O Linux Vai um Dia Conquistar o PC?

No site The Register encontro um artigo de opinião escrito pelo veterano repórter de tecnologia e entusiasta do GNU/Linux, Steven J. Vaughan-Nichols, do qual transcrevo trechos para depois comentar.

Linux Mint
Área de trabalho do esplêndido Linux MintImagem: WikiMedia Commons

[…] tendo coberto o mundo do desktop Linux (…), acho que usei mais dele do que qualquer outra pessoa que também tenha uma vida além do PC. Em suma, eu amo o desktop Linux. Muitas distribuições do Linux para desktop são ótimas. Eu sou um grande fã do Linux Mint há anos. Também gosto, em nenhuma ordem específica, do Fedora, openSUSE, Ubuntu e MX Linux. Mas você sabe o que? Isso é um problema. Temos muitas distribuições de desktop Linux excelentes, o que significa que nenhuma delas consegue ganhar participação de mercado suficiente para causar qualquer impacto real no mercado geral.

[…]Além de mais de 200 distribuições, existem 21 interfaces de desktop diferentes e mais de meia dúzia de gerenciadores de instalação de software, como o Debian Package Management System (DPKG), Red Hat Package Manager (RPM), Pacman, Zypper e muitos outros. Depois, há toda uma gama desses novos contêineres para instalar programas, incluindo Flatpak, Snap e AppImage. Eu mal consigo ver todos e isso sendo parte do meu trabalho! Como esperar que os usuários comuns entendam tudo isso? É impossível. Nenhum dos principais distribuidores Linux – Canonical, Red Hat e SUSE – realmente se importa com o desktop Linux. (…) seu dinheiro vem de servidores, contêineres, nuvem e Internet das Coisas (IoT). Desktop? Por favor. Devemos apenas ficar felizes por eles gastarem tanto no desktop.

[…]Agora, dito tudo isso, não quero que você tenha a impressão de que não acho que o desktop Linux seja importante. Eu acho. Na verdade, acho crítico. A Microsoft, você vê, está abandonando o desktop tradicional baseado em PC. (…) em favor da “nuvem”. Isso significa que o futuro do sistema operacional de desktop estará nas mãos da Apple, com o macOS, e nas nossas, com o Linux. Como alguém que se lembra da transição de mainframes, controlados centralmente, para PCs, de uso individual, não quero retornar a um mundo onde todo o poder pertence à Microsoft ou a qualquer outra corporação.

“O desktop Linux nunca será tão grande quanto o Windows já foi”, escreve Vaughan-Nichols no encerramento. “Entre a ascensão dos serviços de nuvem e o domínio do smartphone, não é possível isso acontecer. Mas ele ainda pode se tornar o desktop convencional mais popular.”

Linux precisa de padrões

Foi oportuna a ênfase nos usuários avançados. De muitas maneiras, eles são o centro de gravidade em um ecossistema de tecnologia.

Quase todos os usuários avançados/técnicos que conheço querem “padrões”. As distribuições Linux estão repletas de padrões por baixo do capô, mas não há um padrão de certificação de hardware (portanto, encontrar periféricos compatíveis é sempre estranho, além de arriscado) e não há uma interface de usuário padrão. Os usuários técnicos querem essas duas coisas. Um técnico que seja obrigado a dar instruções de suporte técnico ao usuário, ensinando a ele comandos de terminal porque não há uma Interface Gráfica padrão é um técnico que um dia dará as costas ao “desktop Linux”.

Três posições – ao meu ver equivocadas – que a comunidade FOSS [Free Open Source SoftwareSoftware Livre] assume, e que levam a essa situação são:

1. Pregar que o “’Linux’ é um sistema operacional”. Fora do âmbito técnico essas palavras alienam o ouvinte. Apenas os técnicos entendem ou se interessam por esse jargão. Para qualquer pessoa com mentalidade de consumidor (que inclui a maioria dos usuários avançados) isso não significa nada. Aliás, tenho receio de ter perdido leitores no início deste texto, com todas aquelas siglas e nomes esquisitos. Se você ainda está aqui, receba minha admiração pela sua capacidade de foco(*). É preciso vender o Linux como uma solução a problemas comuns e não um ‘sistema operacional’. Não me ocorre no momento nenhum remédio para esse problema crítico de comunicação, mas ele tem que ser superado.

