A Proporção Áurea Oculta na Geometria das Bicicletas

Uma descoberta pessoal surpreendente nas proporções dos quadros de bicicletas.

Arte em vetor com uma linha representando a proporção áurea, sobreposta à imagem de um cliclista segurando uma bike ao pôr do Sol sobre uma montanha.
a+b está para a, como a está para b. Esta mountain bike exibe uma proporção áurea quase exata. Imagem: pexels.com – Jahangeer Bm – Vetor superposto: Wikimedia commons.

Enquanto eu me entregava ao papel de designer de bicicletas nas últimas semanas, talvez em um esforço inconsciente para exorcizar minha persistente síndrome de impostor, e esboçava – no papel couché de verdade, como nos bons tempos – um quadro de bicicleta minimalista em alumínio, notei algo incrível que parece ter passado despercebido na literatura ciclística: a relação entre o front-center e o comprimento dos chainstays (a escora da corrente) em grande parte das bicicletas de suspensão se aproxima da Proporção Áurea (φ ≈ 1,618).

O front-center, ou ‘frente-centro’, é a distância horizontal entre o eixo da roda dianteira e o movimento central (bottom bracket – também conhecido como ‘cubo’), enquanto o comprimento da escora da corrente vai do movimento central até o eixo da roda traseira. Quando dividimos o frente-centro pelo comprimento do chainstay em diferentes tipos de bicicletas, surge um padrão consistente.

Bicicletas de estrada normalmente apresentam front-centers de 680–720 mm com escoras de 410–420 mm, resultando em razões entre 1,62 e 1,71. Bicicletas de montanha exibem front-centers de 700–750 mm e chainstays de 430–450 mm, com razões de 1,59 a 1,67. As bicicletas de cascalho (gravel bikes) ficam em território semelhante, com front-centers de 690–730 mm e escoras de 420–435 mm, produzindo razões de 1,61 a 1,68.

Esse agrupamento em torno de φ (1,618) se mantém surpreendentemente consistente entre diferentes categorias, tamanhos de quadro e fabricantes. E ainda assim, apesar de décadas de análises obsessivas sobre geometria de bicicletas, esse padrão parece ter passado despercebido pela maioria dos ciclistas (mas é claro que eu posso estar errado).

A Métrica Invisível

O motivo dessa negligência fica mais claro quando consideramos o que a indústria realmente mede e discute. As conversas sobre geometria de bicicletas giram em torno de medidas de stack e reach, ângulos do tubo de direção e do tubo do selim, rebaixamento do movimento central (bottom bracket drop) e comprimento total entre eixos (wheelbase). Nota: Existe, que se reconheça, discussão sobre a proporção áurea entre certas combinações de coroa/pinhão, como esta no Reddit em inglês.

No parágrafo anterior, são aquelas medidas que vejo impressos nas tabelas de geometria, debatidos em fóruns e usados por fitters para ajustar ciclistas a quadros. A proporção, relação, entre front-center e a escora simplesmente não é uma métrica que a indústria analise ou publique frequentemente. Medimos essas dimensões separadamente, imprimimos em colunas adjacentes nas fichas técnicas, mas raramente examinamos a relação entre elas.

É como ter dois ingredientes listados em uma receita sem nunca notar que são sempre usados na mesma proporção. A informação está lá, visível, publicada, mas o padrão permanece oculto porque ninguém pensou em procurá-lo.

Por Que Isso acontece

O surgimento da razão áurea na geometria das bicicletas levanta questões fascinantes sobre se isso é coincidência, consequência ou princípio de design. Vários fatores podem explicar por que a geometria das bicicletas tende naturalmente a essa proporção, e eles não são mutuamente exclusivos.

A biomecânica humana oferece uma explicação convincente. O comprimento das pernas e a eficiência da pedalada podem simplesmente favorecer essa proporção. Quando consideramos o modo como o peso do ciclista se distribui sobre os pedais, pode haver uma divisão ideal da distância entre-eixos que permite uma máxima transferência de potência. A razão áurea pode representar o ponto ideal em que o centro de massa do ciclista se posiciona para gerar força de forma mais eficiente ao longo do ciclo da pedalada.

