Sobre Democracia, Fake News e Amigos

Sou um racionalista hard-core, com um espírito curioso, voltado à honesta busca da verdade final. A existência desse conceito absurdo de “notícia falsa” (tal como o conhecemos agora) em pleno século vinte e um, é algo que literalmente me deprime e me faz duvidar de minha fé na humanidade. Com a evolução da crise da Covid, e depois de perder um número proibitivamente alto de amigos em virtude das controvérsias geradas por elas, sinto que o problema começa a afetar seriamente a minha esfera pessoal. Paladino da Ciência que sou, e para acalmar os meus sentidos, decidi empreender uma pesquisa – que eu chamaria de sistemática – da literatura sobre Fake News, a qual compartilho a seguir, no mui adequado formato de ‘prosa blogueana’.

As fake news costumam ser estudadas ao longo de quatro linhas principais: caracterização, criação, circulação e combate. O exato modelo de como caracterizar notícias falsas tem sido muito debatido na academia, uma vez que a definição do termo é ainda controversa. Diferentes tipos de noticias falsas têm diferentes gradações entre intenção e facticidade. Quanto às outras linhas de pesquisa, aquelas voltadas à criação dizem respeito à produção de notícias falsas, frequentemente com motivação financeira, política ou social. As dedicadas à circulação de notícias falsas referem-se às diferentes maneiras pelas quais as informações falsas são disseminadas e amplificadas, geralmente por meio de tecnologias de comunicação, como mídias sociais e mecanismos de busca. Por último, o combate às notícias falsas aborda a multiplicidade de técnicas para detectar e combatê-las em diferentes níveis, levando-se em conta desde os aspectos jurídicos, financeiros e técnicos até a alfabetização individual em mídia e informação e novos serviços de verificação de fatos.

Fake News foi eleita a palavra [ou expressão] do ano em 2017 pelo Dicionário Collins. Em 2017, o uso do termo havia aumentado 365% com relação à 2016 (Dicionário Collins, 2017). A eleição presidencial americana em 2016 colocara o fenômeno na agenda internacional.

Mas embora o termo pareça relativamente novo, os fenômenos que ele cobre são antigos. Manipulação, desinformação, falsidade, rumores, teorias da conspiração – ações e comportamentos frequentemente associados ao termo – existem desde que os humanos se comunicam. A novidade do termo, neste contexto, está relacionada à forma como as informações falsas ou enganosas são produzidas, distribuídas e consumidas por meio da tecnologia de comunicação digital.

Fiz um apanhado da literatura, e inúmeros trabalhos sobre o tema, escritos desde o início do século vinte, vieram à tona – que, por brevidade, limito aqui a poucos exemplos:

.Em uma coluna publicada no The Atlantic em 1919, Walter Lippmann expôs uma visão abrangente dos problemas que a propaganda representava para a sociedade ocidental moderna (Sproule, 1997).

.Lippmann argumentou que a função básica da democracia era proteger as notícias – a fonte da opinião pública – da mácula da propaganda. Nenhuma sociedade moderna sem meios adequados para detectar mentiras pode se considerar livre (Lippmann, 1922).

.Sem informações confiáveis, será difícil para as democracias continuarem a funcionar. Notícias falsas e desinformação são símbolos de um problema social mais amplo: a manipulação da opinião pública para infuenciar o mundo real (Gu, Kropotov e Yarochkin, 2017).

Mas mesmo que a desinformação seja a esta altura um fenômeno histórico, cada nova tecnologia de comunicação permite novas maneiras de manipular notícias e amplificar rumores. Manter o passo alinhado com as novas tecnologias de informação digital requer novas maneiras de enfrentar os desafios; um certo pensar-fora-da-caixa. Informações falsas disfarçadas de notícias já criaram sérias preocupações materiais e humanas em muitos países. Diferentes pesquisadores a chamaram por diferentes nomes:

.Poluição da informação (Wardle & Hossein, 2017),

.Manipulação da mídia (Warwick & Lewis, 2017) ou

.Guerra de informação (Khaldarova & Pantti, 2016).

Em minhas conversas e vivências, noto que um ponto comum entre as pessoas que têm uma vida intelectual é um certo desconforto existencial, a sensação íntima e presente, de que informações falsas poluem a esfera pública e podem prejudicar a democracia de maneira imprevisivel. Conforme argumentado por Warwick e Lewis, “a manipulação das redes sociais pode contribuir para a diminuição da confiança na mídia convencional, aumento da desinformação e maior radicalização” (2017).

Além de tudo isso, políticos e outros atores poderosos se apropriaram do termo para caracterizar a cobertura negativa da mídia sobre suas ações. Mais notoriamente, e mais de uma vez, o presidente americano Donald Trump rotulou meios de comunicação como a CNN ou o The New York Times como fake news. O mesmo se dá aqui no Brasil, com o presidente engajado em uma jihad pessoal contra a mídia tradicional. Conforme relatado pelo New York Times, em países onde a liberdade de imprensa é restrita ou está sob considerável ameaça – como Rússia, China, Turquia, Líbia, Polônia, Hungria, Tailândia, Somália e outros [ahem, Brasil] – os líderes políticos já invocaram as fake news como justificativa para repelir o escrutínio da mídia. Ao sugerir que as notícias não podem ser confiáveis e ao rotulá-las como notícias falsas, os políticos deliberadamente minam a confiança no jornalismo e nos meios de comunicação, uma das principais instituições em nações democráticas baseadas na liberdade de expressão e de imprensa.