2. Inconsistência nas interfaces de usuário. “Interfaces são compromissos” (aprendi isso em Análise de Sistemas). A fragmentação do Linux é ainda maior quando se fala nos ambientes gráficos de usuário disponíveis (GNOME, KDE, MATE, etc). Interfaces são compromissos para todos os envolvidos. Se uma determinada categoria de stakeholder experimenta o computador como algo caótico, nunca previsível, o sistema todo pode desmoronar. Os computadores devem fornecer consistência ou então enfrentar o opóbrio.

3. Opções demais para instalação e atualização. O “empacotamento” da distribuição sempre foi hostil, tanto ao desenvolvedor de aplicativos quanto ao usuário, de novo por razões de fragmentação do ecossistema. Cada distribuição tem seu gerenciador de pacotes particular. Uma tentativa de solução proposta é o padrão universal Snap no qual se baseia o popular Snapcraft. Segundo a Wiki “Snapcraft é uma ferramenta para desenvolvedores empacotar seus programas no formato Snap. Ele roda em qualquer distribuição Linux suportada por Snap, macOS e Microsoft Windows. O Snapcraft compila os pacotes de forma a garantir que o resultado de uma compilação seja o mesmo, independentemente de qual distribuição ou sistema operacional ele é compilado”.

Faça como o Windows

Para merecer a atenção e o investimento do público em geral, os desenvolvedores de desktops FOSS precisam voltar sua mentalidade para as questões: a) Como fazer para que as pessoas fiquem empolgadas o suficiente com a plataforma para começar a escrever aplicativos para ela? b) Como juntar desenvolvedores de aplicativos e usuários finais da maneira mais satisfatória possível?

As respostas para isso podem variar às vezes, mas geralmente se parecem com:

  • Integrar o sistema verticalmente
  • Manter o visual consistente – mas não espartano

A maioria dos usuários avançados prefere Windows ou OS X exatamente por esses motivos!

Em oposição, o FOSS – como eu o o conheço – sempre tende a enfatizar a integração horizontal, a resolução de dependências através de bibliotecas, UIs descartáveis e APIs espartanas – todas as respostas erradas para desafiar a Microsoft no campo do desktop!

Além disso, se você tiver uma coleção de APIs para desktop, elas apenas serão úteis se todo o conjunto tiver versões padrão. Mesmo assim a comunidade de distribuição Linux não se importa em misturar as versões upstream conforme cada um achar melhor – isso seria perfeitamente razoável em um mundo em que todos os “desenvolvedores” fossem hackers de sistema.

O Google (Alphabet) aparentemente descobriu a solução para a maioria dos problemas acima com o Android, construído a partir do Kernel do Linux, mas sempre pronto para substituí-lo/alterá-lo/descartá-lo.

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(*) A propósito disto, respeito muito a inteligência das pessoas que se propõem a ler este blog, e não faço concessões ao fácil [:wink]

Notáveis Fazem Alerta Sobre as Criptomoedas

Um evento muito importante sobre as criptomoedas aconteceu nesta semana, e, como sempre, passou abaixo do radar da grande mídia Tupiniquim. É exatamente por isso que este blog existe.

Imagem: Pexels

Um grupo de tecnologistas renomados uniu forças para pressionar os legisladores dos EUA a reprimir a crescente indústria de criptomoedas, marcando o primeiro esforço conjunto para combater o lobby bem financiado por empresas de blockchain.

O Financial Times [não vou dar link pois essa é uma das muralhas de pagamento mais formidáveis da Internet] reporta que

o professor de Harvard Bruce Schneier, o ex-engenheiro da Microsoft Miguel de Icaza e engenheiro-chefe do Google Cloud Kelsey Hightower, estão entre os 26 cientistas da computação e acadêmicos que assinaram uma carta [link, em inglês] entregue aos legisladores dos EUA criticando fortemente os investimentos em criptomoedas e a tecnologia blockchain. Embora várias pessoas já tenham feito avisos semelhantes sobre a segurança e a confiabilidade [ou falta de] dos ativos digitais, esta iniciativa marca um esforço mais organizado para desafiar a crescente influência dos defensores das criptomoedas, que querem resistir às tentativas de regular esse setor movediço.

“As alegações que os defensores do blockchain fazem não são verdadeiras”, disse Schneier. “Não é seguro, não é descentralizado. Qualquer sistema em que alguém pode perder suas economias porque esqueceu a senha de acesso não é um sistema seguro”, acrescentou. “Estamos fazendo um contra-lobby, é disso que trata esta carta”, disse o signatário e desenvolvedor de software Stephen Diehl. “A indústria de criptomoedas tem seu próprio pessoal, e eles falam o que querem aos políticos.”

