Relaxe, a Inteligência Artificial Não Vai Destruir o Mundo – Ainda

Um dos problemas mais significativos com a IA generativa é a confusão do aparente com o real, a aparência da verdade e a realidade de tudo isso.

IA emergindo
Imagem: pexels.com

A ideia que parece perpassar o ambiente corporativo hoje é que ser mais produtivo, seja o que for que isso implique, não precisa ser automaticamente produto da compreensão dos problemas ou da verdade. Os interesses que promovem a IA têm pouco ou nenhum desejo de encontrar ou distribuir a verdade. Canibalizar textos digitais sem considerar o que os torna verdadeiros é uma receita para a desintegração do conhecimento, não a produção ou reflexão dele.

Para cumprir sua promessa, a inteligência artificial precisa aprofundar a inteligência humana. Isso é certamente verdade… e isso certamente NÃO vai acontecer. Veja o que a internet fez com a mente humana. Reduziu a maioria das pessoas a viciados em cocaína eletrônica pixelizada, cujas habilidades de pensamento crítico, conhecimento de história, habilidades de linguagem e capacidade de atenção despencaram coletivamente.

Antes da internet, tínhamos milhares de jornais locais robustos relatando notícias locais, unindo comunidades e mentes locais como cola. Tudo isso desapareceu quase da noite para o dia, e agora ficamos com um punhado de conglomerados nacionais que compraram a maioria dessas instituições e as reduziram a esqueletos de seus antigos eus.

As ‘notícias’ que as pessoas consomem hoje vêm de algoritmos nas mídias sociais. Os jornais foram substituídos principalmente por junk news, que é perfeitamente semelhante à junk food e seus efeitos deletérios sobre os seres humanos.

A internet foi colonizada pelos piores instintos da humanidade e reduziu a mente humana a escombros do Facebook, Instagram, realidade alternativa, violência, conspiração e êxtase religioso… todos exemplos robustos de involução humana. A ação conjunta da ‘Inteligência Artificial’ e um grupo conhecido de atores humanos maus e gananciosos têm potencial para acelerar a involução humana e nos levar ao penhasco da destruição. Manter nossas habilidades de pensamento crítico humano é nossa única esperança… e pode não ser suficiente.

Derivativos

Os Grandes Modelos de Linguagem – GML [Large Language Models, LLM] podem ser entendidos como Títulos de Informação garantidos por hipotecas: um vasto número de fontes cortadas em pedaços e remontadas em composições convincentemente realistas que parecem, para todos os propósitos, funcionar por conta própria. Mas, como aprendemos na crise de 2008, os derivativos não são melhores do que aquilo de que são derivados, e essa verdade reduz muito a confiabilidade no que esse tipo de IA é capaz.

O problemas dos rótulos

Nada dessensibiliza mais uma pessoa quanto ao romantismo do Fim do Mundo provocado pela Skynet do que passar horas colocando quadradinhos ao redor de bois e vacas em imagens fotográficas. Na labuta da rotulação de dados – um penoso processo manual que está na base de todos os sistemas de inteligência artificial, você começa ver as entranhas do sistema: a inteligência artificial não funciona sem humanos na máquina. É notável que não seja dada maior atenção ao trabalho dos rotuladores, humanos reais, trabalhando na maioria das vezes fora dos limites da dignidade. Ao conhecer esse processo uma perspectiva mais clara do que está por baixo do capô aparece.

Vacas anotadas para visao de computador
Os ‘quadradinhos de rótulo’, colocados tediosamente por humanos, são essenciais na modalidade de AI chamada ‘visão de computador’. São os rótulos que ensinam ao computador, por meio de muitas repetições, o que é uma vaca. Imagem: Vox Leone

Em tempo: neste ponto chamo a atenção para a ferramenta que estou desenvolvendo para automatização das tarefas de rotulação de imagem [o nome da disciplina é ‘anotação’] para modelos de visão de computador, que disponibilizo em nosso github: Auto-Annotate-BR. Estou internacionalizando e adaptando a ferramenta. Creio que esse seja o primeiro trabalho do gênero em português. Dê uma olhada, e, se possível, me dê uma ajuda na divulgação e compartilhamento.

