O Efeito Trump: O ‘Surto’ do Bitcoin e a Nova Era das Criptomoedas

Com a eleição americana já decidida, o Bitcoin volta a ocupar o centro das atenções, impulsionado por uma onda de entusiasmo que fez seu valor se aproximar dos US$ 100.000 por unidade.

Boné vermelho com os dizeres 'make bitcoin great again'
Imagem modificada por AI

Até mesmo os críticos mais ferrenhos das criptomoedas — como eu, que há tempos alerto sobre seus riscos — precisam reconhecer que o cenário mudou drasticamente. Sob a presidência de Donald Trump, antes cético e agora um defensor das moedas digitais, o ambiente está preparado para uma nova rodada de alta nas criptomoedas.

Os fatores que impulsionam esse movimento são, em grande parte, políticos e baseados em um crescente hype, em vez de uma mudança fundamental no valor das criptomoedas. Afinal, a realidade permanece: essas moedas digitais têm pouco valor intrínseco. O Bitcoin e suas contrapartes digitais não oferecem um produto ou serviço tangível. Mesmo assim, estão se tornando rapidamente uma referência no sistema financeiro global, principalmente devido a um afrouxamento na regulação e ao apoio de um número crescente de influenciadores nas mídias sociais.

Essa transformação deve-se em grande parte à abordagem de Trump em relação à regulação. Espera-se que seu governo reduza consideravelmente a supervisão sobre as criptomoedas, criando um ambiente mais favorável ao crescimento desse mercado. A perspectiva de um cenário regulatório mais flexível deve incentivar os apoiadores da indústria, permitindo um novo ciclo especulativo que remonta ao espírito do Velho Oeste nos mercados financeiros.

Apesar de anos de promessas e hype, as criptomoedas ainda carecem de usos práticos no cotidiano. Defensores das moedas digitais podem argumentar que elas servem como proteção contra a inflação, reserva de valor ou uma alternativa melhor para remessas internacionais, mas nenhuma dessas afirmações foi realmente comprovada. Como um observador comentou de forma direta: “Ninguém encontrou um uso real para o Bitcoin além de possuir Bitcoin.”

No entanto, há áreas em que as criptomoedas, especialmente o Bitcoin, têm um valor claro: transações financeiras ilícitas. Seja para atividades criminosas, terrorismo ou lavagem de dinheiro, o Bitcoin tem se mostrado uma ferramenta eficaz. Um exemplo notório disso é o uso crescente de criptomoedas por investidores chineses, que buscam contornar as restrições do governo para a movimentação de capitais para o exterior. Embora as implicações legais e éticas sejam complexas, é inegável que as criptomoedas se firmaram como uma ferramenta nesse tipo de transação.

Nos Estados Unidos, a negociação de criptomoedas tem sido dificultada por entraves regulatórios, especialmente sob a liderança de Gary Gensler na Securities and Exchange Commission (SEC). Gensler se opôs veementemente ao setor, tratando muitas das ofertas de criptomoedas como valores mobiliários não registrados. Com a volta de Trump, esse cenário pode mudar. Sob uma nova gestão da SEC, as criptomoedas poderiam ser tratadas mais como commodities — como o ouro ou a soja — do que como ações ou títulos. Os reguladores de commodities tendem a se concentrar mais em fraudes do que na proteção ao investidor, o que daria aos emissores de criptomoedas uma liberdade maior.

Mudança nas diretrizes

A mudança de postura de Trump em relação às criptomoedas parece ser movida por uma razão clara: dinheiro. Somente este ano, os entusiastas das criptomoedas investiram mais de US$ 135 milhões em apoio a candidatos que defendem políticas favoráveis a esses ativos digitais. Trump também entrou no jogo, lançando o World Liberty Financial, uma nova iniciativa voltada para o mercado de criptomoedas, embora ainda não tenha alcançado seus objetivos de arrecadação. Além disso, Trump se cercou de figuras de destaque do setor, como Howard Lutnick, presidente da Cantor Fitzgerald, que agora deve comandar o Departamento de Comércio.

