A Guerra Cibernética que não Houve

Mesmo aqueles de que sempre foram céticos quanto à caracterização errônea dos riscos cibernéticos como armas catastróficas de destruição, em vez de ameaças certamente graves – mas bastante diferentes – de interrupção e desestabilização crônicas, ficaram surpresos com o quão pouco as operações cibernéticas apareceram até agora no conflito na Ucrânia.

Guerra Cibernética
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Praticamente todos os pesquisadores de segurança do planeta alertaram sobre o risco de os Russos executarem ataques cibernéticos maciços durante e após a desditosa invasão. Nós também refletimos essas preocupações aqui no blog. Entretanto, as previsões iniciais ainda não se concretizaram, e os observadores agora se desdobram na tentativa de explicação da estratégia russa.

O site lawfare.blog comenta que

O punhado de ataques cibernéticos sérios do Kremlin à Ucrânia antes e por volta do início da invasão parecem representar apenas a continuidade de sua longa campanha de assédio cibernético ao país na última década, ao invés de uma séria escalada das hostilidades. Parece ter havido pouco esforço, por exemplo, para atingir o núcleo da infraestrutura de internet da Ucrânia. Em vez disso, os mísseis chovem e os soldados e tanques chegam. Da mesma forma, as ações de atores pró-ucranianos em desfigurar e derrubar sites russos podem envergonhar o Kremlin, mas dificilmente merecem o termo muito mal utilizado de “ciberguerra”. (Relatórios ainda não verificados de um vazamento maciço de dados pessoais de soldados russos seriam muito mais impactantes se verdadeiros).

Aumentam mas não inventam

O comentarista Steven J. Vaughn Nichols, do The Register [link], argumenta que previu que o grupo russo de hackers GRU Sandworm lançaria um ataque cibernético que arruinaria a rede elétrica da União Européia ou destruiria os principais sites da Internet dos EUA, como Google, Facebook e Microsoft – ou interromperia os serviços de celular.

“Eu estava errado. Pelo menos até agora, de qualquer maneira. Claro que, para surpresa de ninguém, a Rússia e seus fantoches lançaram ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) contra sites ucranianos.

Mas, onde estão os ataques maciços? Por que o sistema elétrico da Ucrânia ainda está funcionando? Por que, em vez de fechar as redes de TV da Ucrânia com ataques cibernéticos, eles tiveram que explodir uma torre de TV de Kiev? Será que acabamos por deixar a paranoia anular nosso bom senso?

Quem dera fosse isso.

Não é paranoia quando se vê que o presidente russo Vladimir Putin realmente está a fim da Ucrânia – e, pela maneira como ele fala, talvez de todos nós. Basta perguntar à Bulgária, República Tcheca, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia e Eslováquia. Esses países acreditam que sua ‘integridade territorial, independência política ou segurança’ está ameaçada.

Eles têm boas razões para se sentir assim. E talvez essas razões sejam a chave para o motivo de ainda não termos visto um ataque cibernético russo em massa.

Domínio da Informação

O sofisticado hacker group GRUGQ avalia que “a salva cibernética de abertura da Rússia esteva claramente ligada ao seu planejamento de guerra. Eles parecem ter usado programas ‘limpadores’ [wipers] para derrubar sistemas governamentais, militares e de comunicações, a fim de degradar a capacidade de defesa da Ucrânia. E o ataque ao KA-SAT também está relacionado à capacidade militar ucraniana.

Esses tipos de ataques estão muito alinhados com o modelo tradicional de guerra cibernética. Foram ataques táticos exploratórios e direcionados. A resposta cibernética da Ucrânia tem sido de espectro completo [full spectrum]. A mais hábil foi a convocação de um exército global de hackers civis.

A resposta cibernética mais interessante da Ucrânia tem sido o domínio do espaço da informação. Certas pessoas continuam denegrindo esses esforços como fáceis “porque o Ocidente é simpático”, mas essa é uma análise de desdém muito superficial. A Ucrânia é muito experiente em suas operações de informação.