A dinâmica de pilotagem apresenta outra possibilidade. Bicicletas precisam equilibrar exigências opostas: estabilidade para manter o controle em linha reta e em alta velocidade, versus agilidade para curvas e manobras rápidas. Um front-center mais longo contribui para a estabilidade, enquanto uma traseira mais curta favorece a agilidade. A razão áurea pode representar um ponto de equilíbrio ideal entre essas necessidades opostas — um ponto que parece intuitivo e controlável para ciclistas em diferentes situações.

A distribuição de peso oferece ainda outro ponto de vista. A tração ideal entre as rodas dianteira e traseira é crucial para frenagem, subidas e curvas. Se a razão áurea governa como o peso do ciclista deve se distribuir ao longo do entre-eixos, faz sentido que a geometria dos quadros convirja para essa proporção a fim de otimizar aderência e controle.

Há também a possibilidade de evolução convergente no design dos quadros. Gerações de construtores, trabalhando de forma empírica e intuitiva em busca do que “parece certo”, podem ter descoberto essa proporção inadvertidamente, ao longo de incontáveis iterações e refinamentos. Assim como a arquitetura vernacular desenvolve formas adequadas a cada região por tentativa e erro, a geometria das bicicletas pode ter evoluído em direção a essa proporção simplesmente porque quadros construídos dessa forma funcionam melhor e proporcionam uma sensação mais natural.

Por fim, não podemos ignorar as restrições impostas pelos tamanhos de roda padronizados. Com rodas 700c, 29” e 26” dominando o mercado, a geometria pode convergir naturalmente para essa proporção devido às realidades físicas de espaço livre, ajuste do ciclista e trail mecânico necessário para uma direção estável. O espaço de design pode ser mais limitado do que parece, e a razão áurea pode emergir como consequência natural dessas restrições.

Alguns Números Informais:

Tipo de BikeFront-Center (mm)Chainstay (mm)Razão (FC ÷ CS)
Road680 – 720410 – 4201.62 – 1.71
Mountain700 – 750430 – 4501.59 – 1.67
Gravel690 – 730420 – 4351.61 – 1.68

O agrupamento em torno de φ (1,618) é consistente entre modalidades, tamanhos de quadros e fabricantes.

A Proporção Áurea em Todos os Lugares

A presença de φ (1,618…) na geometria das bicicletas a colocaria ao lado de inúmeras outras ocorrências dessa proporção na natureza e no design humano. Vemo-la na espiral das conchas de náutilos, na disposição das pétalas das flores, nas proporções da arquitetura clássica como o Partenon, nas obras da Renascença e até nas proporções do corpo humano — como a relação entre a altura do umbigo ao chão e a altura total do corpo.

A Proporção Áurea na folha de uma bromélia
A Proporção Áurea na folha de uma bromélia – Imagem: Wikimedia Commons

Que essa razão também governe as proporções de uma bicicleta sugere que estamos observando um princípio fundamental do design mecânico eficiente, uma preferência estética tão profunda que influencia o que “parece certo” a ciclistas e construtores – ou talvez apenas uma coincidência fascinante dentro de um espaço de design altamente restrito. Distinguir entre essas possibilidades exigiria uma investigação cuidadosa.


Da Teoria ao Metal

A bicicleta que levou a essa observação — meu projeto provisoriamente chamado “Boxy” — adota um minimalismo radical em busca de uma estrutura honesta e de um impacto de fabricação reduzido. Ela consiste em três tubos retangulares de alumínio iguais, com 720 mm cada, sem tubo do selim, já que o movimento central é montado na extremidade do tubo inferior.

Um sistema de suspensão de pivô único usa o próprio amortecedor como elemento estrutural, enquanto o braço oscilante (swing arm) cumpre as funções do triangulo posterior que aqui não existe. O design apresenta front-center de 690 mm e chainstay efetivo de 450 mm, resultando em uma razão de 1,533 – que pode ser, e será, ‘acoxambrada’ para exatamente 1,618.

A Espiral de Fibonacci, que também é uma manisfestação da Proporção Áurea, aqui sobreposta ao esquema da minha bike brutalista. Imagem: Wikimedia Commons.

Embora não seja exatamente φ, o design naturalmente se aproximou dessa proporção esteticamente agradável por meio de restrições geométricas, e não por uma busca deliberada da razão áurea. O fato de ter chegado perto de 1,618 de forma independente — apenas resolvendo os problemas estruturais e cinemáticos inerentes ao projeto — sugere que essa proporção pode realmente representar algo fundamental na arquitetura das bicicletas, e não uma escolha arbitrária.