Entre as propostas mais curiosas que Trump e seus aliados defenderam está a criação de uma reserva estratégica de Bitcoin — uma ideia absurda que sugere que os Estados Unidos deveriam acumular um ativo de valor questionável. No entanto, é interessante notar que o governo dos EUA já possui uma quantidade significativa de Bitcoin, principalmente apreendido em casos criminais.

Essa confluência de influência política e apoio financeiro resultou no que podemos chamar de um “impacto Trump” nas criptomoedas. O Bitcoin subiu de cerca de US$ 40.000 no início do ano para quase US$ 94.000 atualmente. As ações da Coinbase, maior bolsa de criptomoedas, também tiveram um aumento de quase 44%. Caso a administração de Trump consiga reduzir a supervisão regulatória, a demanda por criptomoedas deve crescer ainda mais.

Porém, não nos deixemos enganar: essa alta não significa que as criptomoedas se tornaram mais seguras. Na realidade, com a redução das barreiras regulatórias, esses ativos digitais provavelmente se tornarão ainda mais voláteis. Os mercados de criptomoedas são conhecidos por suas flutuações de preço, que são impulsionadas mais pela especulação e pela emoção do que por fundamentos sólidos. Essa volatilidade é um reflexo de uma tendência maior no mundo dos investimentos modernos, onde a psicologia do mercado muitas vezes dita os preços dos ativos.

Warren Buffett, em sua carta anual, lamentou recentemente que o mercado de investimentos tenha se tornado cada vez mais “semelhante a um cassino”. E as criptomoedas são talvez o exemplo mais claro dessa realidade. Com menos proteção regulatória, esse “cassino” atrairá ainda mais especuladores, e, no segundo mandato de Trump, a indústria de criptomoedas será uma das principais promotoras desse frenesi.

A nova era das criptomoedas — movida por ambição política e especulação desenfreada — chegou. Se ela se consolidará como um mercado sustentável ou se tornará um grande alerta, o tempo dirá. O certo é que, sob Trump, o Bitcoin se prepara para um futuro tudo, menos previsível.

Só no Brasil: O Primeiro Território Não-fungível do Mundo

Um projeto chamado Nemus Earth surgiu em março, oferecendo a venda de um NFT Ethereum para quem quiser se tornar um “Guardião” da floresta amazônica brasileira.

Imagem: Pexels.com

Eu detesto dar moral para estelionatários internéticos, mas aqui está o link. O projeto tem planos grandiosos para criar um “cinturão de proteção” na Amazônia brasileira para concentrar os esforços de combate ao desmatamento. O material de divulgação do projeto se esforça para explicar que “a atividade econômica é necessária” na terra que eles vão comprar e traça um plano para empregar os indígenas da área na extração da castanha-do-pará em uma plantação abandonada — que o projeto pretende “revitalizar”.

Os autores descrevem a “cooperação” com a população local, que irá “desbloquear a riqueza geracional para essas comunidades”, embora não haja nenhum plano concreto para que essas pessoas realmente se juntem à comunidade de “Guardiões” ou encaminhem alguma opinião sobre a governança do projeto.

Outras atividades econômicas planejadas pelo projeto envolvem “silvicultura sustentável”, “capacitação das autoridades policiais locais”, atividades envolvendo drones e, claro, geração de compensações de carbono para outros projetos.

Poluir para proteger

O prospecto da entidade informa que a iniciativa será implementada na blockchain Ethereum. O projeto, cujo objetivo declarado é a conservação ambiental, aparentemente decidiu esconder dos potenciais guardiões o enorme consumo de energia, emissões de poluentes e resíduos eletrônicos decorrentes do processamento de qualquer blockchain, incluindo a do Ethereum.

O projeto abriu sua segunda rodada de “cunhagem” em 3 de março e está oferecendo seus NFTs por preços entre 0,06 ETH e 19,44 ETH (US$ 150 a US$ 50.000).