A Ucrânia cria narrativas complexas que ressoam com seu público-alvo. Internamente, suas mensagens são muito, muito diferentes do que eles compartilham com o público ocidental. Eles conseguiram acertar no apelo: os justos que podem perder se o apoio vacilar.

A Rússia falhou no domínio da informação. Eles não estavam preparados para uma guerra de longo prazo. Agora, seus recursos disponíveis para operações de informação estão bastante reduzidos e sob estresse.”

Finalmente

Se me é permitido, eu acrescentaria que o Kremlin criou um estressor além da capacidade de resistência de sua campanha de desinformação e manipulação.

Até agora, as mentiras domésticas e internacionais do Kremlin – na medida em que o conteúdo dizia respeito às relações externas da Rússia, e especialmente da Ucrânia – quase sempre concordavam. Isso era necessário, porque os canais de comunicação ainda estavam abertos, e um número suficiente de russos influentes tinha acesso às Mentiras para o Consumo Estrangeiro; uma grande divergência nas informações teria sido problemática.

A necessidade de “manter as histórias sincronizadas” pode ter sido um fator na tática bizarra (e talvez autodestrutiva) de insistir que a Rússia não tinha planos de invadir enquanto, de forma abrangente (e com grandes despesas), fazia todos os preparativos para invadir: para satisfazer o público doméstico, Putin teve que se passar por um bufão no cenário mundial.

Agora, os russos estão amplamente isolados de fontes de informação estrangeiras; a internet russa está progressivamente fechada, e o que está disponível está quase submerso pelo tsunami de desinformação do Kremlin.

Com a “operação de desinformação estrangeira” [mídias sociais do ocidente] efetivamente cortada, esmagada por crimes tão ofensivos que até os mais repugnantes babacas dificilmente poderiam defendê-los, justificativas grotescamente absurdas, como “desnazificação”, podem seguir seu curso.

Na Rússia, não há guerra; apenas uma missão humanitária em Donbas.

Uma Medida Contra o Abuso do Telemarketing

Para as leitoras(es) que ainda não sabem, com prazer informo que as empresas brasileiras de telemarketing estão obrigadas a adicionar um prefixo aos seus números de telefone desde 10 de março, o que permite que os destinatários decidam se desejam receber a chamada.

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Em um mercado prostituído talvez além de qualquer redenção, essa tímida iniciativa da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) se faz sentir como um bálsamo refrescante.

O código 0303 deve, doravante, aparecer no início do número de qualquer ligação que tenha como objetivo oferecer produtos ou serviços. Até o momento, essas mudanças se aplicam apenas aos serviços de telefonia móvel, mas em 90 dias devem ser implementadas também nas linhas telefônicas fixas.

De acordo com a Anatel, o uso do código 0303 será exclusivo e obrigatório para as atividades de telemarketing ativo, a prática de oferta de produtos ou serviços por meio de ligações telefônicas ou mensagens, previamente gravadas ou não. A medida determina que as redes de telecomunicações devem permitir a identificação clara do código no display do aparelho.

Além disso, as operadoras devem desenvolver meios para bloquear preventivamente as chamadas decorrentes de telemarketing ativo a pedido do consumidor. As operadoras também serão responsáveis ​​por empregar as tecnologias necessárias para coibir o uso de chamadas fora das regras estabelecidas pela Anatel.

O Conselho de Administração da Anatel também aprovou nesta última quinta-feira (10/3) a reavaliação do regulamento de numeração dos serviços de telecomunicações. O novo regulamento simplifica e unifica as regras do serviço de numeração, e trata de problemas observados em questões específicas como Utilidades Públicas, Código de Seleção de Provedor, Número Único Nacional, Numeração para o Serviço Global Móvel por Satélite (SGMS), entre outros.

Com a aprovação de um plano de numeração específico para os SGMS, os códigos dos serviços de telemarketing não serão mais [em tese] confundidos com os dos serviços das operadoras móveis, o que sempre resulta em tarifas superiores às esperadas para os consumidores.