Mais pesquisas sobre a escala e o escopo da desinformação em diferentes países são necessárias para descrever com precisão a magnitude e as características do problema. Para os estudantes de jornalismo, este recente debate sobre a desinformação tem sido uma evocação valiosa das raízes de sua profissão: avaliação crítica de informações e fontes; responsabilidade e códigos de conduta ética. O aumento dos esforços pela transparência, tanto na ecologia das plataformas de informação quanto nos métodos jornalísticos, pode, a longo prazo, aumentar a confiança do público em relação a como a informação é tratada e amplificada tanto pelas plataformas sociais quanto pelas redações da mídia profissional.

Novas ferramentas e métodos – incluindo alfabetização midiática e informacional – para identificar e detectar conteúdo manipulado, seja ele texto, imagens, vídeos ou áudio, são necessários, se queremos conter as tentativas de manipulação de diferentes atores. Em vez de tentar legislar sobre o problema – que se tornou por demais politizado – ou ceder ao ímpeto repressivo, os atores políticos e as instituições devem reconhecer que têm um papel importante a desempenhar na melhoria da qualidade do ecossistema de informações, por meio do financiamento à pesquisa e do apoio à mídia independente e pelo compartilhamento de dados com o público.

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(*) Este post foi editado em 13/05 para correções de digitação e pequenos ajustes de estilo.

Pânico Moral e Extremismo na Rede

Em conversa com um grupo de desenvolvimento de software em um dos fóruns da Web, o assunto acabou descambando para o fenômeno do extremismo na rede, que leva à atual polarização política. À medida que a conversa evoluia, começaram a ser apontados alguns alguns paralelos históricos com o momento presente, como os repetidos episódios de pânico moral que o mundo enfrentou em vários momentos de mudanças culturais chave.

O tema básico da conversa pode ser resumido na segunte premissa: Uma vez que o extremismo assume o comando, não há limite para até que ponto ele chegará, até que toda a comunidade imploda.

Em primeiro lugar, uma definição de pânico moral: pânico moral é um medo generalizado, na maioria das vezes irracional, de que alguém ou um grupo é uma ameaça aos valores, segurança e interesses de uma comunidade ou sociedade em geral. Normalmente, o pânico moral é perpetuado pela mídia de notícias, alimentado por políticos e muitas vezes resulta na passagem de novas leis ou políticas que visam a fonte do pânico (minorias em geral). O pânico moral sempre promove polarização política e o aumento do controle social.

Para ser justos na abordagem do tema, temos que reconhecer que pessoas são apenas humanos sendo humanos. Um olhar superficial pela história revela que esta é a norma do mundo. De um ponto de vista evolucionário, nós sentimos pânico moral para cimentar nosso lugar nos nossos respectivos grupos sociais, e temos uma necessidade quase obsessiva de ter um grupo de “outros” a quem culpar os problemas da sociedade. Sejam eles creches satânicas, comunistas, ateus, bruxas, racistas, transfóbicos, católicos, protestantes… claramente, e eu quero dizer claramente, isso é o que os humanos fazem. Pelo menos um grande número de nós. É um fato incrivelmente consistente e repetido através da história.

O que é fascinante é que cada geração se convence de que ela progrediu além desse traço profundamente humano, e insiste em que nesta geração, e só desta vez, seu preconceito pelos outros é nobre e existe para servir um bem social maior. “Todos os outros fanáticos estavam errados, mas desta vez, nós conseguimos fazer certo! O Preconceito finalmente curará o preconceito! Espere e você verá! “

Claro que isso nunca acontece, e quando a poeira se instala depois dos debates e das lutas, a maioria dos apóstolos do pânico moral sente algum constrangimento e tenta se distanciar do seu comportamento passado. Eles na verdade estavam viciados na liberação de dopamina que estar no grupo com poder propiciava. Para não mencionar que, com tantas outras pessoas para culpar, eles não precisavam reconhecer nenhuma de suas próprias falhas. Afinal, pelo menos, eles não são “outros”.

Central para o pânico moral é o pensamento preto/branco que o perpetua. Você é muito bom ou muito ruim. Não há área cinzenta. Se a pessoa tem a opinião x, não mais importa o que ela faz. Ela é má.

É um tipo de histeria em massa e exemplos do passado se contam às centenas, se não milhares. Infelizmente, faz parte do comportamento da massa humana.

O que mudou, é que tal comportamento costumava ser mais fortemente praticado pelos religiosos. Desta vez, os poderes do mundo mudaram seu método: ao invés de explorar o medo, exploram o narcisismo, e têm agora até os mais educados da sociedade sob controle.

Isso é desalentador, pois parece que não temos mais nenhum grupo com resistência cognitiva ou pensamento crítico sólido, à medida em que mais e mais pessoas assumem uma atitude de total sinalização de virtude (em oposição à verdadeira ação virtuosa), alienação e servilismo ao pensamento grupal.

O que no fim de tudo acontece é que, à medida em que mais e mais pessoas se tornam incapazes de manter a ilusão – e todos os apóstolos do pânico moral são iludidos, em diferentes graus – o custo de manter a identidade grupal torna-se muito inconveniente frente à realidade da situação, e uma inevitável reação toma lugar. Então as desculpas começam… “Nossa, eu nunca pensei que a Gestapo fosse tão má… Ei, e não fui o único que sinalizou virtude para eles… “

Então, outro bicho-papão é escolhido e o ciclo recomeça. O que você está testemunhando é a condição humana fazendo o que faz.