Em 20 de julho, eles emitiram um comunicado à imprensa alegando que “o primeiro território não fungível do mundo foi oficialmente nomeado por indígenas no Brasil em conjunto com a Nemus” [nota de VL: tsc, tsc, tsc]. A empresa afirma possuir 41.000 hectares de terra na Amazônia.

Entra a Cavalaria

Em 25 de julho, o Ministério Público Federal (MPF) divulgou um comunicado dando conta que havia exigido da Nemus comprovação de propriedade das áreas que reivindica, esclarecimentos sobre os projetos on-line que prometeram realizar e a comprovação de que receberam autorização da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) ou de qualquer outro órgão público que lhes permita atuar na área e se engajar com os diversos grupos indígenas.

De acordo com o MPF, integrantes de grupos indígenas da região denunciam que a empresa violou seus direitos. Eles também relataram que a Nemus havia manifestado planos de usar máquinas pesadas para abrir uma pista de pouso e construir uma estrada para acessar os castanhais da região.

As lideranças dos Apurinã alegaram que os representantes da empresa pressionaram os indígenas – que não lêem bem – a assinar os documentos (dos quais não forneceram cópias).

http://www.mpf.mp.br/am/sala-de-imprensa/noticias-am/mpf-aciona-empresa-que-vende-ativos-digitais-nfts-de-areas-da-amazonia

Essa empresa não é a única a se aventurar na hiléia. Outras, como SuperWorld, Moss, etc., estão trabalhando a todo vapor para vir buscar sua fatia nesse comércio. Assim, a farra dos NFT’s encontra o caos administrativo da Amazônia. O que poderia dar errado?

Post Scriptum

Ao escrever este post eu descubro, com tristeza mas não surpresa, que não há na Internet em português nenhum tópico (semi) autoritativo que seja [ex: Wikipédia] que contemple o termo hiléia [aqui um link relacionado ao tema]. Isso é inaceitável no maior país Amazônico e suposto líder mundial da biodiversidade. O que duzentos milhões de brasileiros fazem o dia todo? Será que alguém poderia dar um tempo no Facebook para fazer um mísero texto sobre a Amazônia? Eu já tenho meu tempo ocupado aqui com os problemas da computação, segurança e privacidade, e não posso fazer tudo, ok? Me ajude aí!

Outro problema típico – e recorrente – da incúria [ou da proverbial preguiça] do Patropi é o total desleixo com a administração de muitos sites dos vários níveis de governo. O site governamental que vinculei neste texto, nada menos que o site do Ministério Público Federal, está com o certificado de segurança vencido. Cuidado ao visitar [ou simplesmente não visite]. Assim realmente não dá!

Ps do Ps

Para terminar em alto astral, informo aos leitores que estou produzindo um conteúdo muito bom – e um tanto longo – sobre a Libra Esterlina, que pretendo publicar na semana que entra. O post vai trazer um infográfico inédito que concebemos para facilitar o entendimento de quais e como eram as denominações e frações da Libra antes da decimalização, em 1971. Ele é o resultado de minhas pesquisas para desenvolver um módulo universal de conversão de moedas.

Fiquei muito satisfeito com o trabalho – do qual não encontrei equivalentes na Internet – e estou ansioso para publicá-lo. Será muito interessante para os anglófilos, estudantes e curiosos em geral [inclusive os ingleses, que poderão se perguntar porque nunca houve um material visual oficial para explicar a Sterling aos povos bárbaros]. Com esse material poderá vir o tão esperado salto de audiência para este blog. Fingers crossed.

https://twitter.com/VoxLeone

The Merge: A Esperada Fusão do Ethereum se Aproxima

Em breve, a rede principal da blockchain Ethereum se fundirá com o sistema Beacon Chain. Neste post discutimos brevemente os principais aspectos da operação e das tecnologias envolvidas.

