Anos 70, quando os mainframes e as linguagens procedurais FORTRAN e COBOL reinavam. A complexidade nos negócios aumentava e o mundo da computação parecia estar em um beco sem saída, quando o artigo abaixo foi publicado. Era preciso um novo paradigma e os questionamentos emergiam de todos os lados. Uma nova concepção de software surgiria em 1979, com a linguagem C e o paradigma de Orientação a Objetos. Mas nunca nos libertamos da Máquina de von Neumann. Isso virá um dia com a computação quântica, que ainda dá seus primeiros passos.
Uma máquina de von Neumann, projetada pelo físico e matemático John von Neumann (1903–1957) é um projeto teórico para um computador de uso geral. Uma máquina de von Neumann consiste em um processador central (dir.) com uma unidade lógica/aritmética (ULA), uma unidade de controle e uma memória (esq.).
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A programação pode se libertar do estilo de von Neumann? Um estilo funcional e sua álgebra de programas
Resumo
As linguagens de programação convencionais estão ficando cada vez maiores, mas não mais fortes. Defeitos inerentes ao seu nível mais básico as tornam inchadas e fracas: seu estilo primitivo de programação ‘palavra-por-vez’ herdado de seu ancestral comum – o computador de von Neumann; seu acoplamento íntimo da semântica a transições de estado; sua divisão da programação em um mundo de expressões e um mundo de declarações; sua incapacidade de usar eficazmente formas combinantes poderosas para construir novos programas a partir dos existentes; e sua falta de propriedades matemáticas úteis para raciocinar sobre programas.
Um estilo funcional alternativo de programação baseia-se no uso de formas combinantes para a criação de programas. Os programas funcionais lidam com dados estruturados, são frequentemente não repetitivos e não recursivos, são construídos hierarquicamente, não nomeiam seus argumentos e não exigem que o mecanismo complexo de declarações de procedimento se torne aplicável de forma geral. Formas combinantes podem usar programas de alto nível para construir outros programas de nível ainda mais alto, em um estilo não possível em linguagens convencionais.
Uma álgebra de programas cujas variáveis abarcam todo um programa e cujas operações são formas combinantes é relacionadas ao estilo funcional de programação. Essa álgebra pode ser usada para transformar programas e resolver equações cujas “incógnitas” são também programas como as transformações de equações na álgebra do ensino médio. Essas transformações são dadas por leis algébricas e são executadas na mesma linguagem em que os programas são escritos. As formas combinantes são escolhidas não apenas por seu poder de programação, mas também pelo poder das leis algébricas associadas a elas. Teoremas gerais dessa álgebra fornecem o comportamento detalhado e as condições de término [halting conditions] para grandes classes de programas.
Uma nova classe de sistemas de computação usa o estilo de programação funcional tanto em sua linguagem de programação quanto em suas regras de transição de estado. Ao contrário das linguagens de von Neumann, esses sistemas têm semântica fracamente acoplada a estados – apenas uma transição de estado ocorre por computação principal.
Poucos meses atrás, enquanto eu desenvolvia um pequeno aplicativo desktop [um trabalho acadêmico] para Windows, Mac e Linux, em algum momento do desenvolvimento tive que testá-lo em todas as três plataformas. Para tornar o teste mais fácil, decidi instalar todos os três sistemas operacionais no mesmo computador, por meio de uma máquina virtual. As coisas corriam bem, até que cheguei ao MacOs.
De acordo com a política da Apple, você não tem permissão para instalar MacOs em um hardware que não seja da própria Apple. Então, como faço para testar meu software se não sou proprietário de um Mac?
O que eu podia fazer:
Comprar um Mac (onde o mais barato no momento custa mais de US$ 1000)
Pegar um Mac emprestado de alguém
Instalar um Hackintosh em uma máquina virtual e violar a política da Apple.
Comprar um Mac. Se você está desenvolvendo um produto que pode trazer uma receita razoável dos usuários de Mac, então a necessidade de comprar um Mac é indiscutível. Se esse não é o caso, então despejar algumas centenas de dólares no negócio só “porque sim” é algo injustificável.
Sua segunda opção é pegar emprestado o Mac de alguém que você conhece. Considerando o quão pequenos são os discos rígidos do Macbook, o proprietário não ficará feliz por você instalar um ambiente de desenvolvimento completo na máquina dele – e possivelmente deixar gigabytes de material instalado para trás. Você também teria que se adaptar à rotina de uso e tempo do proprietário, o que poderia ser bastante irritante [como assim “sua filha precisa escrever um trabalho esta noite?”].