Uma análise recente feita pelo Public Citizen, um grupo de defesa do consumidor, sobre o banco de dados de divulgação de lobby do Congresso dos EUA, revelou que o número de lobistas que representam a indústria de cripto aumentou de 115 para 320 entre 2018 e 2021, e o dinheiro gasto em lobby para o setor de cripto quadruplicou de US$ 2,2 milhões a US$ 9 milhões no mesmo período. A Coinbase, cambista de criptomoedas com sede nos EUA, liderou o esforço com 26 lobistas e US$ 1,5 milhão gastos em lobby em 2021. Empresas com crescente interesse no setor de criptomoedas, incluindo Meta, Visa e PayPal, também fizeram lobby para o setor. Enquanto isso, as principais cambistas de criptomoedas, como FTX, Binance e Crypto.com, também gastaram muito em acordos de patrocínio com estrelas do esporte e do entretenimento para promover seus produtos ao público.

Contra-ataque

Note que essas pessoas não são a turma do capital. São cientistas da computação reais pedindo que esses esquemas, que muitos equiparam a pirâmides financeiras, sejam controlados. Eles não têm tempo a perder em discussões fúteis.

Há tempos esses especialistas alertam contra a adoção intempestiva de criptomoedas. Stephen Diehl disse tempos atrás que os Tokens Não Fungíveis são uma farsa e recebeu tanta atenção que os “cripto bros” escreveram alguns artigos atacando-o. Portanto não é surpresa que ele esteja contra atacando no Congresso.

Para minhas finanças pessoais, devo dizer que estou absolutamente apavorado que esse tipo de ativo esteja sendo tratado como ativo real. O crash do mercado de 2008 envolveu a propriedade imóvel. Desta vez folgo que serão apenas macacos entediados.

Distinção e responsabilidades

Uma distinção importante é que as moedas chamadas “fiduciárias” são controladas por governos e bancos centrais que têm interesse em manter a estabilidade da economia geral e não inflacionar o valor de cada unidade de moeda, porque também é o governo e os bancos centrais que têm a responsabilidade de financiar a recuperação de qualquer colapso econômico.

Por outro lado, as criptomoedas são controladas por entidades que têm interesse em inflar o valor de cada unidade de sua moeda e não se importam se a moeda eventualmente entrar em colapso porque eles apenas vão continuar seu caminho, à espera do próximo esquema – você não vai encontrar os mineradores de bitcoin para pagar os custos de moradia, alimentação ou o auxílo-desemprego das pessoas afetadas se e quando o bitcoin cair e acabar com bilhões em investimentos. A indústria de criptomoedas espalhou tanta fumaça na paisagem que os meros mortais não fazem a menor ideia do que isso tudo significa. Essa mesma indústria também conseguiu fazer com que as pessoas acreditassem que este é o futuro, e se você não vê esse futuro você é obviamente uma pessoa das cavernas.

Conselho grátis

Meu conselho aos formuladores de políticas: se você não consegue entender essa conversa de criptomoeda, provavelmente há uma boa razão, e não é porque você é estúpido. É porque a coisa toda é terrivelmente complexa. Confie em si mesmo e os desafie para o debate. No minuto em que você colocar um cripto-bro na frente do congresso, fizer perguntas em português claro, e o cripto-bro não conseguir dar respostas inteligíveis, será um sinal claro para acionar o alarme.

Há um segmento de formuladores de políticas [para não citar aquele que não deve ser citado] que pensam que o Brasil – ou qualquer outro país – será condenado ao atraso financeiro se não embarcar nessa canoa. O melhor que se pode dizer sobre o assunto é que as criptomoedas são uma solução à procura de um problema. O pior que pode ser dito… Por onde começo?

Confie no seu instinto, tenha coragem e apenas diga não.

Momento Pede Cautela com Aplicativos Financeiros

O site Protocol informa que as avaliações de valor das ações das fintechs têm despencado mais rápido e com mais força do que o resto do setor de tecnologia.

Fintech
Imagem: Pexels

De acordo com o artigo no Protocol,

um gráfico publicado pela a16z mostra que o pico de múltiplos [o que são ‘múltiplos’ no contexto das ações] de receita futura para empresas de fintech foi em outubro de 2021, quando atingiu quase 25x. Agora, caiu para menos de 5x. De acordo com dados da F-Prime Capital, esta é uma queda mais acentuada do que a verificada em outros setores da tecnologia.

