Impressão 3D: Um Hotend para 500 graus

Como pretendo roubar o Fogo dos Deuses para dar aos geeks.

Hotend TF-01 Linear comparado ao hotend standard Sethi 3D.
O protótipo não usinado do primeiro modelo que começa a ser testado, o futuro TF-01 Linear (a peça branca), visto aqui ao lado do hotend metálico standard da Sethi 3D, para comparação das dimensões – Imagem: Triforma – CC-BY-SA-NC

Não falo muito sobre isso, mas eu trabalho também com impressão 3D. Em algum momento do ano passado eu decidi dedicar uma fatia maior do meu tempo a essa tecnologia cujos melhores dias eu acredito ainda estarem à frente. Eu quero poder imprimir materiais estruturais para oferecer, ao invés de protótipos, produtos finais – como peças e componentes – para indústria e consumo.

Eu quero poder trabalhar com manufatura aditiva de nylon, fibra de carbono, cerâmica e outros materiais avançados. Para isso eu preciso de altas temperaturas — acima de 300°C. Faz sentido querer tanto? Bem, novos materiais de nível industrial conhecidos como “superplásticos de engenharia”, como PC, TPI e PEEK, estão se tornando mais populares e acessíveis, e a capacidade de trabalhar com altas temperaturas será uma exigência crescente.

Contudo, apesar da variedade de marcas e formatos, o ítem crucial para a impressão 3D FDM [Deposição de Filamento], o chamado hotend, ou ‘ponta quente’ em português, continua, apesar dos avanços, bastante limitado em sua apresentação e capacidades. A peça consiste em uma câmara que é aquecida por um elemento de aquecimento, o bloco, que é controlado em circuito fechado usando um termistor para feedback de temperatura. A parte inferior do conjunto possui um bico removível que deposita o material na placa de impressão da impressora 3D.

Invariavelmente ele é feito de aço, e o controle — passivo — de calor, algo importantíssimo, é feito por peças de teflon, ou titânio+cobre, na maioria dos casos. É crucial que o filamento se mantenha relativamente frio até a entrada no bloco de aquecimento. O calor do bloco não pode subir pelo corpo do hotend e amolecer demasiadamente o filamento. Isso é chamado de heat creep [se eu fosse traduzir eu diria “insinuação do calor”], e é evitado com barreiras de calor.

Pontas quentes

O hotend padrão da Sethi 3D, de Campinas, fabricante brasileira de impressoras3D, que equipa minha impressora de filamento, é um grande produto. É um hotend que habita a região mais baixa da curva de performance, feito de aço e revestido com teflon. É um produto honesto e muito bem construído, completemente satisfatório para os casos de uso que ele atende, notadamente a impressão usando filamentos PLA e ABS. Mas esse hotend standard [e todos os outros de sua classe] tem como ítem fundamental um revestimento interno de teflon por onde passa o filamento. Esse core de teflon começa a perder sua integridade acima dos 240°.

Impressora Sethi 3D.
A Sethi S3 ‘bonitificada’ em que desenvolvemos o projeto. Originalmente ela é um equipamento mais sóbrio, fechada. Um painel transparente aumenta o controle da impressão e possibilita mais liberdade na produção de mídia. – Imagem: Triforma – CC-BY-SA-NC

Restam como opção os hotends feitos inteiramente de metal [all-metal, no jargão em inglês]. Esses hotends usam um núcleo bi-metálico, normalmente titânio e cobre, como barreira de calor entre o bloco de aquecimento e o dissipador de calor [heat sink]. Permitem então temperaturas mais altas e são capazes de imprimir filamentos destinados a usos mais sofisticados. Mesmo assim as temperaturas alcançadas são ainda da mesma ordem dos hotends standards como o da Sethi, e seu desempenho visa apenas evitar a fusão precoce do filamento [heat creep].

