Pânico Moral e Extremismo na Rede

Em conversa com um grupo de desenvolvimento de software em um dos fóruns da Web, o assunto acabou descambando para o fenômeno do extremismo na rede, que leva à atual polarização política. À medida que a conversa evoluia, começaram a ser apontados alguns alguns paralelos históricos com o momento presente, como os repetidos episódios de pânico moral que o mundo enfrentou em vários momentos de mudanças culturais chave.

O tema básico da conversa pode ser resumido na segunte premissa: Uma vez que o extremismo assume o comando, não há limite para até que ponto ele chegará, até que toda a comunidade imploda.

Em primeiro lugar, uma definição de pânico moral: pânico moral é um medo generalizado, na maioria das vezes irracional, de que alguém ou um grupo é uma ameaça aos valores, segurança e interesses de uma comunidade ou sociedade em geral. Normalmente, o pânico moral é perpetuado pela mídia de notícias, alimentado por políticos e muitas vezes resulta na passagem de novas leis ou políticas que visam a fonte do pânico (minorias em geral). O pânico moral sempre promove polarização política e o aumento do controle social.

Para ser justos na abordagem do tema, temos que reconhecer que pessoas são apenas humanos sendo humanos. Um olhar superficial pela história revela que esta é a norma do mundo. De um ponto de vista evolucionário, nós sentimos pânico moral para cimentar nosso lugar nos nossos respectivos grupos sociais, e temos uma necessidade quase obsessiva de ter um grupo de “outros” a quem culpar os problemas da sociedade. Sejam eles creches satânicas, comunistas, ateus, bruxas, racistas, transfóbicos, católicos, protestantes… claramente, e eu quero dizer claramente, isso é o que os humanos fazem. Pelo menos um grande número de nós. É um fato incrivelmente consistente e repetido através da história.

O que é fascinante é que cada geração se convence de que ela progrediu além desse traço profundamente humano, e insiste em que nesta geração, e só desta vez, seu preconceito pelos outros é nobre e existe para servir um bem social maior. “Todos os outros fanáticos estavam errados, mas desta vez, nós conseguimos fazer certo! O Preconceito finalmente curará o preconceito! Espere e você verá! “

Claro que isso nunca acontece, e quando a poeira se instala depois dos debates e das lutas, a maioria dos apóstolos do pânico moral sente algum constrangimento e tenta se distanciar do seu comportamento passado. Eles na verdade estavam viciados na liberação de dopamina que estar no grupo com poder propiciava. Para não mencionar que, com tantas outras pessoas para culpar, eles não precisavam reconhecer nenhuma de suas próprias falhas. Afinal, pelo menos, eles não são “outros”.

Central para o pânico moral é o pensamento preto/branco que o perpetua. Você é muito bom ou muito ruim. Não há área cinzenta. Se a pessoa tem a opinião x, não mais importa o que ela faz. Ela é má.

É um tipo de histeria em massa e exemplos do passado se contam às centenas, se não milhares. Infelizmente, faz parte do comportamento da massa humana.

O que mudou, é que tal comportamento costumava ser mais fortemente praticado pelos religiosos. Desta vez, os poderes do mundo mudaram seu método: ao invés de explorar o medo, exploram o narcisismo, e têm agora até os mais educados da sociedade sob controle.

Isso é desalentador, pois parece que não temos mais nenhum grupo com resistência cognitiva ou pensamento crítico sólido, à medida em que mais e mais pessoas assumem uma atitude de total sinalização de virtude (em oposição à verdadeira ação virtuosa), alienação e servilismo ao pensamento grupal.

O que no fim de tudo acontece é que, à medida em que mais e mais pessoas se tornam incapazes de manter a ilusão – e todos os apóstolos do pânico moral são iludidos, em diferentes graus – o custo de manter a identidade grupal torna-se muito inconveniente frente à realidade da situação, e uma inevitável reação toma lugar. Então as desculpas começam… “Nossa, eu nunca pensei que a Gestapo fosse tão má… Ei, e não fui o único que sinalizou virtude para eles… “

Então, outro bicho-papão é escolhido e o ciclo recomeça. O que você está testemunhando é a condição humana fazendo o que faz.