O plano de numeração é uma etapa necessária para que a Agência possa distribuir a numeração do SGMS aos provedores interessados ​​em prestar serviços de telemarketing aos consumidores.

A decisão do Conselho também trouxe avanços para a futura disponibilização da numeração de banda larga fixa. Com os números dedicados à banda larga fixa, os consumidores desse serviço poderão se comunicar entre si e com os usuários móveis e fixos sem a necessidade de mediação de outros serviços além do de banda larga.

Entretanto, antes que a Anatel comece a distribuir números de banda larga fixa, será necessário, entre outras ações, fazer um estudo sobre tarifas de rede e interconexão. O regulamento aprovado pelo Conselho de Administração da Anatel entrará em vigor 180 dias após sua publicação no Diário Oficial da União.

Agora cabe a nós, cidadãos, manter a vigilância e a pressão pela fiscalização efetiva.

F-Droid – Repositório Android de Código Aberto e Livre

Os smartphones continuam produzindo vítimas, à esquerda e à direita. O caso ilustre mais recente, e bizarro, foi o do deputado da Assembleia paulista, pego em uma molecagem épica.

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É até divertido. Enquanto as pessoas continuarem a ignorar a tecnologia subjacente e usar smartphones na ilusão de estarem em privacidade os incidentes – e as revelações – vão continuar sua marcha, para nosso deleite*.

A fachada social, a reputação e o patrimônio das pessoas correm um risco constante na cultura da atenção e da vigilância, impulsionada pela conectividade tóxica. A vida em 2022 é mergulhada em um ambiente tecnológico sem freios éticos. As tecnologias de conectividade imploram por uma revisão geral.

O ambiente Android é notório, entre tecnologistas e engenheiros de software éticos, por sua brutal falta de princípios morais. O usuário médio não faz a menor ideia do monstro que coloca em movimento a cada interação, cada like e a cada share [e, pela minha experiência, faz um about-face toda vez que alguém tenta lhe explicar, como agora – as pessoas odeiam falar de privacidade e eu adoro provocar sua reação].

Existe alternativa a esse estado de coisas assustador? Não, não existe nenhuma solução perfeita nesta situação social de massivo analfabetismo científico-tecnológico. Contudo, podemos falar em mitigação das ameaças. Nesse momento, entra em cena o F-Droid, sistema aberto e livre [as in speech], alternativo ao mefistofélico Android.

A ética tem sido central para a comunidade F-Droid desde o início, com foco em software livre, privacidade e no controle do usuário sobre a plataforma. Uma parte fundamental do design do F-Droid é a ausência de contas de usuário.

No F=Droid, contas de usuário nunca são usadas no processo de entrega de aplicativos. Isso é por design. O F-Droid nunca teve um método para identificar ou rastrear usuários no Android. Obter informações no site f-droid.org também nunca exigiu nenhum tipo de identificação pessoal.

Ter contas de usuário torna alguns problemas muito mais fáceis de resolver: torna mais fácil incluir classificações, revisões e personalizar a documentação. No entanto, ter contas de usuário torna outros problemas muito mais difíceis de resolver, a ponto de o custo-benefício ser negativo.

As contas de usuário inevitavelmente significam que informações de identificação pessoal (IPI) serão coletadas. Contas de usuário também exigem senhas e, adicionalmente, números de telefone ou endereços de e-mail. Todos esses dados precisam ser defendidos contra acesso indevido, o que é problemático na plataforma Android. Um dos principais objetivos do F-Droid é eliminar a possibilidade de rastrear os usuários.

Quando se trata de smartphones, a verdade que nunca é dita é que contas de usuário não são um requisito técnico para a criação de um serviço – embora inúmeros aplicativos façam parecer que sim. As contas de usuário são a maneira perfeita para coletar dados e vinculá-los na criação de perfis estatísticos muito detalhados. Essa arquitetura é fundamental para rastrear usuários, a fim de mercantilizá-los e oferecê-los no pregão da economia da atenção.