Até 2019, as fintechs estavam em relativa sintonia com as altas das empresas emergentes dos serviços de nuvem. Entre 2020 e 2021 a valorização subiu como um foguete para ficar muito acima do desempenho das outras empresas de serviços de nuvem. Mas desde o início deste ano, o índice fintech da F-Prime vem caindo. Ele chegou a cair abaixo abaixo do índice de nuvem no final de março. À medida que as fintechs públicas estão vendo seus valores de mercado encolherem, será mais difícil para as empresas ainda privadas justificarem suas próprias avaliações exuberantes.

A queda das avaliações do mercado público golpeou o mercado com força extra esta semana. Mais startups de fintech começaram a fazer cortes. Das 19 demissões em massa listadas no Layoffs.FYI esta semana, nove foram em empresas financeiras. A Klarna disse aos funcionários, por meio de uma mensagem de vídeo, que demitiria 10% de sua força de trabalho. “Quando estabelecemos nossos planos de negócios para 2022, no outono do ano passado, era um mundo muito diferente do que estamos hoje”, disse o CEO Sebastian Siemiatkowski no vídeo.

Definições

Fintech é uma uma palavra composta da língua inglesa que significa “tecnologia financeira”. É um termo genérico para qualquer tecnologia usada para aumentar, simplificar, digitalizar ou competir com os serviços financeiros tradicionais.

Fintech refere-se a software, algoritmos e aplicativos para ferramentas baseadas em computador e dispositivos móveis. Em alguns casos, também inclui hardware – como cofrinhos inteligentes e conectados ou plataformas de negócios baseadas em realidade virtual (VR). As plataformas de fintech permitem que o usuário desempenhe tarefas comuns, como depositar cheques, movimentar dinheiro entre contas, pagar contas ou solicitar ajuda financeira.

Elas também abrangem conceitos tecnicamente complexos, como empréstimos ponto a ponto ou trocas de criptomoedas. Essa complexidade, porém, não impede que influencers [atrizes da lista B, designers de unhas, coaches de maquiagem, nutricionistas autodidatas] e figuras do entretenimento [cantores de funk, DJ’s, sofredoras sertanejas, etc.] posem de consultores financeiros a exaltar as fintechs no horário nobre da televisão e nas infames redes sociais.

Os bancos usam fintechs para processos de back-end – monitoramento da atividade da conta, por exemplo – e soluções voltadas para o consumidor, como o aplicativo que você usa para verificar seu saldo. Indivíduos usam fintech para tudo, desde cálculos de impostos até incursões nos mercados, sem necessidade de experiência prévia em investimento (o horror, o horror!).

As empresas contam com as fintechs para processamento de pagamentos, transações de comércio eletrônico, contabilidade e, mais recentemente, para buscar assistência em programas de assistência governamental. Após a pandemia da COVID-19, mais e mais empresas estão recorrendo às fintechs para habilitar recursos como pagamentos “sem fricção” ou outras transações baseadas em tecnologia.

Aumento da concorrência global

Historicamente, as instituições financeiras tradicionais sempre foram protegidas pelas condições nacionais de seus respectivos mercados. Dentro de cada jurisdição nacional há um conjunto diferenciado de condições e regulamentações financeiras, gerando instituições financeiras compatíveis com serviços adaptados às necessidades locais.

Nos últimos anos, no entanto, essas fronteiras nacionais foram rapidamente erodidas, impulsionadas pela rápida ascensão de empresas de fintech que oferecem soluções financeiras globais. Como resultado, as finanças institucionais foram forçadas a competir de passo a passo com essas empresas aparentemente ágeis ou aprender a cooperar e estabelecer parcerias com elas.

Essa dinâmica do “tradicional versus ágil” alimentou um cenário competitivo em todo o mundo, e os jogadores que desejam prevalecer nessa corrida precisam escolher suas alianças estratégicas com sabedoria.

No caso de muitas fintechs, buscar alianças com terceiros não é uma escolha. Seus modelos de negócios realmente dependem disso. Para as equipes de operações computacionais, a pressão adicional da concorrência e a necessidade de contratar serviços e parcerias de terceiros para se manter à frente são fontes de risco operacional que podem aumentar a exposição além de qualquer controle.