Não exatamente como previsto

Quanto à suposta emergência da Inteligencia Artificial Geral – IAG [Artificial General Inteligence – AGI] a partir das redes neurais da Microsoft, Meta e Google, o burburinho que está acontecendo com ChatGPT e similares não lembra em nada o que foi profetizado por Nick Bostrom, o grande papa da superinteligencia: a partir de uma centelha inicial a entidade inteligente cresceria exponencialmente como um Big Bang, tomando rapidamente todas as redes conectadas. Se o que vemos é a AGI ela é de um tipo ainda não descrito em qualquer cenário, certamente não o de Bostrom.

Replicar o cérebro humano

Como racionalista, me inclino a concordar com Max Tegmark que a consciência é independente do substrato físico, ou seja, ela não depende necessariamente do tecido mole do qual é feito nosso cérebro. Outras bases físicas [como o silício + metais] convenientemente trabalhadas podem também servir. Considero as redes neurais uma conquista intelectual impressionante. Me parece claro que AGI vai surgir das redes neurais, uma vez que ela assim o faz nas formas de vida que conhecemos.

Os sistemas de camadas em nossas redes neurais artificiais são uma analogia bastante apta do funcionamento real do cérebro. Pelas explorações realizadas até o momento via imageamento, sabemos que as conexões neurais humanas ocorrem em áreas especializadas do cérebro, não exatamente em camadas físicas organizadas, como em uma rede neural artificial, mas em topologias neurais arranjadas em 3d, nas mais diversas configurações.

Rede neural simplificada
Exemplo simplificado de rede neural. O peso da sinapse de saída para o neurônio de adição (+) deve ser calculado antes que o neurônio de multiplicação (*) possa calcular o peso de sua sinapse de saída. Mesmo redes neurais relativamente “simples” têm centenas de milhares de neurônios e sinapses; é bastante comum uma rede neural ter mais de um milhão de arestas. Em nosso cérebro os neurônios e sinapses são trilhões. Fonte:https://medium.com/tebs-lab/deep-neural-networks-as-computational-graphs-867fcaa56c9

Para se equiparar totalmente ao modelo humano, a AGI baseada em redes neurais vai necessitar receber, dinamicamente, informação de sensores de todos os tipos [para poder tomar amostras de pelos menos cinco grandes categorias de estímulos físicos, como nós]. Aqui também vemos um paralelo com a a inteligencia natural, pois nós também rotulamos a realidade, a partir das informações dos sentidos. Chamamos os rótulos que aprendemos de ‘conceitos’ [ML classes?]; expressamos nos rótulos nossa conceitualização do mundo, também obtida através de reforço.

As redes neurais parecem ser, de fato, o caminho para a AGI. Mas não estamos nem perto de conseguir essas coisas. Se queremos chegar ao nível das redes neurais que carregamos em nossas cabeças temos que aprender mais sobre o papel das outras estruturas cerebrais, como as células gliais, que sabidamente influem na ativação e moderação das sinapses do cérebro humano [que correspondem aos ‘pesos’ nas redes neurais artificiais].

Deixando a imaginação vagar sem amarras, é possível conjecturar que as redes neurais sejam estruturas fundamentais no universo, e que a consciência e a inteligencia emerjam de algumas configurações topológicas de processamento neural [incluindo as citadas células gliais e outras estruturas].

O inimigo é outro

As redes neurais, mesmo as relativamente primitivas redes atuais, baseadas em estatística e poder de computação, vão provocar uma drástica correção em vários setores da vida. Milhões perderão empregos e meios de subsistência. Contudo, cavaleiros do apocalipse mais poderosos [e com um timing melhor] são as redes sociais. Talvez a dissolução da sociedade civilizada por conta da ação insidiosa da mídia social já tenha começado e nos encontremos irremediavelmente além do horizonte de eventos.

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