mas em termos de valores e estilo de vida.

Imagine um mundo onde as massas, particularmente no Ocidente urbanizado, se afastam de estilos de vida movidos pela tecnologia. Esse movimento poderia ver as pessoas renunciando ao digital em favor do tátil: jardinagem, trabalhos manuais, movimentos de alimentação lenta, pequenas comunidades e até mesmo desurbanização. A ideia de experienciar a vida diretamente — sem mediação através de telas ou algoritmos — teria um apelo profundo para aqueles que buscam autenticidade e uma conexão genuína com o mundo ao seu redor.

A reação contra a hiperdigitalização provavelmente resultaria em uma renascença cultural, uma tentativa de reconectar-se com a terra e os ritmos naturais da vida que a tecnologia moderna tem obscurecido. Seria uma visão de pessoas escolhendo experiências emocionais e sensoriais em vez do mundo constantemente curado, filtrado e, muitas vezes, desconectado das redes sociais.

Essa contra-cultura naturalista poderia resultar em um retrocesso tecnológico em grande escala — não apenas evitando redes sociais, mas também limitando ou reduzindo outras tecnologias, como automação ou inteligência artificial, em favor de alternativas mais simples e lentas. Essencialmente, as pessoas poderiam escolher retomar uma maneira de viver mais simples, não por coerção, mas como reação a uma existência saturada e hipermediada.

Qual Futuro Escolheremos?

Ambos os futuros representam respostas à trajetória atual da tecnologia e seus efeitos em nossas vidas. O caminho aceleracionista promete o crescimento e a dominação da IA e de ambientes virtuais, nos levando mais fundo em existências imersivas. A contra-cultura naturalista, por outro lado, busca resistir a isso ao retornar a experiências humanas analógicas, uma espécie de rejeição em massa da hiper-tecnologia em favor de estilos de vida mais simples e sustentáveis.

Nas próximas décadas, é possível que vejamos os dois futuros emergirem, seja como movimentos concorrentes, seja como adaptações diferentes em regiões distintas do mundo. Se abraçarmos a singularidade por meio de uma existência mais integrada à tecnologia ou voltarmos para uma rejeição naturalista da cultura digital, isso dependerá de como indivíduos e sociedades reagirão à crescente influência das redes sociais e do mundo digital.

No final das contas, ambos os futuros levantam questões sobre a natureza da humanidade, o equilíbrio entre progresso e tradição, e nossa luta para encontrar significado em um mundo moldado por mudanças tecnológicas sem precedentes.


Em inglês no meu outro blog >> Digesto

Vida Plena Saiu do Grupo

Sabe aquele momento em que você está no grupo do WhatsApp e, de repente, você começa a sentir que ninguém te responde?

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O medo de ser deixado de fora bate, e parece que o mundo inteiro está girando em torno de uma conversa da qual você não faz parte.

Os outros trocando mensagens freneticamente nos inevitáveis sub-grupos que se formam dentro dos grupos, mas nada para você. E de repente, em algum ponto entre o “ei, cara, isso não é nada” e o “eu preciso entender que merda está acontecendo agora!”, surge a sensação de que a sua vida social está desabando. Lúgubre, como se o próprio céu estivesse desabando sobre sua cabeça. Aquele clique de querer entender o que aconteceu, por que não foi incluído, por que não se sentiu chamado a fazer parte, por que, por que…

E se, por alguma razão, a pessoa certa não responder ou não mandar a resposta certa no momento certo, sua brave face começa a derreter. Você se sente como Lúcifer expulso do céu, um ser sem espaço, sem lugar. A mente começa a formular hipóteses e soluções, tentando desesperadamente se encaixar, mesmo que isso signifique perder a compostura.

A verdade? No fundo, parece que conseguimos inventar uma maneira completamente nova de ser infeliz. Ou, quem sabe, de nos conectar a uma maneira muito antiga de ser infeliz: o ciclo doloroso de querer pertencer, mas, ao mesmo tempo, temer ser deixado de fora.

Amizades, ou falta de

A dor de ser excluído é uma das mais humanas que existem, mas também é uma das mais difíceis de se lidar. Como gerenciar o que sentimos quando, por alguma razão, não estamos sendo incluídos naquele grupo de amigos, naquela conversa ou naquele evento? A pergunta que fica é: como podemos evitar que a solidão se transforme em um monstro assustador?

A resposta não é simples, e pode até ser um pouco amarga. Pode ser que você só precise chegar a termos com esse sentimento de criança triste e deixá-lo passar. Nem sempre temos controle sobre os outros, mas podemos aprender a aceitar as nossas próprias reações. Porque, no fim das contas, tudo passa, mesmo que demore.

Soluções?

Pensando nisso, há uma solução simples que talvez ajude: reimaginar as nossas amizades. Já pensou em ver os seus amigos como indivíduos em vez de uma massa ou grupo único? Porque, afinal, os grupos, por mais que sejam fontes de alegria, também têm suas falhas — como deixar alguém para trás. A verdade é que os grupos, por mais que tentem, estão sempre deixando alguém de fora, seja por um segundo ou por um motivo mais profundo. Eles não conseguem evitar. E, na verdade, é isso que torna os grupos, bem, grupos.

Agora, antes que nos percamos nesse turbilhão de pensamentos e sentimentos, talvez seja o momento de dar um passo atrás. E refletir: o que realmente importa na amizade? São os momentos compartilhados, a experiência vivida, os olhares trocados, ou é o sentimento de pertencimento? As respostas estão dentro de nós. E, por mais que a dor da exclusão seja real, ela também é passageira. O segredo está em encontrar a paz no meio disso tudo.

E, se tudo mais falhar, talvez a solução seja simples: ter um celular flip. Um aparelho que não avisa, não notifica e não nos conecta de forma frenética à expectativa do grupo. Afinal, a tranquilidade de não ser escravo da hiperconexão pode ser o primeiro passo para sermos mais felizes e menos dependentes dessa complexa rede social que muitas vezes nos impede de ser quem realmente somos.

Escrevendo este texto para mim mesmo.


Parece que este é o último post do ano. Desejo a todas (as mulheres são maioria) e todos que me honraram — e me alegraram — com sua atenção um Feliz Natal e/ou festas, e um 2025 de paz, realizações e sucesso. Até Janeiro!