‍Responsabilidade profissional e pessoal

No final das contas, a maioria das fintechs fornece ou habilita um serviço financeiro.

Isso – por si só – expõe a empresa à negligência, erros de serviço, reclamações de fraude e vários outros riscos comuns associados a serviços financeiros. As fintechs, que oferecem produtos financeiros totalmente novos por meio de modelos de serviços inovadores, são especialmente propensas a se encontrar no lado errado das reivindicações de responsabilidade profissional.

Em geral, o problema é de desajuste: as fintechs geralmente sobrecarregam sua própria capacidade operacional e não padronizam novos processos, gerando assim cada vez mais erros. Os consumidores, por outro lado, são propensos a usar os aplicativos de fintech com pouca atenção, sem conhecimento básico de tecnologias da web e quase sempre sem tomar medidas de precaução para proteger a si mesmos, seus dados e seu dinheiro.

Fintechs têm o dever ético de mitigar os riscos operacionais

O risco operacional é o risco de fazer negócios com fintechs, e gerenciar esse risco é uma prioridade inevitável para qualquer liderança de operações. Na maioria das vezes, a maior exposição ao risco pode ser encontrada em processos operacionais mal implementados. A mitigação de riscos geralmente começa com a aplicação de uma estrutura de avaliação de riscos testada e comprovada, e não há garantia de que os aplicativos de fintech populares estejam preocupados com esses aspectos. O marketing irreverente dessas empresas na televisão brasileira e na Internet, usando Youtubers e figuras dos reality shows, não me ajuda a ter muita confiança.

Para terminar

Sem uma abordagem sistemática para definir e demonstrar o comportamento ético, a insistência em uma suposta superioridade prática das fintechs vai sair pela culatra. À medida que a adoção de fintechs continua a aumentar, haverá um número crescente de instâncias em que as fintechs falharão no teste da ética e da segurança operacional. Mesmo que a porcentagem dessas falhas seja menor entre as fintechs do que entre as instituições financeiras tradicionais, isso não ajudará a diminuir as percepções de alto risco associadas a elas.

As fintechs fariam um favor a si mesmas ao abandonar a perigosa superficialidade em seu marketing e a retórica vazia da “conveniência”, em favor da adoção de procedimentos operacionais e de supervisão ética de alto padrão, além de focar na resolução dos complexos problemas dos consumidores e clientes. Se elas estão à altura desses desafios logo saberemos.

PS: Este post se refere aos acontecimentos do momento nos mercado avançados. Essas tendências se refletem, às vezes com um pequeno atraso, nos mercados periféricos, como o Brasil, mas sempre se refletem. Lembro aos leitores que uma gripe lá acaba sendo uma pneumonia aqui.

Fontes adicionais:

https://www.forbes.com

https://www.weforum.org/

O Fim do Uber Barato

O dinheiro está ficando caro no mundo todo à medida que as taxas de juros aumentam, colocando fim a uma década de emergência de tecnologias “disruptivas”. O Uber talvez seja a mais notável entre elas.

Fim do Uber barato
Imagem: Pexels

A suposição geral sempre foi de que o Uber estava a queimar todo o dinheiro dos investidores com o objetivo de dominar o mercado. Uma vez que eliminasse o serviço de carros, os cartéis de táxi e, finalmente, seus rivais da carona, a empresa pararia de cobrar dos passageiros menos do que estava pagando aos motoristas [uma forma de subsídio] e os preços teriam que subir.

Pois a revista Slate reporta que na manhã de segunda-feira (23/05), um Uber de Manhattan para o aeroporto JFK custava US$ 100 – quase o dobro da tarifa fixa do táxi amarelo! Prossegue a Slate:

O confronto Uber-vs-táxi é a forma como a maioria das pessoas concebe o impacto do Uber no mercado, mas a Década das Viagens Baratas teve efeitos bem mais profundos em como vivemos e nos locomovemos. O fracasso de empresas de compartilhamento de carros como Maven e car2go é um exemplo de como todo esse subsídio do Uber distorceu o mercado, anulou modelos de negócios que de outra forma poderiam ter prosperado e mudou hábitos que poderiam ter perdurado. A empresa fez isso tanto para o bem – levando à redução do tamanho dos estacionamentos, suprimindo a direção embriagada – como para o mal – aumentando a propriedade de carros e o congestionamento do tráfego.