E, por último, você pode mandar a Lei às favas e instalar um MacOs em uma máquina virtual. Uma rápida pesquisa revela centenas de tutoriais e postagens de blog sobre a instalação de MacOs. Todos instalando imagens ISO piratas tiradas do Google Drive de alguém – e agindo como se tivessem acabado de descobrir o fogo.
Obviamente escolhi a terceira opção, pois parecia a melhor de todas as escolhas ruins possíveis. Depois de passar alguns dias remexendo na ISO “ilegal” do Mac e não conseguir passar da tela de boot, era hora de refletir sobre o que estava acontecendo.
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Escrever um aplicativo desktop multiplataforma é uma tarefa muito mais difícil do que escrever um aplicativo para a web, já que o conjunto de ferramentas para esta última não é tão polido. Isso explica por que os aplicativos para web estão em todo lugar e o software para desktop está lentamente desaparecendo.
Além dos problemas gerais que o desenvolvimento de aplicativos traz, também existem inúmeras tarefas que são específicos de certas plataformas, apesar de os frameworks serem multiplataforma. É preciso por exemplo:
Criar soluções alternativas para todos os bugs da plataforma específica da interface de usuário (IU) escolhida. A estrutura pode estar funcionando bem em uma plataforma e se comportando de maneira extremamente estranha em outra.
Configurar uma máquina/ambiente de compilação para cada plataforma que você está oferecendo. A compilação cruzada de aplicativos desktop infelizmente ainda não é uma opção disponível em 2021.
Criar um instalador para cada sistema operacional e descobrir – depois – as especificações de instalação de cada um.
Descobrir que certas plataformas gritam com seus usuários quando eles tentam instalar um software que não possui um instalador assinado.
Você logo percebe que assinar um instalador em cada plataforma existente não é barato [e de fato é um aborrecimento que não leva a nada]. No Windows, você tem o prazer adicional de lidar com ‘revendedores’ duvidosos de certificados. Dê uma olhada em um dos sites deles [ou melhor não – eles são fraudes e podem roubar suas informações de cartão de crédito].
Eu me senti sujo depois de visitá-los. Você poderia, como alternativa, usar lojas online credenciadas que supostamente não têm esses problemas, mas a esta altura você realmente tem ainda vontade de fazer isso? Você dá o melhor de si para uma empresa que pode um dia simplesmente decidir que o seu aplicativo não está mais de acordo com a nova política e removê-lo de sua loja sem a menor cerimônia. Você também tem que passar pelo complicado processo de verificação de “malware” no software que você criou, o que pode, em alguns casos, levar semanas e, no fim, rejeitar seu trabalho sem nenhuma explicação. Existem dezenas de histórias de horror sobre isso na Internet. Reserve um tempo para conhecê-las antes de decidir seguir por este caminho.
Como você pode ver, desenvolver um aplicativo para desktop não envolve apenas programar a IU. O resto da subida da montanha é lidar com problemas que nem deveriam estar presentes. E se, no final, testar o software em uma determinada plataforma for muito trabalhoso, essa plataforma simplesmente não terá suporte. Este parece ser o caso recentemente, já que nem me lembro da última vez que vi um aplicativo multiplataforma. Eles são sempre vinculados a uma plataforma específica ou baseados na web.
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No final, todo mundo perde com a política do jardim murado:
Os usuários vão perder seu software favorito, que só existe em uma determinada plataforma.
Os desenvolvedores vão perder as vendas que a outra plataforma pode trazer.
As lojas online vão perder o percentual de sua receita, pois o desenvolvedor muitas vezes simplesmente não tem interesse em lidar com processos complicados. As plataformas deveriam tornar sua vida mais simples; em vez disso, apenas adicionam camadas de burocracia.
Laissez faire!
A Microsoft tem ouvido um monte de merda sobre seu último Windows 10. Ele tem seu próprio conjunto de problemas, como a telemetria intrusiva e a grande quantidade de ‘crapware’ aleatório – que ninguém pediu – instalado por padrão. Mas pelo menos a Microsoft faz alguma média com os desenvolvedores. Você pode instalar o Windows como quiser – seja no metal nú ou em uma máquina virtual [e ele ainda funciona em um computador com 10 anos de idade!].