Imagem: Pexels

O evento marcará o abandono – no âmbito do Ethereum – do sistema de validação de transações baseado no método da “prova de trabalho” [proof-of-work, usado pelo Bitcoin] e a transição completa para uma nova abordagem chamada de “prova de participação” [proof-of-stake – ver abaixo]. A data para o acontecimento havia sido definida vagamente como o segundo trimestre de 2022. Alguns canais da Internet especulam que será em agosto. Não sei até que ponto a atual crise nas criptos interfere no cronograma.

Essa movimentação prepara o cenário para futuros melhoramentos de escala nessa rede, incluindo a adoção da tecnologia ‘sharding’ [ver notas, no final], que vai trazer inovações ao processo de validação. A fusão, também conhecida como “The Merge”, pretende reduzir o consumo de energia do Ethereum em ~99,00%.

The Merge – o que é

“The Merge” é um “upgrade” na rede Ethereum, que vai substituir o atual mecanismo de consenso baseado na “prova de trabalho” (PdT) por um mecanismo de consenso chamado de “prova de participação” (PdP), mais sustentável, eficiente e seguro. A partir da fusão, todos os blocos no Ethereum serão produzidos via PdP. A PdP já está ativa na rede Ethereum e passou por seu primeiro hard fork em outubro de 2021.

Discussão

Ethereum em seu estado atual usa o método da prova de trabalho para garantir o consenso entre os milhares de chamados “nós” na rede. A PdT é confiável e segura, mas consome muita energia. Para produzir cada bloco na rede, o processo envolve calcular códigos alfanuméricos válidos – chamados hashes – para verificar as transações e adicionar o próximo bloco ao blockchain. Para isso os participantes precisam usar equipamento com unidades de processamento [GPUs] poderosas e famintas de energia.

A prova de participação, por outro lado, pretende garantir a segurança da rede de uma maneira diferente: o validador precisa provar é um participante [daí o nome], um stakeholder, com claro interesse no bom andamento das transações da rede.

Essa prova do interesse na participação consiste no depósito de 32 ETH – uma quantia considerável. Qualquer pessoa pode fazer esse depósito e se tornar um nó validador – um nó que participa do algoritmo de consenso da rede.

Se você depositar mais de 32 ETH, você receberá vários “slots validadores”. A recompensa pelo status de validador é uma comissão das taxas de transação validadas em seus slots. Os requisitos de hardware aumentam quanto mais você participar como validador.

O protocolo determina que 2/3 de todos os validadores ativos assinem a finalização de um bloco. Se um agente malicioso tentar adulterar o protocolo usando um grande número de validadores para reverter um bloco finalizado, seus fundos sofrerão cortes – o que significa que perdem parte de, ou todo, o ETH depositado previamente. Isso torna os ataques extremamente caros e, portanto, improváveis.

A PdP não requer o mesmo hardware poderoso, de uso intensivo de energia que a PdT. Qualquer hardware relativamente recente deverá ser capaz de executar o software necessário para operar um nó de participação de 32 ETH.

Comparando os dois métodos

A PdP busca uma maior resistência à centralização e à censura. PdT e PdP são bastante semelhantes. Ambas são sistemas que não dependem de confiança [trustless], onde qualquer pessoa pode participar. Ambos os processos se baseiam no fato de que se torna exponencialmente difícil atacar a blockchain à medida que mais blocos são adicionados; é dispendioso ser um validador. O impacto que você tem na rede e, portanto, as recompensas que você pode ganhar, são proporcionais à quantidade de recursos econômicos que você coloca (hardware de computador e eletricidade no caso da PdT – moedas em PdP). No entanto, existem diferenças importantes entre os dois métodos.

Gráfico: Vox Leone

Para minerar em uma rede PdT, é preciso investir em hardware especializado, ter acesso a uma fonte de energia barata e confiável e ter um nível substancial de habilidade técnica para administrar e manter sua “fazenda de mineração”. É possível minerar em pequena escala, mas as peculiaridades das leis econômicas tornam difícil competir com fazendas de mineração maiores e mais ricas.

