Repensar o Trabalho na Era dos Agentes Inteligentes

Durante séculos, nossas teorias sobre o trabalho partiram de uma premissa simples: o trabalho é realizado por seres humanos.

Homem e mulher trabalhando sobre uma escrivaninha.
Imagem: Mickhail Nilov

A economia clássica, a teoria marxista e até mesmo os estudos contemporâneos sobre o trabalho foram construídos sobre a ideia de que pessoas despendem esforço, aplicam habilidades e dedicam tempo para produzir valor.

Mas o que acontece quando a própria noção de trabalho deixa de estar associada às mãos humanas e passa a ser desempenhada por agentes inteligentes, como começamos a ver no dia a dia? À medida que sistemas de IA, robôs e software autônomo assumem tarefas antes reservadas às pessoas, somos levados a repensar os fundamentos do trabalho, da criação de valor e do próprio significado do trabalho.

A Visão Tradicional do Trabalho

A teoria marxista do valor-trabalho, por exemplo, mede o valor de uma mercadoria pelo “tempo de trabalho socialmente necessário” investido em sua produção. A economia neoclássica trata o trabalho como um dos fatores centrais da produção, com salários que refletem esforço, qualificação e escassez. As abordagens sociológicas enfatizam o trabalho como fonte de identidade, propósito e integração social. Em todas essas perspectivas, o trabalho é inseparável da consciência e da agência humanas. Trata-se do esforço realizado por pessoas em um contexto social.

Essas premissas, porém, vêm sendo cada vez mais desafiadas à medida que sistemas autônomos assumem tarefas, tanto as rotineiras quanto as complexas. Todo(a) leitor(a) deste blog certamente sabe que as lataformas baseadas em inteligência artificial já redigem relatórios, desenvolvem código, gerenciam cadeias de suprimentos e até criam obras artísticas. Robôs montam automóveis, colhem safras e entregam encomendas. Atividades que antes serviam como expressão da habilidade e do esforço humanos agora são executadas de forma independente por agentes artificiais.

O Surgimento do Trabalho dos Agentes

Essa transformação levanta questões fundamentais. Se máquinas executam tarefas de forma autônoma:

  • Ainda podemos definir trabalho como esforço humano?
  • Quem “merece” o valor criado: o ser humano que supervisiona, a empresa proprietária do sistema ou o próprio sistema?
  • Como devemos pensar sobre direitos, recompensas e responsabilidades éticas em um mundo onde o trabalho é distribuído entre redes de humanos e agentes?

Para responder a essas questões, precisamos ampliar nossa concepção de trabalho para além de suas origens antropocêntricas. Uma abordagem possível é defini-lo de maneira funcional, e não ontológica: trabalho é toda atividade que produz valor em um sistema, independentemente de o agente que a executa ser humano ou artificial. Sob essa perspectiva, o trabalho deixa de ser o esforço em si e passa a ser entendido como a contribuição para um resultado produtivo.

Humanos, Máquinas e o Metatrabalho

Mesmo com a IA assumindo um número crescente de tarefas, os seres humanos não desaparecem da economia; eles apenas passam a desempenhar um tipo diferente de trabalho. A ascensão dos agentes inteligentes desloca o trabalho humano para o metatrabalho: supervisionar, orientar, treinar, coordenar e orquestrar sistemas autônomos. A resolução criativa de problemas, a supervisão ética e a tomada de decisões complexas tornam-se os novos espaços de contribuição humana.

Por exemplo, uma IA pode gerar código ou analisar grandes volumes de dados, mas cabe aos humanos definir as especificações, estabelecer restrições, validar resultados e garantir que as soluções estejam alinhadas a objetivos mais amplos. Em essência, deixamos de executar diretamente as tarefas para administrar o ecossistema de agentes que as executa. O trabalho transforma-se: passa da execução para a coordenação, da atividade operacional para a atuação em nível sistêmico.

Revisitando as Teorias Existentes

Como as teorias tradicionais do trabalho se sustentam nesse novo cenário?

Teoria marxista do valor-trabalho: Se o valor está necessariamente vinculado ao esforço humano, a ascensão dos agentes autônomos parece romper uma de suas premissas fundamentais. Entretanto, se ampliarmos o conceito de “trabalho socialmente necessário” para incluir toda atividade produtiva, independentemente de quem a realize, a teoria pode ser reinterpretada. O desafio é filosófico: uma atividade não humana pode gerar valor em um sentido socialmente significativo?