A Apple, por outro lado, está erguendo muralhas cada vez maiores em torno de sua plataforma. Sua última manobra foi impedir os usuários de executar qualquer aplicativo que não tenha sido certificado. O que significa basicamente “se não tiver nossa benção a cada passo, você não vai poder usar sua máquina”. É como a mílícia que vai confiscar a sua casa se você não pagar a proteção.
Os usuários, que pagaram o dobro do que custaria um PC, agora também têm que lutar contra um ecossistema que absurdamente os impede de usar seu próprio computador. Quem diria que instalar um editor de texto é uma coisa tão perigosa? Isso vindo de uma empresa que afirma que o uso de seus produtos irá ajudá-lo a “liberar a criatividade” – e um monte de outras bobagens corporativas.
Então solução é a seguinte para os fãs da Apple: se quiserem ter programas em sua amada plataforma, vocês terão que torná-la amigável para os desenvolvedores.Nota: os desenvolvedores são aqueles que escrevem os aplicativos, publicando-os em suas ‘stores’. Se eles não puderem usar sua plataforma de trabalho preferida (que, surpresa-surpresa, pode não ser o Mac), isso significa que eles simplesmente não publicarão o software para sua plataforma.
Quanto à Apple, ela pode continuar com a muralha de pedra cercando o seu jardim, se assim quiser. Ela pode continuar cobrando a entrada, se há um número suficiente de pessoas dispostas a pagar. E se você gosta da Apple, seja feliz dizendo a todos como é lindo seu jardim.
Mas eu pessoalmente não gosto do jardim da Apple. Não gosto da maneira ‘Apple’ de fazer as coisas, dizendo às pessoas que elas estão usando seus produtos de maneira errada. Eu não gosto de como a Apple é arrogante e não joga com o resto do mundo. E, francamente, nunca gostei de Steve Jobs.
Existem jardins de mente mais aberta, onde você é responsável por administrar seu canto como quiser. Um jardim onde derrubar uma parede para dar mais espaço para as suas coisas é algo perfeitamente possível e não desaprovado. Enfim, que a Apple não rejeite aqueles que fazem valer a pena visitar seu jardim.
As previsões de cortes na produção global de veículos causadas pela contínua escassez de semicondutores continuam a fazer notícia. Em janeiro, analistas previram que 1,5 milhão de veículos a menos seriam produzidos como resultado da escassez; em abril, esse número subiu de forma constante para mais de 2,7 milhões de unidades e, em maio, para mais de 4,1 milhões de unidades.
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A escassez de semicondutores realçou não apenas a fragilidade da cadeia de suprimentos automotiva, mas também colocou um holofote na dependência da indústria automotiva nas dezenas de computadores embarcados – e ocultos – nos veículos hoje.
“Nenhuma outra indústria está passando por uma mudança tecnológica tão rápida quanto a indústria automotiva”, diz Zoran Filipi, presidente do Departamento de Engenharia Automotiva do Centro Internacional de Pesquisa Automotiva da Universidade Clemson.
O fenômeno é impulsionado pela necessidade de atender a regulamentos de emissões de CO2 cada vez mais rigorosos, e ao mesmo tempo manter um ritmo de progresso sem precedentes no desenvolvimento da automação e infoentretenimento, sem deixar de atender às expectativas do cliente em relação a desempenho, conforto e utilidade.
Os próximos anos vão trazer mudanças ainda maiores, à medida que mais fabricantes de automóveis se comprometem a descontinuar a produção de veículos movidos a motor de combustão interna (MCI) para atender às metas globais dos acordos de combate às mudanças climáticas, substituindo-os por veículos elétricos (EVs) que em dia serão capazes de operação autônoma .
A última década de desenvolvimento dos veículos a combustão ilustra o rápido progresso que se fez, bem como para onde estamos indo.
Queda de produção de automóveis em 2021 devido à falta de chips – Gráfico: Mark Montgomery
“Antes, o software fazia parte do carro. Agora, o software determina o valor de um carro ”, observa Manfred Broy, professor emérito de informática na Universidade Técnica de Munique e um dos maiores especialistas em software para automóveis. “O sucesso de um carro depende muito mais de seu software do que do lado mecânico.” Quase todas as inovações de veículos introduzidas pelos fabricantes de automóveis, ou fabricantes de equipamento original (FEO – do inglês OEM ‘Original Equipment Manufacturer’), como são chamados por especialistas da indústria, agora estão vinculadas ao software, diz ele.