A prova de participação parece ser mais amigável para os participantes menores da blockchain. Para participar como validador e começar a apostar, é preciso depositar 32 ETH (é possível com menos, mas foge ao escopo deste post). O equipamento necessário para se tornar um nó e participar do consenso de PdP pode ser qualquer hardware de consumo razoavelmente moderno.

A prova de participação e o consumo de energia

Na prova de trabalho, quem resolver o bloco primeiro recebe a recompensa. Ou seja, a PdT é uma “corrida armamentista”. Se você tiver mais capacidade de computação [taxa de hash] do que seus concorrentes, é mais provável que você ganhe. O resultado final é que os mineradores PdT trabalham com 100% de capacidade, 24 horas por dia. Essa demanda extrema de energia continua a crescer com o valor das recompensas nos blocos que eles estão tentando ganhar.

Por outro lado, na prova de participação os proponentes do bloco são selecionados aleatoriamente – removendo completamente a exigência de uma corrida armamentista. Não há como aumentar a probabilidade de que qualquer nó específico seja escolhido para propor um bloco – portanto, não há necessidade de consumir cada vez mais energia para melhorar suas chances competitivas.

Como os nós PdP são estimados em 99% (ou mais) mais eficientes do que seus equivalentes PdT, o PdP representa um grande avanço para a eficiência energética da tecnologia blockchain.

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Notas

Sharding e Beacon Chain

Sharding [fragmentação] é o processo de dividir um banco de dados horizontalmente para distribuir a carga – é um conceito comum em ciência da computação. No contexto do Ethereum, o sharding funcionará com outros módulos para dividir os rollups da camada 2 em fragmentos de rede, distribuindo o fardo de lidar com a grande quantidade de dados necessários para rollups em toda a rede. Os fragmentos podem ser pensados também como sub-redes na blockchain. O propósito é reduzir o congestionamento da rede e aumentar as transações por segundo.

O Beacon Chain contém toda a lógica para manter os fragmentos de rede [shards] seguros e sincronizados. A Beacon Chain coordenará os validadores da blockchain, encaminhando-os aos fragmentos nos quais eles precisam trabalhar. Também facilitará a comunicação entre os fragmentos, recebendo e armazenando dados de transação dos fragmentos que podem ser acessados por outros fragmentos. Isso dará aos fragmentos um instantâneo do estado do Ethereum para manter tudo sincronizado.

Triplo halving

“The Triple Halving” é o nome que a comunidade Ethereum dá à grande queda na emissão de ETH que ocorrerá quando “The Merge” ocontecer e o Ethereum estiver totalmente portado para o algoritmo de prova de participação. “The Triple Halving” é uma brincadeira com o “Halving” do Bitcoin. Enquanto o Bitcoin reduz pela metade sua taxa de emissão a cada 4 anos, o Ethereum verá sua taxa de emissão reduzida em cerca de 90% no momento da fusão. Isso é equivalente a 3 Bitcoin “halvings” acontecendo ao mesmo tempo. O Ethereum experimentará uma redução de emissão repentino, o que levará mais de 12 anos para ser correspondido na rede do Bitcoin.

Fontes:

https://ethereum.org

https://ethmerge.com

Notáveis Fazem Alerta Sobre as Criptomoedas

Um evento muito importante sobre as criptomoedas aconteceu nesta semana, e, como sempre, passou abaixo do radar da grande mídia Tupiniquim. É exatamente por isso que este blog existe.

Imagem: Pexels

Um grupo de tecnologistas renomados uniu forças para pressionar os legisladores dos EUA a reprimir a crescente indústria de criptomoedas, marcando o primeiro esforço conjunto para combater o lobby bem financiado por empresas de blockchain.