Abro aqui um parêntese para dizer que, de alguma forma, é um tanto decepcionante para mim ver que o melhor que a indústria mundial pode fazer em 2024 é empregar titânio, um metal com índice de condutividade térmica de 25 W/mK, como barreira térmica. Tem que haver coisa melhor.

Em suma, na prática, o maker e o ocasional geek encontram seu limite por volta dos 350°. Acima disso talvez seja preciso mudar o status para CNPJ. Mas, e se fosse possível trazer ao alcance dos mortais as temperaturas olímpicas além dos 500 graus, disponíveis aos deuses do capital?

Terra por toda parte

No último ano eu li muito sobre cerâmica e me deleitei com a visão dos belos objetos e peças que hoje são fabricadas com os diversos metais de transição e óxidos de terras raras. Ao considerar as estreitas opções de hotends metálicos disponíveis comecei a perceber que poderia haver aí uma oportunidade a explorar.

Um hotend é apenas um tubo glorificado, certo? Se o pessoal da Sethi fabricou um usando os seus conhecimentos de metais(*), um fuçador como eu poderia construir um usando seus – recém adquiridos – conhecimentos de cerâmica avançada, certo? Por que não usar essas terras maravilhosas para um fim ao qual elas são unicamente vocacionadas, como o controle térmico da ponta quente de um extrusor? Como isso foi ignorado pela indústria?

Ideias começaram a jorrar de algum canto da minha mente. Tomado por um furor criativo, comecei a ter flashes de um objeto branco-zirconia girando no ar, ganhando forma. Em um transe conjurei os meus conhecimentos de CAD [OpenSCAD, na verdade], e me acomodei diante da estação de trabalho, tendo à côté um monitor com a Tabela Periódica, para desenhar a minha visão do que seria um hotend de cerâmica, compatível com uma impressora Sethi – a minha.

Muitas horas insones depois eu tinha o esboço de meu pequeno mas intrépido objeto, de formas inusuais para um hotend, bastante apartado da aparência do heatsink convencional com seus discos metálicos empilhados. A condução do calor é muito menor na cerâmica, tornando dispensável uma grande área de dissipação de calor, o que permite alguma liberdade no desenho. As opções de textura e cor do material [que tal um cor-de-rosa para março?] adicionam ainda outra dimensão estética. O hotend pode ser uma peça bonita, afinal.

Não demorou muito – apenas alguns dias – para eu perceber a razão de não haver objetos de cerâmica amplamente disponíveis no mercado, além de peças de toillete. Provavelmente também explica o – interessante e bem a propósito deste post – formato do hotend primevo pensado pela Sethi em 2013 . Os métodos conformação cerâmica tradicionais não permitem grandes devaneios estilísticos e/ou intrincados detalhes anatômicos.

Sem meios tecnológicos para se desvencilhar totalmente da tradição, até bem pouco tempo atrás os ceramistas, mesmo os avançados, se restringiam a objetos simples como anéis e tubos, fabricados por metodos como slip cast, injeção pressurizada, moldagem a seco sob pressão e outros métodos industriais de escala. Para construir uma pequena peça para um instrumento de precisão como uma impressora 3D, cerâmica não parece mesmo ser uma escolha razoável.

Geleia de cerâmica

Entra o sol-gel, um processo que eu havia estudado bastante nos meses anteriores ao meu insight e que eu sabia ser uma possível resposta ao problema de se fazer mecânica fina com cerâmica; de criar objetos cerâmicos com grande complexidade estrutural.

A química sol-gel é a preparação de polímeros inorgânicos ou cerâmicas a partir de uma solução, através da transformação de precursores líquidos, primeiro em um ‘sol’ [de SOLução] e, finalmente, em uma estrutura de rede chamada ‘gel’.

A formação de um sol ocorre através de hidrólise/condensação das partículas, mas um sol pode ser definido mais geralmente como uma suspensão coloidal, o que abrange uma ampla gama de sistemas. A União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) define um sistema coloidal como uma dispersão de uma fase em outra onde, “as moléculas ou partículas polimoleculares dispersas em um meio têm, pelo menos em uma direção, uma dimensão entre 1 nm e 1 μm”. O leite e a maionese são exemplos de colóides.