Dez anos atrás, apenas carros premium continham 100 unidades de controle eletrônico (UCEs) baseadas em microprocessadores em rede ao longo da carroceria, executando 100 milhões de linhas de código ou mais. Hoje, carros sofisticados como o BMW série 7 com tecnologia avançada, como sistemas avançados de assistência ao motorista (SAAM), podem conter 150 UCEs ou mais, enquanto picapes como o F-150 da Ford chegam a 150 milhões de linhas de código. Mesmo veículos de baixo custo estão se aproximando rapidamente de 100 UCEs e 100 milhões de linhas de código, já que mais recursos que antes eram considerados opções de luxo [como controle de cruzeiro adaptável e frenagem automática de emergência] estão se tornando padrão.
Itens de segurança adicionais exigidos desde 2010, como controle eletrônico de estabilidade, câmeras de ré e chamadas de emergência automáticas (eCall, na União Européia), bem como padrões de emissão mais rigorosos [que os veículos a combustão só podem atender usando componentes eletrônicos e aplicativos ainda mais inovadores], impulsionaram ainda mais a proliferação de software.
A consultoria Deloitte Touche Tohmatsu Limited estima que, a partir de 2017, cerca de 40% do custo de um carro novo pode ser atribuído a sistemas eletrônicos baseados em semicondutores, custo esse que dobrou desde 2007. Eles estimam que esse total se aproximará de 50% até 2030. A empresa estima ainda que cada carro novo hoje tem cerca de US$ 600 em semicondutores embarcados, totalizando cerca de 3.000 chips de todos os tipos.
Contabilizar o número de UCEs e linhas de código dá apenas uma ideia da intrincada orquestração de software encontrada nos veículos hoje. Ao observar como esses sistemas atuam juntos, uma complexidade extraordinária começa a emergir:
Novos recursos de segurança, conforto, desempenho e entretenimento,
O imperativo comercial de oferecer dezenas de opções aos compradores, resultando em uma multiplicidade de variantes para cada marca e modelo,
A mudança de carros a gasolina e motoristas humanos para carros elétricos e motoristas artificialmente inteligentes
As centenas de milhões de linhas de códigos que precisarão ser escritas, verificadas, depuradas e protegidas contra hackers
Tudo isso está transformando carros em supercomputadores sobre rodas e forçando a indústria automobilística a se adaptar. Mas conseguirá ela se adaptar?
A Unidade de Controle Eletrônico
A unidade de controle eletrônico está no centro de todas as inovações automotivas. Saiba como a história se desdobrou.
A era da eletrônica embarcada começou com a invenção dos dispositivos semicondutores, MOSFETs e evoluiu para sistemas mais complexos, como a UCE. Em 1978 a General Motors introduziu o primeiro sistema eletrônico em um automóvel. O resto, como dizem, é história.
Desde o seu início até a sua forma atual, a UCE moldou a evolução dos automóveis em todos os aspectos. Dos componentes mais simples, como a tampa da gasolina, aos mais complexos como o trem de força, a unidade de controle eletrônico tem capacidade de gerenciar os vários sensores com uma eficiência que um sistema mecânico jamais conseguiria.
Uma UCE é essencialmente um sistema embarcado construído sobre um microcontrolador automotivo. Junto com o software automotivo e os protocolos de comunicação, uma UCE é capaz de controlar todos os sistemas e subsistemas elétricos de um veículo. UCEs mais avançadas também se comunicam com a nuvem e até mesmo com outros veículos e infraestruturas usando tecnologias V2V e V2X.
Quando as unidades de controle foram introduzidas, elas eram responsáveis por controlar diferentes atuadores em um motor de combustão interna. Por essa razão, foi chamada de Unidade de Controle do Motor. Com o tempo, o termo UCE passou a prevalecer à medida que evoluía para um sistema capaz de controlar o trem de força, a transmissão, os freios, os assentos e tudo o mais.