O Financial Times [não vou dar link pois essa é uma das muralhas de pagamento mais formidáveis da Internet] reporta que

o professor de Harvard Bruce Schneier, o ex-engenheiro da Microsoft Miguel de Icaza e engenheiro-chefe do Google Cloud Kelsey Hightower, estão entre os 26 cientistas da computação e acadêmicos que assinaram uma carta [link, em inglês] entregue aos legisladores dos EUA criticando fortemente os investimentos em criptomoedas e a tecnologia blockchain. Embora várias pessoas já tenham feito avisos semelhantes sobre a segurança e a confiabilidade [ou falta de] dos ativos digitais, esta iniciativa marca um esforço mais organizado para desafiar a crescente influência dos defensores das criptomoedas, que querem resistir às tentativas de regular esse setor movediço.

“As alegações que os defensores do blockchain fazem não são verdadeiras”, disse Schneier. “Não é seguro, não é descentralizado. Qualquer sistema em que alguém pode perder suas economias porque esqueceu a senha de acesso não é um sistema seguro”, acrescentou. “Estamos fazendo um contra-lobby, é disso que trata esta carta”, disse o signatário e desenvolvedor de software Stephen Diehl. “A indústria de criptomoedas tem seu próprio pessoal, e eles falam o que querem aos políticos.”

Uma análise recente feita pelo Public Citizen, um grupo de defesa do consumidor, sobre o banco de dados de divulgação de lobby do Congresso dos EUA, revelou que o número de lobistas que representam a indústria de cripto aumentou de 115 para 320 entre 2018 e 2021, e o dinheiro gasto em lobby para o setor de cripto quadruplicou de US$ 2,2 milhões a US$ 9 milhões no mesmo período. A Coinbase, cambista de criptomoedas com sede nos EUA, liderou o esforço com 26 lobistas e US$ 1,5 milhão gastos em lobby em 2021. Empresas com crescente interesse no setor de criptomoedas, incluindo Meta, Visa e PayPal, também fizeram lobby para o setor. Enquanto isso, as principais cambistas de criptomoedas, como FTX, Binance e Crypto.com, também gastaram muito em acordos de patrocínio com estrelas do esporte e do entretenimento para promover seus produtos ao público.

Contra-ataque

Note que essas pessoas não são a turma do capital. São cientistas da computação reais pedindo que esses esquemas, que muitos equiparam a pirâmides financeiras, sejam controlados. Eles não têm tempo a perder em discussões fúteis.

Há tempos esses especialistas alertam contra a adoção intempestiva de criptomoedas. Stephen Diehl disse tempos atrás que os Tokens Não Fungíveis são uma farsa e recebeu tanta atenção que os “cripto bros” escreveram alguns artigos atacando-o. Portanto não é surpresa que ele esteja contra atacando no Congresso.

Para minhas finanças pessoais, devo dizer que estou absolutamente apavorado que esse tipo de ativo esteja sendo tratado como ativo real. O crash do mercado de 2008 envolveu a propriedade imóvel. Desta vez folgo que serão apenas macacos entediados.

Distinção e responsabilidades

Uma distinção importante é que as moedas chamadas “fiduciárias” são controladas por governos e bancos centrais que têm interesse em manter a estabilidade da economia geral e não inflacionar o valor de cada unidade de moeda, porque também é o governo e os bancos centrais que têm a responsabilidade de financiar a recuperação de qualquer colapso econômico.

Por outro lado, as criptomoedas são controladas por entidades que têm interesse em inflar o valor de cada unidade de sua moeda e não se importam se a moeda eventualmente entrar em colapso porque eles apenas vão continuar seu caminho, à espera do próximo esquema – você não vai encontrar os mineradores de bitcoin para pagar os custos de moradia, alimentação ou o auxílo-desemprego das pessoas afetadas se e quando o bitcoin cair e acabar com bilhões em investimentos. A indústria de criptomoedas espalhou tanta fumaça na paisagem que os meros mortais não fazem a menor ideia do que isso tudo significa. Essa mesma indústria também conseguiu fazer com que as pessoas acreditassem que este é o futuro, e se você não vê esse futuro você é obviamente uma pessoa das cavernas.