Uma consequência bem conhecida do subsídio ao passageiro é o declínio no transporte público. Um estudo estima que a chegada de Uber e Lyft em uma cidade diminui o número de passageiros de trem em 1,29% e o de ônibus em 1,7% a cada ano. Em São Francisco, onde o Uber foi fundado, os autores estimam que o Uber diminuiu o número de passageiros de ônibus em 12,7%. Um segundo estudo concluiu um declínio de 5,4% no número de passageiros de ônibus em cidades de médio porte. Um terceiro estudo registrou o declínio em 8,9%. Um fenômeno relacionado ao Uber foi um aumento considerável no congestionamento do tráfego no centro da cidade.

De volta a mim

Uber e Lyft fazem sucesso há uma década porque o monopólio desfrutado pelas empresas de táxi não dava a elas incentivo para melhorar seu serviço – nem mesmo para aceitar cartões de crédito. O bem indiscutível que as empresas de compartilhamento de viagens fizeram ao mundo foi forçar as empresas tradicionais de táxi a ir além dos motoristas mal educados, abraçar a tecnologia e levar a sério atendimento ao cliente. Na nova configuração do mercado que se estabelece, os táxis têm uma vantagem clara porque melhoraram seu produto e, ao mesmo tempo, contam com uma melhor regulamentação para seus motoristas, veículos e preços. Se Uber e Lyft quiserem acompanhar, é a vez deles se reinventarem.

A paisagem mudará radicalmente nos próximos 10 anos, de forma irreconhecível [contanto que não nos matemos no meio-tempo]. O Uber hoje está em um lugar de dor enquanto outras empresas e seus concorrentes achatam cada vez mais a relação custo/preço. O Uber está tentando encaixar um modelo de lucro do século 20 em um serviço onde imperam novos referenciais. Está em aberto se eles serão capazes de competir, a se manter essa atitude.

Los Contras

Muitos críticos apontam que o custo das operações não deve ser tão alto, pois, em termos físicos, a tecnologia é relativamente simples. Eles argumentam que basicamente o que Uber faz é conectar um servidor a um aplicativo; o aplicativo conecta motoristas e passageiros. É isso em essência. Depois que o aplicativo e os servidores estão configurados, a manutenção do sistema não pode ser muito cara, considerando tudo.

Esses críticos também lembram que o Uber tentou se tornar uma empresa de tecnologia criando veículos autônomos. Seus lucros faltantes hoje teriam sido consumidos nesse empreendimento fracassado. Além disso, há comentário sobre executivos a desviar para ganho pessoal muito mais do que sua parte devida da receita.

Em suma, a empresa poderia ser lucrativa apenas se atendo ao que ela faz bem. Mas talvez isso não seja o suficiente para seus líderes.

Advogado do Diabo

Concordo que eles não parecem ser uma empresa gerida de forma eficiente. Por outro lado, por ter passado parte da minha vida profissional no campo da logística, eu posso ver como é complicado [e portanto caro] manter o número necessário de motoristas para que os usuários sejam atendidos em tempo hábil, como os clientes da Uber estão acostumados. A Uber tem uma grande rotatividade de motoristas, e isso é insano.

Parte da despesa que muitos críticos não entendem é que o Uber paga grandes bônus e incentivos no primeiro mês para os novos motoristas para atraí-los para o rebanho, mas são incapazes de manter o ritmo de pagamento em função do cada vez mais escasso capital de risco e do irrealismo das baixas tarifas que eles cobram.

Obviamente, eles poderiam pagar mais aos motoristas para mantê-los no serviço, mas isso só faz aumentar as tarifas. Aumentar as tarifas tem um forte impacto na demanda. Os próprios estudos internos do Uber mostraram isso várias vezes. Há também o fato de que o aumento do pagamento dos motoristas é “para sempre”, mas o pagamento de bônus aos acionistas e outras despesas não podem ser facilmente reduzidos a qualquer momento.

Meu ponto é que se tivesse sido sempre fácil reduzir tão drasticamente as tarifas tradicionais de táxi como o Uber inicialmente fez, isso já teria acontecido. Sim, eles economizaram dinheiro não tendo que fornecer os veículos para o serviço, mas de agora em diante eles serão obrigados a pagar mais aos seus motoristas, para mantê-los dirigindo e destruindo seus próprios veículos. Com o passar do tempo, os mitos sobre o dinheiro fácil que os motoristas supostamente podem ganhar com o Uber foram amplamente destruídos. Isso também dificulta a retenção de motoristas.