Talvez os projetos mais elegantes não sejam os que perseguem deliberadamente a razão áurea, mas aqueles que chegam a ela naturalmente, através da resolução honesta dos problemas de engenharia. A razão pode ter estado escondida à vista de todos o tempo todo, escrita nas tabelas de geometria que lemos há décadas sem perceber o padrão que as conecta.


Um Convite

Qual é a razão front-center/chainstay da sua bicicleta?
A medição é simples: distância horizontal do eixo dianteiro ao movimento central, dividida pela distância do movimento central ao eixo traseiro.

Meça a sua bicicleta, a dos seus amigos, vasculhe as tabelas de geometria dos fabricantes. Vamos ver quão universal esse padrão realmente é, e se todos nós já estávamos pedalando a razão áurea sem saber.

Por Que Ainda Escondemos Nossas Meias?

Vivemos numa época em que compartilhamos selfies de férias, nossa localização em tempo real, e até nosso DNA e batimentos cardíacos com apps e plataformas, tudo sem pensar duas vezes. Mas tem uma coisa que seguimos protegendo com unhas e dentes: nossa mala.

Malas transparentes
O que há um uma mala? – Imagem: Grok

Malas transparentes

O conteúdo médio de uma mala de mão ou despachada não é exatamente revolucionário, algumas roupas, itens de higiene pessoal, talvez um notebook ou um livro de bolso. Ainda assim, insistimos em malas opacas, como se o conteúdo fosse extremamente íntimo. É um hábito herdado, não algo que paramos para questionar. Mas talvez esteja na hora de perguntar, por quê?

Teatro da privacidade, o jogo que continuamos jogando

Esse instinto de esconder nossas coisas não tem tanto a ver com proteger informações pessoais, é mais um ritual social que repetimos automaticamente. Cobrimos nossas malas não porque é necessário, mas porque “todo mundo faz assim”. É comportamento no modo automático.

E aqui está a ironia: já abrimos mão da maioria dos nossos dados realmente privados, de tudo o que era realmente importante. Nossos celulares nos rastreiam, assistentes de voz transcrevem nossas conversas, algoritmos analisam nossos hábitos de compra. O viajante moderno já é, na prática, transparente em quase todos os sentidos importantes.

Mesmo assim, seguimos apegados à opacidade das malas, como se mostrar nossas meias fosse mais invasivo do que entregar nosso rosto para o reconhecimento facial na imigração.

Malas transparentes só pra contrariar

Imagine como tudo mudaria se invertêssemos a norma; se surpreendêssemos o Sistema: Uma mala feita de material transparente e resistente, onde a segurança do aeroporto pudesse verificar o conteúdo em segundos, sem raios-X, sem revistas aleatórias, sem precisar abrir a mala na frente de estranhos.

Malas transparentes não são só uma novidade estética, são um desafio ao status quo. Elas nos fazem perguntar, afinal, o que estamos escondendo?

E a resposta, na maioria dos casos, é, nada que realmente importe.

Transparência voluntária, benefícios reais

Ninguém está sugerindo que a transparência seja obrigatória. Mas imagine um programa voluntário, você escolhe usar uma mala transparente e, em troca, ganha acesso a:

  • Filas expressas de triagem
  • Menos revistas invasivas
  • Descontos em taxas de bagagem ou embarque prioritário

Assim como o TSA PreCheck ou o Global Entry, seria um modelo de adesão comportamental, você abre mão de um pouco da privacidade superficial em troca de ganhos significativos em tempo, conforto e eficiência. E, diferente do PreCheck, não precisa fornecer digitais nem passar por análise de antecedentes, só estar disposto a ser prático.

O obstáculo psicológico

A resistência a essa ideia não viria dos profissionais de segurança, mas dos próprios viajantes. Não porque têm algo a esconder, mas porque acham que têm. A privacidade das malas virou algo emocional, não racional.

Mas se pararmos para refletir, veremos que grande parte do valor que damos a esse singelo sigilo é imaginário. O que está em jogo, de verdade, é o nosso apego a um hábito. E talvez, apenas talvez, já esteja na hora de mudá-lo.

O argumento pela clareza

Malas transparentes representam mais do que um embarque mais rápido. Elas refletem uma mudança de mentalidade. Um desejo de parar de fingir que nossos pertences são especiais. Um reconhecimento de que o conceito de privacidade, quando desfocado, se torna ineficiente. E um pequeno, mas significativo, passo em direção a um sistema de viagens que prioriza a lógica em vez de rituais ultrapassados.