Conselho grátis

Meu conselho aos formuladores de políticas: se você não consegue entender essa conversa de criptomoeda, provavelmente há uma boa razão, e não é porque você é estúpido. É porque a coisa toda é terrivelmente complexa. Confie em si mesmo e os desafie para o debate. No minuto em que você colocar um cripto-bro na frente do congresso, fizer perguntas em português claro, e o cripto-bro não conseguir dar respostas inteligíveis, será um sinal claro para acionar o alarme.

Há um segmento de formuladores de políticas [para não citar aquele que não deve ser citado] que pensam que o Brasil – ou qualquer outro país – será condenado ao atraso financeiro se não embarcar nessa canoa. O melhor que se pode dizer sobre o assunto é que as criptomoedas são uma solução à procura de um problema. O pior que pode ser dito… Por onde começo?

Confie no seu instinto, tenha coragem e apenas diga não.

Pesquisador Deseja Morte Dolorosa ao Bitcoin

O site Slashdot me alerta sobre Nicholas Weaver, pesquisador sênior do International Computer Science Institute dos EUA. Ele argumenta que as criptomoedas são inúteis e destrutivas, e deveriam “morrer em um incêndio”.

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Imagem: Pexels

Ele também é professor do departamento de ciência da computação da UC Berkeley e conhecido crítico das criptomoedas. Em uma entrevista recente na revista Current Affairs, ele promulga o que chama de Lei de Ferro de Weaver [sobre a Blockchain] : “quando alguém diz que você pode resolver um problema X com blockchain, essa pessoa [mostra que] não entende o problema X e você pode, portanto, ignorá-la.”

Assim, para aqueles que defendem a criptomoeda como uma solução para “bancar os não-bancáveis”, Weaver aponta para o contra-exemplo do M-Pesa – um sistema de pagamento parecido com o brasileiro Pix – que a Vodafone iniciou no Quênia em 2007, – “na mesma época que o Bitcoin…

Ele tem engolido o Terceiro Mundo. É um fenômeno enorme. Porque basicamente anexa um saldo à sua conta de telefone. De forma que você só precisa enviar uma mensagem de texto para outra pessoa para transferir dinheiro… Então, mesmo com o dispositvo móvel mais básico, você tem acesso a dinheiro eletrônico fácil de usar. Isso tomou conta de vários países e se tornou um enorme sistema primário de pagamento, [enquanto que] a criptomoeda não funciona.

Weaver também afirma que quando as empresas dizem que aceitam pagamentos em Bitcoin, “elas estão mentindo” (usam um serviço que as paga em “dinheiro real” após realizar as conversões na criptomoeda preferida do cliente). Ele acredita que a criptomoeda só tem sido usada seriamente para pagamentos de resgates de sequestro de dados [ransomware] e tráfico de drogas – coisas que as moedas fiduciárias são legalmente obrigadas a bloquear.

A razão pela qual fiquei tão azedo no espaço das criptomoedas é o ransomware. Isso está causando danos de dezenas a centenas de bilhões de dólares à economia global. É um problema que só existe porque as pessoas podem pagar em Bitcoin.

Weaver também acredita que a criptomoeda permite que os capitalistas de risco “tranformem fraudes de valores mobiliários em modelo de negócios”, quando vendem tokens de suas startups para investidores de varejo. Esses seriam produtos financeiros descaradamente não licenciados.

Isso é uma flagrante fraude de títulos, mas não é cometida por pessoas. São apenas as empresas nas quais os investidores participam que cometem a fraude, e a SEC [Securities and Exchange Comission – Comissão de Valores Mobiliários, EUA] não tem monitorado a situação de forma proativa. Eles só aplicam correções às Ofertas Iniciais de Moedas [Initial Coin Offer – ICO] retroativamente, depois que as operações falham… e quando as coisas falham, os únicos a serem processadas são as empresas. Assim, as pessoas que cometem as fraudes conseguem se descolar dos títulos – ficando legalmente inimputáveis, de forma que você não poderá jogá-las na cadeia….