As contas de usuário também são usadas para controlar o acesso a informações e dados. Elas são usadas ​​para “bloquear região” de vídeos e bloquear seletivamente o acesso a aplicativos. É claro que existem casos de uso legítimos para restringir o acesso, como garantir que crianças possam acessar apenas conteúdo apropriado para a idade. Por outro lado existem outras maneiras de fazer isso, como a curadoria de repositórios para que o material adulto seja entregue por meio de repositórios separados e opt-in.

As contas de usuário são fundamentais para rastrear pessoas

Contas e IDs de usuários são uma parte essencial do rastreamento de usuários e da criação de perfis estatísticos duradouros. Já se tornou um truismo da Intenet, que se um serviço qualquer exige uma conta para acessá-lo, esse serviço certamente está rastreando seus usuários. Quando um usuário faz login, ele está dizendo claramente ao serviço quem ele é. E esse serviço pode facilmente atribuir ações específicas a essa conta no ato da criação do perfil.

Isso não quer dizer que não haja motivos válidos para rastrear usuários. Como mencionado anteriormente, os editores da Wikipédia são um exemplo de serviço essencial construído com base nas contas dos usuários. O que estamos dizendo é que se a privacidade é um bem importante, os requisitos de login dos infinitos sites e serviços da Internet pedem que paremos um instante para pensar.

O Google nos fornece um exemplo não muito edificante. Ele se esforça muito para fazer com que as pessoas façam login o máximo possível, e a maioria de seus serviços exige que os usuários façam login com uma conta. Até o seu navegador Chrome exige logins, que são obviamente vinculados a contas do Google. Eles geralmente justificam esse requisito dizendo que isso torna os serviços mais fáceis de usar e, portanto, “mais convenientes”. A estrada da conveniência ainda vai nos levar a todos para o purgatório.

Embora seja óbvio que o rastreamento de usuários possa fazer com que certas coisas sirvam melhor ao perfil de um usuário, o Google parece consistentemente aplicar esses casos a situações em que eles têm uma vantagem clara em obter mais dados de rastreamento.

O que funciona sem contas de usuário?

F-Droid não está sozinho na entrega de serviços úteis sem contas ou perfis de usuários. Existe toda uma linha de aplicativos, como navegadores, wikis, blocos de notas compartilhados, videoconferência, mensagens e análises estatísticas.

A primeira pergunta a ser respondida é: um serviço precisa saber quem são os usuários para funcionar? Essas informações podem permanecer apenas no dispositivo do usuário? Por exemplo, um serviço de e-mail ou de mensagens precisa saber o suficiente sobre seus usuários para poder direcionar dados de um usuário que envia uma mensagem para o destinatário pretendido. Isso significa principalmente que o servidor de mensagens depende de cada usuário ter uma conta.

Essa é uma maneira comum de implementar esse sistema, mas não é a única. Tor Onion Services [forneço o link para informação, mas não concordo com o nome do verbete da Wiki em português] segue uma abordagem diferente. Eles são projetados para rotear dados sem que nenhuma parte do sistema possa ver quem está enviando dados para quem e quem está fazendo a solicitação. O aplicativo de mensagens Briar, oferecido pelo F-Droid baseia-se nesse esquema para fazer as mensagens funcionarem sem que ninguém saiba quem está enviando para quem, fora os envolvidos na conversa. Com o Briar, as informações de contato do usuário ficam armazenadas apenas nos dispositivos dos usuários.

O aplicativo de videoconferência foi construído em torno de IDs de usuários, como contas e números de telefone. Serviços como Jitsi Meet [serviço oposto ao proprietário e fechado Zoom] foram pioneiros em uma nova forma de conexão: cada sala de conferência é representada por um nome em na URL, por exemplo, https://meet.jit.si/CanalDoTrabalho. Qualquer pessoa que tenha esse URL pode abri-lo em um navegador e entrar na sala.

O Jitsi Meet funciona lindamente e já demonstrou que as reuniões online realmente funcionam melhor sem contas de usuário – e são muito mais fáceis de configurar e gerenciar. Plataformas de reunião que não suportem ingresso com apenas uma URL [sem conta de usuário] estão fadadas à extinção.