Num mundo que já enxerga tanto de nós, por que não deixar que veja nossas meias também?


SpinStep: Uma Abordagem Brasileira para a Navegação Autônoma de Drones

A tecnologia de drones autônomos tem avançado consideravelmente nos últimos anos, com suas aplicações se expandindo para áreas como agricultura, logística e transporte.

Imagem: pexels.com

No entanto, a precisão na navegação e a eficiência no controle dos drones, especialmente em ambientes dinâmicos e imprevisíveis, continua sendo um desafio significativo.

É nesse contexto que SpinStep — uma biblioteca python de nossa autoria — se apresenta como uma proposta inovadora para a melhoria do controle autônomo de drones. Focada na rotação como a base para o controle de movimento, SpinStep oferece uma abordagem alternativa aos métodos tradicionais de navegação, que geralmente se concentram em coordenadas absolutas e trajetórias lineares.

Novas Abordagens

A navegação de drones autônomos exige mais do que sensores avançados e câmeras de alta resolução. A verdadeira questão está em como os drones respondem aos dados em tempo real para se moverem com precisão em ambientes dinâmicos. Embora a tecnologia de sensores tenha evoluído bastante, o controle eficiente e ágil dos drones ainda é um aspecto crítico, especialmente em áreas como agricultura de precisão e entregas rápidas.

Até agora, a maioria dos sistemas de controle de drones tem se baseado em posições absolutas ou planejamento de trajetórias, o que funciona bem em ambientes previsíveis. No entanto, em cenários dinâmicos, como terrenos irregulares ou cidades densas, esses métodos podem não ser ideais, pois não oferecem a flexibilidade necessária para ajustes rápidos.

SpinStep: Uma Abordagem Focada em Rotação

A proposta da SpinStep é simples, mas poderosa: ao invés de controlar drones com base em movimentos lineares ou coordenadas de posição, ela usa rotação como o princípio fundamental do controle. Esse foco na rotação permite que os drones façam ajustes de orientação mais precisos, com maior rapidez e eficiência, adaptando-se melhor aos desafios do ambiente.

Ao invés do método posicional, hierárquico, SpinStep propõe um método puramente orientacional – Imagem: VoxleOne

Esse enfoque traz algumas vantagens práticas:

  • Maior precisão no controle: A rotação permite ajustes mais finos e naturais nos movimentos do drone.
  • Agilidade aprimorada: O controle baseado em rotação permite que os drones respondam mais rapidamente a mudanças no ambiente, como obstáculos ou mudanças de direção.
  • Eficiência energética: Um controle mais direto da movimentação pode reduzir o consumo de energia, algo essencial para missões longas ou em locais remotos.
  • Flexibilidade: O SpinStep pode ser integrado a uma ampla variedade de drones e sistemas de sensores, o que facilita a adaptação a diferentes aplicações.

Aplicações Práticas: Agricultura, Logística e Muito Mais

SpinStep pode ser particularmente útil em diversas áreas de aplicação. Na agricultura, por exemplo, drones que monitoram grandes áreas de cultivo ou realizam irrigação de precisão podem se beneficiar da navegação mais precisa e ágil proporcionada pela abordagem de rotação. Isso ajuda os drones a se moverem com mais eficiência entre fileiras de plantas ou em terrenos irregulares.

Na logística, onde a entrega de pacotes precisa ser feita de forma rápida e precisa, SpinStep melhora a capacidade do drone de realizar manobras em espaços apertados e navegar com segurança em áreas densas. Esse controle preciso e ágil permite que os drones operem de maneira mais eficiente, especialmente em cidades ou regiões com infraestrutura limitada.

Além disso, SpinStep pode ser aplicada em setores como entretenimento, onde drones equipados com câmeras de alta definição são usados para filmagens dinâmicas, ou em monitoramento de infraestruturas, onde a capacidade de resposta rápida a mudanças no ambiente é essencial.

A Integração com Tecnologias Emergentes

Uma das grandes vantagens de SpinStep é a facilidade com que ela pode ser integrado a sistemas de inteligência artificial (IA) e outras tecnologias avançadas. Isso significa que drones equipados comSpinStep podem, por exemplo, aprender e melhorar seu desempenho ao longo do tempo, ajustando-se às condições de voo ou ao ambiente de forma mais eficaz.