Inúmeros trabalhos científicos têm sido escritos sobre o processo sol-gel em geral e a sua aplicação no campo das cerâmicas avançadas – ver bibliografia recomendada. Se você se lembra dos tijolos de revestimento do ônibus espacial, eles são fabricados por processos análogos a este.

Moldagem de Gel – gel casting

Os métodos de conformação cerâmica são classificados em processos de conformação a seco ou úmidos. A moldagem em gel que usamos é uma tecnologia de conformação úmida desenvolvida pelo Oak Ridge National Laboratory (ORNL), um método capaz de produzir cerâmicas de alta densidade com formas complexas, near net shape [fundição próxima da forma final]. Tem as vantagens de ter um tempo de moldagem curto, sem restrições quanto ao material de molde, uma alta resistência enquanto não sinterizado [“em verde”] e a capacidade de se aplicar seções de espessura variada.

Moldes unitários de plástico
Moldes unitários em que os protótipos foram desenvolvidos – Imagem: Triforma – CC-BY-SA-NC

Note que o método de moldagem de gel permite o uso de praticamente qualquer material para a conformação das massas cerâmicas. Isso abre uma nova e ampla avenida para a utilização de impressoras 3D não mais apenas como prototipadoras, mas como insumos ativos e muito produtivos para a manufatura de cerâmica avançada, por sua capacidade de produzir diretamente, in situ, moldes complexos de forma barata.

Isso inclui totalmente as impressoras FDM. No gelcasting, as características marcas estratificadas da impressão do molde são transferidas fielmente para as peças moldadas. Eu pretendo incorporar isso como identidade visual das peças, revelando sua origem. Outros preferirão, compreensivelmente, moldes absolutamente perfeitos e regulares impressos em SLA ou ainda usinados em aço inox.

De qualquer forma, há um enorme salto de produtividade/lucratividade para qualquer impressora FDM quando um molde de ABS que ela leva 2 horas para depositar passa a servir para replicar milhares de peças cerâmicas de alta performance em curto tempo.

Este projeto

No processo que estamos implementando, preparamos géis de base aquosa, em que o pó cerâmico [zirconia + ítrio, entre outros] é primeiro disperso em água. Em seguida, agentes gelificantes – monômero(s) e iniciador(es) – são adicionados e misturados para formar uma suspensão coloidal, como descrito anteriormente, que é depois despejada no molde de plástico ABS – impresso em 3D – e deixada para secar e formar um corpo verde. Após essa etapa, o corpo verde é desmoldado, submetido a uma secagem adicional e à sinterização a alta temperatura. Depois de sinterizado, o material passa pelo tratamento final em que é usinado e esmaltado.

Gelcasting propriamente dito.
Conformação da solução nos moldes plásticos. O molde em segundo plano já está fechado em processo de cura do gel/secagem – Imagem: Triforma – CC-BY-SA-NC

Até pouco tempo atrás a acrilamida (AM) era comumente usada como agente gelificante. No entanto, devido à neurotoxicidade da AM a moldagem em gel não teve como ser aproveitada em larga escala na indústria. Isso prejudicou o desenvolvimento dessa técnica e é também, em parte, responsável pela relativa escassez de objetos complexos feitos em cerâmica no mercado. O processo de modagem de gel que utilizamos neste projeto é baseado em polímeros naturais, como a agarose, o que remove os impedimentos para o aproveitamento da tecnologia.

Chega a ser poético que uma tecnologia tão antiga como a cerâmica possa ainda ser o que há de mais avançado que existe em termos de materiais. Faço parecer fácil, mas o esforço demandou meses de aprendizado teórico e prático.