A Wikipedia é um ótimo exemplo híbrido. É possível editar a maioria das páginas sem uma conta, apenas clicando em editar e fazendo as alterações. O conteúdo gerado pelo usuário inevitavelmente precisa de controles para sobreviver às guerras de edição e comportamento abusivo. Portanto, as contas de usuário ainda são uma parte fundamental de como a Wikipédia funciona. No entanto, neste caso o uso de contas decorre da necessidade dos editores da Wikimedia de fornecer serviços essenciais a seus usuários.

Como o ecossistema F-Droid funciona baseado em hashes de arquivos estáticos sem controles de acesso, ele pode liberar todo tipo de flexibilidade. Os repositórios-espelhos do f-droid.org/repo podem ser entregues em todo o mundo com segurança, por meio de web services, Raspberry Pis locais ou até mesmo um pen drive USB. Com o IPFS [Inter Planetary File SystemSistema de Arquivos Inter Planetário] qualquer conteúdo pode ser baixado por qualquer pessoa sem necessidade de permissões ou serviços centralizados.

Para resumir tudo a duas linhas, o F-Droid é um grande aliado do usuário consciente que deseja limitar a presença do Google em suas vidas sempre que possível.

Aqui o link para download, Caso alguma leitora ou leitor queira realmente explorar a ideia e instalá-lo, pode me perguntar nos comentários, que terei prazer em explicar e dar links para todas as informações.


Este post marca o primeiro aniversário do blog. Nada a comemorar em termos de sucesso. Memoráveis as pessoas incríveis que conheci na rede WordPress.

Feliz aniversário para mim, Êêêêê…

Cyberfront: Ucrânia Propõe que ICANN Remova Domínios Russos

O site de Tecnologia TheRegister informa que, em resposta à invasão russa da Ucrânia na semana passada, Mykhailo Fedorov, vice-primeiro-ministro da Ucrânia, pediu na segunda-feira (28-3) à ICANN, todo-poderosa responsável pelo DNS [Domain Name System – Sistema de Nomes de Domínio], que desative os domínios de primeiro nível que tenham código de país associados à Rússia.

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Em um e-mail [PDF], Fedorov pediu a Goran Marby, CEO da ICANN, que imponha sanções à Rússia, argumentando que o regime de Putin usou a infraestrutura da Internet para propagar seu esforço de guerra. Especificamente, ele pediu a revogação dos domínios “.ru”, “.”, “.su” e outros usados ​​pela Federação Russa, desligando os servidores raiz DNS que atendem à Federação Russa e contribuindo para a revogação dos certificados de segurança [TLD/SSL] emitidos para esses domínios.

“Todas essas medidas ajudarão os usuários a buscar informações confiáveis ​​em zonas de domínio alternativas, evitando propaganda e desinformação”, diz o e-mail de Fedorov. “Líderes, governos e organizações de todo o mundo são a favor da introdução de sanções contra a Federação Russa, uma vez que visam pôr fim à agressão contra a Ucrânia e outros países. Ajude a salvar a vida das pessoas em nosso país.”

Fazer isso bloquearia cerca de cinco milhões de domínios da internet global e afetaria significativamente a capacidade da Rússia de se comunicar online.

Em resposta a Prykhodko, Erich Schweighofer, professor da Universidade de Viena e participante da comunidade da ICANN, escreveu: “Nós sabemos e estamos atentos à situação muito difícil e perigosa. [A] União Européia irá apoiá-lo. No entanto, remover a Rússia da Internet não ajuda a sociedade civil desse país em sua luta para uma mudança democrática. A ICANN é uma plataforma neutra, não tomando uma posição neste conflito, mas permitindo que os Estados ajam de acordo – por exemplo, bloqueando o tráfego a um determinado estado.”