Eletrônica automotiva: Cadillac a Tesla
Os números falam mais alto que as palavras. E este gráfico faz toda a justiça à influência da eletrônica no setor automotivo. Ele também oferece insights sobre a jornada da eletrônica automotiva. O que vemos aqui é um gráfico da contribuição do custo do UCE automotivo ao custo total do carro, entre 1950 e 2030. Pelo gráfico, é claro e evidente que a presença de dispositivos eletrônicos nos carros não cresceu da noite para o dia.
Foi necessário três décadas de inovações tecnológicas, pesquisa e desenvolvimento persistente de produtos automotivos, juntamente com outros fatores importantes, para que finalmente a eletrônica chegasse a 10% do custo total na década de 1980.
Para ser mais específico, a introdução da Unidade de Controle de Airbags e a demanda por carros com baixo consumo de combustível também contribuíram para o rápido crescimento da eletrônica durante 1970-1980.
1990-2010 pode ser considerado como o melhor período de crescimento para a eletrônica automotiva. Fabricantes como Toyota, Ford e Honda introduziram nesse período automóveis com GPS, multimídia, sistemas de diagnóstico avançado, sensor de ré e câmeras e sistemas de assistência ao motorista.
Com tecnologias avançadas, como os carros autônomos baseados em sensores LiDAR, o carro invisível da Land Rover e o carro flutuante da Toyota, prevê-se que, em 2030, a eletrônica automotiva contribuirá com 50% do custo total do carro. É fazer deduzir que a eletrônica automotiva está levando uma vida de sonhos nos últimos anos. E do jeito que essa história se desenrola, tudo parece na iminência de acontecer não só para trazer uma melhor experiência de direção, mas também para que as estradas do mundo possam ser mais seguras.
Dezenas de posts e artigos parecidos com este abundam na Internet brasileira. Mas a qualidade é, em geral, duvidosa para dizer o mínimo. Muito do material disponível é entremeado de pseudo-ciência e verborragia da Nova Era. Meu blog nasceu para ajudar no combate à superstição e ao pensamento mágico. Ele não estaria completo sem uma versão caseira dessa discussão, feita à minha maneira. De qualquer forma, o debate sobre esse tópico não avançou muito desde 2003, e todos, no fim, ainda falam praticamente a mesma coisa. Fica como meu registro particular.
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Estamos vivendo em uma simulação? Embora tenha havido uma boa quantidade de reflexões secundárias e propostas mal elaboradas em torno da hipótese, há na verdade um grupo significativo de respeitáveis filósofos e físicos contemporâneos que estão considerando seriamente a ideia e suas implicações.
O argumento como o conhecemos hoje apareceu pela primeira vez em um artigo do filósofo sueco Nick Bostrom, em 2003, que se posicionou tanto a favor quanto contra a proposição de um universo simulado e então explorou uma série de consequências que resultam da proposição. Os pontos principais aparecem no início do argumento, no qual Bostrom afirma que pelo menos uma das seguintes premissas é verdadeira:
É muito provável que a espécie humana extinga-se antes de atingir um estágio “pós-humano”.
É extremamente improvável que qualquer civilização pós-humana execute um número significativo de simulações de sua história evolutiva (ou variações dela).
Quase certamente estamos vivendo em uma simulação de computador.
Bostrom chama isso de trilema. Estaremos revisitando esses pontos à medida que exploramos os argumentos.
O Trilema de Bostrom
Bostrom é indeciso sobre a validade da hipótese da simulação, embora seja o propositor original e um dos seus principais defensores. Ele acredita que há uma chance significativa de que um dia haja entidades pós-humanas, talvez nossos descendentes, capazes de criar uma simulação de seus ancestrais – implicando que isso já pode ter acontecido e somos nós a simulação.
Bostrom aceita o argumento, mas rejeita a hipótese da simulação. Ele afirma:
“Pessoalmente, atribuo menos de 50 por cento de probabilidade à hipótese de simulação – algo em torno de 20 por cento, talvez. No entanto, esta estimativa é uma opinião pessoal subjetiva e não faz parte do argumento da simulação. Meu raciocínio é que não temos evidências fortes a favor ou contra qualquer um dos três disjuntos (1) a (3). Portanto faz sentido atribuir a cada um deles uma probabilidade significativa. “
Ele prossegue dizendo que embora alguns filósofos aceitem o argumento da simulação, as razões deles para isso diferem de várias maneiras. Bostrom é rápido em apontar que esta não é uma variante do famoso experimento mental do cérebro-em-uma-cuba de Descartes.