O Uber ainda continuará a existir com tarifas mais altas e talvez ele ate se torne melhor, do ponto de vista do cliente, do que muitas empresas de táxi. Mas a vantagem que costumava ter tem diminuído rapidamente, com seus concorrentes agora se tornando também capazes de prestar um serviço lucrativo.

Parte do que impediu as empresas tradicionais de táxi de competir com o Uber é que elas não puderam investir em um aplicativo e atrair mais motoristas justamente porque as tarifas que estavam praticando não estavam sendo lucrativas – por causa do Uber. Para competir com o Uber elas só podem cobrar um certo tanto, e, nesse ponto, a maioria dos consumidores pagará com prazer um pouco mais ao Uber do que a uma empresa de táxi, talvez pela dinâmica cultural em curso. Lamentavelmente, o Uber não soube usar essa margem que sempre teve.

Para terminar

Aumentar as tarifas é a maneira mais rápida de curar as preocupações atuais do Uber quanto a um influxo menor de dinheiro vindo do capital de risco. Mas aumentar as tarifas significa oferecer menos viagens, o que também afeta o pagamento do motorista. Menos passageiros equivale a menos tarifas.

No fim de tudo, o Uber só conseguiu obter o número de passageiros que possui vendendo corridas com prejuízo. Como o artigo que enfocamos aponta, esse tempo acabou. Agora o Uber vai se tornar uma empresa de táxi como qualquer outra, e será forçado ao paradoxo de ter que atrair passageiros praticando tarifas cada vez mais altas.

O maior obstáculo a ser superado é interno. O Uber construiu toda a sua cultura sobre o pressuposto duvidoso de que ele era a “Próxima Grande Coisa” transformadora. De fato era, desde que tivesse conseguido obter trinta bilhões de dólares para queimar, mas esse dinheiro acabou.

Será um ajuste difícil para alguns de seus orgulhosos funcionários quando perceberem: “Ei, não somos uma empresa de tecnologia; somos apenas uma empresa de táxi”…

Pesquisador Deseja Morte Dolorosa ao Bitcoin

O site Slashdot me alerta sobre Nicholas Weaver, pesquisador sênior do International Computer Science Institute dos EUA. Ele argumenta que as criptomoedas são inúteis e destrutivas, e deveriam “morrer em um incêndio”.

Bitcoins-enterrados
Imagem: Pexels

Ele também é professor do departamento de ciência da computação da UC Berkeley e conhecido crítico das criptomoedas. Em uma entrevista recente na revista Current Affairs, ele promulga o que chama de Lei de Ferro de Weaver [sobre a Blockchain] : “quando alguém diz que você pode resolver um problema X com blockchain, essa pessoa [mostra que] não entende o problema X e você pode, portanto, ignorá-la.”

Assim, para aqueles que defendem a criptomoeda como uma solução para “bancar os não-bancáveis”, Weaver aponta para o contra-exemplo do M-Pesa – um sistema de pagamento parecido com o brasileiro Pix – que a Vodafone iniciou no Quênia em 2007, – “na mesma época que o Bitcoin…

Ele tem engolido o Terceiro Mundo. É um fenômeno enorme. Porque basicamente anexa um saldo à sua conta de telefone. De forma que você só precisa enviar uma mensagem de texto para outra pessoa para transferir dinheiro… Então, mesmo com o dispositvo móvel mais básico, você tem acesso a dinheiro eletrônico fácil de usar. Isso tomou conta de vários países e se tornou um enorme sistema primário de pagamento, [enquanto que] a criptomoeda não funciona.

Weaver também afirma que quando as empresas dizem que aceitam pagamentos em Bitcoin, “elas estão mentindo” (usam um serviço que as paga em “dinheiro real” após realizar as conversões na criptomoeda preferida do cliente). Ele acredita que a criptomoeda só tem sido usada seriamente para pagamentos de resgates de sequestro de dados [ransomware] e tráfico de drogas – coisas que as moedas fiduciárias são legalmente obrigadas a bloquear.

A razão pela qual fiquei tão azedo no espaço das criptomoedas é o ransomware. Isso está causando danos de dezenas a centenas de bilhões de dólares à economia global. É um problema que só existe porque as pessoas podem pagar em Bitcoin.

Weaver também acredita que a criptomoeda permite que os capitalistas de risco “tranformem fraudes de valores mobiliários em modelo de negócios”, quando vendem tokens de suas startups para investidores de varejo. Esses seriam produtos financeiros descaradamente não licenciados.