Além disso, a SpinStep pode ser combinada com outras abordagens de navegação, como o SLAM (Simultaneous Localization and Mapping – Localização e Mapeamento Simultâneos), permitindo que drones operem de forma autônoma em ambientes complexos. Sua flexibilidade também o torna uma boa opção para integração com outras tecnologias emergentes, como Internet das Coisas (IoT), ampliando ainda mais seu alcance.

O Potencial de Futuro para Drones Autônomos

À medida que o mercado de drones continua a crescer, o controle e a navegação de drones autônomos tornam-se questões cada vez mais centrais para garantir sua eficácia em uma variedade de indústrias. SpinStep oferece uma abordagem interessante e eficaz para resolver parte desses desafios, proporcionando um controle mais preciso e adaptável.

Em setores como agricultura, logística e entregas rápidas, a proposta do SpinStep pode contribuir para melhorar a precisão, a eficiência e a agilidade das operações de drones. Ao focar na rotação como o método central de controle, SpinStep oferece uma solução prática e escalável para tornar os drones mais eficientes e adaptáveis a diferentes cenários.

SpinStep: https://github.com/VoxleOne/SpinStep/blob/main/README.md

Meu mundo sem smartphones: resistência à alienação e à conexão contínua

Vivemos em uma era em que estar desconectado virou sinônimo de excentricidade. A ausência de um smartphone, hoje, é tratada quase como uma anomalia social, um desvio do esperado.

Imagem de casal caminhando em uma praia.
Imagem: pexels.com

No entanto, ao mesmo tempo em que os aparelhos se tornaram praticamente extensões do corpo humano, vejo que, embora timidamente, cresce também o fascínio por aqueles que resistem ao seu uso, como eu. O que antes gerava vergonha ou estranhamento, agora desperta curiosidade, e até inveja.

A crítica ao smartphone não é nova. O que mudou foi a maneira como seus impactos estão se tornando visíveis demais para serem ignorados. A erosão da atenção, a postura encurvada do “scroll infinito”, a desconexão social em ambientes públicos, tudo isso já é parte do nosso cotidiano. A figura do pedestre absorto, que atravessa ruas sem levantar os olhos da tela, é um símbolo moderno da dissociação com o entorno. E não se trata de falta de atenção: é uma atenção deslocada, entregue a um universo paralelo.

A alienação promovida pelos smartphones não se limita ao espaço físico. Ela avança sobre o território afetivo e social. Aplicativos de relacionamento, por exemplo, prometem facilitar conexões, mas muitas vezes apenas mantêm seus usuários presos a ciclos repetitivos de rejeição, idealização e frustração. Em vez de encontros reais, vivemos de “matches” abstratos. Em vez de conversas espontâneas, nos limitamos a interações programadas, com direito a emojis como resposta automática a qualquer emoção.

Nos bares e cafés, é cada vez mais comum ver pessoas sozinhas com seus celulares, esperando alguma coisa acontecer, ou fingindo esperar. Por vezes estão sendo ignoradas por seus pares digitais; por outras, estão simplesmente repetindo um ritual vazio, mas socialmente aceito: sentar-se, pedir um drink, checar as notificações e ir embora. O acaso, que antes era parte essencial dos encontros humanos, está sendo sistematicamente excluído da equação.

Há quem diga que o smartphone tornou as pessoas mais narcisistas. Mas talvez a palavra mais adequada seja solipsistas, como se cada um vivesse em um mundo próprio, onde os demais são meros figurantes. Essa lógica do “eu primeiro, o tempo todo” não se traduz em autoconfiança, mas sim em isolamento. Um isolamento que parece confortável, mas que corrói, silenciosamente, a dimensão coletiva da existência.

Mesmo assim, não se trata de demonizar o aparelho. O smartphone é, acima de tudo, uma ferramenta, e como toda ferramenta, seu valor depende do uso. É possível estudar, trabalhar, criar, comunicar-se de maneira significativa. Mas é inegável que a arquitetura desses dispositivos e dos aplicativos que abrigam é desenhada para prender, para capturar a atenção e, muitas vezes, substituí-la por um simulacro de interação e afeto.