… o argumento da simulação é fundamentalmente diferente desses argumentos filosóficos tradicionais … O propósito do argumento da simulação é diferente: não é estabelecer um problema cético como um desafio às teorias epistemológicas e ao senso comum [como fez Descartes], mas sim argumentar que temos razões empíricas para acreditar que uma certa afirmação disjuntiva sobre o mundo é verdadeira.
Seu argumento da simulação depende de capacidades tecnológicas hipotéticas e de seu emprego na criação de um universo – e um mundo – perfeitamente simulado, que incluiria nossas mentes e as experiências do que consideramos “realidade”.
Descobrimos as Leis da Simulação?
Em uma discussão abrangente e elucidativa, alguns anos atrás, Max Tegmark, cosmologista do MIT, apresentou alguns argumentos sobre a natureza da simulação, comparando-a a um videogame.
Se eu fosse um personagem de um jogo de computador, eu também acabaria descobrindo em algum momento que as regras a que eu estivesse submetido pareceriam completamente rígidas e matemáticas. Isso refletiria o código de computador em que o jogo foi escrito.
O seu ponto é que as leis fundamentais da física acabarão nos concedendo a capacidade de criar computadores cada vez mais poderosos, muito além de nossa capacidade atual. Essas estruturas poderão ser do tamanho de sistemas solares, talvez até de galáxias. Com tanto poder de computação, poderíamos facilmente simular mentes – se de fato isso já não acontece.
Sob a suposição de que estamos em um sistema supercomplexo que roda em computadores do tamanho de uma galáxia, alguns detratores da hipótese argumentam que deveríamos, então, ser capazes de detectar algumas “falhas na Matriz”, como os riscos e manchas que vemos em um filme.
Bostrom é rápido em apontar que qualquer falha que viéssemos a encontrar poderia ser atribuída a perturbações de nossa mente. Isso inclui alucinações, ilusões e outros tipos de eventos psiquiátricos. Se qualquer tipo de falha ocorresse, o que é esperado em um sistema de computação, Bostrom acredita que os simuladores – vastamente inteligentes – seriam capazes de contornar o problema:
… ter a capacidade de impedir que as criaturas simuladas percebam anomalias na simulação. Isso poderia ser feito evitando por completo a ocorrência de anomalias, ou impedindo que as anomalias tivessem ramificações macroscópicas perceptíveis, ou ainda editando retrospectivamente os estados cerebrais dos observadores que testemunhassem algo suspeito. Se os simuladores não quiserem que saibamos que estamos sendo simulados, eles poderão facilmente nos impedir de descobrir.
Bostrom passa a considerar que ter essa capacidade de editar a realidade percebida não é uma coisa tão absurda, visto que nossos cérebros orgânicos já fazem isso: quando estamos no meio de um sonho fantástico, geralmente não percebemos que estamos sonhando e esse truque simples é realizado por nosso cérebro sem nenhuma ajuda tecnológica.
Testando Experimentalmente a Hipótese da Simulação
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Zohreh Davoudi, física da Universidade de Maryland, acredita que podemos testar empiricamente se estamos ou não em uma simulação.
“Se considerarmos que uma simulação subjacente do universo tem o mesmo problema de recursos computacionais finitos que nós temos, então as leis da física desse universo devem ser comprimidas em um conjunto finito de pontos dentro de um volume também finito. Daí então, fazemos experimentos e tentamos verificar se as assinaturas que detectamos nos revelam se estamos ou não inseridos em um espaço-tempo não contínuo.”
A evidência que provaria que estamos vivendo em uma simulação poderia vir de uma distribuição incomum de raios cósmicos atingindo a Terra, sugerindo que o espaço-tempo não é contínuo, mas sim feito de pontos discretos – embora o problema de provar que você está em simulação implique que qualquer evidência encontrada também pode ser simulada.
Davoudi traz à tona um antigo ponto teológico com uma premissa atualizada e moderna.
… O que é chamado de simulação são apenas parâmetros iniciais que você insere em um modelo e o universo, a natureza e as leis da física emergem naturalmente, como resultado. Você não tenta fazer parecer que algo está acontecendo. Você não interfere com o que você criou. Você apenas insere algo bem fundamental e deixa a coisa evoluir – exatamente como nosso universo.
