Além de super-mega-hacker e cientista da computação, eu também acumulo a função de (aclamado) cantor de churrascaria em um pedaço desse mundão Cerrado que é o interior de São Paulo.

Assim, eu não poderia deixar de trazer para meu blog de ciência e tecnologia minha revisão deste espetacular estudo, talvez o primeiro a enfocar a vida desses enigmas embrulhados em charadas que são os cantores. Trago sentimentos agridoces, contudo, por razões que exponho no Apêndice [aos Mileniais indico que o Apêndice vem no final do texto]. Vamos a ela.
Na era das redes sociais e da cultura das celebridades 24 horas por dia, 7 dias por semana, a fama é frequentemente retratada como um objetivo final; um passaporte para riqueza, influência e adulação. Mas um novo estudo publicado no Journal of Epidemiology & Community Health sugere que a fama pode ter um custo biológico oculto: um risco elevado de morte prematura para aqueles que a alcançam. Em vez de ser apenas uma observação curiosa sobre a mitologia do rock and roll, esta pesquisa fornece evidências rigorosas que conectam o status de celebridade ao risco de mortalidade, mesmo quando comparado a pessoas com carreiras semelhantes.
A grande questão: a fama aumenta o risco de morte precoce?
Pesquisas anteriores mostraram que músicos famosos geralmente morrem mais jovens do que a população em geral. No entanto, esses estudos não conseguiram determinar se a fama era a culpada ou se o estilo de vida e as pressões de ser um músico profissional eram os verdadeiros responsáveis. Este novo estudo aborda essa lacuna comparando cantores famosos com cantores menos famosos, mas, crucialmente, com grupos pareados por fatores-chave como idade, sexo, nacionalidade, etnia, gênero musical e se eram artistas solo ou membros de bandas.
Ao isolar a fama de outras variáveis profissionais e demográficas, os pesquisadores puderam explorar com mais segurança se a própria fama estava associada ao risco de mortalidade.
Desenho do estudo: uma abordagem caso-controle pareada
A base do estudo é seu desenho retrospectivo caso-controle pareado. Os pesquisadores examinaram um total de 648 cantores:
- 324 cantores famosos selecionados da lista dos 2000 Maiores Artistas de Todos os Tempos.
- 324 cantores menos famosos pareados, identificados por meio do Discogs e outros bancos de dados públicos de música.
O objetivo era garantir que ambos os grupos fossem o mais semelhantes possível, exceto por uma diferença fundamental: a conquista da fama. Ao fazer isso, o estudo minimiza variáveis de confusão que poderiam distorcer os resultados, como diferenças de gênero musical ou histórico demográfico.
O status de fama foi determinado usando dados de paradas musicais e rankings publicados, e os cantores foram incluídos apenas se estivessem em atividade entre 1950 e 1990 – um período suficientemente longo para permitir dados robustos de mortalidade até o final de 2023.
Principais descobertas: a fama está ligada a maior risco de mortalidade
O resultado mais surpreendente é que cantores famosos apresentaram um risco de morte significativamente maior em comparação com seus pares menos conhecidos.
Cantores famosos apresentaram um risco de mortalidade 33% maior em comparação com cantores menos famosos com características semelhantes.
Em média, cantores famosos viveram cerca de 4,6 anos a menos – aproximadamente 75 anos contra 79 anos para cantores menos famosos.
Estatisticamente, esses achados foram confirmados usando curvas de sobrevivência de Kaplan-Meier e análise de regressão de Cox, ferramentas típicas em epidemiologia para avaliar desfechos de tempo até um determinado evento, como a morte.
Era realmente a fama ou algo mais?
Uma preocupação fundamental em estudos como este é a causalidade reversa – a ideia de que uma morte precoce poderia, por si só, tornar alguém mais famoso (como sempre foi sugerido em relação aos membros do chamado Clube dos 27). Os pesquisadores abordaram isso incluindo uma análise com variação temporal, que essencialmente examina a mortalidade antes e depois do início da fama, em vez de tratar a fama como uma característica estática. Mesmo neste modelo, a fama permaneceu significativamente associada ao aumento do risco de mortalidade, o que implica que o risco surge depois que a fama é alcançada, e não apenas porque músicos famosos morrem jovens.