No final, tenho um produto que penso ser inovador, um pequeno elemento térmico com apenas 10 g, cuja aparentemente frágil estrutura é capaz de suportar temperaturas acima de 2300° e transmitir apenas 1,7 W/mK do calor gerado. Para comparação, o titânio suporta temperaturas dessa ordem, mas tem uma condutividade térmica bem mais alta de 25 W/mK; já o teflon é um ótimo isolante, transmitindo apenas 0,2 W/mK do calor, mas não suporta temperaturas acima de meros 240°. Portanto, a baixa condutividade térmica do sistema zirconia-itrio em tese é capaz de mitigar o heat creep, e deve tornar o hotend capaz de imprimir qualquer tipo de filamento.

Como vantagens adicionais, o processo usa menos energia, não gera ruído em nenhuma fase da produção e não deixa efluentes significativos. E eu já disse que a unidade pesa apenas 10 gramas?

Para a segunda fase do projeto vale a pena incorporar um heatbreak de zirconia-magnésia à estrutura de cerâmica para reforçar ainda mais o conjunto. Poderemos chegar até onde o bloco quente aguentar. Li sobre um grupo japonês que trabalha um hotend para 850 graus. Extrusar um fio de cobre em minha impressora Sethi desktop parece um objetivo plenamente factível.

Um heatbreak cerâmico junto ao seu molde.
Um heatbreak cerâmico — e seu pequeno molde — para alcançar os 850°. Imagem: Triforma – CC-BY-SA-NC

Mas é agora que os problemas começam.

Testes

No momento em que escrevo estou rodeado de material de laboratório recém adquirido [beakers, erlenmeyers, provetas, balança, agitador magnético, substâncias diversas…]. O que é para ser o germe de uma empreitada industrial está a parecer, dependendo do espectador, uma sala de alguma pharma, ou um laboratório de análises rápidas da Aduana. Estou prestes a começar este experimento divisor de águas: fazer o processo descrito acima funcionar de forma consistente para a produção em série.

Preciso agora ir além do processo formal descrito e dos poucos protótipos obtidos com moldes unitários. É necessaŕio fazer também um grande número de testes de composição química, formulação, além de testes mecânicos destrutivos e de performance.

Se eu for bem sucedido e conseguir produzir em quantidade razoável a custo razoavelmente baixo, o que acredito ser totalmente possível, vou disponibilizar o produto sob venda direta no site de minha nova iniciativa empreendedora, a Triforma – em breve no ar. Penso reproduzir o modelo de negócio da Slice Engineering, licenciando OpenSource. Quero muito de ter um produto minimamente viável em meados de abril. Vou trabalhar para isso.

Divulgarei por aqui os resultados deste projeto. Mantenha contato visual.

(*) Citei a Sethi 3D um par de vezes neste texto. Declaro não ter nenhum vínculo com essa ilustre empresa campineira além do de cliente [satisfeito]. Mas claro que eu gostaria de ter. Respeito toda iniciativa industrial, principalmente se a) ligada à alta tecnologia; b) localizada no Brasil, caso em que o respeito se transforma em descombobulada admiração. :)

Leituras recomendadas:

Sol-gel

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sol-gel

Formulação de Materiais Cerâmicos

Link para o PDF

Sol-Gel Chemistry and Methods

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Gel Casting of Ceramic Bodies

https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/9781118176665.ch6

The evolution of ‘sol–gel’ chemistry as a technique for materials synthesis

https://pubs.rsc.org/en/content/articlehtml/2016/mh/c5mh00260e

Thermal Properties of Ceramics

Link para o PDF

A review on aqueous gelcasting: A versatile and low-toxic technique to shape ceramics

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0272884218334606

O Fim do Uber Barato

O dinheiro está ficando caro no mundo todo à medida que as taxas de juros aumentam, colocando fim a uma década de emergência de tecnologias “disruptivas”. O Uber talvez seja a mais notável entre elas.