Outros comentaristas observaram que essa conceitualização é semelhante ao teísmo, a ideia de que “deus” foi a causa primeira que colocou o universo em movimento, mas não interferiu nele depois. Da simplicidade dessas leis da física emergem processos complexos que parecem ter continuado a crescer e evoluir à medida que o universo envelhece.
Argumentos Contra a Hipótese da Simulação
A física teórica Sabine Hossenfelder, da Goethe University Frankfurt, está no grupo que acredita que a hipótese da simulação é simplesmente uma bobagem. Hossenfelder também tem problemas com a natureza do argumento e a maneira como a teoria é apresentada. Ela diz:
Proclamar que ‘o supremo programador fez’ não apenas não explica nada; isso nos remete de volta à era da mitologia. A hipótese da simulação me incomoda porque se intromete no terreno dos físicos. É uma afirmação ousada sobre as leis da natureza que, no entanto, não se submete ao que sabemos sobre as leis da natureza.
Hossenfelder acredita que há uma maneira trivial de dizer que o argumento da simulação está, sim, correto:
“Você poderia simplesmente interpretar as teorias atualmente aceitas como significando que nosso universo ‘calcula’ as leis da natureza. Logo, é tautologicamente verdade que vivemos em uma simulação de computador. É também uma afirmação totalmente sem consequência.”
Saindo do reino da lógica linguística e entrando na matemática e nos fundamentos da física, Hossenfelder continua a explicar que um universo quântico como o nosso não pode ser construído com bits clássicos. É também preciso levar em consideração a relatividade especial, que ninguém que tenha testado qualquer tipo de hipótese experimental foi capaz de contornar.
Impossível Distinguir um Universo Simulado
Lisa Randall, uma física teórica da Universidade de Harvard, se diz perplexa em saber o quanto este tópico é levado a sério. Sua lógica opera sob a premissa de que essa ideia nunca poderá ser testada cientificamente e é apenas uma mera armadilha linguística para os cientistas.
“Na verdade, estou muito interessada em saber por que tantas pessoas acham que essa é uma questão interessante”, diz ela sobre o assunto.
Sua previsão é que as chances de que o argumento esteja correto são efetivamente zero. Não há nenhuma evidência concebível de que estamos vivendo em uma simulação. Isso funciona em paralelo com o conceito ancestral de um deus criador. A única diferença é que, na simulação, um sistema computacional assume o lugar do antigo arquiteto, Jeová.
Para realmente distinguir uma simulação, é preciso detectar claramente uma quebra na nossa noção das leis da física ou em algumas das propriedades fundamentais subjacentes. Para simular o universo, você precisa do poder computacional do universo inteiro.
Hoje falo sobre uma ideia para uma classe de dispositivos que pretende evitar a contaminação da face [e daí mucosas] pelas mãos. Tendo em vista o processo kafkiano-bizantino ao qual um pedido de patente industrial é submetido nestes trópicos esquecidos por Deus (além dos recursos envolvidos), optei por usar este blog para transformar a ideia em “prior art”, de forma que ela, sendo pública, não possa mais ser patenteada por ninguém. Ela agora é open-source e pode ser implementada por quem assim desejar.
E se a bijuteria de uso diário pudesse ajudar na prevenção à contaminação da face pelas mãos? – Imagem`iStock
No início da pandemia de Covid houve uma grande corrida em busca de todos os métodos de prevenção imagináveis. Muitos achavam que a tecnologia digital viesse rapidamente ao socorro com suas maravilhas. Falou-se muito em variados tipos de sensores e atuadores que pudessem ajudar com o problema da exposição e contaminação, e algumas idéias chegaram a flutuar no espaço cognitivo global. A explosão da pandemia e a necessidade de tratar de temas mais prementes tiraram o foco da busca por soluções tecnológicas “duras” para concentrar os esforços nas vacinas.
Quanto à contaminação por Covid (assim como de outras doenças, como a gripe), os especialistas constantemente ressaltam que – para além da transmissão aérea – o grande ponto vulnerável no que se refere à fisicalidade da transmissão/contato é o ‘sistema’ face-mão. Levamos as mãos à face inúmeras vezes durante o dia. Levamos as mãos aos olhos, nariz e boca. Ao ouvido e ao topo da cabeça. Quase nunca percebemos. É um ato de segunda natureza, que executamos através do sistema límbico, não envolvendo a consciência no processo.