Economia neoclássica: O trabalho continua sendo um fator de produção, mas a contribuição humana passa a estar cada vez mais relacionada à propriedade dos sistemas, à supervisão e à criatividade, em vez da execução direta das tarefas. Salários e formas de remuneração podem se desvincular do esforço físico ou operacional, refletindo principalmente contribuições estratégicas, intelectuais e éticas.

Perspectivas sociológicas: O trabalho continua sendo fonte de identidade e significado, mas esse significado passa a emergir da interação com agentes inteligentes, do desenho de fluxos de trabalho e da curadoria de sistemas automatizados. As pessoas encontram propósito não mais na repetição de tarefas, mas na capacidade de moldar os resultados produzidos por redes de trabalho autônomas.

Implicações para as Políticas Públicas e para a Sociedade

À medida que o trabalho evolui, também precisam evoluir nossas políticas públicas e nossos referenciais éticos. Novas perguntas surgem:

  • Como deve ser estruturada a remuneração em um sistema onde máquinas realizam atividades que geram valor?
  • Como medir a produtividade quando a contribuição humana ocorre de forma indireta?
  • Agentes inteligentes deveriam possuir algum tipo de direito ou proteção, ou toda responsabilidade continua pertencendo aos supervisores humanos?
  • Como preparar pessoas, por meio da educação e da formação profissional, para funções de metatrabalho em ecossistemas compostos por humanos e agentes?

Essas questões indicam que a teoria do trabalho precisa se ampliar para incorporar conceitos como agência distribuída, colaboração híbrida entre humanos e máquinas e novas formas emergentes de criação de valor.

Rumo a uma Teoria Funcional do Trabalho

Uma maneira útil de compreender o futuro do trabalho é concebê-lo como uma rede formada por humanos e agentes inteligentes. Nessa perspectiva:

  • O trabalho deixa de ser uma atividade exclusivamente humana.
  • Os humanos fornecem supervisão, contexto e orientação ética.
  • As máquinas oferecem execução, escala e eficiência.
  • O valor emerge da interação entre humanos e agentes, e não da atuação isolada de um ou de outro.

Em outras palavras, o trabalho na era dos agentes inteligentes é funcionalmente definido, distribuído e colaborativo. Os seres humanos permanecem centrais, não por executarem todas as tarefas, mas por coordenarem e orientarem os agentes responsáveis por realizá-las.

Reflexão

Claro que faço aqui uma análise simplista, do ponto de vista de um trabalhador de TI. Mas é exatamente essa camada da população que tem sofrido um maior impacto de todos esses desenvolvimentos. Não contemplo aqui as profissões de massa, e nem sei se estou equipado para tanto, mas essas não parecem estar existencialmente ameaçadas no curto prazo. Ao contrário, operários, artesãos e técnicos tendem a prosperar no médio prazo, mas esse é um tema para uma outra postagem.

Dito isto, talvez o maior desafio da era dos agentes inteligentes não seja tecnológico, mas conceitual. Não basta desenvolver sistemas cada vez mais capazes; precisamos desenvolver uma nova linguagem para compreender seu papel na economia e na sociedade. As categorias que utilizamos para pensar trabalho, produtividade, valor e responsabilidade foram concebidas para um mundo em que apenas seres humanos exerciam agência produtiva.

Repensar o trabalho significa reconhecer que a produção de valor passa a ocorrer em ecossistemas híbridos, onde humanos e agentes inteligentes desempenham funções distintas e complementares. O desafio das próximas décadas será construir modelos econômicos, jurídicos e sociais capazes de distribuir responsabilidades, incentivos e benefícios de forma coerente com essa nova realidade. Mais do que perguntar quais empregos a inteligência artificial substituirá, talvez devêssemos perguntar quais novas formas de colaboração ela tornará possíveis. Essa mudança de perspectiva desloca o debate do medo da substituição para o projeto de uma convivência produtiva entre inteligência humana e inteligência artificial.

A teoria do trabalho, portanto, não está chegando ao fim de sua história. Está iniciando um novo capítulo, em que o valor deixa de ser explicado apenas pelo esforço humano e passa a emergir das interações entre pessoas, agentes inteligentes e os sistemas que constroem juntos. Compreender essa transição será uma das tarefas intelectuais mais importantes do nosso tempo.