Fim do Uber barato
Imagem: Pexels

A suposição geral sempre foi de que o Uber estava a queimar todo o dinheiro dos investidores com o objetivo de dominar o mercado. Uma vez que eliminasse o serviço de carros, os cartéis de táxi e, finalmente, seus rivais da carona, a empresa pararia de cobrar dos passageiros menos do que estava pagando aos motoristas [uma forma de subsídio] e os preços teriam que subir.

Pois a revista Slate reporta que na manhã de segunda-feira (23/05), um Uber de Manhattan para o aeroporto JFK custava US$ 100 – quase o dobro da tarifa fixa do táxi amarelo! Prossegue a Slate:

O confronto Uber-vs-táxi é a forma como a maioria das pessoas concebe o impacto do Uber no mercado, mas a Década das Viagens Baratas teve efeitos bem mais profundos em como vivemos e nos locomovemos. O fracasso de empresas de compartilhamento de carros como Maven e car2go é um exemplo de como todo esse subsídio do Uber distorceu o mercado, anulou modelos de negócios que de outra forma poderiam ter prosperado e mudou hábitos que poderiam ter perdurado. A empresa fez isso tanto para o bem – levando à redução do tamanho dos estacionamentos, suprimindo a direção embriagada – como para o mal – aumentando a propriedade de carros e o congestionamento do tráfego.

Uma consequência bem conhecida do subsídio ao passageiro é o declínio no transporte público. Um estudo estima que a chegada de Uber e Lyft em uma cidade diminui o número de passageiros de trem em 1,29% e o de ônibus em 1,7% a cada ano. Em São Francisco, onde o Uber foi fundado, os autores estimam que o Uber diminuiu o número de passageiros de ônibus em 12,7%. Um segundo estudo concluiu um declínio de 5,4% no número de passageiros de ônibus em cidades de médio porte. Um terceiro estudo registrou o declínio em 8,9%. Um fenômeno relacionado ao Uber foi um aumento considerável no congestionamento do tráfego no centro da cidade.

De volta a mim

Uber e Lyft fazem sucesso há uma década porque o monopólio desfrutado pelas empresas de táxi não dava a elas incentivo para melhorar seu serviço – nem mesmo para aceitar cartões de crédito. O bem indiscutível que as empresas de compartilhamento de viagens fizeram ao mundo foi forçar as empresas tradicionais de táxi a ir além dos motoristas mal educados, abraçar a tecnologia e levar a sério atendimento ao cliente. Na nova configuração do mercado que se estabelece, os táxis têm uma vantagem clara porque melhoraram seu produto e, ao mesmo tempo, contam com uma melhor regulamentação para seus motoristas, veículos e preços. Se Uber e Lyft quiserem acompanhar, é a vez deles se reinventarem.

A paisagem mudará radicalmente nos próximos 10 anos, de forma irreconhecível [contanto que não nos matemos no meio-tempo]. O Uber hoje está em um lugar de dor enquanto outras empresas e seus concorrentes achatam cada vez mais a relação custo/preço. O Uber está tentando encaixar um modelo de lucro do século 20 em um serviço onde imperam novos referenciais. Está em aberto se eles serão capazes de competir, a se manter essa atitude.

Los Contras

Muitos críticos apontam que o custo das operações não deve ser tão alto, pois, em termos físicos, a tecnologia é relativamente simples. Eles argumentam que basicamente o que Uber faz é conectar um servidor a um aplicativo; o aplicativo conecta motoristas e passageiros. É isso em essência. Depois que o aplicativo e os servidores estão configurados, a manutenção do sistema não pode ser muito cara, considerando tudo.

Esses críticos também lembram que o Uber tentou se tornar uma empresa de tecnologia criando veículos autônomos. Seus lucros faltantes hoje teriam sido consumidos nesse empreendimento fracassado. Além disso, há comentário sobre executivos a desviar para ganho pessoal muito mais do que sua parte devida da receita.