Artistas solo enfrentam riscos ainda maiores
Outra descoberta intrigante foi que artistas solo tendem a apresentar maior risco de mortalidade do que cantores que fazem parte de bandas. Os autores sugerem que isso pode refletir os benefícios do apoio emocional ou social que acompanham a participação em um grupo, algo que artistas solo, que muitas vezes são o rosto de uma marca, podem não ter.
Tudo isso está em consonância com pesquisas mais amplas que mostram que a conexão social influencia os resultados de saúde, ou seja, pessoas com redes de apoio social mais fortes tendem a viver vidas mais longas e saudáveis.
Por que a fama pode ser prejudicial?
Os pesquisadores discutem uma série de mecanismos que podem explicar por que a fama contribui para o risco de mortalidade:
- Estresse crônico devido ao escrutínio público: A atenção constante da mídia e a perda de privacidade podem alimentar a ansiedade e a depressão.
- Pressão por desempenho: A expectativa de se manter relevante, fazer turnês incessantemente e produzir sucessos pode impor uma tensão psicológica severa.
- Comportamentos prejudiciais de enfrentamento: O uso de substâncias (álcool, drogas) pode se tornar normalizado ou mais acessível em círculos de celebridades, aumentando os riscos à saúde.
- Isolamento: Paradoxalmente, a fama pode isolar os indivíduos de seus sistemas de apoio habituais, como família e amigos de longa data.
É importante ressaltar que os pesquisadores observam que, embora músicos famosos geralmente tenham um status socioeconômico mais elevado, o que é tipicamente associado a uma vida mais longa, o impacto negativo da fama parece superar essa vantagem.
Limitações a serem consideradas
Nenhum estudo é perfeito. Os pesquisadores reconhecem diversas limitações:
As descobertas não são necessariamente generalizáveis globalmente já que a amostra foca em cantores da Europa e da América do Norte; Não está claro se efeitos semelhantes seriam encontrados em outras áreas de fama, como cinema, esportes ou mídias sociais; Os dados foram baseados em registros públicos, que podem conter erros de medição no momento da morte ou na classificação.
O que este estudo significa
Esta pesquisa oferece um dos exames mais controlados até o momento sobre a fama como fator de risco para mortalidade precoce. Ela fornece evidências confiáveis de que os holofotes podem ter um custo significativo, mesmo para aqueles com riqueza e sucesso profissional.
Se isso se traduzirá em estratégias práticas de saúde pública é uma questão em aberto, mas o estudo destaca a necessidade de maior apoio à saúde mental, recursos para gerenciamento do estresse e estruturas de apoio social para pessoas que se encontram repentinamente sob os holofotes.
Enfim
A fama pode trazer adoração, riqueza e influência, mas este estudo sugere que ela também vem acompanhada de pressões profundas que podem ter um impacto mensurável na saúde e na longevidade. Para quem busca o estrelato, é um lembrete de que o bem-estar importa e que o sucesso é mais saudável quando equilibrado com apoio e autocuidado.
Artigo original
Journal of Epidemiology & Community Health
https://jech.bmj.com/content/early/2025/11/30/jech-2025-224589
Apêndice
Voltando a falar sobre mim, ser um zero total em termos de fama significa que eu alcancei a invisibilidade epidemiológica perfeita. Sem coortes. Sem taxas de risco. Sem curva de Kaplan-Meier com meu nome. Status tipo “elite dos sobreviventes”!
Não sou “menos famoso”. Eu sou pré-famoso, pós-famoso, quase-famoso ou apenas não-famoso. E para este estudo não sou sequer um ponto de dados; sou um erro de arredondamento que nunca chegou à planilha. Ufa!
O estudo não pode me atingir. A revisão por pares não tem jurisdição na churrascaria.