Antony Van Couvering, CEO da Top Level Domain Holdings, expressou apoio à ideia: “A neutralidade como resposta ao assassinato não é neutra. De que adianta uma ‘organização da sociedade civil’, se ela se recusa a proteger a mesma sociedade civil, muito menos fazer algo a respeito? Até os políticos acordaram. Até o governo alemão acordou. Até o governo suíço acordou! Enquanto isso, algumas pessoas na ICANN se contentam em repetir frases vazias sobre não se envolver porque isso não ajuda a sociedade civil em seu país. Isso é que é o tal de ‘um mundo, uma internet'”.

A reportagem do Register acrescenta que o registrador de domínio Namecheap* “aconselhou os clientes na Rússia a levar seus negócios para outro lugar, citando crimes de guerra”. No entanto, o CEO da Namecheap, Richard Kirkendall, esclareceu mais tarde que os domínios não foram bloqueados. Em vez disso, eles estão apenas “pedindo às pessoas que voluntariamente se mudem”.

Com tantos se unindo ao lado da Ucrânia (mesmo aqueles que tradicionalmente permanecem neutros em assuntos internacionais), pedir à ICANN que tome medidas contra a Rússia parece ser uma proposta razoável dadas as circunstâncias. Como um bônus, a provável diminuição no spam seria um alívio bem-vindo.

(*) Vox Leone também é cliente do Namecheap, e ficamos contentes com a decisão de R. Kirkendall

Cyberfront: Gigante Russo Kaspersky Tenta Manter a Neutralidade

A revista Motherboard deu conta, ontem (1/3), que no mesmo momento em que forças russas lançavam um ataque de foguetes em uma praça em Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia, matando e ferindo um número ainda desconhecido de pessoas, Eugene Kaspersky, CEO da empresa russa de segurança cibernética homônima, twittou singelamente que esperava que as negociações entre a Ucrânia e a Rússia levem a “um compromisso”.

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A declaração resume a posição da empresa desde que a Rússia invadiu a Ucrânia há seis dias: a de uma tentativa de neutralidade em uma guerra onde ficar em silêncio ou em cima do muro significa estar implicitamente do lado das forças russas. Em outra declaração à Motherboard, na segunda-feira (28/3), a empresa disse que “como provedora de serviços de tecnologia e segurança cibernética, a empresa não está em posição de comentar ou especular sobre desenvolvimentos geopolíticos fora de sua área de especialização”.

A Kaspersky é uma das empresas russas mais conhecidas e há anos seu produto antivírus está entre os mais usados ​​no mundo. O software antivírus também coleta dados de telemetria para os pesquisadores da Kaspersky, que podem usá-los – alegadamente – para identificar e combater novas ameaças. Seus pesquisadores são alguns dos melhores do mundo, com sua Equipe de Pesquisa e Análise Global (Global Research & Analysis Team – GReAT) publicando regularmente pesquisas importantes sobre várias operações de malware de vários governos.

Notoriamente, a empresa foi a primeira a revelar a existência e detalhes de um grupo de hackers do governo dos EUA, que apelidou de Equation Group. A Kaspersky também pesquisou supostos hackers ligados ao governo russo.

O tweet de Eugene também traz outro assunto à tona novamente: quanto a Kaspersky, a empresa, é influenciada pelo governo russo, mesmo que indiretamente? É lícito supor que, como uma empresa russa que opera em Moscou sob as leis russas, ela pode sentir pressão para estar em linha com as questões russas.

A declaração na segunda-feira acrescentou que “a Kaspersky está focada em sua missão de construir um mundo mais seguro para governos e consumidores em todo o mundo. As operações comerciais da Kaspersky permanecem estáveis. A empresa garante o cumprimento de suas obrigações com parceiros e clientes – incluindo entrega e suporte de produtos e continuidade de transações financeiras. A equipe de gerenciamento global está monitorando a situação cuidadosamente e está pronta para agir muito rapidamente, se necessário.”

A Kaspersky pode não se sentir em posição de especular ou tomar uma posição sobre a invasão da Ucrânia. Mas com um comboio militar russo de 70 km de comprimento a caminho de Kyiv e com a perspectiva de mais ataques cibernéticos desempenhando um importante papel na invasão, a Kaspersky pode ser obrigada a escolher um lado.