O “engajamento” nas redes sociais

Há algo sobre as mídias sociais que os seres humanos não são psicologicamente preparados para lidar. Elas são uma abstração perversa e não natural da comunidade social humana a que nosso cérebro não reage bem. Como um fac-simile da genuína humanidade, ela nos mergulha em algo parecido com uma sala de espelhos, o “uncanny valley” para interações sociais. Pode ser, por tudo o que sabemos, que a principal razão pela qual alguém posta na mídia social seja a raiva. Se um estudo adequado fosse feito, é possivel que ele revelasse exatamente isso.

Quarentenas e lockdowns forçam as pessoas a ficar dentro de casa mergulhadas nas mídias sociais. De repente, todo mundo está no hábito diário de um solipsismo insalubre e irracional. Contudo, sabemos que os seres humanos, em algum nível fundamental como criaturas sociais, precisam interagir na comunidade cara-a-cara,

Quando o Facebook diz que quer “tornar o mundo mais aberto e conectado”, ele quer, na verdade, se tornar O MEIO para toda a interação interpessoal. Ao olhar para trás a esta era, o ser humano futuro talvez dirá: “Como eles podiam ficar na frente de uma tela o dia todo? Eles não sabiam o que isso estava fazendo com eles?”

Como um desenvolvedor de interface do usuário por profissão, eu posso identificar precisamente as obscuras tríades das escolhas de design de interface do usuário que viciou as pessoas à mídia social.

A rolagem infinita, o arquétipo dos esquemas de “engajamento” usado por quase todas as redes sociais, é problemática porque faz os usuários ficarem conectados por mais tempo. O resultado é que os usuários se mantêm ligado em seu feed, sem pensar, por um período de tempo muito mais longo do que ficavam anos atrás , o que aumenta o lucro para a empresa que executa o aplicativo. O usuário não tem ideia de que esses conteúdos são projetados para gerar padrões de uso viciantes para melhorar os lucros da Big Tech,

Entres as coisas mais dramáticas estão os “pontos acumulados” nos mais diversos sites. No Reddit, isso é chamado de karma. No Twitter, são os likes e retweets. Essa pontuação numérica simples exibe a atitude geral da comunidade em relação a um determinado conteúdo. À primeira vista, isso parece ser um conceito radicalmente democrático; todo mundo pode votar! A realidade, porém, é muito diferente. Reddit, por exemplo, sempre obfuscou a verdadeira pontuação do karma (“para evitar a brigadização de votos”). Além disso, a posição de um pedaço de conteúdo dentro do seu feed pode ser intencionalmente decidida pelo Home Office, não pela Comunidade (algoritmo). Isso é incrivelmente sinistro, embora não pareça aos olhos não-treinados

A parte mais bizarra da mídia social é o vício químico. Quando você clica em um ícone para mostrar sua apreciação ou reação a um conteúdo, você recebe um “shot” de dopamina. Isso adiciona valor à interação, e faz com que o usuário se sinta bem. Isso traz, literalmente, um componente quimicamente viciante à mídia social.

O Reddit criou um algoritmo que tece a comunidade de tal modo que parece ser democrático em seu funcionamento geral, mas na verdade é realmente especificamente curado para um conjunto determinado de fins políticos e sociais. Ele promove um sentimento de exclusão a qualquer um que se atreva a discordar do que “todos” já acreditam.

O grande fantasma assombrando o século XXI não será um tipo de “-ismo”. Será a grande besta da Tecnocracia Global, e o Big Brother não será exatamente um governo. Pelo contrário, os ministérios da verdade, paz, amor e abundância serão entidades privadas (ou negociadas publicamente).

Desta forma, nenhuma constituição, ou Magna Carta, ou qualquer outro documento fundamental destinado a manter a tirania do governo à distância, será capaz de operar como pretendido. Não será “o governo privando-nos de nossos direitos”. Serão empresas privadas com seus próprios termos de serviço. Até agora, podemos viver sem Twitter ou Reddit ou Facebook se realmente quisermos. Em breve, provavelmente não seremos capazes de desativar a ditadura tecnocrática a que todos estamos sujeitos.