A SEC tem autoridade para impedi-los de forma proativa e não [apenas] reativa. Mas ela opta por não fazer nada. Basicamente, há um medo entre os reguladores – que eu penso que começou nos anos 1980 – de serem acusados de “sufocar a inovação”. [Neste caso, porém] não há inovação para sufocar. Portanto, regule.

Weaver também é cético em relação a outras supostas vantagens da criptomoeda. Ele argumenta que a criptomoeda incentiva o ‘poder verde’ “da mesma forma que tiroteios aleatórios incentivam a venda de coletes à prova de balas“. E mesmo como um veículo de investimento, Weaver vê as criptomoedas como “esquemas de pirâmide auto-criados”.

É preciso continuar a receber novos otários. Assim que o número de otários seca, a moeda entra em colapso. E porque não é soma zero, mas uma soma profundamente negativa, existem muitos mecanismos que podem causar o repentino desmoronamento do valor para zero. Vimos isso outro dia com a stablecoin Terra e o token lateral Luna.

Quando perguntado sobre o futuro da criptomoeda, Weaver prevê que ela “Irá implodir espetacularmente”.

A única questão é quando. Eu achei que já teria implodido um ano atrás. Mas basicamente, o que vimos com Terra e Luna – que entraram em colapso repentinamente devido a esses ciclos de feedbacks positivos descendentes – acontecerá em todo espaço de criptomoedas.

O Washington Nationals [time de basebal da MLB americana] outro dia começou a tuitar freneticamente a propósito de seu relacionamento comercial com a [comunidade de Bitcoin] Terra. Isso foi um negócio de US$ 38 milhões por cinco anos, pagos antecipadamente em dinheiro. Assim, pelos próximos cinco anos, os Washington Nationals estão obrigados a divulgar uma criptomoeda que já falhou espetacularmente.

Minha humilde opinião

Toda a premissa por trás do Bitcoin (e assemelhados) era que ele não poderia ser controlado, regulado ou manipulado por nenhum governo. Foi apresentado como uma espécie de moeda utópica libertária.

Só que isso agora começa a parecer uma miragem. O nome verdadeiro da “liberdade da tirania do governo” é simplesmente evasão fiscal. E não é segredo para ninguém que a anonimidade das criptomoedas é um mito – se o governo realmente quiser, ele tem total capacidade de saber exatamente quem transferiu quanto para quem na Blockchain. Assim, de início a promessa básica das criptomoedas não pode ser cumprida.

Minha razão pessoal para ter sempre acreditado que era insustentável é muito simples: é um sistema que adiciona grandes quantidades de registros a um livro em constante expansão. A capacidade de computação e memória disponíveis são quantidades finitas. A adoção das criptomoedas pelo público geral traria desafios enormes à capacidade de operação dos sistemas computacionais, algo não muito considerado quando o ridículo consumo de energia elétrica do sistema absorve toda a atenção sobre o assunto.

Ressalvo neste ponto que é preciso diferenciar as criptomoedas dos smart contracts. Eu ainda acredito muito que os contratos inteligentes têm um papel a representar na economia do futuro – se é que vamos ultrapassar este momento crítico na história. Por outro lado, mesmo minha avaliação superficial mais básica do funcionamento das criptomoedas sempre me sugeriu que a ideia é basicamente insustentável. Conheço-as desde o primeiro dia.

(*)Atenção jogadores: O Bitcoin ainda tem alguma chance maior que zero de substituir o dólar como moeda de reserva mundial. Se isso acontecer, o valor do bitcoin será todo-o-dinheiro-do-mundo / 21 milhões [o total de Bitcoin que pode existir, dos quais 90% já foram ‘extraídos’]. Uma grana maravilhosa. Portanto, façam suas apostas.