Seria então interessante se pudéssemos, diante de uma ameaça tão conspícua, imprevisível e traiçoeira como a Covid, nos abster de muita atividade descontrolada entre a face e a mão. Poderíamos usar a tecnologia para ajudar nessa tarefa, uma vez que nosso equipamento inato de controle mental e atenção é tão sujeito a falhas?
Entra minha ideia
Após considerar a questão por um tempo, percebi que a solução poderia ser implementada com o uso da lei de Lorentz, que descreve a interação entre campos magnéticos. Portanto, esse problema particular tem uma solução, e uma solução relativamente barata: um detector de metais que vamos elevar à glória, tornando-o um item de moda.
Um anel feito de um material ferroso pode ser magnético ou magnetizado – Imagem: iStock
Chips-sensores magnèticos – Imagem: iStock
Colar com pingente escondendo os ítens ativos do sitema (sensor, bateria, etc) – Imagem: iStock
A partir da esquerda, o conjunto básico do sistema: o anel de material ferroso (elemento passivo); sensores de campo magnético embutidos no pingente do colar
Caso de uso: alertar o indivíduo quando sua mão começa a se movimentar em direção ao rosto.
Ação pretendida: emitir um sinal – tátil ou sonoro – que possa fazer o usuário interromper o gesto e focar sua atenção nas ações corporais sendo executadas.
É facil perceber que a mão precisa atravessar o nível da base do pescoço para tocar a face. Portanto, se pudermos detectar a mão cruzando a linha da base do pescoço – ou, melhor ainda, detectar o início do movimento ascendente em direção à face, podemos emitir um discreto alerta – tátil ou sonoro – com antecedência de vários décimos de segundo, para quebrar a ação inconsciente do usuário.
Implementação
Um colar ou gargantilha, contendo a unidade de carga útil (chip sensor de campos magnéticos, bateria, processador, transmissor) atuando em conjunto com anéis ornamentais de compostos ferromagnéticos [talvez hematita ferrosa? magnetita? Deixo aos engenheiros de materiais decidir], que funcionarão passivamente nas mãos do usuário.
Funcionamento
Porque usar análogo à hematita: um anel de hematita ferrosa, por exemplo, tem duas vantagens:
Os vetores correspondentes à densidade de força magnética que o chip-sensor (em laranja, acondicionado dentro do pingente do colar) mede enquanto o campo magnético do anel se move relativamente a ele. Essa correlação de forças pode ser usada por um processador como limiar para ativação de disparo de um alerta.- Imagem por Maschen – Own work, CC0
1. É um adorno esteticamente agradável, conhecido e usado pelas diversas culturas humanas por séculos. O conjunto colar-anel pode ser integrado de várias maneiras, deixando amplo espaço de criação para designers.
2. A vantagem principal que determina a escolha do material: Os anéis de hematita [ou análogo] enriquecida, por possuirem propriedades ferromagnéticas, podem ter seu movimento [i.e., o deslocamento de seu campo magnético] detectado pelo chip-sensor embutido no pingente do colar ou gargantilha. A mudança nos parâmetros do campo magnético (Lei de Lorentz), provocada pelo deslocamento do anel – medida rápida e precisamente pelo chip-sensor – causará o disparo de um alerta sonoro ou tátil. O alerta pretende quebrar o automatismo do movimento do usuário, tornando consciente o gesto físico, idealmente fazendo com que o usuário interrompa, cancele o movimento, ou pense conscientemente sobre o estado das mãos, antes de prosseguir com o toque da face.
Para Concluir
Claro que esse é um esboço muito cru do conceito. Muitos parâmetros não são considerados e terão que ser descobertos em campo. Suspeito que talvez não se aplique universalmente, por ser uma peça ornamental, ou por outras questões whatever. Contudo ele descreve todos os elementos essenciais necessários. Cabe aos designers e aos profissionais de marketing fazer acontecer.
Essa é a típica atividade ‘hacker’. O termo – barbaramente incompreendido em várias línguas – se refere às pessoas que gostavam de desmontar (e depois montar) rádios, relógios, motores (e criar geringonças) na adolescência. Será que as pessoas ainda gostam? Este é um blog para pessoas com recursos intelectuais e hackers autênticos. Deixo então os detalhes da implementação para esses leitores imaginarem. Se alguém construir um, por favor mostre pra gente. Se alguém detectou alguma impropriedade na ideia, peço que nos oriente nos comentários.