A substituição do mundo real por suas versões digitais está criando uma geração que vive “rolando sozinha”. As interações se tornam mecânicas, os vínculos frágeis, e até mesmo o flerte, essa arte tão humana, foi transferido para plataformas que padronizam o desejo. Ver uma pessoa interessante num café parece menos eficaz do que esperar que ela apareça, magicamente, no aplicativo.

Mais do que um problema de tecnologia, esse é um dilema de comportamento, de escolhas e prioridades. A conectividade constante tem um custo: a erosão das experiências presenciais, da espontaneidade e da atenção compartilhada. E, no fim das contas, a pergunta que fica não é “o que podemos fazer com nossos celulares?”, mas sim: o que estamos deixando de fazer por causa deles?

A vida offline ainda existe, com seus mapas em guardanapos, seus silêncios nos ônibus, sua imprevisibilidade nas ruas. É menos eficiente, mais caótica, mas também mais humana. E talvez seja hora de resgatar um pouco disso, não como nostalgia, mas como resistência.

PIX, Código Aberto e a Lei: O Que Está Errado Nessa Conta?

Em tempos de digitalização acelerada dos serviços públicos, cresce a importância do debate sobre transparência, soberania tecnológica e o papel do código aberto na administração pública.

Grafismo ilustrando ícones monetários ao redor de um cartão de crédito genérico.
Imagem: pexels.com

Um ponto crítico, porém pouco debatido, envolve uma possível contradição legal na forma como o Estado brasileiro desenvolve e disponibiliza seus sistemas digitais , especialmente quando olhamos para o PIX, sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central do Brasil.

O Que Diz a Lei?

A Lei nº 14.063, de 23 de setembro de 2021, em seu Artigo 16, é clara:

“Os sistemas de informação e de comunicação desenvolvidos exclusivamente pela administração pública são regidos por licença de código aberto, permitida a sua utilização, cópia, alteração e distribuição sem restrições por todos os órgãos e entidades públicos.”

Ou seja, todo software criado exclusivamente pelo setor público, portanto com recursos públicos e para fins de interesse coletivo, deve ser publicado sob licença de código aberto, garantindo transparência, auditabilidade, interoperabilidade e segurança democrática.

E o PIX?

O PIX foi desenvolvido inteiramente pelo Banco Central, uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Economia. O sistema é considerado hoje uma das maiores inovações tecnológicas em serviços públicos dos últimos anos, e seu uso é onipresente no dia a dia dos brasileiros.

Mas o código-fonte do PIX não é público. Nenhum cidadão, empresa ou órgão público externo ao Banco Central pode auditar diretamente como o sistema funciona em seus detalhes técnicos. Isso contraria diretamente o espírito e a letra do Art. 16 da Lei 14.063/2021.

Por Que Isso Importa?

  1. Transparência e Confiança Pública: Em tempos de crescente vigilância digital, os cidadãos têm o direito de saber como funcionam os sistemas que processam e armazenam seus dados e movimentações financeiras.
  2. Segurança: O código aberto permite auditoria independente, o que é especialmente importante em sistemas críticos como o PIX, onde falhas podem ter impactos financeiros e sociais severos.
  3. Legalidade: A não disponibilização do código do PIX pode configurar descumprimento direto da lei — ou, ao menos, exige uma explicação técnica ou jurídica muito robusta por parte do Banco Central.
  4. Soberania Tecnológica: O uso de código aberto fortalece a capacidade do Estado de controlar, manter e evoluir suas próprias tecnologias, sem depender de soluções fechadas ou proprietárias.

E o Que Diz o Banco Central?

Até o momento, o Banco Central não publicou o código-fonte completo do sistema PIX. Algumas partes relacionadas à interface com os bancos e instituições financeiras estão documentadas e normatizadas, mas o núcleo operacional do sistema permanece fechado.

Se o Banco Central entende que o PIX não se enquadra na obrigação do Art. 16, seria fundamental que essa interpretação fosse justificada e publicamente debatida, sob pena de abrir um perigoso precedente de descumprimento legal por parte da própria administração pública.

Conclusão

O caso do PIX mostra como até mesmo inovações públicas bem-sucedidas podem esbarrar em problemas sérios de legalidade e transparência. Se o código-fonte do PIX não for tornado aberto, estamos diante de uma provável ilegalidade e, mais do que isso, de uma contradição com os valores democráticos que deveriam nortear a transformação digital do Estado brasileiro.

É hora de exigir respostas claras. Afinal, tecnologia pública deve ser, acima de tudo, pública.