Em suma, a empresa poderia ser lucrativa apenas se atendo ao que ela faz bem. Mas talvez isso não seja o suficiente para seus líderes.

Advogado do Diabo

Concordo que eles não parecem ser uma empresa gerida de forma eficiente. Por outro lado, por ter passado parte da minha vida profissional no campo da logística, eu posso ver como é complicado [e portanto caro] manter o número necessário de motoristas para que os usuários sejam atendidos em tempo hábil, como os clientes da Uber estão acostumados. A Uber tem uma grande rotatividade de motoristas, e isso é insano.

Parte da despesa que muitos críticos não entendem é que o Uber paga grandes bônus e incentivos no primeiro mês para os novos motoristas para atraí-los para o rebanho, mas são incapazes de manter o ritmo de pagamento em função do cada vez mais escasso capital de risco e do irrealismo das baixas tarifas que eles cobram.

Obviamente, eles poderiam pagar mais aos motoristas para mantê-los no serviço, mas isso só faz aumentar as tarifas. Aumentar as tarifas tem um forte impacto na demanda. Os próprios estudos internos do Uber mostraram isso várias vezes. Há também o fato de que o aumento do pagamento dos motoristas é “para sempre”, mas o pagamento de bônus aos acionistas e outras despesas não podem ser facilmente reduzidos a qualquer momento.

Meu ponto é que se tivesse sido sempre fácil reduzir tão drasticamente as tarifas tradicionais de táxi como o Uber inicialmente fez, isso já teria acontecido. Sim, eles economizaram dinheiro não tendo que fornecer os veículos para o serviço, mas de agora em diante eles serão obrigados a pagar mais aos seus motoristas, para mantê-los dirigindo e destruindo seus próprios veículos. Com o passar do tempo, os mitos sobre o dinheiro fácil que os motoristas supostamente podem ganhar com o Uber foram amplamente destruídos. Isso também dificulta a retenção de motoristas.

O Uber ainda continuará a existir com tarifas mais altas e talvez ele ate se torne melhor, do ponto de vista do cliente, do que muitas empresas de táxi. Mas a vantagem que costumava ter tem diminuído rapidamente, com seus concorrentes agora se tornando também capazes de prestar um serviço lucrativo.

Parte do que impediu as empresas tradicionais de táxi de competir com o Uber é que elas não puderam investir em um aplicativo e atrair mais motoristas justamente porque as tarifas que estavam praticando não estavam sendo lucrativas – por causa do Uber. Para competir com o Uber elas só podem cobrar um certo tanto, e, nesse ponto, a maioria dos consumidores pagará com prazer um pouco mais ao Uber do que a uma empresa de táxi, talvez pela dinâmica cultural em curso. Lamentavelmente, o Uber não soube usar essa margem que sempre teve.

Para terminar

Aumentar as tarifas é a maneira mais rápida de curar as preocupações atuais do Uber quanto a um influxo menor de dinheiro vindo do capital de risco. Mas aumentar as tarifas significa oferecer menos viagens, o que também afeta o pagamento do motorista. Menos passageiros equivale a menos tarifas.

No fim de tudo, o Uber só conseguiu obter o número de passageiros que possui vendendo corridas com prejuízo. Como o artigo que enfocamos aponta, esse tempo acabou. Agora o Uber vai se tornar uma empresa de táxi como qualquer outra, e será forçado ao paradoxo de ter que atrair passageiros praticando tarifas cada vez mais altas.

O maior obstáculo a ser superado é interno. O Uber construiu toda a sua cultura sobre o pressuposto duvidoso de que ele era a “Próxima Grande Coisa” transformadora. De fato era, desde que tivesse conseguido obter trinta bilhões de dólares para queimar, mas esse dinheiro acabou.

Será um ajuste difícil para alguns de seus orgulhosos funcionários quando perceberem: “Ei, não somos uma empresa de tecnologia; somos apenas uma empresa de táxi”…