Isso é uma flagrante fraude de títulos, mas não é cometida por pessoas. São apenas as empresas nas quais os investidores participam que cometem a fraude, e a SEC [Securities and Exchange Comission – Comissão de Valores Mobiliários, EUA] não tem monitorado a situação de forma proativa. Eles só aplicam correções às Ofertas Iniciais de Moedas [Initial Coin Offer – ICO] retroativamente, depois que as operações falham… e quando as coisas falham, os únicos a serem processadas são as empresas. Assim, as pessoas que cometem as fraudes conseguem se descolar dos títulos – ficando legalmente inimputáveis, de forma que você não poderá jogá-las na cadeia….

A SEC tem autoridade para impedi-los de forma proativa e não [apenas] reativa. Mas ela opta por não fazer nada. Basicamente, há um medo entre os reguladores – que eu penso que começou nos anos 1980 – de serem acusados de “sufocar a inovação”. [Neste caso, porém] não há inovação para sufocar. Portanto, regule.

Weaver também é cético em relação a outras supostas vantagens da criptomoeda. Ele argumenta que a criptomoeda incentiva o ‘poder verde’ “da mesma forma que tiroteios aleatórios incentivam a venda de coletes à prova de balas“. E mesmo como um veículo de investimento, Weaver vê as criptomoedas como “esquemas de pirâmide auto-criados”.

É preciso continuar a receber novos otários. Assim que o número de otários seca, a moeda entra em colapso. E porque não é soma zero, mas uma soma profundamente negativa, existem muitos mecanismos que podem causar o repentino desmoronamento do valor para zero. Vimos isso outro dia com a stablecoin Terra e o token lateral Luna.

Quando perguntado sobre o futuro da criptomoeda, Weaver prevê que ela “Irá implodir espetacularmente”.

A única questão é quando. Eu achei que já teria implodido um ano atrás. Mas basicamente, o que vimos com Terra e Luna – que entraram em colapso repentinamente devido a esses ciclos de feedbacks positivos descendentes – acontecerá em todo espaço de criptomoedas.

O Washington Nationals [time de basebal da MLB americana] outro dia começou a tuitar freneticamente a propósito de seu relacionamento comercial com a [comunidade de Bitcoin] Terra. Isso foi um negócio de US$ 38 milhões por cinco anos, pagos antecipadamente em dinheiro. Assim, pelos próximos cinco anos, os Washington Nationals estão obrigados a divulgar uma criptomoeda que já falhou espetacularmente.

Minha humilde opinião

Toda a premissa por trás do Bitcoin (e assemelhados) era que ele não poderia ser controlado, regulado ou manipulado por nenhum governo. Foi apresentado como uma espécie de moeda utópica libertária.

Só que isso agora começa a parecer uma miragem. O nome verdadeiro da “liberdade da tirania do governo” é simplesmente evasão fiscal. E não é segredo para ninguém que a anonimidade das criptomoedas é um mito – se o governo realmente quiser, ele tem total capacidade de saber exatamente quem transferiu quanto para quem na Blockchain. Assim, de início a promessa básica das criptomoedas não pode ser cumprida.

Minha razão pessoal para ter sempre acreditado que era insustentável é muito simples: é um sistema que adiciona grandes quantidades de registros a um livro em constante expansão. A capacidade de computação e memória disponíveis são quantidades finitas. A adoção das criptomoedas pelo público geral traria desafios enormes à capacidade de operação dos sistemas computacionais, algo não muito considerado quando o ridículo consumo de energia elétrica do sistema absorve toda a atenção sobre o assunto.

Ressalvo neste ponto que é preciso diferenciar as criptomoedas dos smart contracts. Eu ainda acredito muito que os contratos inteligentes têm um papel a representar na economia do futuro – se é que vamos ultrapassar este momento crítico na história. Por outro lado, mesmo minha avaliação superficial mais básica do funcionamento das criptomoedas sempre me sugeriu que a ideia é basicamente insustentável. Conheço-as desde o primeiro dia.

(*)Atenção jogadores: O Bitcoin ainda tem alguma chance maior que zero de substituir o dólar como moeda de reserva mundial. Se isso acontecer, o valor do bitcoin será todo-o-dinheiro-do-mundo / 21 milhões [o total de Bitcoin que pode existir, dos quais 90% já foram ‘extraídos’]. Uma grana maravilhosa. Portanto, façam suas apostas.